Peço um pouco de paciência ao leitor. Este será um longo relato.
Há uns 13 anos, recebia em minha casa a revista Terra – quanta saudade daquelas páginas com lugares deslumbrantes – e nela, a capa do lugar mais bonito que já havia visto. Prometi a mim mesmo, que um dia lá estaria.
Aos 28 anos, embarquei rumo à Patagônia, começando minha viagem e o tão esperado mochilão por Santiago. Ao menos, era isso o que eu pensava.
Ledo engano.
Minha aventura começou quando sai de Sinop, minha cidade matogrossense. Com apenas “alguns” quilômetros andados, minha família parou em um tradicional ponto entre Sinop e Cuiabá. E nesta parada em Nova Mutum, encontro um motoqueiro com uma daquelas Suzuki enormes, e completamente carregada. Começo a puxar conversa com o Sr. da moto, e quando ele me diz que estava descendo até Ushuaia, tomei um susto com misto de surpresa e admiração. Possivelmente iríamos nos trombar lá dali a um mês.
Pegamos minha irmã em Cuiabá, e no dia seguinte rumamos à Votuporanga para passar o Natal com meus avós.
Pelo caminho, a chuva caía pesada logo após o almoço em Alto Araguaia. Quando seguimos o percurso para Alto Taquari, uma tensão enorme tomou conta de todos, absolutamente todos no carro. O ponteiro que marca o combustível caiu de ¼ para a reserva com apenas 5km andados.
Já esperando ficar pelo meio do caminho, a chuva piorava cada vez mais. O carro começava a puxar muito para o lado (houve um desgaste enorme dos pneus, mais a aquaplanagem). O combustível acabando e a estrada com buracos cobertos pela água que cabia a frente de um fusca.
Chegamos a Alto Taquari. Por menos de uma lata de coca, não ficamos no meio do dilúvio. Abastecemos o carro: 58 litros e meio. Capacidade do tanque: 58 litros.
Chegamos em Votuporanga com um atraso imenso. Minha avó materna já estava em prantos, achando que todos já haviam passado dessa para a melhor.
Nem todos. Mas eu comecei a me sentir bastante mal durante a viagem. Fui acometido por uma faringite, com febre altíssima, faltando apenas três dias para embarcar para Santiago.
Já estava vendo meu mochilão efetivamente planejado desde março indo por água à baixo.
Minha irmã, quase médica, me mandou tomar antibiótico. Meu tio, hipocondríaco, tinha umas 4 cartelas na casa dele. Comecei com os remédios. Quanto mais eu tomava nos dois primeiros dias, mais febre ia sentido.
Na noite de Natal, já melhorava e as expectativas para aquele tão longínquo sonho, começavam a aumentar.
Passamos na casa de minha avó paterna, praticamente todos os primos, tios e meus avós. Um Natal diferente.
Levantei-me cedo no dia 25. Passei na casa de meus avós para despedir-me. Dei tchau ao meu avô paterno, com a certeza de que não mais o veria (certeza que se confirmou no dia 27 de janeiro).
Embarquei em Rio Preto, cheguei a São Paulo. Meu almoço de Natal, em um shopping. Fazer o que, se a TAM conseguiu impedir mais um dia com meus avós?...
Dia 26, já em Guarulhos para iniciar meu primeiro mochilão, minha primeira viagem internacional, e a concretização de algo que muito queria.
Conversando no aeroporto com uma senhora que também seguia para Santiago (com outras senhoras), me disse que estava indo para a cidade fazer o caminho de Santiago. Coitada. Deve estar até agora buscando o caminho de Santiago. Não tive coragem de lhe falar nada. A senhora tinha cara de teimosa... e de brava.
Quando passamos a Cordilheira dos Andes, todos no avião se levantaram para ver as montanhas. Foi interessante. Foi bonita a reação de surpresa e admiração de todos que nunca tinham visto aquelas montanhas.
Desci na alfândega. Sou obrigado a desfazer toda a minha mochila por causa de um sabonete. Um sabonete!
Este não seria o meu primeiro problema no meu primeiro dia.
