EXPEDIÇÃO PICO SERRARIA ( Série 30 anos de Montanhismo)
A noite já é um defunto que está sendo velado. Thiaguinho e Morato seguem à frente, puxando um cortejo, enquanto cantam músicas tristes, tentando alegrar os semi- mortos que se rastejam atrás, homens que já morreram a muito tempo, mas que ainda não se deram conta disso. O avanço é lento e cada passo dado, é como se estivéssemos subindo o Everest no seu derradeiro instante antes do cume. Da minha parte, sou só um homem que vagueia sem rumo, meus pensamentos voam para dentro de mim mesmo, tentando convencer meu abdômen a resistir a dor que nesse instante tenta me jogar ao chão. Meus pés, com chagas sangrentas, insistem em me dizer que o fim já ficou para trás. O mato é transposto na força do ódio, a rampa final é encarada com desprezo, ninguém parece mesmo se importar mais com o cume, mas uma força interna nos impulsiona a continuar, porque quem caminhou 13 horas seguidas em um único dia, não há de sucumbir nos minutos finais. Na derradeira crista, as bromélias gigantes riem da nossa cara, mas nosso senso de humor já se foi e quando o Thiaguinho me oferece uma vaga no inferno, pedindo para que eu assuma a linha de frente, que vai nos levar definitivamente para o topo, eu simplesmente tenho é vontade de chorar, não pela emoção de poder ser o primeiro a atingir o cume dessa montanha lendária, mas simplesmente porque mal tenho forças para me sustentar sobre as minhas pernas e me sinto envergonhado de recusar tal proposta. Ainda mais porque ele grita palavras de ordem, como a me obrigar a fazer um serviço, que tecnicamente também é o meu dever, mas que ele poderia ter escolhido um dos outros meninos, afinal de contas, Alan Flórido, Paulo Potenza e Fernando Mesquita, são os outros que nos acompanham nessa jornada e se era para escolher um morto, que escolhesse esses zumbis, que são mais novos que eu. Já com ânsia de vomito, passo pela árvore que tecnicamente marca o cume e desço um barranco já na escuridão dessa noite de verão e escalo uma PEDRA ARREDONDADA, que me eleva acima de qualquer mato e arbustos, dando de cara com o abismo profundo e intransponível. Está acabado! O mundo da ilha mais fantástica do Brasil está aos nossos pés.
( Morato,Flórido,Divanei, Thiaguinho, Fernandinho e Potenza)
Anos atrás, numa jornada sensacional, partindo também da PRAIA DO POÇO, alcançamos o cume do PICO DO EIXO e foi justamente nessa expedição inédita, que surgiu a vontade de ascender ao cume do MORRO DA SERRARIA. É aquele desejo incontrolável de descobrir, de explorar, de saber o que teria e como seria o cume daquela montanha distante e selvagem que nos hipnotiza e faz nossos espíritos aventureiros transbordar de curiosidade.
( Pico da Serraria vista do Morro do Eixo)
Durante alguns anos, tentamos alinhar uma data e também vários projetos foram traçados e pensados, tentando buscar uma rota mais viável que pudesse nos levar até o cume da MONTANHA LENDÁRIA, mas todo feriado estabelecido por nós, acabava tendo que ser cancelado por causa das chuvas, já que o litoral norte Paulista tem um índice pluviométrico acima da média, se comparado a outros litorais do Brasil. Mesmo sem ter uma data específica, começamos novamente as discussões sobre de onde deveríamos partir e de qual equipe formaríamos para essa empreitada, sabendo que essa era uma das montanhas mais difíceis de ser alcançada em toda Serra do Mar Paulista. Da equipe que escalou o Pico do Eixo, somente um dos exploradores não estaria presente e para consolidar o sexteto que tentaria mais esse cume inédito, vieram se juntar a nós, o Fernando Mesquita e o Marcelo Morato, um nativo paranaense que acabou sendo incorporado pelo espírito das montanhas selvagens paulistas e já algum tempo, se juntou de vez ao nosso grupo.
Enfim, foi nos apresentados, nos jogado à mesa, um plano para que tentássemos alcançar o Serraria partindo da Praia do Poço. Num primeiro momento, achei um tanto estranho porque imaginava fazer o roteiro ao contrário, entrando na ilha pela balsa e subindo o RIO PAQUERA até sua nascente e de lá, a mais de 800 metros de altitude, varar mato montanha acima até o topo e depois tentar descer em direção à Praia da Serraria, de onde seria mais fácil conseguirmos um barco que nos levasse de volta ao continente. Mas depois me convenci de que era mesmo melhor já resolvermos esse entrevero com o barco no início, do que ficarmos refém desse transporte no final, já que o plano era, partindo da Praia do Poço, subiríamos o próprio Rio do Poço também até a cota 800 de altitude e de lá, vararíamos mato até o cume do Serraria e depois descendo, tomaríamos o rumo do Rio Paquera, mas dessa vez descendo até a cidade.
Partimos de madrugada, da capital Paulista em 2 carros, contendo 3 exploradores em cada um deles e quando chegamos à São Sebastião, já encontramos o nosso barco estacionado por volta das 8 da manhã e foi só embarcarmos nossas mochilas, para o “comandante” sair desembestado, fazendo a pequena embarcação saltar lindamente sobre as ondas, num mar até que calmo. Fomos vendo as pequenas praias desse lado norte/nordeste da ilha, ir passando diante dos nossos olhos, que eram obrigados a enxergar as desigualdades sociais em forma de mansões milionárias penduradas nas encostas dessa ilha da fantasia. Passamos pelo farol, Praia da Jabaquara, Praia da fome e logo avistamos o Pico do Eixo e sua forma inusitada parecendo um grande vulcão à beira mar, até que embicamos definitivamente para a Praia do Poço.
A chegada à PRAIA DO POÇO é uma festa, ainda mais por sermos agraciados com uma temperatura alta, com um dia ensolarado como a muito tempo não víamos, além do mais, a praia estava com uma transparência única, o que também se estendia para o maravilhoso rio do Poço, que desagua na praia em forma de cachoeira, um charme inimaginável. Foi desembarcar e se atirar nas águas do rio do Poço, começar a expedição como se naquele momento desfilássemos travestidos de abre alas, num carnaval que estava apenas começando e que prometia ser um dos melhores.
(Praia do Poço)
Cansados de tanta nadar, partimos! E a nossa partida é mais um Adeus a essa praia sensacional, que apesar de hospedar uma habitação escondida na vegetação, sempre vai parecer selvagem e deserta, um porto seguro para tantas aventuras que essa ilha nos proporciona. Mas no início, ainda não querendo molhar as botas, varamos um capão de mato pela direita do rio, que nos levou numa laje acima da cachoeirinha e sem mais o que fazer, já nos jogamos rio adentro e demos início oficialmente à AVENTURA que nos consumiria 4 dias duros de uma expedição que entrou para história das nossas vidas de montanhistas e exploradores selvagens.
Já passa das 10 da manhã, quando a gente resolve acelerar o passo definitivamente. O Rio do Poço ainda é um rio largo, com águas claras correndo aberto ao sol, pequenos poços e corredeiras aplausíveis, vai fazendo a alegria do grupo até que mais acima, tropeçamos num afluente que intercepta o rio pela direita. Pegamos para a esquerda e vamos pulando pedras, subindo lentamente, nos divertindo como devia ser, porque estamos cheios de energia, cheios de expectativas e com o moral elevado.
Pouco mais de 40 minutos desde que partimos da praia, somos apresentados a uma sequência de lajes, onde a corredeira se espalha pela lateral e a paisagem de abre definitivamente ao sol. Mas assim que o lajeado se vai , entramos numa sequência de mata, onde o rio se confina um pouco e somos obrigados a varar mato, ainda que não passe de bosques espaçados, até que lá pelas 11:30 interceptamos uma parede um pouco íngreme de onde as águas do Rio do Poço se jogam, formando uma grande piscina natural bem na sua base. Enquanto parte do grupo se entrega ao deleite de mergulhar na grande piscina, subo a parede, vencendo a força da gravidade apenas com a aderência das minhas botas e vou brincar na minha própria piscina, que acaba por formar uma borda à beira do grande escorregador natural, hora de parar e se entregar aos prazeres aquáticos.
Quando todos se juntaram na piscina superior, engolimos rapidamente alguns petiscos e partimos. A pegada era a mesma, um mato fácil de varar, hora à esquerda, hora à direita, mas o rio voltou novamente a ficar um pouco estreito , até um pouco obstruído pela vegetação e pelas pedras, mas não durou nem meia hora e já demos de cara com o maior poço do rio, era quase um lago perdido a pouco mais de 100 metros de altimetria, uma joia escondida dos olhos dos turistas, por certo só conhecido por um outro frequentador ou morador da habitação da praia do poço, que nem vimos a cara nesse feriado.
Aquilo era um parque de diversões, a pequena queda transformava a entrada da água no poço, numa hidromassagem natural e como fazia um calor quase que insuportável, fomos obrigados a nos perder por quase uma hora naquela maravilha, porque o tempo deixou de existir para a gente e o nosso mundo se resumiu somente naquele pequeno lago cercado de florestas exuberantes, do outro lado de uma ilha isolada, praticamente sem acesso por terra.
Acima do LAGO DO POÇO, uma laje de pedra nos convida a continuar subindo, mas como a inclinação da cachoeirinha não nos deixava subir, pegamos nossas mochilas e demos a volta pela esquerda, só não contávamos que seríamos atacados por ferozes formigas que foram comendo as nossas pernas e nossos pés, enquanto tentávamos escapar em meios aos matacões cheio de fendas. Os “ ai, ai, ai e os ai, ui, ui” iam ecoando pela selva e cada um tentava se salvar no seu desespero pessoal, tentando descer de volta ao rio. Eu, que peso pouco mais de meio quilo, já me enfiei numa fenda estreita e quando tentei me equilibrar com os pés na parede lateral, despenquei ao pisar numa espécie de musgo e já fui jogado na água, o que já ajudou a ir expulsando logo as malditas formigas, mas quando vi a piscina natural dourada, joguei minha mochila ao chão e corri feito um maluco, me atirei para dentro dela e lá fiquei, largado ao meu martírio pessoal, me entregando a arte de coçar até que a agonia chegasse ao fim.
O dia já passa da sua metade, ficamos mais uns 15 minutos na PISCINA DOURADA e seguimos viagem. O Rio do Poço foi se alternando entre ficar visível e desaparecer embaixo de grandes matacões. Puxei a frente com toda energia que pudesse produzir, escalando tudo que era pedra, pulando de um lado para o outro. Verdade mesmo, que eu estava achando o grupo um pouco lento naquele dia e já me preocupava o fato de não estarmos ganhando altitude e pensava em acampar pelo menos acima dos 500 metros. Mas como nem tudo é tão ruim que não possa piorar, o rio simplesmente começou a sumir por mais tempo e tínhamos que varar mato constantemente, um mato entrelaçado entre grand3s pedras e fendas profundas, que iam tornando a nossa vida um inferno.
