Este relato é dedicado aos amigos e companheiros de trekking Edver e Renato. Mas eles estão numa "enrolation" para vir fazer trilha na Chapada!
25/04
Cheguei a Lençois de ônibus ao amanhecer. As seis horas já estava deixando a cidade pela estrada velha do garimpo. Como não chovia forte há algum tempo foi fácil atravessar os rios Ribeirão de Baixo e Capivara.
Logo depois do Capivara, passando por um Terreiro de Candomblé, um rapaz me passou a dica de uma trilha que cortava caminho para a Cachoeira do Mixila. Cheguei na boca do cânion do Mixila pouco antes das 12 hs. Levei mais 1:30 hrs pulando entre as pedras e nadando até chegar a cachoeira. Linda, num cânion estreito, a maior parte do tempo na sombra. É uma das mais belas quedas d’água da Chapada.
Voltei até a entrada do cânion, onde havia escondido a mochila num excelente lugar para acampar. Mas meu destino do dia era a cachoeira do Rio das Lajes, onde esperava bivacar numa toca de garimpeiro. Cheguei lá por volta de 16:30. No caminho parei para conversar com o Ailton, herdeiro de três tocas do pai que era garimpeiro. Hoje em dia ele trabalha como guia e mostra as tocas organizadas e arrumadas para os turistas.
A toca do rio das Lajes é excelente. O único problema é o enxame de mosquitos. Obrigam-nos a usar um mosquiteiro. O asa-caída é um mosquito infame, chato e persistente. Sorte que durante a noite eles somem. Dormi muito bem bivacando na toca.
Vista da toca. Morro do Jacu a esquerda.
26/04
Neste dia o trecho mais difícil. Iria das Lajes para o Morro Branco do Paty, caminho que já tinha feito no sentido inverso, em 2006. Parti pouco depois das oito horas. Eita trilha perrengosa. Terreno muito variado, irregular, com trilha difícil de seguir. Por mais de uma vez perdi o caminho. A trilha por vezes era muito sutil e discreta, especialmente nos inúmeros lajeados. Perdi ao menos 2 horas procurando a continuação da trilha em alguns trechos. A memória me traia. Apenas dispunha do mapa, numa escala de 1:100 000 (1cm = 1km), com alguma imprecisão. Um mapa adequado deveria ter escala 1:50 000. Não levei GPS porque tira um pouco da aventura e não dispunha de tracklog ou way points.
Orquídeas.
Atrás do Morro Branco do Paty, já perto do destino, perdi de vez a trilha ou ela fechou definitivamente. Pouco antes tinha passado por uma estranha plantação no meio do capinzal alto, onde plantaram arbustos em baldes. As plantas estavam ressequidas e mortas, sem folhas. Lugar ermo e afastado para um plantio. Na hora pensei num projeto de replantio de árvores nativas. Mais tarde, já afastado, caiu a ficha. Lembrei do filme "The beach" com Leonardo de Caprio.
Descida para o Morro Branco do Paty (assinalado com a seta), vista de trás deste morro.
Quase 5 horas e nada. Escurecia as 5:30. Decidi acampar num lajeado, com água da chuva da noite anterior empoçada em duas pequenas poças no lajeado, única fonte disponível. Na pressa para tentar chegar ao meu destino esqueci uma regra de ouro do bivaque: deixe um bom tempo disponível para procurar um bom lugar para bivacar. Seu conforto depende disto. Não havia nada bom por perto e não havia mais tempo para procurar antes de escurecer.
Fiz uma omelete com jamón, comida liofilizada francesa. Coisa horrível que não honrava a famosa gastronomia daquele País.
Mal escureceu e começou a chover. Uma tempestade de relâmpagos se aproximou com chuva grossa de açoite devido ao forte vento. O poncho-tarpa não segurou a chuva que vinha pela lateral. O saco de bivaque se rasgou simplesmente quando mudei de lado, porque a chuva batia na minha cara. A água escorria pelo lajeado de pedra passando por baixo do meu isolante. Noite miserável, dormindo num saco de dormir parcialmente molhado. A temperatura baixou para 16º C na madrugada. Testei toda a minha resiliência.
27/04
Acordei decidido a voltar. Não queria mais perder tempo procurando o caminho para o vale do Capão, que provavelmente estaria fechado pelo mato. Voltaria para a toca do rio das Lajes. Sai às 8 horas. Mesmo esta volta, debaixo de chuva e névoa, teve trechos onde tive de rastrear a trilha.
Acampamento ao amanhecer.
Os córregos quase secos na ida eram agora riachos caudalosos. A chuva intensa da noite anterior drenava serra abaixo.
Outra toca, junto a cachoeira superior do rio das Lajes.
