"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Introdução
Quando pensei em minha viagem de férias para o ano de 2011, a Bolívia não estava em meus planos. Na verdade sempre que penso nesta região, o primeiro país de que me lembro é o Peru, no entanto desisti porque os preços da visita a Machu Picchu foram elevados pelo governo. Não sei qual foi o motivo do aumento de preços, se para restringir o número de turistas (que talvez estivesse muito alto e colocasse em risco o patrimônio histórico) ou para obter uma melhor rentabilidade, mas seja lá qual for o motivo, desisti porque existem diversas opções para se divertir nas férias. Visitar o Peru e não ver a jóia Inca, não é admissível, no entanto ao ler diversos relatos na internet, verifiquei que poderia fazer uma boa viagem de férias exclusivamente pela Bolívia e não me arrependi desta decisão.
Este relato é uma forma de agradecer a diversas outras pessoas, que me precederam relatando suas viagens a todos os interessados. Isso é muito importante porque assim podemos ter uma boa idéia do que iremos encontrar pela frente, é uma oportunidade de viajar com estas pessoas e uma excelente forma de fazermos um roteiro de nossa futura viagem. Assim contribuo com esta fantástica fonte de informação, que é a internet e tenho certeza de que em minha próxima viagem poderei contar com as informações que VOCÊ irá me prestar. Assim é a vida.
Documentos e informações iniciais
Os documentos mínimos necessários para ir à Bolívia são a carteira de identidade (RG) com menos de 10 anos de sua expedição e um certificado internacional de vacinação contra febre amarela. Deve-se tomar a vacina em qualquer posto de vacinação, nesta oportunidade lhe será fornecido um certificado de vacinação com validade nacional, após isso se dirija a um posto da ANVISA em um aeroporto ou porto, para que seja feito o certificado internacional. Faço duas observações com relação ao certificado, a primeira é que antes de ir ao posto da ANVISA é necessário fazer um cadastro antecipado no site da ANVISA e notei que pessoas que não o fizeram, tiveram que acessar a internet em frente ao posto para que fossem atendidas, portanto é melhor se informar antes. A segunda observação é que ninguém me solicitou o certificado de vacinação em momento algum da viagem, no entanto, como isso é necessário, eu não tentaria viajar sem ele.
Se você pretende viajar com sua maquina fotográfica cuja resolução seja igual ou inferior a 10M, saiba que a partir do último trimestre de 2010 foi adotada uma norma (ou algo assim) da Policia Federal Brasileira que dispensa a apresentação da mesma no posto da policia antes da viagem, no entanto leve a nota fiscal de compra da mesma ou então será necessário demonstrar que ela não foi comprada durante a viagem em curso. Neste segundo caso tire fotos do seu cartão de embarque e sua foto antes de embarcar, o objetivo é fazer uma “prova de uso” da mesma. Eu tirei uma foto do cartão de embarque em frente a um espelho, mas nada disso foi necessário porque minhas bagagens não foram vistoriadas na chegada ao Brasil, já que a Bolívia não é um destino de “sacoleiros”.
Apesar do descrito no parágrafo anterior, lá existem bons preços para materiais esportivos (tênis, agasalhos, calças, mochilas, barracas de camping, casacos e artigos de couro, etc). Acredito que tudo estava mais barato que no Brasil e existem produtos de boa qualidade, basta procurar. Li em um relato antes de minha viagem no qual o autor dizia que “da próxima vez iria pelado para a Bolívia e compraria tudo por lá”. Existem ocasiões em que uma frase transmite um sentimento mais preciso do que muitos parágrafos.
Com relação à forma de transferir nosso dinheiro para a moeda local (bolivianos) acredito que a melhor seja a de levar dólares em espécie. Cheques de viagem possuem uma boa conversão lá (nosso dinheiro compra mais em cheques de viagem e o valor de troca é bem vantajoso, já que é bem próximo do valor pago pelo dólar), mas sua troca está restrita a poucos locais. Trocar reais por bolivianos diretamente também é possível, mas geralmente costumam pagar menos do que se você tivesse comprado dólares e os pontos de troca também são mais restritos. Eu cheguei a fazer cambio de dólar para bolivianos até em cidades muito pequenas, coisa que seria muito difícil para cartões eletrônicos e cheques de viagem.
Outro ponto muito importante está ligado à segurança. Durante o vôo de ida, ouvi o relato de uma moça que recomendava a outros brasileiros para ter cuidado com os taxis, pois existem alguns que possuem apenas faixas quadriculadas nas laterais, são “taxis coletivos” e em um deste tipo, ela foi assaltada por um passageiro. Existem outros táxis que, além das faixas laterais, possuem um luminoso na parte de cima (como os nossos) e estes são mais seguros, pois atendem apenas a um passageiro por vez (ou a um mesmo grupo). Utilizei táxis coletivos e tradicionais, que são muito baratos, nunca me cobraram mais por ser turista e não tive nenhum problema de segurança relacionado a eles ou de qualquer outro tipo durante a viagem, tenho que ser sincero e dizer que em todas as ocasiões me senti mais seguro lá, que em minha cidade (São Paulo). Mesmo assim sempre adotei os procedimentos de segurança que utilizo aqui: levava apenas o dinheiro que pretendia gastar (se bem que em La Paz, sempre é recomendável levar um pouco a mais, pois não é difícil encontrar algo “irresistível” a ser comprado) e cópias em lugar dos documentos originais.
Falando neste assunto, de utilizar cópias em lugar dos documentos originais, isso é muito utilizado pelos mochileiros em geral. Não tive nenhum problema com isso, exceto quando fui à cidade de Copacabana, pois como ela fica próxima à fronteira, fomos parados pela polícia e não aceitaram as cópias. Eu, assim como diversos mochileiros, tive que “retirar do esconderijo” meus documentos originais. Vejo esta questão da fiscalização como algo positivo já que em nosso país é possível viajar grandes distâncias sem nunca ser “parado ou verificado” por nenhum agente de segurança, lá as estradas são fechadas por correntes, os motoristas precisam descer dos carros para apresentarem seus documentos. No caso dos coletivos eles apresentam também a lista de passageiros (que podem ser verificados) e só depois seguem viajem.
Se gasta pouco na Bolívia, um hotel simples, mas com boa higiene, aquecimento central, TV a cabo, banheiro privado facilmente será encontrado na faixa dos US$11. Se retirarmos o aquecimento de água central e a TV a cabo, mantendo os outros requisitos, será possível pagar algo em torno de US$7. Comer em um restaurante “a La carte” sairá em torno de uns US$7 por pessoa, se for fast food ou um restaurante popular divida este valor pela metade. Uma sopa no mercado popular custa B$3 (menos que US$0,50). Lá um litro de gasolina custa um pouco mais que US$0,50 o que torna as passagens de ônibus e o transporte em geral bastante baratos se comparados aos nossos, para ter uma idéia as passagens para Copacabana ou Oruro, me custaram algo em torno de US$3,60 cada. Uma excursão de quase um dia inteiro para visitar Tihuanaco custou US$23 (excursão com guia + entrada no parque + almoço).
Relato da minha viagem
Saí de Guarulhos em uma tarde de sábado num vôo da Aerosur com destino a La Paz e escala em Santa Cruz de La Sierra. A duração da primeira etapa foi de 2h30min. Não se esqueça de levar uma caneta esferográfica em seu bolso para poder preencher os papeis de imigração bolivianos. Ao chegar ao aeroporto você passará pela imigração, caso utilize o RG (que é muito bem aceito em qualquer parte da Bolívia, ao contrário do que dizem relatos mais antigos na internet) receberá um papel (na verdade você o preencheu durante o vôo) que deverá ser conservado consigo durante toda a viagem e devolvido em sua saída do país. No saguão deste aeroporto existe um guichê no qual se pode fazer câmbio, caso queira utilizá-lo troque apenas o necessário para sua chegada à cidade de destino, pois como sempre, os aeroportos não são bons locais para isso. Eu troquei apenas US$50 e apesar de ter comprado um pacote de turismo no dia seguinte, só precisei de mais bolivianos na segunda feira.
De Santa Cruz de La Sierra são mais uma hora de vôo até La Paz. O aeroporto está localizado na cidade de El Alto. Os bolivianos deveriam ser reconhecidos internacionalmente por sua habilidade inigualável de nomear cidades, pois nunca vi um nome tão acertado. Em Santa Cruz estava um calor abafado, mas ao sair do avião em El Alto a temperatura era de 7 graus. Bem-vindo ao altiplano, aqui quando há sol, há calor, mas é só ficar um momento à sombra que o frio já aperta. Como cheguei à noite, o frio é normal.
Após pegar o táxi, na descida para La Paz, já estava me vangloriando de meu excelente estado de saúde, pois apesar do ar ser "mais leve", por estar a quatro mil metros de altitude, eu estava me sentindo muito bem. Como já era tarde resolvi comer um lanche em frente ao hotel e já pedi um chá de coca (afinal de contas é melhor prevenir que remediar). Ele é um pouquinho amargo, porém está mais para chá de nada com coisa nenhuma. Como estava cansado fui logo dormir e aí o “bicho começou a pegar”, porque acordei várias vezes com falta de ar. Não que eu estivesse morrendo, mas acredito que alguma parte em meu organismo pensava que sim. O mal estar decorrente da altitude depende de pessoa para pessoa, está relacionado também com a idade (li relatos de que crianças não sentem nada), mas demora algum tempo para se manifestar, o contrário também é verdadeiro, de forma que mesmo que se desça a uma altitude menor, seu desempenho físico não melhorará instantaneamente. No meu caso senti uma dor de cabeça bem fraca, dificuldade para dormir e desempenho físico ridículo, mas que me permitia caminhar sem nenhum problema.
Após levantar no domingo (pois acordar não seria um termo muito adequado) fui tomar café e pedi mais um chá de coca. Era ruim como o anterior, mas este era preparado com folhas e não com saquinho de chá. Depois de tomá-lo masquei as folhas (teria comido também as raízes e quaisquer outras partes da mesma planta, se elas estivessem disponíveis). Bom não é, o gosto das folhas é um pouco amargo, mas adormece a boca e o efeito é imediato. É por isso que não se vê os indígenas e seus descendentes tomando chazinho (gente esperta).
Com esse “gás extra” resolvi fazer uma excursão a Tihuanaco (ou Tiwanaco), que são ruínas de uma civilização pré Incaica. Antes estava em dúvida, mas escolhi este porque era o passeio que iria a uma menor altitude. No grupo, de umas quinze pessoas, eu era o único brasileiro. O guia, de nome Fred, era boliviano e sem nenhuma classe, coçava a barriga e o saco a qualquer momento, mesmo que estivesse falando ao grupo. Entre uma apresentação e outra, quando estava em campo aberto, descansava na grama como se fosse um cachorro velho, no entanto era muitíssimo simpático e não se limitava a explicar, fazia demonstrações de como as coisas funcionavam. Fez um trabalho excepcional, cativou a todos, uma figura carimbada com certeza, eu o qualificaria como um verdadeiro ícone boliviano: sua aparência nos faz pensar que nosso contato com ele não será bom, mas sua simpatia e seus bons serviços nos convencem de que estávamos redondamente enganados.
Na segunda-feira aproveitei para fazer câmbio e comprar roupas, principalmente um agasalho de “goretex” que é perfeito para este clima de montanha, pois não é muito quente (permite a transpiração da pele) e protege muito bem contra o vento. Também aproveitei para conhecer melhor a cidade, caminhando por várias de suas ruas. Durante o inicio da noite, entre 19 e 21h é o horário de pico de movimento de pedestres, há uma verdadeira multidão nas ruas e nos restaurantes.
Na terça-feira de manhã viajei de ônibus até a cidade de Oruro. Minha intenção era a de embarcar no “Expreso Del Sur” que parte neste dia da semana às 15h30min de Oruro a Uyuni. Caso tenha a intenção de viajar nesta linha de trem, consulte as diversas opções de horários e demais condições em http://www.fca.com.bo/, ou então faça uma pesquisa com estes nomes e encontrará diversas informações. Do “terminal de buses” de Oruro até a estação ferroviária é necessário utilizar um táxi. Só para ter uma idéia de valores, paguei o equivalente a US$3,60 na passagem de ônibus, cuja viagem demorou 3h30min e US$1,44 no taxi, que demorou uns 8min em seu trajeto. O táxi foi necessário por causa da distância e do tempo, pois comprei minha passagem às 12h30min e só estavam disponíveis os assentos da classe executiva. Depois de uma hora não existiam mais passagens disponíveis, estavam todas esgotadas.
Quando comprei minha passagem pensei que o atendente estava de sacanagem comigo e só me vendeu aquela passagem porque se tratava de um turista, pois ao olhar aquele trem enorme parado na estação e procurar ao redor, onde a vista alcançava, de que lugar viria uma multidão capaz de ocupá-lo totalmente? É... eu estava enganado porque um pouco antes da partida, que foi pontualmente às 15h30min, parecia uma invasão de baratas. Se não tivesse visto, não imaginaria que havia tamanha quantidade de desocupados e vagabundos neste mundo e todos escondidos em algum canto daquela cidade. É certo que muitos bolivianos também estavam viajando, porém a maioria era de estrangeiros, assim como eu, e março não é um mês de férias.
A largura das poltronas do trem era a mesma da encontrada em qualquer ônibus de viagem, mas o espaço para as pernas era um pouco restrito, pois para um homem alto como eu (de 1,70m) já estava um pouco difícil, imagine para um de verdade. No entanto a paisagem é tão encantadora que compensa todos os males da viajem, isso é tão verdadeiro que somente quando escurece é que você se dá conta do quanto o trem é “muquifento”. Não há como não relacioná-lo a cavalos, em alguns momentos pelo som, em outros pela velocidade, mas principalmente pelos coices que eles costumam dar no final do vagão. Além disso, sei que seria impossível, mas há uns trechos em parece que ele estava utilizando rodas ovais. Foram 7 horas de viagem, ótima antes e desconfortável depois do anoitecer.
Mesmo assim eu repetiria este mesmo roteiro. Só tomaria o cuidado de utilizá-lo em um período majoritariamente diurno. Depois soube que a companhia que administra a ferrovia é chilena e eles não fazem a manutenção adequada dos trilhos, o que causa o enorme sacolejo e a baixa velocidade em alguns trechos. O melhor de tudo é que, como não existe muito movimento próximo aos trilhos, a vida selvagem está bem ali, a alguns metros, e quando o trem passa os pássaros começam a voar. É muito bonito.
Para se chegar à cidade de Uyuni a maior parte dos turistas se utiliza de linhas de ônibus que partem de várias cidades (La Paz, Sucre, Oruro, Tarija, Potosi, etc) então, caso não faça questão de viajar de trem, escolha esta outra opção. Como as estradas próximas à cidade são de terra, não espere algo muito confortável, no entanto eu penso que esta viagem é melhor. Li relatos de que o serviço de ônibus intermunicipal da Bolívia era ruim, mas não tive esta impressão. Os melhores que já utilizei foram os da Argentina, depois disso Chile, Brasil e Bolívia estão praticamente no mesmo nível, o que diferencia um pouco são as estradas e a rede de apoio. Se estivermos em uma estrada de terra o conforto não será bom, seja aqui ou em qualquer outro local.
A chegada à cidade de Uyuni ocorreu às 22h30min. Não gosto de chegar a um local desconhecido durante a noite, mas é sempre emocionante, pois não tenho idéia do que irei encontrar. Ao descer de meu vagão sabia que teria que retirar a minha mochila, que havia despachado na estação de embarque, mas não fazia idéia de como isso seria feito. Bem, com certeza eu não era o único e resolvi seguir a maior parte das pessoas que estavam apenas com bagagens de mão. Descobri que era em uma sala, no final da estação, onde estavam sendo descarregadas todas as mochilas e bagagens. Os movimentos dos funcionários eram seguidos com atenção por uma multidão que se adensava minuto a minuto. “Isso vai demorar”, pensei, e resolvi ir ao banheiro. Quando retornei, a plataforma estava vazia (e fui só fazer um xixizinho). Entrei na sala e só encontrei minha mochila, abandonada em um canto qualquer. Eles colocaram todas as mochilas na sala, depois permitiram que todas as pessoas entrassem e pegassem suas bagagens, ao sair eles conferiram os canhotos com as bagagens. Esse procedimento foi muito eficiente e rápido.
Uyuni é uma cidade voltada ao turismo, não é necessário se preocupar com hospedagem e alimentação, tenho certeza que você encontrará locais para isso. Esta cidade é porta de entrada ao Salar de Uyuni que pode ser conhecido em excursões de um ou três dias, em carros SUV 4x4. Diferentemente de locais de difícil acesso no Brasil, aqui os carros são relativamente novos e bons, o que é igual é a precariedade dos pontos de hospedagem, mesmo assim havia banho quente em todos os locais em que estive hospedado e os pontos ruins são ofuscados pela simpatia e boa comida caseira.
Contratei uma excursão de três dias (e duas noites) por US$108, saindo e voltando a Uyuni, que incluía hospedagem, refeições e o valor da entrada para o parque. Pode-se também contratar uma excursão de três dias, cujo destino final seja São Pedro de Atacama, no Chile. Ou uma excursão de apenas um dia, visitando somente o Salar de Uyuni.
Na verdade basta um dia para visitar o Salar, no restante do tempo são visitados os arredores da cidade com picos nevados, vulcões, lagoas de diversas tonalidades, gêiseres e diversos animais. Como março está no final da época chuvosa e o Salar é como uma espécie de bacia, toda a água das chuvas dos últimos meses estavam represadas nele. Os carros tiveram que trafegar sobre uma lâmina d’água de uns 30cm de profundidade por uma distância de uns 4km. É estranho, parecia que estávamos no mar, mas a bordo de um carro. Lá visitamos o Hotel de Sal, que está em um nível um pouco mais alto que os arredores (acima da água) e pode-se “andar sobre as águas” porque o local é quase plano, fazendo com que a profundidade aumente muito suavemente. Em tempos de seca deve ser possível visitar outros locais, que estão inacessíveis aos veículos durante este período de cheia.
O SUV em que viajei, assim como a maioria dos outros, possuía o motorista e lugares para mais seis turistas. Existem outros em que há o motorista e uma cozinheira. No nosso caso o motorista era quem disponibilizava as comidas prontas na porta traseira do automóvel e nós nos servíamos, com direito a uma garrafa de coca-cola (sem gelo) por refeição. Um dos cuidados que se deve tomar é verificar se já estão vendidas todas as passagens, pois a partida pode ser atrasada se ainda estiverem faltando pessoas. Apesar de saber disso, quando comprei minha passagem eu era o terceiro passageiro e deu tudo certo (afinal de contas não é possível que todos sejam o sexto).
Para fazer esta viagem a agência de turismo irá lhe obrigar a levar apenas uma mochila pequena com o que for necessário para estes três dias, o restante das bagagens ficará guardado no escritório da empresa até o seu retorno. Eu optei por levar meu saco de dormir, pois o havia utilizado até este momento em todos os hotéis nesta viagem e não seria neste momento que iria desistir dele. Ele foi produzido no Brasil, de forma que, não está preparado para baixas temperaturas, mas para minha surpresa, as temperaturas enfrentadas foram as mesmas que havia encontrado em La Paz. Mesmo quem não levou saco de dormir conseguiu dormir bem, somente com o fornecido pelas hospedagens.
Um dos pontos que me preocupava era ter que dividir um espaço tão restrito, como o carro e alojamentos coletivos, com pessoas desconhecidas, mas essa na verdade foi a melhor parte do passeio, pois todos foram muito atenciosos e gentis uns com os outros, o que faz com que sinceramente eu ainda sinta saudades de cada um deles. O idioma principal desta viagem, assim como na maioria dos outros automóveis, é o inglês, então se você pretende praticar este idioma, está aí uma excelente oportunidade.
De Uyuni fui de ônibus a Sucre, saí às 9h e cheguei às 19h. Um ponto interessante da viagem é que não existe uma rede de apoio nas estradas para os passageiros de forma que em determinado momento o motorista parou o ônibus e disse que era “parada para ir al bano”. Já havia ouvido falar sobre isso, mas esta era a primeira vez que presenciava. Os homens vão para um lado (não muito longe) e as mulheres vão para o outro (um pouco mais longe), mas como acima de 3.000m de altitude não existem árvores, apenas pedras, não dá para se ocultar totalmente. Mas sabe como é... quem está interessado nisso? Só observo este detalhe como algo curioso, peculiar. Outro ponto interessante é que em momento algum, após qualquer parada em que os passageiros desçam, o motorista confere se estão todos a bordo, no máximo ele dá uma perguntada se voltaram todos. Como eu estava viajando sozinho, esta sempre foi uma grande preocupação.
Ao chegar a Sucre, não gostei da cidade, embora seja um lugar bonito. Talvez seja por estar sentindo falta de meus amigos da excursão anterior. Após sentir como é bom viajar em grupo, se sentir parte de um grupo, a volta à solidão não é muito boa. Ou talvez seja porque o tempo não estava muito bom, parecendo que a chuva cairia nos próximos dias. Escolhi ficar próximo à rodoviária, já que não necessitaria de transporte algum para me hospedar. No dia seguinte tomei conhecimento de que o centro da cidade estava distante e teria que me utilizar de táxis para chegar lá. O preço do táxi era de B$4 (o equivalente à US$0,58) e perdi o medo deste tipo de transporte, porque antes tive problemas para sinalizar que desejava utilizá-lo, ocorre que se deve gesticular com mais vigor do que fazemos aqui e, as vezes, é necessário gritar “táxi” também. Nada que não se possa aprender.
Na praça mais importante da cidade a primeira coisa que fiz foi tomar um excelente café em uma loja especializada nisso. Para compensar a falta do prazer da companhia de amigos, desfrutei do prazer do paladar. Em uma das laterais da praça existia um grupo de turistas e acabei por comprar aquele pacote turístico de um pouco mais de meio dia para um local que eu não fazia a menor idéia do que seria. Na verdade o que me interessava nesta viagem era o Salar de Uyuni e um passeio de bicicleta à estrada da morte, o restante era tudo “lucro”, então não estava me importando com os detalhes, afinal de contas, se gostasse do país, a Bolívia sempre “estaria à mão” assim como já considero outros países da América do Sul.
A excursão era para a cidade de Tarabuco, onde acontece uma feira semanalmente aos domingos (creio) com artesanato e demais atrativos. Este dia era especial, pois haveria apresentação de grupos folclóricos e o presidente Evo Morales estaria presente. A cidade estava lotada e o ônibus foi obrigado a nos deixar longe do centro, de outra forma seria impossível que ele conseguisse sair, pois outros veículos estacionados “travariam” sua saída.
Depois do Salar de Uyuni fiquei destemido e resolvi provar umas comidas populares. Logicamente tomo o cuidado de saber onde está o banheiro mais próximo, pois sempre é melhor prevenir do que remediar. Nos mercados populares existe algo como “barracas de comida” que servem vários pratos, dentre os quais resolvi provar as sopas, principalmente por serem mais confiáveis, afinal de contas tudo que ferve tem menor probabilidade de contaminação. Não me arrependi, pois elas são deliciosas, não me deram nenhum problema e ainda me diverti com a reação dos locais ao me verem comer entre eles. Tudo só não foi perfeito porque as cozinheiras costumam segurar o prato fundo pelas bordas e enchê-lo até que a ponta de um, ou de vários dedos, fiquem submersos na sopa. Deve ser uma simpatia, ou algo tradicional, mas como já me considero bem simpático, tomo o cuidado de ficar de olho e pedir para que ela pare de encher antes do “nível crítico”.
De Sucre fui a Copacabana, uma cidade que fica nas margens do lago Titicaca. Na verdade eu peguei um ônibus leito de Sucre a La Paz e de lá, um microônibus até o destino final. Sempre preferi viajar durante o dia para ver a bela paisagem, mas como em viagens noturnas eu poderia contar com este “luxo”, não dispensei. Mesmo porque tive um pouco de azar nas duas últimas viagens, pois o assento ao lado do meu foi ocupado por mulheres com bebês de colo. Minha sorte é que eles são do tipo “ninja”, não vomitam (pelo menos nestas oportunidades nada ocorreu) e em uma das vezes dormiu o bebe e a mãe e, por incrível que pareça, ninguém caiu de seu lugar. Desta vez preferi não arriscar, afinal de contas quando certas coisas acontecem, todo mundo dorme, menos eu.
O ônibus leito possuía apenas três assentos em cada fila (e não quatro como era o comum) e reclinava um pouco mais. As estradas bolivianas não possuem muito movimento durante o dia e acredito que à noite deve ser mais tranqüilo. Acredito que seja assim, não posso garantir porque dormi bem durante toda a viagem.
Logo após descer do microônibus e caminhar pela primeira rua, já vi várias lojas de câmbio, de lembrancinhas, restaurantes e hotéis. Tudo de que necessita um turista. Entrei em um hostal pequeno, que possuía um restaurante na frente, perguntei por um quarto com banheiro e ducha quente. O atendente me informou o preço de B$30 (que são US$4,32). Eu ia agradecer e nem queria ver o quarto, mas ele foi tão simpático que lhe acompanhei. Ao subir notei que tudo no caminho estava bem limpo e o quarto era muito bom (bem simples, mas bom). Fiquei por ali mesmo e este foi o meu recorde de preço baixo em hotéis na Bolívia.
