- Acabou pai, infelizmente, sua jornada no mundo da aventura chegou ao fim e não fique triste, uma hora isso iria acontecer, porque o fim chega para todos, até que pela sua idade, você foi longe.
Minha filha Julia acabara de vomitar essa frase, num momento em que eu estava fragilizado por uma dor nas costas, proveniente de uma viagem de carro que havíamos feito à Natal, no mês anterior. A frase havia sido dita meio que em tom de galhofa, mas não escondiam as verdades que permeavam sua cabeça. Estávamos ali, só eu e ela, numa praia selvagem, em meio a uma travessia de mais de 60 km e o sol castigava sem piedade, por isso havíamos nos detidos por um instante, aproveitando a sombra de uma grande boia náutica que, sem vida útil, foi terminar seus dias na areia da praia deserta.
Aos 46 anos, eu acabava de ser decretado ser inválido, imprestável para continuar minha jornada pelas grandes trilhas e travessias pelo Brasil e minha jovem filha, que mal havia passado dos 15 anos, havia feito o diagnóstico, só faltava enviar a papelada para o INSS. Insultar homens das montanhas, dizendo que ele não é mais capaz de realizar algo, mexe com seu brio e ali mesmo, sem pensar muito, envolto na emoção do momento, tentando assimilar o golpe, mandei de bate e pronto:
- Tá bom sua espertinha, quer tripudiar porque estou passando por um momento difícil, mas eu te DESAFIO a voltar, a realizarmos essa mesma travessia novamente, daqui há 10 anos.
Ela riu, seus olhos deixavam transparecer um pouco de desdenho, talvez um pouco de pena:
- Eu topo pai, mas seria bom você não ficar prometendo o que não poderá cumprir.
Dez anos se foram, escorreram pelos dedos. A minha aposentadoria foi NEGADA, na verdade, nesses últimos 10 anos, minha vida aventureira virou de ponta cabeça e acabei partindo para realizar as coisas mais INSANAS possíveis. Nesse intervalo de tempo, aprendi os rudimentos da escalada e me pendurei em paredes gigantes, escalei montanhas que nunca pensei em botar meus pés. O meu espírito desbravador saiu do módulo amador e alcançou patamares nunca antes imagináveis. Conquistei montanhas selvagens, onde nunca ninguém nos disse como subir e fincamos bandeiras onde nunca houve uma, não que a gente soubesse. A Serra do Mar Paulista virou um queijo suíço, de tanto que a percorremos, de norte a sul, indo a nascentes de rios selvagens e descendo por suas gargantas até a sua foz, e seus PICOS SELVAGENS foram caindo um a um. Aprendi a REMAR, remei em lago, lagoa, desci rios gigantes e enfrentei mar aberto, indo a ilhas distantes. Explorei lugares em Parques Nacionais onde a grande maioria dos turistas jamais ouviu falar, inclusive alguns em companhia da própria filha. E com ela fizemos viagens pelas entranhas do Brasil, acampando em tudo que é lugar, cachoeiras, montanhas, trilhas, tribos indígenas, cânions, cavernas, lagoas de águas azuis, dunas, cidades históricas, cerrado, caatinga, florestas. Fomos juntos aos Lençóis Maranhenses fazer travessias selvagens, Serras Gerais, Jalapão, Chapada dos Veadeiros, chapada dos Guimarães, Canastra, Serra do Cipó, praias selvagens. Exploramos o Mato Grosso de leste à oeste. Pedalei, caminhei, escalei, atravessei parte do continente sul-americano em viagens memoráveis, indo a vulcões, montanhas entupidas de gelo, gêiseres, oásis, salare, desertos, mares e oceanos distantes. Talvez tenha sido os 10 anos mais produtivos da minha vida. E assim, EMERGI em 2026, mais vivo do que nunca, pronto, prontíssimo para cobrar uma dívida, que o devedor achou que eu não estaria em condições de cobrar: JULIA, PAGUE O QUE ME É DEVIDO !!!
As tratativas para retornar à TRAVESSIA DO LAGAMAR, começou por pesquisar como andavam a logística para se chegar até Cananéia, no extremo litoral sul Paulista e foi aí que descobri, que passados 10 anos, nada havia mudado, pelo contrário, estava ainda pior, principalmente para nós que teríamos que partir do interior do Estado. Não havia ônibus e mesmo os que partiam da capital, saiam em horários estúpidos, ainda sim todos praticamente lotados. Então nos restou partir de Campinas em direção à Curitiba e descermos no meio do caminho, de madrugada, na cidade de Registro e nos hospedarmos numa espelunca qualquer, até que pudéssemos de manhã, partilhar um taxi, que nos levaria por mais um 80 km até a própria Cananéia.
Se 10 anos atrás, eu e a julia estávamos sozinhos, dessa vez estaríamos acompanhados da Emely, amiga dela e também dos meus novos amigos que viriam de Curitiba, Morato e Lu Dep , mas somente o primeiro nos encontrou na hospedagem em Registro, porque a Lu, com tempo disponível, rumou direto para o litoral e ficaria por lá nos aguardando. Assim que o dia nasceu, o nosso transporte, que já havíamos contratado no dia anterior, passou e nos pegou no hostel e em uma hora e meia, já estávamos no litoral, onde a própria Lu já havia desenrolado nosso barco, que deveria nos levar para a ILHA DO CARDOSO, onde se inicia nossa travessia.
O nosso barco partiu após às 10 da manhã e é impressionante como essa travessia para a Ilha do Cardoso, carrega uma certa magia, porque vamos cruzando por manguezais infestados de guarás vermelhos e vez ou outra, aos botos cinzas pulam para fora da água, tornando o espetáculo ainda mais grandioso. A viagem dura pouco mais de hora e meia, mas é tão prazerosa, que nem sentimos o tempo passar e quando desembarcamos na ilha, nesse feriado prolongado, a encontramos como a uma década atrás, totalmente vazia, ainda com energia de painéis solares, uma das vilas mais charmosas de todo o nosso litoral.
A nossa jornada toma o rumo sul, que vai cruzar toda a Vila de Marujá, a capital da Ilha do Cardoso. E é um grande prazer retornar ao pequeno vilarejo e podê-lo apresentar para os nossos amigos do Paraná, que por incrível que possa parecer, não o conheciam, nem a ilha e muito menos os próximos vilarejos que dividem o Estado deles com São Paulo e aí não tinha como eu não dizer em tom de brincadeira, que iria apresentar o quintal deles para eles mesmos (rsrsrsrsr). Vamos cruzando pelas casas dos caiçaras, um lado o mar, do outro, o canal por onde os barcos navegam em segurança, até que um fato inusitado nos tira do nosso caminho: Em uma das casas, sem muros, como todas as outras, uma festa religiosa que me pareceu muito com as folias de Santo Reis, muito tradicionais no interior Paulista, mas que depois ficamos sabendo ser a FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO, onde as músicas vindas de rabecas e outros instrumentos, vão hipnotizando a gente.
Abastecemos nossos cantis e seguimos rumo ao sul, quase até a vila acabar e tendo andado já uns 3 km desde que descemos do barco, desembocamos na grande praia, onde o horizonte se abre. Estamos definitivamente largados nos Mares do Sul e o sol brilha com força, o mar está translúcido e não há uma só alma viva que os nossos olhos alcance, nem ao sul e nem ao norte e agora nem tem por onde fugir, é botar os pés na areia dura da praia e enfrentar 60 km de pernadas que vai nos fazer cruzar de um Estado para o outro, andando por praias desertas, por vilarejos quase que incomunicáveis, terras caiçaras onde a tradição não se negocia.
Apesar de estar um dia extremamente quente, sopra um vento fresco que vai tornando a nossa vida um pouco melhor. No início, todos andamos juntos, mas logo, cada qual segue no seu ritmo, aproveitando o máximo que a praia e a liberdade lhe dá, mas 3 km depois, nos juntamos num só grupo e abandonamos a areia batida, em direção a uma casa que já havíamos identificado no mapa. A habitação estava vazia e não procurando o que fomos buscar, batemos em retirada, agora preocupadíssimos com a sequência da nossa jornada.
Ganhamos novamente a extensa praia e conforme fomos avançando, os olhos vão se deparando com algo que nos pareceu miragens, mas ao nos aproximarmos, já deu para notar que haviam pessoas mais à frente. Aceleramos o passo, porque a tarde já vai pela metade e havíamos de resolver o maior problema daquela travessia. A grupo parece animado, a Lu Dep se perde à beira mar, descalça, vai chutando água, parece hipnotizada pela imensidão que nos abraça, até que o próprio mar nos empurra para as beiradas da restinga e logo à frente, as areias da praia e do canal interior, se juntam em uma só e tendo andado uns 4 km depois da casa abandonada, nosso caminho por terra é interrompido por uma boca de canal que há 10 anos atrás nem existia, chegamos ao ESTREITO DO MELÃO.
Em 2016 a praia continuava e menos de 500 metros à frente, estaríamos na ENSEADA DA BALEIA, um vilarejo que contava até com uma pequena escola, mas hoje, jaz sob as águas do oceano, não sobrou nada para contar história, absolutamente nada, o mar e a areia arrastou tudo e onde outrora havia uma comunidade inteira, hoje abriu-se um canal de uns 300 metros de largura e agora seria preciso que a gente conseguisse um barco para nos atravessar para o outro lado, por isso entramos na casa abandonada, na esperança de encontrar um pescador que nos fizesse esse serviço.
