Olá amigos! Apesar de ser português resolvi pôr aqui no forum um relato da viagem que fiz à Tunísia. Aqui em Portugal não há foruns destes para falarmos de viagens. Espero que não se importem. Afinal somos povos irmãos! []
Hoje vou pôr aqui o primeiro e segundo dia. E depois vou acrescentando, como fez o "thiagodesa".
Aqui vai então;
TUNÍSIA - Dia 1
Chegámos a Monastir por volta das 22:00 e fomos recebidos por um ar abafado que fez questão de nos lembrar que estávamos em África. À falta de uma espera digna de um Chefe de Estado, foi o melhor que se pôde arranjar!!!
Daqui dirigimo-nos para Tunis, a capital, 165 km a noroeste. Pelo caminho observámos uma tempestade que "atacava" algures no centro do país e a ideia que nos assolou o espírito foi de que íamos ter uma semana de chuva, o que não é agradável, principalmente num país conhecido pelo seu calor.
Secretamente fizemos "figas" para que tal não acontecesse e resolvemos mudar o nosso pensamento experimentando as telecomunicações do país.
A primeira imagem que tivemos da capital, Tunis, foi de que as alterações climáticas fruto da poluição tinham atingido mais cedo a Tunísia e a capital estava transformada numa Veneza africana! Havia água por todo o lado, e onde não havia, a enorme quantidade de lama lembrava que a mesma havia passado por ali há pouco.
Da cidade propriamente dita, a única coisa que vislumbrámos foi uma rotunda com um relógio estilo "Big Ben" no centro. Mais foi impossível, pois o motorista após troca de palavras acaloradas com vários condutores, acelerava de uma maneira, que começámos a fazer apostas para saber quanto tempo demorávamos até chocar com algo. ou alguém.!
*
De manhã acordei sobressaltado com o telefone; atendi e do outro lado respondeu-me uma voz em francês; feito pacóvio, qual debutante nestas andanças, agradeci e ia continuar a falar quando me apercebi que se tratava de uma gravação!
As vistas do quarto de hotel davam para o edifício da televisão pública, com um guarda armado em cada esquina, lembrando-me que não estava num país propriamente democrático.
Os restantes edifícios demonstravam a pobreza da população com fachadas brancas a precisar de uma nova pintura e quase todas em adiantado estado de degradação.
Ao nível do solo a imagem foi um pouco atenuada; as avenidas eram arborizadas, tentando dar alguma frescura ás horas de maior calor e o res-do-chão da maioria dos edifícios era ocupada por lojas, umas com um aspecto mais ocidentalizado, outras cujos proprietários as mantinham fiéis ao aspecto inicial, com portadas de madeira e inscrições árabes nas paredes interiores e por cima da porta principal.
A água tinha desaparecido mas tinha deixado lembranças, como a lama seca que se encontrava por todo o lado e o pó que a mesma originava, sujando passeios, montras e veículos.
A primeira visita do dia foi à localidade de Dougga, a sudoeste da capital; Dougga fica a 550 mts acima do nível do mar e era um local estratégico para os Romanos; o reino de Numídia era um aliado de Roma e uma vez que Dougga ficava perto do epicentro Cartaginês, com o desaparecimento das guerras entre o reino de Numidia e Cartago, a cidade transformou-se num centro administrativo, prestando preciosa ajuda aos Romanos que pretendiam tomar o reino de Cartago.
Aqui entrámos no mundo antigo dos Romanos. Primeiro o anfiteatro, depois o Capitólio e de seguida o resto da cidade, com destaque para os banhos e o ginásio, mostram a grandeza e extrema organização deste povo.
O anfiteatro, relativamente bem conservado, ainda hoje acolhe as festas da cidade e dá-nos uma ideia de como era a vida social antigamente. Aqui assistia-se a peças de teatro, declamações, com os senhores mais importantes a ocuparem os primeiros lugares e o povo a ficar na parte superior das bancadas. Embora muitos digam que isto era uma forma de discriminação, a minha teoria, após estar sentado na bancada do povo, é que o objectivo seria evitar que, quando o programa não estava a agradar, alguns objectos estranhos ao espectáculo chegassem ao palco! Mas para isto tinha de partir do princípio que os senhores eram pessoas educadas. só que me esqueci que o exemplo nem sempre vem de cima.
