Olá viajante!
Bora viajar?
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O roteiro de Bolívia e Peru é quase o mesmo para todo mochileiro. Na verdade, tudo depende do tempo disponível para a viagem e as prioridades. Acredito que os dois lugares imperdíveis são: Machu Picchu e Salar de Uyuni, mas de resto, vai ao gosto do freguês.
Eu, pela primeira vez na vida, fui com um roteiro completamente aberto. Não sabia direito quantos dias ficar em cada lugar e nem com certeza qual lugar visitaria. E nem a ordem. Foi a melhor coisa que fiz. Tive uma sensação de liberdade e desapego poucas vezes experimentada. Nesta viagem, como é possível fazer tudo de ônibus, é muito melhor ir com o roteiro aberto. Além disso, minha grana estava curta, então assim eu poderia administrar melhor meu orçamento. É engraçado porque você vai cruzando com as pessoas no começo e depois cruza com ela em uma cidade nada a ver, enfim, divertido.
A melhor entrada para os brasileiros é sempre por Santa Cruz de La Sierra. Primeiro porque você pode ir para Campo Grande e pegar o trem (ou ser mega hippie e pegar um ônibus). Segundo, a maioria das promoções é pra lá. Comprei as passagens pela Gol, um mês antes, por 13.000 milhas + taxas, saindo de Guarulhos, voo direto. Moro no Rio então comprei as passagens Rio – SP separadas, mas como era voo durante a semana, paguei mais barato que ônibus. Suave!
Santa Cruz não oferece muita coisa, mas é fácil sair no mesmo dia seja para La Paz ou para Uyuni de avião ou ônibus (no caso de Uyuni é preciso ir para Sucre, depois Potosí e só depois Uyuni). Eu ia primeiro para Uyuni, mas chegando lá resolvi ir para La Paz (liberdade de ir e vir!) e assim fiz.
No fim das contas meu roteiro ficou:
- La Paz
- Copacabana/Isla del Sol
- Cusco
- Uyuni
- Sucre
- Santa Cruz
Dia 1
Sai cedinho do Rio e do SDU peguei meu voo para São Paulo. Lá despachei minha mala e aguardei duas horas até o voo para Santa Cruz.
Chegada em Santa Cruz de La Sierra
O voo foi tranquilo, assim como a aterrissagem. Já de cara fiquei impressionada com a rapidez da chegada das bagagens na esteira.
Na imigração te fazem as perguntas básicas, tiram sua foto e – surpresa – abrem todas as malas. Sim, abrem. Mas eu joguei charme para o oficial, dei de joão sem braço, e passei sem abrirem minha malinha. Até porque de cara iam ver um belo sutiã, eu não precisava passar por isso logo na chegada.
Como eu já queria ir naquele dia para La Paz de ônibus, no aeroporto fui pesquisar como sair dali de maneira barata até a rodoviária. Troquei um pouco de dinheiro por lá (levei dólar), o suficiente pra me virar até La Paz. Peguei um ônibus fofíssimo por 6 bolivianos, avisei o motorista para me deixar na Casa Color. Desci e na esquina já estava o ônibus 74 (2 bolivianos) que eu deveria pegar até a rodoviária, porém lotado. Adepta do transporte público no rush que sou, subi mesmo assim, segurei no corrimão e fui pendurada com a mochila quase toda pra fora do veículo. Like a diva!
Não demorou muito e o ônibus deu uma esvaziada e pude entrar completamente. O trajeto todo até a rodoviária custou simpáticos 8 bolivianos (contra 60 que gastaria de taxi).