Descansando no trajeto. Muito cansativo.
Cheguei na toca por volta das 14 horas. Tratei de logo fazer uma comida liofilizada, purê de batatas da Knorr (uma das melhores coisas liofilizadas que já comi) e um strogonnoff da Liofoods. Nossa, só faltou eu lamber a panela. Para completar, aproveitei e botei uma garrafinha de alumínio com água junto à fogueira para fazer um chá verde e um missoshiro. A comida e a fogueira levantaram meu moral. Pendurei as coisas para secar.
A cachoeira do rio da Lapa, perto da toca onde dormi.
Ao escurecer, ao levantar a cabeça, a headlamp iluminou dois olhinhos no meio da mata junto a lapa, que pareciam ser de um gato sentado, me mirando. Tentei me aproximar para ver melhor, mas ele desapareceu na escuridão. Seria uma jaguatirica?
Dormi bem. Estava bem abrigado e não choveu.
28/04
Dia preguiçoso. Levantei quase 8 da manhã. Estava compensando a péssima noite anterior. Café demorado. Li um pouco do meu livro de bolso e fiz anotações. Como estava voltando para Lençois, tinha tempo sobrando. Sai as 11 horas.
No caminho, antes da toca do Ailton, vi uma trilha a direita. Parecia seguir para leste, descendo a serra do Bode, em direção a velha estrada do garimpo. Nada mais natural porque a serra do Bode era o centro nervoso da extração de diamantes na região e deveria haver mais de uma trilha subindo a serra para os inúmeros garimpos.
Decidi seguí-la. Adoro trilhas novas. É enfadonho voltar pelo mesmo lugar (embora seja mais confortável).
Foi uma excelente opção. No caminho encontrei a famosa toca do Canoão, também mantida pelo Ailton. É conhecida como a toca 5 estrelas da Chapada. Tem uma varanda e uma vista magnífica. Parece que um paisagista trabalhou no quintal da toca. E dentro dela tem até janela. Numa toca secundária estavam guardados os instrumentos de garimpo, mantidos ali para mostrar aos eventuais turistas interessados na história do lugar.
Felino ou canídeo?
Nos arredores vários indícios de que aquela era uma área de garimpo muito intenso. A trilha seguia por lajeados e atenção era requerida para reencontrar o caminho.
Tipo de rocha onde se encontravam os veios de diamante.
Formação curiosa.
Mais para baixo da serra do Bode, uma área muito escavada pelo garimpo. Embora saibamos da histórica romântica do garimpo, do ponto de vista ambiental é fácil imaginar o desastre que aquilo foi para a Chapada. Especialmente com o avanço da tecnologia e dos recursos, largaram a batėia e passaram a usar jatos de água de alta pressão para tirar toda a terra e expor a rocha que continha os diamantes no subsolo. Milhares de toneladas de terra foram varridas encosta abaixo, assoreando o rio Sto. Antonio. O que antes era mata frondosa foi devastado. Garimpeiros brutais e ambiciosos só tinham olhos para o diamante.
Muitas vezes, quando o garimpeiro bamburrava, ou seja, achava uma pedra grande de diamante, voltava para Lençois, pagava suas dívidas e ia para os bordéis, onde gastava tudo. Voltava dias ou semanas depois ao garimpo, tão pobre quanto antes. Provavelmente as prostitutas polacas e francesas voltaram ricas para a Europa. Creio que poucos garimpeiros escaparam deste ciclo vicioso de pobreza e conseguiram prosperar.
Passei por uma destas áreas devastadas pelo garimpo. Havia pouca vegetação, o que tornava a caminhada difícil debaixo do sol das 2 da tarde. A rocha desnuda típica de jazida de diamantes estava exposta. A trilha seguia por um labirinto entre estas pedras. Cansativo. Entre 3 e 4 horas cheguei finalmente a estrada velha do garimpo.
Na estrada reencontrei o Josemar Doidinho, velho garimpeiro da região, e um grupo de mountain bikers.
Cheguei em Lençois ao escurecer. Tomei banho no Hotel Tradição (R$ 20), pertinho da estrada velha do garimpo. Pessoal gentil. Quando sai do hotel o recepcionista correu atrás de mim e disse que poderia ficar descansando no quarto até o horário do ônibus para SSA (23:15). Agradeci, mas segui, pois queria jantar antes de viajar. A viagem de volta foi tranqüila, chegando a Salvador cerca de 5 da manhã.
Estragos da caminhada. As meias molhadas causam calo. E não é recomendável fazer trilha só de bermuda!
Aquele trecho da Chapada tem muita coisa a ser explorada. Várias trilhas que estão fora dos roteiros tradicionais, que poucas pessoas conhecem, com exceção dos nativos.