O Capitólio, construído em honra de Júpiter, Juno e Minerva, impressiona pela grandiosidade e pelos minuciosos relevos que apresenta na sua parte superior.
Abaixo do Capitólio temos o antigo mercado de escravos, local onde eram expostos os mesmos e onde ainda vemos as argolas que os mantinham presos ao chão. Mesmo a muitos anos de distância, ainda podemos sentir um certo ambiente pesado que parece ter ficado no local para a eternidade.
Continuando à descoberta destas ruínas, chegámos à zona dos banhos que ainda conserva alguns mosaicos com cenas da vida quotidiana e o ginásio, agora deserto, pôs-me a pensar que tipo de ginástica faria quem vivesse naquele tempo. Sem "passadeira", sem "pesos", sem estrado para abdominais. que diabo! Como se punham em forma sem estes imprescindíveis objectos???
A visita a Dougga ficou por aqui mas antes de me dirigir para a camioneta, olhei para o que me rodeava; campos agrícolas, mostram que o clima é aqui mais complacente do que no sul; no entanto e apesar de ser ainda de manhã, estavam já envolvidos por uma bruma de calor que transformava os mais distantes em pouco mais que miragens. As montanhas nuas e a pedir água, engoliram quase por completo os vestígios arqueológicos construídos no seu topo. Pareciam querer esconder o seu passado, guardá-lo só para elas.
A viagem prosseguiu, de regresso à costa em direcção a Sidi Bou Said. Localizada no alto de uma encosta esta pequena aldeia é um encanto. Todas as casas são de um estilo rústico, muito bem conservadas com o tradicional branco a combinar bem com o azul claro. É pena que não seja azul escuro, pois este azul com o branco produz um efeito especial.! Em 2003/2004 estas cores deram muito que falar (a nível de futebol). de maneira que anotámos a ideia do zaul escuro como uma sugestão para apresentar na câmara municipal da zona por forma a tornar o ambiente ainda mais agradável.
O movimento de turistas é considerável, com os vendedores à porta das suas lojas a tentarem chamar a atenção para os seus produtos, havendo alguns que literalmente nos "assaltam" no meio da rua e tentam levar-nos para o seu estabelecimento. Confesso que não sou um grande apreciador de compras mas todo este cenário, com as ruas livres de trânsito, as casa antigas e as lojas com produtos até à soleira da porta e cujos vendedores envergam os seus trajes tradicionais, criam um ambiente fantástico e dá-nos a sensação de estarmos noutro tempo; não fosse neste preciso momento passar por mim uma mulher com um grande decote e calções bastante curtos.
Provar o conhecido chá com pinhões ou beber o tradicional café, são duas coisas que aconselho a fazer, apesar de ter pedido chá e o ter deixado ficar quase intacto comprovando aquilo de que desconfiava desde os tempos de miúdo, em que a minha aproveitava qualquer "mau-estar" meu para tentar impingir-me o dito cujo; não sou homem de "chás"! De facto a minha barriga, apesar de pequena, é uma prova disso mesmo!
Gostei particularmente do café que fica no cimo da rua principal; tem uma balaustrada no primeiro andar de onde podemos ter um visão perfeita de todo o cenário que se desenrola na rua. Ali podemos deixar as horas escorrer e ver o sol desaparecer por entre as casas.
Quem não quiser ficar ali sentado, pois como dizem alguns "parar é morrer", pode vaguear pelas ruelas estreitas onde se pode admirar as portadas de madeira tipicamente árabes, podendo até espreitar, num gesto de cuscuvilhice, para dentro de uma porta aberta, tentando apanhar alguma cena do quotidiano.
Subindo a rua principal e indo pela sua direita, passámos por um café encavalitado numa encosta, que nos dá uma perspectiva espectacular daquela zona costeira, onde se vislumbra uma praia ao fundo, assim como um marina repleta de barcos de recreio.
