"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Em julho de 2017 comecei a conversar com minha esposa sobre a possibilidade de fazer uma viagem pela Europa. Ela é professora e então a viagem deveria acontecer em janeiro por conta das férias escolares. Depois de pesquisar bastante definimos que iríamos em janeiro de 2018 conhecer Espanha e Portugal, por conta do idioma e por ter uma temperatura mais amena durante o inverno europeu.
Não gosto de viajar com pacote turístico. Prefiro eu mesmo ir atrás de tudo, passagens áreas, hospedagem, passeios... Me divirto elaborando o roteiro. Também gosto de maximizar ao máximo a estada em um lugar, conhecer o máximo de coisas possíveis em um dia, sem correria, mas também não tenho paciência para observar cada janela ou árvore de uma atração e ficar no hotel descansando só se for realmente necessário. Busco hotéis com custo benefício, que tenha no mínimo um banheiro e uma cama descente, e vejo alimentação como atração em uma viagem.
Desde o início a ideia era fazer os deslocamentos entre as cidades de automóvel. Achava que o carro me daria flexibilidade na locomoção. Junto comigo e minha esposa, também foi minha sogra e sua irmã. Por estarmos em quatro pessoas, achei também que usar o carro sairia mais em conta que usar o trem ou ônibus como transporte.
Comecei a cuidar da passagem área em julho. Até setembro, quando comprei as passagens, não conseguia encontrar valores para Europa na época que eu podia ir por menos de R$ 3 mil, a não ser em voos da Air Maroc que poderiam levar mais de 30 horas com a conexão. Um colega viajou no mesmo período que eu, mas em 2017, e disse que pagou R$ 2 mil pela LATAM. Não achei nada perto disso. Quando apareceu passagem da Air China por R$ 2,6 mil reais (na verdade R$ 2,8 mil com o IOF que não estava claro que seria cobrado) com voo direto de Guarulhos a Madrid, não tive dúvida. Depois vi que foi uma decisão acertada. Nas vezes que cuidei do preço após a compra não vi valor menor. Como moro na fronteira com a Argentina, literalmente, também precisava chegar a Guarulhos ainda. Fomos de carro até Chapecó e de lá pegamos voo direto para Guarulhos no dia do embarque para a Europa.
Roteiro
Compradas as passagens aéreas, é hora de finalizar o roteiro. Iríamos sair do Brasil dia 11/01/2018 e voltar de Madrid dia 28/01/2018, ao todo 16 dias úteis de passeio. Como Madrid seria a cidade de início e fim da viagem, elaborei um roteiro circular. O percurso total de carro foi de aproximadamente 3.400 Km. Segue esboço no Google Maps e lista com datas em cada local.
Vendo a lista e a duração da estada em cada lugar, pode ter parecido uma viagem pesada. Realmente foi bem cansativa. Enquanto ainda aguento, deixo o descanso para os fins de semanas em casa.
Preparativos no Brasil
Procurei reservar hotéis que tivessem estacionamento privativo. Isso limitou muito as ofertas disponíveis. Muitos hotéis localizados próximos aos pontos turísticos não possuíam estacionamento, então acabávamos ficando um pouco mais afastados das principais atrações em algumas cidades. Claro que também tem-se a opção de deixar o carro nos diversos estacionamentos públicos existentes nas cidades. Uso normalmente o Booking para reserva de hotéis, mas o Hoteis.com se mostrou bem mais vantajoso na maioria das acomodações. Primeiro em relação ao preço, e segundo porque eu tinha possibilidade de realizar o pagamento ainda no Brasil sem a cobrança de IOF.
Passeios mais concorridos, como a Sagrada Família em Barcelona e a Alhambra em Granada, foram comprados no Brasil com antecedência. São passeios com hora marcada e que dependendo da demanda há o risco de não conseguir ingresso na hora.
Aproveitei a Black Friday e comprei os seguros de viagem. O plano EUROPA TOP pela Mondial Travel saiu 200 reais para cada pessoa.
Preferi levar dinheiro para a viagem. Deixei o cartão de crédito para alguma emergência. Levei cerca de 10 mil reais, ou 2.400 euros.