Vou sacar dinheiro, a máquina me informa que o cartão não foi reconhecido. Não havia percebido que inseri o cartão pelo lado errado. A minha idiotice teve o seu preço.
Imediatamente um senhor, percebendo meu equívoco, me auxilia no caixa (apesar de estar usando crachá do aeroporto, sentia que seria assaltado). Tento novamente: saque não autorizado.
Um frio na barriga tomou conta de todo o meu corpo.
O senhor com o crachá me recomenda tentar em outro caixa. E não é que deu certo?
Saquei o dinheiro. Ele me ofereceu um táxi. Achei o preço razoável, por aquilo que já tinha em mente (ou que eu pensava que tinha em mente). Chego ao H Rado Hostel (excepcional e recomendadíssimo), pego minha reserva e vejo que havia pago três vezes o valor da corrida.
Havia caído no golpe do táxi.
Ok, nada que passar uns três dias com pão e ovo, para compensar o prejuízo. Vou pagar o hostel com o cartão de crédito: não autorizado. “Ah, pode ser problemas de conexão de internet”, pensei...
Vou almoçar, tento pagar com o cartão... Não autorizado. Novamente o desespero começa a tomar conta de mim.
Chego ao hostel e pergunto com posso fazer um ligação à cobrar para o Brasil. O atendente imediatamente faz a ligação. O pedido de desbloqueio não foi efetivado. Cartão desbloqueado e volto a sorrir tranquilamente.
Passados os sustos, percebe-se facilmente que Santiago é uma cidade absurdamente quente no verão. Lembrem-se: aqui vos escreve uma pessoa que conhece o calor de Cuiabá.
Todos almoçam muito tarde e a cerveja é quente!!!
Ouvia português por todos os lados. De fato, parecia que a Bellavista era um pedaço do Brasil. No hostel, praticamente havia só brasileiros.
Ando por toda a parte história no final de semana, conhecendo os palácios, o mercado público. Estava no centro da vida noturna e diurna da cidade.
No sábado, subo com outros brasileiros o Morro San Critóbal. Vale a pena. Faça à pé. Leve roupa de piscina, porque há uma enorme e pública, porém paga. Deu água na boca, com aquele calor.
Dia seguinte, sigo para Puerto Montt para poder tomar um voo até Chaitén (não confundir com Chaltén), para nessa cidade tomar um ônibus até Futaleufú.
Puerto Montt é uma cidade portuária empresarial, sem grandes atrativos turísticos. Há o mercado Angelmó, algo que se parece com o brique de Porto Alegre, mas inserido em um mercado de peixe, recheado de restaurantes.
Almocei por lá. Dentre tantos, escolhi o restaurante errado (isso ocorreu apenas duas vezes na viagem). Pedi uma sopa de mariscos. Acho que tinha mais areia que mariscos e muitos com gosto de fígado (putz, a única coisa que eu não aprendi a comer).
Mas tudo vale a pena. Estava de férias, depois de três longos anos de trabalho intenso.
Voltando de Angelmó, parei em uma sorveteria (os sorvetes chilenos e argentinos são fantásticos, principalmente o da Jauja, em Bariloche) e um senhor começou a puxar conversa comigo. Senhor Victor, achou que eu me parecia com um sobrinho dele. Conversamos por umas duas horas, e a roda ia crescendo.
Em Puerto Montt, me hospedei no Manquehue Hotel. Um quatro estrelas, com serviço de cinco e preço de duas. Mas cuidado, fui cobrado duas vezes em meu cartão de crédito. Erro do Booking que estou até hoje tentando consertar.
Na manhã seguinte, chego ao pequeno aeródromo. Um frio de lascar. Faço o check-in e jogo no lixo o comprovante de pagamento de minha passagem, cujo depósito havia feito em Santiago. Ora. Se o meu embarque estava autorizado, problema algum existia com o meu pagamento.
Chego em Chaitén depois de um voo muito, muito tenso. Todo feito no visual, em um Cessna que parecia ter uns 30 anos de idade. O tempo, totalmente cerrado. O avião chegava cada vez mais perto do Oceano Pacífico e nada de ver a pista. Comecei a me assustar muito mais quando via o piloto esticando a cabeça para ver se a encontrava. Pousamos em uma pista de terra, com uma visibilidade de uns 200 metros.