No entanto não é preciso entrar neste café para se ter esta vista; mais à frente existe um pequeno descampado onde podemos ter a mesma visão. O local é um bocado inclinado e é preciso ter cuidado pois não há grades protectoras. Cuidado também com o vento que, pelo menos enquanto ali estive, tentou por todas as formas e feitios levar-me o chapéu e, não satisfeito com isso, tentou cegar-me com pó! Há ventos assim!
O dia estava a terminar quando chegámos às ruínas de Cartago. Logo à entrada existe um jardim magnífico que convida a um passeio mais prolongado, onde podemos ver alguns vestígios deixados pelos cartagineses. Mas o principal está para vir. Apesar de bastante degradadas, em virtude de desleixo humano mas também do efeito degradante do sal que o mar liberta, para os apreciadores de arqueologia são um local onde se pode perder, à vontade, uma hora pelo seu meio. Deambular por ali, explorando cada caminho, tentando adivinhar o que vem a seguir, imaginando como teria sido a vida ali, olhando para cada pedra, faz-nos vestir por momentos a pele de um arqueólogo tentando vislumbrar alguma característica particular que escape aos outros. Como disse, está tudo bastante degradado mas quem realmente se interessar por História e não considerar as ruínas como meras aglomerações de pedras, consegue admirar a beleza do local, com o mar a meia dúzia de metros dali.
Regressando a Tunis tivemos ainda tempo para poder visitar a sua Medina. A entrada é monumental, com um arco a lembrar o Arco do Triunfo francês. As fachadas são tipicamente árabes e escolhendo o caminho, extremamente apertado diga-se de passagem, entrámos num outro mundo. É um conjunto de cores e cheiros exóticos, que acabei por sair dali um pouco tonto. Há roupas que pendem do tecto, tapetes presos nas paredes, expositórios que ocupam o caminho, vozes que se cruzam no ar com melodias ao mais puro estilo árabe, vendedores sentados à soleira da porta a fumar despreocupadamente o seu tabaco, enquanto outros, não querendo esperar que a sorte lhes bata à porta, interpelam o turista para que compre algo. O caminho torna-se extremamente exíguo para passarmos, ainda por cima quando também circulam pessoas em sentido contrário; Senti-me abafado por todo aquele ambiente e nunca caminhei com tanto cuidado como naquele momento tal era o medo de ao passar deitar algum objecto ao chão. Para completar o quadro, é impossível andar dois metros sem que sejamos interpelados por alguém a tentar vender alguma coisa; um tapete, um casaco ou um lenço, tudo serve para fazer parar o turista. O caminho é practicamente em linha recta e leva-nos até à mesquita. Caminho esse que se faz, em circunstâncias normais, em 5 ou 7 minutos, fizémos em cerca de 30!!!
Finalmente o ar torna-se mais fresco e demos por nós numa praça pequena que apesar de mais ampla que o caminho por onde tinhamos vindo, parece encolher face ao tamanho da mesquita que se encontrava mesmo à nossa frente. Não podendo visitar a mesquita, face ao adiantado da hora, restava-nos dar meia volta e ir embora; só que mais uma vez fomos abordados por um vendedor que deambulava na zona da entrada da mesquita, para levar clientes à sua loja que ficava um pouco deslocada, numa das inúmeras ruelas estreitas que seguem sabe-se lá para onde, desaparecendo na escuridão. Valeu pelo facto de o homem perceber de futebol e termos passado o tempo a falar do meu F. C. Porto e da sua campanha a nível europeu.
Saindo da medina voltámos a entrar num mundo mais ocidental, trânsito, hotéis, cafés, esplanadas e gente vestida como na Europa, incluindo mulheres. A Tunísia é um dos países muçulmanos mais aberto à chamada "ocidentalização".
Depois de um dia que atravessou toda a História, começando no tempo dos romanos e acabando na era da globalização, regressámos ao hotel para recuperar forças para o dia seguinte.