Total de gastos com passagem aérea e seguro viagem para duas pessoas:
Clima e o que levar nas malas
Apesar de ter uma temperatura mais amena, Portugal e Espanha, de um modo geral, são mais frias que o inverno brasileiro, mesmo para quem vive na região sul de nosso país. Temperatura agradável, que quase deu para tirar a blusa de frio, sentimos apenas em Sevilha, que era a cidade mais quente do roteiro. No restante dos lugares o casaco era um grande companheiro, junto com o cachecol, a luva e o gorro. E não pense que é frescura de brasileiro. Todas as pessoas andavam nas ruas bem agasalhadas, quase todos também com algum tipo de cachecol. Talvez por isso fosse difícil ver pessoas gripadas ou tossindo.
Eu e minha esposa levamos uma mala média cada. A minha foi pesando 8 quilos e a dela foi pesando 10 quilos. Levei as roupas que uso no inverno brasileiro. Para mim foi suficiente. Se não tiver muita roupa de frio, deixe para comprar lá. Era época de liquidação de inverno e pelo menos o preço das roupas para o frio eram mais em conta que no Brasil. A Decatlhon lá tem um preço que chega a ser metade do praticado no Brasil.
Também levei numa mochila uma câmera fotográfica, carregador portátil e uma extensão de tomada. Não tive problema com nossos plugs de tomada em nenhuma cidade da viagem.
11/01 - Saindo do Brasil
Pegamos o voo em Chapecó. O embarque estava previsto para 09:00, mas a aeronave atrasou e decolamos por volta de 10:30, chegando a Guarulhos pouco mais de 1h depois. O voo para Madrid saiu 19:05, na hora marcada.
Gostei do avião da Air China, um Boeing 787 Dreamliner. As poltronas da classe econômica reclinavam bem e a comida servida era decente. Meu inglês não é dos melhores, mas tive uma dificuldade tremenda em entender o que os comissários de bordo chineses falavam.
12/01 – Chegada em Madrid
O avião chegou a Madrid 07:30, sem atrasos. Quando saí do avião já deu pra sentir o frio que fazia na cidade, próximo dos 3 graus Celsius. Seguimos direto para a migração.
Pensando no terror que falavam que era a migração do aeroporto de Barajas, eu preparei uma pasta com todos os vouchers de hotéis e passeios, aluguel de carro, passagem área e seguro de viagem. Até contracheque e extrato mostrando o limite do cartão levei. O agente de migração apenas folheou o passaporte, comentou que já fomos a Machu Picchu (tinha o carimbo no passaporte), e carimbou a entrada. Não fez nenhuma pergunta e não pediu nenhum outro documento.
Após pegar as malas, a ideia era comprar um chip de celular. Precisaria dele principalmente para usar o GPS do telefone. Não achei nenhum loja no terminal em que desembarcamos. Felizmente eu instalei também um GPS Offline no celular contendo os mapas de Espanha e Portugal.
Nota: moro na fronteira com a Argentina faz 5 anos e até hoje não entendo direito o que os hermanos falam. O espanhol falado na Espanha é muito mais fácil de compreender. E mesmo falando um nível básico do idioma, não tive muitos problemas na comunicação.
Fomos então ao balcão da locadora do veículo, a Sixt. O veículo locado foi um Ford Focus SW à gasolina, motor 1.0 turbo com apenas 2400Km rodados e que se mostrou muito econômico. Escolhi um modelo perua por conta do espaço do porta-malas, afinal seriam quatro malas, e a mala da minha sogra e sua irmã estavam bem parrudas. O preço, já pago no Brasil, ficou em 315 euros. Ao retirar o veículo o atendente me convenceu a pagar mais 180 euros pela cobertura completa. Não precisava, mas aceitei, afinal iria percorrer 3400Km. Apesar de nenhum incidente com o carro acho que foi vantagem. Não fizeram nenhuma conferência no veículo na retirada. Apenas entregaram a chave do carro e indicaram em qual vaga do estacionamento do aeroporto ele estaria.
Como ainda faltava muito tempo para o check in no hotel e não tive respostas sobre um check in antecipado, fomos do aeroporto direto para uma loja gigante da El Corte Inglês, um tipo de loja de departamentos que encontramos na Espanha e Portugal em diversas cidades. No local tinha um quiosque da Vodafone, então aproveitei para contratar um plano com internet móvel no meu telefone. O Chip e o plano de 10GB válidos por 30 dias saíram por 25 euros. Também compramos água e fizemos um lanche numa cafeteria do local. Lanche simples, mas deu pra perceber o tanto que iríamos comer bem na Espanha.