Tentei acelerar mais ainda, aumentar o rimo, mas a galera não estava mesmo no pique de ganhar terreno e constantemente paravam, travavam a caminhada e eu ficava angustiado, sentado em grandes pedras no leito do rio, esperando que eles se aproximassem. Teve uma hora que o rio simplesmente sumiu de vez, nem barulho tinha mais e tivemos que nos afastarmos para tentar encontrar uma passagem pela direita e essa parte foi minando a energia da galera, principalmente porque batíamos em cemitérios de rochas e não conseguindo avançar, tínhamos que voltar ao ponto de partida e recomeçar. O dia foi escorrendo por entre os dedos, as paradas foram ficando maior para que alguns pudessem se recuperar, eu fui me angustiando cada vez mais, até que pouco depois das 4 da tarde, o Potenza da um grito, tentando chamar minha atenção porque eu estava muito à frente, tentando adiantar o caminho e já me posicionava encima de um matacão gigante:
- Diva, o Flórido quebrou de vez, não vai mais, as câimbras o derrotaram, não consegue dar mais um passo, fim de linha para ele hoje.
Bom , pelo menos estávamos novamente com o rio correndo na superfície e tínhamos água para passar a noite, inclusive, estávamos numa espécie de ilha, em um lugar até confortável para acampar e diante da situação, não havia o que discutir, hora de jogarmos nossas mochilas ao chão e darmos por encerrado esse dia de caminhada .
Cada qual foi cuidar de arrumar duas árvores para montar suas redes, alguns mais folgados, já não tem escrúpulos e pegam o melhor que há, sem se preocupar como que os outros vão se arrumar, já outros tentam socializar, tentam achar solução que comporte a todos com um mínimo de conforto e eu, bom, eu já procuro esperar e pego o que sobrar mesmo, geralmente o que há de pior, mas desta vez nem me importo, estou fisicamente muito bem, com energia suficiente para raciocinar e transformar o pior no meu lar por uma noite.
Combino de dividir a comida com o Flórido e aproveito que ainda há muita luz natural e vou dessalgar a carne seca, picar em pedaços minúsculos, enquanto cozinho arroz. No fim, parece mesmo que foi uma boa ideia acampar cedo, poder fazer as coisas com calma, mas por termos conseguido chegar somente na ALTIMETRIA DE 320 METROS, ainda penso que no outro dia, se não acelerarmos o passo, poderemos não bater no cume e isso poderá pôr a perder toda a logística da expedição. Quando o arroz fica pronto, fervo a carne seca 2 vezes, boto alho, cebola, e outros temperos prontos e deixo cozinhar e fritar ao mesmo tempo. Um suco de jabuticaba, um queijo ralado, azeitonas e uma pimentinha, completam nossa janta e depois, cada qual foi morrer na sua rede, ainda que, alguns já haviam morrido faz tempo.
Depois de quase 12 horas de sono, nos levantamos por volta das 6 da manhã. O dia promete ser novamente muito quente e a expectativa é que possamos bater cume, mas teremos que varar mato e conseguir subir quase mil metros de desnível e a gente sabe que tudo isso de altimetria já é complicado em montanhas com trilha, imagina ter de alcançar um cume selvagem no coração da floresta, abrindo caminho no peito. Precisamos dar o primeiro passo do dia e o primeiro objetivo é continuar subindo o Rio do Poço até a sua nascente ou ao menos quando teremos que tomar o rumo da nascente principal, que fica na altimetria entre 800 e 900 metros.
Tomamos o rumo da esquerda do rio e tivemos logo de nos afastarmos porque ele voltou a correr por baixo de grandes blocos de pedras. É um vara mato penoso que temos que enfrentar logo pela manhã, uma infinidade de fendas que se abrem em meio a pedras gigantes, que ameaçam engolir o primeiro desavisado que der bobeira e não estiver focado na caminhada e mesmo assim, não é raro quando um ou outro enfia uma perda num buraco.
Preciso dizer que a narrativa dessa parte da travessia, vai quase se repetir num marasmo de mesma dificuldade, é uma tomação no rabo que não tem fim. As altitudes vão sendo vencidas aos poucos, lentamente, ganhando nem 100 metros de desnível por hora e isso vai nos enervando cada vez mais, porque sabemos que se esse ritmo não aumentar, é bem provável que não conseguiremos bater cume hoje e eu ainda vou mais além, já tenho dúvidas se faremos cume do Serraria nessa expedição ou teremos que passar reto e tomar o rumo da cidade de Ilhabela, ao invés de desviarmos nosso caminho lá pela cota 800, pegando para a esquerda em direção ao cume da montanha que buscamos.
O Rio vai se alternar entre sumir e aparecer. Hora corre aberto, hora já não mais existe e pouco ouvimos seu barulho correndo no subterrâneo. O dia vai passando e moendo as nossas energias e as altitudes continuam sendo vencidas a menos de 100 metros por hora. A gente não avança como poderíamos e como deveríamos e num ato já de desespero, tentamos ganhar altitude nos afastando pela esquerda do rio, que praticamente já nem sabemos onde está, só temos uma vaga noção, porque acompanhamos uma linha pré-traçado no nosso gps.
A tarde chega numa velocidade nunca antes vistas, nossa vida se transformou num inferno de trepar pedras, arrastar mato no peito e tentar achar passagens entre rochas fendadas, até que, quando a gente chega lá pela cota 750, paramos para discutir se valeria a pena já pegar água num buraco onde havia o precioso líquido. Eu já fui logo contra, achei cedo demais para ficar entulhando minha mochila com mais peso e acabar com a pouca reserva de energia que ainda nos restava, porque eu ainda imaginava que passaríamos por inúmeras fontes de água antes de termos que pegar o rumo definitivo em direção ao Serraria. Mas parte da galera que carrega água até estando dentro dos rios, acharam o contrário e eu mesmo contrariado, apanhei um litro e meio de água de procedência bem duvidosa e tomei a frente, tentando ganhar tempo, muito porque eu já não via a hora de apontar meu nariz para a montanha, não aguentava mais me manter paralelo a um rio que tecnicamente nem mais existia.
Optamos por fazer uma diagonal e tentar interceptar a linha que iria para a montanha um pouco mais acima, ainda assim, tentando fugir das paredes íngremes do nosso lado esquerdo. Na cota 820 avistamos finalmente uma cachoeira e sacamos logo que se tratava do Rio do Poço, na sua nascente principal, que aliás, nasce exatamente nos pés do Serraria uns 400 metros de desnível acima de onde estávamos, quase no selado entra ele e o Ponta Alta, outra montanha selvagem. Foi uma bela surpresa tropeçarmos com aquela CAHOEIRA DA NASCENTE, a galera toda corre para matar a sede e tomar um bom banho antes de abandonar o Rio do Poço em definitivo. E era mesmo preciso, jogar uma água gelada no corpo, descansar um pouco as pernas, porque o que estava por vir era algo que talvez jamais tivéssemos experimentados em toda a nossa vida de montanhistas.
A direção que até então, era no rumo sudoeste, virava completamente para o leste, não tinha mais o que fazer, agora era para valer. Uma vez tomado esse rumo, não tinha mais volta, cada qual haveria de provar porque fora escolhido quase a dedo para fazer parte daquela expedição lendária. Ali a natureza separaria os homens dos meninos, a idade não contava mais, ninguém queria saber se você já viveu mais de meio século ou se praticamente acabara de sair da adolescência, pouco importava se você falava “meu” ou “piá “, se era gordo ou pau de virar tripa, ninguém estava nem aí, cada qual que assumisse sua responsabilidade perante o grupo, havia chegado a hora de cair mais uma montanha selvagem, a história estava prestes a ser feita diante dos nossos olhos.
Agora o que nos restava era encarar uma parede íngreme, ir procurando uma rota menos penosa entre a florestas, tentando escapar dos bambuzinhos que nos atravancava o caminho, rodeando matacões gigantes. A inclinação é grande, mas mantemos a esperança de ganharmos 150 metros de desnível até alcançarmos a cota 950, onde tecnicamente teremos um refresco cruzando um terreno mais plano, só que leva uma eternidade e quando esse objetivo é alcançado, já estamos num bagaço de dar dó. O avanço é lento, demorado e modorrento e mesmo essa parte mais plana no terreno, onde vamos ganhar mais 100 metros e chegar aos 1050 m, nos pareceu uma eternidade. Abrir caminho vai ficando cada vez mais difícil e a surpresa fica por conta de várias nascentes que vamos achando pelo caminho e quando tropeçamos na cota 1150, é hora de embicar para cima, a nossa montanha acaba de entrar no nosso radar.
Já é final de tarde quando paramos em mais uma fonte de água para aplacar a nossa sede, num dia de temperatura altíssima. Tecnicamente não faltam nem 150 metros de desnível para batermos no cume, mas diante das dificuldades que vínhamos enfrentando, a previsão de avanço é sombria. Os meus pés já estão me matando, mas é possível ver na cara de cada um daqueles exploradores, que eles sofrem como eu. Tiro as minhas botas nessa pausa providencial, só para constatar que há feridas por todos os lados dos meus pés, chagas abertas entre os dedos, inclusive. Outros sofrem com ferimentos por todo o corpo, Thiaguinho exibe duas feridas enormes sobre os ombros e o Fernandinho feridas nas costas, todas provenientes do atrito com as mochilas.
Já estamos caminhando a pelo menos 11 horas e agora parecemos zumbis que vagueiam meio sem rumo, apesar de sabermos para onde vamos. Por entre as árvores, já enxergamos ao longe o nosso destino e vamos tentando ganhar altitude o mais depressa possível.
Passamos por mais uma nascente e vamos tentando ziguezaguear, evitando ter que subir paredes quase na vertical, mas chega uma hora que eu e o Morato começamos a discutir se não seria melhor já encararmos logo essa inclinação toda e nos elevarmos o mais alto possível, ao invés de ficarmos dando voltas.
O tempo vai passando, não ganhamos altitude como deveríamos, a vegetação vai só piorando e a nossa condição física é de um refugiado de guerra que acabou de escapar de um bombardeio. A luz do dia quase que já se foi e numa janela da encosta da montanha, o próprio sol acaba de morrer. Parece ser o estirão final. Não há mais alegria em nossas almas de montanhistas, por mais que eu devesse exaltar a nossa euforia em chegar ao cume, ela é superada pelo sofrimento físico e mental.
Thiaguinho e Morato assumem a frente e tentam a qualquer custo elevar o moral do grupo. Vão gritando palavras de ordens: “ Vamos, Vamos galera!” Mas da minha parte, aquilo mais me irrita do que me anima.