Deixamos a praia e tomamos a direção do mar interno, onde avistamos alguns barcos aportados. Nos aproximamos e perguntamos se alguns deles não poderiam fazer o serviço de nos atravessar para o outro lado, mas todos, absolutamente todos, cagaram para o nosso pedido e as desculpas eram as mais esfarrapadas possíveis, então sem ter a quem socorrer, tentamos ligar para um barqueiro, que havíamos pegado o telefone em Marujá, mas sem internet, ficamos a ver navios, literalmente, presos a meio caminho de lugar nenhum e como ainda eram duas da tarde, jogamos nossos mochilas ao chão e corremos para o mar interior, se não havia solução, solucionado estava, fomos refrescar a cabeça e esperar que o destino resolvesse por nós.
A água do mar interior estava incrivelmente deliciosa e a pausa serviu para almoçarmos. Do outro lado do mar interior, já está o Estado do Paraná e uma trilha liga a antiga vila fantasma do Ararapira até a nova Barra do Ararapira. E a trilha passa ao lado do canal, do mar interior, que poderia ser atravessado ali onde estávamos, até a nado, caso a correnteza não fosse um problema, mas isso está fora de cogitação, temos pessoas no grupo que também não sabem nadar e nem viemos preparados para isso. O importante ali, era não cair no desespero, uma hora ou outra, a gente iria dar um jeito. Então contrariando o que eu mesmo escrevi, fiquei desesperadamente acenando para qualquer barco que passasse ao largo de onde estávamos, uma hora alguém haveria de se compadecer e vir nos socorrer. Barcos iam, barcos vinham, dos dois sentidos. Me mantive firme, balançando meus braços, implorando por atenção. Alguns olhavam com cara de nojo e desprezo, outros pareciam curiosos para saber que diabos queríamos, mas não saiam da sua rota, até que um em especial, embicou para o meu lado, saiu quase da outra margem e veio em nossa direção. Um pequeno barco carregado de madeira, pilotado por um casal já bem idosos, mas com aparência forte, deixando transparecer que eram nativos e não turistas. Aportaram e o pescador se apresentou como Aroldo e disse que não seria possível nos atravessar, mas que se esperássemos um pouco, ele retornaria com o barco vazio e nos levaria para o outro lado.
Menos de uma hora depois, o barco do seu Aroldo retornou, agora pilotado pelo seu filho, que nos apanhou e nos atravessou para o outro lado do canal, mas para o lado Paulista, justamente onde ficava o píer da VILA DA ENSEADA DA BALEIA, que obviamente não existe mais. E eu e a Julia, ficamos ali, meio que parados, olhando aquela imensidão de areia, que hoje enterrou tudo que ali havia. Nos lembramos da nossa foto em frente da escolinha, do almoço que fizemos sobre a sua sombra, das boas conversas com os pescadores, que com lagrimas nos olhos, nos disseram que a comunidade estava com os dias contados, que tudo poderia desaparecer. Hoje o mar e a areia levaram tudo, não sobrou um único tijolo, uma única telha, tudo se foi, não há nada que nos lembre que ali já fora uma vila vibrante.Nos contaram que a Nova Enseada da Baleia se mudou para mais perto do Marujá, foi reconstruída, mas a história se perdeu sob uma imensidão de água e areia.
Ganhamos novamente a extensa PRAIA DO PONTAL DO LESTE, agora nosso pensamento e nossas ações são guiadas por uma grande antena que nos serve de referência e por uma hora e vinte minutos vamos nos arrastar por mais uns 4 km de pernadas e na primeira oportunidade, deixamos a praia e adentramos em direção a um dos vilarejos mais icônicos do Estado de São Paulo e quiça de todo o litoral do Brasil. A chegada a Vila de Pontal do Leste, vai marcar um ponto importante da nossa travessia, porque a partir de agora, vamos abandonar o próprio Estado de São Paulo e fazer a travessia para o outro lado do canal interior, que já passa a ser Estado do Paraná e não é só isso, estaremos deixando o Parque Estadual da Ilha do Cardoso para definitivamente entrarmos no Parque Nacional do Superagui.
PONTAL DO LESTE é uma comunidade tradicional de pescadores e sua população pouco ultrapassa 50 pessoas e esses são os últimos metros de terras do litoral de São Paulo. Em 2016, quem tivesse disposição, poderia caminhar cerca de 18 km de praias até a vila de Marujá, mas agora, com a abertura do Estreito do Melão, a vila ficou totalmente isolada, sendo que já não é mais possível ir à capital da ilha por terra, mas em compensação, agora é possível ir andando do Pontal até a vila paranaense de Superagui, mas aí levaria impressionantes 26 km de pernadas, porque o canal que separava a vila, do Estado do Paraná, que era praticamente a foz do mar interno, simplesmente não existe mais, a areia tomou conta e virou praia novamente.
Reencontramos seu Aroldo para fazer o pagamento pelos serviços prestados, mas antes a gente já combinou a travessia do canal interno, porque eu fazia questão de acampar no vilarejo de BARRA DO ARARAPIRA, já que 10 anos atrás, eu e a Julia não tivemos a oportunidade de conhece-lo. Já passava muito das 17 horas, então nos apressamos para subir no barco, que faria a travessia, mas antes paramos para uma foto em frente a IGREJINHA DO PONTAL .
A travessia não dura nem 10 minutos e já aportamos no píer. Nos despedimos do simpático pescador, jogamos as mochilas nas costas a adentramos o pitoresco vilarejo, subindo uma trilha curta que nos deixou direto no camping e hospedagem do próprio irmão do Aroldo, onde jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado nosso longo dia de caminhada.
Em 2016, eu achei que a vila do lado Paulista era acanhada( Pontal) e me arrependi de não ter podido conhecer a vila do outro lado do canal( Barra do Ararapira), o lado paranaense, imaginei ser um povoado vibrante, cheio de pousadinhas e camping, bares e pequenos restaurantes e agora estávamos ali, 10 anos depois e mesmo antes de montarmos nossas barracas e nos pormos a fazer a nossa janta, largamos tudo e saímos para conhecer o lugar e nos darmos conta que se tratava de um minúsculo povoado, quase uma vila tão fantasma quando a sua homônima que foi engolida por parte do mar. Praticamente só existe uma rua, beirando o canal, onde as casas se espalham mato a dentro. Mesmo sendo parte de um feriado prolongado, tudo estava vazio, perturbadoramente vazio. Uma igrejinha modesta marca o que nos pareceu ser o centrinho da vila, mas tudo era sombrio, a tal ponto de eu brincar com o Marcelo Morato, dizendo que comparado com o lado paulista, havíamos voltado 100 anos no tempo, de tão atrasado que era aquele lugar. Mas atrasado não era adjetivo de feiura, pelo contrário, o cenário visto da ponta de um do píer, era belíssimo e encantador, mas essa impressão só teríamos no outro dia, com a luz do sol e os barquinhos dos pescadores navegando no silencio da manhã.
Bom, o certo é que a noite chegou e com iluminação das lanternas, voltamos para o acampamento e enquanto montávamos nossas barraquinhas, encomendamos uma rodada de ostras e ceviche para agregarmos a nossa janta. O banho é frio, mas o calor está mesmo de arrebentar. Quando a noite caiu de vez, os mosquitos se foram. Morato e a Lu Dep se entregaram ao vinho e a CATAIA, uma bebida tradicional, feito da folha de uma árvore que só existe aqui na BARRA DO ARARAPIRA, o chamado uísque caipira. Por fim, juntamos todas as comidas e nos lançamos ao banquete, posto encima de uma mesa de bilhar para coroar a simplicidade daquele momento.
Sete horas da manhã, estamos de pé, desmontando nossa barraquinha e tomando café. A noite não poderia ter sido mais espetacular e o dia prometia ser de muito sol e a expectativa estava em alta. Pouco mais de 500 m, nos leva de volta ao centrinho da Barra do Ararapira no sentido sul. As meninas simplesmente meteram o pé na frente, mas eu e o Morato queríamos saborear cada minuto no vilarejo, então adentramos numa saída e voltamos ao píer, onde um pescador solitário navegava lentamente nas águas tranquilas do canal. Nas águas límpidas, um peixe agulha nos chama a atenção pelo balé num vai em vem sob os nossos pés. À nossa direita, a igrejinha refletida na água, torna tudo mais bonito e encantador, a vontade que dá é de nos sentarmos ali e nos entregarmos ao ócio, a arte de não fazer nada, porque aquilo nos agrada profundamente.
Voltamos para a caminhada. Estamos agora numa trilha recém-inaugurada pelo Parque Nacional do Superagui. E ela começa lá na antiga Vila Fantasma do Ararapira e pode ser feita também por ciclistas, aliás, nessa travessia não encontramos um único grupo fazendo a pé além de nós, como foi também em 2016 e continuo afirmando que esse é um dos maiores desperdícios do trekking do Brasil, a caminhada que o país simplesmente fez questão de ignorar, ainda que a galera das 2 rodas tenha frequentado esporadicamente. Pois bem, a trilha larga vai entrar numa espécie de floresta litorânea, vai cruzando com uma infinidade de pontes pênsil, umas cinco ou seis, cansamos de contar, segue sempre para o sul, mas uns 3 km depois, vira radicalmente para leste e embica para a praia e em mais 1 km, nos devolve ao mar.
Foi exatamente nesse local que desembarcamos em 2016 vindo da comunidade do Pontal e agora poderíamos ter passado a pé, caso não tivéssemos optado por ir dormir do outro lado do canal, na Barra do Ararapira. Estamos oficialmente na PRAIA DESERTA DO SUPERAGUI, em terras Paranaenses, mas se voltarmos 2 minutos pela praia, estaremos exatamente na divisa dos dois Estados, que marca também o ponto mais ao sul do Litoral de São Paulo, sendo que o ponto mais ao norte, é a longínqua PRAIA DO CAMBURI, lá para as bandas de Ubatuba, na divisa com o Rio de Janeiro.
