Décimo segundo dia. Quarta-feita, 15 de junho de 2011.
Nosso voo para Beijing era às 10:00 horas. Na véspera já tínhamos arrumado nossas coisas e de manhã só tínhamos que tomar banho, café e fazer o check-out. O Lee ficou de nos buscar às 08:00 horas. Do centro de Xian até o aeroporto é uma hora de viagem.
Confesso que não queria ir embora. Xian é uma cidade muito agradável e acho que ainda poderíamos aproveitar bastante por aqui. Mas só de pensar em ter que ir ao aeroporto e explicar que queríamos remarcar as passagens (até os funcionários da Air China falam muito pouco inglês) e depois avisar ao hotel de Beijing, esperar que eles respondessem rápido e não debitassem do meu cartão o dia que cancelaríamos… muita complicação.
Esse problema com a comunicação é tão grande que depois de um tempo a gente começa a desistir até mesmo de tentar falar e se fazer entender. Em razão do idioma acabamos não interagindo tanto com os chineses. Em todos os outros países que visitei eu falava a língua local e a interação com as pessoas era bem maior. Na próxima vez que nós viermos quero poder falar pelo menos algumas palavras em mandarim.
O Lee não pôde vir, mas mandou outro motrista no lugar dele (que também falava pouco inglês). Para nosso azar, o trânsito estava bastante congestionado. Chegamos a achar que poderíamos perder o voo. Chegamos no aeroporto e o embarque já tinha até começado. Por sorte não havia fila no check-in.
Mais uma vez, nosso voo atrasou. Ficamos embarcados por uma hora até a decolagem. O voo até Beijing, que dura 1 hora e 50 minutos, foi tranquilo. Dormimos quase todo o tempo que ficamos no avião que, por incrível que pareça, era mais confortável e espaçoso que o que faz o voo internacional vindo de São Paulo.
Devido ao atraso, chegamos em Beijing às 12:50 horas. Para pegarmos as bagagens temos que pegar um trenzinho que anda uns 10 minutos dentro do gigantesco aeroporto de Beijing. Depois, tivemos que descobrir onde pegar o trem que vai para a cidade.
Quando encontramos, compramos as passagens, que custam 25 Yuans cada (R$ 6,25), e ficamos esperando o trem chegar. A estação do trem é aberta e não tem ar condicionado. Aí percebemos que o que uma turista portuguesa tinha nos dito em Shanghai era verdade. A cidade estava um forno! Ali na estação, que é toda feita de vidro, devia estar uns 40 graus!
Além do calor e da poluição no horizonte, no caminho percebemos que as distâncias aqui em Beijing são grandes e existem muitas cerquinhas brancas isolando as calçadas e as pistas. Logo íamos sentir na pele o quanto é difícil ser pedestre na capital chinesa.
Essse trem (que tem ar-condicionado e é muito confortável) faz o caminho entre o aeroporto e duas estações do metrô, a Sanyuanqiao (linha 10) e a Dongzhimen (linha circular). Nessa última estação tínhamos que descer e pegar o metrô, pagando nova passagem, que aqui custa 2 Yuans (R$ 0,50). Depois de três estações e duas conexões, chegaríamos à nossa estação, a mais perto do nosso hotel, chamada Zhangzizhonglu (linha 5). Parece moleza, mas na verdade é bem cansativo fazer isso carregando as bagagens. As conexões entre estações são feitas por corredores intermináveis e também há muitas escadas e muita, muita gente.
O metrô de Beijing é moderno, limpo e a rede é grande, mas acho que eles precisam expandir ainda mais pois vive lotado. Parece que sempre é horário de pico! Claro que eles já estão fazendo isso e umas quatro linhas novas estão em construção.
A nossa estação ainda era uma das mais tranquilas. Na região do entorno do nosso hotel todas as ruas têm um nome parecido, começando por Dongsi… É meio confuso. Ao sair, fomos procurando pelo número do hotel e então vimos que tínhamos saído pela saída do outro lado da rua. O problema é que não havia como atravessar a larga e movimentada avenida Dongsishitiaolu pois as calçadas eram isoladas pelas cercas brancas e os cruzamentos eram bem distantes uns dos outros. Tivemos que voltar para a estação do metrô e atrevessar a rua pela passagem subterrânea. Saímos na outra saída do metrô e descobrimos que nosso hotel ficava bem ao lado, há uns 50 metros da estação. Ótimo! Assim não precisaríamos atravessar nenhuma rua para pegar o metrô.