Na rodoviária fui direto na Companhia Transcopacabana (já tinha pesquisado e era a melhor) e comprei minha passagem para La Paz. O ônibus partiria às 19h e a previsão era de 12 horas de viagem, paguei 170 bolivianos por um ônibus-cama (leito). Como ainda era 15h fui comer num lugar muito suspeito na rodoviária e comi um frango mais suspeito ainda. Mal sabia que comer em lugares suspeitos era normal na Bolívia e que frescura era a primeira coisa a esquecer no Brasil. Ou come ou passa fome. E devo dizer que não tive problemas digestivos/intestinais durante toda viagem. Fiquei horas lá mofando na rodoviária, observando a rotina dos que ali passavam, dei uma volta no quarteirão na frente (não indico), comprei soroche pills (remédio pra mal de altitude) e enfim, chegou a hora do embarque. Achei interessante este choque de realidade na rodoviária para eu ir praticando o desapego de ideias, frescuras e conceitos sobre os bolivianos. Eu ia praticar muito desapego no resto da viagem.
Na Bolívia e no Peru você paga a taxa de embarque em um guichê separado, dentro da rodoviária mesmo, não estranhe (foram 3 bolivianos). Lá na plataforma de embarque as cholitas passam vendendo marmitas de frango pra viagem. Eu ainda estranhando, optei por um saquinho com um tipo de pão de queijo e comprei uma garrafinha de água.
O ônibus era bom e realmente espaçoso. As poltronas eram dividas em: duas poltronas – corredor – uma poltrona. Eu peguei a poltrona sozinha. Tinha tv e durante a viagem passaram três filmes (dublados em espanhol). Tinha banheiro, mas não tinha ar condicionado, o que foi ruim até sair de Sta Cruz, pois estava bem quente lá, mas depois esfriou. O motorista corre. Muito! Mas como estou acostumada com os motoristas do Rio, não fiquei muito assustada. Na verdade, só descobri depois que a estrada era super perigosa. Tem coisa que é melhor não saber mesmo. Paramos algumas vezes no caminho porque estava chovendo muito forte e não dava pra ver nada da estrada, mas no geral a viagem foi boa e consegui dormir bem.
Dia 2
18 horas de viagem depois, sim 18 horas por conta da chuva, cheguei em La Paz, uma da tarde. Fiquei hospedada no Loki Hostel, porque tinha boas recomendações (todas sinceras, recomendo tb). Fiquei no maior quarto, misto e com banheiro, achei tranquilo. Cheguei, almocei e fiz a burrice de tomar uma cerveja (afinal, estava de férias) antes de ir pra rua de novo. A altitude não é frescura. Após a longa viagem, a refeição, a cerveja e uma mísera ladeirinha, eu comecei a ficar tonta e achei que fosse desmaiar no meio da rua.
Pensa, são 3.600 m acima do mar, então é importante não fazer bobagens como eu. Bom, comprei folhas de coca e voltei pro hostel. Chegando lá tomei um chá de coca (que era grátis no hostel), tomei banho e deitei um pouco. Logo me senti muito bem de novo, mas não queria arriscar e tomei minha soroche pill. Era sábado e o Loki hostel é balada, então subi para jantar, usar a internet (que só funciona no bar) e aproveitar a festa. Fiz umas amigas peruanas e, já que estava com o corpo cheio de coca, arrisquei na cerveja de novo. Desta vez, não tive problemas e de quebra me diverti muito.
Dia 3
Acordei cedo porque já tinha agendado o tour pra Chacaltaya. Troquei mais dinheiro e a cotação do Loki foi a melhor que encontrei na Bolívia. Tomei café e já garanti minha dose de chá de coca. Durante o café ouvi um grupo falando português e já me meti no assunto, o que foi a coisa mais esperta que fiz, já que este grupo viraria amigo e seguiríamos todos pra muitos destinos juntos.
O tour foi fechado com a agência dentro do Loki, mas descobri que paguei mais caro (não muito), mas de qualquer forma, não tenho reclamações. O ônibus me pegou na porta do hostel e já seguimos para as montanhas, com uma guia que falava espanhol e inglês.