Copacabana e o lago Titicaca valem uma visita. Além dos belos visuais, ainda se pode fazer uma caminhada de 9km na ilha do Sol, que é muito linda. As altitudes ficam entre 3.600 e 4.000m, o que exige bastante esforço e, no meu caso, umas boas folhas de coca, mas como já estava bem adaptado à altitude, consegui fazer o trajeto sem muitos problemas (melhorei bastante).
De Copacabana voltei à minha cidade do coração na Bolívia, que é La Paz. Sim, gostei muito de La Paz, porque lá havia tudo de que necessitava em termos de hotéis, compras, comida e passeios. Dentre os vários passeios disponíveis, optei por um que já havia visto na internet durante o planejamento da viagem: descer de bicicleta a estrada da morte, que interliga La Paz à cidade de Coroico. São 65km de descida que começam em 4.600 e terminam em 1.700m de altitude, praticamente não é necessário pedalar, o que é fundamental nesta altitude, pois essa distância eu não garanto nem em São Paulo, imagine em um local de altitude.
Até 2006 só existia a estrada antiga, que é linda e é a utilizada pelos vários grupos de ciclistas, mas ela não está fechada aos carros, nós cruzamos com dois automóveis e um caminhão, não é muito, mas basta uma bobeada para transformar o passeio em uma tragédia. Com a abertura da nova estrada, esta passou a ser utilizada pela população em geral, pois é asfaltada e mais segura. Uma coisa muito interessante na estrada velha é que como o precipício está do lado esquerdo de quem desce, utiliza-se a mão inglesa para que o motorista que desce possa colocar a cabeça para fora do vidro e ver exatamente onde está o pneu de seu veículo quando tiver que dividir a estrada com algum carro que esteja subindo. Ultrapassagem é algo que não existe por lá, a não ser que seja de bicicleta (ainda assim é muito difícil) e, dependendo de onde e como ocorrer, o turista pode perder imediatamente o direito ao passeio.
Uma coisa boa para os católicos é que os precipícios são tão íngremes e profundos que se cair, pelo menos terá a chance de rezar uma ave-maria antes de morrer com o impacto. Quando comprei o pacote me foi recomendado fortemente que não levasse minha câmera fotográfica, já que eles tiram as fotos do grupo e depois fornecem um CD. Nesta “gentileza” está embutida uma boa dose de segurança, porque alguns turistas já morreram ao tentarem tirar fotos enquanto pedalavam, aliás, nem mesmo trocar de marchas é permitido, pois uma olhadinha para verificar se a corrente respondeu ao comando, pode ser o fim.
Falando em corrente, eu protagonizei a única “beijada de chão” do passeio, já que a corrente da minha bicicleta saltou, travou a roda traseira e, como estava um pouco acima da velocidade, o chão foi ficando cada vez mais próximo até ficarmos juntinhos. No inicio do passeio achei que era um preciosismo ter que vestir uma roupa inteira sobre a de cada um e ter que usar capacete, luvas, joelheiras e cotoveleiras, mas foi isso que me livrou de uns bons arranhões. O câmbio da minha bicicleta teve “perda total” e recebi outra para continuar o passeio. Outras duas foram trocadas em nosso grupo, por motivos diferentes. Pensando bem, essa estrada da morte, com seus buracos, mata muito mais as bicicletas que as pessoas.
Meu acidente foi uma imprudência, já que eu não precisava estar tão rápido naquele momento, mas estava em um trecho sem abismos e sabe como é... o grande filósofo Max diz: “se você está no inferno, o que custa dar um abraço no Capeta?” Então, por que não acrescentar um pouco de emoção ao passeio? As vezes passa um pouco da conta, mas isso faz parte do jogo.
Foi muito bom visitar a Bolívia e pretendo voltar outras vezes. É um destino relativamente pouco comentado e utilizado, mas isso tende a mudar com as facilidades criadas para facilitar o trânsito de brasileiros e bolivianos entre nossos países e esta é uma das chaves para a integração necessária e desejável entre nossos povos.
Caso queira ver mais fotos desta viagem, por favor acesse o site http://www.flickr.com/photos/cazuza1234/
Um abraço,
Elias D. Teixeira