Tenho 45 anos, sou professor de Historia, duas pós-graduações e várias desistências de mestrado e agora graduando em advocacia. Izabel, minha companheira, também da mesma idade, também professora de historia. Como resolvemos fazer essa viagem? Bem, como historiadores, Macchu Picchu sempre esteve em nosso imaginário. Sempre foi um sonho acalentado durante anos, mas que aos pouco, devido a todos os contratempos diários, fora sendo colocado de lado. No começo eram o Sendero Luminoso, depois os filhos, depois a falta de grana e por fim a total falta de informação sobre o assunto.
Tomar a decisão de fazer essa viagem foi como se um raio caísse em nossas cabeças. No primeiro momento pensamos em ir para Cuba, mas devido as mudanças feitas por Fidel Castro e a invenção de uma moeda estrangeira que só vale para estrangeiros e que tem valor de face maior que o dólar inviabilizaria qualquer viagem de sul americano para aquela ilha. Em princípio pensamos em fazer algo de alguns dias. Afinal temos três filhos e ainda precisam de nós. Mas à medida que fomos pesquisando sobre o assunto, fomos verificando que uma semana é muito pouco tempo para fazer uma viagem dessas.
Nossa preparação foi intensa. Comprei guia, procurei todas as informações na Internet e conversei com pessoas que foram. Juntei um longo material e fiz várias versões de roteiros, aos quais estão no fim desse relato. Os preços foram “pescados” um pouco aqui, um pouco ali, e se não ajudaram muito, pelo menos nos encorajaram de continuar o projeto, pois é uma viagem relativamente barata, para quem esta acostumado a viajar pelo Brasil e passar férias no litoral.
Muitas pessoas ficaram impressionadas com nossa coragem de fazer a viagem para Macchu Picchu, como se fossemos para o fim do mundo. “Vocês vão pegar o trem da morte?” perguntavam uns. “Vão de ônibus?” “Vão mesmo de mochilas?” outros diziam. “Muita coragem” diziam outros.
Nenhuma observação abalou nossa convicção de continuar os planos para a viagem. Aos poucos fomos adquirindo o necessário para que não fizéssemos papel feio como mochileiros. No final do relato estão as coisas que levamos. Meus filhos, um de dezoito anos, outra de dezesseis e outra de dez anos ficaram encantados com nossa coragem de desafiar esse mundão de mochila.
Para nos era o desconhecido. Algumas pessoas manifestaram vontade de ir com a gente. Aliás, muitas pessoas chegaram até a reunir-se conosco para saber os detalhes. Mas desistiram no caminho. Restou eu e minha companheira, minha irmã mais nova e o namorado dela.
Tomei várias providencias aqui em Brasília. Coloquei todas as minhas senhas na mão de meu filho e também fiz um seguro de vida para mim e minha companheira. Sei la né? Deixei as tias responsáveis por eles e a casa e começou a contagem regressiva. Tudo pronto. Só esperar o grande dia da partida.
1º DIA
Nossa saída de Brasília foi marcada por fortes emoções, pois fiquei emocionado em deixar meus filhos sozinhos e partir para o desconhecido. Choradeira total, da minha parte pelo menos. Rs. Às 14 horas pegamos o ônibus na rodoferroviaria de Brasília, rumo a Campo Grande em Mato Grosso do Sul. Era uma segunda feira, optamos por esse dia pelo fato do ônibus que sairia esse dia ter ar condicionado e bancos reclináveis e podermos pegar as cadeiras da frente. Isso é fundamental. Pois não tem ninguém para reclinar a poltrona da frente e amassar meus joelhos. Seria a primeira vez em quase 20 anos que faria uma viagem tão grande de ônibus. Sempre viajo de carro. Estava preocupado em passar mal ou enjoar. Tomei dois Dramim. Além disso, devido ao nervosismo, arranjei uma bela de uma dor de estomago. Tomei um remédio e tudo de ajeitou. Nos ônibus brasileiros não há a necessidade de comprar água, pois eles servem. Mas nos outros países as coisas são muito diferentes.
Nossa viagem era para ser de 16 horas, chegando bem cedinho a Campo Grande, mas tivemos muitos problemas. Logo nos primeiros quilômetros verifiquei que a roda do ônibus estava fazendo um barulho enorme. Falei com o motorista que também ouviu o barulho. Uma hora depois, fomos parados pela Polícia Rodoviária. Depois de vários minutos o policial entrou em nosso compartimento e recolheu nossas passagens e perguntou para onde estávamos indo. Disse que para Campo Grande, agradeceu muito polidamente e desceu. Demorou mais de meia hora, voltou e informou-nos que a empresa não tinha autorização para vender passagens para Campo Grande, que era irregular essa atitude da empresa e que ela estava sendo multada por isso. Pensei: “pronto já vão nos descer logo no princípio da viagem”. Aleguei para ele que era louvável a atitude da polícia rodoviária, mas que as únicas vítimas naquele processo éramos-nos que compramos a passagem de boa fé, pois tem letreiros dentro de uma rodoviária pública, anunciando a venda desse roteiro, e que se deveria haver uma fiscalização essa deveria começar na própria rodoviária. Ele concordou, disse que multaria a empresa e que nos seguiríamos viagem. Menos mal.
Em Goiânia fizemos a troca do ônibus, pois o que estávamos não tinha condições de continuar. O segundo era melhor que o primeiro. Muito confortável. Na saída da cidade, numa manobra errada do motorista, o ônibus atolou e perdemos mais de uma hora nessa operação, foi necessário um caminhão puxar-nos com um cabo de aço para que desatolasse o veículo.
Viagem normal e sem muito contratempo. Paramos a noite para jantar em uma cidadezinha no interior do Goiás. O namorado de minha irmã estava passando mal. Comemos a última comida brasileira. Mal sabíamos que só voltaríamos a comer feijão e carne de verdade acebolada no ultimo dia de nossa viagem.
2º DIA
Chegamos bem cedo a Campo Grande, corri ao terminal para comprar as passagens para Corumbá, de onde atravessaríamos a fronteira para pegar o trem da morte. Estava com medo de não dar tempo de comprar para o mesmo dia. Só tinha passagem para 11 horas. Fiz as contas: não dava para chegar no horário de comprar a passagem no trem. Mas só tinha esse horário. Comprei e conformei. Na sala de espera da viação andorinha, perguntei ao controlador de ônibus se não tinha nenhum ônibus saindo mais cedo, afinal eram sete da manha. Ele me disse que estava vindo um do Rio de Janeiro e que tinha quatro lugares. Maravilha. Troquei nossas passagens para ele, que estava já estacionado. Surgiu um problema: Minha irmã e o namorado tinham ido ao banheiro e o ônibus estava saindo. Correria geral e eles chegaram e embarcamos.
Chegamos a Corumbá por volta de duas e meia da tarde e o motorista nos informou que a empresa atravessaria com a gente a fronteira. Amei, pois assim economizaria vinte reais de táxi. Assim foi feito. Na fronteira do Brasil com a Bolívia é uma confusão danada. Tem que preencher um formulário e apresentar a carteira de vacinação contra a febre amarela e o passaporte. Entra em uma sala e o burocrata boliviano carimba seu passaporte. Na frente do prédio tem dezenas de cambistas querendo fazer a troca da moeda com você. Aqui tem que tomar cuidado, pois sempre querem tirar alguma vantagem de você. Troquei alguns dólares (20 dólares) por Bolivianos que é como se chama o dinheiro da Bolívia. Voltamos para o ônibus e este andou mais uns quinhentos metros e nos deixou dentro do território boliviano. Dezenas de “Táxi” estão a espera para levar-nos para a estação de Puerto Quijarro, que descobrimos fica bem perto. Mas como éramos marinheiros de primeira viagem optamos por um “táxi” de um garotão e pagamos cinco bolivianos até a estação. Cabe aqui uma observação sobre os táxis na Bolívia. Todos os carros que vi são táxis, todo mundo que tem carro em Puerto Quijaro aluga seu carro para táxi. Carro novo, velho, pequeno, grande, caindo aos pedaços, qualquer coisa é táxi.
Paramos na estação e corri até o guichê para ver a possibilidade de ter trem para aquele dia ainda. Estava receoso de ter que dormir em Puerto Quijarro, além de não ter nada para fazer, ainda gastaria com estadia e comida. O trem Superpulmamm não havia mais passagens, mas havia para o Ferrobus. Duzentos e quarenta bolivianos. Fizemos as contas e chegamos a conclusão que deveríamos comprar este. Pois se esperássemos para o outro dia o Superpulmam de cento e vinte, teríamos que gastar no mínimo a diferença em hotel e comida. Saindo no mesmo dia ganharíamos um dia em nosso roteiro. Peguei os quatro passaportes e trocamos mais bolivianos. Um dólar é igual a oito bolivianos. Portanto dava trinta dólares para cada. Alias parte paguei mesmo em dólar. Cheguei ao guichê novamente e estava uma fila enorme. Fiquei desesperado. Pensei: “quer saber, se não tomar uma atitude vou ter que dormir aqui”. Entrei na frente de todo mundo e disse ao rapaz que estava vendendo: “aqui estão os passaportes que pediu e o dinheiro”. Ele me olhou e pegou os passaportes e emitiu as passagens, que vem nominal. Sai de la com a alegria de um pinto no lixo. Comprei as passagens e íamos embora de Puerto Quijarro no mesmo dia.
Procuramos um lugar para tomar banho. Arranjamos uma espelunca e o cara nos cobrou quatro bolivianos para tomar banho, de cada um de nos. Tomamos um banho meia sola e trocamos de roupa. Fomos comprar água e a uma lan dar noticias a família.
Noticias dada. Voltamos a estação, quando Bel (minha companheira) alertou-me que não estava com a bolsa com a filmadora. Correria geral. Estava debaixo da mesa do micro que estávamos falando com a família. Fiquei mais atento a partir dali.
Às vinte horas partiu o trem. Tudo muito organizado. Alias foi a única coisa organizada que encontrei nas instituições bolivianas. Nada de trem da morte, onde os relatos era os mais bizarros do mundo. Disseram-nos que tudo isso não passa de lenda. Claro que existe a segunda classe, onde vc paga pouco mais de 30 bolivianos para fazer o percurso, ai sim às condições dentro do trem são péssimas. Bem, como somos marinheiros de primeira viagem e só tinha esse. Fazer o que? Dentro do trem tudo muito organizado, Cadeiras brancas. Televisão. Pessoas nos servindo. Jantamos. Pedi bife e Bel pediu frango. Vieram todos acompanhados com batata e arroz. Seria comum dali pra frente esse cardápio. Também serviram um desajuno, que é café, pão, marmelada, leite e manteiga. Conheceríamos muitos desajunos dali em diante.
3º DIA
Chegamos por volta de nove horas da manha em Santa Cruz de la Sierra. Cortamos a noite toda sobre o pantanal boliviano e a entrada da cidade por onde o trem passou tinham casas bem rústicas e pobres. Fiquei impressionado com a pobreza daquele povo. Paramos na rodoviária Bimodal de Santa Cruz, pois além do trem, ali você também pega ônibus para diversas partes da Bolívia.
A Rodoviária é privatizada. Todos os ônibus que tiverem autorização podem vender suas passagens ali, ao preço que quiserem. A Rodoviária somente exige que cada passageiro pague uma taxa de uso da rodoviária. Para os viajantes estrangeiros, tudo era obedecido. Pagávamos a taxa e embarcávamos. Mas para o povo da cidade não. Eles esperavam o ônibus sair do terminal e embarcavam. Economizavam alguns bols (bolivianos).
Compramos a passagem para as dez horas da manha para Cochabamba. Paguei sessenta bolivianos. Estava prevista a chegada às vinte horas. Mas aprendemos logo na nossa primeira viagem que os horários na Bolívia são relativos. Saímos as onze e a avacalhação é total. Colocam quantas pessoas querem dentro do ônibus e os bolivianos se sujeitam a qualquer humilhação. Nunca vi na viagem toda que fiz, nenhum boliviano reclamando de nada. Simplesmente aceitam.
Saímos as onze horas, num calor terrível e num ônibus que não tinha banheiro e nem ar condicionado. Nada. A viagem foi horrível. Só tínhamos nós de estrangeiros. O motorista parava toda hora para pegar algum passageiro. Já estávamos numas oitenta pessoas no ônibus. Gente sentada no chão. Dormindo. Crianças chorando. Doidura total. Para piorar tiveram um problema numa ponte e ficamos parados num calor infernal no meio do nada por mais de duas horas.
Não existem restaurantes ao longo da pista. Não tem nada que conhecemos aqui como restaurantes ao longo da viagem. As vezes que o motorista parou foram somente para pegar pessoas e nada de parar para ir a banheiro ou comer. Fui reclamar com ele dizendo em portunhol que minha companheira estava querendo ir ao banõ, ele disse: “duas horas, duas horas”. Pensei que era as duas horas. Mas quando chegou as três horas, fui falar com ele novamente já puto de raiva e ele disse: “já, já, duas horas.” Ai perdi a cabeça. Apelei com ele. Avancei sobre o volante e disse um monte de coisas para ele gritando e dizendo que tinha que parar o ônibus e que não ia mais a lugar nenhum. Segurei o cambio e o volante e ele teve que parar o ônibus. O motorista estava assustadíssimo. Todo mundo desceu correndo para fazer as necessidades. Em qualquer lugar que achasse. Todos estavam querendo ir ao banheiro, mas nenhum pediu. Muita passividade. Daquele momento em diante ele fechou a cara para mim. Mas nem liguei. Duas horas depois das duas horas que ele tinha dito, parou num lugar feio com algumas mesas e sem estrutura e disse que tínhamos que comer.
Descemos, fomos ao banheiro (aqui se chama banõ) Tem que se pagar um bol toda vez que precisar ir ao banõ. Tentamos comer frango com batata (pollo com papa). Estava muito ruim, mas logo perceberíamos que esta é a comida típica e que aos poucos vai acostumando.
Bem chegamos a Cochabamba somente as vinte e três horas. Fomos para o Hotel Milenium. Quarenta e cinco bols por pessoas. Pedi um quarto com banõ dentro e água caliente (quente) que é um pouco mais caro. Mas ficou tudo por 90 bols a diária. Tomamos um longo bando e desmaiamos. Afinal estávamos sem dormir a duas noites e estava indo para a terceira.
4º DIA
O hotel em que ficamos é interessante, fica perto da estação rodoviária, o que é estratégico, pois fica mais fácil para levarmos nossas mochilas que estavam começando a ficar pesadas por causa da altitude. Cochabamba fica a 2.700 m de altitude. Situada no Centro Oeste da Bolívia. Nosso quarto era no terceiro andar. Muito cansativo chegar até ele. Tínhamos que parar no primeiro e no segundo para tomar fôlego. Parece brincadeira, mas cansa-se demais subindo até um degrau. Em frente ao hotel funciona uma feira enorme. Vende-se de tudo. Acordamos e fomos tomar o desajuno. Foi o primeiro contato com o chá de coca, nada de espetacular. É tão normal aqui tomar esse mate de coca como é normal para nos brasileiros tomar café. O restante foi um pão, leite, café, manteiga e marmelada. Nunca mais reclamarei dos cafés da manha de nossos hotéis quando viajo no Brasil.
Cochabamba é talvez a cidade mais interessante para se começar a viagem. Aqui se encontra de tudo e também muitos aventureiros, como nos.