Quando desço em Chaitén, sou retirado do ônibus que nos levaria até a cidade, quando a administradora da Aerocord me chama e me pede o comprovante de depósito, porque não o tinha identificado. De novo um frio na barriga. Peço para ela chamar o escritório de Puerto Montt, para a atendente ver se meu comprovante estava na lixeira.
Quanto sorte! Sou dispensado e chego na “rodoviária” para esperar o microônibus para Futaleufú.
Chaitén é uma cidade portuária que morreu depois da erupção do vulcão Puyehue, ou foi o golpe de misericórdia. O frio e o tempo nublado ajudaram e muito no clima de desolação. Muitos me disseram que os parques e as montanhas do lugar são incríveis. Não fiquei mais na cidade, porque só iria lá tomar o ônibus para a grande aventura de Futaleufú.
Esta é uma viagem que vale ser feita de ônibus. É a rodovia Rio-Santos, só que no lugar de mar, lagos e rios. Lagos e rios translúcidos. Montanhas cobertas de florestas com o topo branco pela neve. Se você não se distrair com a beleza dos rios, vai ver uma geleira entre duas montanhas. Sente do lado direito do ônibus.
E não se distrair com a beleza dos rios é algo difícil. Uma das rodovias mais lindas que já vi na vida.
Cheguei em Futaleufú no dia 29 de dezembro. A cidade tem por slogan “uma paisagem pintada por Deus”.
Deus é um excepcional pintor.
Para mim, o lugar mais bonito de toda a viagem. Eu passei por Torres del Paine, Calafate, Chaltén, Ushuaia. Nenhum, nenhum desses lugares se equipararam em beleza com Futaleufú.
Cheguei com a reserva de todos os passeios feitos. Havia pago pela internet dois dias de rafting e um de rapel em cachoeira, pela Patagônia Elements, até porque foi a única companhia que tinha site (ao lado da Condefur, que não me responderam aos emails).
Chego à cidade e vou direto para a Patagônia Elements, confirmar os passeios para o dia 30. Vou dormir com a maior expectativa de fazer o Ponte-Macal e no dia 31, o full Day.
Dia 30, nublado, muito frio. Já imaginava como estaria a água. E tomo um banho de água fria, mas não do rio Futaleufú. Este banho foi da Patagônia Elements. Não desceriam o rio, “porque estava muy crescido”. E essa resposta ouvi no dia 31 e no dia 01 de janeiro.
Um sentimento de intensa frustração e raiva começou a tomar conta de mim, porque todo o planejamento da viagem se deu em torno de Futa, por ser a mais difícil de chegar. E ainda mais porque as outras companhias estavam descende no dia 30.
Dia 31 ninguém realmente desceu o rio. Estava muito cheio. Havia nevado pesado nas montanhas na noite anterior.
O que eu decido então fazer no dia 30, depois do primeiro banho de água fria? Escalar o pico Águila. Seria o início do preparo para TDP. Lindo, nublado e muito frio. Não tive coragem de chegar ao topo (parei faltando uns 10 metros), porque teria que atravessar uma passagem com uns 30 cm de largura com muita pedra solta e precipício dos dois lados. Meu pavor de altura não me permitiu.
No dia 31, tomo uma bicicleta e resolvo chegar ao canyon do inferno, lugar com os rápidos mais incríveis do planeta (e claro que não aberto ao turismo convencional – realmente perigoso). O mapa indicava a entrada depois de uma ponte, mas de fato estava antes. Resultado: vou parar na fronteira com a Argentina!!!
E valeu? Muito mais do que se imagina. Quando em Futaleufú, tome uma bicicleta e pedale até o posto de fronteira. As montanhas, florestas e fazendas pelo caminho são deslumbrantes.
Vou passar o Ano Novo no restaurante Martin Pescador, com o Anatoly, um russo muito gente fina que roda o mundo fazendo rafting e não sabe nadar, e um casal formado por um canadense e uma colombiana. Banda local tocando rock’n’roll. Beatles, U2 e outros presentes musicais.