Eu, particularmente, estou em transe e diria que eu já morri a pelo menos uma hora atrás. Parece que vou apagar a qualquer momento, meus pés simplesmente se recusam a andar e creio que as feridas que já eram muitas, agora tomaram proporções inimagináveis. Não há felicidade no sofrimento, só existe resiliência, como a de um condenado no corredor da morte. Atingimos a crista final, um emaranhado de bromélias gigantes e pequenos bambuzinhos, que quase nos encobrem. Os 2 meninos que vão à frente parecem que sucumbiram ao esforço físico e antes de caírem mortos, me convocam para abrir o último trecho. Eu não quero ir, mesmo podendo ter a honra de ser o primeiro a atingir o cume. Eu me recuso a ir. Já há em mim um sentimento de desistência, por mim eu já caia por ali mesmo e esperava o dia amanhecer. Não sei mais o que estou fazendo em pé naquele lugar, mal vejo a sequência do caminho, apesar de estarmos ainda numa penumbra.
Tomo a frente, na força do ódio, que é o único sentimento que ainda me resta. A minha cabeça é o único órgão do meu corpo que ainda insiste em me manter em pé, todos os outros já desistiram. Cerro os dentes, dou comando para que minhas pernas amassem aquele mato maldito. Acima das nossas cabeças, uma arvore que se sobressai, parece ser o cume e é para ela que me dirijo, metro a metro. Claro, mesmo estando quase escuro, as vistas ao redor são soberbas, mas nesse momento não há mais tempo para apreciar coisa alguma, o único sentimento é o de atingir logo o ponto mais alto e dar por encerrado aquela tortura.
Um arbusto seco, com galhos retorcidos, tenta nos barrar o caminho. Travo uma batalha ferrenha, mas ele parece não querer se dobrar. Eu não aguento mais e atrás de mim, parece que ouço as vozes dos meus companheiros implorando para que eu desista, que deixe para o outro dia.
Estou mais arranhado que gato em dia de briga. Thiaguinho é o único que me segue de perto, e os outros que se mantém um pouco mais atrás, fazem couro para que a gente encerre, principalmente quando chegamos exatamente embaixo da árvore que oficialmente marca o ponto mais alto. Mas eu estou alucinado, vendo coisas e me pareceu que alguns metros à frente, uma rocha praticamente sem vegetação poderia marcar o ponto de vistas abertas. A galera protesta veementemente: “ ACABOU DIVANEI, VAMOS VOLTAR”. Descemos ao selado, entre onde estamos e o rochoso, com muito medo de ser um buraco perigoso, mas encontrei terra firme e imediatamente me agarrei na vegetação rala que cobria a pedra e me elevei ao topo, agora sim não existia mais mundo a nossa frente, apenas um enorme vazio que nos fez olhar para o abismo sem fundo.
Oito horas da noite, caminhamos por 13 horas seguidas, numa das mais terríveis jornadas das nossas vidas e agora, ali diante dos nossos olhos, a imensidão dessa parte da ilha se descortina diante dos nossos olhos. O único que se anima a subir no rochoso e me acompanhar, é o Thiaguinho, os outros já tomaram o caminho de volta, tentando descer uns 5 ou 10 minutos até uma clareira que havíamos passado. De cima do ROCHOSO, ficamos a admirar e nos assombrar com o sub cume do Serraria, que feito um gigante, toma conta das vistas a leste de onde estamos. As luzes de Caraguatatuba dão um charme especial àquela noite quente e ainda é possível ver na direção nordeste, o Pico do Eixo, ainda que somente o seu contorno. Mas o melhor mesmo a fazer é retornar e reencontrar o resto do grupo, melhor deixar para apreciar tudo com calma amanhã, com a luz do dia, agora é hora de ir curar as feridas.
, Abandonamos a sua própria sorte e retornamos pelo mesmo caminho, que agora está aberto e desimpedido. A adrenalina se foi, aquela energia extra que o corpo vai liberando, tirando sei lá de onde, agora também não existe mais. E vamos nos arrastando de volta para clareira uns 10 minutos abaixo do cume, o único lugar descente onde poderíamos acampar. Mas os meninos que retornaram uns minutos antes, não conseguem mais localizá-la com precisão e ficam batendo cabeça para lá e para cá, numa procura inútil, que faz o Alan Flórido já dar um esporro no Paulo Potenza, dizendo que são inimigos do descanso.
Eu estou enjoado, com dores abdominais terríveis, praticamente não consigo dar mais nem um passo. Me escoro num pé de pau qualquer e quando tento andar, cambaleio de um lado para o outro. Olho para as estrelas, não vejo nenhuma lua no céu, numa noite escura acima da conta. Tudo ao meu redor parece rodar, meus pés doem, como nunca doeram em nenhum outro lugar. Os malditos ainda continuam tentando achar o lugar ideal e eu amaldiçoou cada qual daqueles desgraçados, que ficam feito baratas tontas, indo de um lado para o outro. O Flórido ameaça ficar em qualquer lugar e eu me arrependo de não estar armado para derrubar um daqueles caras. Sem encontrar mais o que procuravam, se deram conta de que a clareira onde estávamos, poderia muito bem servir para acamparmos e quando o primeiro jogou a mochila ao chão, eu já estava deitado nele, pouco respirava, sem forças nem para responder qualquer pergunta e esse foi o dia que eu cheguei mais perto da morte por exaustão, aliás, se a morte tivesse vindo me buscar, teria que me carregar e certamente, poderia carregar os outros cinco exploradores, porque não teríamos apresentado qualquer resistência.
E eu fiquei lá, esticado no chão por quase uma hora tentando me recuperar e depois, com muita dificuldade, me ergui e fui montar minha rede como deu, escolhendo 2 árvores finas que pareciam serem ainda mais fracas que eu. A galera foi cuidar da janta e como eu tinha feito o rango na noite anterior para mim e para o Flórido, dessa vez esse se encarregou de fazer um macarrão instantâneo acrescido com uns pedaços de linguiça, do qual eu apenas dei uma beliscada antes de partir definitivamente para o derradeiro apagão.
Os caras tentaram combinar de acordarem às 5 da manhã, mas só o Potenza e o Thiaguinho aderiram a proposta, o resto já informou que dormiriam até as 8 da manhã. E realmente devem ter ido ver o sol nascer, mas não posso precisar o horário. Voltaram com umas fotos bonitas, mas eu mesmo não me arrependi porque foi fundamental descansar bem para acordar renovado.
Como o prometido, o resto do grupo levantou lá pelas 8 horas, tomou café e subiram até o cume para agora, com calma, poder apreciar as deslumbrantes vistas que só os cumes das montanhas podem nos proporcionar. Como eu havia dito, a crista é bem estreita, forrada por bromélias gigantes e vegetação de terrenos de altitude, que consiste em pequenos arbustos. Do lado direito, o que nos chama mais a atenção é a BAIA DE CASTELHANO e sua incrível praia em forma de coração, talvez uma visão que não tenha sido contemplado por pouco mais de meia dúzia em toda a sua história, pelo menos com os pés firmes no chão. Ainda do lado direito da crista, é possível avistar toda extensão da outra crista que vai na direção do MORRO DAS TOCAS, passando pelo PONTA ALTA e ainda para quem olha em direção a própria cidade de ILHABELA, é possível se maravilhar com o CANAL DE SÃO SEBASTIÃO e o PICO DO BAEPI e não poderia deixar de citar o cume da ilha, o gigante PICO DE SÃO SEBASTIÃO( 1.378 m)
Toda essa vista sensacional e desimpedida, poderia ser apreciada apenas se elevando de um grande arbusto que tombou e nos agraciou com um mirante natural, mas depois de satisfeitos de olhar a ilha por esse ângulo, corremos por toda a crista em direção ao seu cume, que como eu disse, era tomado por um arbusto mais alto, cercado de mato por todos os lados, então descemos ao selado mais abaixo para imediatamente ganharmos a PEDRA exposta que elegemos como o nosso cume, apesar de estar uns 3 metros abaixo do cume verdadeiro.
Diante dos nossos olhos, bem à nossa frente, o PICO DO EIXO desafia a nossa capacidade de nos encantarmos com o mundo. Logo nos remetemos a Expedição passada, quando subimos essa outra montanha lendária e onde surgiu o pacto que nos fez também subirmos o PICO DA SERRARIA. Estávamos contentes pela nossa capacidade e competência em explorar todos esses picos selvagens, que ninguém nunca nos disse como chegar. Olhando, como quem olha na direção da Baia de Castelhano, um outro pico isolado, que na carta nos diz ser um subcume num ombro do Serraria, nos chama a atenção pela sua grandiosidade. E como são lindas todas essas montanhas, emolduradas ao fundo pelo mar que banha a costa Paulista, desde Caraguatatuba, Ubatuba e Paraty, indo até onde nossas vistas alcançam e deduzimos podermos enxergar até a baia da Ilha Grande.
Ali, onde estávamos aglomerados, num pequeno espaço exposto, batemos uma última foto juntos e eu aproveitei para instalar o LIVRO DE CUME, para marcar a nossa passagem por mais essa montanha selvagem da Serra do Mar Paulista e cada qual deixou um recado para os próximos aventureiros que se atreverem a subir nessa montanha lendária .
É impossível afirmar que, num passado muito distante, alguém tenha pisado nessa montanha, mesmo que não tenhamos encontrado nem vestígio que pudesse corroborar com uma possível afirmação, mas com esse livro de cume, quem aqui chegar nos próximos anos, saberá desse registro, mas obviamente, já terão tomado conhecimento através desse relato, um documento que deixamos de presente para as futuras gerações.
A volta ao acampamento foi extremamente rápida, já que agora havia um caminho aberto. Lentamente, desmontamos tudo e o tempo ocioso, foi gasto a fim de curar as feridas que apresentávamos por todo o corpo. Thiaguinho apresentava duas grandes ulceras nos ombros, principalmente. Fernandinho feridas horrendas nas costas e eu praticamente não tinha mais pés para caminhar. As chagas tomaram conta de tudo, desde a sola até por baixo de todos os dedos, passando pelo peito dos pés, tudo sangrava e doía insuportavelmente. Eu me entupi de analgésicos e usei pomadas anti-inflamatórias, além de fazer curativos e enrolar umas faixas para aguentar calçar as botas, como eu disse, parecíamos sobreviventes de uma guerra.
Lá pelas 11 da manhã, abandonamos o cume do Serraria com o objetivo de alcançar a calha do Rio Paquera, o outro rio que tomaria o rumo da praia, descendo para a cidade de Ilhabela, lá pela altitude de 800 metros. Imaginamos que, como seria sempre descendo, pudéssemos avançar bem. Mas não foi isso que aconteceu no começo, muito porque, os meninos queriam voltar pelo mesmo caminho, aproveitando o rastro aberto que teríamos deixado, mas vez ou outra perdíamos esse caminho e comecei a notar que essa estratégia, apesar de boa, não ia nos levar a lugar nenhum com a velocidade que necessitávamos. Então tomei a frente e saí desembestado montanha abaixo, rasgando o mato no peito, deixando o corpo cair, a gravidade agir e quando alguma parede íngreme aparecia, dávamos um jeito de desescalar e perder altitude até que novamente estávamos de volta a água no sopé do Serraria.