Já extremamente cansados, finalmente fomos para o hotel. O local escolhido foi o NH Madrid Sur. Ele é bem afastado das atrações turísticas de Madrid, mas no momento não importava, pois iríamos deixar para conhecer a cidade apenas no retorno a ela. Para a proposta inicial ele serviu muito bem. Estávamos tão cansados que não fizemos mais nada no restante do dia.
Total de gastos no dia:
Nota: não vou incluir gastos com compras supérfluas tais como roupas, calçados ou lembrancinhas. Todos os preços da refeições que eu colocar já incluem a gorjeta, quando era o caso, e que normalmente eu dava 10% do valor total.
13/01 – Segovia
Um pouco mais descansados, acordamos cedo no horário madrileno. Peguei as diárias do hotel sem café da manhã. Achei muito caras. Não lembro o preço mais dava mais de 10 euros por pessoa. Aliás, em quase todos os hotéis que reservei o café da manhã era bem caro. Na rua um frio danado. Fomos na Cafetería Santander Camuy, próxima do hotel. Com 5 euros pedi 2 cafés com leite e duas torradas com presunto e queijo, para mim e a esposa.
Voltamos ao hotel e pegamos o carro rumo a Segovia. Percurso de 100Km em rodovia duplicada. Pagamos um pedágio de 8,40 euros. No caminho deu para ver a paisagem tomada pela neve. Nunca tinha visto nada igual. Na semana anterior ao nosso passeio havia nevado bastante na Espanha.
Em Segovia deixamos o carro em um estacionamento pago no subsolo, o Parking Acueducto Segovia. Ele fica próximo das principais atrações e é um bom lugar para iniciar o passeio pela cidade, que pode ser feito todo a pé sem muito esforço.
Na cidade ainda havia neve da semana anterior. A temperatura era de 1 graus Celsius, mas pelo menos não ventava. Começamos pelo Aqueduto de Segovia, da época do Império Romano. Atravessamos as muralhas da cidade e seguimos em direção ao Alcazar de Segovia. No caminho pegamos neve misturada com chuva. Passamos pela Catedral, mas sem entrar nela. Prometi para minha esposa que não entraríamos em todas as Igrejas que víssemos pela frente, a não ser as imperdíveis. A entrada do Alcazar foi de 8 euros por pessoa, compradas no local. Gosto muito de história e coisas antigas, então para mim aquilo tudo era fascinante. O Alcazar conta com um pequeno museu contendo armaduras e armamentos antigos e uma torre de onde se tem uma bela vista da cidade e região. Depois de visitar todos os locais do castelo, fomos a uma cafeteria do local para esquentar um pouco o corpo.
Saindo do Alcazar caminhamos contornando as muralhas da cidade. Um verdadeiro espetáculo. Já perto da hora do almoço, a fome começou a bater. Fomos a alguns restaurantes que eu havia marcado no Google Maps. Alguns deles precisavam de reserva. Ficamos então no Café Bar Haggen. Todos escolheram o menu do dia, que contava com entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Para eu e minha esposa o valor ficou em 35 euros. O sabor é contestável. Eu gostei, mas minhas companheiras de viagem não. Acharam o tempero muito forte.
Após o almoçar seguimos para Navacerrada. Queria conhecer a estação de esqui local. No caminho começou a nevar com mais intensidade. Inicialmente era tudo muito bonito. Mas à medida que subíamos a serra a neve ia aumentando e o carro começava a patinar quando precisava desacelerar para fazer as curvas fechadas existentes no percurso. O carro não tinha corrente para os pneus e até então eu achava que não iria precisar. Engano meu. Levamos mais de 1 hora para percorrer 40Km. Chegando à Navacerrada ficamos com medo da neve piorar e ficarmos preso na rodovia, como ocorreu na semana anterior durante a última nevasca, e fomos direto para Madrid, em mais 60Km. Não havia pedágio neste percurso. Na descida os caminhões limpadores de neve já haviam passado pelo local e ficou muito mais tranquilo de dirigir.