Peço um pouco de paciência ao leitor. Este será um longo relato.
Há uns 13 anos, recebia em minha casa a revista Terra – quanta saudade daquelas páginas com lugares deslumbrantes – e nela, a capa do lugar mais bonito que já havia visto. Prometi a mim mesmo, que um dia lá estaria.
Aos 28 anos, embarquei rumo à Patagônia, começando minha viagem e o tão esperado mochilão por Santiago. Ao menos, era isso o que eu pensava.
Ledo engano.
Minha aventura começou quando sai de Sinop, minha cidade matogrossense. Com apenas “alguns” quilômetros andados, minha família parou em um tradicional ponto entre Sinop e Cuiabá. E nesta parada em Nova Mutum, encontro um motoqueiro com uma daquelas Suzuki enormes, e completamente carregada. Começo a puxar conversa com o Sr. da moto, e quando ele me diz que estava descendo até Ushuaia, tomei um susto com misto de surpresa e admiração. Possivelmente iríamos nos trombar lá dali a um mês.
Pegamos minha irmã em Cuiabá, e no dia seguinte rumamos à Votuporanga para passar o Natal com meus avós.
Pelo caminho, a chuva caía pesada logo após o almoço em Alto Araguaia. Quando seguimos o percurso para Alto Taquari, uma tensão enorme tomou conta de todos, absolutamente todos no carro. O ponteiro que marca o combustível caiu de ¼ para a reserva com apenas 5km andados.
Já esperando ficar pelo meio do caminho, a chuva piorava cada vez mais. O carro começava a puxar muito para o lado (houve um desgaste enorme dos pneus, mais a aquaplanagem). O combustível acabando e a estrada com buracos cobertos pela água que cabia a frente de um fusca.
Chegamos a Alto Taquari. Por menos de uma lata de coca, não ficamos no meio do dilúvio. Abastecemos o carro: 58 litros e meio. Capacidade do tanque: 58 litros.
Chegamos em Votuporanga com um atraso imenso. Minha avó materna já estava em prantos, achando que todos já haviam passado dessa para a melhor.
Nem todos. Mas eu comecei a me sentir bastante mal durante a viagem. Fui acometido por uma faringite, com febre altíssima, faltando apenas três dias para embarcar para Santiago.
Já estava vendo meu mochilão efetivamente planejado desde março indo por água à baixo.
Minha irmã, quase médica, me mandou tomar antibiótico. Meu tio, hipocondríaco, tinha umas 4 cartelas na casa dele. Comecei com os remédios. Quanto mais eu tomava nos dois primeiros dias, mais febre ia sentido.
Na noite de Natal, já melhorava e as expectativas para aquele tão longínquo sonho, começavam a aumentar.
Passamos na casa de minha avó paterna, praticamente todos os primos, tios e meus avós. Um Natal diferente.
Levantei-me cedo no dia 25. Passei na casa de meus avós para despedir-me. Dei tchau ao meu avô paterno, com a certeza de que não mais o veria (certeza que se confirmou no dia 27 de janeiro).
Embarquei em Rio Preto, cheguei a São Paulo. Meu almoço de Natal, em um shopping. Fazer o que, se a TAM conseguiu impedir mais um dia com meus avós?...
Dia 26, já em Guarulhos para iniciar meu primeiro mochilão, minha primeira viagem internacional, e a concretização de algo que muito queria.
Conversando no aeroporto com uma senhora que também seguia para Santiago (com outras senhoras), me disse que estava indo para a cidade fazer o caminho de Santiago. Coitada. Deve estar até agora buscando o caminho de Santiago. Não tive coragem de lhe falar nada. A senhora tinha cara de teimosa... e de brava.
Quando passamos a Cordilheira dos Andes, todos no avião se levantaram para ver as montanhas. Foi interessante. Foi bonita a reação de surpresa e admiração de todos que nunca tinham visto aquelas montanhas.
Desci na alfândega. Sou obrigado a desfazer toda a minha mochila por causa de um sabonete. Um sabonete!
Este não seria o meu primeiro problema no meu primeiro dia.