Olá amigos! Apesar de ser português resolvi pôr aqui no forum um relato da viagem que fiz à Tunísia. Aqui em Portugal não há foruns destes para falarmos de viagens. Espero que não se importem. Afinal somos povos irmãos! [
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Hoje vou pôr aqui o primeiro e segundo dia. E depois vou acrescentando, como fez o "thiagodesa".
Aqui vai então;
TUNÍSIA - Dia 1
Chegámos a Monastir por volta das 22:00 e fomos recebidos por um ar abafado que fez questão de nos lembrar que estávamos em África. À falta de uma espera digna de um Chefe de Estado, foi o melhor que se pôde arranjar!!!
Daqui dirigimo-nos para Tunis, a capital, 165 km a noroeste. Pelo caminho observámos uma tempestade que "atacava" algures no centro do país e a ideia que nos assolou o espírito foi de que íamos ter uma semana de chuva, o que não é agradável, principalmente num país conhecido pelo seu calor.
Secretamente fizemos "figas" para que tal não acontecesse e resolvemos mudar o nosso pensamento experimentando as telecomunicações do país.
A primeira imagem que tivemos da capital, Tunis, foi de que as alterações climáticas fruto da poluição tinham atingido mais cedo a Tunísia e a capital estava transformada numa Veneza africana! Havia água por todo o lado, e onde não havia, a enorme quantidade de lama lembrava que a mesma havia passado por ali há pouco.
Da cidade propriamente dita, a única coisa que vislumbrámos foi uma rotunda com um relógio estilo "Big Ben" no centro. Mais foi impossível, pois o motorista após troca de palavras acaloradas com vários condutores, acelerava de uma maneira, que começámos a fazer apostas para saber quanto tempo demorávamos até chocar com algo. ou alguém.!
De manhã acordei sobressaltado com o telefone; atendi e do outro lado respondeu-me uma voz em francês; feito pacóvio, qual debutante nestas andanças, agradeci e ia continuar a falar quando me apercebi que se tratava de uma gravação!
As vistas do quarto de hotel davam para o edifício da televisão pública, com um guarda armado em cada esquina, lembrando-me que não estava num país propriamente democrático.
Os restantes edifícios demonstravam a pobreza da população com fachadas brancas a precisar de uma nova pintura e quase todas em adiantado estado de degradação.
Ao nível do solo a imagem foi um pouco atenuada; as avenidas eram arborizadas, tentando dar alguma frescura ás horas de maior calor e o res-do-chão da maioria dos edifícios era ocupada por lojas, umas com um aspecto mais ocidentalizado, outras cujos proprietários as mantinham fiéis ao aspecto inicial, com portadas de madeira e inscrições árabes nas paredes interiores e por cima da porta principal.
A água tinha desaparecido mas tinha deixado lembranças, como a lama seca que se encontrava por todo o lado e o pó que a mesma originava, sujando passeios, montras e veículos.
A primeira visita do dia foi à localidade de Dougga, a sudoeste da capital; Dougga fica a 550 mts acima do nível do mar e era um local estratégico para os Romanos; o reino de Numídia era um aliado de Roma e uma vez que Dougga ficava perto do epicentro Cartaginês, com o desaparecimento das guerras entre o reino de Numidia e Cartago, a cidade transformou-se num centro administrativo, prestando preciosa ajuda aos Romanos que pretendiam tomar o reino de Cartago.
Aqui entrámos no mundo antigo dos Romanos. Primeiro o anfiteatro, depois o Capitólio e de seguida o resto da cidade, com destaque para os banhos e o ginásio, mostram a grandeza e extrema organização deste povo.
O anfiteatro, relativamente bem conservado, ainda hoje acolhe as festas da cidade e dá-nos uma ideia de como era a vida social antigamente. Aqui assistia-se a peças de teatro, declamações, com os senhores mais importantes a ocuparem os primeiros lugares e o povo a ficar na parte superior das bancadas. Embora muitos digam que isto era uma forma de discriminação, a minha teoria, após estar sentado na bancada do povo, é que o objectivo seria evitar que, quando o programa não estava a agradar, alguns objectos estranhos ao espectáculo chegassem ao palco! Mas para isto tinha de partir do princípio que os senhores eram pessoas educadas. só que me esqueci que o exemplo nem sempre vem de cima.