Fomos dar uma volta pela cidade. Alias fizemos isso o tempo todo. Só íamos para o Hotel dormir. Almoçamos uma mistura de frango desfiado com arroz e outra coisa que não consegui decifrar. Bel não comeu. Passamos em outro restaurante e pedimos um pollo. A moça trouxe com arroz e macarrão. Bel pediu para tirar o macarrão. A moça pegou o prato, levou até o balcão e com a mão retirou o macarrão e trouxe novamente para a mesa. Começamos a rir pela naturalidade com que ela fez e estava fazendo tudo com as mãos. Bel não quis comer. A coca cola estava com um gosto estranho. Fiquei impressionado com o controle que a coca cola faz no mundo todo. Mas la a coisa esta feia para a coca cola. Só mais tarde em La Paz, constatei que realmente a coca cola de cochabamba tem problemas, pois em La Paz ela tinha o mesmo gosto do mundo todo. Bem, já que não estamos adaptando com a comida. Vamos comer frutas e tomar água.
5º DIA
Só fazemos andar por aqui e conhecer. Passamos o tempo todo na rua. Hoje fizemos amizade com um grupo de mulheres que estavam protestando contra a violência contra a mulher, o desmatamento e a internacionalização da Bolívia, trocamos fones e e-mails. Elas foram super amáveis comigo e com Bel. Gostei muito delas, mas sai com a impressão que tem algo errado. Não vi nenhuma cholla no grupo. Somente as mulheres brancas com descendência européia. Bem as Chollas, são mulheres de descendências indígenas que se caracterizam por suas vestimentas e se concentram mais no altiplano boliviano, enquanto que nas planícies concentram as descendentes espanholas.
São várias as praças em cochabamba. A que mais gostei e também a mais badalada é a Passeo El Prado. Fica a dez quadras de onde estávamos, mas difere completamente. Aqui se encontram casas bem feita, povo rico, Poucos índios e uma praça muito bonita. Também aqui encontramos alguns restaurantes interessantes. Comi por duas vezes comida chinesa.
As chollas são um capítulo a parte. Elas vivem andando rápido com suas vestimentas tradicionais que misturam muitas cores, principalmente as cores da Bolívia e da Espanha. As saias delas são muito interessantes. São chamadas de polleras. Coloridas e com várias anáguas. Dão uma sensação de saias aramadas para dar volume. Quase todas, usam os xales e muitas usam colares e são bastante ornadas. A maioria usa chapéus, estes são diferentes de acordo com a região do pais. Andam com uma bolsa ou porta coisas penduradas e todas usam o agaio que é um pano colorido que enrolam como uma trouxa e amarra nas costas. Ali carregam de tudo. Comida, produtos, animais ou os próprios filhos.
A situação indígena é um caso a parte na Bolívia. Aqui em Cochabamba, fica muito clara a separação de classes. Raro o indígena bem de vida. Sempre são subempregados. Perto da rodoviária montam suas barracas e vendem tudo quanto é tipo de bugigangas importadas da China. Tudo que tem nessas feiras tem em todas as feiras no Brasil e alguns a preços mais altos até.
A comida é feita sem nenhuma preocupação com a higiene. Presenciei ao longo das rodovias em que passei comidas sendo feita ao céu aberto. Geralmente são pollos (frango) com arroz e batata. Também fazem uma espécie de X-tudo, com tudo que tiver ao alcance para fritar. Salsichas, ovo, carnes de todo tipo, verduras, tudo. Gostam de colocar as comidas em sacos plásticos.
As crianças vivem perto da mãe, mas soltas. Presenciei uma cena impressionante. Fomos parados no meio da noite pelo exercito e obrigados a descer do ônibus para que revistassem tudo e mandaram andar uns duzentos metros. Uma indígena ao meu lado para arrumar a criança que estava carregando, forrou o agaio no chão colocou a criança nele e a enrolou como se enrola pão. Amarrou a criança e a colocou nas costas. Natural como beber água. As crianças não choram e quando isso acontece vi algumas bater no rosto das crianças.
São centenas pedindo esmolas nas ruas de Cochabamba. Quando chegam perto de vc lamuriam como se estivesse chorando e estendem a mão. Cena triste, desoladora. Vi muitas crianças e velhos abandonados nas praças. Parecido com o Brasil.
Na Praça linda onde freqüentam os brancos, é proibido pedir esmolas e a guarda municipal apita o tempo todo para que eles se afastem de la. São serviçais. Achei os preços muito parecido com os do Brasil. Exceto comida e hotel. Roupa pode-se encontrar com preços razoáveis, mas tem que procurar. Sempre dão um preço acima do normal, esperando vc pechinchar. Portanto: pechinche.
Andamos a manha inteira na feira e não vi artesanatos indígenas. Somente produtos importados de má qualidade e eletrônicos e muita comida e verdura. Algumas comidas são vendidas a céu aberto e outras em plásticos. É comum ver uma pessoa passando com um saco plástico cheio de comida ou sopa para outra barraca ou levando para outros lugares. Tudo, mas tudo mesmo é pego com a mão sem nenhum cuidado de higiene. Muitos dos indígenas que vi tem problemas de pele.
Ande em cochabamba. É uma aula de sociologia e historia. Lá se convive com carros saídos dos filmes dos anos sessenta com carrões ultima geração. Eles adoram enfeitar os carros com flores. Buzinar é o passatempo deles. Ninguém respeita sinal e faixa de pedestres. Mas não vi nenhum acidente. Nenhuma briga. Nenhuma violência. Fomos passear no cristo de lá concórdia, segundo o manual que estou lendo ele é maior que o cristo redentor do rio de Janeiro em um metro. Acredite se quiser.
Acertei com o dono do hotel para ficar depois do fim da diária, pois ela vence ao meio dia e só vou viajar para La Paz as onze da noite. Paguei mais uns dólares. Mas tenho lugar para tomar banho e descansar.
Fomos para a Praça de Prado. É linda. Não parece Cochabamba que esta a dez quadras abaixo onde os índios vivem na informalidade e numa imensa feira. As igrejas são lindas. Suntuosas e ornadas em ouro que os espanhóis não levaram.
No final da noite compramos algumas lembrancinhas, telefonei para um hostal Copacabana em La Paz para reservar a diária. Tudo acertado por cento e vinte bolivianos. Jantamos um pollo num restaurante até temperado. Pegamos o ônibus para La Paz era dez horas da noite.
6º DIA
Viagem tranqüila até La Paz, numa noite agradável e sempre tendo a preocupação de comprar as poltronas da frente e muita água.
Chegamos cedo, por volta de oito horas da manha em La Paz. Cidade confusa e com muito carro e muita buzina. Muito contrate. Comecei a sentir uma leve dor de cabeça. Mas nada que o soroche phil não acabasse. La Paz fica a 3.650 m de altitude. É a capital mais alta do mundo. A maioria de suas casas esta situadas em morros que a circunda. Além é claro de estar situada em um vale e ao fundo a Cordilheira dos Andes.
La Paz lembra muito as construções nas grandes cidades, onde predomina as favelas. A parte alta, onde fica o aeroporto fica a 4.100 m de altitude. Uma pancada em qualquer cabeça.
Pegamos um táxi para o Hostal Coapacabana. Falei umas dez vezes para o motorista que era um hostal e ele nos levou para o Hotel Copacabana. Fiquei puto com ele e ele queria mais dinheiro para levar ao Hostal. Como estava chegando, e já tinha tido muita confusão com motoristas, concordei em pagar mais cinco bolivianos para nos levar ao Hostal. Acertado, levou-nos direitinho. O Hostal Copacabana é bem simples. Fiquei o terceiro andar. As Escadas matam de cansaço. Tomei meu remédio para a altitude e um longo banho e fomos para a rua conhecer a cidade. A única referencia que tínhamos sobre a cidade era a Praça Murilo, fomos até lá. No caminho entramos em um restaurante do Hotel Gloria e tomamos café. Engraçado que eles cobram por cada coisa que pega. Como se fosse um selv self de café. Saiu caro para os moldes bolivianos, 34 bolivianos. A Praça Murilo é linda. Ela concentra o Palácio presidencial, a Câmara Federal e o Judiciário e uma majestosa Catedral. Ficamos andando por ali a manha toda curtindo aquela praça linda.
Procuramos um restaurante para almoçar. Nada que diferenciasse as comidas dos pollos com papa. Encaramos e pedimos uma fanta. Detalhe, a fanta vem bem quente. Eles não colocam nada na geladeira. Pedi gelo para a tica, garota que serve e ela riu muito mas trouxe. Fizemos algumas compras a tarde e visitamos mais alguns lugares.
Acertei na agência ao lado do Hostal Copacabana a ida para Chacaltaya no outro dia. Muito barato. Coisa de quarenta bolivianos. Acertei ir para um Hotel de verdade. Além de mais central, mais barato, cem boliviano para o casal com banheiro, tV a cabo e água caliente, também tinha um item essencial: elevador. Hotel Tikina. Bom hotel. Acertei que no outro dia o hotel enviaria um táxi para levar-nos até lá
Saímos à noite para passar o ano novo no centro de La Paz, mas tinha muita agente bêbada na rua e muitos com rojões e começou a chover. Voltamos ao Hostal e assistimos de nossa janela a queima de fogos nas casas na encosta de La Paz.
As ruas ficaram vazias e pipocavam foguetes em várias direções.
Não sabemos se tem balada a noite em La Paz para estrangeiros. Preferimos ficar por ali no centro mesmo até uma meia noite e fomos dormir, pois no outro dia teríamos e queríamos conhecer a neve.
7º DIA
Acordamos cedo, por volta de sete horas. Descemos e tomamos nosso desajuno. Fajuto. Fomos para a frente do Hostal aguardar a chegada do táxi que nos levaria até o Hotel Tikina. Depois de muita demora o táxi chegou e transportou-nos ate o Hotel. O táxi foi por conta do Hotel. Subimos, colocamos nossas coisas no quarto e fomos para a van que estava esperando com mais dois passageiros. Um sueco e outro brasileiro. Apresentamos-nos e começamos a tortuosa viagem para Chacaltaya. Estávamos ansiosos, pois essa montanha de neve esta localizada a 5.395m de altitude. Localizada na Cordilheira Real, que faz parte da Cordilheira dos Andes. O Brasileiro que foi nos apresentado chama-se Clayton e mora em São Paulo. Daqui pra frente será nosso companheiro por muitos dias. Pois combinamos viajar juntos até Macchu Picchu. Vocês não têm noção de como a van anda naqueles trilheiros de neve e beirando a precipícios onde a centenas de metros só víamos pequenas lagoas com cores lindas.
Chegando ao alto do Chacaltaya existe um abrigo que é administrado pelo Club andino Boliviano. Tem um barzinho onde se pode tomar um excelente chá de coca. Chegar até ali já era um aventura para mim. Subir os 130 metros restantes afundando em gelo e pedras escorregadias era um desafio mortal. Algumas pessoas se aventuram e conseguem chegar até o topo. Mas não sei se vale a pena arriscar tanto assim. Pelo menos no dia que estava por lá, a camada de neve atolava os pés e quando estes conseguiram chegar a algo duro eram pedras escorregadias. Subi com Bel uns 70 metros e escorregamos varias vezes. Muito perigoso. Mas a paisagem é tão linda que você nem pensa em frio, perigo, nada. Simplesmente olha pra baixo e admira.
Voltamos ao barzinho, tiramos varias fotos e esperamos a galera que subiu até o topo. Na volta estávamos eufóricos. Cortamos pela cidade alta de La Paz e fomos conhecer o Vale da Lua. Uns dez quilômetros fora de La Paz, o Vale da Lua, que o preço já estava incluso, é de uma beleza inquietante. São erosões, esculpidas pela natureza onde presumidamente se parece com a paisagem lunar. Estava chovendo quando chegamos e escorregava muito. Não fizemos todo o circuito pois a guia nos pediu para voltar pelo fato de ser perigoso. A galera chiou, mas entendeu o risco de cair e ficar mortalmente ferido.
Antes de sairmos da van, prepus ao motorista da van que nos levasse no outro dia a Tiahuanaco e depois Copacabana. Fiz o seguinte raciocínio: se fossemos no outro dia a Tiahuanaco, teríamos que pagar por volta de quinze dólares por pessoa para transporte. Voltaríamos a tarde para La Paz. Teríamos que dormir em La Paz, o que nos consumiria mais uns dez dólares por pessoa além de alimentação que não sairia por menos de cinco dólares somente naquele dia. Sendo que no outro teríamos que pegar um ônibus até o cemitério, mais um dólar e depois pegar outro ônibus até Copacabana, o que nos consumiria mais uns cinco dólares. Ou seja. Ir a Tiahuanaco e dormir em La Paz para depois ir a Copacabana sairia, miseravelmente por trinta e cinco dólares.
Acertei com ele por que ficaria a nossa disposição no dia seguinte todo, sendo que só teria seu serviço dispensado quando estivéssemos instalados num hotel em Copacabana. Foi uma ótima jogada, pois além de nos quatro, incluímos o Clayton e tudo saiu apenas por quinze dólares por pessoa, ou seja, seiscentos bolivianos.
Deixamos o sueco e o Clayton em seus hotéis e voltamos para o Hotel Tikina. Tomamos banho e saímos para comer algo. Esse “algo” era pollo com papa. Mas a fome era tanta que derrubamos um prato daqueles. Ligamos em casa e postamos algumas fotos. A gurizada no Brasil ta tudo legal. Dormimos mais cedo, pois estávamos exaustos. Mas não antes de andar todas as ruas do centro de La Paz vendo as feirinhas e o Mercado das Bruxas que nada mais é do que uma rua cheia de barracas vendendo artesanatos da Bolívia.
8º DIA
Acordamos cedo e tomamos nosso ultimo desajuno em La Paz. Descemos e o motorista já estava nos esperando com uma outra van mais nova que a primeira. Achamos uma beleza. Colocamos nossas bagagens e fomos ao hotel onde o Clayton estava hospedado para Pegá-lo. Tudo pronto, rumamos para Tiahuanaco. A paisagem é montanhosa e com raríssimas árvores. Nota-se nas montanhas que a camada que a cobre é somente pedra.
Os desenhos de pedra nas montanhas chamam a atenção. Por não ter terra fértil para plantação, os habitantes vão retirando as pedras e amontoando e fazendo longos muros que cercam o nada com coisa nenhuma.
Tiahuanaco fica a uns 70 km de La Paz. Fazia muito frio quando chegamos ao sítio arqueológico. Pagamos dez dólares por pessoa para entrar no sítio. Também contratamos um guia que nos saiu por cinco dólares. Um pra cada. La vi a placa com o nome de Tiwanaku. Esse sítio arqueológico fica a 3.845 m de altitude. Chegamos de van alugada, Mas tem muitas maneiras de se chegar. Pode-se ir de ônibus normal ou por qualquer agencia de turismo.
A cultura Tiwanaku é considerada a cultura mais importante do período pré-colombiano. Nosso guia, um aimara legítimo com o nome de Raul nos guiou por horas a fio e contou-nos muitas histórias sobre o lugar.
Resumidamente a historia desse povo que existiu a mais ou menos três mil anos. Seu império abrangeu não somente a Bolívia, mas também parte norte da Argentina, sul do Peru e parte do Chile. Seu nome original era Tapy Kala, pois eram chamados de Povos das Pedras. Só vendo para entender como eles realmente amavam fazer tudo com pedras. Com a chegada dos incas, o nome foi mudado para Tiwanaku, pois introduziram os animais, sendo que Tiwanaku significa lugar dos animais. As pessoas que residiam eram chamados de tiahunakotas ou tiahunacos como é conhecido hoje o lugar.