Em Madrid fomos conhecer as lojas nas imediações do hotel. Havia uma Decatlhon, onde comprei uma bota e algumas meias. Minha esposa comprou uma segunda pele por 5 euros. Depois fomos à Cafeteria Novell, onde lanchamos por 10 euros para eu e minha esposa numa refeição farta e gostosa. Recomendo.
Total de gastos no dia:
14/01 – Indo para Barcelona com parada em Zaragoza
Mais um dia de acordar bem cedo, como quase todos os dias da viagem. Novamente fomos tomar café da manhã na Cafetería Santander Camuy. Após o café voltamos para o hotel, pegamos as malas e acertamos o estacionamento, que não estava incluído na diária: 20 euros por dia. Depois partimos rumo a Zaragoza, em 316 Km de rodovia duplicada.
Nota: Sobre as rodovias na Espanha e Portugal, você sempre tem a opção de pegar uma rota com pedágio e outra sem. As rotas pedagiadas que pegamos eram todas duplicadas e o limite de velocidade era até 120 Km/h. A rota sem pedágio podem ser duplicadas ou de pista simples, nesta última limitada no máximo a 100 Km/h. Como tínhamos que fazer deslocamentos grandes durante a viagem, eu escolhia a rota mais rápida, e quase sempre era a pedagiada.
Pouco antes de chegar em Zaragoza, paramos para abastecer o carro pelo primeira vez. Em volta do posto bastante neve e frio. Nesse primeiro abastecimento havia um frentista, daí aproveitei para tirar dúvidas de como operar a bomba de combustível, pois sabia que alguns postos adotavam o método de auto atendimento, com o qual eu não tinha familiaridade. É bem simples. Você coloca o valor que quer no combustível que escolher e inicia o abastecimento apertando o gatilho. Em alguns postos depois de certo horário você precisa ir na conveniência do posto e pedir o quanto quer abastecer, num sistema "pré pago". A gasolina na Espanha girou em torno de 1,30 euros o litro. Ainda bem que o carro era econômico.
Nota: Não conseguimos euro trocado no Brasil, apenas notas de 100. Aproveite pagamentos no hotel, abastecimento e outras compras mais caras para utilizar as notas altas e assim ter dinheiro trocado, pois em alguns comércios não aceitavam a nota de 100 pois não tinham troco.
Chegando em Zaragoza estacionamos o carro no Aparcamiento Salamero. Queríamos conhecer a Basílica de Nuestra Senora del Pilar e o Palácio de la Aljaferia. A temperatura estava 7 graus, mas a garoa que caía e o vento deixava tudo muito mais gelado. Fomos caminhando até o primeiro local a ser visitado. A entrada da Basílica de Nuestra Senora del Pilar era gratuita, uma raridade nos tempos religiosos que visitamos na viagem. O local era imenso. Não sou religioso, mas tenho um fascínio por igrejas e outras construções antigas. Ao lado da Basílica passa o Rio Ebro. Atravessando uma ponte de pedra do século XV tem-se uma vista panorâmica da Basílica, mas com o clima chuvoso e frio não aguentamos ficar muito tempo perto do rio exposto ao tempo.
Finalizado o passeio na Basílica, fomos procurar um local para almoçar. Andando pelas ruas da cidade num frio e com um chuvisco que não parava, encontramos um Mercado Gastronômico. Havia várias opções de restaurantes. Eu e minha esposa pedimos pratos a base de massa, um suco de laranja e uma sangria. Tudo saiu por 25 euros.
Como já estava ficando tarde e ainda tínhamos 312 Km até Barcelona, decidimos por não conhecer o Palácio de la Aljaferia por dentro, apenas passamos de carro pelo lado dele. No trecho até Barcelona pegamos um pedágio. Resolvi testar o pagamento com cartão de crédito. Coloquei na máquina e achei estranho não ter que digitar nenhuma senha. A cancela foi liberada e seguimos viagem. Talvez na hora em que aluguei o carro foi feita alguma associação do cartão de crédito com o veículo.