São 10 horas da manhã, o dia está lindamente ensolarado. As meninas estão bem animadas, as vezes aceleram na frente, enquanto eu e o Morato seguimos atrás, botando o papo em dia e nos divertindo com as pequenas coisas que vão surgindo ao longo da praia. Uns 2 km de caminhada e saímos da areia para adentrar no que nos pareceu ser um camping, mas se tratava apenas de uma casa humilde de pescadores, que naquele momento estava vazia e haviam apenas 2 ou 3 cachorros, tão magros que faria a cadela Baleia do clássico Vidas Secas, parecer obesa. Aproveitamos para abastecer nossos cantis numa torneira, que puxava água do solo e abastecemos a vasilha dos cães com água e um pouco de comida e voltamos para a travessia, deixando para trás aquela tapera e sua canoa, que nos pareceu já não prestar para coisa nenhuma.
Nessa travessia, acabamos por revezar a caminhada, andando com sapatilha, papete e tênis, mas hora ou outra acabamos andando descalço. Mas a areia sempre dura vai desgastando nossos pés e muitos de nós, já começam a dar sinais de que não irão chegar com os pés inteiros no final da travessia e olha que estamos apenas na metade do segundo dia. O jeito de aplacar um pouco do calor é ir chapinhando a beira mar, distraindo o olhar num oceano hipnotizante. As vezes a restinga é quebrado por algum arbusto e isso nos ajuda a nos mantermos decidido, tendo como objetivo esses pontos acima da linha da praia e quando chegamos numa das poucas sombras dessa parte da caminhada, atravessamos um riacho de águas salobras e nos jogamos ao chão para um descanso mais que merecido.
Como o sol estava mesmo de rachar, andamos mais uns 2 km e fomos buscar refúgio junto a uma placa que nos indicava o CAMPING 2 PINHEIROS, porque o Morato pensava em encontrar uma cerveja gelada , mas nem água gelada encontramos. Fomos atendidos gentilmente pela família que lá morava e imediatamente me lembrei que 10 anos atrás, aqueles rapazes eram as crianças que conhecemos no passado. Ainda era cedo e nas nossas cabeças, ainda nutríamos a esperança de ir acampar na Vila de Superagui, por isso fizemos uma parada rápida e já partimos novamente, retomamos nossa caminhada, enfrentando agora partes onde a maré alta nos empurrava cada vez mais para a restinga, onde RIOS DE ÁGUAS VERMELHAS transformaram a paisagem num espetáculo bonito de se ver.
Uma década atrás, quando aqui chegamos, fomos surpreendidos por um temporal avassalador. Nuvens pretas fizeram o céu desabar sobre nossas cabeças, enquanto os raios espocavam por todos os lados, num lugar onde a coisa mais alta, éramos nós mesmos, então eu e a Julia tivemos que bater em retirada e buscar abrigo na próxima habitação. Mas dessa vez o tempo estava perfeito e aproveitando o calor, nos jogamos para dentro dos rios de águas coloridas, até chegarmos na ponte que nos levaria ao CAMPING DO SEU ANTONIO. Mas não a ponte velha e caindo aos pedaços do passado, agora o próprio Parque Nacional havia construído uma nova, mas antes de atravessá-la, o próprio seu Antônio nos recebeu ali na areia da praia e nos conduziu até sua casa, mas disse que infelizmente sua mãe, a senhora simpática que havia nos dados abrigo no passado, já não era mais viva.
Seu Antônio mora ali naquele fim de mundo sozinho, na verdade, ele e sua gatinha. Aposentado, cuida do camping que atende vez ou outra, algum andarilho, mas o comum mesmo é receber alguns ciclistas, porque gente a pé não é tão comum. Já passava das 3 da tarde, aquele lugar e aquele senhor amável, nos cativou de certa maneira, que não foi possível mais dar nenhum passo naquele dia e mesmo que ainda seja muito cedo para acampar, a vontade de ficar foi muito maior, além do mais, a vila de Superagui ainda estava numa distância considerável, então, jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrado esse segundo dia de caminhada.
Como ainda era cedo e tínhamos muito sol, alguns aproveitaram a tarde livre para dar um mergulho no mar, enquanto outros apenas se dedicaram ao ócio, tirando um cochilo nas sobras das árvores do camping ou jogando conversa fora ao redor de um fogareiro, tomando um bom café, até a noite chegar e todos se reunirem na cozinha da casa do seu Antônio a fim de fazer uma janta coletiva, um verdadeiro banquete para coroar aquele segundo dia de travessia incrível. E ali não há energia elétrica, apenas painéis solares abastecem o lugar, onde celulares não servem para absolutamente nada e os barulhos vem do antigo radinho de pilha do pescador, que tocam músicas do interior, pura nostalgia e simplicidade, de um tempo que passa devagar, sem pressa, nos remetendo a um passado que ficou para trás há muitos anos.
Antes das nove da manhã, já estávamos atravessando a ponte sobre o rio que divide a propriedade do seu Antônio, das areias da Praia Deserta. O dia é novamente marcado por muito sol e não dá nem 1 km de andanças e nos chama a atenção, um boto cinza morto na areia. É de se pensar que uma caminhada longa em praias enormes com essa, poderia se tornar enfadonha, mas é justamente o contrário, sempre haverá algo para ver, algo no horizonte que vai nos chamando a atenção, um peixe que a onda trouxe e que ainda vivo se debate na beira mar, esperando que outra onda venha e lhe devolva para a água, um pássaro que dá rasante, uma concha diferente, uma carcaça de baiacu que já virou fóssil , uma pequeno riacho de águas cristalinas ou um grande rio de águas cor de coca cola que deverá ser cruzado, tudo é motivo para ir dispersando nossos pensamentos , enquanto caminhamos e pensamos na vida ou simplesmente deixamos que o tempo passe , enquanto nossos pés consomem quilometragens.
Uma boia náutica enterrada pela metade é avistada no horizonte e quando lá chegamos, fizemos uma pausa para apreciar a única sombra que teremos até chegarmos na entrada da trilha. E até lá chegarmos, já percorremos entre 6 e 7 km desde que deixamos o camping. A TRILHA que vai fazer com que abandonemos a praia momentaneamente está sinalizada por uma grande placa do Parque Nacional. Claro, poderíamos chegar até o próximo vilarejo continuando pela areia, mas dependo da maré, isso pode se tornar totalmente inviável, então decidimos cortar caminho pela trilha, mas antes, jogamos as mochilas ao chão e corremos todos para o mar, porque o sol já queima tudo que pode e é preciso aplacar o calor com um bom mergulho.
A trilha começa primeiramente a percorrer as restingas, vegetação rasteira e logo ganha partes de uma floresta, ainda que não sejam árvores muito altas, a sombra vem bem a calhar. Várias pontes são cruzadas e uns 3 km depois, talvez menos, cruzamos uma grande ponte para a esquerda e uns 300 m de caminhada, já por parte do vilarejo, ganhamos novamente a areia da praia e em outros 300 metros, interceptamos o centro do POVOADO DO SUPERAGUI. Engraçado, que minhas lembranças desse pequeno vilarejo eram de uma comunidade vibrante, mas dessa vez me pareceu um lugar acanhado e é estranho que em pleno feriado prolongado, tudo me pareceu vazio, meio que jogado às traças, mas isso também pouco importava, porque o dia já ia pela metade e estávamos famintos, então retornamos um pouco até um pequeno restaurante na beira da praia, onde serviam camarões a preços de banana.
O meu planejamento, era ter acampado aqui no Superagui no segundo dia, mas infelizmente não conseguimos chegar e agora deveríamos decidir se passaríamos o resto do dia por ali ou se ariscávamos seguir em frente e ir acampar na Vila das Peças. Era uma decisão ariscada, porque não há um camping regular na Ilha das Peças antes de chegar no vilarejo. Poderíamos ter que acampar selvagem, mas mesmo assim, ainda corríamos o risco de não termos água potável para fazer um acampamento descente e seriam uns 13 km de pernadas, muita coisa para quem já estava com os pés arrebentados por bolhas e outras chagas.
Não houve uma votação, também não me lembro quem decidiu seguir em frente, o certo é que rapidamente arrumamos um barqueiro para nos levar para o outro lado do canal, que divide o Superagui da Ilha das peças e agora empreenderíamos uma corrida contra o tempo, teríamos que lutar contra as nossas dores, o nosso cansaço, para chegar na civilização antes do anoitecer e essa ousadia iria nos pregar uma peça.
Na Ilha das Peças o cenário muda rapidamente. Aquela vegetação rasteira, composta por restinga, praticamente dá lugar para árvores da Mata atlântica, pelo menos na influência da maré. E por causa da maré, há muitas árvores tombadas, em certos lugares quase um cemitério de árvores mortas. Antes de retomarmos a caminhada, fizemos uma pausa para um outro mergulho no canal e para podermos colocar curativos nos nossos pés e assim, a areia da praia foi se tornando numa verdadeira enfermaria.
São pouco mais de duas horas da tarde, o tempo joga contra nós. Serão quase 14 km de caminhada, parece pouco, já que ainda nos restam pelo menos umas 4 horas de sol, mas não é isso que vai determinar nossa passada e sim o estado físico, o calor infernal e a nossa condição clínica, já que a grande maioria se encontra em estado lastimável. Eu mesmo já não consigo encontrar um meio agradável para andar, seja de papete, de sapatilha ou descalço porque as bolhas se espalharam por todos os lados dos pés. Mas será necessário ser resiliente, passar por cima das dores e aproveitar uma das paisagens mais bonitas da travessia, ainda porque agora teremos a companhia da ILHA DO MEL, que podemos avistar à nossa frente, com seu farol e sua fortaleza.
