17 de Janeiro de 2009
SANTIAGO E VALPARAÍSO (CHILE)A travessia de ônibus de Mendoza para Santiago foi, com certeza, a viagem mais linda de ônibus que eu fiz até hoje. O ônibus deixa a Argentina por uma estrada tortuosa que atravessa a Cordilheira dos Andes. A estrada começa em um deserto, a subida se inicia, os Andes que antes eram pano de fundo viram protagonistas, e de repente você se encontra no meio dos picos nevados. A neve, no verao, derrete e forma lindas cachoeiras e rios de montanha. E nao é nem um pouco difícil avistar condores voando sobre as montanhas ou dando um rasante nas estradas. Embasbacante.
A fronteira (Los Libertadores) fica a mais de 3.000m de altitude. E como é frio, mesmo com um sol de lascar... O único porém foi cruzar a fronteira em si. No Chile, qualquer alimento ou produto de origem vegetal ou animal é proibido. Então, a fiscalização é intensa: cães farejadores, policiais revistando toda a sua bagagem e mil dificuldades que criam uma fila enorme na fronteira e transformam uma viagem de 4 horas em uma de 7.
Chega de falar. Lá vao as fotos:




Depois de um banho de Cordilheira (e de Aduana) cheguei a Santiago. A cidade pode ser reconhecida de longe pela densa nuvem de smog (poluicao misturada a neblina) que paira sobre ela. O que de fato e uma pena, porque a cidade e abracada pela Cordilheira dos Andes. Contudo, mal se pode ve-la: a poluicao so permite que reconhecamos sua silhueta.
A chegada em Santiago foi um pouco complicada. O hostel que eu achei que tinha reservado me colocou na lista de espera. 7 horas da noite (ou da tarde, como dizem por aqui) e eu rodando o Barrio Brasil, o reduto boemio de Santiago, com a mochila nas costas e batendo de porta em porta para achar abrigo. Achei, no fim das contas, mas nao foi dos melhores: um hostel da HI que era meio esteril, digamos assim.
No dia seguinte, fui passear pelo centro de Santiago. A cidade e bem urbanoide mesmo, meio Sao Paulo (talvez mais limpa, organizada e um pouco menor). Ela e cheia de cerros, que sao uns morros transformados em parques, pracas, diferente de tudo o que eu ja tinha visto antes. E por ser uma cidade antiga, mescla o classico ao mais moderno de forma positiva. Fora a poluicao, que realmente incomoda.

A Casa de La Moneda, casa da Sra. Bachelet (nao muito bem quista pela maior parte dos chilenos, que a consideram "leviana", ou seja leve e liberal demais).

No alto do Cerro Santa Lucia, com vista para a polui..., digo, a cidade toda.
Como era terca, nao via muitos outros atrativos na cidade, nao tinha gostado do hostel onde estava, resolvi partir pra Valparaíso. Aí a surpresa foi extremamente grata.
Em Valpo (como a cidade e chamada pelos chilenos), me bateu um frio na barriga quando reconheci o azul do Pacífico: "Puta merda, cheguei ao outro lado do continente! Sozinho! Consegui!". E isso no meio de uma cidade portuaria antiga, charmosa, boemia, toda cheia de montanhas e constantemente sobrevoada por andorinhas. Parece uma favela de 1920 a beira-mar. Linda, linda. Passei o dia todo perambulando pelas suas ruas e becos sozinho. Uma sensacao muito boa e muito ruim ao mesmo tempo, ja que eu estava bem a flor da pele e nao tinha outra pessoa pra comparilhar. Nem podia escrever no meu diario, porque nao tinha caneta e as papelarias estavam fechadas. Aquelas coisas que aparecem na nossa vida para que a gente lide com elas.

Valparaiso. Uma das teteias da minha viagem.

O porto, o Pacífico!
Puxei papo com um chileno na Lan House e descobri que havia uma boate legal para sair la. Bacana, pensei. E uma chance de conhecer gente daqui, colocar essa energia para fora e ainda sair, pela primeira vez no mochilao.
Entao, comprei comida para cozinhar, uma garrafa de Concha y Toro e fui para o alojamiento. Era basicamente um pensionato muito bacana, perto do terminal da rodoviaria, com jeitinho de casa familiar. Pela primeira vez em 21 dias de viagem, quarto so para mim. E cama de casal! Fui cozinhar e, na cozinha, estava a Carmen, uma Santiaguina simpatisíssima (e hilária), que acabou cozinhando para mim, por que "a los hombres, se quieren hierver el agua, lo queiman todo!". Devolvi o favor partilhando do vinho e, duas horas depois, estávamos borrachos, falando de Pinochet y etc. Claro que eu nem vi cheiro de boate, e tive uma noite muito melhor do que esperava.

Carmen e Luis, dois chilenos extremamente queridos, lá no alojamiento.
No dia seguinte, resolvi dar uma segunda chance a Santiago. E valeu a pena. De volta aqui, achei um albergue mais legal, passeei por Bellas Artes, um bairro central mais nobre da cidade, e conheci um pessoal muito bacana no hostel. Dessa vez, queria sair para dancar. Depois de mais Concha y Toro, falei que ia tomar banho para me arrumar e acordei na minha cama no dia seguinte.
E ontem, depois de tanto Concha y Toro, foi o dia de conhecer a vinicola Concha y Toro de fato. Uma palavra em ingles: touristy. Fiz o tour pelo lugar acompanhado de um bando de brasileiros que me deram vergonha alheia. Devem ter comprado um pacote vagabundo da CVC e ficaram rodando a vinicula inteira com seus bones de excursao, o guia chato e a camera sempre na mao. Incrivel como eles olham com a camera antes de olhar com os olhos. E nao vivem de fato o lugar onde estao. Em vez de degustar o vinho, ficaram entornando tudo e pedindo mais. Que vergonha, mesmo. Mas pelo menos foi legal, deu pra conhecer a origem do Casillero del Diablo. E eu estava com uma turma bacana, o Mike, um californiano, e o Fernando e o Rafael, dois paulistanos muito bacanas. Na volta, pegamos um onibus e ficamos conversando com uma senhora chilena que queria aprender a sambar ali mesmo. Essa parte o pessoal da CVC sempre perde... A noite, depois de mais uma garrafa de Concha y Toro, me arrumei para sair. Dei uma encostadinha na minha cama e acordei hoje. Merda, acho que boate, so em BH mesmo.

Na vinicola.
Algumas curiosidades sobre Santiago: aqui e proibido beber na rua. Um golinho sequer, e la vem o Carabinero de Chile pra cima de voce. Os bares e boates sao obrigados a fechar as 4 da manha. O sistema de metro e invejavel: limpo, moderno e cobre a cidade inteira (chegando a ir alem dela). Outra coisa: voce pisa na faixa de pedestre, indica com a mao para onde vai e os carros param. E a comida e ESTRANHA. Nas esquinas, vende-se mote helado, uma bebida de acucar em calda, trigo (em pedacos) e pessego. Tudo a ver. E querem ver mais o que que se vende por aqui? Humita. Quem pensava que pamonha era privilegio de mineiro e goiano, dancou.

Olha a Humita ai...

Mote Helado, ou a bebida mais estranha e indigesta que ja tomei.
Daqui a uma hora embarcando para o Deserto de Atacama!
Beijos a todos!
Tiago