Na recepção do hotel finalmente tirei das costas a minha pesada mochila que, junto com o calor da rua, estavam me matando. Demos sorte na escolha dos hotéis. Os de Shanghai e Xian eram ótimos e esse aqui de Beijing também parecia muito bom.
Ficamos no Ping An Fu Hotel, que fica na Dongsishitiaolu, quase esquina com a avenida Dongsi, à nordeste da Cidade Proibida. Tínhamos feito duas reservas separadas. Uma para nós três por quatro dias. Outra para mais quatro dias só para mim e para a Dani, pois o seu Chico voltaria para o Brasil mais cedo.
Avisei na reserva que queria uma cama extra no quarto para esses quatro primeiros dias e, como ninguém me respondeu, achei que estava tudo certo. Mas não estava. A solução que a recepcionista deu foi nos colocar em dois quartos. Por sorte a gerente do hotel falava inglês muito bem e estava lá na hora que chegamos. Ela foi muito educada e resolveu tudo rapidamente mandando colocarem a cama extra que eu tinha pedido. Pelos primeiros quatro dias pagamos 1.810 Yuans (R$ 452,50). Os outros quatro dias seriam mais baratos ainda pois não incluiriam a cama extra.
Aqui eles têm a prática de fazer uma reserva no nosso cartão de crédito como garantia em um valor maior que o valor da hospedagem. Por isso, é bom sempre ter bastante limite no cartão. No check-out eles estornam o valor e debitam o valor correto. Foi assim também nos hotéis de Shanghai e de Xian. Outro valor que nunca está incluso na hora que fazemos a reserva é o imposto de 15% sobre o valor total da hospedagem. É bom ficar atento para não perder o controle dos gastos.
Já era 16:00 horas quando, finalmente, chegamos no nosso quarto, muito confortável, por sinal. E a cama extra nem deixou o quarto apertado. Depois de toda essa maratona, estávamos morrendo de fome e foi só o tempo de deixar as coisas e saímos outra vez para procurar um restaurante.
Dobrando a esquina, na avenida Dongsi, havia muitos restaurantes e lojas de conveniência e outros comércios. Apesar de, no mapa, não ser uma área longe do centro e de atrações como a Cidade Proibida, a área não é muito turística, é mais para chineses mesmo. Percebe-se isso até pelos letreiros que não tinham nada escrito em inglês. Escolhemos um restaurante que pareceu arrumadinho. Infelizmente nunca saberemos o nome dele pois só havia placa em chinês.
Esse restaurante é um dos maiores símbolos da dificuldade em se comunicar que tivemos na China. Ninguém lá, nenhum dos quase 10 funcionários, falava uma palavra sequer de inglês. Nem mesmo a palavra Pepsi, uma marca mundialmente famosa, que era vendida lá, eles entendiam! Palavras simples como chicken, pepper ou rice também não eram entendidas.
Para pedir, tínhamos todo um procedimento. Primeiro os funcionários ficavam rindo entre eles e um empurrava para o outro a missão de nos atender (para eles também deve ser muto difícil não poder se comunicar). Aí nos davam um cardápio cheio de fotos (sem nenhuma palavra escrita) dos pratos que eles serviam. Era até bastante extenso, com muitas opções. Depois, apontávamos o que queríamos, o rapaz abria um outro cardápio que tinha o nome do prato escrito em chinês e ao lado em inglês e ele nos mostrava o que era o prato.
O detalhe é que quem escreveu o cardápio também falava muito pouco de inglês! Faltavam letras, algumas delas estavam trocadas por outras ou na ordem errada, palavras inteiras eram trocadas (sauce por salt) e fora que, às vezes, o prato tinha pimenta mas não estava escrito lá!