E o cenário vai mudando, vez ou outros pássaros levantam voo com a nossa chegada e no nosso radar, avistamos algo muito entranho, que nos pareceu estar bem perto, mas a amplitude do horizonte nos engana e caminhamos muito até nos depararmos com um objeto que pareceu ter caído do espaço, uma parte parecendo uma coxinha e a outra, semelhante a ORIN, a capsula que acabara de levar os astronautas ao redor da Lua, na missão ARTEMIS. Claro, era só mais um conjunto de boias náuticas, que foram encerrar seu ciclo ali nas areias das Praia da Ilha das Peças e aproveitando a sombra, jogamos as mochilas ao chão para mais um descanso merecido, hora de aliviar os pés e encontrar forças para continuar seguindo.
A caminhada foi retomada, mas em poucos minutos de andanças, fomos obrigados a nos deter novamente e já tendo andando cerca de 6 km desde quando desembarcamos, vindo da Vila de Superagui, nos deparamos com a TORRE TOMBADA, um gigante de pedra que foi derrubada pela força das marés. Essa torre fazia parte de um sistema de vigilância, uma espécie de farol que guiavam os barcos rumo ao porto Paranaguá, mas quando passamos por aqui em 2016, ela já havia caído há pelo menos uns 10 anos. A torre se tornou um marco dessa travessia, nessa parte da Ilha das Peças, por marcar quase que a metade do caminho percorrido, mesmo sabendo disso, o fato de os nossos relógios já marcar 16:30, me deixou preocupado, então foi hora de apertar o passo e torcer para a maré não subir e acabar nos barrando a passagem, porque se nem a grande torre aguentou, imagina nós.
O final da tarde foi chegando e a gente se arrastando pela praia deserta, sem encontrar um único vivente da nossa espécie. O cenário era cada vez mais encantador e no horizonte, mesmo que ainda muito longe, já dava para perceber a ponta das antenas da civilização, que tanto almejávamos naquele dia. No mar, a Ilha do Mel nos parecia cada vez mais próxima do outro lado do canal e vez ou outro, um dorso de um golfinho cinza nos alegrava a alma e nos fazia esquecer de que nossos pés já praticamente haviam desistido de nos carregar e o que nos fazia ainda continuar em movimento, era a força do ódio e a vontade incontrolável de não desistir de vez.
O terreno começou a mudar, a areia da praia começou a dar lugar a lajeados e uma grande faixa de areia se estendeu para dentro do mar, dividindo um rio interior com as águas salgadas. O sol se avermelhou e milhares de pássaros dançavam de um lado para o outro, num balé aéreo de beleza indescritível. Os botos resolvem dar um show, saltam as dezenas para fora da água e as meninas estão encantadas, hipnotizadas com o espetáculo .
O dia já agonizava quando cruzo uma lagoa, formada pela própria maré alta, que parece nos avisar que vai se crescer pra cima da gente. O sol é outro que nos avisa que já está indo embora e por isso mesmo , não me demoro a dar o último aviso para a galera, que insiste em não me acompanhar na travessia aquática.
-Gente, cuida com a maré, ela está subindo rapidamente.
-Haaa pai, olha que lindo, os golfinhos pulando, as aves voando, a gente vai ficar para ver o por do sol.
Puta que pariu, as meninas e o Morato estavam cobertos de razão: O cenário era mesmo deslumbrante, as centenas de pássaros subiam e desciam , voavam em circulos , enquanto os golfinhos saltavam para fora da água, num balé sincronizado e o sol se avermelhava no horizonte , um espetáculo para ser aplaudido de pé.
Eu, fico ali, deitado , apoiando minha cabeça sobre a mochila, pés carcomidos pelas bolhas, que nos castigaram nesses últimos 3 dias de travessias , com quase 60 km percorridos. O espetáculo foi grandioso, mas havia chegado a hora de pagar pelo espetáculo: O sol se foi e o resto do grupo atravessou a lagoa , enquanto eu já me pus à frente olhando a maré explodir no barranco rochoso .
Viche, agora fudeu , agora fudeu de verdade. A areia sumiu, as pedras riram na nossa cara , mas não foi por falta de aviso. A Lu já me pareceu assustada e eu já não tenho mais pés para aguentar tanta pedra.
A civilização está a não mais que 1 km e meio da gente, mas na minha cabeça, dormir pendurado feito um siri no pau, já me parece realidade. As ondas explodem na parede e por consequência, no nosso lombo e vai nos dando uma surra. Minha filha e a Emily se apoiam uma na outra e eu só tento me manter firme, enquanto dou firmesa para a Lu , que está assustada com a situação .
Morato no início se diverte, tenta filmar a situação, mas logo se da conta de que, se a gente não avançar rapidamente e alcançar a próxima faixa de areia, a situação pode sair do nosso controle.
A lua já era nossa companheira e em meio a escuridão da noite, presencia o nosso sofrimento. As ondas parecem aumentar de tamanho e continuam explodindo violentamente sobre nós, nos encurralando nas paredes rochosas. Eu quase já não consigo mais me segurar em pé e praticamente já não sirvo de apoio para a LU , na verdade, agora é um segurando o outro e vez ou oura, uma onda salta por cima de nós e a água gelada serve de combustível para que aceleremos os passos e quando tudo parece perdido, a pedraria fica para trás e conseguimos ganhar um faixa de areia mais larga, onde as ondas já chegam mansas. Estamos salvas, mas foi por pouco.
Fiquei pensando que nesse trecho poderia haver alguma trilha interna no mato e depois me cochicharam que ela realmente existe, mas quando vislumbrei essa possibilidade, não deu tempo de investigar e já estávamos encurralados pelo mar.
E sob a luz da lua, avançamos lentamente pela praia, agora sem nenhuma obstrução, corpos derretidos pela jornada, urrando de sede e de fome, cinco maltrapilhos que se arrastam em direção às luzes do vilarejo. Em 2016, eu e a julia finalizamos a travessia perto das 2 da tarde, mas na ocasião a gente caminhou no segundo dia até Superagui e desta vez, ficamos no meio da Praia Deserta, uns 10 km antes, mas igualmente há 10 anos atrás, também terminaríamos os quase 60 km de caminhada em 3 dias, mas agora, a noite, quando não há mais nenhuma embarcação que possa nos levar até Paranaguá. Mas nem precisa, mesmo que houvesse, ninguém queria ir embora, todos almejavam uma comida quentinha e uma cama confortável, já que ao passarmos pela periferia da VILA DAS PEÇAS, a capital da ilha, não encontramos nenhum camping, ainda que nos disseram que ele ou eles existam.
Antes de interceptarmos o trapiche, viramos à direita e chegamos a igreja da vila e atrás dela, negociamos uma hospedagem e como queriam nos tirar o couro, fomos obrigados a incorporar os mercadores turcos para conseguir um preço justo. Instalados confortavelmente, aproveitamos a cozinha da hospedagem para preparar nossa janta coletiva, que foi melhorada com uma dúzia de ostras colhidas na hora, vendidas a preços bem satisfatórios.
Deixamos tudo pronto para o outro dia, já que o barco popular para Paranaguá partiria as 8 da manhã, mas a Lu Dep, com tempo de sobra, optou por partir só na parte da tarde, queria poder aproveitar a vilinha por mais tempo e porque ela e o Morato já estavam praticamente em casa, já que são ali da região de Curitiba. E a chegada a Paranaguá me causa a mesma sensação de 10 anos atrás, por ser um lugar agradável aos olhos, mas novamente não tendo tempo para ficar e enquanto o Morato consegue a última passagem disponível para a Capital, eu, a Julia e a Emily, demoramos mais de hora para negociar um carro que nos deixou em Curitiba, de onde partimos de volta para São Paulo e de lá para Campinas, no interior do Estado.
A vida nos traz surpresas, há dias que estamos afundados num buraco e tudo nos parece próximo do fim e são nessas horas que nos levantamos do fundo do poço que nós próprios cavamos, escalamos os barrancos das dificuldades, para emergirmos mais fortes do que nunca. Naquele distante dia quente de outono de 2016, fui provocado pela minha filha, pela minha condição física momentânea, mas é claro, nem eu nem ela acreditamos nas palavras ditas em tom de brincadeira, mas fizemos daquela conversa despretensiosa, pretexto para continuarmos seguindo e hoje eu entendo as suas palavras como apenas uma suplica: “ VAI PAI, VAI VELHO FILHO DA MÃE, SE LEVANTA, NÃO DESISTA, AINDA NÃO É CHEGADA A HORA DE PARAR, AINDA HÁ MUITO O QUE VIVER. ”
Esse retorno ao LAGAMAR uma década depois, nos mostrou transformações que só a passagem do tempo poderia nos mostrar. A força implacável da natureza moldou um novo lugar, varreu do mapa uma comunidade inteira (Enseada da Baleia) sem deixar vestígios, mudou a vida e o cotidiano do último povoado do litoral sul do Estado de São Paulo (Pontal do Leste) e o isolou ainda mais. Mas o que me espantou mesmo, foi encontrar uma das travessias mais sensacionais do país, tão ou mais esquecida que há 10 anos atrás, uma caminhada que o turismo simplesmente ainda ignora, enquanto outros lugares estão abarrotados de gente.
E os vilarejos nos pareceu muito mais abandonados, mesmo estando em feriado prolongado. Mesmo nós, já não somos mais os mesmos de antes, porque os anos se passaram, a Julia agora é uma mulher, porque a menina se perdeu pela passagem do tempo, mas o que ainda não mudou, foi a nossa capacidade de ainda, nessa idade, podermos continuar nos encantando com a simplicidade que essas caminhadas nos trazem, ainda poder nos segurarmos sobre nossas pernas e avançarmos quantos quilômetros forem necessários, porque só ele, ele mesmo, O TEMPO é quem poderá nos dizer até onde vamos chegar.