Com algumas paradas no caminho, em 1h chegamos no alto do Chacaltaya. A estrada é tranquila, com alguns pontos perigosos (depois de passar por outras estradas, descobri que essa era suave) e nos leva a 5300 metros. Achei diferente respirar na altitude, bem diferente, a gente fica ofegante depois de dar um simples passo. Bom, o desafio era chegar a 5420m. E de baixo você olhava e pensava “é pouco, eu consigo”. Mas é super difícil! Subir na neve fofa, com um penhasco do lado e sem oxigênio. Bom, eu dava dez passos, sentava na neve pra descansar e assim foi até o topo. Cheguei MORRENDO! Mas cheguei e não é o que importa? E claro que do alto postei várias fotos montanhista-superação. Visual incrível!
Saindo do Chacaltaya fomos direto para o Valle de La Luna. No caminho a paisagem muda bastante, principalmente porque começamos a entrar na parte rica da cidade. A desigualdade social na Bolívia é impressionante, mas é isso, cada País tem seu problema e não é meu papel julgar.
Achei o Valle bem sem-gracinha. Acho que na disputa com as paisagens incríveis do Chacaltaya ele sai perdendo. Não reclamo porque estava incluso no passeio, mas se tivesse que pagar não teria ido. Dizem que a superfície do Valle se parece com a superfície da lua. Por esta parte é legal, principalmente porque não pretendo ir à lua conferir.
Na volta do passeio já parei na agência Bolivia Pachamama para reservar o Downhill para o dia seguinte. Escolhi a bicicleta intermediária (350 bolivianos). Deixei pago e voltei para o hostel. No caminho me perdi, mas na verdade adoro ficar zanzando a pé pela cidade. Tinha um tipo de desfile bem interessante, parece que era para uma festa que iria acontecer em alguns meses. Interessante porque parece algo super tradicional, quase religioso, mas todos saem com cerveja nas mãos
Tenho que contar que escolhi um lugar aleatório para comer e a comida vinha na bandeja, sem prato, toda solta hahaha mas não passei mal e o frango (claro) estava super saboroso. Aos poucos ia me despindo do “nojinho” e das frescuras. Desapega Thaís, desapega.
A noite do hostel foi menos animada do que a anterior, mas até que foi bom, pois eu estava bem cansada. E já estava enturmada com os brasileiros que conheci de manhã.
DIA 4
A agência passou cedinho no hostel para no levar ao ponto de partida da descida Downhill. O ônibus é Bolivia style e ele passa em outros hostels para pegar os turistas. A viagem leva um tempinho (acho que 1h30), mas a paisagem é lindíssima e você se distrai. Aliás, as paisagens na Bolívia são maravilhosas.
Chegando lá sua turma se junta com outras e eles começam a dar instruções. Vale lembrar que o passeio sai da parte alta e tava um frio absurdo. A bonita aqui estava de legging e blusinha fina, quase congelou. Durante a explicação rola um clima de tensão porque eles explicam o quanto é importante seguir as orientações. Eu, que até então estava achando tudo encenação, não me preocupei. Lá eles distribuem as bicicletas e os equipamentos de segurança. Os equipamentos estão inclusos no pacote e são eles: calça, blusa, capacete, cotoveleira, luvas e joelheiras. Todos equipados, bora descer.
O começo da descida é no asfalto, então é uma delícia. Você tem que se manter no acostamento e vai tranquilo, cruzando com alguns carros. Nesta parte eu achei que já era a descida “da morte” então estava feliz com a “aventura”. Bom, 1 hora depois nós paramos para realmente começar a descer. Eles explicam que é preciso manter sempre a esquerda, ou seja, o lado do barranco, porque a estrada ainda está ativa e os carros sobem pela direita (por que? Não imagino). Eles também explicam que você deve frear sempre primeiro o freio de trás e depois o da frente, para não capotar. E por fim, pedem pra gente não tirar foto porque eles mesmos tiram e entregam no CD no fim do dia (e o resultado fica bacana!). Fazem isso pra evitar que os Selfies-Maníacos façam fotos durante a descida e morram despencando morro abaixo.
Olha, bastou um minuto de descida para eu ter vontade de chorar.