Este relato é dedicado aos amigos e companheiros de trekking Edver e Renato. Mas eles estão numa "enrolation" para vir fazer trilha na Chapada!
25/04
Cheguei a Lençois de ônibus ao amanhecer. As seis horas já estava deixando a cidade pela estrada velha do garimpo. Como não chovia forte há algum tempo foi fácil atravessar os rios Ribeirão de Baixo e Capivara.
Logo depois do Capivara, passando por um Terreiro de Candomblé, um rapaz me passou a dica de uma trilha que cortava caminho para a Cachoeira do Mixila. Cheguei na boca do cânion do Mixila pouco antes das 12 hs. Levei mais 1:30 hrs pulando entre as pedras e nadando até chegar a cachoeira. Linda, num cânion estreito, a maior parte do tempo na sombra. É uma das mais belas quedas d’água da Chapada.
Voltei até a entrada do cânion, onde havia escondido a mochila num excelente lugar para acampar. Mas meu destino do dia era a cachoeira do Rio das Lajes, onde esperava bivacar numa toca de garimpeiro. Cheguei lá por volta de 16:30. No caminho parei para conversar com o Ailton, herdeiro de três tocas do pai que era garimpeiro. Hoje em dia ele trabalha como guia e mostra as tocas organizadas e arrumadas para os turistas.
A toca do rio das Lajes é excelente. O único problema é o enxame de mosquitos. Obrigam-nos a usar um mosquiteiro. O asa-caída é um mosquito infame, chato e persistente. Sorte que durante a noite eles somem. Dormi muito bem bivacando na toca.
Vista da toca. Morro do Jacu a esquerda.
26/04
Neste dia o trecho mais difícil. Iria das Lajes para o Morro Branco do Paty, caminho que já tinha feito no sentido inverso, em 2006. Parti pouco depois das oito horas. Eita trilha perrengosa. Terreno muito variado, irregular, com trilha difícil de seguir. Por mais de uma vez perdi o caminho. A trilha por vezes era muito sutil e discreta, especialmente nos inúmeros lajeados. Perdi ao menos 2 horas procurando a continuação da trilha em alguns trechos. A memória me traia. Apenas dispunha do mapa, numa escala de 1:100 000 (1cm = 1km), com alguma imprecisão. Um mapa adequado deveria ter escala 1:50 000. Não levei GPS porque tira um pouco da aventura e não dispunha de tracklog ou way points.
Orquídeas.
Atrás do Morro Branco do Paty, já perto do destino, perdi de vez a trilha ou ela fechou definitivamente. Pouco antes tinha passado por uma estranha plantação no meio do capinzal alto, onde plantaram arbustos em baldes. As plantas estavam ressequidas e mortas, sem folhas. Lugar ermo e afastado para um plantio. Na hora pensei num projeto de replantio de árvores nativas. Mais tarde, já afastado, caiu a ficha. Lembrei do filme "The beach" com Leonardo de Caprio.
Descida para o Morro Branco do Paty (assinalado com a seta), vista de trás deste morro.
Quase 5 horas e nada. Escurecia as 5:30. Decidi acampar num lajeado, com água da chuva da noite anterior empoçada em duas pequenas poças no lajeado, única fonte disponível. Na pressa para tentar chegar ao meu destino esqueci uma regra de ouro do bivaque: deixe um bom tempo disponível para procurar um bom lugar para bivacar. Seu conforto depende disto. Não havia nada bom por perto e não havia mais tempo para procurar antes de escurecer.
Fiz uma omelete com jamón, comida liofilizada francesa. Coisa horrível que não honrava a famosa gastronomia daquele País.
Mal escureceu e começou a chover. Uma tempestade de relâmpagos se aproximou com chuva grossa de açoite devido ao forte vento. O poncho-tarpa não segurou a chuva que vinha pela lateral. O saco de bivaque se rasgou simplesmente quando mudei de lado, porque a chuva batia na minha cara. A água escorria pelo lajeado de pedra passando por baixo do meu isolante. Noite miserável, dormindo num saco de dormir parcialmente molhado. A temperatura baixou para 16º C na madrugada. Testei toda a minha resiliência.
27/04
Acordei decidido a voltar. Não queria mais perder tempo procurando o caminho para o vale do Capão, que provavelmente estaria fechado pelo mato. Voltaria para a toca do rio das Lajes. Sai às 8 horas. Mesmo esta volta, debaixo de chuva e névoa, teve trechos onde tive de rastrear a trilha.
Acampamento ao amanhecer.
Os córregos quase secos na ida eram agora riachos caudalosos. A chuva intensa da noite anterior drenava serra abaixo.
Outra toca, junto a cachoeira superior do rio das Lajes.