Nota: Os pedágios na Espanha podem ser pagos por dinheiro ou cartão. É preciso ficar atento à indicação da fila que você vai pegar qualé a forma de pagamento aceita. Algumas aceitam apenas um dos métodos, outras os dois. Nas que aceitam dinheiro a máquina te dá o troco.
Já escurecia quando chegamos em Barcelona. Pouco antes paramos para mais um abastecimento. O trânsito na rodovia estava intenso, e assim foi até próximo do hotel. Escolhemos o Aparthotel Hispanos 7 Suiza. A diária para dois dias saiu por R$ 762 para quatro pessoas, sem café da manhã e sem estacionamento incluído. Minha parte e da esposa saiu por 381 reais. O local tinha dois quartos, cozinha, banheiro e máquina de lavar. A localização era excelente, a uma quadra da Sagrada Família, mas distante a pé do restante das atrações.
Decidimos sair para jantar. Era domingo de noite. As ruas não estavam tão movimentadas e a maioria das lojas estavam fechadas. Demos um volta ao redor da Sagrada Família e depois fomos em direção à Casa Milà. No caminho achamos uma cafeteria que parecia ter boa comida. Já havíamos passado por outras não tão convidativas. Meu lanche e o da esposa saiu por 9,10 euros. Como o clima em Barcelona não estava tão frio, na casa dos 10 graus Celsius, visitamos também a Casa Batlló, que não estava tão distante da Casa Milà. Nos dois locais não pagamos ingresso para o interior. Eram bastante caros. Após, passamos num mercado para comprar água e lanchinhos e depois voltamos ao hotel.
Total de gastos no dia:
15/01 – Barcelona
Dia de conhecer um dos principais pontos turísticos do passeio. Os ingressos para a Sagrada Família foram comprados com antecedência no Brasil, ao custo de 15 euros cada, somente o passeio básico. A entrada estava agendada para 09:30. Antes fomos tomar um café da manhã em uma padaria próxima, o 365 Café. Uma refeição padrão saiu 7,55 euros para o casal.
Ao redor da Sagrada Família havia um forte esquema de segurança, com algumas ruas interditadas e a presença de policiais. Aguardamos o horário e enquanto isso apreciávamos os raios solares que batiam nas torres do templo, dando uma coloração dourada para eles. Já no interior, pude apreciar uma beleza indescritível nos vitrais e nas linhas fora do convencional presente nas colunas e paredes. No subsolo do templo há um museu com diversas maquetes mostrando a evolução do que viria a se tornar o tempo atual.
Findo o passeio, iniciamos um tour a pé por Barcelona. Fomos até o Passeig de Sant Joan e seguimos até o Parc de la Ciutadella, passando pelo Arco do Triunfo. No parque aproveitamos para descansar um pouco na frente da Cascada Monumental. Depois partimos em direção à praia, mas erramos o caminho e acabamos em um tipo de pier onde se localizava o Aquário de Barcelona. Já se aproximava da hora do almoço e fomos em direção ao bairro El Gòtic para procurar algum restaurante para comer. No trajeto encontramos a Igreja de Santa Maria do Mar. A entrada era gratuita, mas já havia passado das 13hs e resolvemos deixar para depois. Próxima da entrada da Igreja uma moça nos chamou para um restaurante. Olhamos o cardápio e resolvermos dar uma chance. Se chamava Restaurante Santa Maria del Mar. Pedimos o menu do dia, que vinha entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Lembro de ter pedido um arroz negro com lula, bem gostoso. Meu almoço e o da esposa saiu por 25 euros.
De bucho cheio e já cansados de tanto caminhar, seguimos pelo El Gòtic direto para a Catedral de Barcelona, apreciando as ruas antigas do caminho. A Catedral em estilo gótico data do século XIII, sendo construída em cima de outras Igrejas mais antigas. A fachada é espetacular, mas o ponto alto está no interior, todo de pedra e que com auxílio da iluminação ganha uma coloração magnífica. A entrada sai 7 euros por pessoa, com direito a acessar o telhado do templo, dando uma bela vista da cidade lá do alto.