Essa civilização desapareceu por volta de 1.200 anos por causas desconhecidas.
Caminhar por estas escavações e ver como esse povo era desenvolvido é fascinante. Dominavam com perfeição a arquitetura, a medicina, a mumificação e a agricultura, sendo que seus dutos construídos a centenas de anos ainda ajudam a escoar a água da chuva através de suas canaletas que deságuam no titikaka.
Além das escavações, seu museu é encantador. Toda a história até agora conhecida esta esboçada em um painel logo na entrada. Seus deuses esculpidos em pedras são fantásticos.
No quadro abaixo, que é largamente conhecido por lá, nos da uma noção exata porque Tiwanaku foi escolhida exatamente naquele local. Também uns breve históricos de como os povos apareceram e desapareceram.
O quadro a seguir apresenta a evolução da cultura na região até os dias de hoje:
Cultura Fase Época
Tiwanaku Aldeano 1500aC - 45dC
Urbano Clássico 45dC - 700dC
Expansivo 700dC - 1180dC
Mollos 1180dC - 1350dC
Lupakakas
Aymaras
Outros
Incas 1350dC - 1540dC
Colônia 1540dC - 1820dC
República Bárbara.... 1820dC até hoje
A queda de Tiwanaku se deu devido a três causas principais:
• 1. Lutas internas pelo poder devido a ausência das autoridades que se deslocavam para as novas conquistas;
• 2. Seca prolongada na região que durou 5 anos e
• 3. Enchente do Lago Titicaca (ou Titikaka), cujo nível subiu 50 metros, alagando templos e habitações.
O Lago Titikaka ficou alagado no período de 1180dC a 1205dC. Esta cheia se deu devido a alta temperatura que derreteu as neves das montanhas e principalmente pela grande quantidade de chuvas que caiu na região. O piso atual de Tiwanaku está com 3 metros de depósito do Lago Titikaka.
Com a decadência dos tiwanakotas surgiram os mollos, lupakas, aymaras e outras culturas. Assim, pode-se dizer que os tiwanakotas foram os avós dos incas.
Essas explicações acima, nos foram dados por Raul, nosso guia, mas também fiz uma pequena cola de um colega nosso que também escreveu sobre o assunto. É nome demais para lembrar.
Passei muito frio e Tiwanaku. Minha pressão caiu muito e tive que ficar sentado por um bom pedaço de tempo pois fiquei fraco demais. Muito, muito e muito frio. Terminada a visita, fomos para as barraquinhas comprar lembrancinhas. Muitas negociações e trouxemos um monte de colares, totens, pedras e coisas do tipo.
Voltamos para a Van e rumamos para Copacabana. Engraçado que para ir para Copacabana tem que voltar a La Paz e depois pegar outra pista. Todas as pistas que passamos os motoristas tiveram que pagar pedágio. Detalhe: o motorista me perguntou se havia problema em ele levar a esposa, pois voltaria tarde da noite e não tinha com quem conversar. Sem problemas.
A paisagem rodeando o titikaka muda muito. Cercado por montanhas, algumas ainda com o cume cheio de neve. Nossa viagem foi muito agradável. Como era dia primeiro de janeiro e era feriado na Bolívia, vários carros passaram por nos fantasiados com flores e rosas. Mas muito pouco se comparado aos nossos feriados aqui no Brasil onde todo mundo viaja.
O Lago Titikaka é outra maravilha. Este situado a 3.820 m, sendo o lago navegável mais alto do mundo e o segundo maior em extensão na América do Sul, perdendo somente para Maracaibo na Venezuela. Passamos por várias comunidades. Certo momento, tivemos que descer para que nossa van e nos atravessássemos o lago em balsas. Mas ônibus em uma balsa e passageiros em outra.
Muito interessante ver sua van e suas mochilas sozinha numa balsa que mal cabe a van. Parece que vai afundar. Mas não afunda. Chegamos primeiro no outro lado e estava tendo festa na praça e troca de alcaide na aldeia. Um ritual interessante que parei para observar.
Seguimos viagem para Copacabana. Chegamos ao final da tarde. Procuramos um hotel e hospedamos no Hotel Utama. Muito bom. Talvez o melhor da viagem toda. Pelo menos o café da manha. De nosso quarto observávamos o titikaka imponente e calmo.
Saímos a noite para um passeio na cidade e comer algo, pois não tínhamos comido nada desde a manha. Jantamos um peixe chamado truta que alias comeríamos mais algumas vezes. Quando fui para o Hotel fiquei arrependido. Devia ter comido uma truta inteira. Afinal ainda senti que estava com fome. Mas paciência. Dormir, beber água e esquecer.
9º DIA
Acordamos cedo, tomamos o melhor desajuno da viagem e fomos acertar com a empresa de turismo para visitarmos a Ilha do Sol. A Ilha fica a duas horas de barco de Copacabana. Navegar no titikaka é uma experiência única. Sua imensidão mais parece um grande mar cercado por rochas enormes e verdejantes e muitos desenhos de pedras em suas costas. A Ilha tem muitas subidas e descidas, com vários índios vendendo artesanatos ao longo da trilha e também algumas crianças a adultos indígenas vestidos a caráter com alguma lhama cobrando dos turistas quando estes tiram fotos. Na Ilha existem vários hotéis e para aqueles que não querem continuar viagem, podem dormir por aqui.
Esta Ilha exerce um fascínio em todos, moradores e visitantes, pois segundo a lenda foi aqui que nasceram Manco Capac e Mama Ocllo, os dois primeiros incas que se tem noticias. Na lenda, o sol com piedade dos dois, pois estes viviam como animal, mandou um de seus filhos e uma de suas filhas para poderem viver como racionais e pudessem trabalhar a terra e nela viver. Daí porque e sagrado esse lugar para os bolivianos e nos também tratamos com o respeito que lhe é devido, muito embora, muitos nativos tenham perdido esse espírito do sagrado e estão comercializando tudo que lembra artesanato.
Subir na Ilha do Sol exige preparo físico. A caminhada é puxada, mas cada passo que se da e olha para baixo você vê uma paisagem diferente. Cansa muito, mas é gratificante. No cume da ilha tem um povoado chamado Yumani e algumas pousadas e bares. Descansamos e voltamos. Afinal não pretendíamos dormir por lá. Não havia nenhum atrativo especial também na ilha da lua, pois ela é menor e segundo a lenda foi dada a esposa.
Os incas tinham verdadeira adoração pelo sol, pois este lhes proporcionava a luz, o calor e a vida. A Lua sua esposa e as estrelas suas servidoras. Também adoravam a terra que era chamada de Pachamama (mãe terra); com as águas sagradas do Titikaka (puma de pedra) pois este lhes proporcionava e proporciona, peixe, remédio e purificação.
Voltamos para Copacabana por volta das treze horas. Já estávamos com a passagem comprada para Cusco. Passaríamos em Puno, ficaríamos algumas horas para que quem quisesse visitar as ilhas flutuantes e continuaríamos até Cusco, aonde chegaríamos na madrugada seguinte.
Dentro do ônibus o motorista nos deu um formulário para preencher e disse que em vinte minutos estaríamos atravessando a fronteira da Bolívia com o Peru e que deveríamos estar com o formulário preenchido e passaporte na mão. Deveríamos desembarcar do ônibus e atravessar a fronteira a pé, pegar o visto do lado peruano e embarcar do outro lado já em um outro ônibus que estava autorizado a trafegar pelo Peru.
No horário marcado, descemos do ônibus, fomos para uma fila e carimbamos nosso passaporte autorizando nossa entrada no Peru. Andamos coisa de cinqüenta metros e entramos no território peruano.
Muitos cambistas vieram ao nosso encontro querendo trocar dólar por soles. Troquei alguns dólares por soles, na base de três por um. Sentimos o baque. Estávamos acostumados a trocar o dólar na base de oito por um na Bolívia. Compramos água novamente. Alias toda hora comprávamos água. Indispensável como nossos dólares.
Chegamos a Puno por volta de dezesseis horas. A galera estava exausta e não quiseram ir as Ilhas flutuantes, muito maquiadas, coisa para turista mesmo. Optamos em conhecer Puno. Cidade bonita e muito movimentada. Almoçamos em uma rua em que tinha centenas de restaurantes. Todos muito bonitos.
Na rodoviária de Puno, foi nos oferecido hotel em Cusco, a galera achou arriscado, mas eu fui conversar com o cara.
A coisa acontece da seguinte forma: o ônibus de Puno, chega a Cusco por volta de quatro horas da manha. A galera quando chega não tem hotel para ficar e nem é hora para procurar um. Daí porque os motoristas deixam que durmam no ônibus até oito da manha e depois saem todos os mochileiros para procurar hotel. Achei a proposta do cara interessante: ele nos arranjaria um hotel em Cusco e quando chegássemos as quatro da manha teria alguém esperando com um táxi para levar-nos ao hotel e não pagaríamos nada para ficarmos de quatro da manha até meio dia, sendo que a diária só começaria ao meio dia. Hotel Pirwa foi o que escolhi, pois tinha lido sobre ele e fica muito perto da Praça das Armas em Cusco. O cara pegou o celular e depois disse que deveríamos pagar cinqüenta por cento da diária, assim estaria reservado. Fiquei desconfiado, adverti ele se fosse mentira voltaria a Puno só pra dar umas porradas nele e tal. Ele disse que não tinha erro. A galera que tava comigo não queria dar o adiantamento. Mas convenci-os e correndo um sério risco de levar um cano danado. Cada diária era dez dólares por pessoa. Como éramos cinco, ele exigiu vinte e cinco dólares de adiantamento. Paguei e peguei o recibo como se tivesse reservado no hotel Pirwa.
O Ônibus era confortável, com dois andares e tinha uma turma de brasileiros tocando a maior zoeira e volta e meia iam para o banheiro fumar. Dormi e só acordei em Cusco as quatro da manha. Desci e fui até a cerca do terminal, morrendo de medo de não ter ninguém esperando como o cara assegurou. Mas o alivio foi imediato. Lá estava um cara com a placa Juan Batista e um táxi do lado nos esperando. Delicia das delicias. Pegamos as mochilas que cada dia pesava mais e entramos no táxi e fomos para o hotel. Instalamos num quarto de casal com um excelente banheiro. Tomamos banho e fomos dormir. Dormi pensando nos colegas mochileiros que não acreditaram no cara e não acertaram o hotel e que àquela hora estavam dormindo todo quebrado no ônibus. “Bem, ainda tem gente honesta nesse mundo”, pensei. Dormi sorrindo.
10º DIA
Acordamos por volta de umas nove horas da manha. Fomos inspecionar o Hotel Pirwa. Amamos de cara. Lugar agradável. Recepcionistas amáveis e Tânia da empresa de turismo muito gente boa. Além disso, o hotel fica na Praça das Armas, a dez passos e entra na praça. Atrás do Mama África. Que localização!!!
Cusco é uma cidade encantadora. No idioma quíchua chamam-na de Qosqo. Com a chegada dos espanhóis, a cidade foi dominada e colonizada. Alguns afirmam que trezentos anos antes a cidade já era habitada. Fica claro que, mesmo com a lenda de que Manco Capac fundou Cusco, esta já era território dos povos pré-colombianos. Hoje é uma cidade cosmopolita, habitam por lá mais de 300 mil pessoas e recebe um numero enorme de turistas do mundo todo e em todos os meses do ano, sendo que os meses de junho, julho e agosto é o forte para o turismo europeu e os preços costumam ser mais salgados. Já em dezembro e janeiro é um turismo mais acentuado de latino-americanos. Com preços mais razoáveis.
Cusco fica a 3360 m de altitude. Para nos que chegamos via La Paz, não foi necessário nenhuma adaptação pois já tínhamos passado por altitudes maiores. Mas para a galera que vem de Lima, é necessário tomar alguns cuidados. Claro que a altitude não afeta todos igualmente. Tem pessoas que não sentem nada, mas outros passam muito mal.
Caminhar pelas ruas de Cusco é muito agradável. Povo simpático e seus monumentos históricos impressionantes. Sentar nos bancos da Plaza de Armas e observar o movimento das pessoas e tem que ser considerado como imperdível numa viagem dessas. Visitar La Catedral e La Campânia com seus santuários de ouro e prata já valeriam a visita a Cusco. Mas a cidade oferece muito mais. São inúmeras as ruínas e conventos que situam aos arredores de Cusco.
Passeamos o dia todo. No Hotel em que estávamos acertamos com a empresa de turismo existente nas suas dependências nossos passeios para o outro dia e nossa ida para Macchu Picchu.
Aqui vale um registro. Existem três formas de chegar a Macchu Picchu. De helicóptero (fora de questão) a pé, ou de trem.
Helicóptero não estava em nossos planos, pois alem de caro só atende a um publico específico que fica num hotel dentro do sítio de Macchu Picchu. A trilha você acerta com uma das dezenas de agencias que a patrocinam e caminha de 2 a 4 dias até chegar ao sítio.
De trem foi a opção que mais me agradou, pois é mais rápido e menos cansativo.
Todos os dias partem trens para Águas Calientes, de onde sobe para Macchu Picchu. Sempre de manha, por volta de 9 horas e também todos os dias chegam trem de Águas Calientes.
Algumas pessoas optam em pegar o trem em Cusco, se paga 65 dólares pela ida e volta até Águas Calientes. Você pode comprar somente a ida, e quando resolver em Águas Calientes, compra a volta, o preço é 34 dólares.
Uma alternativa é embarcar no trem na cidade de Ollantaytambo. Nesse percurso o trem parte às 20 horas e chega a Águas Calientes por volta de 22h30min. O custo da passagem é de 45 dólares, mas tem que comprar ida e volta, sendo que a volta deverá ser no trem que parte de Águas Calientes às 6 da manha do segundo dia que estiver na cidade. Ou seja, você devera pernoitar duas noites em Águas Calientes.
Optamos pela alternativa mais barata. Acertamos também um passeio pela cidade e arredores e incluindo Pisac e Ollantaytambo. No boleto diz que são 13 atrações entre ruínas, igrejas e museus. Atenção aqui. Não deixe para comprar o boleto na hora que estiver em Pisac, pois não aceitam dólares na compra do boleto e ai se não tiver Soles, vc tem que trocar com alguém ali por perto por um cambio muito desfavorável.
No hotel em que estávamos fomos autorizados a usar a cozinha. Compramos algumas coisas e fizemos um almoço de brasileiros, quer dizer, guardando as proporções de não ter certos ingredientes (arroz, vagem, abóbora, salada de tomate, cebola, carne e cerveja). Arrumamos tudo numa grande mesa e comemos demais. Todos os funcionários do hotel vieram comer com a gente. Adoraram.
A tarde ficamos fazendo o que de melhor tem em Cusco: andar e olhar as paisagens. Compramos uns frangos e acertamos fazer uma galinhada para levar no outro dia para nossa ida para Águas Calientes. Também compramos ovos e outras coisinhas para fazer um café da manha mais de casa. Esse desajuno dos peruanos é muito fraquinho. Tudo isso gastamos 40 soles e dividimos em 5 pessoas. Baratinho.
Fui com Bel a tarde visitar o Mama África, lugar muito lindo. Tomamos alguns drinks e cervejas (gelada). Tiramos algumas fotos e prometemos ao dono que a noite estaria por la.