Descansando no trajeto. Muito cansativo.
Cheguei na toca por volta das 14 horas. Tratei de logo fazer uma comida liofilizada, purê de batatas da Knorr (uma das melhores coisas liofilizadas que já comi) e um strogonnoff da Liofoods. Nossa, só faltou eu lamber a panela. Para completar, aproveitei e botei uma garrafinha de alumínio com água junto à fogueira para fazer um chá verde e um missoshiro. A comida e a fogueira levantaram meu moral. Pendurei as coisas para secar.
A cachoeira do rio da Lapa, perto da toca onde dormi.
Ao escurecer, ao levantar a cabeça, a headlamp iluminou dois olhinhos no meio da mata junto a lapa, que pareciam ser de um gato sentado, me mirando. Tentei me aproximar para ver melhor, mas ele desapareceu na escuridão. Seria uma jaguatirica?
Dormi bem. Estava bem abrigado e não choveu.
28/04
Dia preguiçoso. Levantei quase 8 da manhã. Estava compensando a péssima noite anterior. Café demorado. Li um pouco do meu livro de bolso e fiz anotações. Como estava voltando para Lençois, tinha tempo sobrando. Sai as 11 horas.
No caminho, antes da toca do Ailton, vi uma trilha a direita. Parecia seguir para leste, descendo a serra do Bode, em direção a velha estrada do garimpo. Nada mais natural porque a serra do Bode era o centro nervoso da extração de diamantes na região e deveria haver mais de uma trilha subindo a serra para os inúmeros garimpos.
Decidi seguí-la. Adoro trilhas novas. É enfadonho voltar pelo mesmo lugar (embora seja mais confortável).
Foi uma excelente opção. No caminho encontrei a famosa toca do Canoão, também mantida pelo Ailton. É conhecida como a toca 5 estrelas da Chapada. Tem uma varanda e uma vista magnífica. Parece que um paisagista trabalhou no quintal da toca. E dentro dela tem até janela. Numa toca secundária estavam guardados os instrumentos de garimpo, mantidos ali para mostrar aos eventuais turistas interessados na história do lugar.
Felino ou canídeo?
Nos arredores vários indícios de que aquela era uma área de garimpo muito intenso. A trilha seguia por lajeados e atenção era requerida para reencontrar o caminho.
Tipo de rocha onde se encontravam os veios de diamante.
Formação curiosa.
Mais para baixo da serra do Bode, uma área muito escavada pelo garimpo. Embora saibamos da histórica romântica do garimpo, do ponto de vista ambiental é fácil imaginar o desastre que aquilo foi para a Chapada. Especialmente com o avanço da tecnologia e dos recursos, largaram a batėia e passaram a usar jatos de água de alta pressão para tirar toda a terra e expor a rocha que continha os diamantes no subsolo. Milhares de toneladas de terra foram varridas encosta abaixo, assoreando o rio Sto. Antonio. O que antes era mata frondosa foi devastado. Garimpeiros brutais e ambiciosos só tinham olhos para o diamante.
Muitas vezes, quando o garimpeiro bamburrava, ou seja, achava uma pedra grande de diamante, voltava para Lençois, pagava suas dívidas e ia para os bordéis, onde gastava tudo. Voltava dias ou semanas depois ao garimpo, tão pobre quanto antes. Provavelmente as prostitutas polacas e francesas voltaram ricas para a Europa. Creio que poucos garimpeiros escaparam deste ciclo vicioso de pobreza e conseguiram prosperar.
Passei por uma destas áreas devastadas pelo garimpo. Havia pouca vegetação, o que tornava a caminhada difícil debaixo do sol das 2 da tarde. A rocha desnuda típica de jazida de diamantes estava exposta. A trilha seguia por um labirinto entre estas pedras. Cansativo. Entre 3 e 4 horas cheguei finalmente a estrada velha do garimpo.
Na estrada reencontrei o Josemar Doidinho, velho garimpeiro da região, e um grupo de mountain bikers.
Cheguei em Lençois ao escurecer. Tomei banho no Hotel Tradição (R$ 20), pertinho da estrada velha do garimpo. Pessoal gentil. Quando sai do hotel o recepcionista correu atrás de mim e disse que poderia ficar descansando no quarto até o horário do ônibus para SSA (23:15). Agradeci, mas segui, pois queria jantar antes de viajar. A viagem de volta foi tranqüila, chegando a Salvador cerca de 5 da manhã.
Estragos da caminhada. As meias molhadas causam calo. E não é recomendável fazer trilha só de bermuda!
Aquele trecho da Chapada tem muita coisa a ser explorada. Várias trilhas que estão fora dos roteiros tradicionais, que poucas pessoas conhecem, com exceção dos nativos.