[mostrar-esconder]Desde que descobri as Agulhas Negras que o lugar tornou-se o “meu lugar”. Foi em 1993. Eu e um amigo sofríamos com uma greve na faculdade em que cursávamos. Havíamos começado a fazer trilhas na Floresta da Tijuca, e achamos que estávamos habilitados a subir o pico das Agulhas Negras. Era uma época em que não havia internet, diga-se. Ou seja, não sabíamos exatamente o que significava subir as Agulhas Negras (que, como se pode descobrir facilmente hoje em dia, é uma experiência bem diferente das trilhas da Floresta da Tijuca).
Naquela nossa primeira vez, sofremos o diabo. Fomos apenas com a cara e a coragem, além de roupas de moletom e tênis de pano. Num dia bem nublado. Sem guia e sem nunca ter ido. Nós chegamos a subir o que mais tarde viria a descobrir ser o “útero”, mas voltamos num ponto que nos parecia intransponível. Na descida, encontramos um grupo que estava subindo pela via “normal” e fomos com a galera. Começou a chover, descemos, a noite caiu. Perrengue total. Encharcados de água gelada (água gelada de inverno nas Agulhas Negras – é *muito* gelada) no corpo, chegamos ao carro já no meio da noite, ainda empolgados em chegar em Penedo e fazer um mega jantar de celebração do perrengue. Mas.... além de minha mão não conseguir sequer girar para ligar o carro (estava dura de frio!), o carro era a álcool e não pegou naquele frio. Descemos com ele na banguela até o Alsene, cujo dono (arrendatário?), Muniz, nos salvou.
Muniz sempre foi um cara nota dez, em todas as vezes em que estive nas Agulhas Negras, seja hospedado, seja acampado nos arredores do Alsene. Naquele dia ele nos deu toalha para banho (quente!), nos deu jantar e foi lá fora, na chuva, fazer uma transmissão do carro dele para o nosso (a famosa “chupeta”) para conseguirmos voltar a Penedo. Ele nos cobrou apenas o jantar. Ganhou eterna consideração e agradecimento.
Toda vez que voltávamos ao Alsene, uma menina que trabalhava na cozinha sempre nos reconhecia desse dia. Ela se lembrava da nossa cara de frio, de estarmos encharcados, do meu amigo enfiando as mãos geladas no fogo achando que ia gangrenar (exagero!).
Depois dessa vez, voltei algumas outras no mesmo ano. E nos anos seguintes. Com guia, com grupos, com amigos, sozinho. Agulhas Negras era o meu lugar. A primeira vez que subi o pico foi exatamente a vez seguinte à primeira ida. Fui com grupo, e fomos exatamente pelo “útero”. Foi quando descobri que a passagem supostamente intransponível era fácil: bastava mergulhar a cabeça (e o corpo) num buraco entre as pedras para sair logo acima.
Desde então minha lembrança é de que a subida do pico das Agulhas Negras pelo “útero” é dos exercícios mais saborosos de que tenho conhecimento.
Ressalva: Quando falo de Agulhas Negras de um modo geral, refiro-me ao Planalto de Itatiaia, à parte alta do Parque Nacional de Itatiaia. Não exatamente, ou somente, às Agulhas Negras.[/mostrar-esconder]
A última vez que tinha ido às Agulhas Negras já datava de 2004. Para quem ia algumas (várias?) vezes ao ano nos anos 90, parece um disparate. E é mesmo. Reconciliei-me com meu lugar em agosto de 2015, no fim de semana anterior à Meia Maratona do Rio.
Fomos dois casais. Saímos na sexta à noite para Penedo, chegamos em surpreendentes 2 horas. Celebramos a chegada na Penedon, cervejaria local onde sempre batemos ponto.
No sábado meu amigo e eu saímos cedo de manhã (as meninas ficaram em Penedo). Exatamente às 5 da matina. Havíamos fechado com a Ingrid e o Evandro, do Montanhas do Rio, que seriam nossos guias. Da última vez que fui, 2004, tinha levado minha corda e subido com a galera. Dessa vez me avaliei como enferrujado para montanhas. Minha corda não tinha uso havia 11 anos (e ela própria já datava de 20 anos!), não me parecia recomendável usá-la.