A noite de Cusco é muito, muito agitada. A Praça que durante o dia é aquela calma com suas agencias e seus restaurantes, a noite se transforma em uma dezena de boates muito lindas. Todas muito bem decoradas e som para todos os gostos.
Em todas as boates, o primeiro drink é de graça. Ai já viu né? Toma um drink aqui, um ali, outro acolá, quando nota, esta tonto.
Na primeira boate que fomos tomamos algumas cervejas e tomamos os famosos drinks de cortesia. O Ronald estava impagável de engraçado. Ficou louco com as musicas e dançava musica de rua, rock, qualquer coisa. A galera que estava na boate delirava e morria de rir com os trejeitos dele. Com essa graça que ele fazia só dava caipirinha de graça para ele. Começamos todos a dançar. Animamos e logo apareceram umas mascaras e todos usamos. Uma farra.
Saímos de la em fomos para o Mama África. Estava intransitável. Tomamos alguma coisa por la e tentamos dançar. Não dava. Bel estava a mil por hora. Todos se divertiam muito. Saímos para procurar uma boate menos cheia. Nos corredores entre as boates, ficam rapazes e moças puxando as pessoas para que entrem em suas boates e prometendo todo tipo de cortesia. Pediram a Nilza para dançar um samba, pois viram que éramos brasileiros e ela rebolou um samba lá e eles adoraram e aplaudiram. Agarraram o Ronald e gritavam “brasileiro, vem, vem... toma um drink de graça”. Riamos muito, pois o Ronald deitou no chão e disse que só iria beber de graça se fosse carregado.
Imagina a cena. Você ser carregado para entrar numa boate e beber de graça!!!
Para resolver a situação dissemos que iríamos um pouco a cada lugar. E assim fizemos. Entravamos em uma boate, bebíamos algo e depois íamos à outra e assim sucessivamente. Conhecemos muita gente. Bel praticou o inglês dela com turistas australianos e nos praticamos nosso “enrrolol” em todas as línguas. Conversamos a noite inteira com gente de tudo quanto é pais. Acho que ninguém tava entendendo o outro. Mas quem liga?
Resolvemos ir embora. Já era tarde e tínhamos compromisso cedo, pois o ônibus que faria a tour com a gente sairia 8 horas do hotel.
Resolvemos antes de dormir fazer uma macarronada. Ficamos ali na cozinha do Hotel conversando, rindo e fazendo o rango. Bel e Clayton não agüentaram e desmaiaram. Eu a Nilza e o Ronald comemos a macarronada toda e pedimos ao porteiro que nos acordasse 6 horas, pois queríamos fazer a galinhada para levar no outro dia no passeio.
DICAS
- Sempre compre água
- Sempre tenha algo para comer comprada em mercados. Barra de cereais, chocolate, banana, etc.
- Se não tiver pressa e não quiser ir na trilha, escolha bem como ir de trem. AS duas alternativas têm suas vantagens e desvantagens.
- Por Ollantaytambo você terá que ir para a cidade que fica a uns 80 km de Cusco. Sair 8 da noite e voltar dois dias depois seis da manha. Perde com isso duas diárias. Mas tem tempo para ficar o dia todo em Macchu Picchu. Dormir e voltar no outro dia cedo para Cusco. É mais barata a passagem, mas se gasta com diárias.
- Indo por Cusco, você chega em Águas Calientes por volta de 10:30 e pega um bus que o leva ate Macchu Picchu. Tem de onze da manha até as 15 horas para ver todo o sítio. Esse tempo do tranqüilo para ver tudo. Nesse horário o sitio esta com muita gente. Volta a Cusco no mesmo dia e não paga diária para ficar em Águas Calientes.
- Procure ficar no Pirwa Hotel. Fica ao lado do Mama África, a dez passos da Plaza de Armas. Os funcionários são muito legais e, além disso, pode usar a cozinha para fazer pelo menos um miojo.
- Se quiser fazer a trilha. Não vi a necessidade de reservar, pois as agencias te puxam para oferecer o passeio. Vi pessoas fechando a trilha por 120 dólares e também algumas oferecendo por cinco vezes esses preços. Se tiver tempo, pois tem que esperar a autorização do órgão de turismo que controla o numero de pessoas que vão as trilhas, deixe para acertar por lá. Sai mais barato e mais confiável.
11º DIA
Acordamos cedo e o Ronald já estava na cozinha do Hotel fazendo a galinhada e Bel foi ajudá-lo. Fechamos nossa conta e deixamos nossas mochilas guardadas no hotel e levamos somente o necessário para um dia em Macchu Picchu e nossas maquinas. Pouco peso ai é fundamental.
O micro ônibus em que embarcamos estava cheio de turistas do mundo todo. Somente nos de brasileiros.
Nossa primeira parada foi em Pisac. Essa cidade fica a 30 km de Cusco. É uma cidade pequena com fundações incas, mas de estilo colonial espanhol. No centro da cidade tem uma feira indígena que vende todo tipo de artesanato. Também pode comprar alguns comes e bebe. Paramos nessa feira alguns minutos e depois seguimos caminho para as ruínas de Pisac. No morro Intihuatana existem muitas ruínas arqueológicas incas e seus terraços em forma de degraus que serviam para a agricultura.
Logo na entrada tem que mostrar o boleto turístico. Tenha o em mãos e não deixe para comprar na hora, pois só aceitam soles. A caminhada é longa e cansativa. Mas a paisagem é bela. Cemitérios, torres e templos fazem parte desse complexo inca. A vista do Vale onde cultivam sua agricultura é absolutamente lindo.
O tempo aqui é inconstante. Faz se um sol escaldante e em segundos chove e novamente faz se sol. Leve muita água. E se importar com a chuva fina, uma capa.
Saímos de Pisac e fomos para Ollantaytambo. Passamos por Calca que esta a 18 km de Pisac, todo o caminho é rodeado de morros e picos que nos meses de julho em diante ficam coberto de neve. Também nessa cidade ficam os banhos medicinais de Machacancha e Minasmoqo.
Também passamos, mas sem parar, em Yucay, onde abriga o Palácio del Inca Sayri Tupac II, filho de Manco Tupac. Construção de pedra e argila.
Mais adiante paramos em Urubamba. Esta cidade é conhecida como o coração do vale, pois esta situada aos pés das montanhas de picos nevados. Paramos para almoçar e alguns foram para uns restaurantes na rodovia e outros, como nos procuraram algum lugar para abrigar do sol.
Fomos para a praça. Sentamos em circulo e abrimos a panela com a galinhada. Compramos um refrigerante e comemos muito. Riamos muito de nossa farofagem... Mas a comida estava deliciosa e os turistas estrangeiros ficaram de olho gordo em nossa comida. Perto de onde estávamos farofando uma banda de musica estava passando tocando uma musica alegre. Achávamos que era alguma festa. Ledo engano. Estavam indo enterrar alguém. Muito sinistro. Mas impagável o mico nosso de farofar na Praça de Urubamba. Acho que esse é um feito inédito. Comer galinhada na praça central de Urubamba.
Saímos de Urubamba e fomos rumo a Ollantaytambo. Distancia pequena, mas demorada, pois são muitas curvas. Ollanta fica a 97 km de Cusco. Nessa região estão as ruínas incas mais bem preservadas depois de Macchu Picchu. Segundo nossa guia, esta era a região favorita dos incas, pois ali eles desenvolveram um complexo sistema agrícola, administrativo, social religioso e militar. As casas ainda conservam muito das construções e algumas são habitadas. Os terraços é o ponto alto da caminhada em Ollanta. Ficamos até o final da tarde nessas ruínas e andando pela cidade. Anda-se muito nesse circuito. Passamos o dia subindo e descendo escadas de pedras. Minhas pernas estão doendo. Mas é tudo muito belo.
Quando voltamos para o ônibus, despedimos de nossa guia e pegamos nossas coisas, pois iríamos ficar em Ollanta para pegar o trem para Águas Calientes, enquanto o ônibus voltaria para Cusco.
Do centro de Ollanta até a estação de trem caminhamos por alguns minutos e chegamos a estação. Eram seis e meia e não tinha nada para se fazer. Ficamos sentados na estação, pois fazia muito frio. Não tinha nada para comer na estação, mas lembramos que nossa galinhada ainda estava pelas metades. Sentamos e comemos o resto dela. O Ronald cortou uma garrafa de coca e colocamos água e folha de coca e fizemos um chá bem quente. O mergulhão da Nilza mais uma vez foi importante. Tomamos o melhor chá da viagem. Tiramos muitas fotos desse momento, pois foi tudo muito improvisado e saiu muito bom.
As oito em ponto o trem chegou. Azul, imponente por fora e muito fraco por dentro. As poltronas são viradas para os passageiros da frente e as pernas se tocam com as pessoas que estão sentadas na outra poltrona da frente. Mas, nada que desanimasse nossa empreitada.
Chegamos a Águas Calientes às 22h30min. Estava frio e a estação fica dentro da cidadezinha. Logo na saída do trem, dezenas de donos de hotéis com placas ofereciam seus serviços. Não prestamos muita atenção, pois nosso hotel estava reservado desde Cusco.
Ficamos no Hotel Bromélia. Localizado na praça da cidade. Muito fraco. 15 dólares a diária de casal. Deixamos as nossas mochilas no hotel, tomamos banho e saímos para conhecer a cidade.
Águas Calientes é somente uma cidade turística que vive em função dos turistas que vão para Macchu Picchu. Quase todas as casas são restaurantes ou algum serviço pra turismo. Não existem carros. Muitos restaurantes, hotéis e lojas de bugigangas. O rio Urubamba corta a cidade ao meio. Pouca coisa estava aberta depois das 23 horas e resolvemos voltar para o Hotel e dormir pois estávamos cansados.
12º
Acordamos muito cedo. Eu e Bel decidimos subir para o sítio arqueológico de Macchu Picchu de ônibus (6 dólares) o resto do pessoal disse que iria subir à pé. Uma subida íngreme, mas com escadas. Leva-se uma hora e meia para subir pelos atalhos. O ônibus leva 30 minutos.
Macchu Picchu é indescritível. Somente se consegue alcançar a plenitude de sua beleza observando-a.
Aqui me permitam transcrever alguns comentários e reportagens de jornais sobre a descoberta dessa cidade majestosa e de seus mistérios:
Peru: Hiram Bingham descobre Machu Picchu
No meio dos Andes peruanos, 110 quilômetros de Cusco. É o 24 de julho de 1911. O norte-americano Hiram Bingham, professor universitário de história e apaixonado pela arqueologia, avança com sua expedição pelo vale do Rio Urubamba.
Bingham está no auge, tudo que ele toca vira ouro. Esse verão é só dele. Em poucos meses, sua expedição descobre uma ruína incaica após da outra. Avançam a tal velocidade que quase não sobra o tempo suficiente para analisar e documentar cada nova ruína. Ou marcar a exata posição de cada uma no seu mapa. Bingham está sem paciência, ele não pode parar. Está na busca da mítica "última cidade dos incas". Deste jeito, algumas das ruínas achadas desaparecem de novo no mato denso depois de sua partida. Algumas ficam perdidas novamente por décadas antes de finalmente serem redescobertas.
Mas este dia promete o triunfo final. A descoberta da última cidade dos incas. Em 1537, cinco anos depois da conquista do império incaico pelos espanhóis, o inca Manco se levantou contra os invasores. Fundou, numa cidade chamada Vilcabamba, o novo império incaico. Por trinta e cinco anos, o novo império se defendeu contra os espanhois. Até, em 1572, uma expedição espanhol pus um fim, matando o último inca Tupac Amaru. Mas os espanhóis nunca acharam Vilcabamba. Agora, Bingham está possuído pela idéia de achar aquele último refúgio dos incas.
Até encontrar, nas margens do Rio Urubamba, o camponês Melchor Arteaga, que informa Bingham da existência de ruínas no topo do Cima Vieja, da "montanha velha", que, em quechua, é chamada de Machu Picchu. Bingham fica entusiasmadíssimo ao ouvir tais notícias, e logo escala, junto com o tradutor da expedição e guiado por Arteaga, a montanha. O resto da expedição espera no vale.
Bingham está fascinado pelo que acha no topo. Completamente iludido pela beleza do lugar, ele acredita ter achado não somente a última cidade dos incas, mas, ao mesmo tempo, o lugar onde o primeiro inca nasceu. Começo e fim do império incaico, tudo em um só lugar mágico a 2,400 metros acima do mar. Nenhum outro lugar habitado pelos homens, nenhuma outra cidade jamais fundada pela humanidade, oferece um espetáculo natural tão impressionante. A vista de 360 graus, a selva densa que cobre as montanhas dos Andes, cujos topos quase sempre estão cobertos de nuvens vindo da selva amazônica.
Entre 1912 e 1915, Bingham e sua equipe cavam ao redor das ruínas espalhadas pelo topo da Cima Vieja, num areal total de 500 x 800 metros. É quase uma lei de arqueologia de sempre deixar partes das ruínas intocadas, para que futuras gerações de arqueólogos pudessem explorá-las com novas technologias. Mas Bingham está nem aí.
Não dá para pará-lo. Enquanto, na remota Inglaterra, Sir Arthur Conan Doyle escreve seu romance científica "The Lost World" ("O mundo perdido"), que conta a história de cientista que encontram, num planalto no meio da floresta amazônica, espécies primórdios, Bingham entra cada vez mais profundo na convicção de ter encontrado "the lost city of the Incas" ("a cidade perdida dos incas"). Eis o título do seu livro que conta a história da descoberta de Machu Picchu.
Ele descobre, além de 220 peças de prata, cobre e bronze e 550 peças de cerâmica, 135 esqueletos humanos. Diz a lenda que 109 deles eram de mulheres. Foi assim que nasceu aquela história de que Machu Picchu tivesse sido o refúgio das "virgens do sol", das amantes do inca. Ainda hoje, os guias turísticas de Machu Picchu contam isso. Mas parece que tudo isso não passa de um simples erro. George Eaton, membro da equipe de Bingham, mediu os crânios dos esqueletos para chegar à tal conclusão. Mas, ao contrário dos europeus e norte-americanos, os crânios dos homens e mulheres andinos não apresentam muita diferença de tamanho. Novas pesquisas, feitas anos depois, que analisaram os pélvis dos esqueletos, chegaram à conclusão de que o número de homens foi quase o mesmo das mulheres. Mas, foi o mito que prevaleceu.
Afinal, qual foi a função de Machu Picchu? Por que os incas construíram uma cidade no topo da montanha? Provavelmente, a corte imperial se mudou para cá durante o inverno, quando a temperatura na 1,000 metros mais alta capital Cusco atingiu níveis muito baixos. Também, Machu Picchu com certeza fazia parte de um sistema de postos de alerta, para vigiar o vale do Urubamba e proteger Cusco.
Mas Machu Picchu nunca tem sido a última cidade dos incas, a mítica Vilcabamba, como acreditava Bingham. A verdadeira Vilcabamba foi descoberta perto de Espíritu Pampa, em 1964, pelo arqueólogo Gene Savoy. Ou, para ser mais exato, re-descoberta. Pois mais de cinqüenta anos antes de Savoy, uma outra expedição já tinha descoberta partes das ruínas. Só que, na época, o líder daquela expedição, um tal muito nervoso de nome Hiram Bingham, não tinha muita paciência para analisar melhor o lugar. Achou as ruínas decepcionadas demais para pertencerem à mítica Vilcabamba. Assim, Bingham nunca ficou sabendo que achou a verdadeira última cidade dos incas.
RELATOS DE VIAGEM
A DECISÃO
Tenho 45 anos, sou professor de Historia, duas pós-graduações e várias desistências de mestrado e agora graduando em advocacia. Izabel, minha companheira, também da mesma idade, também professora de historia. Como resolvemos fazer essa viagem? Bem, como historiadores, Macchu Picchu sempre esteve em nosso imaginário. Sempre foi um sonho acalentado durante anos, mas que aos pouco, devido a todos os contratempos diários, fora sendo colocado de lado. No começo eram o Sendero Luminoso, depois os filhos, depois a falta de grana e por fim a total falta de informação sobre o assunto.
Tomar a decisão de fazer essa viagem foi como se um raio caísse em nossas cabeças. No primeiro momento pensamos em ir para Cuba, mas devido as mudanças feitas por Fidel Castro e a invenção de uma moeda estrangeira que só vale para estrangeiros e que tem valor de face maior que o dólar inviabilizaria qualquer viagem de sul americano para aquela ilha. Em princípio pensamos em fazer algo de alguns dias. Afinal temos três filhos e ainda precisam de nós. Mas à medida que fomos pesquisando sobre o assunto, fomos verificando que uma semana é muito pouco tempo para fazer uma viagem dessas.
Nossa preparação foi intensa. Comprei guia, procurei todas as informações na Internet e conversei com pessoas que foram. Juntei um longo material e fiz várias versões de roteiros, aos quais estão no fim desse relato. Os preços foram “pescados” um pouco aqui, um pouco ali, e se não ajudaram muito, pelo menos nos encorajaram de continuar o projeto, pois é uma viagem relativamente barata, para quem esta acostumado a viajar pelo Brasil e passar férias no litoral.
Muitas pessoas ficaram impressionadas com nossa coragem de fazer a viagem para Macchu Picchu, como se fossemos para o fim do mundo. “Vocês vão pegar o trem da morte?” perguntavam uns. “Vão de ônibus?” “Vão mesmo de mochilas?” outros diziam. “Muita coragem” diziam outros.
Nenhuma observação abalou nossa convicção de continuar os planos para a viagem. Aos poucos fomos adquirindo o necessário para que não fizéssemos papel feio como mochileiros. No final do relato estão as coisas que levamos. Meus filhos, um de dezoito anos, outra de dezesseis e outra de dez anos ficaram encantados com nossa coragem de desafiar esse mundão de mochila.
Para nos era o desconhecido. Algumas pessoas manifestaram vontade de ir com a gente. Aliás, muitas pessoas chegaram até a reunir-se conosco para saber os detalhes. Mas desistiram no caminho. Restou eu e minha companheira, minha irmã mais nova e o namorado dela.
Tomei várias providencias aqui em Brasília. Coloquei todas as minhas senhas na mão de meu filho e também fiz um seguro de vida para mim e minha companheira. Sei la né? Deixei as tias responsáveis por eles e a casa e começou a contagem regressiva. Tudo pronto. Só esperar o grande dia da partida.
1º DIA
Nossa saída de Brasília foi marcada por fortes emoções, pois fiquei emocionado em deixar meus filhos sozinhos e partir para o desconhecido. Choradeira total, da minha parte pelo menos. Rs. Às 14 horas pegamos o ônibus na rodoferroviaria de Brasília, rumo a Campo Grande em Mato Grosso do Sul. Era uma segunda feira, optamos por esse dia pelo fato do ônibus que sairia esse dia ter ar condicionado e bancos reclináveis e podermos pegar as cadeiras da frente. Isso é fundamental. Pois não tem ninguém para reclinar a poltrona da frente e amassar meus joelhos. Seria a primeira vez em quase 20 anos que faria uma viagem tão grande de ônibus. Sempre viajo de carro. Estava preocupado em passar mal ou enjoar. Tomei dois Dramim. Além disso, devido ao nervosismo, arranjei uma bela de uma dor de estomago. Tomei um remédio e tudo de ajeitou. Nos ônibus brasileiros não há a necessidade de comprar água, pois eles servem. Mas nos outros países as coisas são muito diferentes.
Nossa viagem era para ser de 16 horas, chegando bem cedinho a Campo Grande, mas tivemos muitos problemas. Logo nos primeiros quilômetros verifiquei que a roda do ônibus estava fazendo um barulho enorme. Falei com o motorista que também ouviu o barulho. Uma hora depois, fomos parados pela Polícia Rodoviária. Depois de vários minutos o policial entrou em nosso compartimento e recolheu nossas passagens e perguntou para onde estávamos indo. Disse que para Campo Grande, agradeceu muito polidamente e desceu. Demorou mais de meia hora, voltou e informou-nos que a empresa não tinha autorização para vender passagens para Campo Grande, que era irregular essa atitude da empresa e que ela estava sendo multada por isso. Pensei: “pronto já vão nos descer logo no princípio da viagem”. Aleguei para ele que era louvável a atitude da polícia rodoviária, mas que as únicas vítimas naquele processo éramos-nos que compramos a passagem de boa fé, pois tem letreiros dentro de uma rodoviária pública, anunciando a venda desse roteiro, e que se deveria haver uma fiscalização essa deveria começar na própria rodoviária. Ele concordou, disse que multaria a empresa e que nos seguiríamos viagem. Menos mal.
Em Goiânia fizemos a troca do ônibus, pois o que estávamos não tinha condições de continuar. O segundo era melhor que o primeiro. Muito confortável. Na saída da cidade, numa manobra errada do motorista, o ônibus atolou e perdemos mais de uma hora nessa operação, foi necessário um caminhão puxar-nos com um cabo de aço para que desatolasse o veículo.
Viagem normal e sem muito contratempo. Paramos a noite para jantar em uma cidadezinha no interior do Goiás. O namorado de minha irmã estava passando mal. Comemos a última comida brasileira. Mal sabíamos que só voltaríamos a comer feijão e carne de verdade acebolada no ultimo dia de nossa viagem.
2º DIA
Chegamos bem cedo a Campo Grande, corri ao terminal para comprar as passagens para Corumbá, de onde atravessaríamos a fronteira para pegar o trem da morte. Estava com medo de não dar tempo de comprar para o mesmo dia. Só tinha passagem para 11 horas. Fiz as contas: não dava para chegar no horário de comprar a passagem no trem. Mas só tinha esse horário. Comprei e conformei. Na sala de espera da viação andorinha, perguntei ao controlador de ônibus se não tinha nenhum ônibus saindo mais cedo, afinal eram sete da manha. Ele me disse que estava vindo um do Rio de Janeiro e que tinha quatro lugares. Maravilha. Troquei nossas passagens para ele, que estava já estacionado. Surgiu um problema: Minha irmã e o namorado tinham ido ao banheiro e o ônibus estava saindo. Correria geral e eles chegaram e embarcamos.
Chegamos a Corumbá por volta de duas e meia da tarde e o motorista nos informou que a empresa atravessaria com a gente a fronteira. Amei, pois assim economizaria vinte reais de táxi. Assim foi feito. Na fronteira do Brasil com a Bolívia é uma confusão danada. Tem que preencher um formulário e apresentar a carteira de vacinação contra a febre amarela e o passaporte. Entra em uma sala e o burocrata boliviano carimba seu passaporte. Na frente do prédio tem dezenas de cambistas querendo fazer a troca da moeda com você. Aqui tem que tomar cuidado, pois sempre querem tirar alguma vantagem de você. Troquei alguns dólares (20 dólares) por Bolivianos que é como se chama o dinheiro da Bolívia. Voltamos para o ônibus e este andou mais uns quinhentos metros e nos deixou dentro do território boliviano. Dezenas de “Táxi” estão a espera para levar-nos para a estação de Puerto Quijarro, que descobrimos fica bem perto. Mas como éramos marinheiros de primeira viagem optamos por um “táxi” de um garotão e pagamos cinco bolivianos até a estação. Cabe aqui uma observação sobre os táxis na Bolívia. Todos os carros que vi são táxis, todo mundo que tem carro em Puerto Quijaro aluga seu carro para táxi. Carro novo, velho, pequeno, grande, caindo aos pedaços, qualquer coisa é táxi.
Paramos na estação e corri até o guichê para ver a possibilidade de ter trem para aquele dia ainda. Estava receoso de ter que dormir em Puerto Quijarro, além de não ter nada para fazer, ainda gastaria com estadia e comida. O trem Superpulmamm não havia mais passagens, mas havia para o Ferrobus. Duzentos e quarenta bolivianos. Fizemos as contas e chegamos a conclusão que deveríamos comprar este. Pois se esperássemos para o outro dia o Superpulmam de cento e vinte, teríamos que gastar no mínimo a diferença em hotel e comida. Saindo no mesmo dia ganharíamos um dia em nosso roteiro. Peguei os quatro passaportes e trocamos mais bolivianos. Um dólar é igual a oito bolivianos. Portanto dava trinta dólares para cada. Alias parte paguei mesmo em dólar. Cheguei ao guichê novamente e estava uma fila enorme. Fiquei desesperado. Pensei: “quer saber, se não tomar uma atitude vou ter que dormir aqui”. Entrei na frente de todo mundo e disse ao rapaz que estava vendendo: “aqui estão os passaportes que pediu e o dinheiro”. Ele me olhou e pegou os passaportes e emitiu as passagens, que vem nominal. Sai de la com a alegria de um pinto no lixo. Comprei as passagens e íamos embora de Puerto Quijarro no mesmo dia.
Procuramos um lugar para tomar banho. Arranjamos uma espelunca e o cara nos cobrou quatro bolivianos para tomar banho, de cada um de nos. Tomamos um banho meia sola e trocamos de roupa. Fomos comprar água e a uma lan dar noticias a família.
Noticias dada. Voltamos a estação, quando Bel (minha companheira) alertou-me que não estava com a bolsa com a filmadora. Correria geral. Estava debaixo da mesa do micro que estávamos falando com a família. Fiquei mais atento a partir dali.
Às vinte horas partiu o trem. Tudo muito organizado. Alias foi a única coisa organizada que encontrei nas instituições bolivianas. Nada de trem da morte, onde os relatos era os mais bizarros do mundo. Disseram-nos que tudo isso não passa de lenda. Claro que existe a segunda classe, onde vc paga pouco mais de 30 bolivianos para fazer o percurso, ai sim às condições dentro do trem são péssimas. Bem, como somos marinheiros de primeira viagem e só tinha esse. Fazer o que? Dentro do trem tudo muito organizado, Cadeiras brancas. Televisão. Pessoas nos servindo. Jantamos. Pedi bife e Bel pediu frango. Vieram todos acompanhados com batata e arroz. Seria comum dali pra frente esse cardápio. Também serviram um desajuno, que é café, pão, marmelada, leite e manteiga. Conheceríamos muitos desajunos dali em diante.
3º DIA
Chegamos por volta de nove horas da manha em Santa Cruz de la Sierra. Cortamos a noite toda sobre o pantanal boliviano e a entrada da cidade por onde o trem passou tinham casas bem rústicas e pobres. Fiquei impressionado com a pobreza daquele povo. Paramos na rodoviária Bimodal de Santa Cruz, pois além do trem, ali você também pega ônibus para diversas partes da Bolívia.
A Rodoviária é privatizada. Todos os ônibus que tiverem autorização podem vender suas passagens ali, ao preço que quiserem. A Rodoviária somente exige que cada passageiro pague uma taxa de uso da rodoviária. Para os viajantes estrangeiros, tudo era obedecido. Pagávamos a taxa e embarcávamos. Mas para o povo da cidade não. Eles esperavam o ônibus sair do terminal e embarcavam. Economizavam alguns bols (bolivianos).
Compramos a passagem para as dez horas da manha para Cochabamba. Paguei sessenta bolivianos. Estava prevista a chegada às vinte horas. Mas aprendemos logo na nossa primeira viagem que os horários na Bolívia são relativos. Saímos as onze e a avacalhação é total. Colocam quantas pessoas querem dentro do ônibus e os bolivianos se sujeitam a qualquer humilhação. Nunca vi na viagem toda que fiz, nenhum boliviano reclamando de nada. Simplesmente aceitam.
Saímos as onze horas, num calor terrível e num ônibus que não tinha banheiro e nem ar condicionado. Nada. A viagem foi horrível. Só tínhamos nós de estrangeiros. O motorista parava toda hora para pegar algum passageiro. Já estávamos numas oitenta pessoas no ônibus. Gente sentada no chão. Dormindo. Crianças chorando. Doidura total. Para piorar tiveram um problema numa ponte e ficamos parados num calor infernal no meio do nada por mais de duas horas.
Não existem restaurantes ao longo da pista. Não tem nada que conhecemos aqui como restaurantes ao longo da viagem. As vezes que o motorista parou foram somente para pegar pessoas e nada de parar para ir a banheiro ou comer. Fui reclamar com ele dizendo em portunhol que minha companheira estava querendo ir ao banõ, ele disse: “duas horas, duas horas”. Pensei que era as duas horas. Mas quando chegou as três horas, fui falar com ele novamente já puto de raiva e ele disse: “já, já, duas horas.” Ai perdi a cabeça. Apelei com ele. Avancei sobre o volante e disse um monte de coisas para ele gritando e dizendo que tinha que parar o ônibus e que não ia mais a lugar nenhum. Segurei o cambio e o volante e ele teve que parar o ônibus. O motorista estava assustadíssimo. Todo mundo desceu correndo para fazer as necessidades. Em qualquer lugar que achasse. Todos estavam querendo ir ao banheiro, mas nenhum pediu. Muita passividade. Daquele momento em diante ele fechou a cara para mim. Mas nem liguei. Duas horas depois das duas horas que ele tinha dito, parou num lugar feio com algumas mesas e sem estrutura e disse que tínhamos que comer.
Descemos, fomos ao banheiro (aqui se chama banõ) Tem que se pagar um bol toda vez que precisar ir ao banõ. Tentamos comer frango com batata (pollo com papa). Estava muito ruim, mas logo perceberíamos que esta é a comida típica e que aos poucos vai acostumando.
Bem chegamos a Cochabamba somente as vinte e três horas. Fomos para o Hotel Milenium. Quarenta e cinco bols por pessoas. Pedi um quarto com banõ dentro e água caliente (quente) que é um pouco mais caro. Mas ficou tudo por 90 bols a diária. Tomamos um longo bando e desmaiamos. Afinal estávamos sem dormir a duas noites e estava indo para a terceira.
4º DIA
O hotel em que ficamos é interessante, fica perto da estação rodoviária, o que é estratégico, pois fica mais fácil para levarmos nossas mochilas que estavam começando a ficar pesadas por causa da altitude. Cochabamba fica a 2.700 m de altitude. Situada no Centro Oeste da Bolívia. Nosso quarto era no terceiro andar. Muito cansativo chegar até ele. Tínhamos que parar no primeiro e no segundo para tomar fôlego. Parece brincadeira, mas cansa-se demais subindo até um degrau. Em frente ao hotel funciona uma feira enorme. Vende-se de tudo. Acordamos e fomos tomar o desajuno. Foi o primeiro contato com o chá de coca, nada de espetacular. É tão normal aqui tomar esse mate de coca como é normal para nos brasileiros tomar café. O restante foi um pão, leite, café, manteiga e marmelada. Nunca mais reclamarei dos cafés da manha de nossos hotéis quando viajo no Brasil.
Cochabamba é talvez a cidade mais interessante para se começar a viagem. Aqui se encontra de tudo e também muitos aventureiros, como nos.
Fomos dar uma volta pela cidade. Alias fizemos isso o tempo todo. Só íamos para o Hotel dormir. Almoçamos uma mistura de frango desfiado com arroz e outra coisa que não consegui decifrar. Bel não comeu. Passamos em outro restaurante e pedimos um pollo. A moça trouxe com arroz e macarrão. Bel pediu para tirar o macarrão. A moça pegou o prato, levou até o balcão e com a mão retirou o macarrão e trouxe novamente para a mesa. Começamos a rir pela naturalidade com que ela fez e estava fazendo tudo com as mãos. Bel não quis comer. A coca cola estava com um gosto estranho. Fiquei impressionado com o controle que a coca cola faz no mundo todo. Mas la a coisa esta feia para a coca cola. Só mais tarde em La Paz, constatei que realmente a coca cola de cochabamba tem problemas, pois em La Paz ela tinha o mesmo gosto do mundo todo. Bem, já que não estamos adaptando com a comida. Vamos comer frutas e tomar água.
5º DIA
Só fazemos andar por aqui e conhecer. Passamos o tempo todo na rua. Hoje fizemos amizade com um grupo de mulheres que estavam protestando contra a violência contra a mulher, o desmatamento e a internacionalização da Bolívia, trocamos fones e e-mails. Elas foram super amáveis comigo e com Bel. Gostei muito delas, mas sai com a impressão que tem algo errado. Não vi nenhuma cholla no grupo. Somente as mulheres brancas com descendência européia. Bem as Chollas, são mulheres de descendências indígenas que se caracterizam por suas vestimentas e se concentram mais no altiplano boliviano, enquanto que nas planícies concentram as descendentes espanholas.
São várias as praças em cochabamba. A que mais gostei e também a mais badalada é a Passeo El Prado. Fica a dez quadras de onde estávamos, mas difere completamente. Aqui se encontram casas bem feita, povo rico, Poucos índios e uma praça muito bonita. Também aqui encontramos alguns restaurantes interessantes. Comi por duas vezes comida chinesa.
As chollas são um capítulo a parte. Elas vivem andando rápido com suas vestimentas tradicionais que misturam muitas cores, principalmente as cores da Bolívia e da Espanha. As saias delas são muito interessantes. São chamadas de polleras. Coloridas e com várias anáguas. Dão uma sensação de saias aramadas para dar volume. Quase todas, usam os xales e muitas usam colares e são bastante ornadas. A maioria usa chapéus, estes são diferentes de acordo com a região do pais. Andam com uma bolsa ou porta coisas penduradas e todas usam o agaio que é um pano colorido que enrolam como uma trouxa e amarra nas costas. Ali carregam de tudo. Comida, produtos, animais ou os próprios filhos.
A situação indígena é um caso a parte na Bolívia. Aqui em Cochabamba, fica muito clara a separação de classes. Raro o indígena bem de vida. Sempre são subempregados. Perto da rodoviária montam suas barracas e vendem tudo quanto é tipo de bugigangas importadas da China. Tudo que tem nessas feiras tem em todas as feiras no Brasil e alguns a preços mais altos até.
A comida é feita sem nenhuma preocupação com a higiene. Presenciei ao longo das rodovias em que passei comidas sendo feita ao céu aberto. Geralmente são pollos (frango) com arroz e batata. Também fazem uma espécie de X-tudo, com tudo que tiver ao alcance para fritar. Salsichas, ovo, carnes de todo tipo, verduras, tudo. Gostam de colocar as comidas em sacos plásticos.
As crianças vivem perto da mãe, mas soltas. Presenciei uma cena impressionante. Fomos parados no meio da noite pelo exercito e obrigados a descer do ônibus para que revistassem tudo e mandaram andar uns duzentos metros. Uma indígena ao meu lado para arrumar a criança que estava carregando, forrou o agaio no chão colocou a criança nele e a enrolou como se enrola pão. Amarrou a criança e a colocou nas costas. Natural como beber água. As crianças não choram e quando isso acontece vi algumas bater no rosto das crianças.
São centenas pedindo esmolas nas ruas de Cochabamba. Quando chegam perto de vc lamuriam como se estivesse chorando e estendem a mão. Cena triste, desoladora. Vi muitas crianças e velhos abandonados nas praças. Parecido com o Brasil.
Na Praça linda onde freqüentam os brancos, é proibido pedir esmolas e a guarda municipal apita o tempo todo para que eles se afastem de la. São serviçais. Achei os preços muito parecido com os do Brasil. Exceto comida e hotel. Roupa pode-se encontrar com preços razoáveis, mas tem que procurar. Sempre dão um preço acima do normal, esperando vc pechinchar. Portanto: pechinche.
Andamos a manha inteira na feira e não vi artesanatos indígenas. Somente produtos importados de má qualidade e eletrônicos e muita comida e verdura. Algumas comidas são vendidas a céu aberto e outras em plásticos. É comum ver uma pessoa passando com um saco plástico cheio de comida ou sopa para outra barraca ou levando para outros lugares. Tudo, mas tudo mesmo é pego com a mão sem nenhum cuidado de higiene. Muitos dos indígenas que vi tem problemas de pele.
Ande em cochabamba. É uma aula de sociologia e historia. Lá se convive com carros saídos dos filmes dos anos sessenta com carrões ultima geração. Eles adoram enfeitar os carros com flores. Buzinar é o passatempo deles. Ninguém respeita sinal e faixa de pedestres. Mas não vi nenhum acidente. Nenhuma briga. Nenhuma violência. Fomos passear no cristo de lá concórdia, segundo o manual que estou lendo ele é maior que o cristo redentor do rio de Janeiro em um metro. Acredite se quiser.
Acertei com o dono do hotel para ficar depois do fim da diária, pois ela vence ao meio dia e só vou viajar para La Paz as onze da noite. Paguei mais uns dólares. Mas tenho lugar para tomar banho e descansar.
Fomos para a Praça de Prado. É linda. Não parece Cochabamba que esta a dez quadras abaixo onde os índios vivem na informalidade e numa imensa feira. As igrejas são lindas. Suntuosas e ornadas em ouro que os espanhóis não levaram.
No final da noite compramos algumas lembrancinhas, telefonei para um hostal Copacabana em La Paz para reservar a diária. Tudo acertado por cento e vinte bolivianos. Jantamos um pollo num restaurante até temperado. Pegamos o ônibus para La Paz era dez horas da noite.
6º DIA
Viagem tranqüila até La Paz, numa noite agradável e sempre tendo a preocupação de comprar as poltronas da frente e muita água.
Chegamos cedo, por volta de oito horas da manha em La Paz. Cidade confusa e com muito carro e muita buzina. Muito contrate. Comecei a sentir uma leve dor de cabeça. Mas nada que o soroche phil não acabasse. La Paz fica a 3.650 m de altitude. É a capital mais alta do mundo. A maioria de suas casas esta situadas em morros que a circunda. Além é claro de estar situada em um vale e ao fundo a Cordilheira dos Andes.
La Paz lembra muito as construções nas grandes cidades, onde predomina as favelas. A parte alta, onde fica o aeroporto fica a 4.100 m de altitude. Uma pancada em qualquer cabeça.
Pegamos um táxi para o Hostal Coapacabana. Falei umas dez vezes para o motorista que era um hostal e ele nos levou para o Hotel Copacabana. Fiquei puto com ele e ele queria mais dinheiro para levar ao Hostal. Como estava chegando, e já tinha tido muita confusão com motoristas, concordei em pagar mais cinco bolivianos para nos levar ao Hostal. Acertado, levou-nos direitinho. O Hostal Copacabana é bem simples. Fiquei o terceiro andar. As Escadas matam de cansaço. Tomei meu remédio para a altitude e um longo banho e fomos para a rua conhecer a cidade. A única referencia que tínhamos sobre a cidade era a Praça Murilo, fomos até lá. No caminho entramos em um restaurante do Hotel Gloria e tomamos café. Engraçado que eles cobram por cada coisa que pega. Como se fosse um selv self de café. Saiu caro para os moldes bolivianos, 34 bolivianos. A Praça Murilo é linda. Ela concentra o Palácio presidencial, a Câmara Federal e o Judiciário e uma majestosa Catedral. Ficamos andando por ali a manha toda curtindo aquela praça linda.
Procuramos um restaurante para almoçar. Nada que diferenciasse as comidas dos pollos com papa. Encaramos e pedimos uma fanta. Detalhe, a fanta vem bem quente. Eles não colocam nada na geladeira. Pedi gelo para a tica, garota que serve e ela riu muito mas trouxe. Fizemos algumas compras a tarde e visitamos mais alguns lugares.
Acertei na agência ao lado do Hostal Copacabana a ida para Chacaltaya no outro dia. Muito barato. Coisa de quarenta bolivianos. Acertei ir para um Hotel de verdade. Além de mais central, mais barato, cem boliviano para o casal com banheiro, tV a cabo e água caliente, também tinha um item essencial: elevador. Hotel Tikina. Bom hotel. Acertei que no outro dia o hotel enviaria um táxi para levar-nos até lá
Saímos à noite para passar o ano novo no centro de La Paz, mas tinha muita agente bêbada na rua e muitos com rojões e começou a chover. Voltamos ao Hostal e assistimos de nossa janela a queima de fogos nas casas na encosta de La Paz.
As ruas ficaram vazias e pipocavam foguetes em várias direções.
Não sabemos se tem balada a noite em La Paz para estrangeiros. Preferimos ficar por ali no centro mesmo até uma meia noite e fomos dormir, pois no outro dia teríamos e queríamos conhecer a neve.
7º DIA
Acordamos cedo, por volta de sete horas. Descemos e tomamos nosso desajuno. Fajuto. Fomos para a frente do Hostal aguardar a chegada do táxi que nos levaria até o Hotel Tikina. Depois de muita demora o táxi chegou e transportou-nos ate o Hotel. O táxi foi por conta do Hotel. Subimos, colocamos nossas coisas no quarto e fomos para a van que estava esperando com mais dois passageiros. Um sueco e outro brasileiro. Apresentamos-nos e começamos a tortuosa viagem para Chacaltaya. Estávamos ansiosos, pois essa montanha de neve esta localizada a 5.395m de altitude. Localizada na Cordilheira Real, que faz parte da Cordilheira dos Andes. O Brasileiro que foi nos apresentado chama-se Clayton e mora em São Paulo. Daqui pra frente será nosso companheiro por muitos dias. Pois combinamos viajar juntos até Macchu Picchu. Vocês não têm noção de como a van anda naqueles trilheiros de neve e beirando a precipícios onde a centenas de metros só víamos pequenas lagoas com cores lindas.
Chegando ao alto do Chacaltaya existe um abrigo que é administrado pelo Club andino Boliviano. Tem um barzinho onde se pode tomar um excelente chá de coca. Chegar até ali já era um aventura para mim. Subir os 130 metros restantes afundando em gelo e pedras escorregadias era um desafio mortal. Algumas pessoas se aventuram e conseguem chegar até o topo. Mas não sei se vale a pena arriscar tanto assim. Pelo menos no dia que estava por lá, a camada de neve atolava os pés e quando estes conseguiram chegar a algo duro eram pedras escorregadias. Subi com Bel uns 70 metros e escorregamos varias vezes. Muito perigoso. Mas a paisagem é tão linda que você nem pensa em frio, perigo, nada. Simplesmente olha pra baixo e admira.
Voltamos ao barzinho, tiramos varias fotos e esperamos a galera que subiu até o topo. Na volta estávamos eufóricos. Cortamos pela cidade alta de La Paz e fomos conhecer o Vale da Lua. Uns dez quilômetros fora de La Paz, o Vale da Lua, que o preço já estava incluso, é de uma beleza inquietante. São erosões, esculpidas pela natureza onde presumidamente se parece com a paisagem lunar. Estava chovendo quando chegamos e escorregava muito. Não fizemos todo o circuito pois a guia nos pediu para voltar pelo fato de ser perigoso. A galera chiou, mas entendeu o risco de cair e ficar mortalmente ferido.
Antes de sairmos da van, prepus ao motorista da van que nos levasse no outro dia a Tiahuanaco e depois Copacabana. Fiz o seguinte raciocínio: se fossemos no outro dia a Tiahuanaco, teríamos que pagar por volta de quinze dólares por pessoa para transporte. Voltaríamos a tarde para La Paz. Teríamos que dormir em La Paz, o que nos consumiria mais uns dez dólares por pessoa além de alimentação que não sairia por menos de cinco dólares somente naquele dia. Sendo que no outro teríamos que pegar um ônibus até o cemitério, mais um dólar e depois pegar outro ônibus até Copacabana, o que nos consumiria mais uns cinco dólares. Ou seja. Ir a Tiahuanaco e dormir em La Paz para depois ir a Copacabana sairia, miseravelmente por trinta e cinco dólares.
Acertei com ele por que ficaria a nossa disposição no dia seguinte todo, sendo que só teria seu serviço dispensado quando estivéssemos instalados num hotel em Copacabana. Foi uma ótima jogada, pois além de nos quatro, incluímos o Clayton e tudo saiu apenas por quinze dólares por pessoa, ou seja, seiscentos bolivianos.
Deixamos o sueco e o Clayton em seus hotéis e voltamos para o Hotel Tikina. Tomamos banho e saímos para comer algo. Esse “algo” era pollo com papa. Mas a fome era tanta que derrubamos um prato daqueles. Ligamos em casa e postamos algumas fotos. A gurizada no Brasil ta tudo legal. Dormimos mais cedo, pois estávamos exaustos. Mas não antes de andar todas as ruas do centro de La Paz vendo as feirinhas e o Mercado das Bruxas que nada mais é do que uma rua cheia de barracas vendendo artesanatos da Bolívia.
8º DIA
Acordamos cedo e tomamos nosso ultimo desajuno em La Paz. Descemos e o motorista já estava nos esperando com uma outra van mais nova que a primeira. Achamos uma beleza. Colocamos nossas bagagens e fomos ao hotel onde o Clayton estava hospedado para Pegá-lo. Tudo pronto, rumamos para Tiahuanaco. A paisagem é montanhosa e com raríssimas árvores. Nota-se nas montanhas que a camada que a cobre é somente pedra.
Os desenhos de pedra nas montanhas chamam a atenção. Por não ter terra fértil para plantação, os habitantes vão retirando as pedras e amontoando e fazendo longos muros que cercam o nada com coisa nenhuma.
Tiahuanaco fica a uns 70 km de La Paz. Fazia muito frio quando chegamos ao sítio arqueológico. Pagamos dez dólares por pessoa para entrar no sítio. Também contratamos um guia que nos saiu por cinco dólares. Um pra cada. La vi a placa com o nome de Tiwanaku. Esse sítio arqueológico fica a 3.845 m de altitude. Chegamos de van alugada, Mas tem muitas maneiras de se chegar. Pode-se ir de ônibus normal ou por qualquer agencia de turismo.
A cultura Tiwanaku é considerada a cultura mais importante do período pré-colombiano. Nosso guia, um aimara legítimo com o nome de Raul nos guiou por horas a fio e contou-nos muitas histórias sobre o lugar.
Resumidamente a historia desse povo que existiu a mais ou menos três mil anos. Seu império abrangeu não somente a Bolívia, mas também parte norte da Argentina, sul do Peru e parte do Chile. Seu nome original era Tapy Kala, pois eram chamados de Povos das Pedras. Só vendo para entender como eles realmente amavam fazer tudo com pedras. Com a chegada dos incas, o nome foi mudado para Tiwanaku, pois introduziram os animais, sendo que Tiwanaku significa lugar dos animais. As pessoas que residiam eram chamados de tiahunakotas ou tiahunacos como é conhecido hoje o lugar.