( Abril 2016 Ilha do Cardoso)
VERÃO DE 2016:
- Acabou pai, infelizmente, sua jornada no mundo da aventura chegou ao fim e não fique triste, uma hora isso iria acontecer, porque o fim chega para todos, até que pela sua idade, você foi longe.
Minha filha Julia acabara de vomitar essa frase, num momento em que eu estava fragilizado por uma dor nas costas, proveniente de uma viagem de carro que havíamos feito à Natal, no mês anterior. A frase havia sido dita meio que em tom de galhofa, mas não escondiam as verdades que permeavam sua cabeça. Estávamos ali, só eu e ela, numa praia selvagem, em meio a uma travessia de mais de 60 km e o sol castigava sem piedade, por isso havíamos nos detidos por um instante, aproveitando a sombra de uma grande boia náutica que, sem vida útil, foi terminar seus dias na areia da praia deserta.
Aos 46 anos, eu acabava de ser decretado ser inválido, imprestável para continuar minha jornada pelas grandes trilhas e travessias pelo Brasil e minha jovem filha, que mal havia passado dos 15 anos, havia feito o diagnóstico, só faltava enviar a papelada para o INSS. Insultar homens das montanhas, dizendo que ele não é mais capaz de realizar algo, mexe com seu brio e ali mesmo, sem pensar muito, envolto na emoção do momento, tentando assimilar o golpe, mandei de bate e pronto:
- Tá bom sua espertinha, quer tripudiar porque estou passando por um momento difícil, mas eu te DESAFIO a voltar, a realizarmos essa mesma travessia novamente, daqui há 10 anos.
Ela riu, seus olhos deixavam transparecer um pouco de desdenho, talvez um pouco de pena:
- Eu topo pai, mas seria bom você não ficar prometendo o que não poderá cumprir.
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VERÃO 2026:
Dez anos se foram, escorreram pelos dedos. A minha aposentadoria foi NEGADA, na verdade, nesses últimos 10 anos, minha vida aventureira virou de ponta cabeça e acabei partindo para realizar as coisas mais INSANAS possíveis. Nesse intervalo de tempo, aprendi os rudimentos da escalada e me pendurei em paredes gigantes, escalei montanhas que nunca pensei em botar meus pés. O meu espírito desbravador saiu do módulo amador e alcançou patamares nunca antes imagináveis. Conquistei montanhas selvagens, onde nunca ninguém nos disse como subir e fincamos bandeiras onde nunca houve uma, não que a gente soubesse. A Serra do Mar Paulista virou um queijo suíço, de tanto que a percorremos, de norte a sul, indo a nascentes de rios selvagens e descendo por suas gargantas até a sua foz, e seus PICOS SELVAGENS foram caindo um a um. Aprendi a REMAR, remei em lago, lagoa, desci rios gigantes e enfrentei mar aberto, indo a ilhas distantes. Explorei lugares em Parques Nacionais onde a grande maioria dos turistas jamais ouviu falar, inclusive alguns em companhia da própria filha. E com ela fizemos viagens pelas entranhas do Brasil, acampando em tudo que é lugar, cachoeiras, montanhas, trilhas, tribos indígenas, cânions, cavernas, lagoas de águas azuis, dunas, cidades históricas, cerrado, caatinga, florestas. Fomos juntos aos Lençóis Maranhenses fazer travessias selvagens, Serras Gerais, Jalapão, Chapada dos Veadeiros, chapada dos Guimarães, Canastra, Serra do Cipó, praias selvagens. Exploramos o Mato Grosso de leste à oeste. Pedalei, caminhei, escalei, atravessei parte do continente sul-americano em viagens memoráveis, indo a vulcões, montanhas entupidas de gelo, gêiseres, oásis, salare, desertos, mares e oceanos distantes. Talvez tenha sido os 10 anos mais produtivos da minha vida. E assim, EMERGI em 2026, mais vivo do que nunca, pronto, prontíssimo para cobrar uma dívida, que o devedor achou que eu não estaria em condições de cobrar: JULIA, PAGUE O QUE ME É DEVIDO !!!
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As tratativas para retornar à TRAVESSIA DO LAGAMAR, começou por pesquisar como andavam a logística para se chegar até Cananéia, no extremo litoral sul Paulista e foi aí que descobri, que passados 10 anos, nada havia mudado, pelo contrário, estava ainda pior, principalmente para nós que teríamos que partir do interior do Estado. Não havia ônibus e mesmo os que partiam da capital, saiam em horários estúpidos, ainda sim todos praticamente lotados. Então nos restou partir de Campinas em direção à Curitiba e descermos no meio do caminho, de madrugada, na cidade de Registro e nos hospedarmos numa espelunca qualquer, até que pudéssemos de manhã, partilhar um taxi, que nos levaria por mais um 80 km até a própria Cananéia.
Se 10 anos atrás, eu e a julia estávamos sozinhos, dessa vez estaríamos acompanhados da Emely, amiga dela e também dos meus novos amigos que viriam de Curitiba, Morato e Lu Dep , mas somente o primeiro nos encontrou na hospedagem em Registro, porque a Lu, com tempo disponível, rumou direto para o litoral e ficaria por lá nos aguardando. Assim que o dia nasceu, o nosso transporte, que já havíamos contratado no dia anterior, passou e nos pegou no hostel e em uma hora e meia, já estávamos no litoral, onde a própria Lu já havia desenrolado nosso barco, que deveria nos levar para a ILHA DO CARDOSO, onde se inicia nossa travessia.
O nosso barco partiu após às 10 da manhã e é impressionante como essa travessia para a Ilha do Cardoso, carrega uma certa magia, porque vamos cruzando por manguezais infestados de guarás vermelhos e vez ou outra, aos botos cinzas pulam para fora da água, tornando o espetáculo ainda mais grandioso. A viagem dura pouco mais de hora e meia, mas é tão prazerosa, que nem sentimos o tempo passar e quando desembarcamos na ilha, nesse feriado prolongado, a encontramos como a uma década atrás, totalmente vazia, ainda com energia de painéis solares, uma das vilas mais charmosas de todo o nosso litoral.
A nossa jornada toma o rumo sul, que vai cruzar toda a Vila de Marujá, a capital da Ilha do Cardoso. E é um grande prazer retornar ao pequeno vilarejo e podê-lo apresentar para os nossos amigos do Paraná, que por incrível que possa parecer, não o conheciam, nem a ilha e muito menos os próximos vilarejos que dividem o Estado deles com São Paulo e aí não tinha como eu não dizer em tom de brincadeira, que iria apresentar o quintal deles para eles mesmos (rsrsrsrsr). Vamos cruzando pelas casas dos caiçaras, um lado o mar, do outro, o canal por onde os barcos navegam em segurança, até que um fato inusitado nos tira do nosso caminho: Em uma das casas, sem muros, como todas as outras, uma festa religiosa que me pareceu muito com as folias de Santo Reis, muito tradicionais no interior Paulista, mas que depois ficamos sabendo ser a FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO, onde as músicas vindas de rabecas e outros instrumentos, vão hipnotizando a gente.
Abastecemos nossos cantis e seguimos rumo ao sul, quase até a vila acabar e tendo andado já uns 3 km desde que descemos do barco, desembocamos na grande praia, onde o horizonte se abre. Estamos definitivamente largados nos Mares do Sul e o sol brilha com força, o mar está translúcido e não há uma só alma viva que os nossos olhos alcance, nem ao sul e nem ao norte e agora nem tem por onde fugir, é botar os pés na areia dura da praia e enfrentar 60 km de pernadas que vai nos fazer cruzar de um Estado para o outro, andando por praias desertas, por vilarejos quase que incomunicáveis, terras caiçaras onde a tradição não se negocia.
Apesar de estar um dia extremamente quente, sopra um vento fresco que vai tornando a nossa vida um pouco melhor. No início, todos andamos juntos, mas logo, cada qual segue no seu ritmo, aproveitando o máximo que a praia e a liberdade lhe dá, mas 3 km depois, nos juntamos num só grupo e abandonamos a areia batida, em direção a uma casa que já havíamos identificado no mapa. A habitação estava vazia e não procurando o que fomos buscar, batemos em retirada, agora preocupadíssimos com a sequência da nossa jornada.
Ganhamos novamente a extensa praia e conforme fomos avançando, os olhos vão se deparando com algo que nos pareceu miragens, mas ao nos aproximarmos, já deu para notar que haviam pessoas mais à frente. Aceleramos o passo, porque a tarde já vai pela metade e havíamos de resolver o maior problema daquela travessia. A grupo parece animado, a Lu Dep se perde à beira mar, descalça, vai chutando água, parece hipnotizada pela imensidão que nos abraça, até que o próprio mar nos empurra para as beiradas da restinga e logo à frente, as areias da praia e do canal interior, se juntam em uma só e tendo andado uns 4 km depois da casa abandonada, nosso caminho por terra é interrompido por uma boca de canal que há 10 anos atrás nem existia, chegamos ao ESTREITO DO MELÃO.
Em 2016 a praia continuava e menos de 500 metros à frente, estaríamos na ENSEADA DA BALEIA, um vilarejo que contava até com uma pequena escola, mas hoje, jaz sob as águas do oceano, não sobrou nada para contar história, absolutamente nada, o mar e a areia arrastou tudo e onde outrora havia uma comunidade inteira, hoje abriu-se um canal de uns 300 metros de largura e agora seria preciso que a gente conseguisse um barco para nos atravessar para o outro lado, por isso entramos na casa abandonada, na esperança de encontrar um pescador que nos fizesse esse serviço.