Saindo às 5 da manhã de Penedo (e com ausência plena de trânsito na subida da estrada) acabou fazendo com que chegássemos muito cedo. Às 5:45 chegamos na Garganta do Registro, onde o dia começava a clarear. Foi bom que fomos parando em diversos pontos da estrada que vai do Registro à portaria do parque. A estrada, aliás, está MUITO melhor do que sempre esteve, ao menos entre 1993 e 2004.
Sol nascendo na subida da estradinha para as Agulhas
A última parada antes da portaria foi justamente no Alsene. Ou melhor, nas ruínas do Alsene. Mato alto nos arredores, construção depredada. Revi alguns dos vários lugares onde montei barraca, revi algumas das instalações que tanto utilizei. Deu dó de ver o Alsene daquele jeito.
O bar (e recepção!) do Alsene, onde tantas vezes me sentei para ouvir as histórias do Muniz...
Em resumo, encontramos nossos guias e fomos andando para o Abrigo Rebouças. A área, naquela hora (7 da manhã) ainda estava sob neblina. Mas foi abrindo. Começamos a trilha com algum atraso para o que eu tinha em mente, mas não houve maiores problemas: nosso grupo mostrou-se bem rápido e ágil de um modo geral. Subimos em 2,5 horas, descemos em um pouco menos que isso. Fomos pela via "normal".
Agulhas à esquerda, Prateleiras à direita
Rampa, já na subida das Agulhas
Já no "trepa-pedra"
Na verdade, não subimos diretamente pela via “normal”, fizemos um breve desvio em direção ao “útero” (“pontal”) e logo um corte que nos leva de volta à “normal”. Foi legal, não conhecia essa variante. De resto, foi conforme previsto e já conhecido. Eu confirmei meu sentimento de ferrugem em relação ao local, mas nada que tenha afetado a subida.
Último lance de corda antes da chegada (via Pontal)
Vista do alto das Agulhas Negras -- a estradinha, Abrigo Rebouças, etc.
Atingido o pico das Agulhas, alguns do grupo foram no livro (o ponto efetivamente mais alto). Já fui uma vez (e somente uma), não ligo muito. Gosto demais de estar naquele pico, de admirar os arredores, de registrar n vezes a beleza das Prateleiras, da estradinha, do Morro do Couto. Foi muito bom estar de volta ao pico das Agulhas Negras.
Foto clássica (ao menos para mim)
Ficamos cerca de 1 hora por lá e descemos numa boa. Nosso grupo, como falei, foi muito bem. Nossos guias foram eficientes e cordiais, gostei muito deles. Atenciosos quando necessário, sempre tranquilos. Ainda retornei andando para a portaria, a galera voltou de carro. É uma tradição que busquei manter – a caminhada de volta. Antigamente era até o Alsene, agora foi até a portaria.
A imponência das Agulhas
Voltamos relativamente cedo, ainda deu tempo de parar no mirante em frente ao Alsene para ver como estava. O mato alto denunciava o pouco uso. Assisti dali ao sol se por várias vezes. Descemos e ainda paramos no Bar do Miguel, onde há bons pasteis e queijos e um atendimento cativante. Era o lugar que esperávamos abrir às 6 para tomarmos um café, mas não havia qualquer movimento em direção a isso às 5:50 da manhã. Saboreamos pasteis, sanduíches de linguiça e guaraná Mantiqueira com nossos guias. Papo muito agradável. E voltamos para Penedo.
Em Penedo, depois de um merecido banho, fomos jantar com as meninas. Ou melhor, fomos saborear cervas, celebrar a (re)conquista das Agulhas, passear e jantar. Amem.
Domingo fomos na parte baixa do PNI, revimos as cachoeiras, mirantes e etc. Foi bacana, light. Ainda voltamos para Penedo, onde almoçamos truta, e passeamos pela cidade antes de partirmos de volta ao Rio.