Essa civilização desapareceu por volta de 1.200 anos por causas desconhecidas.
Caminhar por estas escavações e ver como esse povo era desenvolvido é fascinante. Dominavam com perfeição a arquitetura, a medicina, a mumificação e a agricultura, sendo que seus dutos construídos a centenas de anos ainda ajudam a escoar a água da chuva através de suas canaletas que deságuam no titikaka.
Além das escavações, seu museu é encantador. Toda a história até agora conhecida esta esboçada em um painel logo na entrada. Seus deuses esculpidos em pedras são fantásticos.
No quadro abaixo, que é largamente conhecido por lá, nos da uma noção exata porque Tiwanaku foi escolhida exatamente naquele local. Também uns breve históricos de como os povos apareceram e desapareceram.
O quadro a seguir apresenta a evolução da cultura na região até os dias de hoje:
Cultura Fase Época
Tiwanaku Aldeano 1500aC - 45dC
Urbano Clássico 45dC - 700dC
Expansivo 700dC - 1180dC
Mollos 1180dC - 1350dC
Lupakakas
Aymaras
Outros
Incas 1350dC - 1540dC
Colônia 1540dC - 1820dC
República Bárbara.... 1820dC até hoje
A queda de Tiwanaku se deu devido a três causas principais:
• 1. Lutas internas pelo poder devido a ausência das autoridades que se deslocavam para as novas conquistas;
• 2. Seca prolongada na região que durou 5 anos e
• 3. Enchente do Lago Titicaca (ou Titikaka), cujo nível subiu 50 metros, alagando templos e habitações.
O Lago Titikaka ficou alagado no período de 1180dC a 1205dC. Esta cheia se deu devido a alta temperatura que derreteu as neves das montanhas e principalmente pela grande quantidade de chuvas que caiu na região. O piso atual de Tiwanaku está com 3 metros de depósito do Lago Titikaka.
Com a decadência dos tiwanakotas surgiram os mollos, lupakas, aymaras e outras culturas. Assim, pode-se dizer que os tiwanakotas foram os avós dos incas.
Essas explicações acima, nos foram dados por Raul, nosso guia, mas também fiz uma pequena cola de um colega nosso que também escreveu sobre o assunto. É nome demais para lembrar.
Passei muito frio e Tiwanaku. Minha pressão caiu muito e tive que ficar sentado por um bom pedaço de tempo pois fiquei fraco demais. Muito, muito e muito frio. Terminada a visita, fomos para as barraquinhas comprar lembrancinhas. Muitas negociações e trouxemos um monte de colares, totens, pedras e coisas do tipo.
Voltamos para a Van e rumamos para Copacabana. Engraçado que para ir para Copacabana tem que voltar a La Paz e depois pegar outra pista. Todas as pistas que passamos os motoristas tiveram que pagar pedágio. Detalhe: o motorista me perguntou se havia problema em ele levar a esposa, pois voltaria tarde da noite e não tinha com quem conversar. Sem problemas.
A paisagem rodeando o titikaka muda muito. Cercado por montanhas, algumas ainda com o cume cheio de neve. Nossa viagem foi muito agradável. Como era dia primeiro de janeiro e era feriado na Bolívia, vários carros passaram por nos fantasiados com flores e rosas. Mas muito pouco se comparado aos nossos feriados aqui no Brasil onde todo mundo viaja.
O Lago Titikaka é outra maravilha. Este situado a 3.820 m, sendo o lago navegável mais alto do mundo e o segundo maior em extensão na América do Sul, perdendo somente para Maracaibo na Venezuela. Passamos por várias comunidades. Certo momento, tivemos que descer para que nossa van e nos atravessássemos o lago em balsas. Mas ônibus em uma balsa e passageiros em outra.
Muito interessante ver sua van e suas mochilas sozinha numa balsa que mal cabe a van. Parece que vai afundar. Mas não afunda. Chegamos primeiro no outro lado e estava tendo festa na praça e troca de alcaide na aldeia. Um ritual interessante que parei para observar.
Seguimos viagem para Copacabana. Chegamos ao final da tarde. Procuramos um hotel e hospedamos no Hotel Utama. Muito bom. Talvez o melhor da viagem toda. Pelo menos o café da manha. De nosso quarto observávamos o titikaka imponente e calmo.
Saímos a noite para um passeio na cidade e comer algo, pois não tínhamos comido nada desde a manha. Jantamos um peixe chamado truta que alias comeríamos mais algumas vezes. Quando fui para o Hotel fiquei arrependido. Devia ter comido uma truta inteira. Afinal ainda senti que estava com fome. Mas paciência. Dormir, beber água e esquecer.
9º DIA
Acordamos cedo, tomamos o melhor desajuno da viagem e fomos acertar com a empresa de turismo para visitarmos a Ilha do Sol. A Ilha fica a duas horas de barco de Copacabana. Navegar no titikaka é uma experiência única. Sua imensidão mais parece um grande mar cercado por rochas enormes e verdejantes e muitos desenhos de pedras em suas costas. A Ilha tem muitas subidas e descidas, com vários índios vendendo artesanatos ao longo da trilha e também algumas crianças a adultos indígenas vestidos a caráter com alguma lhama cobrando dos turistas quando estes tiram fotos. Na Ilha existem vários hotéis e para aqueles que não querem continuar viagem, podem dormir por aqui.
Esta Ilha exerce um fascínio em todos, moradores e visitantes, pois segundo a lenda foi aqui que nasceram Manco Capac e Mama Ocllo, os dois primeiros incas que se tem noticias. Na lenda, o sol com piedade dos dois, pois estes viviam como animal, mandou um de seus filhos e uma de suas filhas para poderem viver como racionais e pudessem trabalhar a terra e nela viver. Daí porque e sagrado esse lugar para os bolivianos e nos também tratamos com o respeito que lhe é devido, muito embora, muitos nativos tenham perdido esse espírito do sagrado e estão comercializando tudo que lembra artesanato.
Subir na Ilha do Sol exige preparo físico. A caminhada é puxada, mas cada passo que se da e olha para baixo você vê uma paisagem diferente. Cansa muito, mas é gratificante. No cume da ilha tem um povoado chamado Yumani e algumas pousadas e bares. Descansamos e voltamos. Afinal não pretendíamos dormir por lá. Não havia nenhum atrativo especial também na ilha da lua, pois ela é menor e segundo a lenda foi dada a esposa.
Os incas tinham verdadeira adoração pelo sol, pois este lhes proporcionava a luz, o calor e a vida. A Lua sua esposa e as estrelas suas servidoras. Também adoravam a terra que era chamada de Pachamama (mãe terra); com as águas sagradas do Titikaka (puma de pedra) pois este lhes proporcionava e proporciona, peixe, remédio e purificação.
Voltamos para Copacabana por volta das treze horas. Já estávamos com a passagem comprada para Cusco. Passaríamos em Puno, ficaríamos algumas horas para que quem quisesse visitar as ilhas flutuantes e continuaríamos até Cusco, aonde chegaríamos na madrugada seguinte.
Dentro do ônibus o motorista nos deu um formulário para preencher e disse que em vinte minutos estaríamos atravessando a fronteira da Bolívia com o Peru e que deveríamos estar com o formulário preenchido e passaporte na mão. Deveríamos desembarcar do ônibus e atravessar a fronteira a pé, pegar o visto do lado peruano e embarcar do outro lado já em um outro ônibus que estava autorizado a trafegar pelo Peru.
No horário marcado, descemos do ônibus, fomos para uma fila e carimbamos nosso passaporte autorizando nossa entrada no Peru. Andamos coisa de cinqüenta metros e entramos no território peruano.
Muitos cambistas vieram ao nosso encontro querendo trocar dólar por soles. Troquei alguns dólares por soles, na base de três por um. Sentimos o baque. Estávamos acostumados a trocar o dólar na base de oito por um na Bolívia. Compramos água novamente. Alias toda hora comprávamos água. Indispensável como nossos dólares.
Chegamos a Puno por volta de dezesseis horas. A galera estava exausta e não quiseram ir as Ilhas flutuantes, muito maquiadas, coisa para turista mesmo. Optamos em conhecer Puno. Cidade bonita e muito movimentada. Almoçamos em uma rua em que tinha centenas de restaurantes. Todos muito bonitos.
Na rodoviária de Puno, foi nos oferecido hotel em Cusco, a galera achou arriscado, mas eu fui conversar com o cara.
A coisa acontece da seguinte forma: o ônibus de Puno, chega a Cusco por volta de quatro horas da manha. A galera quando chega não tem hotel para ficar e nem é hora para procurar um. Daí porque os motoristas deixam que durmam no ônibus até oito da manha e depois saem todos os mochileiros para procurar hotel. Achei a proposta do cara interessante: ele nos arranjaria um hotel em Cusco e quando chegássemos as quatro da manha teria alguém esperando com um táxi para levar-nos ao hotel e não pagaríamos nada para ficarmos de quatro da manha até meio dia, sendo que a diária só começaria ao meio dia. Hotel Pirwa foi o que escolhi, pois tinha lido sobre ele e fica muito perto da Praça das Armas em Cusco. O cara pegou o celular e depois disse que deveríamos pagar cinqüenta por cento da diária, assim estaria reservado. Fiquei desconfiado, adverti ele se fosse mentira voltaria a Puno só pra dar umas porradas nele e tal. Ele disse que não tinha erro. A galera que tava comigo não queria dar o adiantamento. Mas convenci-os e correndo um sério risco de levar um cano danado. Cada diária era dez dólares por pessoa. Como éramos cinco, ele exigiu vinte e cinco dólares de adiantamento. Paguei e peguei o recibo como se tivesse reservado no hotel Pirwa.
O Ônibus era confortável, com dois andares e tinha uma turma de brasileiros tocando a maior zoeira e volta e meia iam para o banheiro fumar. Dormi e só acordei em Cusco as quatro da manha. Desci e fui até a cerca do terminal, morrendo de medo de não ter ninguém esperando como o cara assegurou. Mas o alivio foi imediato. Lá estava um cara com a placa Juan Batista e um táxi do lado nos esperando. Delicia das delicias. Pegamos as mochilas que cada dia pesava mais e entramos no táxi e fomos para o hotel. Instalamos num quarto de casal com um excelente banheiro. Tomamos banho e fomos dormir. Dormi pensando nos colegas mochileiros que não acreditaram no cara e não acertaram o hotel e que àquela hora estavam dormindo todo quebrado no ônibus. “Bem, ainda tem gente honesta nesse mundo”, pensei. Dormi sorrindo.
10º DIA
Acordamos por volta de umas nove horas da manha. Fomos inspecionar o Hotel Pirwa. Amamos de cara. Lugar agradável. Recepcionistas amáveis e Tânia da empresa de turismo muito gente boa. Além disso, o hotel fica na Praça das Armas, a dez passos e entra na praça. Atrás do Mama África. Que localização!!!
Cusco é uma cidade encantadora. No idioma quíchua chamam-na de Qosqo. Com a chegada dos espanhóis, a cidade foi dominada e colonizada. Alguns afirmam que trezentos anos antes a cidade já era habitada. Fica claro que, mesmo com a lenda de que Manco Capac fundou Cusco, esta já era território dos povos pré-colombianos. Hoje é uma cidade cosmopolita, habitam por lá mais de 300 mil pessoas e recebe um numero enorme de turistas do mundo todo e em todos os meses do ano, sendo que os meses de junho, julho e agosto é o forte para o turismo europeu e os preços costumam ser mais salgados. Já em dezembro e janeiro é um turismo mais acentuado de latino-americanos. Com preços mais razoáveis.
Cusco fica a 3360 m de altitude. Para nos que chegamos via La Paz, não foi necessário nenhuma adaptação pois já tínhamos passado por altitudes maiores. Mas para a galera que vem de Lima, é necessário tomar alguns cuidados. Claro que a altitude não afeta todos igualmente. Tem pessoas que não sentem nada, mas outros passam muito mal.
Caminhar pelas ruas de Cusco é muito agradável. Povo simpático e seus monumentos históricos impressionantes. Sentar nos bancos da Plaza de Armas e observar o movimento das pessoas e tem que ser considerado como imperdível numa viagem dessas. Visitar La Catedral e La Campânia com seus santuários de ouro e prata já valeriam a visita a Cusco. Mas a cidade oferece muito mais. São inúmeras as ruínas e conventos que situam aos arredores de Cusco.
Passeamos o dia todo. No Hotel em que estávamos acertamos com a empresa de turismo existente nas suas dependências nossos passeios para o outro dia e nossa ida para Macchu Picchu.
Aqui vale um registro. Existem três formas de chegar a Macchu Picchu. De helicóptero (fora de questão) a pé, ou de trem.
Helicóptero não estava em nossos planos, pois alem de caro só atende a um publico específico que fica num hotel dentro do sítio de Macchu Picchu. A trilha você acerta com uma das dezenas de agencias que a patrocinam e caminha de 2 a 4 dias até chegar ao sítio.
De trem foi a opção que mais me agradou, pois é mais rápido e menos cansativo.
Todos os dias partem trens para Águas Calientes, de onde sobe para Macchu Picchu. Sempre de manha, por volta de 9 horas e também todos os dias chegam trem de Águas Calientes.
Algumas pessoas optam em pegar o trem em Cusco, se paga 65 dólares pela ida e volta até Águas Calientes. Você pode comprar somente a ida, e quando resolver em Águas Calientes, compra a volta, o preço é 34 dólares.
Uma alternativa é embarcar no trem na cidade de Ollantaytambo. Nesse percurso o trem parte às 20 horas e chega a Águas Calientes por volta de 22h30min. O custo da passagem é de 45 dólares, mas tem que comprar ida e volta, sendo que a volta deverá ser no trem que parte de Águas Calientes às 6 da manha do segundo dia que estiver na cidade. Ou seja, você devera pernoitar duas noites em Águas Calientes.
Optamos pela alternativa mais barata. Acertamos também um passeio pela cidade e arredores e incluindo Pisac e Ollantaytambo. No boleto diz que são 13 atrações entre ruínas, igrejas e museus. Atenção aqui. Não deixe para comprar o boleto na hora que estiver em Pisac, pois não aceitam dólares na compra do boleto e ai se não tiver Soles, vc tem que trocar com alguém ali por perto por um cambio muito desfavorável.
No hotel em que estávamos fomos autorizados a usar a cozinha. Compramos algumas coisas e fizemos um almoço de brasileiros, quer dizer, guardando as proporções de não ter certos ingredientes (arroz, vagem, abóbora, salada de tomate, cebola, carne e cerveja). Arrumamos tudo numa grande mesa e comemos demais. Todos os funcionários do hotel vieram comer com a gente. Adoraram.
A tarde ficamos fazendo o que de melhor tem em Cusco: andar e olhar as paisagens. Compramos uns frangos e acertamos fazer uma galinhada para levar no outro dia para nossa ida para Águas Calientes. Também compramos ovos e outras coisinhas para fazer um café da manha mais de casa. Esse desajuno dos peruanos é muito fraquinho. Tudo isso gastamos 40 soles e dividimos em 5 pessoas. Baratinho.
Fui com Bel a tarde visitar o Mama África, lugar muito lindo. Tomamos alguns drinks e cervejas (gelada). Tiramos algumas fotos e prometemos ao dono que a noite estaria por la.
