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Diego Minatel

Sobre Na Natureza Selvagem, Literatura e Viagens

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Lembro no meu íntimo quando assisti pela primeira vez Na Natureza Selvagem. Na época, eu era um balde transbordando sonhos. Nunca antes tinha me aventurado. Viagens só aconteciam por trabalho ou férias familiares. A vida era uma linha a ser seguida. Nunca antes um filme tinha me perturbado tanto. A minha primeira reação foi admirar a beleza das imagens. A cena dele correndo na orla da praia ou entre os cavalos é de uma boniteza sem tamanho. Meus olhos suam nestes momentos do filme e ainda tem a trilha sonora do Eddie Vedder. O Sean Penn é de uma sensibilidade sem tamanho neste filme. Tudo é belo. Porém, ao me deitar neste dia as perguntas vieram na minha cabeça. Porque essa porra de Alasca? Porque não o deserto de Mojave? Porque não o Himalaia? Porque não qualquer floresta? Acordei apressado no dia seguinte, revi o filme e nada de respostas.

Voltei a assistir ao filme várias vezes. No fim a pergunta sempre voltava na minha cabeça: - Porque essa porra de Alasca? Volta e meia essa pergunta retornava. Anos depois comprei o livro de mesmo nome para tentar responder essa maldita pergunta que tanto me perturbava. O livro é escrito por Jon Krakauer que é jornalista e montanhista. Ele é autor do livro No Ar Rarefeito que conta a história de uma trágica subida ao Monte Everest, na qual ele estava presente. No Ar Rarefeito, na minha opinião, é um livro muito melhor que Na Natureza Selvagem. No entanto, ler na Natureza Selvagem foi um misto de sentimentos. O livro é um trabalho jornalístico onde o autor tenta entender os passos e os porquês do Alex. O livro de nada tem de poesia e de beleza como visto no filme.

Alex era um leitor assíduo e conhecer um pouco das suas preferências literárias ajuda entender um pouco suas atitudes. David Thoreau, Jack London, Leon Tolstoi, Mark Twain eram de seus autores favoritos. Fácil perceber a influência de Thoreau e Tolstoi na sua negação do status quo e do seu rompimento inevitável com seu cotidiano. Porém, a pergunta do Alasca ainda não estava respondida. Para isso tive que conhecer Jack London, autor que nunca havia lido anteriormente. Jack London na sua vida viveu algumas aventuras e viajou para o Alasca na época da febre do ouro. Enfim, uma pista. Em um dos seus livros mais famosos, O Chamado Selvagem, London conta a história do cachorro Buck. Buck era um cão doméstico que vivia na quente Los Angeles cheio de mimos e facilidades. Num dia qualquer foi roubado e levado para o gelado Alasca para trabalhar como cão de trenó na corrida pelo ouro. Com o tempo Buck vai se transformando e voltando as suas origens. Perdido no Alasca precisa se sustentar e evocar seus instintos primitivos para conseguir sobreviver em terras desconhecidas e selvagens. Esse processo elimina todo o seu passado domesticado e o torna um selvagem, ou em outras palavras um lobo. 

Alex via no Chamado Selvagem um chamado para ele. Se Buck o cão doméstico do livro se tornou um lobo porque ele também não se tornaria um selvagem vivendo nesse mesmo Alasca? Buck era feliz em sua ignorância. Creio que Alex também era feliz em sua ignorância de mundo. Buck resgatando sua origem selvagem também resgatava a vida que não havia vivido até ali. Alex acreditava que isso aconteceria com ele também. No momento, em que ele começou a negar a sua vida atual, ele se apegou no Buck e consequentemente no Alasca para sua salvação. Fez como Thoreau e Tolstói e largou a comodidade de sua vida para viver com quase nada e assim, viveu histórias de aventuras como nos livros de Mark Twain para que no fim encontrasse a ruptura final, do seu antigo-eu para o seu novo-eu, no Alasca, como o Buck de London.

A não ser que você seja o Paulo Coelho no caminho de Santiago de Compostela onde tudo que acontece é um significado para reforçar seu pensamento de mundo. Em Diário de um Mago, Paulo Coelho percorre o Caminho de Compostela para recuperar sua espada e tornar-se se um mago. Todos os seus dias no caminho são cheios de significados e aprendizados que só servem para reafirmar seus pensamentos. Alex não era um mago. E como toda pessoa comum que vai em busca de respostas, ele encontrou mais perguntas que respostas. E as respostas encontradas são sempre para questionar as certezas que temos. Alex ao chegar no Alasca não tinha mais certeza de torna-se lobo, ao olhar para seu caminho ele questionou a sua busca, mas a tragédia da vida não deixou-o saber se aquele Alex, que escreveu em seu leito de morte "A felicidade só é real quando compartilhada", era o Alex que ele buscava para si. 

Antes via o Alex como um messias mochileiro, uma inspiração. Hoje revejo Na Natureza Selvagem e ainda vejo muita beleza no filme. Porém, não sei ao certo o que pensar. Às vezes acho o Alex um tanto quanto egoísta em sua inflexibilidade. Outras vezes acho ele muito foda. A intermitência de sentimento deve-se muito ao meu estado de espírito. Entretanto, nunca mais questionei o porquê do Alasca. Não por ter encontrado uma explicação plausível para o significado do Alasca para ele. E sim, porque na busca por entender o Alasca, entendi que nos apegamos em uma coisa qualquer para poder percorrer um caminho. O Alasca foi o caminho do Chris para torna-se Alex. Um dia Machu Picchu foi meu Alasca, em outro dia foi o Roraima e cada dia surge novos Alascas. Para algumas pessoas o Alasca é Aurora Boreal, para outras é o Caminho de Santiago de Compostela, para outras a Disney, para muitas outras é o Nepal ou a India. A inspiração pode surgir na literatura, numa fotografia, numa conversa ou num filme. Agora ao terminar de ver o filme, a pergunta que fica é: - Se Alex estivesse vivo, qual seria o próximo Alasca que ele iria buscar?

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