A convidativa água de uma das paradas no PNI (parte baixa)
Eu e as Agulhas Negras
[mostrar-esconder]Desde que descobri as Agulhas Negras que o lugar tornou-se o “meu lugar”. Foi em 1993. Eu e um amigo sofríamos com uma greve na faculdade em que cursávamos. Havíamos começado a fazer trilhas na Floresta da Tijuca, e achamos que estávamos habilitados a subir o pico das Agulhas Negras. Era uma época em que não havia internet, diga-se. Ou seja, não sabíamos exatamente o que significava subir as Agulhas Negras (que, como se pode descobrir facilmente hoje em dia, é uma experiência bem diferente das trilhas da Floresta da Tijuca).
Naquela nossa primeira vez, sofremos o diabo. Fomos apenas com a cara e a coragem, além de roupas de moletom e tênis de pano. Num dia bem nublado. Sem guia e sem nunca ter ido. Nós chegamos a subir o que mais tarde viria a descobrir ser o “útero”, mas voltamos num ponto que nos parecia intransponível. Na descida, encontramos um grupo que estava subindo pela via “normal” e fomos com a galera. Começou a chover, descemos, a noite caiu. Perrengue total. Encharcados de água gelada (água gelada de inverno nas Agulhas Negras – é *muito* gelada) no corpo, chegamos ao carro já no meio da noite, ainda empolgados em chegar em Penedo e fazer um mega jantar de celebração do perrengue. Mas.... além de minha mão não conseguir sequer girar para ligar o carro (estava dura de frio!), o carro era a álcool e não pegou naquele frio. Descemos com ele na banguela até o Alsene, cujo dono (arrendatário?), Muniz, nos salvou.
Muniz sempre foi um cara nota dez, em todas as vezes em que estive nas Agulhas Negras, seja hospedado, seja acampado nos arredores do Alsene. Naquele dia ele nos deu toalha para banho (quente!), nos deu jantar e foi lá fora, na chuva, fazer uma transmissão do carro dele para o nosso (a famosa “chupeta”) para conseguirmos voltar a Penedo. Ele nos cobrou apenas o jantar. Ganhou eterna consideração e agradecimento.
Toda vez que voltávamos ao Alsene, uma menina que trabalhava na cozinha sempre nos reconhecia desse dia. Ela se lembrava da nossa cara de frio, de estarmos encharcados, do meu amigo enfiando as mãos geladas no fogo achando que ia gangrenar (exagero!).
Depois dessa vez, voltei algumas outras no mesmo ano. E nos anos seguintes. Com guia, com grupos, com amigos, sozinho. Agulhas Negras era o meu lugar. A primeira vez que subi o pico foi exatamente a vez seguinte à primeira ida. Fui com grupo, e fomos exatamente pelo “útero”. Foi quando descobri que a passagem supostamente intransponível era fácil: bastava mergulhar a cabeça (e o corpo) num buraco entre as pedras para sair logo acima.
Desde então minha lembrança é de que a subida do pico das Agulhas Negras pelo “útero” é dos exercícios mais saborosos de que tenho conhecimento.
Ressalva: Quando falo de Agulhas Negras de um modo geral, refiro-me ao Planalto de Itatiaia, à parte alta do Parque Nacional de Itatiaia. Não exatamente, ou somente, às Agulhas Negras.[/mostrar-esconder]
A última vez que tinha ido às Agulhas Negras já datava de 2004. Para quem ia algumas (várias?) vezes ao ano nos anos 90, parece um disparate. E é mesmo. Reconciliei-me com meu lugar em agosto de 2015, no fim de semana anterior à Meia Maratona do Rio.
Fomos dois casais. Saímos na sexta à noite para Penedo, chegamos em surpreendentes 2 horas. Celebramos a chegada na Penedon, cervejaria local onde sempre batemos ponto.
No sábado meu amigo e eu saímos cedo de manhã (as meninas ficaram em Penedo). Exatamente às 5 da matina. Havíamos fechado com a Ingrid e o Evandro, do Montanhas do Rio, que seriam nossos guias. Da última vez que fui, 2004, tinha levado minha corda e subido com a galera. Dessa vez me avaliei como enferrujado para montanhas. Minha corda não tinha uso havia 11 anos (e ela própria já datava de 20 anos!), não me parecia recomendável usá-la.