A noite de Cusco é muito, muito agitada. A Praça que durante o dia é aquela calma com suas agencias e seus restaurantes, a noite se transforma em uma dezena de boates muito lindas. Todas muito bem decoradas e som para todos os gostos.
Em todas as boates, o primeiro drink é de graça. Ai já viu né? Toma um drink aqui, um ali, outro acolá, quando nota, esta tonto.
Na primeira boate que fomos tomamos algumas cervejas e tomamos os famosos drinks de cortesia. O Ronald estava impagável de engraçado. Ficou louco com as musicas e dançava musica de rua, rock, qualquer coisa. A galera que estava na boate delirava e morria de rir com os trejeitos dele. Com essa graça que ele fazia só dava caipirinha de graça para ele. Começamos todos a dançar. Animamos e logo apareceram umas mascaras e todos usamos. Uma farra.
Saímos de la em fomos para o Mama África. Estava intransitável. Tomamos alguma coisa por la e tentamos dançar. Não dava. Bel estava a mil por hora. Todos se divertiam muito. Saímos para procurar uma boate menos cheia. Nos corredores entre as boates, ficam rapazes e moças puxando as pessoas para que entrem em suas boates e prometendo todo tipo de cortesia. Pediram a Nilza para dançar um samba, pois viram que éramos brasileiros e ela rebolou um samba lá e eles adoraram e aplaudiram. Agarraram o Ronald e gritavam “brasileiro, vem, vem... toma um drink de graça”. Riamos muito, pois o Ronald deitou no chão e disse que só iria beber de graça se fosse carregado.
Imagina a cena. Você ser carregado para entrar numa boate e beber de graça!!!
Para resolver a situação dissemos que iríamos um pouco a cada lugar. E assim fizemos. Entravamos em uma boate, bebíamos algo e depois íamos à outra e assim sucessivamente. Conhecemos muita gente. Bel praticou o inglês dela com turistas australianos e nos praticamos nosso “enrrolol” em todas as línguas. Conversamos a noite inteira com gente de tudo quanto é pais. Acho que ninguém tava entendendo o outro. Mas quem liga?
Resolvemos ir embora. Já era tarde e tínhamos compromisso cedo, pois o ônibus que faria a tour com a gente sairia 8 horas do hotel.
Resolvemos antes de dormir fazer uma macarronada. Ficamos ali na cozinha do Hotel conversando, rindo e fazendo o rango. Bel e Clayton não agüentaram e desmaiaram. Eu a Nilza e o Ronald comemos a macarronada toda e pedimos ao porteiro que nos acordasse 6 horas, pois queríamos fazer a galinhada para levar no outro dia no passeio.
DICAS
- Sempre compre água
- Sempre tenha algo para comer comprada em mercados. Barra de cereais, chocolate, banana, etc.
- Se não tiver pressa e não quiser ir na trilha, escolha bem como ir de trem. AS duas alternativas têm suas vantagens e desvantagens.
- Por Ollantaytambo você terá que ir para a cidade que fica a uns 80 km de Cusco. Sair 8 da noite e voltar dois dias depois seis da manha. Perde com isso duas diárias. Mas tem tempo para ficar o dia todo em Macchu Picchu. Dormir e voltar no outro dia cedo para Cusco. É mais barata a passagem, mas se gasta com diárias.
- Indo por Cusco, você chega em Águas Calientes por volta de 10:30 e pega um bus que o leva ate Macchu Picchu. Tem de onze da manha até as 15 horas para ver todo o sítio. Esse tempo do tranqüilo para ver tudo. Nesse horário o sitio esta com muita gente. Volta a Cusco no mesmo dia e não paga diária para ficar em Águas Calientes.
- Procure ficar no Pirwa Hotel. Fica ao lado do Mama África, a dez passos da Plaza de Armas. Os funcionários são muito legais e, além disso, pode usar a cozinha para fazer pelo menos um miojo.
- Se quiser fazer a trilha. Não vi a necessidade de reservar, pois as agencias te puxam para oferecer o passeio. Vi pessoas fechando a trilha por 120 dólares e também algumas oferecendo por cinco vezes esses preços. Se tiver tempo, pois tem que esperar a autorização do órgão de turismo que controla o numero de pessoas que vão as trilhas, deixe para acertar por lá. Sai mais barato e mais confiável.
11º DIA
Acordamos cedo e o Ronald já estava na cozinha do Hotel fazendo a galinhada e Bel foi ajudá-lo. Fechamos nossa conta e deixamos nossas mochilas guardadas no hotel e levamos somente o necessário para um dia em Macchu Picchu e nossas maquinas. Pouco peso ai é fundamental.
O micro ônibus em que embarcamos estava cheio de turistas do mundo todo. Somente nos de brasileiros.
Nossa primeira parada foi em Pisac. Essa cidade fica a 30 km de Cusco. É uma cidade pequena com fundações incas, mas de estilo colonial espanhol. No centro da cidade tem uma feira indígena que vende todo tipo de artesanato. Também pode comprar alguns comes e bebe. Paramos nessa feira alguns minutos e depois seguimos caminho para as ruínas de Pisac. No morro Intihuatana existem muitas ruínas arqueológicas incas e seus terraços em forma de degraus que serviam para a agricultura.
Logo na entrada tem que mostrar o boleto turístico. Tenha o em mãos e não deixe para comprar na hora, pois só aceitam soles. A caminhada é longa e cansativa. Mas a paisagem é bela. Cemitérios, torres e templos fazem parte desse complexo inca. A vista do Vale onde cultivam sua agricultura é absolutamente lindo.
O tempo aqui é inconstante. Faz se um sol escaldante e em segundos chove e novamente faz se sol. Leve muita água. E se importar com a chuva fina, uma capa.
Saímos de Pisac e fomos para Ollantaytambo. Passamos por Calca que esta a 18 km de Pisac, todo o caminho é rodeado de morros e picos que nos meses de julho em diante ficam coberto de neve. Também nessa cidade ficam os banhos medicinais de Machacancha e Minasmoqo.
Também passamos, mas sem parar, em Yucay, onde abriga o Palácio del Inca Sayri Tupac II, filho de Manco Tupac. Construção de pedra e argila.
Mais adiante paramos em Urubamba. Esta cidade é conhecida como o coração do vale, pois esta situada aos pés das montanhas de picos nevados. Paramos para almoçar e alguns foram para uns restaurantes na rodovia e outros, como nos procuraram algum lugar para abrigar do sol.
Fomos para a praça. Sentamos em circulo e abrimos a panela com a galinhada. Compramos um refrigerante e comemos muito. Riamos muito de nossa farofagem... Mas a comida estava deliciosa e os turistas estrangeiros ficaram de olho gordo em nossa comida. Perto de onde estávamos farofando uma banda de musica estava passando tocando uma musica alegre. Achávamos que era alguma festa. Ledo engano. Estavam indo enterrar alguém. Muito sinistro. Mas impagável o mico nosso de farofar na Praça de Urubamba. Acho que esse é um feito inédito. Comer galinhada na praça central de Urubamba.
Saímos de Urubamba e fomos rumo a Ollantaytambo. Distancia pequena, mas demorada, pois são muitas curvas. Ollanta fica a 97 km de Cusco. Nessa região estão as ruínas incas mais bem preservadas depois de Macchu Picchu. Segundo nossa guia, esta era a região favorita dos incas, pois ali eles desenvolveram um complexo sistema agrícola, administrativo, social religioso e militar. As casas ainda conservam muito das construções e algumas são habitadas. Os terraços é o ponto alto da caminhada em Ollanta. Ficamos até o final da tarde nessas ruínas e andando pela cidade. Anda-se muito nesse circuito. Passamos o dia subindo e descendo escadas de pedras. Minhas pernas estão doendo. Mas é tudo muito belo.
Quando voltamos para o ônibus, despedimos de nossa guia e pegamos nossas coisas, pois iríamos ficar em Ollanta para pegar o trem para Águas Calientes, enquanto o ônibus voltaria para Cusco.
Do centro de Ollanta até a estação de trem caminhamos por alguns minutos e chegamos a estação. Eram seis e meia e não tinha nada para se fazer. Ficamos sentados na estação, pois fazia muito frio. Não tinha nada para comer na estação, mas lembramos que nossa galinhada ainda estava pelas metades. Sentamos e comemos o resto dela. O Ronald cortou uma garrafa de coca e colocamos água e folha de coca e fizemos um chá bem quente. O mergulhão da Nilza mais uma vez foi importante. Tomamos o melhor chá da viagem. Tiramos muitas fotos desse momento, pois foi tudo muito improvisado e saiu muito bom.
As oito em ponto o trem chegou. Azul, imponente por fora e muito fraco por dentro. As poltronas são viradas para os passageiros da frente e as pernas se tocam com as pessoas que estão sentadas na outra poltrona da frente. Mas, nada que desanimasse nossa empreitada.
Chegamos a Águas Calientes às 22h30min. Estava frio e a estação fica dentro da cidadezinha. Logo na saída do trem, dezenas de donos de hotéis com placas ofereciam seus serviços. Não prestamos muita atenção, pois nosso hotel estava reservado desde Cusco.
Ficamos no Hotel Bromélia. Localizado na praça da cidade. Muito fraco. 15 dólares a diária de casal. Deixamos as nossas mochilas no hotel, tomamos banho e saímos para conhecer a cidade.
Águas Calientes é somente uma cidade turística que vive em função dos turistas que vão para Macchu Picchu. Quase todas as casas são restaurantes ou algum serviço pra turismo. Não existem carros. Muitos restaurantes, hotéis e lojas de bugigangas. O rio Urubamba corta a cidade ao meio. Pouca coisa estava aberta depois das 23 horas e resolvemos voltar para o Hotel e dormir pois estávamos cansados.
12º
Acordamos muito cedo. Eu e Bel decidimos subir para o sítio arqueológico de Macchu Picchu de ônibus (6 dólares) o resto do pessoal disse que iria subir à pé. Uma subida íngreme, mas com escadas. Leva-se uma hora e meia para subir pelos atalhos. O ônibus leva 30 minutos.
Macchu Picchu é indescritível. Somente se consegue alcançar a plenitude de sua beleza observando-a.
Aqui me permitam transcrever alguns comentários e reportagens de jornais sobre a descoberta dessa cidade majestosa e de seus mistérios:
Peru: Hiram Bingham descobre Machu Picchu
No meio dos Andes peruanos, 110 quilômetros de Cusco. É o 24 de julho de 1911. O norte-americano Hiram Bingham, professor universitário de história e apaixonado pela arqueologia, avança com sua expedição pelo vale do Rio Urubamba.
Bingham está no auge, tudo que ele toca vira ouro. Esse verão é só dele. Em poucos meses, sua expedição descobre uma ruína incaica após da outra. Avançam a tal velocidade que quase não sobra o tempo suficiente para analisar e documentar cada nova ruína. Ou marcar a exata posição de cada uma no seu mapa. Bingham está sem paciência, ele não pode parar. Está na busca da mítica "última cidade dos incas". Deste jeito, algumas das ruínas achadas desaparecem de novo no mato denso depois de sua partida. Algumas ficam perdidas novamente por décadas antes de finalmente serem redescobertas.
Mas este dia promete o triunfo final. A descoberta da última cidade dos incas. Em 1537, cinco anos depois da conquista do império incaico pelos espanhóis, o inca Manco se levantou contra os invasores. Fundou, numa cidade chamada Vilcabamba, o novo império incaico. Por trinta e cinco anos, o novo império se defendeu contra os espanhois. Até, em 1572, uma expedição espanhol pus um fim, matando o último inca Tupac Amaru. Mas os espanhóis nunca acharam Vilcabamba. Agora, Bingham está possuído pela idéia de achar aquele último refúgio dos incas.
Até encontrar, nas margens do Rio Urubamba, o camponês Melchor Arteaga, que informa Bingham da existência de ruínas no topo do Cima Vieja, da "montanha velha", que, em quechua, é chamada de Machu Picchu. Bingham fica entusiasmadíssimo ao ouvir tais notícias, e logo escala, junto com o tradutor da expedição e guiado por Arteaga, a montanha. O resto da expedição espera no vale.
Bingham está fascinado pelo que acha no topo. Completamente iludido pela beleza do lugar, ele acredita ter achado não somente a última cidade dos incas, mas, ao mesmo tempo, o lugar onde o primeiro inca nasceu. Começo e fim do império incaico, tudo em um só lugar mágico a 2,400 metros acima do mar. Nenhum outro lugar habitado pelos homens, nenhuma outra cidade jamais fundada pela humanidade, oferece um espetáculo natural tão impressionante. A vista de 360 graus, a selva densa que cobre as montanhas dos Andes, cujos topos quase sempre estão cobertos de nuvens vindo da selva amazônica.
Entre 1912 e 1915, Bingham e sua equipe cavam ao redor das ruínas espalhadas pelo topo da Cima Vieja, num areal total de 500 x 800 metros. É quase uma lei de arqueologia de sempre deixar partes das ruínas intocadas, para que futuras gerações de arqueólogos pudessem explorá-las com novas technologias. Mas Bingham está nem aí.
Não dá para pará-lo. Enquanto, na remota Inglaterra, Sir Arthur Conan Doyle escreve seu romance científica "The Lost World" ("O mundo perdido"), que conta a história de cientista que encontram, num planalto no meio da floresta amazônica, espécies primórdios, Bingham entra cada vez mais profundo na convicção de ter encontrado "the lost city of the Incas" ("a cidade perdida dos incas"). Eis o título do seu livro que conta a história da descoberta de Machu Picchu.
Ele descobre, além de 220 peças de prata, cobre e bronze e 550 peças de cerâmica, 135 esqueletos humanos. Diz a lenda que 109 deles eram de mulheres. Foi assim que nasceu aquela história de que Machu Picchu tivesse sido o refúgio das "virgens do sol", das amantes do inca. Ainda hoje, os guias turísticas de Machu Picchu contam isso. Mas parece que tudo isso não passa de um simples erro. George Eaton, membro da equipe de Bingham, mediu os crânios dos esqueletos para chegar à tal conclusão. Mas, ao contrário dos europeus e norte-americanos, os crânios dos homens e mulheres andinos não apresentam muita diferença de tamanho. Novas pesquisas, feitas anos depois, que analisaram os pélvis dos esqueletos, chegaram à conclusão de que o número de homens foi quase o mesmo das mulheres. Mas, foi o mito que prevaleceu.
Afinal, qual foi a função de Machu Picchu? Por que os incas construíram uma cidade no topo da montanha? Provavelmente, a corte imperial se mudou para cá durante o inverno, quando a temperatura na 1,000 metros mais alta capital Cusco atingiu níveis muito baixos. Também, Machu Picchu com certeza fazia parte de um sistema de postos de alerta, para vigiar o vale do Urubamba e proteger Cusco.
Mas Machu Picchu nunca tem sido a última cidade dos incas, a mítica Vilcabamba, como acreditava Bingham. A verdadeira Vilcabamba foi descoberta perto de Espíritu Pampa, em 1964, pelo arqueólogo Gene Savoy. Ou, para ser mais exato, re-descoberta. Pois mais de cinqüenta anos antes de Savoy, uma outra expedição já tinha descoberta partes das ruínas. Só que, na época, o líder daquela expedição, um tal muito nervoso de nome Hiram Bingham, não tinha muita paciência para analisar melhor o lugar. Achou as ruínas decepcionadas demais para pertencerem à mítica Vilcabamba. Assim, Bingham nunca ficou sabendo que achou a verdadeira última cidade dos incas.