Para pegar refrigerante ou chá gelado eu me levantava, ía direto ao refrigerador com porta de vidro e pagava o que queríamos pois não adiantava dizer os nomes das marcas. E eles nem se importavam.
Todo o atendimento era feito sem uma palavra! Era como se fôssemos surdos-mudos! E isso na capital do país mais populoso do mundo, cidade-sede das últimas olimpíadas! A ideia de que o inglês é uma língua mundial e que basta esse idioma para poder se comunicar com o mundo todo aqui na China cai por terra completamente. A China me abriu os olhos. O mundo como conhecemos é bem pequeno! Existe muita diversidade por aí.
O seu Chico sempre fica no hotel depois do almoço. Mas eu e a Dani sempre saímos de novo. Dessa vez, saindo do restaurante, voltamos para o hotel e tivemos que nos render. Os últimos dias tinham sido bem puxados e nos deixamos descansar um pouco.
Combinamos de tirar um rápido cochilo e depois sair para dar uma olhada na Praça Tiananmen, a famosa Praça da Paz Celestial. Estávamos tão cansados que acabamos dormindo pesado. Quando nos espertamos já era 21:00 horas. Demos um pulo e fomos tomar banho para sair.
Ao sair, ficamos surpresos com a ”névoa” de poluição que escurecia ainda mais a noite. Desde Shanghai, que é bem mais úmida que Beijing, percebíamos que toda aquela neblina não era normal. Muito daquela neblina era poluição. Beijing é considerada uma das cidades mais poluídas do planeta. Lembro de ter lido notícias de que a cidade teve muitos problemas com o Comitê Olímpico Internacional nos meses que antecederam os jogos por causa da má qualidade do ar. Vários atletas ameaçaram até boicotar as Olimpíadas. Um mês antes da abertura o governo mandou fechar temporariamente indústrias poluidoras do entorno de Beijing. É o outro lado do desenvolvimento.
Pegamos o metrô, que ainda estava cheio e, por volta das 22:00 horas chegamos na estação Qianmen. Teoricamente seria só sair da estação e daríamos de cara com a praça. Teoricamente.
Aqui todas as estações têm muitas saídas e nunca sabemos exatamente onde estamos. Esperávamos sair e encontrar muitas luzes que indicassem para que lado ir. Mas era tudo muito amplo, sem nenhuma referência conhecida a ainda por cima estava tudo muito escuro e deserto. A forte ”névoa” não deixava que enxergássemos muito longe e a única coisa que podíamos ver eram dois edifícios antiquíssimos que, depois de muito procurar uma placa identifiquei como o Portão Frontal e a Torre dos Arqueiros, ambos resquícios da antiga muralha que circundava a área.
Identificado o Portão Frontal, consegui ver adiante um grande prédio e atrás dele a ponta de um obelisco. Olhando no mapa localizei a praça. Mas como chegar lá era outra história. Estávamos presos pelas cercas brancas. Depois de atravessar várias vezes as avenidas por passagens subterrâneas desertas, topando com corredores interditados e nunca conseguir chegar à praça, percebemos o porquê. Simplesmente a praça estava fechada! Por isso todos aqueles postes dourados de design stalinista estavam apagados!
Não precisa ser nenhum gênio para imaginar a razão de fecharem a praça à noite. Os acontecimentos de 1989 falam por si. Ali, no coração da República Popular da China, a segurança do regime está em absoluto primeiro lugar!
Constatada a impossibilidade de ver alguma coisa, não restava mais nada a fazer a não ser voltar para o hotel.
Nosso primeiro contato com Beijing nos fez sentir pela primeira vez a realidade comunista. Em Shanghai e em Xian parece que tínhamos mais liberdade de andar e as ruas eram mais aconchegantes. Aqui em Beijing as distâncias são grandes, os prédios públicos monumentais e as ruas quase não têm arborização. A quantidade de cercas separando tudo nos faz sentir um pouco presos e dificulta muito passear pela cidade. Beijing, sem dúvida, é muito diferente.
No outro dia estávamos decididos a ir conhecer a Grande Muralha da China. Como chegar lá ainda era uma incógnita.






Resumo