Deixamos a praia e tomamos a direção do mar interno, onde avistamos alguns barcos aportados. Nos aproximamos e perguntamos se alguns deles não poderiam fazer o serviço de nos atravessar para o outro lado, mas todos, absolutamente todos, cagaram para o nosso pedido e as desculpas eram as mais esfarrapadas possíveis, então sem ter a quem socorrer, tentamos ligar para um barqueiro, que havíamos pegado o telefone em Marujá, mas sem internet, ficamos a ver navios, literalmente, presos a meio caminho de lugar nenhum e como ainda eram duas da tarde, jogamos nossos mochilas ao chão e corremos para o mar interior, se não havia solução, solucionado estava, fomos refrescar a cabeça e esperar que o destino resolvesse por nós.
A água do mar interior estava incrivelmente deliciosa e a pausa serviu para almoçarmos. Do outro lado do mar interior, já está o Estado do Paraná e uma trilha liga a antiga vila fantasma do Ararapira até a nova Barra do Ararapira. E a trilha passa ao lado do canal, do mar interior, que poderia ser atravessado ali onde estávamos, até a nado, caso a correnteza não fosse um problema, mas isso está fora de cogitação, temos pessoas no grupo que também não sabem nadar e nem viemos preparados para isso. O importante ali, era não cair no desespero, uma hora ou outra, a gente iria dar um jeito. Então contrariando o que eu mesmo escrevi, fiquei desesperadamente acenando para qualquer barco que passasse ao largo de onde estávamos, uma hora alguém haveria de se compadecer e vir nos socorrer. Barcos iam, barcos vinham, dos dois sentidos. Me mantive firme, balançando meus braços, implorando por atenção. Alguns olhavam com cara de nojo e desprezo, outros pareciam curiosos para saber que diabos queríamos, mas não saiam da sua rota, até que um em especial, embicou para o meu lado, saiu quase da outra margem e veio em nossa direção. Um pequeno barco carregado de madeira, pilotado por um casal já bem idosos, mas com aparência forte, deixando transparecer que eram nativos e não turistas. Aportaram e o pescador se apresentou como Aroldo e disse que não seria possível nos atravessar, mas que se esperássemos um pouco, ele retornaria com o barco vazio e nos levaria para o outro lado.
Menos de uma hora depois, o barco do seu Aroldo retornou, agora pilotado pelo seu filho, que nos apanhou e nos atravessou para o outro lado do canal, mas para o lado Paulista, justamente onde ficava o píer da VILA DA ENSEADA DA BALEIA, que obviamente não existe mais. E eu e a Julia, ficamos ali, meio que parados, olhando aquela imensidão de areia, que hoje enterrou tudo que ali havia. Nos lembramos da nossa foto em frente da escolinha, do almoço que fizemos sobre a sua sombra, das boas conversas com os pescadores, que com lagrimas nos olhos, nos disseram que a comunidade estava com os dias contados, que tudo poderia desaparecer. Hoje o mar e a areia levaram tudo, não sobrou um único tijolo, uma única telha, tudo se foi, não há nada que nos lembre que ali já fora uma vila vibrante.Nos contaram que a Nova Enseada da Baleia se mudou para mais perto do Marujá, foi reconstruída, mas a história se perdeu sob uma imensidão de água e areia.
Ganhamos novamente a extensa PRAIA DO PONTAL DO LESTE, agora nosso pensamento e nossas ações são guiadas por uma grande antena que nos serve de referência e por uma hora e vinte minutos vamos nos arrastar por mais uns 4 km de pernadas e na primeira oportunidade, deixamos a praia e adentramos em direção a um dos vilarejos mais icônicos do Estado de São Paulo e quiça de todo o litoral do Brasil. A chegada a Vila de Pontal do Leste, vai marcar um ponto importante da nossa travessia, porque a partir de agora, vamos abandonar o próprio Estado de São Paulo e fazer a travessia para o outro lado do canal interior, que já passa a ser Estado do Paraná e não é só isso, estaremos deixando o Parque Estadual da Ilha do Cardoso para definitivamente entrarmos no Parque Nacional do Superagui.
PONTAL DO LESTE é uma comunidade tradicional de pescadores e sua população pouco ultrapassa 50 pessoas e esses são os últimos metros de terras do litoral de São Paulo. Em 2016, quem tivesse disposição, poderia caminhar cerca de 18 km de praias até a vila de Marujá, mas agora, com a abertura do Estreito do Melão, a vila ficou totalmente isolada, sendo que já não é mais possível ir à capital da ilha por terra, mas em compensação, agora é possível ir andando do Pontal até a vila paranaense de Superagui, mas aí levaria impressionantes 26 km de pernadas, porque o canal que separava a vila, do Estado do Paraná, que era praticamente a foz do mar interno, simplesmente não existe mais, a areia tomou conta e virou praia novamente.
Reencontramos seu Aroldo para fazer o pagamento pelos serviços prestados, mas antes a gente já combinou a travessia do canal interno, porque eu fazia questão de acampar no vilarejo de BARRA DO ARARAPIRA, já que 10 anos atrás, eu e a Julia não tivemos a oportunidade de conhece-lo. Já passava muito das 17 horas, então nos apressamos para subir no barco, que faria a travessia, mas antes paramos para uma foto em frente a IGREJINHA DO PONTAL .
A travessia não dura nem 10 minutos e já aportamos no píer. Nos despedimos do simpático pescador, jogamos as mochilas nas costas a adentramos o pitoresco vilarejo, subindo uma trilha curta que nos deixou direto no camping e hospedagem do próprio irmão do Aroldo, onde jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado nosso longo dia de caminhada.
Em 2016, eu achei que a vila do lado Paulista era acanhada( Pontal) e me arrependi de não ter podido conhecer a vila do outro lado do canal( Barra do Ararapira), o lado paranaense, imaginei ser um povoado vibrante, cheio de pousadinhas e camping, bares e pequenos restaurantes e agora estávamos ali, 10 anos depois e mesmo antes de montarmos nossas barracas e nos pormos a fazer a nossa janta, largamos tudo e saímos para conhecer o lugar e nos darmos conta que se tratava de um minúsculo povoado, quase uma vila tão fantasma quando a sua homônima que foi engolida por parte do mar. Praticamente só existe uma rua, beirando o canal, onde as casas se espalham mato a dentro. Mesmo sendo parte de um feriado prolongado, tudo estava vazio, perturbadoramente vazio. Uma igrejinha modesta marca o que nos pareceu ser o centrinho da vila, mas tudo era sombrio, a tal ponto de eu brincar com o Marcelo Morato, dizendo que comparado com o lado paulista, havíamos voltado 100 anos no tempo, de tão atrasado que era aquele lugar. Mas atrasado não era adjetivo de feiura, pelo contrário, o cenário visto da ponta de um do píer, era belíssimo e encantador, mas essa impressão só teríamos no outro dia, com a luz do sol e os barquinhos dos pescadores navegando no silencio da manhã.
Bom, o certo é que a noite chegou e com iluminação das lanternas, voltamos para o acampamento e enquanto montávamos nossas barraquinhas, encomendamos uma rodada de ostras e ceviche para agregarmos a nossa janta. O banho é frio, mas o calor está mesmo de arrebentar. Quando a noite caiu de vez, os mosquitos se foram. Morato e a Lu Dep se entregaram ao vinho e a CATAIA, uma bebida tradicional, feito da folha de uma árvore que só existe aqui na BARRA DO ARARAPIRA, o chamado uísque caipira. Por fim, juntamos todas as comidas e nos lançamos ao banquete, posto encima de uma mesa de bilhar para coroar a simplicidade daquele momento.
Sete horas da manhã, estamos de pé, desmontando nossa barraquinha e tomando café. A noite não poderia ter sido mais espetacular e o dia prometia ser de muito sol e a expectativa estava em alta. Pouco mais de 500 m, nos leva de volta ao centrinho da Barra do Ararapira no sentido sul. As meninas simplesmente meteram o pé na frente, mas eu e o Morato queríamos saborear cada minuto no vilarejo, então adentramos numa saída e voltamos ao píer, onde um pescador solitário navegava lentamente nas águas tranquilas do canal. Nas águas límpidas, um peixe agulha nos chama a atenção pelo balé num vai em vem sob os nossos pés. À nossa direita, a igrejinha refletida na água, torna tudo mais bonito e encantador, a vontade que dá é de nos sentarmos ali e nos entregarmos ao ócio, a arte de não fazer nada, porque aquilo nos agrada profundamente.
Voltamos para a caminhada. Estamos agora numa trilha recém-inaugurada pelo Parque Nacional do Superagui. E ela começa lá na antiga Vila Fantasma do Ararapira e pode ser feita também por ciclistas, aliás, nessa travessia não encontramos um único grupo fazendo a pé além de nós, como foi também em 2016 e continuo afirmando que esse é um dos maiores desperdícios do trekking do Brasil, a caminhada que o país simplesmente fez questão de ignorar, ainda que a galera das 2 rodas tenha frequentado esporadicamente. Pois bem, a trilha larga vai entrar numa espécie de floresta litorânea, vai cruzando com uma infinidade de pontes pênsil, umas cinco ou seis, cansamos de contar, segue sempre para o sul, mas uns 3 km depois, vira radicalmente para leste e embica para a praia e em mais 1 km, nos devolve ao mar.
Foi exatamente nesse local que desembarcamos em 2016 vindo da comunidade do Pontal e agora poderíamos ter passado a pé, caso não tivéssemos optado por ir dormir do outro lado do canal, na Barra do Ararapira. Estamos oficialmente na PRAIA DESERTA DO SUPERAGUI, em terras Paranaenses, mas se voltarmos 2 minutos pela praia, estaremos exatamente na divisa dos dois Estados, que marca também o ponto mais ao sul do Litoral de São Paulo, sendo que o ponto mais ao norte, é a longínqua PRAIA DO CAMBURI, lá para as bandas de Ubatuba, na divisa com o Rio de Janeiro.