No restante do dia fomos fazer compras na Avinguda del Portal de l'Àngel, que conta com diversas marcas famosas. Era época de liquidação de inverno e tinha várias coisas com preço bom. Paramos também numa cafeteria para tomar um café, por 3,70 euros o casal. Depois voltamos para o hotel e fomos descansar até a hora do jantar. Fizemos um lanche na Los Santos Empanadas Argentinas, que como o nome sugere, é especializada em empanadas. Há diversos sabores. Totalmente indicado. Para o casal saiu por 13,80 euros, com 5 empanadas e bebidas.
Esse dia foi extremamente cansativo. Caminhamos próximo dos 10 Km. Tentei convencer as companheiras que o divertido era conhecer a cidade à pé, que de táxi ou metrô não teria a mesma graça. Mas a verdade é que forcei um pouco a barra. Se tivéssemos dois dias inteiros em Barcelona daria para ver as atrações sem tanto cansaço. Infelizmente não deu para conhecer o Parque Guell e o Castelo de Montjuic e acabamos não entrando na Igreja de Santa Maria del Mar. Voltaremos à Espanha um dia e com certeza Barcelona fará parte do roteiro, dessa vez para conhecer o que faltou na cidade e para visitar vários lugares ao redor, como Andorra e os Pirineus.
Total de gastos no dia:
16/01 – Deslocamento até Granada
Um dia totalmente dedicado ao deslocamento até Granada. Tracei uma rota no Google Maps que daria 811 Km, indo em direção à Valência e Múrcia. Antes de sair do hotel fomos novamente tomar café da manhã do 365 Cafe, dando 8 euros para o casal. Pagamos o estacionamento do hotel, que deu 25 euros por dia 😭, e seguimos a estrada. No meio do caminho paramos em um posto para abastecer e comprar água e lanches. Chegando perto de Valência, pagamos o pedágio mais caro da viagem. Não lembro o preço, mas foi próximo de 30 euros.
Almoçamos pouco depois de Valência em um posto de combustível. Minha refeição e da esposa deu 21,25 euros. Comida mediana, mas deu pra matar a fome. Aproveitamos a parada e abastecemos novamente o carro. Colocávamos 25 euros de cada vez, assim conseguíamos trocar as notas de 100 e ter notas menores.
Chegamos em Granada no fim da tarde. Nunca percorri 800 Km tão rápido, isso sem passar da velocidade máxima das vias. As rodovias ajudaram. Pistas duplicadas na maior parte do percurso e pouco movimento nas rodovias, mesmo nos trechos sem pedágio.
Nota: Os europeus, pelo menos os espanhóis e portugueses, são muito educados no trânsito. Respeitam faixa de pedestre na maioria dos lugares, não tomam conta da faixa da esquerda nas rodoviais, mesmo se estiverem muito rápido (o que não era incomum), e dão passagem se você sinalizar que vai mudar de faixa ou acessar uma via. Já no Brasil...
O Hotel reservado em Granada foi o Granada Center. A diária ficou em 131,72 euros para dois dia, sem café da manhã, mas com estacionamento no local incluído. É um bom hotel, fora do centrinho da cidade, mas não muito longe, a poucos minutos caminhando da maioria das atrações e com algumas opções de lanchonetes e restaurantes próximos. Um motivo que me fez escolher o hotel é que o acesso ao centro histórico de Granada é restrito a moradores e táxis, e tive medo de tomar multa por circular em área não permitida.
Depois de nos acomodar, fomos fazer um lanche. Escolhemos o Mimimi, que não sabíamos, mas era especializado em comida vegana. Mesmo sendo carnívoro, gostei da comida. A refeição do casal saiu por 18 euros, mas pedimos bastante coisa.
Após, minhas companheiras quiseram ir numa mega loja do El Corte Ingles que havia perto do hotel. Descobri que nesse dia que não havia cansaço para perambular pelas lojas, mas para visitar as atrações caminhando... 😂 Eu segui sozinho para o centro da cidade. Queria ter uma ideia de como era Granada de noite. Passei pelo Monastério de San Jerônimo e a Basilica de San Juan de Dios e depois segui pela Calle Gran Via de Colón até chegar nos fundos da Catedral de Granada. Tirei algumas fotos do exterior e voltei em direção ao hotel passando por diversas praças e vielas.
Nota: É incrível a sensação de segurança que senti nas cidades visitadas. Caminhava dia e noite com uma câmera grande, muitas vezes com ela à mostra, e não me senti em nenhuma situação de risco. Claro que mesmo assim não baixava a guarda. Nunca levava nada no bolso de trás da calça e o dinheiro e passaporte sempre ficava em uma doleira por baixo das roupas.