O nosso rumo agora segue sempre para OESTE e depois que perdemos quase 300 metros de altitude, vamos andar por terrenos mais planos encharcados, até que lá pela cota 950, tropeçamos num rio largo e volumoso, que deduzimos ser uma das nascentes, que mais abaixo irá se juntar a outra e dará vida ao Rio Paquera.
Apesar de pouco desnível, o caminhar é lento, mesmo porque estamos enfiados no pequeno vale do rio que encontramos, onde vamos desescalando pequenas cachoeirinhas e cânions, até que lá pelas 16 horas, avistamos o outro rio que, agora em definitivo, deu vida ao GRANDE RIO PAQUERA, estávamos a 800 metros de altitude e agora tínhamos um só objetivo, que era descer o rio até o litoral, definitivamente havíamos encontrado nossa “estrada aquática “ para casa.
Apesar de estarmos tão alto e vale lembrar que estamos no coração de uma ilha, o rio Paquera tem um volume muito bom e vai perdendo altitude lentamente, as vezes formando algumas ilhas, onde é muito fácil de caminhar e só ficava mesmo fundo, quando fazia curvas e foi depois de uma curva, que fomos surpreendidos por uma ilhota perfeita, com uma área plana e com várias árvores favoráveis para acampar, além do cenário ser composto por uma 2 cachoeirinhas que ao cair se transformavam numa banheira com massagem natural, aí não teve como, foi jogar as mochilas ao chão e dar por encerrado esse terceiro dia de caminhada, afinal de contas, o grupo ainda estava estraçalhado pelo dia anterior e ninguém ousou se opor ao acampamento antes das 17 horas, a 700 metros de altitude.
Cada qual se instalou como pode, se adaptando a natureza que nos cercava. E a engenharia mateira é algo que sempre vai me encantar, o jeito que cada um resolve seus problemas, instalando suas redes, num processo que demando estudos em conjunto para que tudo sai como o planejado, sem que uma cobertura acabe por jogar água na rede de outros, cada pequeno arbusto sendo adaptado para aguentar o peso do explorador. Eu fiz logo todo o processo completo, deixei tudo pronto, mas os meninos bobearam e como estava calor, não perceberam que a chuva havia chegado e quando se deram conta, foi a maior correria para colocar as coberturas nas redes e tiveram que ouvir da minha boca, logo da minha, a palavra: “AMADORES” ( rsrsrsrsrsrsrrs), quando presenciei o desespero dos cara para não deixar molhar as redes. Mas foi apenas uma chuvica, algo inexpressivo, que não durou cinco minutos, aliás, a única chuva que caiu durante os quatro dias de expedição.
( local ACAMPAMENTO Rio Paquera)
Acampamento montado, cada um foi cuidar do seu jantar e tomar um bom banho nas piscinas do acampamento. Estávamos felizes, mesmo com os pés estropiados, sabíamos que o pior já tinha passado e a confraternização ao redor dos fogareiros, só não foi melhor por que o Flórido resolveu aprontar: Eu estava sentado tranquilamente, pilotando o fogareiro que cozinha para nós dois. A fome era de lascar, já que durante a caminha, eu mal consigo me alimentar, então a refeição de verdade é sempre essa da janta. Resolvi fazer uma refeição bem completa, cozinhando um arroz bem temperado, inclusive colocando umas ervas finas. O Flórido saiu de perto e foi até o rio que estava atrás de mim e quando voltou, ao invés de dar a volta no fogareiro, resolveu fazer um salto sem vara, calculou mal, não conseguiu pular 20 cm, tropeçou no fogareiro com o arroz fervendo, que caiu bem encima do meu pé e do dele. Do jeito que eu estava sentado, dei um rodopio e fui para dentro do rio, com o pé queimando. O Flórido fez o mesmo, correu desesperado para o rio. A minha sorte foi que, por causa dos borrachudos carnívoros da Ilhabela, eu resolvi colocar uma meia nos pés, porque não havia trazido chinelos e por ela estar molhada, o calor da água fervendo foi dissipado e praticamente sai ileso, já o Flórido se lascou e acabou ganhando uma bolha.
Dormimos quase 12 horas e lá pelas 8 da manhã, já havíamos desmontado tudo e partido. Ao analisar o mapa topográfico, descobrimos que havia uma trilha que finalizava na altimetria de quase 500 metros e poderia nos auxiliar na descida. E realmente a encontramos, um rabo de trilha perdida no meio da selva, que nos levou mais abaixo até que a abandonamos por se perder do nada, então optamos por voltar a andar por dentro do rio até interceptarmos um lindo TOBOGÃ, onde paramos para um banho refrescante, numa manhã extremante quente de fevereiro.
Continuamos descendo e aproveitando cada poço do rio, despencando por lajes expostas, até que lá pela cota 400, encontramos uma trilha bem consolidada, aberta, quase uma avenida. Resolvemos seguir por ela, porque notamos que seria a trilha que nos levaria para a maior atração do Rio Paquera. Ela seguiu se afastando do rio, quase que indo na direção do Pico do Baepi, mas uns 20 minutos à frente, interceptemos outra trilha maior ainda, essa sim parecia vir do Baepi, então pegamos para a esquerda e agora descemos sem dó, despencando até retornarmos novamente ao rio, bem em frente a GRANDE CACHOEIRA DO BANANAL, perto da cota 350 de altitude, um espetáculo de queda d’água em meio a um lajeado exposto ao sol, onde em sua base, uma piscina natural nos convida para largarmos tudo e nos entregarmos ao ócio, é a cereja do bolo .
O sol está em festa nesse meio de tarde, numa terça-feira de carnaval. A CACHOEIRA DO BANANAL, é daquelas quedas d’água que quem está acostumado a grandes cachoeiras, não vai dar nada por ela, apesar de ser uma cachoeira bem bonitinha. Mas não é aquelas cachus altas, aquelas quedas tradicionais, queda livre que despenca para dentro de algum poço bom para um mergulho, mas essa impressão que tivemos num primeiro momento, cai por terra em poucos minutos. O Rio Paquera se joga em degraus, formando primeiramente uma cachoeirinha de pouco mais de 3 metros, como uma força que quase não é possível se manter em pé, embaixo dela. Depois o rio escorre pela pedra, onde do seu lado esquerdo a inclinação toma forma de um grande escorregador até que a água desaba numa pequena piscina de pouco mais de um metro de profundidade, para depois ganhar o grande lajedo e ir se perder nas profundezas de um cânion.
Nos espalhamos pelo lajeado, uns para colocar as coisas para secar, outros para almoçar. Alguns, depois se entrar na cachoeira, foram se esquentar ao sol, mas outros tomaram o caminho das sombras, mas logo todos resolveram se juntar para um só propósito: Despencar de cima da cachoeira, escorregando no tobogã natural. E cada qual daqueles exploradores, agora travestido de meninos, fez questão de dar seu show particular, deixando que a força da gravidade o conduzisse por um caminho sem volta, até que seus corpos explodissem lá embaixo, na pequena piscina natural, que os faziam parecer como um meteoro a entrar na atmosfera da Terra. Foi um momento excepcionalmente mágico, único, quando praticamente todo mundo resolveu se jogar de uma só vez e quando todos aterrissaram na água, um abraço coletivo marcou a derradeira comemoração, um fim glorioso para uma EXPEDIÇÃO que foi um verdadeiro sucesso, mais uma travessia ficava para trás, mais uma MONTANHA SELVAGEM que simplesmente botamos no bolso, dentre tantas outras nessas incríveis SERRAS PAULISTAS.
Antes das duas da tarde, enfiamos tudo nas nossas mochilas e partimos. Pegamos novamente a trilha que chegamos, passamos pela bifurcação e logo à frente, antes de cruzarmos por uma espécie de selado, um pequeno córrego, tomamos uma trilha mais discreta para a esquerda, porque muito provavelmente, se tivéssemos seguido em frente, iríamos interceptar a trilha que deverá subir ao Pico do Baepi. A trilha que pegamos vai descer, passar por uma grande rocha e começar a voltar em direção a margem esquerda do Rio Paquera, onde demos uma pequena saída dela para que parte da galera voltasse a entrar na água, já que o sol resolver incendiar de vez. Voltando à trilha, caminhamos agora em nível por cerca de uma meia hora até interceptarmos de vez, um final de estrada, onde uma placa nos avisa que é proibido entrar, mas não diz nada sobre ser proibido sair, então, em silêncio adentramos no quintal de uma grande casa, cruzamos até sairmos novamente em uma rua, que parecia ser de um condomínio de chácaras, até sairmos em definitivo numa rua pública, onde ganhamos as ruas da cidade de Ilhabela, bem perto do Canal de São Sebastião, agora sim OFICILAMENTE a Travessia da ILHABELA estava concluída, entramos de um lado, saímos do outro varando mato, praticamente sem trilha.
Estando na cidade, agora nosso caminho natural era nos dirigirmos para a Balsa de Ilhabela e atravessar a pé para São Sebastião, onde havíamos deixado nosso veículos, mas antes de fazer isso, estacionamos mesmo foi num restaurante com comida boa e barata, uns 500 metros antes e comemoramos mais uma vez o fim glorioso daquela expedição e quando contamos para o pessoal do restaurante de onde estávamos vindo, quase não acreditaram e olharam num primeiro momento com desconfiança, ainda mais quando dissemos que havíamos partido da longínqua PRAIA DO POÇO, do outro lado da ilha, varando mato sem usar ao menos um facão.
O MONTANHISMO RAIZ parece que está quase extinto nesse pais, mas vai sobrevivendo pela persistência de um grupo ou outro, principalmente aqui em São Paulo, onde é o Estado que mais dificulta pelo excesso de burocracias, mesmo em Parques Estaduais, onde o montanhista independente deveria ser sempre bem-vindo. E o potencial aqui é grandioso, com uma infinidade de montanhas à beira mar, com visual que não vamos encontrar em quase nenhuma outra cadeia de montanhas no Brasil e ainda posso acrescentar sem ter o menor medo de errar: As MONTANHAS SELVAGENS DA SERRA DO MAR PAULISTA, são muito mais difíceis de subir que a grande maioria das outras montanhas no Brasil, são desníveis descomunais, sem trilha, navegação difícil, com vegetação entrelaçada, muitas vezes é preciso escalar na unha paredões abruptos, quase sempre sem o auxílio de cordas, onde o explorador está sempre andando no fio da navalha. E o PICO DA SERRARIA feito nesse sentido, é um gigante com dificuldades físicas sem precedentes. Uma montanha que nos levou ao limite do que é possível aguentar, tirou tudo que tínhamos, ao ponto de sermos humilhados por ela, mas no fim, VENCEMOS PELA RESILIÊNCIA, pela capacidade de aguentar apanhar dela e não desistir nunca, e no final, tripudiamos sobre seu cume, seis homens esfarrapados, mas felizes por terem conquistado aquilo que se propuseram a fazer.