Saindo às 5 da manhã de Penedo (e com ausência plena de trânsito na subida da estrada) acabou fazendo com que chegássemos muito cedo. Às 5:45 chegamos na Garganta do Registro, onde o dia começava a clarear. Foi bom que fomos parando em diversos pontos da estrada que vai do Registro à portaria do parque. A estrada, aliás, está MUITO melhor do que sempre esteve, ao menos entre 1993 e 2004.
Sol nascendo na subida da estradinha para as Agulhas
A última parada antes da portaria foi justamente no Alsene. Ou melhor, nas ruínas do Alsene. Mato alto nos arredores, construção depredada. Revi alguns dos vários lugares onde montei barraca, revi algumas das instalações que tanto utilizei. Deu dó de ver o Alsene daquele jeito.
O bar (e recepção!) do Alsene, onde tantas vezes me sentei para ouvir as histórias do Muniz...
Em resumo, encontramos nossos guias e fomos andando para o Abrigo Rebouças. A área, naquela hora (7 da manhã) ainda estava sob neblina. Mas foi abrindo. Começamos a trilha com algum atraso para o que eu tinha em mente, mas não houve maiores problemas: nosso grupo mostrou-se bem rápido e ágil de um modo geral. Subimos em 2,5 horas, descemos em um pouco menos que isso. Fomos pela via "normal".
Agulhas à esquerda, Prateleiras à direita
Rampa, já na subida das Agulhas
Já no "trepa-pedra"
Na verdade, não subimos diretamente pela via “normal”, fizemos um breve desvio em direção ao “útero” (“pontal”) e logo um corte que nos leva de volta à “normal”. Foi legal, não conhecia essa variante. De resto, foi conforme previsto e já conhecido. Eu confirmei meu sentimento de ferrugem em relação ao local, mas nada que tenha afetado a subida.
Último lance de corda antes da chegada (via Pontal)
Vista do alto das Agulhas Negras -- a estradinha, Abrigo Rebouças, etc.
Atingido o pico das Agulhas, alguns do grupo foram no livro (o ponto efetivamente mais alto). Já fui uma vez (e somente uma), não ligo muito. Gosto demais de estar naquele pico, de admirar os arredores, de registrar n vezes a beleza das Prateleiras, da estradinha, do Morro do Couto. Foi muito bom estar de volta ao pico das Agulhas Negras.
Foto clássica (ao menos para mim)
Ficamos cerca de 1 hora por lá e descemos numa boa. Nosso grupo, como falei, foi muito bem. Nossos guias foram eficientes e cordiais, gostei muito deles. Atenciosos quando necessário, sempre tranquilos. Ainda retornei andando para a portaria, a galera voltou de carro. É uma tradição que busquei manter – a caminhada de volta. Antigamente era até o Alsene, agora foi até a portaria.
A imponência das Agulhas
Voltamos relativamente cedo, ainda deu tempo de parar no mirante em frente ao Alsene para ver como estava. O mato alto denunciava o pouco uso. Assisti dali ao sol se por várias vezes. Descemos e ainda paramos no Bar do Miguel, onde há bons pasteis e queijos e um atendimento cativante. Era o lugar que esperávamos abrir às 6 para tomarmos um café, mas não havia qualquer movimento em direção a isso às 5:50 da manhã. Saboreamos pasteis, sanduíches de linguiça e guaraná Mantiqueira com nossos guias. Papo muito agradável. E voltamos para Penedo.
Em Penedo, depois de um merecido banho, fomos jantar com as meninas. Ou melhor, fomos saborear cervas, celebrar a (re)conquista das Agulhas, passear e jantar. Amem.
Domingo fomos na parte baixa do PNI, revimos as cachoeiras, mirantes e etc. Foi bacana, light. Ainda voltamos para Penedo, onde almoçamos truta, e passeamos pela cidade antes de partirmos de volta ao Rio.
A convidativa água de uma das paradas no PNI (parte baixa)
Um nativo