Vou sacar dinheiro, a máquina me informa que o cartão não foi reconhecido. Não havia percebido que inseri o cartão pelo lado errado. A minha idiotice teve o seu preço.
Imediatamente um senhor, percebendo meu equívoco, me auxilia no caixa (apesar de estar usando crachá do aeroporto, sentia que seria assaltado). Tento novamente: saque não autorizado.
Um frio na barriga tomou conta de todo o meu corpo.
O senhor com o crachá me recomenda tentar em outro caixa. E não é que deu certo?
Saquei o dinheiro. Ele me ofereceu um táxi. Achei o preço razoável, por aquilo que já tinha em mente (ou que eu pensava que tinha em mente). Chego ao H Rado Hostel (excepcional e recomendadíssimo), pego minha reserva e vejo que havia pago três vezes o valor da corrida.
Havia caído no golpe do táxi.
Ok, nada que passar uns três dias com pão e ovo, para compensar o prejuízo. Vou pagar o hostel com o cartão de crédito: não autorizado. “Ah, pode ser problemas de conexão de internet”, pensei...
Vou almoçar, tento pagar com o cartão... Não autorizado. Novamente o desespero começa a tomar conta de mim.
Chego ao hostel e pergunto com posso fazer um ligação à cobrar para o Brasil. O atendente imediatamente faz a ligação. O pedido de desbloqueio não foi efetivado. Cartão desbloqueado e volto a sorrir tranquilamente.
Passados os sustos, percebe-se facilmente que Santiago é uma cidade absurdamente quente no verão. Lembrem-se: aqui vos escreve uma pessoa que conhece o calor de Cuiabá.
Todos almoçam muito tarde e a cerveja é quente!!!
Ouvia português por todos os lados. De fato, parecia que a Bellavista era um pedaço do Brasil. No hostel, praticamente havia só brasileiros.
Ando por toda a parte história no final de semana, conhecendo os palácios, o mercado público. Estava no centro da vida noturna e diurna da cidade.
No sábado, subo com outros brasileiros o Morro San Critóbal. Vale a pena. Faça à pé. Leve roupa de piscina, porque há uma enorme e pública, porém paga. Deu água na boca, com aquele calor.
Dia seguinte, sigo para Puerto Montt para poder tomar um voo até Chaitén (não confundir com Chaltén), para nessa cidade tomar um ônibus até Futaleufú.
Puerto Montt é uma cidade portuária empresarial, sem grandes atrativos turísticos. Há o mercado Angelmó, algo que se parece com o brique de Porto Alegre, mas inserido em um mercado de peixe, recheado de restaurantes.
Almocei por lá. Dentre tantos, escolhi o restaurante errado (isso ocorreu apenas duas vezes na viagem). Pedi uma sopa de mariscos. Acho que tinha mais areia que mariscos e muitos com gosto de fígado (putz, a única coisa que eu não aprendi a comer).
Mas tudo vale a pena. Estava de férias, depois de três longos anos de trabalho intenso.
Voltando de Angelmó, parei em uma sorveteria (os sorvetes chilenos e argentinos são fantásticos, principalmente o da Jauja, em Bariloche) e um senhor começou a puxar conversa comigo. Senhor Victor, achou que eu me parecia com um sobrinho dele. Conversamos por umas duas horas, e a roda ia crescendo.
Em Puerto Montt, me hospedei no Manquehue Hotel. Um quatro estrelas, com serviço de cinco e preço de duas. Mas cuidado, fui cobrado duas vezes em meu cartão de crédito. Erro do Booking que estou até hoje tentando consertar.
Na manhã seguinte, chego ao pequeno aeródromo. Um frio de lascar. Faço o check-in e jogo no lixo o comprovante de pagamento de minha passagem, cujo depósito havia feito em Santiago. Ora. Se o meu embarque estava autorizado, problema algum existia com o meu pagamento.
Chego em Chaitén depois de um voo muito, muito tenso. Todo feito no visual, em um Cessna que parecia ter uns 30 anos de idade. O tempo, totalmente cerrado. O avião chegava cada vez mais perto do Oceano Pacífico e nada de ver a pista. Comecei a me assustar muito mais quando via o piloto esticando a cabeça para ver se a encontrava. Pousamos em uma pista de terra, com uma visibilidade de uns 200 metros.
Quando desço em Chaitén, sou retirado do ônibus que nos levaria até a cidade, quando a administradora da Aerocord me chama e me pede o comprovante de depósito, porque não o tinha identificado. De novo um frio na barriga. Peço para ela chamar o escritório de Puerto Montt, para a atendente ver se meu comprovante estava na lixeira.
Quanto sorte! Sou dispensado e chego na “rodoviária” para esperar o microônibus para Futaleufú.
Chaitén é uma cidade portuária que morreu depois da erupção do vulcão Puyehue, ou foi o golpe de misericórdia. O frio e o tempo nublado ajudaram e muito no clima de desolação. Muitos me disseram que os parques e as montanhas do lugar são incríveis. Não fiquei mais na cidade, porque só iria lá tomar o ônibus para a grande aventura de Futaleufú.
Esta é uma viagem que vale ser feita de ônibus. É a rodovia Rio-Santos, só que no lugar de mar, lagos e rios. Lagos e rios translúcidos. Montanhas cobertas de florestas com o topo branco pela neve. Se você não se distrair com a beleza dos rios, vai ver uma geleira entre duas montanhas. Sente do lado direito do ônibus.
E não se distrair com a beleza dos rios é algo difícil. Uma das rodovias mais lindas que já vi na vida.
Cheguei em Futaleufú no dia 29 de dezembro. A cidade tem por slogan “uma paisagem pintada por Deus”.
Deus é um excepcional pintor.
Para mim, o lugar mais bonito de toda a viagem. Eu passei por Torres del Paine, Calafate, Chaltén, Ushuaia. Nenhum, nenhum desses lugares se equipararam em beleza com Futaleufú.
Cheguei com a reserva de todos os passeios feitos. Havia pago pela internet dois dias de rafting e um de rapel em cachoeira, pela Patagônia Elements, até porque foi a única companhia que tinha site (ao lado da Condefur, que não me responderam aos emails).
Chego à cidade e vou direto para a Patagônia Elements, confirmar os passeios para o dia 30. Vou dormir com a maior expectativa de fazer o Ponte-Macal e no dia 31, o full Day.
Dia 30, nublado, muito frio. Já imaginava como estaria a água. E tomo um banho de água fria, mas não do rio Futaleufú. Este banho foi da Patagônia Elements. Não desceriam o rio, “porque estava muy crescido”. E essa resposta ouvi no dia 31 e no dia 01 de janeiro.
Um sentimento de intensa frustração e raiva começou a tomar conta de mim, porque todo o planejamento da viagem se deu em torno de Futa, por ser a mais difícil de chegar. E ainda mais porque as outras companhias estavam descende no dia 30.
Dia 31 ninguém realmente desceu o rio. Estava muito cheio. Havia nevado pesado nas montanhas na noite anterior.
O que eu decido então fazer no dia 30, depois do primeiro banho de água fria? Escalar o pico Águila. Seria o início do preparo para TDP. Lindo, nublado e muito frio. Não tive coragem de chegar ao topo (parei faltando uns 10 metros), porque teria que atravessar uma passagem com uns 30 cm de largura com muita pedra solta e precipício dos dois lados. Meu pavor de altura não me permitiu.
No dia 31, tomo uma bicicleta e resolvo chegar ao canyon do inferno, lugar com os rápidos mais incríveis do planeta (e claro que não aberto ao turismo convencional – realmente perigoso). O mapa indicava a entrada depois de uma ponte, mas de fato estava antes. Resultado: vou parar na fronteira com a Argentina!!!
E valeu? Muito mais do que se imagina. Quando em Futaleufú, tome uma bicicleta e pedale até o posto de fronteira. As montanhas, florestas e fazendas pelo caminho são deslumbrantes.
Vou passar o Ano Novo no restaurante Martin Pescador, com o Anatoly, um russo muito gente fina que roda o mundo fazendo rafting e não sabe nadar, e um casal formado por um canadense e uma colombiana. Banda local tocando rock’n’roll. Beatles, U2 e outros presentes musicais.
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