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Olá viajante!

Bora viajar?

Europa 24 dias - França / Rep.Tcheca(Praga/Cesky Krumlov) / Alemanha - COM FOTOS!!!

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Cinco anos foi mais ou menos o tempo que esperamos para conseguir realizar essa viagem. A Jô tinha sérios problemas para conseguir tirar 30 dias de férias e esse era um ponto inegociável nos nossos planos: a Europa merecia, e exigia, de 20 a 30 dias. Nesse entremeio fizemos muitas viagens, de no máximo dez dias, pelo Brasil e pela América do Sul. Mas a viagem pra Europa nunca saiu da nossa cabeça, pelo contrário, todo esse tempo apenas tornou-a ainda mais desejada. Então, eis que a oportunidade se fez carne; sem perder tempo, iniciamos os preparativos.

Decidimos viajar entre setembro e outubro; além de ser baixa temporada (o que, em algumas cidades, não fez tanta diferença, é turismo o ano todo), também é meia estação, nem quente, nem frio. De qualquer modo, mesmo sendo baixa temporada, vale a regra de que quanto antes as reservas forem feitas, menor será o preço.

Bom, então tínhamos três meses de preparação antes da data da viagem. Optamos por conhecer três regiões, de três países; a tentação de “entupir” nossa viagem visitando mais países foi posta de lado à medida que percebíamos que corríamos o risco de passar mais tempo se “transportando” pra lá e pra cá do que curtindo os lugares, que também não seriam devidamente “curtidos” já que sempre teríamos horários e prazos curtos a cumprir. E isso não é programa pra quem está de férias! Com dor no coração, tiramos Grã-Bretanha e Itália da viagem.

Olha, vou contar uma coisa, os três meses demoraram pra passar, viu! O lado bom é que a viagem fica bem planejada, dá tempo de estudar todas as opções e fazer as melhores escolhas. Nesse meio tempo não joguei futebol e fiquei até meio hipocondríaco, tomando alguns remédios preventivamente, pois não queria de maneira nenhuma pôr a viagem em risco com alguma perna quebrada, infecção, inflamação, ou qualquer outra coisa que o valha.

Sobre o itinerário, chegaríamos à Europa pela França, descendo em Toulouse. Dali, chegaríamos a Lavaur, onde ficaríamos hospedados na casa dos pais do Nicolas, um amigo francês já completamente abrasileirado depois de 13 anos de vida em terras tupiniquins. Abro aqui um parêntese para contar uma história que está diretamente ligada a essa viagem.

Eu sempre fui um cara que nunca fez muita questão de viajar, no máximo visitar parentes nos estados mais próximos. Aí então surge o Nicolas. Em nossas conversas etílicas, ele começou a me contar de todas as viagens que já havia feito, principalmente pela América do Sul. Isso, de alguma maneira, me despertou, e, aos poucos, fui percebendo que aquela era uma lacuna na minha vida que precisava ser preenchida. Então, comecei a viajar.

A escolha pela França começou pela vontade de conhecer Carcassone. Somou-se a isso a especial condição de podermos conhecer as cidades da região com dois “guias” de luxo: Marie e Nicolas (que estava lá visitando os pais), irmãos, nascidos e criados em Lavaur, na região dos Médios-Pirineus. Acabou sendo muito melhor do que a gente imaginava.

Chegamos a Toulouse às 17h00, mas já havíamos feito a imigração em Amsterdã. Lá, o oficial começou pedindo pra ver a passagem de volta e depois perguntou se tínhamos onde ficar (no que eu apresentei TODAS as reservas). Sem qualquer intenção, perguntou se éramos casados, ao que eu prontamente tirei da minha pastinha uma cópia da nossa certidão de casamento. Ele, estranhando, perguntou o porquê de eu ter levado tantos documentos. Eu respondi: “Eu espero ter comigo qualquer tipo de documento que você me peça”. Dando um sorriso e vendo que não conseguiria me “pegar” de maneira nenhuma, ele carimbou os passaportes e desejou-nos uma boa estadia.