São 10 horas da manhã, o dia está lindamente ensolarado. As meninas estão bem animadas, as vezes aceleram na frente, enquanto eu e o Morato seguimos atrás, botando o papo em dia e nos divertindo com as pequenas coisas que vão surgindo ao longo da praia. Uns 2 km de caminhada e saímos da areia para adentrar no que nos pareceu ser um camping, mas se tratava apenas de uma casa humilde de pescadores, que naquele momento estava vazia e haviam apenas 2 ou 3 cachorros, tão magros que faria a cadela Baleia do clássico Vidas Secas, parecer obesa. Aproveitamos para abastecer nossos cantis numa torneira, que puxava água do solo e abastecemos a vasilha dos cães com água e um pouco de comida e voltamos para a travessia, deixando para trás aquela tapera e sua canoa, que nos pareceu já não prestar para coisa nenhuma.
Nessa travessia, acabamos por revezar a caminhada, andando com sapatilha, papete e tênis, mas hora ou outra acabamos andando descalço. Mas a areia sempre dura vai desgastando nossos pés e muitos de nós, já começam a dar sinais de que não irão chegar com os pés inteiros no final da travessia e olha que estamos apenas na metade do segundo dia. O jeito de aplacar um pouco do calor é ir chapinhando a beira mar, distraindo o olhar num oceano hipnotizante. As vezes a restinga é quebrado por algum arbusto e isso nos ajuda a nos mantermos decidido, tendo como objetivo esses pontos acima da linha da praia e quando chegamos numa das poucas sombras dessa parte da caminhada, atravessamos um riacho de águas salobras e nos jogamos ao chão para um descanso mais que merecido.
Como o sol estava mesmo de rachar, andamos mais uns 2 km e fomos buscar refúgio junto a uma placa que nos indicava o CAMPING 2 PINHEIROS, porque o Morato pensava em encontrar uma cerveja gelada , mas nem água gelada encontramos. Fomos atendidos gentilmente pela família que lá morava e imediatamente me lembrei que 10 anos atrás, aqueles rapazes eram as crianças que conhecemos no passado. Ainda era cedo e nas nossas cabeças, ainda nutríamos a esperança de ir acampar na Vila de Superagui, por isso fizemos uma parada rápida e já partimos novamente, retomamos nossa caminhada, enfrentando agora partes onde a maré alta nos empurrava cada vez mais para a restinga, onde RIOS DE ÁGUAS VERMELHAS transformaram a paisagem num espetáculo bonito de se ver.
Uma década atrás, quando aqui chegamos, fomos surpreendidos por um temporal avassalador. Nuvens pretas fizeram o céu desabar sobre nossas cabeças, enquanto os raios espocavam por todos os lados, num lugar onde a coisa mais alta, éramos nós mesmos, então eu e a Julia tivemos que bater em retirada e buscar abrigo na próxima habitação. Mas dessa vez o tempo estava perfeito e aproveitando o calor, nos jogamos para dentro dos rios de águas coloridas, até chegarmos na ponte que nos levaria ao CAMPING DO SEU ANTONIO. Mas não a ponte velha e caindo aos pedaços do passado, agora o próprio Parque Nacional havia construído uma nova, mas antes de atravessá-la, o próprio seu Antônio nos recebeu ali na areia da praia e nos conduziu até sua casa, mas disse que infelizmente sua mãe, a senhora simpática que havia nos dados abrigo no passado, já não era mais viva.
Seu Antônio mora ali naquele fim de mundo sozinho, na verdade, ele e sua gatinha. Aposentado, cuida do camping que atende vez ou outra, algum andarilho, mas o comum mesmo é receber alguns ciclistas, porque gente a pé não é tão comum. Já passava das 3 da tarde, aquele lugar e aquele senhor amável, nos cativou de certa maneira, que não foi possível mais dar nenhum passo naquele dia e mesmo que ainda seja muito cedo para acampar, a vontade de ficar foi muito maior, além do mais, a vila de Superagui ainda estava numa distância considerável, então, jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrado esse segundo dia de caminhada.
Como ainda era cedo e tínhamos muito sol, alguns aproveitaram a tarde livre para dar um mergulho no mar, enquanto outros apenas se dedicaram ao ócio, tirando um cochilo nas sobras das árvores do camping ou jogando conversa fora ao redor de um fogareiro, tomando um bom café, até a noite chegar e todos se reunirem na cozinha da casa do seu Antônio a fim de fazer uma janta coletiva, um verdadeiro banquete para coroar aquele segundo dia de travessia incrível. E ali não há energia elétrica, apenas painéis solares abastecem o lugar, onde celulares não servem para absolutamente nada e os barulhos vem do antigo radinho de pilha do pescador, que tocam músicas do interior, pura nostalgia e simplicidade, de um tempo que passa devagar, sem pressa, nos remetendo a um passado que ficou para trás há muitos anos.
Antes das nove da manhã, já estávamos atravessando a ponte sobre o rio que divide a propriedade do seu Antônio, das areias da Praia Deserta. O dia é novamente marcado por muito sol e não dá nem 1 km de andanças e nos chama a atenção, um boto cinza morto na areia. É de se pensar que uma caminhada longa em praias enormes com essa, poderia se tornar enfadonha, mas é justamente o contrário, sempre haverá algo para ver, algo no horizonte que vai nos chamando a atenção, um peixe que a onda trouxe e que ainda vivo se debate na beira mar, esperando que outra onda venha e lhe devolva para a água, um pássaro que dá rasante, uma concha diferente, uma carcaça de baiacu que já virou fóssil , uma pequeno riacho de águas cristalinas ou um grande rio de águas cor de coca cola que deverá ser cruzado, tudo é motivo para ir dispersando nossos pensamentos , enquanto caminhamos e pensamos na vida ou simplesmente deixamos que o tempo passe , enquanto nossos pés consomem quilometragens.
Uma boia náutica enterrada pela metade é avistada no horizonte e quando lá chegamos, fizemos uma pausa para apreciar a única sombra que teremos até chegarmos na entrada da trilha. E até lá chegarmos, já percorremos entre 6 e 7 km desde que deixamos o camping. A TRILHA que vai fazer com que abandonemos a praia momentaneamente está sinalizada por uma grande placa do Parque Nacional. Claro, poderíamos chegar até o próximo vilarejo continuando pela areia, mas dependo da maré, isso pode se tornar totalmente inviável, então decidimos cortar caminho pela trilha, mas antes, jogamos as mochilas ao chão e corremos todos para o mar, porque o sol já queima tudo que pode e é preciso aplacar o calor com um bom mergulho.
A trilha começa primeiramente a percorrer as restingas, vegetação rasteira e logo ganha partes de uma floresta, ainda que não sejam árvores muito altas, a sombra vem bem a calhar. Várias pontes são cruzadas e uns 3 km depois, talvez menos, cruzamos uma grande ponte para a esquerda e uns 300 m de caminhada, já por parte do vilarejo, ganhamos novamente a areia da praia e em outros 300 metros, interceptamos o centro do POVOADO DO SUPERAGUI. Engraçado, que minhas lembranças desse pequeno vilarejo eram de uma comunidade vibrante, mas dessa vez me pareceu um lugar acanhado e é estranho que em pleno feriado prolongado, tudo me pareceu vazio, meio que jogado às traças, mas isso também pouco importava, porque o dia já ia pela metade e estávamos famintos, então retornamos um pouco até um pequeno restaurante na beira da praia, onde serviam camarões a preços de banana.
O meu planejamento, era ter acampado aqui no Superagui no segundo dia, mas infelizmente não conseguimos chegar e agora deveríamos decidir se passaríamos o resto do dia por ali ou se ariscávamos seguir em frente e ir acampar na Vila das Peças. Era uma decisão ariscada, porque não há um camping regular na Ilha das Peças antes de chegar no vilarejo. Poderíamos ter que acampar selvagem, mas mesmo assim, ainda corríamos o risco de não termos água potável para fazer um acampamento descente e seriam uns 13 km de pernadas, muita coisa para quem já estava com os pés arrebentados por bolhas e outras chagas.
Não houve uma votação, também não me lembro quem decidiu seguir em frente, o certo é que rapidamente arrumamos um barqueiro para nos levar para o outro lado do canal, que divide o Superagui da Ilha das peças e agora empreenderíamos uma corrida contra o tempo, teríamos que lutar contra as nossas dores, o nosso cansaço, para chegar na civilização antes do anoitecer e essa ousadia iria nos pregar uma peça.
Na Ilha das Peças o cenário muda rapidamente. Aquela vegetação rasteira, composta por restinga, praticamente dá lugar para árvores da Mata atlântica, pelo menos na influência da maré. E por causa da maré, há muitas árvores tombadas, em certos lugares quase um cemitério de árvores mortas. Antes de retomarmos a caminhada, fizemos uma pausa para um outro mergulho no canal e para podermos colocar curativos nos nossos pés e assim, a areia da praia foi se tornando numa verdadeira enfermaria.
São pouco mais de duas horas da tarde, o tempo joga contra nós. Serão quase 14 km de caminhada, parece pouco, já que ainda nos restam pelo menos umas 4 horas de sol, mas não é isso que vai determinar nossa passada e sim o estado físico, o calor infernal e a nossa condição clínica, já que a grande maioria se encontra em estado lastimável. Eu mesmo já não consigo encontrar um meio agradável para andar, seja de papete, de sapatilha ou descalço porque as bolhas se espalharam por todos os lados dos pés. Mas será necessário ser resiliente, passar por cima das dores e aproveitar uma das paisagens mais bonitas da travessia, ainda porque agora teremos a companhia da ILHA DO MEL, que podemos avistar à nossa frente, com seu farol e sua fortaleza.
E o cenário vai mudando, vez ou outros pássaros levantam voo com a nossa chegada e no nosso radar, avistamos algo muito entranho, que nos pareceu estar bem perto, mas a amplitude do horizonte nos engana e caminhamos muito até nos depararmos com um objeto que pareceu ter caído do espaço, uma parte parecendo uma coxinha e a outra, semelhante a ORIN, a capsula que acabara de levar os astronautas ao redor da Lua, na missão ARTEMIS. Claro, era só mais um conjunto de boias náuticas, que foram encerrar seu ciclo ali nas areias das Praia da Ilha das Peças e aproveitando a sombra, jogamos as mochilas ao chão para mais um descanso merecido, hora de aliviar os pés e encontrar forças para continuar seguindo.
A caminhada foi retomada, mas em poucos minutos de andanças, fomos obrigados a nos deter novamente e já tendo andando cerca de 6 km desde quando desembarcamos, vindo da Vila de Superagui, nos deparamos com a TORRE TOMBADA, um gigante de pedra que foi derrubada pela força das marés. Essa torre fazia parte de um sistema de vigilância, uma espécie de farol que guiavam os barcos rumo ao porto Paranaguá, mas quando passamos por aqui em 2016, ela já havia caído há pelo menos uns 10 anos. A torre se tornou um marco dessa travessia, nessa parte da Ilha das Peças, por marcar quase que a metade do caminho percorrido, mesmo sabendo disso, o fato de os nossos relógios já marcar 16:30, me deixou preocupado, então foi hora de apertar o passo e torcer para a maré não subir e acabar nos barrando a passagem, porque se nem a grande torre aguentou, imagina nós.
O final da tarde foi chegando e a gente se arrastando pela praia deserta, sem encontrar um único vivente da nossa espécie. O cenário era cada vez mais encantador e no horizonte, mesmo que ainda muito longe, já dava para perceber a ponta das antenas da civilização, que tanto almejávamos naquele dia. No mar, a Ilha do Mel nos parecia cada vez mais próxima do outro lado do canal e vez ou outro, um dorso de um golfinho cinza nos alegrava a alma e nos fazia esquecer de que nossos pés já praticamente haviam desistido de nos carregar e o que nos fazia ainda continuar em movimento, era a força do ódio e a vontade incontrolável de não desistir de vez.
O terreno começou a mudar, a areia da praia começou a dar lugar a lajeados e uma grande faixa de areia se estendeu para dentro do mar, dividindo um rio interior com as águas salgadas. O sol se avermelhou e milhares de pássaros dançavam de um lado para o outro, num balé aéreo de beleza indescritível. Os botos resolvem dar um show, saltam as dezenas para fora da água e as meninas estão encantadas, hipnotizadas com o espetáculo .
O dia já agonizava quando cruzo uma lagoa, formada pela própria maré alta, que parece nos avisar que vai se crescer pra cima da gente. O sol é outro que nos avisa que já está indo embora e por isso mesmo , não me demoro a dar o último aviso para a galera, que insiste em não me acompanhar na travessia aquática.
-Gente, cuida com a maré, ela está subindo rapidamente.
-Haaa pai, olha que lindo, os golfinhos pulando, as aves voando, a gente vai ficar para ver o por do sol.
Puta que pariu, as meninas e o Morato estavam cobertos de razão: O cenário era mesmo deslumbrante, as centenas de pássaros subiam e desciam , voavam em circulos , enquanto os golfinhos saltavam para fora da água, num balé sincronizado e o sol se avermelhava no horizonte , um espetáculo para ser aplaudido de pé.
Eu, fico ali, deitado , apoiando minha cabeça sobre a mochila, pés carcomidos pelas bolhas, que nos castigaram nesses últimos 3 dias de travessias , com quase 60 km percorridos. O espetáculo foi grandioso, mas havia chegado a hora de pagar pelo espetáculo: O sol se foi e o resto do grupo atravessou a lagoa , enquanto eu já me pus à frente olhando a maré explodir no barranco rochoso .
Viche, agora fudeu , agora fudeu de verdade. A areia sumiu, as pedras riram na nossa cara , mas não foi por falta de aviso. A Lu já me pareceu assustada e eu já não tenho mais pés para aguentar tanta pedra.
A civilização está a não mais que 1 km e meio da gente, mas na minha cabeça, dormir pendurado feito um siri no pau, já me parece realidade. As ondas explodem na parede e por consequência, no nosso lombo e vai nos dando uma surra. Minha filha e a Emily se apoiam uma na outra e eu só tento me manter firme, enquanto dou firmesa para a Lu , que está assustada com a situação .
Morato no início se diverte, tenta filmar a situação, mas logo se da conta de que, se a gente não avançar rapidamente e alcançar a próxima faixa de areia, a situação pode sair do nosso controle.
A lua já era nossa companheira e em meio a escuridão da noite, presencia o nosso sofrimento. As ondas parecem aumentar de tamanho e continuam explodindo violentamente sobre nós, nos encurralando nas paredes rochosas. Eu quase já não consigo mais me segurar em pé e praticamente já não sirvo de apoio para a LU , na verdade, agora é um segurando o outro e vez ou oura, uma onda salta por cima de nós e a água gelada serve de combustível para que aceleremos os passos e quando tudo parece perdido, a pedraria fica para trás e conseguimos ganhar um faixa de areia mais larga, onde as ondas já chegam mansas. Estamos salvas, mas foi por pouco.
Fiquei pensando que nesse trecho poderia haver alguma trilha interna no mato e depois me cochicharam que ela realmente existe, mas quando vislumbrei essa possibilidade, não deu tempo de investigar e já estávamos encurralados pelo mar.
E sob a luz da lua, avançamos lentamente pela praia, agora sem nenhuma obstrução, corpos derretidos pela jornada, urrando de sede e de fome, cinco maltrapilhos que se arrastam em direção às luzes do vilarejo. Em 2016, eu e a julia finalizamos a travessia perto das 2 da tarde, mas na ocasião a gente caminhou no segundo dia até Superagui e desta vez, ficamos no meio da Praia Deserta, uns 10 km antes, mas igualmente há 10 anos atrás, também terminaríamos os quase 60 km de caminhada em 3 dias, mas agora, a noite, quando não há mais nenhuma embarcação que possa nos levar até Paranaguá. Mas nem precisa, mesmo que houvesse, ninguém queria ir embora, todos almejavam uma comida quentinha e uma cama confortável, já que ao passarmos pela periferia da VILA DAS PEÇAS, a capital da ilha, não encontramos nenhum camping, ainda que nos disseram que ele ou eles existam.
Antes de interceptarmos o trapiche, viramos à direita e chegamos a igreja da vila e atrás dela, negociamos uma hospedagem e como queriam nos tirar o couro, fomos obrigados a incorporar os mercadores turcos para conseguir um preço justo. Instalados confortavelmente, aproveitamos a cozinha da hospedagem para preparar nossa janta coletiva, que foi melhorada com uma dúzia de ostras colhidas na hora, vendidas a preços bem satisfatórios.
Deixamos tudo pronto para o outro dia, já que o barco popular para Paranaguá partiria as 8 da manhã, mas a Lu Dep, com tempo de sobra, optou por partir só na parte da tarde, queria poder aproveitar a vilinha por mais tempo e porque ela e o Morato já estavam praticamente em casa, já que são ali da região de Curitiba. E a chegada a Paranaguá me causa a mesma sensação de 10 anos atrás, por ser um lugar agradável aos olhos, mas novamente não tendo tempo para ficar e enquanto o Morato consegue a última passagem disponível para a Capital, eu, a Julia e a Emily, demoramos mais de hora para negociar um carro que nos deixou em Curitiba, de onde partimos de volta para São Paulo e de lá para Campinas, no interior do Estado.
A vida nos traz surpresas, há dias que estamos afundados num buraco e tudo nos parece próximo do fim e são nessas horas que nos levantamos do fundo do poço que nós próprios cavamos, escalamos os barrancos das dificuldades, para emergirmos mais fortes do que nunca. Naquele distante dia quente de outono de 2016, fui provocado pela minha filha, pela minha condição física momentânea, mas é claro, nem eu nem ela acreditamos nas palavras ditas em tom de brincadeira, mas fizemos daquela conversa despretensiosa, pretexto para continuarmos seguindo e hoje eu entendo as suas palavras como apenas uma suplica: “ VAI PAI, VAI VELHO FILHO DA MÃE, SE LEVANTA, NÃO DESISTA, AINDA NÃO É CHEGADA A HORA DE PARAR, AINDA HÁ MUITO O QUE VIVER. ”
Esse retorno ao LAGAMAR uma década depois, nos mostrou transformações que só a passagem do tempo poderia nos mostrar. A força implacável da natureza moldou um novo lugar, varreu do mapa uma comunidade inteira (Enseada da Baleia) sem deixar vestígios, mudou a vida e o cotidiano do último povoado do litoral sul do Estado de São Paulo (Pontal do Leste) e o isolou ainda mais. Mas o que me espantou mesmo, foi encontrar uma das travessias mais sensacionais do país, tão ou mais esquecida que há 10 anos atrás, uma caminhada que o turismo simplesmente ainda ignora, enquanto outros lugares estão abarrotados de gente.
E os vilarejos nos pareceu muito mais abandonados, mesmo estando em feriado prolongado. Mesmo nós, já não somos mais os mesmos de antes, porque os anos se passaram, a Julia agora é uma mulher, porque a menina se perdeu pela passagem do tempo, mas o que ainda não mudou, foi a nossa capacidade de ainda, nessa idade, podermos continuar nos encantando com a simplicidade que essas caminhadas nos trazem, ainda poder nos segurarmos sobre nossas pernas e avançarmos quantos quilômetros forem necessários, porque só ele, ele mesmo, O TEMPO é quem poderá nos dizer até onde vamos chegar.
DIVANEI – ABRIL/2026