O negócio é perigoso SIM. As pessoas morrem mesmo. É uma descida, por um caminho MEGA estreito, a estrada é cheia de pedras grandes então você sacoleja no caminho todo e estava chovendo, portanto era frear e já derrapar. Tudo isso com um barranco enorme do seu lado e se você cair ali, não tem nenhuma arvorezinha para te segurar.
Não sou medrosa e quando viajo me disponho a fazer as coisas, mas acho este passeio realmente perigoso. Gosto de aventura, mas não gosto de perigo. Gostei MUITO do passeio, mas é pra fazer uma vez só. Eu fiquei com tanto medo que fui freando para a bicicleta não pegar velocidade com a descida. Claro que não mantive a esquerda e fui no lado oposto do barranco, preferia ser atropelada que despencar lá do alto. Tem uma Van que vai atrás, caso alguém queira desistir (e muita gente vai pra Van). Vou ser sincera, só não fui porque achei a Van mais perigosa do que eu na bike. Se eu estava com medo da bike cair, imagine uma van enorme em uma estrada que desmorona? Haha Fora que ouvi histórias (sempre elas) de um turista que havia morrido ali três meses antes. Um mês antes outro quebrou o braço e pelas estrada tem várias cruzinhas fazendo jus ao nome “estrada da morte”. 
No caminho fizemos algumas paradas para as fotos e para que o grupo não se disperse muito. Eu que era da turma do “fundão”, aproveitava pouco das paradas, mas o visual é lindo, não dá pra negar, então valia a pena relaxar para observar. Detalhe que em alguns pontos tem uma mini cachoeira na estrada!!! Sim, você passa por baixo dela em alguns pontos e em outros passa por um tipo de riozinho, tudo com direito a filmagem e foto, pra você não esquecer o possível tombo e a cara de pânico.
Essa parte da descida dura umas 2h. No último trecho, o guia disse que era o mais perigoso porque a estrada era melhor e as pessoas abusavam na velocidade. Eu achei o último trecho um paraíso, porque não tinha aquelas pedras pentelhas, então deu pra aproveitar a descida sem achar que ia morrer.
O passeio acaba em um barzinho de estrada, ali devolvemos as bikes e os equipamentos de segurança. É engraçado que neste ponto está todo mundo destruído, descabelado e molhado, mas muito empolgado (eu estava feliz que tinha acabado). Dali a Van te leva para outro lugar onde é servido o almoço, também incluso. O restaurante é bem roots, no meio das árvores, servidos por um gringo e umas crianças nativas (na Bolívia você vai ser servido por crianças várias vezes, estranho, mas eu não quis julgar). A comida era uma delícia e podia repetir a vontade. Foi um ótimo lugar para descansar.
Na volta, a Van faz um caminho diferente (graças à Deus). Ela vai pela estrada nova, portanto sem perigo. Eu que estava exausta dormi o caminho todo. Vale lembrar de levar uma roupa extra ou um par de meias novas, porque eu não levei e congelei na volta, com tudo molhado. Haha calma, gente. Eu tava aprendendo a desapegar.
Já em La Paz passamos na agência para pegar a camiseta inclusa e esperar uns minutinhos para pegar os CDs com as fotos. O CD você pode pegar no dia seguinte, mas como íamos embora no dia seguinte, resolvemos esperar.
Sobre o passeio eu achei que valeu a pena sim. Achei perigoso de verdade (depois ainda soube de uma turista brasileira que abriu o queixo e quebrou o braço). Acho que a pessoa que tem qualquer receio com altura, não deve ir. Eu que não tenho, já passei sufoco. E meu conselho é: se quer fazer, siga as regras, o caminho em si já é aventura e não dá pra estragar o resto da viagem só pra ser o corajosão da galera. Se você seguir as orientações, vai conseguir aproveitar o passeio. As paisagens são lindas e valem o risco.
Bom, depois de todo este desgaste psicológico haha eu voltei pro hostel, tomei banho, comi e dormi. Exausta.