EXPEDIÇÃO PICO SERRARIA ( Série 30 anos de Montanhismo)
A noite já é um defunto que está sendo velado. Thiaguinho e Morato seguem à frente, puxando um cortejo, enquanto cantam músicas tristes, tentando alegrar os semi- mortos que se rastejam atrás, homens que já morreram a muito tempo, mas que ainda não se deram conta disso. O avanço é lento e cada passo dado, é como se estivéssemos subindo o Everest no seu derradeiro instante antes do cume. Da minha parte, sou só um homem que vagueia sem rumo, meus pensamentos voam para dentro de mim mesmo, tentando convencer meu abdômen a resistir a dor que nesse instante tenta me jogar ao chão. Meus pés, com chagas sangrentas, insistem em me dizer que o fim já ficou para trás. O mato é transposto na força do ódio, a rampa final é encarada com desprezo, ninguém parece mesmo se importar mais com o cume, mas uma força interna nos impulsiona a continuar, porque quem caminhou 13 horas seguidas em um único dia, não há de sucumbir nos minutos finais. Na derradeira crista, as bromélias gigantes riem da nossa cara, mas nosso senso de humor já se foi e quando o Thiaguinho me oferece uma vaga no inferno, pedindo para que eu assuma a linha de frente, que vai nos levar definitivamente para o topo, eu simplesmente tenho é vontade de chorar, não pela emoção de poder ser o primeiro a atingir o cume dessa montanha lendária, mas simplesmente porque mal tenho forças para me sustentar sobre as minhas pernas e me sinto envergonhado de recusar tal proposta. Ainda mais porque ele grita palavras de ordem, como a me obrigar a fazer um serviço, que tecnicamente também é o meu dever, mas que ele poderia ter escolhido um dos outros meninos, afinal de contas, Alan Flórido, Paulo Potenza e Fernando Mesquita, são os outros que nos acompanham nessa jornada e se era para escolher um morto, que escolhesse esses zumbis, que são mais novos que eu. Já com ânsia de vomito, passo pela árvore que tecnicamente marca o cume e desço um barranco já na escuridão dessa noite de verão e escalo uma PEDRA ARREDONDADA, que me eleva acima de qualquer mato e arbustos, dando de cara com o abismo profundo e intransponível. Está acabado! O mundo da ilha mais fantástica do Brasil está aos nossos pés.
( Morato,Flórido,Divanei, Thiaguinho, Fernandinho e Potenza)
Anos atrás, numa jornada sensacional, partindo também da PRAIA DO POÇO, alcançamos o cume do PICO DO EIXO e foi justamente nessa expedição inédita, que surgiu a vontade de ascender ao cume do MORRO DA SERRARIA. É aquele desejo incontrolável de descobrir, de explorar, de saber o que teria e como seria o cume daquela montanha distante e selvagem que nos hipnotiza e faz nossos espíritos aventureiros transbordar de curiosidade.
( Pico da Serraria vista do Morro do Eixo)
Durante alguns anos, tentamos alinhar uma data e também vários projetos foram traçados e pensados, tentando buscar uma rota mais viável que pudesse nos levar até o cume da MONTANHA LENDÁRIA, mas todo feriado estabelecido por nós, acabava tendo que ser cancelado por causa das chuvas, já que o litoral norte Paulista tem um índice pluviométrico acima da média, se comparado a outros litorais do Brasil. Mesmo sem ter uma data específica, começamos novamente as discussões sobre de onde deveríamos partir e de qual equipe formaríamos para essa empreitada, sabendo que essa era uma das montanhas mais difíceis de ser alcançada em toda Serra do Mar Paulista. Da equipe que escalou o Pico do Eixo, somente um dos exploradores não estaria presente e para consolidar o sexteto que tentaria mais esse cume inédito, vieram se juntar a nós, o Fernando Mesquita e o Marcelo Morato, um nativo paranaense que acabou sendo incorporado pelo espírito das montanhas selvagens paulistas e já algum tempo, se juntou de vez ao nosso grupo.
Enfim, foi nos apresentados, nos jogado à mesa, um plano para que tentássemos alcançar o Serraria partindo da Praia do Poço. Num primeiro momento, achei um tanto estranho porque imaginava fazer o roteiro ao contrário, entrando na ilha pela balsa e subindo o RIO PAQUERA até sua nascente e de lá, a mais de 800 metros de altitude, varar mato montanha acima até o topo e depois tentar descer em direção à Praia da Serraria, de onde seria mais fácil conseguirmos um barco que nos levasse de volta ao continente. Mas depois me convenci de que era mesmo melhor já resolvermos esse entrevero com o barco no início, do que ficarmos refém desse transporte no final, já que o plano era, partindo da Praia do Poço, subiríamos o próprio Rio do Poço também até a cota 800 de altitude e de lá, vararíamos mato até o cume do Serraria e depois descendo, tomaríamos o rumo do Rio Paquera, mas dessa vez descendo até a cidade.
Partimos de madrugada, da capital Paulista em 2 carros, contendo 3 exploradores em cada um deles e quando chegamos à São Sebastião, já encontramos o nosso barco estacionado por volta das 8 da manhã e foi só embarcarmos nossas mochilas, para o “comandante” sair desembestado, fazendo a pequena embarcação saltar lindamente sobre as ondas, num mar até que calmo. Fomos vendo as pequenas praias desse lado norte/nordeste da ilha, ir passando diante dos nossos olhos, que eram obrigados a enxergar as desigualdades sociais em forma de mansões milionárias penduradas nas encostas dessa ilha da fantasia. Passamos pelo farol, Praia da Jabaquara, Praia da fome e logo avistamos o Pico do Eixo e sua forma inusitada parecendo um grande vulcão à beira mar, até que embicamos definitivamente para a Praia do Poço.
A chegada à PRAIA DO POÇO é uma festa, ainda mais por sermos agraciados com uma temperatura alta, com um dia ensolarado como a muito tempo não víamos, além do mais, a praia estava com uma transparência única, o que também se estendia para o maravilhoso rio do Poço, que desagua na praia em forma de cachoeira, um charme inimaginável. Foi desembarcar e se atirar nas águas do rio do Poço, começar a expedição como se naquele momento desfilássemos travestidos de abre alas, num carnaval que estava apenas começando e que prometia ser um dos melhores.
(Praia do Poço)
Cansados de tanta nadar, partimos! E a nossa partida é mais um Adeus a essa praia sensacional, que apesar de hospedar uma habitação escondida na vegetação, sempre vai parecer selvagem e deserta, um porto seguro para tantas aventuras que essa ilha nos proporciona. Mas no início, ainda não querendo molhar as botas, varamos um capão de mato pela direita do rio, que nos levou numa laje acima da cachoeirinha e sem mais o que fazer, já nos jogamos rio adentro e demos início oficialmente à AVENTURA que nos consumiria 4 dias duros de uma expedição que entrou para história das nossas vidas de montanhistas e exploradores selvagens.
Já passa das 10 da manhã, quando a gente resolve acelerar o passo definitivamente. O Rio do Poço ainda é um rio largo, com águas claras correndo aberto ao sol, pequenos poços e corredeiras aplausíveis, vai fazendo a alegria do grupo até que mais acima, tropeçamos num afluente que intercepta o rio pela direita. Pegamos para a esquerda e vamos pulando pedras, subindo lentamente, nos divertindo como devia ser, porque estamos cheios de energia, cheios de expectativas e com o moral elevado.
Pouco mais de 40 minutos desde que partimos da praia, somos apresentados a uma sequência de lajes, onde a corredeira se espalha pela lateral e a paisagem de abre definitivamente ao sol. Mas assim que o lajeado se vai , entramos numa sequência de mata, onde o rio se confina um pouco e somos obrigados a varar mato, ainda que não passe de bosques espaçados, até que lá pelas 11:30 interceptamos uma parede um pouco íngreme de onde as águas do Rio do Poço se jogam, formando uma grande piscina natural bem na sua base. Enquanto parte do grupo se entrega ao deleite de mergulhar na grande piscina, subo a parede, vencendo a força da gravidade apenas com a aderência das minhas botas e vou brincar na minha própria piscina, que acaba por formar uma borda à beira do grande escorregador natural, hora de parar e se entregar aos prazeres aquáticos.
Quando todos se juntaram na piscina superior, engolimos rapidamente alguns petiscos e partimos. A pegada era a mesma, um mato fácil de varar, hora à esquerda, hora à direita, mas o rio voltou novamente a ficar um pouco estreito , até um pouco obstruído pela vegetação e pelas pedras, mas não durou nem meia hora e já demos de cara com o maior poço do rio, era quase um lago perdido a pouco mais de 100 metros de altimetria, uma joia escondida dos olhos dos turistas, por certo só conhecido por um outro frequentador ou morador da habitação da praia do poço, que nem vimos a cara nesse feriado.
Aquilo era um parque de diversões, a pequena queda transformava a entrada da água no poço, numa hidromassagem natural e como fazia um calor quase que insuportável, fomos obrigados a nos perder por quase uma hora naquela maravilha, porque o tempo deixou de existir para a gente e o nosso mundo se resumiu somente naquele pequeno lago cercado de florestas exuberantes, do outro lado de uma ilha isolada, praticamente sem acesso por terra.
Acima do LAGO DO POÇO, uma laje de pedra nos convida a continuar subindo, mas como a inclinação da cachoeirinha não nos deixava subir, pegamos nossas mochilas e demos a volta pela esquerda, só não contávamos que seríamos atacados por ferozes formigas que foram comendo as nossas pernas e nossos pés, enquanto tentávamos escapar em meios aos matacões cheio de fendas. Os “ ai, ai, ai e os ai, ui, ui” iam ecoando pela selva e cada um tentava se salvar no seu desespero pessoal, tentando descer de volta ao rio. Eu, que peso pouco mais de meio quilo, já me enfiei numa fenda estreita e quando tentei me equilibrar com os pés na parede lateral, despenquei ao pisar numa espécie de musgo e já fui jogado na água, o que já ajudou a ir expulsando logo as malditas formigas, mas quando vi a piscina natural dourada, joguei minha mochila ao chão e corri feito um maluco, me atirei para dentro dela e lá fiquei, largado ao meu martírio pessoal, me entregando a arte de coçar até que a agonia chegasse ao fim.
O dia já passa da sua metade, ficamos mais uns 15 minutos na PISCINA DOURADA e seguimos viagem. O Rio do Poço foi se alternando entre ficar visível e desaparecer embaixo de grandes matacões. Puxei a frente com toda energia que pudesse produzir, escalando tudo que era pedra, pulando de um lado para o outro. Verdade mesmo, que eu estava achando o grupo um pouco lento naquele dia e já me preocupava o fato de não estarmos ganhando altitude e pensava em acampar pelo menos acima dos 500 metros. Mas como nem tudo é tão ruim que não possa piorar, o rio simplesmente começou a sumir por mais tempo e tínhamos que varar mato constantemente, um mato entrelaçado entre grand3s pedras e fendas profundas, que iam tornando a nossa vida um inferno.
Tentei acelerar mais ainda, aumentar o rimo, mas a galera não estava mesmo no pique de ganhar terreno e constantemente paravam, travavam a caminhada e eu ficava angustiado, sentado em grandes pedras no leito do rio, esperando que eles se aproximassem. Teve uma hora que o rio simplesmente sumiu de vez, nem barulho tinha mais e tivemos que nos afastarmos para tentar encontrar uma passagem pela direita e essa parte foi minando a energia da galera, principalmente porque batíamos em cemitérios de rochas e não conseguindo avançar, tínhamos que voltar ao ponto de partida e recomeçar. O dia foi escorrendo por entre os dedos, as paradas foram ficando maior para que alguns pudessem se recuperar, eu fui me angustiando cada vez mais, até que pouco depois das 4 da tarde, o Potenza da um grito, tentando chamar minha atenção porque eu estava muito à frente, tentando adiantar o caminho e já me posicionava encima de um matacão gigante:
- Diva, o Flórido quebrou de vez, não vai mais, as câimbras o derrotaram, não consegue dar mais um passo, fim de linha para ele hoje.
Bom , pelo menos estávamos novamente com o rio correndo na superfície e tínhamos água para passar a noite, inclusive, estávamos numa espécie de ilha, em um lugar até confortável para acampar e diante da situação, não havia o que discutir, hora de jogarmos nossas mochilas ao chão e darmos por encerrado esse dia de caminhada .
Cada qual foi cuidar de arrumar duas árvores para montar suas redes, alguns mais folgados, já não tem escrúpulos e pegam o melhor que há, sem se preocupar como que os outros vão se arrumar, já outros tentam socializar, tentam achar solução que comporte a todos com um mínimo de conforto e eu, bom, eu já procuro esperar e pego o que sobrar mesmo, geralmente o que há de pior, mas desta vez nem me importo, estou fisicamente muito bem, com energia suficiente para raciocinar e transformar o pior no meu lar por uma noite.
Combino de dividir a comida com o Flórido e aproveito que ainda há muita luz natural e vou dessalgar a carne seca, picar em pedaços minúsculos, enquanto cozinho arroz. No fim, parece mesmo que foi uma boa ideia acampar cedo, poder fazer as coisas com calma, mas por termos conseguido chegar somente na ALTIMETRIA DE 320 METROS, ainda penso que no outro dia, se não acelerarmos o passo, poderemos não bater no cume e isso poderá pôr a perder toda a logística da expedição. Quando o arroz fica pronto, fervo a carne seca 2 vezes, boto alho, cebola, e outros temperos prontos e deixo cozinhar e fritar ao mesmo tempo. Um suco de jabuticaba, um queijo ralado, azeitonas e uma pimentinha, completam nossa janta e depois, cada qual foi morrer na sua rede, ainda que, alguns já haviam morrido faz tempo.
Depois de quase 12 horas de sono, nos levantamos por volta das 6 da manhã. O dia promete ser novamente muito quente e a expectativa é que possamos bater cume, mas teremos que varar mato e conseguir subir quase mil metros de desnível e a gente sabe que tudo isso de altimetria já é complicado em montanhas com trilha, imagina ter de alcançar um cume selvagem no coração da floresta, abrindo caminho no peito. Precisamos dar o primeiro passo do dia e o primeiro objetivo é continuar subindo o Rio do Poço até a sua nascente ou ao menos quando teremos que tomar o rumo da nascente principal, que fica na altimetria entre 800 e 900 metros.
Tomamos o rumo da esquerda do rio e tivemos logo de nos afastarmos porque ele voltou a correr por baixo de grandes blocos de pedras. É um vara mato penoso que temos que enfrentar logo pela manhã, uma infinidade de fendas que se abrem em meio a pedras gigantes, que ameaçam engolir o primeiro desavisado que der bobeira e não estiver focado na caminhada e mesmo assim, não é raro quando um ou outro enfia uma perda num buraco.
Preciso dizer que a narrativa dessa parte da travessia, vai quase se repetir num marasmo de mesma dificuldade, é uma tomação no rabo que não tem fim. As altitudes vão sendo vencidas aos poucos, lentamente, ganhando nem 100 metros de desnível por hora e isso vai nos enervando cada vez mais, porque sabemos que se esse ritmo não aumentar, é bem provável que não conseguiremos bater cume hoje e eu ainda vou mais além, já tenho dúvidas se faremos cume do Serraria nessa expedição ou teremos que passar reto e tomar o rumo da cidade de Ilhabela, ao invés de desviarmos nosso caminho lá pela cota 800, pegando para a esquerda em direção ao cume da montanha que buscamos.
O Rio vai se alternar entre sumir e aparecer. Hora corre aberto, hora já não mais existe e pouco ouvimos seu barulho correndo no subterrâneo. O dia vai passando e moendo as nossas energias e as altitudes continuam sendo vencidas a menos de 100 metros por hora. A gente não avança como poderíamos e como deveríamos e num ato já de desespero, tentamos ganhar altitude nos afastando pela esquerda do rio, que praticamente já nem sabemos onde está, só temos uma vaga noção, porque acompanhamos uma linha pré-traçado no nosso gps.
A tarde chega numa velocidade nunca antes vistas, nossa vida se transformou num inferno de trepar pedras, arrastar mato no peito e tentar achar passagens entre rochas fendadas, até que, quando a gente chega lá pela cota 750, paramos para discutir se valeria a pena já pegar água num buraco onde havia o precioso líquido. Eu já fui logo contra, achei cedo demais para ficar entulhando minha mochila com mais peso e acabar com a pouca reserva de energia que ainda nos restava, porque eu ainda imaginava que passaríamos por inúmeras fontes de água antes de termos que pegar o rumo definitivo em direção ao Serraria. Mas parte da galera que carrega água até estando dentro dos rios, acharam o contrário e eu mesmo contrariado, apanhei um litro e meio de água de procedência bem duvidosa e tomei a frente, tentando ganhar tempo, muito porque eu já não via a hora de apontar meu nariz para a montanha, não aguentava mais me manter paralelo a um rio que tecnicamente nem mais existia.
Optamos por fazer uma diagonal e tentar interceptar a linha que iria para a montanha um pouco mais acima, ainda assim, tentando fugir das paredes íngremes do nosso lado esquerdo. Na cota 820 avistamos finalmente uma cachoeira e sacamos logo que se tratava do Rio do Poço, na sua nascente principal, que aliás, nasce exatamente nos pés do Serraria uns 400 metros de desnível acima de onde estávamos, quase no selado entra ele e o Ponta Alta, outra montanha selvagem. Foi uma bela surpresa tropeçarmos com aquela CAHOEIRA DA NASCENTE, a galera toda corre para matar a sede e tomar um bom banho antes de abandonar o Rio do Poço em definitivo. E era mesmo preciso, jogar uma água gelada no corpo, descansar um pouco as pernas, porque o que estava por vir era algo que talvez jamais tivéssemos experimentados em toda a nossa vida de montanhistas.
A direção que até então, era no rumo sudoeste, virava completamente para o leste, não tinha mais o que fazer, agora era para valer. Uma vez tomado esse rumo, não tinha mais volta, cada qual haveria de provar porque fora escolhido quase a dedo para fazer parte daquela expedição lendária. Ali a natureza separaria os homens dos meninos, a idade não contava mais, ninguém queria saber se você já viveu mais de meio século ou se praticamente acabara de sair da adolescência, pouco importava se você falava “meu” ou “piá “, se era gordo ou pau de virar tripa, ninguém estava nem aí, cada qual que assumisse sua responsabilidade perante o grupo, havia chegado a hora de cair mais uma montanha selvagem, a história estava prestes a ser feita diante dos nossos olhos.
Agora o que nos restava era encarar uma parede íngreme, ir procurando uma rota menos penosa entre a florestas, tentando escapar dos bambuzinhos que nos atravancava o caminho, rodeando matacões gigantes. A inclinação é grande, mas mantemos a esperança de ganharmos 150 metros de desnível até alcançarmos a cota 950, onde tecnicamente teremos um refresco cruzando um terreno mais plano, só que leva uma eternidade e quando esse objetivo é alcançado, já estamos num bagaço de dar dó. O avanço é lento, demorado e modorrento e mesmo essa parte mais plana no terreno, onde vamos ganhar mais 100 metros e chegar aos 1050 m, nos pareceu uma eternidade. Abrir caminho vai ficando cada vez mais difícil e a surpresa fica por conta de várias nascentes que vamos achando pelo caminho e quando tropeçamos na cota 1150, é hora de embicar para cima, a nossa montanha acaba de entrar no nosso radar.
Já é final de tarde quando paramos em mais uma fonte de água para aplacar a nossa sede, num dia de temperatura altíssima. Tecnicamente não faltam nem 150 metros de desnível para batermos no cume, mas diante das dificuldades que vínhamos enfrentando, a previsão de avanço é sombria. Os meus pés já estão me matando, mas é possível ver na cara de cada um daqueles exploradores, que eles sofrem como eu. Tiro as minhas botas nessa pausa providencial, só para constatar que há feridas por todos os lados dos meus pés, chagas abertas entre os dedos, inclusive. Outros sofrem com ferimentos por todo o corpo, Thiaguinho exibe duas feridas enormes sobre os ombros e o Fernandinho feridas nas costas, todas provenientes do atrito com as mochilas.
Já estamos caminhando a pelo menos 11 horas e agora parecemos zumbis que vagueiam meio sem rumo, apesar de sabermos para onde vamos. Por entre as árvores, já enxergamos ao longe o nosso destino e vamos tentando ganhar altitude o mais depressa possível.
Passamos por mais uma nascente e vamos tentando ziguezaguear, evitando ter que subir paredes quase na vertical, mas chega uma hora que eu e o Morato começamos a discutir se não seria melhor já encararmos logo essa inclinação toda e nos elevarmos o mais alto possível, ao invés de ficarmos dando voltas.
O tempo vai passando, não ganhamos altitude como deveríamos, a vegetação vai só piorando e a nossa condição física é de um refugiado de guerra que acabou de escapar de um bombardeio. A luz do dia quase que já se foi e numa janela da encosta da montanha, o próprio sol acaba de morrer. Parece ser o estirão final. Não há mais alegria em nossas almas de montanhistas, por mais que eu devesse exaltar a nossa euforia em chegar ao cume, ela é superada pelo sofrimento físico e mental.
Thiaguinho e Morato assumem a frente e tentam a qualquer custo elevar o moral do grupo. Vão gritando palavras de ordens: “ Vamos, Vamos galera!” Mas da minha parte, aquilo mais me irrita do que me anima.
Eu, particularmente, estou em transe e diria que eu já morri a pelo menos uma hora atrás. Parece que vou apagar a qualquer momento, meus pés simplesmente se recusam a andar e creio que as feridas que já eram muitas, agora tomaram proporções inimagináveis. Não há felicidade no sofrimento, só existe resiliência, como a de um condenado no corredor da morte. Atingimos a crista final, um emaranhado de bromélias gigantes e pequenos bambuzinhos, que quase nos encobrem. Os 2 meninos que vão à frente parecem que sucumbiram ao esforço físico e antes de caírem mortos, me convocam para abrir o último trecho. Eu não quero ir, mesmo podendo ter a honra de ser o primeiro a atingir o cume. Eu me recuso a ir. Já há em mim um sentimento de desistência, por mim eu já caia por ali mesmo e esperava o dia amanhecer. Não sei mais o que estou fazendo em pé naquele lugar, mal vejo a sequência do caminho, apesar de estarmos ainda numa penumbra.
Tomo a frente, na força do ódio, que é o único sentimento que ainda me resta. A minha cabeça é o único órgão do meu corpo que ainda insiste em me manter em pé, todos os outros já desistiram. Cerro os dentes, dou comando para que minhas pernas amassem aquele mato maldito. Acima das nossas cabeças, uma arvore que se sobressai, parece ser o cume e é para ela que me dirijo, metro a metro. Claro, mesmo estando quase escuro, as vistas ao redor são soberbas, mas nesse momento não há mais tempo para apreciar coisa alguma, o único sentimento é o de atingir logo o ponto mais alto e dar por encerrado aquela tortura.
Um arbusto seco, com galhos retorcidos, tenta nos barrar o caminho. Travo uma batalha ferrenha, mas ele parece não querer se dobrar. Eu não aguento mais e atrás de mim, parece que ouço as vozes dos meus companheiros implorando para que eu desista, que deixe para o outro dia.
Estou mais arranhado que gato em dia de briga. Thiaguinho é o único que me segue de perto, e os outros que se mantém um pouco mais atrás, fazem couro para que a gente encerre, principalmente quando chegamos exatamente embaixo da árvore que oficialmente marca o ponto mais alto. Mas eu estou alucinado, vendo coisas e me pareceu que alguns metros à frente, uma rocha praticamente sem vegetação poderia marcar o ponto de vistas abertas. A galera protesta veementemente: “ ACABOU DIVANEI, VAMOS VOLTAR”. Descemos ao selado, entre onde estamos e o rochoso, com muito medo de ser um buraco perigoso, mas encontrei terra firme e imediatamente me agarrei na vegetação rala que cobria a pedra e me elevei ao topo, agora sim não existia mais mundo a nossa frente, apenas um enorme vazio que nos fez olhar para o abismo sem fundo.
Oito horas da noite, caminhamos por 13 horas seguidas, numa das mais terríveis jornadas das nossas vidas e agora, ali diante dos nossos olhos, a imensidão dessa parte da ilha se descortina diante dos nossos olhos. O único que se anima a subir no rochoso e me acompanhar, é o Thiaguinho, os outros já tomaram o caminho de volta, tentando descer uns 5 ou 10 minutos até uma clareira que havíamos passado. De cima do ROCHOSO, ficamos a admirar e nos assombrar com o sub cume do Serraria, que feito um gigante, toma conta das vistas a leste de onde estamos. As luzes de Caraguatatuba dão um charme especial àquela noite quente e ainda é possível ver na direção nordeste, o Pico do Eixo, ainda que somente o seu contorno. Mas o melhor mesmo a fazer é retornar e reencontrar o resto do grupo, melhor deixar para apreciar tudo com calma amanhã, com a luz do dia, agora é hora de ir curar as feridas.
, Abandonamos a sua própria sorte e retornamos pelo mesmo caminho, que agora está aberto e desimpedido. A adrenalina se foi, aquela energia extra que o corpo vai liberando, tirando sei lá de onde, agora também não existe mais. E vamos nos arrastando de volta para clareira uns 10 minutos abaixo do cume, o único lugar descente onde poderíamos acampar. Mas os meninos que retornaram uns minutos antes, não conseguem mais localizá-la com precisão e ficam batendo cabeça para lá e para cá, numa procura inútil, que faz o Alan Flórido já dar um esporro no Paulo Potenza, dizendo que são inimigos do descanso.
Eu estou enjoado, com dores abdominais terríveis, praticamente não consigo dar mais nem um passo. Me escoro num pé de pau qualquer e quando tento andar, cambaleio de um lado para o outro. Olho para as estrelas, não vejo nenhuma lua no céu, numa noite escura acima da conta. Tudo ao meu redor parece rodar, meus pés doem, como nunca doeram em nenhum outro lugar. Os malditos ainda continuam tentando achar o lugar ideal e eu amaldiçoou cada qual daqueles desgraçados, que ficam feito baratas tontas, indo de um lado para o outro. O Flórido ameaça ficar em qualquer lugar e eu me arrependo de não estar armado para derrubar um daqueles caras. Sem encontrar mais o que procuravam, se deram conta de que a clareira onde estávamos, poderia muito bem servir para acamparmos e quando o primeiro jogou a mochila ao chão, eu já estava deitado nele, pouco respirava, sem forças nem para responder qualquer pergunta e esse foi o dia que eu cheguei mais perto da morte por exaustão, aliás, se a morte tivesse vindo me buscar, teria que me carregar e certamente, poderia carregar os outros cinco exploradores, porque não teríamos apresentado qualquer resistência.
E eu fiquei lá, esticado no chão por quase uma hora tentando me recuperar e depois, com muita dificuldade, me ergui e fui montar minha rede como deu, escolhendo 2 árvores finas que pareciam serem ainda mais fracas que eu. A galera foi cuidar da janta e como eu tinha feito o rango na noite anterior para mim e para o Flórido, dessa vez esse se encarregou de fazer um macarrão instantâneo acrescido com uns pedaços de linguiça, do qual eu apenas dei uma beliscada antes de partir definitivamente para o derradeiro apagão.
Os caras tentaram combinar de acordarem às 5 da manhã, mas só o Potenza e o Thiaguinho aderiram a proposta, o resto já informou que dormiriam até as 8 da manhã. E realmente devem ter ido ver o sol nascer, mas não posso precisar o horário. Voltaram com umas fotos bonitas, mas eu mesmo não me arrependi porque foi fundamental descansar bem para acordar renovado.
Como o prometido, o resto do grupo levantou lá pelas 8 horas, tomou café e subiram até o cume para agora, com calma, poder apreciar as deslumbrantes vistas que só os cumes das montanhas podem nos proporcionar. Como eu havia dito, a crista é bem estreita, forrada por bromélias gigantes e vegetação de terrenos de altitude, que consiste em pequenos arbustos. Do lado direito, o que nos chama mais a atenção é a BAIA DE CASTELHANO e sua incrível praia em forma de coração, talvez uma visão que não tenha sido contemplado por pouco mais de meia dúzia em toda a sua história, pelo menos com os pés firmes no chão. Ainda do lado direito da crista, é possível avistar toda extensão da outra crista que vai na direção do MORRO DAS TOCAS, passando pelo PONTA ALTA e ainda para quem olha em direção a própria cidade de ILHABELA, é possível se maravilhar com o CANAL DE SÃO SEBASTIÃO e o PICO DO BAEPI e não poderia deixar de citar o cume da ilha, o gigante PICO DE SÃO SEBASTIÃO( 1.378 m)
Toda essa vista sensacional e desimpedida, poderia ser apreciada apenas se elevando de um grande arbusto que tombou e nos agraciou com um mirante natural, mas depois de satisfeitos de olhar a ilha por esse ângulo, corremos por toda a crista em direção ao seu cume, que como eu disse, era tomado por um arbusto mais alto, cercado de mato por todos os lados, então descemos ao selado mais abaixo para imediatamente ganharmos a PEDRA exposta que elegemos como o nosso cume, apesar de estar uns 3 metros abaixo do cume verdadeiro.
Diante dos nossos olhos, bem à nossa frente, o PICO DO EIXO desafia a nossa capacidade de nos encantarmos com o mundo. Logo nos remetemos a Expedição passada, quando subimos essa outra montanha lendária e onde surgiu o pacto que nos fez também subirmos o PICO DA SERRARIA. Estávamos contentes pela nossa capacidade e competência em explorar todos esses picos selvagens, que ninguém nunca nos disse como chegar. Olhando, como quem olha na direção da Baia de Castelhano, um outro pico isolado, que na carta nos diz ser um subcume num ombro do Serraria, nos chama a atenção pela sua grandiosidade. E como são lindas todas essas montanhas, emolduradas ao fundo pelo mar que banha a costa Paulista, desde Caraguatatuba, Ubatuba e Paraty, indo até onde nossas vistas alcançam e deduzimos podermos enxergar até a baia da Ilha Grande.
Ali, onde estávamos aglomerados, num pequeno espaço exposto, batemos uma última foto juntos e eu aproveitei para instalar o LIVRO DE CUME, para marcar a nossa passagem por mais essa montanha selvagem da Serra do Mar Paulista e cada qual deixou um recado para os próximos aventureiros que se atreverem a subir nessa montanha lendária .
É impossível afirmar que, num passado muito distante, alguém tenha pisado nessa montanha, mesmo que não tenhamos encontrado nem vestígio que pudesse corroborar com uma possível afirmação, mas com esse livro de cume, quem aqui chegar nos próximos anos, saberá desse registro, mas obviamente, já terão tomado conhecimento através desse relato, um documento que deixamos de presente para as futuras gerações.
A volta ao acampamento foi extremamente rápida, já que agora havia um caminho aberto. Lentamente, desmontamos tudo e o tempo ocioso, foi gasto a fim de curar as feridas que apresentávamos por todo o corpo. Thiaguinho apresentava duas grandes ulceras nos ombros, principalmente. Fernandinho feridas horrendas nas costas e eu praticamente não tinha mais pés para caminhar. As chagas tomaram conta de tudo, desde a sola até por baixo de todos os dedos, passando pelo peito dos pés, tudo sangrava e doía insuportavelmente. Eu me entupi de analgésicos e usei pomadas anti-inflamatórias, além de fazer curativos e enrolar umas faixas para aguentar calçar as botas, como eu disse, parecíamos sobreviventes de uma guerra.
Lá pelas 11 da manhã, abandonamos o cume do Serraria com o objetivo de alcançar a calha do Rio Paquera, o outro rio que tomaria o rumo da praia, descendo para a cidade de Ilhabela, lá pela altitude de 800 metros. Imaginamos que, como seria sempre descendo, pudéssemos avançar bem. Mas não foi isso que aconteceu no começo, muito porque, os meninos queriam voltar pelo mesmo caminho, aproveitando o rastro aberto que teríamos deixado, mas vez ou outra perdíamos esse caminho e comecei a notar que essa estratégia, apesar de boa, não ia nos levar a lugar nenhum com a velocidade que necessitávamos. Então tomei a frente e saí desembestado montanha abaixo, rasgando o mato no peito, deixando o corpo cair, a gravidade agir e quando alguma parede íngreme aparecia, dávamos um jeito de desescalar e perder altitude até que novamente estávamos de volta a água no sopé do Serraria.
O nosso rumo agora segue sempre para OESTE e depois que perdemos quase 300 metros de altitude, vamos andar por terrenos mais planos encharcados, até que lá pela cota 950, tropeçamos num rio largo e volumoso, que deduzimos ser uma das nascentes, que mais abaixo irá se juntar a outra e dará vida ao Rio Paquera.
Apesar de pouco desnível, o caminhar é lento, mesmo porque estamos enfiados no pequeno vale do rio que encontramos, onde vamos desescalando pequenas cachoeirinhas e cânions, até que lá pelas 16 horas, avistamos o outro rio que, agora em definitivo, deu vida ao GRANDE RIO PAQUERA, estávamos a 800 metros de altitude e agora tínhamos um só objetivo, que era descer o rio até o litoral, definitivamente havíamos encontrado nossa “estrada aquática “ para casa.
Apesar de estarmos tão alto e vale lembrar que estamos no coração de uma ilha, o rio Paquera tem um volume muito bom e vai perdendo altitude lentamente, as vezes formando algumas ilhas, onde é muito fácil de caminhar e só ficava mesmo fundo, quando fazia curvas e foi depois de uma curva, que fomos surpreendidos por uma ilhota perfeita, com uma área plana e com várias árvores favoráveis para acampar, além do cenário ser composto por uma 2 cachoeirinhas que ao cair se transformavam numa banheira com massagem natural, aí não teve como, foi jogar as mochilas ao chão e dar por encerrado esse terceiro dia de caminhada, afinal de contas, o grupo ainda estava estraçalhado pelo dia anterior e ninguém ousou se opor ao acampamento antes das 17 horas, a 700 metros de altitude.
Cada qual se instalou como pode, se adaptando a natureza que nos cercava. E a engenharia mateira é algo que sempre vai me encantar, o jeito que cada um resolve seus problemas, instalando suas redes, num processo que demando estudos em conjunto para que tudo sai como o planejado, sem que uma cobertura acabe por jogar água na rede de outros, cada pequeno arbusto sendo adaptado para aguentar o peso do explorador. Eu fiz logo todo o processo completo, deixei tudo pronto, mas os meninos bobearam e como estava calor, não perceberam que a chuva havia chegado e quando se deram conta, foi a maior correria para colocar as coberturas nas redes e tiveram que ouvir da minha boca, logo da minha, a palavra: “AMADORES” ( rsrsrsrsrsrsrrs), quando presenciei o desespero dos cara para não deixar molhar as redes. Mas foi apenas uma chuvica, algo inexpressivo, que não durou cinco minutos, aliás, a única chuva que caiu durante os quatro dias de expedição.
( local ACAMPAMENTO Rio Paquera)
Acampamento montado, cada um foi cuidar do seu jantar e tomar um bom banho nas piscinas do acampamento. Estávamos felizes, mesmo com os pés estropiados, sabíamos que o pior já tinha passado e a confraternização ao redor dos fogareiros, só não foi melhor por que o Flórido resolveu aprontar: Eu estava sentado tranquilamente, pilotando o fogareiro que cozinha para nós dois. A fome era de lascar, já que durante a caminha, eu mal consigo me alimentar, então a refeição de verdade é sempre essa da janta. Resolvi fazer uma refeição bem completa, cozinhando um arroz bem temperado, inclusive colocando umas ervas finas. O Flórido saiu de perto e foi até o rio que estava atrás de mim e quando voltou, ao invés de dar a volta no fogareiro, resolveu fazer um salto sem vara, calculou mal, não conseguiu pular 20 cm, tropeçou no fogareiro com o arroz fervendo, que caiu bem encima do meu pé e do dele. Do jeito que eu estava sentado, dei um rodopio e fui para dentro do rio, com o pé queimando. O Flórido fez o mesmo, correu desesperado para o rio. A minha sorte foi que, por causa dos borrachudos carnívoros da Ilhabela, eu resolvi colocar uma meia nos pés, porque não havia trazido chinelos e por ela estar molhada, o calor da água fervendo foi dissipado e praticamente sai ileso, já o Flórido se lascou e acabou ganhando uma bolha.
Dormimos quase 12 horas e lá pelas 8 da manhã, já havíamos desmontado tudo e partido. Ao analisar o mapa topográfico, descobrimos que havia uma trilha que finalizava na altimetria de quase 500 metros e poderia nos auxiliar na descida. E realmente a encontramos, um rabo de trilha perdida no meio da selva, que nos levou mais abaixo até que a abandonamos por se perder do nada, então optamos por voltar a andar por dentro do rio até interceptarmos um lindo TOBOGÃ, onde paramos para um banho refrescante, numa manhã extremante quente de fevereiro.
Continuamos descendo e aproveitando cada poço do rio, despencando por lajes expostas, até que lá pela cota 400, encontramos uma trilha bem consolidada, aberta, quase uma avenida. Resolvemos seguir por ela, porque notamos que seria a trilha que nos levaria para a maior atração do Rio Paquera. Ela seguiu se afastando do rio, quase que indo na direção do Pico do Baepi, mas uns 20 minutos à frente, interceptemos outra trilha maior ainda, essa sim parecia vir do Baepi, então pegamos para a esquerda e agora descemos sem dó, despencando até retornarmos novamente ao rio, bem em frente a GRANDE CACHOEIRA DO BANANAL, perto da cota 350 de altitude, um espetáculo de queda d’água em meio a um lajeado exposto ao sol, onde em sua base, uma piscina natural nos convida para largarmos tudo e nos entregarmos ao ócio, é a cereja do bolo .
O sol está em festa nesse meio de tarde, numa terça-feira de carnaval. A CACHOEIRA DO BANANAL, é daquelas quedas d’água que quem está acostumado a grandes cachoeiras, não vai dar nada por ela, apesar de ser uma cachoeira bem bonitinha. Mas não é aquelas cachus altas, aquelas quedas tradicionais, queda livre que despenca para dentro de algum poço bom para um mergulho, mas essa impressão que tivemos num primeiro momento, cai por terra em poucos minutos. O Rio Paquera se joga em degraus, formando primeiramente uma cachoeirinha de pouco mais de 3 metros, como uma força que quase não é possível se manter em pé, embaixo dela. Depois o rio escorre pela pedra, onde do seu lado esquerdo a inclinação toma forma de um grande escorregador até que a água desaba numa pequena piscina de pouco mais de um metro de profundidade, para depois ganhar o grande lajedo e ir se perder nas profundezas de um cânion.
Nos espalhamos pelo lajeado, uns para colocar as coisas para secar, outros para almoçar. Alguns, depois se entrar na cachoeira, foram se esquentar ao sol, mas outros tomaram o caminho das sombras, mas logo todos resolveram se juntar para um só propósito: Despencar de cima da cachoeira, escorregando no tobogã natural. E cada qual daqueles exploradores, agora travestido de meninos, fez questão de dar seu show particular, deixando que a força da gravidade o conduzisse por um caminho sem volta, até que seus corpos explodissem lá embaixo, na pequena piscina natural, que os faziam parecer como um meteoro a entrar na atmosfera da Terra. Foi um momento excepcionalmente mágico, único, quando praticamente todo mundo resolveu se jogar de uma só vez e quando todos aterrissaram na água, um abraço coletivo marcou a derradeira comemoração, um fim glorioso para uma EXPEDIÇÃO que foi um verdadeiro sucesso, mais uma travessia ficava para trás, mais uma MONTANHA SELVAGEM que simplesmente botamos no bolso, dentre tantas outras nessas incríveis SERRAS PAULISTAS.
Antes das duas da tarde, enfiamos tudo nas nossas mochilas e partimos. Pegamos novamente a trilha que chegamos, passamos pela bifurcação e logo à frente, antes de cruzarmos por uma espécie de selado, um pequeno córrego, tomamos uma trilha mais discreta para a esquerda, porque muito provavelmente, se tivéssemos seguido em frente, iríamos interceptar a trilha que deverá subir ao Pico do Baepi. A trilha que pegamos vai descer, passar por uma grande rocha e começar a voltar em direção a margem esquerda do Rio Paquera, onde demos uma pequena saída dela para que parte da galera voltasse a entrar na água, já que o sol resolver incendiar de vez. Voltando à trilha, caminhamos agora em nível por cerca de uma meia hora até interceptarmos de vez, um final de estrada, onde uma placa nos avisa que é proibido entrar, mas não diz nada sobre ser proibido sair, então, em silêncio adentramos no quintal de uma grande casa, cruzamos até sairmos novamente em uma rua, que parecia ser de um condomínio de chácaras, até sairmos em definitivo numa rua pública, onde ganhamos as ruas da cidade de Ilhabela, bem perto do Canal de São Sebastião, agora sim OFICILAMENTE a Travessia da ILHABELA estava concluída, entramos de um lado, saímos do outro varando mato, praticamente sem trilha.
Estando na cidade, agora nosso caminho natural era nos dirigirmos para a Balsa de Ilhabela e atravessar a pé para São Sebastião, onde havíamos deixado nosso veículos, mas antes de fazer isso, estacionamos mesmo foi num restaurante com comida boa e barata, uns 500 metros antes e comemoramos mais uma vez o fim glorioso daquela expedição e quando contamos para o pessoal do restaurante de onde estávamos vindo, quase não acreditaram e olharam num primeiro momento com desconfiança, ainda mais quando dissemos que havíamos partido da longínqua PRAIA DO POÇO, do outro lado da ilha, varando mato sem usar ao menos um facão.
O MONTANHISMO RAIZ parece que está quase extinto nesse pais, mas vai sobrevivendo pela persistência de um grupo ou outro, principalmente aqui em São Paulo, onde é o Estado que mais dificulta pelo excesso de burocracias, mesmo em Parques Estaduais, onde o montanhista independente deveria ser sempre bem-vindo. E o potencial aqui é grandioso, com uma infinidade de montanhas à beira mar, com visual que não vamos encontrar em quase nenhuma outra cadeia de montanhas no Brasil e ainda posso acrescentar sem ter o menor medo de errar: As MONTANHAS SELVAGENS DA SERRA DO MAR PAULISTA, são muito mais difíceis de subir que a grande maioria das outras montanhas no Brasil, são desníveis descomunais, sem trilha, navegação difícil, com vegetação entrelaçada, muitas vezes é preciso escalar na unha paredões abruptos, quase sempre sem o auxílio de cordas, onde o explorador está sempre andando no fio da navalha. E o PICO DA SERRARIA feito nesse sentido, é um gigante com dificuldades físicas sem precedentes. Uma montanha que nos levou ao limite do que é possível aguentar, tirou tudo que tínhamos, ao ponto de sermos humilhados por ela, mas no fim, VENCEMOS PELA RESILIÊNCIA, pela capacidade de aguentar apanhar dela e não desistir nunca, e no final, tripudiamos sobre seu cume, seis homens esfarrapados, mas felizes por terem conquistado aquilo que se propuseram a fazer.
Divanei Goes de Paula, Fevereiro- 2020.
Editado por DIVANEI