O Capitólio, construído em honra de Júpiter, Juno e Minerva, impressiona pela grandiosidade e pelos minuciosos relevos que apresenta na sua parte superior.
Abaixo do Capitólio temos o antigo mercado de escravos, local onde eram expostos os mesmos e onde ainda vemos as argolas que os mantinham presos ao chão. Mesmo a muitos anos de distância, ainda podemos sentir um certo ambiente pesado que parece ter ficado no local para a eternidade.
Continuando à descoberta destas ruínas, chegámos à zona dos banhos que ainda conserva alguns mosaicos com cenas da vida quotidiana e o ginásio, agora deserto, pôs-me a pensar que tipo de ginástica faria quem vivesse naquele tempo. Sem "passadeira", sem "pesos", sem estrado para abdominais. que diabo! Como se punham em forma sem estes imprescindíveis objectos???
A visita a Dougga ficou por aqui mas antes de me dirigir para a camioneta, olhei para o que me rodeava; campos agrícolas, mostram que o clima é aqui mais complacente do que no sul; no entanto e apesar de ser ainda de manhã, estavam já envolvidos por uma bruma de calor que transformava os mais distantes em pouco mais que miragens. As montanhas nuas e a pedir água, engoliram quase por completo os vestígios arqueológicos construídos no seu topo. Pareciam querer esconder o seu passado, guardá-lo só para elas.
A viagem prosseguiu, de regresso à costa em direcção a Sidi Bou Said. Localizada no alto de uma encosta esta pequena aldeia é um encanto. Todas as casas são de um estilo rústico, muito bem conservadas com o tradicional branco a combinar bem com o azul claro. É pena que não seja azul escuro, pois este azul com o branco produz um efeito especial.! Em 2003/2004 estas cores deram muito que falar (a nível de futebol). de maneira que anotámos a ideia do zaul escuro como uma sugestão para apresentar na câmara municipal da zona por forma a tornar o ambiente ainda mais agradável.
O movimento de turistas é considerável, com os vendedores à porta das suas lojas a tentarem chamar a atenção para os seus produtos, havendo alguns que literalmente nos "assaltam" no meio da rua e tentam levar-nos para o seu estabelecimento. Confesso que não sou um grande apreciador de compras mas todo este cenário, com as ruas livres de trânsito, as casa antigas e as lojas com produtos até à soleira da porta e cujos vendedores envergam os seus trajes tradicionais, criam um ambiente fantástico e dá-nos a sensação de estarmos noutro tempo; não fosse neste preciso momento passar por mim uma mulher com um grande decote e calções bastante curtos.
Provar o conhecido chá com pinhões ou beber o tradicional café, são duas coisas que aconselho a fazer, apesar de ter pedido chá e o ter deixado ficar quase intacto comprovando aquilo de que desconfiava desde os tempos de miúdo, em que a minha aproveitava qualquer "mau-estar" meu para tentar impingir-me o dito cujo; não sou homem de "chás"! De facto a minha barriga, apesar de pequena, é uma prova disso mesmo!
Gostei particularmente do café que fica no cimo da rua principal; tem uma balaustrada no primeiro andar de onde podemos ter um visão perfeita de todo o cenário que se desenrola na rua. Ali podemos deixar as horas escorrer e ver o sol desaparecer por entre as casas.
Quem não quiser ficar ali sentado, pois como dizem alguns "parar é morrer", pode vaguear pelas ruelas estreitas onde se pode admirar as portadas de madeira tipicamente árabes, podendo até espreitar, num gesto de cuscuvilhice, para dentro de uma porta aberta, tentando apanhar alguma cena do quotidiano.
Subindo a rua principal e indo pela sua direita, passámos por um café encavalitado numa encosta, que nos dá uma perspectiva espectacular daquela zona costeira, onde se vislumbra uma praia ao fundo, assim como um marina repleta de barcos de recreio.
No entanto não é preciso entrar neste café para se ter esta vista; mais à frente existe um pequeno descampado onde podemos ter a mesma visão. O local é um bocado inclinado e é preciso ter cuidado pois não há grades protectoras. Cuidado também com o vento que, pelo menos enquanto ali estive, tentou por todas as formas e feitios levar-me o chapéu e, não satisfeito com isso, tentou cegar-me com pó! Há ventos assim!
O dia estava a terminar quando chegámos às ruínas de Cartago. Logo à entrada existe um jardim magnífico que convida a um passeio mais prolongado, onde podemos ver alguns vestígios deixados pelos cartagineses. Mas o principal está para vir. Apesar de bastante degradadas, em virtude de desleixo humano mas também do efeito degradante do sal que o mar liberta, para os apreciadores de arqueologia são um local onde se pode perder, à vontade, uma hora pelo seu meio. Deambular por ali, explorando cada caminho, tentando adivinhar o que vem a seguir, imaginando como teria sido a vida ali, olhando para cada pedra, faz-nos vestir por momentos a pele de um arqueólogo tentando vislumbrar alguma característica particular que escape aos outros. Como disse, está tudo bastante degradado mas quem realmente se interessar por História e não considerar as ruínas como meras aglomerações de pedras, consegue admirar a beleza do local, com o mar a meia dúzia de metros dali.
Regressando a Tunis tivemos ainda tempo para poder visitar a sua Medina. A entrada é monumental, com um arco a lembrar o Arco do Triunfo francês. As fachadas são tipicamente árabes e escolhendo o caminho, extremamente apertado diga-se de passagem, entrámos num outro mundo. É um conjunto de cores e cheiros exóticos, que acabei por sair dali um pouco tonto. Há roupas que pendem do tecto, tapetes presos nas paredes, expositórios que ocupam o caminho, vozes que se cruzam no ar com melodias ao mais puro estilo árabe, vendedores sentados à soleira da porta a fumar despreocupadamente o seu tabaco, enquanto outros, não querendo esperar que a sorte lhes bata à porta, interpelam o turista para que compre algo. O caminho torna-se extremamente exíguo para passarmos, ainda por cima quando também circulam pessoas em sentido contrário; Senti-me abafado por todo aquele ambiente e nunca caminhei com tanto cuidado como naquele momento tal era o medo de ao passar deitar algum objecto ao chão. Para completar o quadro, é impossível andar dois metros sem que sejamos interpelados por alguém a tentar vender alguma coisa; um tapete, um casaco ou um lenço, tudo serve para fazer parar o turista. O caminho é practicamente em linha recta e leva-nos até à mesquita. Caminho esse que se faz, em circunstâncias normais, em 5 ou 7 minutos, fizémos em cerca de 30!!!
Finalmente o ar torna-se mais fresco e demos por nós numa praça pequena que apesar de mais ampla que o caminho por onde tinhamos vindo, parece encolher face ao tamanho da mesquita que se encontrava mesmo à nossa frente. Não podendo visitar a mesquita, face ao adiantado da hora, restava-nos dar meia volta e ir embora; só que mais uma vez fomos abordados por um vendedor que deambulava na zona da entrada da mesquita, para levar clientes à sua loja que ficava um pouco deslocada, numa das inúmeras ruelas estreitas que seguem sabe-se lá para onde, desaparecendo na escuridão. Valeu pelo facto de o homem perceber de futebol e termos passado o tempo a falar do meu F. C. Porto e da sua campanha a nível europeu.
Saindo da medina voltámos a entrar num mundo mais ocidental, trânsito, hotéis, cafés, esplanadas e gente vestida como na Europa, incluindo mulheres. A Tunísia é um dos países muçulmanos mais aberto à chamada "ocidentalização".
Depois de um dia que atravessou toda a História, começando no tempo dos romanos e acabando na era da globalização, regressámos ao hotel para recuperar forças para o dia seguinte.