No aeroporto de Toulouse estavam o Nicolas e a Marie nos esperando. Fomos direto para a casa dos pais deles, um lindo sítio na zona rural de Lavaur, uma pequena cidade com uma história quase milenar, sendo um dos berços do povo cátaro. Esse povo antigo foi dizimado cruelmente pela Igreja no século 13, na única cruzada da história direcionada contra um povo também cristão, quando optaram por viver um cristianismo primitivo em detrimento da opulência e sede de poder da Igreja.

Chegando no sítio dos Brien, fomos recebidos como reis: Nicolas informou que a sua mãe, Danielle, tinha feito um menu especial com pratos típicos do sul da França para os dias que passaríamos lá. E assim foi. Pratos dos mais saborosos (tanto para o paladar quanto para os olhos) desfilavam diante de nós, nos deixando em uma espécie de êxtase gastronômico. Entradas, saladas, sobremesas, queijos, carnes, frutos do mar, patês, cogumelos, tudo isso regado a muito vinho e pastis (uma forte bebida típica – 45ºGL - à base de anis. Por ser muito concentrada, você dilui com água gelada, quando a bebida, antes transparente, adquire um aspecto leitoso, como em uma experiência de laboratório de química). Começávamos a jantar às 8 e terminávamos quase 10 da noite. Sabedora do meu desejo de provar novas iguarias, Dona Danielle nos preparou um prato que acabou sendo o ponto alto de todas as surpresas gastronômicas que a viagem nos reservou: os famigerados escargots. “Colhidos” no próprio sítio de nossa anfitriã, esses moluscos gastrópodes terrestres, ou lesmas, ou caracóis, exigem um dia inteiro de preparo. Servidos na própria concha, temperados em uma mistura de manteiga, alho e cebolinha, eles são deliciosos! Nos fartamos e recomendamos a quem quer que queira um dia provar!

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Bom, acordamos no dia seguinte e seguimos para o nosso principal objetivo: Carcassone. Antes, paramos para comer outro prato típico francês, o Cassoulet, em Castelnaudary, que orgulhosamente exibe placas pelas ruas outorgando-lhe o título de Capital Nacional do Cassoulet, que é um cozido de feijão branco com carnes e lingüiças diversas. Terminado o delicioso rango, seguimos para Carcassone

 

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O tempo não estava dos melhores, mas isso contribuía para criar a atmosfera lúgubre e sinistra que se espera de uma cidade medieval. Na verdade, Carcassone é a cidade medieval mais bem preservada de toda a Europa. Toda ela é cercada por duas gigantescas muralhas, separadas por um fosso e salpicadas em toda a extensão da cidadela por torres pontiagudas. Uma terceira muralha cerca o castelo, já na parte interna da cidadela. Passando pelo portão principal você entra pelas ruas labirínticas e já se deslumbra com a paisagem urbana medieval da cidadela (é claro que é necessário abstrair o impacto visual negativo causado pela quantidade de lojinhas e comércios em geral, mas não é nada que estrague a experiência). Carcassone é um local bastante turístico, por isso as ruas centrais ficam “apinhocadas” de gente; mas também é um lugar enorme e as áreas próximas às muralhas externas são um convite a caminhadas praticamente solitárias, desvendando os pormenores da arquitetura medieval do lugar.

 

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As casas e prédios, todos de pedra, tem os mais variados formatos e se encaixam uns nos outros nas mais diferentes formas. O passeio pelo interior do castelo é pago, mas vale à pena porque se conhece a estrutura interna de um lugar construído para um único propósito: defesa. Na bilheteria, o atendente, vendo minha camisa do Brasil, agradeceu em português e sacudiu o punho, quase gritando: “Neymar . . . the best!!”.

Bom, voltando ao que interessa, dentro do castelo há também objetos medievais expostos, estátuas, lápides de túmulos antigos e afrescos seculares (sem restauração, do jeito que eu gosto). É possível ainda caminhar sobre as muralhas internas, entrando nas torres e tirando fotos incríveis da cidadela ao redor

 

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Por último, entramos na Basílica de Saint-Nazaire e Saint-Celse, construída no século 12. Essa igreja, assim como a maioria das igrejas das cidades medievais, fica “espremida” pelas demais construções ao redor, quase não havendo espaço entre suas paredes e as dos prédios que a circundam, compondo um visual arquitetônico fantástico! A única coisa que não conseguimos ver em Carcassone foi a cidadela iluminada à noite, que dizem ser deslumbrante. E por falar em Carcassone à noite, o Nicolas me contou que, quando era adolescente, ele passou uns dias na casa de um amigo que morava na Carcassone moderna. Sendo “local”, o cara conhecia uma maneira de entrar escondido no Castelo, à noite. Ele classificou a experiência como “inesquecivelmente assustadora”.

Fim do dia e voltamos a Lavaur, onde fomos recebidos pelo aroma inebriante do banquete que estava sendo preparado para aquela noite. E foi quando eu cometi minha primeira gafe em terras européias: na mesa, me servi do vinho antes do anfitrião, no caso o Sr. André, que apenas riu e, dando sequência à tradição, provou o vinho, aprovando-o e então o servindo aos seus convivas.

Que fique registrado que, em todos os passeios que fizemos, a Marie sempre foi a nossa motorista de todas as horas. Praticamente se abstendo dos prazeres do álcool, o que seria impossível para o Nicolas, ela nos levou a todos os lugares em que pretendíamos ir nos Médios-Pirineus. Sendo assim, no dia seguinte partimos cedinho na direção norte.

Cordes sur Ciel é praticamente uma aldeia medieval, construída no alto de uma colina, no século 13, como uma fortificação. A primeira coisa que nos chamou a atenção foi a quase ausência de turistas ( o que foi muito bom!!). Cordes nem de longe tem a fama de Carcassone, e praticamente só encontramos poucos turistas franceses pela cidade. E as ruas vazias ajudam a imaginação a rolar mais solta, a atmosfera secular do lugar se faz presente e você prazerosamente se entrega a ela. Dá pra imaginar cavalos subindo com seus cavaleiros pelos estreitos e íngremes caminhos de pedras, passando sob os muitos portais seculares em forma de arco que conduzem o visitante pelas ruelas da aldeia, subindo até o topo da colina. Tudo é muito bonito, bucólico, e ao mesmo tempo lúgubre, soturno, as lindas cores sombrias das coisas medievais. Vi algumas casinhas que só podiam ser de hobbits. Vi outras que pareciam assombradas. A dica é a mesma de Carcassone: perca-se pelo lugar, maior diversão não há.

 

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Depois de almoçarmos em Cordes (10 euros a refeição, comida gostosa, prato com visual de alta gastronomia, o que, surpreendentemente, não significou pouca comida.), seguimos em direção a Najac, outra cidade fora dos circuitos tradicionais de turismo. Lá, a grande atração são as ruínas de um castelo no alto da cidade, a Fortaleza Real de Najac, que começou a ser construída no século 10. Chegando lá, começamos a caminhada para subir até o castelo, atravessando toda a vila medieval, com suas construções de pedra escurecidas pelos séculos.

 

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Depois de pagarmos para entrar no castelo (4 euros), subimos por uma rampa que nos levou até uma pequena porta, única entrada para o interior da fortaleza. Por dentro, o castelo não tem teto ou divisões; sobraram as paredes enormes, duas torres, um calabouço (onde foram aprisionados cavaleiros templários, quando da decadência da Ordem religiosa) e restos de grandes escadarias ainda fixados às paredes. Sua destruição foi na verdade uma desconstrução, quando, em guerras futuras, Najac foi atacada e seus habitantes usaram as pedras do castelo para reconstruir partes da cidade. Em uma das torres você sobe por uma escada espiralada até o topo, onde se tem uma vista espetacular da cidade e das florestas ao redor. Quando você desce, na metade do caminho, totalmente escondida, existe uma portinhola, que leva você a uma espécie de corredor secreto, escondido dentro das paredes, que liga aquela torre à torre romana no lado oposto. Pô, andar por uma passagem secreta dentro de um castelo!! Realizei um sonho! Depois descemos até a vila e fomos à Igreja de São João, do século 13, quando os moradores de Najac foram obrigados a construí-la como uma punição por suas crenças cátaras.

 

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Bom, até esse momento as coisas estavam bastante fáceis para nós. Tínhamos “intérpretes” particulares, só passeávamos de carro, refeições dionisíacas todas as noites, e por aí vai. Mas no dia seguinte nós iríamos mais para o sul da França, só eu e a Jô, conhecer as cidades fundadas pelos romanos e suas construções bilenares (ops, essa palavra não existe, mas tá valendo, é o mesmo que milenar, só que o dobro). Próximo destino: Nîmes.

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Nîmes nem tanto, mas Carcassone já tá ficando bem popular. Todas são muito belas. Praga é realmente uma cidade muito bonita, ainda hei de conhecer ...

 

Carcassone eu já conhecia para falar a verdade, mas Nimes me surpreendeu, assim como a catedral de Albi.

 

Praga é única Marcos, não deixe de passar por lá na próxima vez que for à Europa!!! Por mim largava tudo aqui e iria virar musico de rua lá em Praga...

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Nem falem ... eu já ia para Praga em setembro, mas tive que adiar a viagem da Europa porque minha esposa não deve ter férias e as minhas podem mudar por uma possível mudança de emprego. É f............

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Puxa, Marcos, isso quando acontece é uma merda mesmo . . . Mas, você sabe, é só esperar . . . Com certeza essa oportunidade vai aparecer . .

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Muito bom o relato, meus parabéns!

Prestei atenção especialmente à parte que fala sobre Praga.

Já tinha visto ouros relatos, mas foram um pouco mais "expressos".

Gostei das partes das cervas, também é algo que me atrai muito.

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É isso aí Brunoww, o tour "cervejístico" em Praga é obrigatório. Dá pra passar o dia só degustando, tantas são as opções.

  • 1 mês depois...
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PARTE 4

 

Acordamos para o nosso terceiro dia em Praga com muito entusiasmo. Os dois dias anteriores nos havia deixado eufóricos e a expectativa era de que esse clima de deslumbramento não fosse acabar tão cedo. Compramos algumas coisas no supermercado em frente ao hotel, montamos uns sandubas (presunto Parma, queijos diversos, defumados, tudo muuuuito barato!) e saímos rumo ao Josefov, o bairro judeu de Praga.

 

O povo judeu está em Praga desde o século XII, quando fundaram uma comunidade próxima à Praça da Cidade Velha; no passado, chegaram a viver lá perto de 180 mil pessoas. Ao longo da história, os judeus de Praga sofreram diversos massacres e perseguições, sendo o último à época da Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas tiveram a intenção de criar no bairro um museu para uma raça extinta (o Terceiro Reich tinha a convicção de que conseguiria eliminar completamente todo o povo judeu da face da Terra). Nesse museu do horror seriam expostos objetos dos mais diversos tipos, frutos de pilhagens em casas judias e sinagogas de toda a Europa Central. Tais objetos simbolizariam a vida e os costumes de um povo que, executados os planos nazistas de extermínio, não mais existiria.

 

Do hotel ao Josefov dá uns dez minutos de caminhada. Passamos pela Praça Velha e aproveitei pra tirar uma foto dos pedaços de tender defumando no gira-grill nas barracas da praça.

 

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Depois, a gente seguiu por uma longa avenida até chegar ao bairro. Essa avenida é uma espécie de passarela por onde desfilam as lojas chiques européias, como Louis Vuitton, Prada, Gucci, e o escambau! Ou seja, passamos direto e de nariz empinado (afinal de contas não nos misturamos com esse tipo de gente!).

 

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Já no Josefov, compramos o ticket que dava direito a entrar em todas as sinagogas e ainda no cemitério. Os lugares são bem próximos uns dos outros, num raio de no máximo 2 quarteirões.

Começamos pela Velha Sinagoga, a mais antiga da Europa ainda em funcionamento, construída no século XIII. Logo na entrada os homens já recebem um kipá para cobrir a cabeça. Como eu já estava de boné, guardei como lembrança. Lá dentro a gente tem acesso ao salão principal, que é muito bem conservado, mas é proibido tirar fotos: como o espaço era pequeno e tinha muita gente olhando, achei melhor não arriscar, apesar da tentação. Depois seguimos para as outras sinagogas, onde objetos sacros, vestimentas ritualísticas e documentos estavam expostos e contavam um pouco dos mais de 800 anos de história do bairro e seus moradores. Mas nada podia nos ter preparado para o que vimos na sinagoga Pinkas.

Você entra e sobe até o 2º andar. Chegando lá, percebe que há vários salões interligados. Aproxima-se das paredes e vê que todas, do rodapé ao teto, estão completamente cobertas por palavras miúdas, quase ilegíveis, praticamente emendadas umas às outras. Ali estão os nomes dos quase 80.000 judeus da República Tcheca que foram assassinados sob o regime nazista. É quando você percebe o quão frio e superficial um número isolado pode ser. Falar em oitenta mil pessoas assassinadas pode não suscitar em quem ouve uma real percepção da tragédia, ainda mais se compararmos às milhões de mortes contabilizadas ao final da guerra, assustadores números de oito dígitos. Mas a visão dos oitenta mil nomes cobrindo as paredes daqueles salões atinge em cheio o visitante, deixando-o verdadeiramente consciente das reais e brutais dimensões do apocalipse nazista. Imaginem então o que provocaria no espírito a visão de oitenta mil corpos . . .

Depois de atravessar os salões há uma sala, pequena, mas que guarda entre suas paredes um registro sensível da inocência das crianças, sempre esquecidas em tempos de guerra. Ali estão expostos centenas de desenhos feitos pelos meninos e meninas judias do campo de concentração de Terezin, próximo à Praga, de onde algumas escaparam (242), e onde muitas morreram (aproximadamente 7.000). Do lúdico ao sombrio, do amor ao ódio, da esperança ao desespero, os desenhos refletem o que ia no espírito de cada uma daquelas crianças, cujas mentes inocentes sofriam, perturbadas, com a crueldade de uma guerra que, como todas as outras, não reconhecia sua condição infantil.

Depois dessa experiência bastante introspectiva, seguimos para o Antigo Cemitério Judaico. Esse cemitério, além de ser muito antigo (alguns estudiosos afirmam que ele data do século 10), traz outra característica que foge do lugar comum. Como já foi dito, ao longo da história os judeus de Praga sofreram várias espécies de perseguição, dentre elas a segregação e confinamento da população judaica no Josefov por séculos. Sendo assim, com o passar dos anos, o espaço no cemitério acabou se tornando insuficiente para atender a demanda. A saída encontrada foi ir “enterrando” o próprio cemitério à medida que acabava o espaço para novas sepulturas, cobrindo-o completamente e criando, assim, uma nova área para os sepultamentos. No total foram 12 camadas de terra sobrepostas umas às outras ao longo dos séculos. Como, segundo os preceitos judaicos, as lápides não podem ser removidas, as mais antigas, cujos túmulos haviam sido cobertos de terra, eram recolocadas sobre as novas camadas de solo. Essa é a razão pela qual as lápides ficam tão próximas umas das outras, quase encavaladas, desenhando um cenário caótico que é a marca registrada do cemitério e a razão por ele ser tão admirado e visitado. Eu achei tudo muito legal, tanto o visual quanto a própria história do lugar. Secretamente, tirei algumas fotos enquanto caminhava por entre as lápides. Só como curiosidade, esse cemitério é o mesmo que dá nome ao romance do escritor Umberto Eco, O Cemitério de Praga.

 

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Por último, fomos à Sinagoga Espanhola, de longe a que tinha o interior mais deslumbrante. Chegava a lembrar uma mesquita, tamanha a quantidade de detalhes nas pinturas de suas paredes (meu deus, tomara que não haja extremistas lendo esse texto!!). No alto, um lustre enorme com o formato da Estrela de Davi. Ali foi mais difícil tirar as fotos sem ser percebido, porque tinha uma tiazinha com cara de encrenqueira que não parava de “caçar” possíveis transgressores da regra. Mas eu dei um “balão” nela e sai clicando às cegas. As fotos não ficaram como eu queria, mas tá valendo . . .

 

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Na volta do Josefov, reparamos mais detalhadamente em algo que já nos havia chamado a atenção: não existem cachorros de rua em Praga. Não vimos nem unzinho sequer! E não é porque a carrocinha da prefeitura (nem sei se existe isso lá!) captura e leva pro abate. A verdade é que o povo tcheco é apaixonado por cães. Até sessão de cinema para os cachorros assistirem com seus donos existe por lá! Já li que todo tcheco que se preze tem um cachorro, e que se você se mudar pra lá e quiser ser bem recebido na sociedade praguense, o primeiro passo é ter um ou dois cachorros. Nas ruas, a todo instante você encontra um praguense passeando com seu cão/cães. Eles os levam a todos os lugares! Até em restaurante eu vi pets deitados ao pé das mesas! No metrô também vi muitos! Na verdade, onde os cães não podem entrar há placas sinalizando a proibição; se não tiver uma placa proibindo, é certeza que os donos vão entrar com seus animais. Não poder entrar é a exceção à regra.

Fomos então conhecer o Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa, onde está exposta a estatueta do Menino Jesus de Praga. Eu esperava uma baita igreja, com uma arquitetura impactante. Ledo engano. A igreja é bem simples por fora (ainda mais se comparada às outras igrejas e catedrais que conhecemos ao longo da viagem) e por dentro é uma igreja no estilo barroco, mas sem nada de especial. A estátua fica em um pequeno altar do lado direito da nave central, e não no altar principal. E estávamos admirando a obra de arte que é o altar quando algo chamou a atenção da Jô: uma imagem bastante familiar para nós brasileiros, mesmo os não religiosos. Ao lado do altar do Menino Jesus de Praga, uma estátua de Nossa Senhora de Aparecida, doada pelo embaixador do Brasil, nos deixou com um gostinho de saudade do nosso país. Não havia como não reparar, já que a cor negra de sua pele é inconfundível e diferente de qualquer outra estátua de Nossa Senhora pelo mundo. Depois entramos em uma sala, no fundo da igreja, onde estão expostas diversas roupinhas que são utilizadas para vestir a estatueta, costuradas por princesas e mulheres da alta nobreza ao longo dos últimos três séculos. Por último, compramos uma lembrança pra minha mãe em uma loja do lado de fora de igreja, já que a loja de dentro, a oficial, praticava um preço nada espiritual, um verdadeiro assalto.

 

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Antes de voltarmos para o hotel, fomos comer alguma coisa. Como estávamos próximos ao Castelo, segui uma dica postada no Mochileiros.com sobre um restaurante medieval que havia por ali. O nome do lugar é U SEDMI ŠVÁBŮ, ou, traduzindo, OS SETE SWABIANS, que é o nome de um conto dos Irmãos Grimm (a Swabia é uma região cultural e lingüística da Alemanha, e não uma região física, demarcada). Foi muito fácil achar a taverna (palavra que combina muito mais com a época medieval do que restaurante) e quando entramos deixamos o século 21 pra trás e retornamos à Idade Média.

O interior é propositadamente “decorado” para se ter a sensação de um ambiente medieval: armaduras de cavaleiros, iluminação à base de velas (com candelabros cobertos pela cera derretida de centenas delas, como esculturas de uma caverna), cabeças de animais selvagens penduradas pelas paredes, peles felpudas cobrindo os bancos, paredes enegrecidas pelo tempo, tudo ali criava uma atmosfera que remetia à época da História que inspirou a maioria dos contos de fantasia. Dei cordas à imaginação e me permiti viver a minha própria. Para tornar o momento ainda mais único, eis que surge do nada uma dançarina com quatro malabares em chamas, executando uma dança alucinada e cheia de contorcionismos. Não sei se tinha isso na época medieval, mas que foi legal, ah, isso foi.

 

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No dia seguinte acordaríamos bem cedo, para pegar o ônibus que nos levaria a Cesky Krumlov, uma pitoresca cidadezinha no coração da República Tcheca.

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Valeu gtfontana! Tô tentando correr com o relato pra não ficar muito tempo sem postar! Daqui a pouco completa um ano de viagem e eu ainda não terminei o relato.

  • 3 semanas depois...
  • 1 ano depois...
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parabens pelo relato

 

to colhendo algums infos de Praga.

 

Hilária a história do motorista x a folgada, rsrsrs O cara mandou bem.

 

Te pergunto, uma coisa, que horas vocês foram pra ponte Carlos pra pega-la vazia????

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