Total de gastos no dia:
17/01 – Granada
Acordamos cedo e fomos tomar café da manhã. Fazia 3 graus Celsius e ventava bastante. Comemos na Cafeteria Mundidulce, com dois cafés com leite e dois baguetes gigantes por 7,60 euros. De barriga cheia, fomos procurar um táxi para subir até a Alhambra. Prometi a minha esposa que esse deslocamento não faríamos a pé. Acho que ela estava com trauma da caminhada em Barcelona.
Sobre a Alhambra, trata-se de um complexo de palácios e fortaleza, que datam da época em que a Espanha era dominada pelos mouros. O complexo é influenciado principalmente pela arquitetura islâmica e é composto pela Alcazaba (fortaleza), Palácio de Carlos V, Palácios Nazaries e o Generalife. O ingresso foi comprado com antecedência no Brasil pelo preço de 14,80 euros por pessoa. Na compra é preciso indicar o horário que irá visitar os Palácios Nazaries.
Já dentro do complexo, começamos o passeio pelo Generalife, um conjunto de jardins que conta também com um palácio no estilo mudéjar, de onde se tem uma visão privilegiada do restante da Alhambra. Reserve pelo menos uma hora para o lugar, que é um espetáculo.
Depois fomos para a fila dos Palácios Nazaries, que estava com a entrada marcada para as 11hs. O local é sensacional. Incrível o que os muçulmanos fizeram. Tudo com uma riqueza de detalhes imensa. De todas as atrações vistas na viagem, a Alhambra com certeza é a mais bela, parte disso graças aos Palácios Nazaries.
Ainda tínhamos o Palácio de Carlos V, já em estilo ocidental e com um museu bem bacana dentro, e a Alcazaba, uma fortaleza que é também a parte mais antiga da Alhambra, datada do século IX.
Já era perto das 14 horas quando terminamos o passeio pela Alhambra. Tentei convencer minha esposa a descer para o centro de Granada a pé. Seria uma caminhada de 15 minutos, mas não teve jeito, fomos de táxi. Com isso perdi a chance de tirar umas fotos do Portão da Justiça, que ficava no caminho rumo ao centro.
Almoçamos no La Vinoteca. Refeição para o casal saiu 35 euros, com entrada, pratos principais e bebidas. Comida muito gostosa, mas não tão farta quanto de outros lugares que havíamos comido.
Seguimos para a Catedral de Granada. O ingresso saiu em 5 euros por cabeça, com direito a áudio guia em português. O exterior da Catedral fica apertado no meio de outras construções, então não há uma fachada grandiosa como na Catedral de Barcelona, mas o interior é incrível, ricamente decorado em ouro, e os órgãos são um espetáculo. Finalizado o passeio, voltamos para o hotel pelo caminho que eu havia feito na noite anterior.
Próximo do entardecer, minha esposa ficou descansando no hotel e fui sozinho até o Miradouro de San Nicolás. O caminho até lá era uma ladeira passando pelo simpático bairro de Albaicín. Esperava uma vista panorâmica da Alhambra e fui surpreendido também com um belo por do sol. Peguei um caminho diferente na volta, passando por ruelas e escadarias de pedras.
Voltando ao hotel, chamei as companheiras para jantar. Próximo havia um restaurante de comida italiana com preço bom e avaliações bem positivas, o La Tuttoria. Passamos nele 19:00 e estava fechado. Uma pena. Rodamos pela redondeza e não achamos nenhum outro interessante do nosso gosto, apenas alguns com o preço bem elevado. Fomos então matar tempo do El Corte Ingles, de novo. Aproveitei para comprar água e alguns lanches. Depois voltamos para o La Tuttoria. Dessa vez estava aberto. Nesse dia constatamos que o horário das refeições dos espanhóis é bem mais tarde do que estávamos acostumados. Pedi um carpaccio e a esposa uma macarronada. Ainda comi parte da refeição das companheiras, rabo de touro cozido e fondue de gorgonzola. A parte do casal com bebidas incluídas saiu por 23,50 euros.
Total de gastos no dia: