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Relato de viagem à Índia, Nepal, Sudeste e Sul da Ásia - Janeiro de 2013


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Pessoal, essa é a continuação da viagem da Turquia, postada aqui: uma-viagem-de-6-meses-relato-da-turquia-t77190.html#p797092

 

Mudei o tópico pois Índia e Sudeste Asiático tem outro foco.

 

Reitero que não consigo postar fotos aqui. Faço apenas uma colagem do texto do meu blog (abaixo de minha assinatura) e retiro as legendas e reformato o texto. Perdoe-me alguma falha. Os links do texto original também não são copiados e para mim, que estou no meio da viagem, ficaria inviável de recolocar todos.

 

Abraços!

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Dia 28 a 31– Índia: Chennai e Mahabalipuram

 

Após a longa viagem para a Índia, cheguei em Chennai. A cidade foi escolhida por ser a porta internacional do sul da Índia, ou mais especificamente, do Estado de Tamil Nadu, o primeiro objetivo a vivenciar. Uma região que, por estar mais distante das rotas de comércio da antiguidade e das batalhas no Norte com outros povos, sofreu menos influência de outras religiões e possui uma largo legado das civilizações primitivas indianas, que já professavam o hinduísmo a mais de 20 séculos a.C., o que a torna, documentalmente, a mais antiga religião ainda seguida no mundo.

 

Em Chennai, eu reservei pela internet um hotel perto do aeroporto, pois iria encontrar uma amiga logo na manhã seguinte, no aeroporto. A ideia seria apenas descansar um pouco da viagem. Porém, a experiência não foi boa. O local, a rua eram péssimos. Imagine a Índia maluca que você vê em filmes. Era assim. Com a dificuldade de encontrar um supermercado decente, de entrar na internet (no hotel, embora no booking.com mostrava a existência, estava com problemas), e de se fazer uma simples refeição com segurança. O barulho de buzinas ensurdecedor, mesmo dentro do quarto. Lá fora, ruas sem calçadas, disputa de espaços com pessoas (milhões), motos (milhares), tuktuks e carros (centenas) e vacas (dezenas). O alento foram as pessoas, sempre gentis na tentativa de ajudar, porém com um inglês bem difícil de entender. Enfim, esse primeiro dia foi um choque cultural enorme, que aliado ao cansaço da viagem, me deixou meio em transe. Precisava me recompor em outro local. E foi para esse local que fui com essa amiga no dia seguinte junto com um grupo de viagem: Mahabalipuram.

 

Mahabalipuram fica a cerca de 30km de Chennai, uma distância que a van demorou mais de uma hora para percorrer, em virtude da loucura do trânsito na saída da cidade. Procurei uma guesthouse e encontrei rapidamente uma praticamente de frente à praia, com banheiro privativo e ar condicionado: Seawaves. A cidade é muito bem servida de guest-houses, não há necessidade de reserva antecipada. Os preços variam, mas é fácil encontrar algo bem decente por 500 a 800 rúpias por noite (cerca de 10 a 16 dólares). Tenho certeza que exista abaixo disso, mas as condições são piores; vi algumas passeando pela cidade. A Seawaves cobrava 800, mas eu fechei duas noites por 600 cada. E fiquei uma terceira posteriormente. De fato, o preço da hospedagem não parece muito atrativo quando comparamos com outros locais ou quando vemos relatos de que a Índia é muito barata. Mas é no dia a dia que isso é percebido, principalmente na alimentação e preço das atrações turísticas. Só para exemplificar, esse post representa 4 dias completos na Índia. Nesse período, eu gastei 27 dólares por dia, incluindo tudo. Com direito a três refeições completas por dia em restaurantes (algumas com cerveja, que aqui é bem cara), entrada para todas as atrações da cidade, internet em lan-house e uma prática ayurvédica de Siro Dhara….. Impressionante, ainda se pensarmos que é uma cidade turística!

 

A cidade é sede de um dos maiores complexos de templos da Índia, erguidos em sua maioria na dinastia Pallava, que atingiu seu apogeu entre os séculos VIII a.C. e VII a.C., antes, portanto, do apogeu da civilização grega. Em nossos estudos de história escolares, omitem-se muito os estudos da civilizações orientais, o que nos deixa com uma compreensão parcial da verdadeira História Geral. Muitos desses templos em Mahabalipuram são monolíticos, esculpidos na própria rocha, e seus maiores representantes são os “Five Rathas”. O Shore Temple, esse não monolítico, é a mais antiga estrutura da cidade e guarda um templo no seu interior dedicado à Shiva. Fica em frente ao litoral e vem sofrendo deteriorações em virtude da erosão. Para ambos os templos, o custo de entrada é de 250 rúpias (ou 10 rúpias se você for indiano). Vale checar também o Museu das Esculturas. Mesmo que não aprecie, você não perderá muito: apenas 5 rúpias a entrada, ou o equivalente a 20 centavos de real. O farol, que ainda funciona, possui um vista privilegiada da região e cobra apenas 20 rúpias para permitir sua subida. O Parque arqueológico (entrada livre) guarda muitos templos, animais esculpidos, grandes painéis escavados em rocha e a curiosa Krishna´s Butterball. O ambiente animal é muito rico no parque e na Índia em geral. Vacas, cabras, corvos, cães, macacos, porcos convivem ao seu lado, constantemente. Só não vi gatos. Talvez não estejam aptos para sobreviver nesse ecossitema…

 

Afora os monumentos históricos, a cidade é muito amigável e aconchegante. Claro que não podemos comparar padrões indianos com europeus, por exemplo. O choque cultural ainda existe, mas aqui, o clima é infinitamente mais agradável da região que estava em Chennai, que desisti de voltar. Apenas a rua principal, distante uns 3 ou 4 quarteirões da área mais turística próximo à praia, tem algum purupupu de buzinas. O restante das ruas é uma gostosa tranquilidade, cheia de comércio de roupas, restaurantes, casas de práticas ayurvédicas e de esculturas em geral, principal produto feito pelos artesões da cidade. Diferentemente da Europa, onde a máxima é “quem converte não se diverte”, aqui é o contrário. Se converter o valor dos preços para reais, você quer levar tudo. Uma colega do grupo de viagem comprou dois vestidos por menos de 15 dólares e disse que não encontra algo parecido no Brasil por menos de 200 reais. Eu nem fui atrás de roupas, pois nem tinha como colocar na mochila. Quando estiver saindo da Índia, vamos ver… talvez faça uma troca de guarda-roupa. Nas lojas, os vendedores, apesar de chamar sua atenção, não são insistentes e podemos puxar conversas normalmente com eles sem ter a obrigação de comprar nada. Na Turquia eu já sentia algo negativo em entrar em uma loja e não comprar nada. Como fiquei três dias na cidade e passava pelo mesmo caminho todo dia, já era normal cumprimentar os vendedores com quem tinha conversado. Como primeira impressão, você acaba sentindo-se de casa, um sentimento bem diferente de forasteiro que costumamos sentir nos EUA e Europa. Vamos ver se é uma impressão da cidade ou do país como um todo.

 

O clima de praia ajuda a compor a atmosfera do local. Uma parte da praia é quase que exclusivamente dedicada aos botes de pesca, e pela manhã, muitos pescadores trançam e arrumam suas redes após a pesca realizada. Na área mais aberta (a área do Shore Temple divide as áreas), muitos indianos usam a praia como encontro, atividades religiosas e diversão para as crianças. Todos com roupas. A cidade é local de peregrinação para os hindus no país, estando sempre cheia de pessoas usando suas roupas típicas. Existe também um fluxo razoável de europeus, principalmente franceses. Alguns já estabeleceram até comércio na cidade, como restaurantes e livrarias. Como estamos na alta temporada, a cidade tinha todo dia um show de danças típicas próximo à área do Shore Temple, mas não gostei. Pareceu-me algo exclusivamente para atrair turistas e não algo que fariam por si só. Além do que, não gostei do tipo de dança e música. Mas durante o show, era obrigado a ouvir continuamente independente de onde estivesse, em função dos alto-falantes instalados.

 

Meu primeiro contato com a comida indiana foi positiva. Depois de um aula que recebi, fiquei esperto para escolher corretamente. Em Chennai vivi a primeira lição: nada de masala, um tempero apimentado que só. Comprei uma batata Lays em Chennai com masala e não consegui comer. Os pratos com paneer (queijo cottage) são muito gostosos para quem não deseja carne e a entrada raitha (iogurte com legumes) junto com naan ou chapatt (pães) sempre muito boa. Os diversos pratos de curry com arroz e a bebida lassis (iogurte com diversos sabores) completam os pratos principais experimentados na cidade. Nos intervalos das refeições, alguns salgados industrializados, chocolate e banana, barata e segura contra contaminações.

 

Em Mahabalipuram tive meu primeiro contato com o tratamento ayurvédico. Submeti-me a um Siro Dhara (700 a 1000 rúpias). Diz-se que alivia o stress e mais (sempre) uma porção de coisas, em virtude da aplicação contínua de óleo no 6º chacra Ajna (meio da testa), revitalizado o sistema nervoso. Nessa prática, você inicialmente recebe uma massagem na cabeça com óleo por uns 10 minutos e deita sobre uma cama de madeira. Após um tempo de preparação (5 min), onde seus olhos são cobertos e um tipo de tiara de pano é colocada na sua testa, você começa a receber continuamente um fluxo de óleo morno e aromatizado, movimentando-se pela sua testa, durante uma meia hora. Claro que o óleo vai todo para o cabelo e a pessoa que está na prática aproveita para usar esse óleo para massagear toda sua cabeça. Algumas vezes havia massagem na mão e pés também, mas de forma rápida. O ambiente para relaxamento é muito bom, e a pessoa que se desliga fácil amaria estar no meu lugar. Eu gostei da prática, mas consegui dar uma relaxada somente no final. Eu ainda vou aprender a esvaziar a mente de forma mais natural… Adquirir essa capacidade é hoje um dos maiores desafios da minha vida. Vou fazer de novo em outras oportunidades.

 

Próximo post: Pondcherry e Auroville

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Dia 32 a 33: Auroville e Pondcherry

 

Após um período de adaptação nesse singular país em Mahabalipuram, saí cedo da cidade em direção à Pondcherry. Como acordei meio tarde, peguei um tuk-tuk (rickshaw) para o local do ônibus, prevendo como seria minha primeira viagem de ônibus pela Índia. Impressionava-me algumas fotos que circulam na Internet e alguns que vi passeando ao nosso redor, caindo aos pedaços e amontoados de gente. Mas a viagem foi muito positiva. O ônibus (60 rúpias), embora não seja do nível que vi na Turquia ou mesmo do Brasil, era razoável, super enfeitado e bem cuidado (embora velho), interior todo estofado até o teto e estava incrivelmente vazio. A estrada, uma das melhores da Índia, não prejudicou a viagem, mas mesmo assim, em função do trânsito, demoramos 1 hora e meia para percorrer 96km.

 

Cheguei em Pondcherry por volta das 11:00hs, com a ajuda do GPS pude dispensar a horda de motoristas de tuk-tuks que me abordaram quando desci do ônibus e fui na região central procurar um local para ficar. Dispensei o primeiro e acertei o quarto privativo no segundo (Mother´s Guest House). Deixei rapidamente o mochilão e fui procurar um local para alugar uma bike (40 rúpias) para ir à Auroville. Havia motocicletas disponíveis, mas resolvi não arriscar. Primeiro pelo trânsito louco da Índia. Com a bike posso andar nos acostamentos por segurança. Segundo, por eu ter ouvido que as motocicletas são mal conservadas e podem pifar a qualquer momento (fotografei um gringo empurrando a sua de volta para a cidade). Terceiro, a distância era de apenas de 10km de pista plana, feita facilmente em meia hora e ajudando a manter um mínimo de tônus muscular na área inferior ao menos. Frustei-me apenas porque a buzina da minha bike não estava funcionando. Queria poder participar da sinfonia sem intervalo do trânsito indiano… Enfim, meio-dia já estava em Auroville.

 

Auroville é uma cidade criada em 1968 a partir de uma visão de “The Mother” a partir de sua convivência com Sri Aurobindo Ashram, que foi um líder espiritual na Índia no começo do século XX, pregando a yoga como modo de adquirir força espiritual e energia como guias divinos para a vida. Concebida para ser uma cidade universal, onde seus habitantes viveriam em paz e progressiva harmonia acima de qualquer nacionalidade, conta hoje com mais de 2000 habitantes de 45 diferentes nacionalidades. Auroville foi imaginada como uma cidade de cidadãos livres da opressão da religião, das posses materiais e das convenções morais e sociais; livres, porém sem usar essa liberdade como uma escravidão do ego para seus próprios desejos e ambições. Uma cidade onde a união seria celebrada e todos teriam descoberto sua vocação espiritual, em comunhão com o Divino. Enfim, um laboratório da evolução, segundo sua mentora. Quando recebi essas informações, pensei na hora na letra da música “Imagine” de John Lennon. Procurei algo na net e parece que há uma inspiração da canção pela cidade. Infelizmente, a net aqui na Índia é muito ruim e não tive tempo de assistir os vídeos que aparecem na procura. Vou analisar com calma mais tarde e depois modifico o post se necessário. Bem, e a cidade também divulga suas atividades realizadas no local, como o reflorestamento da área, uso de recursos renováveis de energia (parcial) e de seu trabalho social, como o emprego e a educação de pessoas que vivem em seus arredores. Tentei procurar algum dado do turn-over dos habitantes da cidade, mas não achei. É um dos melhores indicadores para saber se uma vida dedicada ao local pode trazer grandes benefícios espirituais ou não. :-)

 

Bem, cheguei no local e após almoço acompanhado de um xarope de flores para “abrir a consciência” e com um grupo de brasileiros, fui reservar o dia seguinte para poder entrar no Matrimandir, coração espiritual da cidade. Mas foi impossível: o próximo dia livre seria apenas a seis dias. Como implicava um alto custo (tempo), achei que não compensava. Bem, me contentei em observar a Matrimandir externamente, distante 1km, obrigatoriamente percorrido a pé, do centro turístico da cidade, que não pode ser acessada de fato para quem não possui um passe especial, dado apenas para convidados e voluntários que queiram ficar um tempo por lá. Voltei e aproveitei o resto da tarde com a bike. Conheci a Aurobeach, diretamente oposta à rodovia ECR (East Cost Road), já sabendo que não encontraria praia de areia em Pondcherry. Mas foi uma visita rápida, pois estava de tênis e com a bike, que não rodava na areia fofa de jeito nenhum. Voltei para a Guest House, após devolver a bike, após o supermercado, um tempinho em uma wi-fi lan-house (aqui na Índia arrumar uma hospedagem com internet está difícil) e uma janta. O dia seguinte estava previsto para conhecer Pondcherry e procurar como sairia daqui para Thanjore ou Trichy.

 

Pondcherry na verdade não tem muita coisa de especial. Foi mais um ponto de apoio para conhecer Auroville e o Matramandir. A cidade possui uma pequena área próxima da costa (cerca de 5 quarteirões para dentro da cidade por 15 quarteirões de extensão) que é a área original da cidade quando sob o domínio da França. A cidade já foi capital da Índia Francesa e pertenceu à França por 300 anos. E é justamente essa área que encontra-se a melhor parte da cidade, com ruas com calçadas, menos sujeira e melhor trânsito. Nessa área também está presente o Ashram de Sri Aurobindo, onde está seu túmulo e hoje é um centro de ensinamentos de ioga como provedora de energia espiritual. Nessa área encontra-se também uma linda catedral, com o sugestivo nome de Notre Dame des Anges, com vitrais multicoloridos, também herança da colonização francesa, assim como a bonita praça Bharati. Fora dessa pequena região, porém, a cidade mostra o lado indiano real da cidade, como vi em Chennai: ruas sujas, mal cheiro, sem calçamento (obrigando o pedestre a disputar espaço na rua com tudo o que aparece na sua frente) e trânsito mais do que caótico. Confesso que estou me concentrando para não me irritar com tanta buzina. Os indianos buzinam o tempo todo, mesmo sem motivo. Nesse ponto, a Índia é um inferno. Pensei em ter Mahabalipuram de volta…

 

Existem poucos templos hindus em Pondcherry e não são grandes. Aliás, me decepcionei como os indianos profaranam (será que a palavra correta é essa?…) seus próprios templos. Há comércio dentro dos templos e em seu exterior, permitiu-se a contrução de inúmeras barracas de ambulantes, tornando o visual feio, sujo, totalmente não convidativo de ser visitado. E na última visita que fiz ao templo de Manakulla Vinayagar roubaram meus chinelos (é necessário entrar descalço). Nem todos indianos são, digamos, espiritualizados para o bem… Voltei ao hotel descalço e comprei outro em seguida.

 

Após verificar os horários de possíveis trens e ônibus na rodoviária com muita dificuldade (não existe grades de horários, os destinos dos ônibus só são grafados em tamil, e é difícil encontrar uma pessoa responsável), voltei planejando passar no Jardim Botânico, para ver se encontraria algo de belo fora da área colonizada pela França. E o que deveria ser a entrada de um imponente Jardim Botânico, havia apenas portões fechados e muita sujeira em volta, cercada por ambulantes. Decepcionei-me como não consegui encontrar nada de bonito mantido pelos indianos na cidade. A cultura realmente é muito diferente, os conceitos de higiene (vi vários homens urinando na rua, tirando catarro do nariz com as mãos e depois voltando às suas atividades), a manutenção mínima das construções e o conceito de limpeza – é normal encontrar mulheres varrendo folhinhas das árvores do chão (encurvadas, com vassourinhas curtas), mas o lixo real mesmo, das ruas, ninguém parece se incomodar. O trânsito, nas ruas principais, impede o pedestre de andar de fato, pois não existem calçadas, forçando-nos a andar pela rua. E onde existem as poucas calçadas, os indianos as ocupam para estacionar suas motos, impedindo a nossa circulação. Bom, perdi totalmente a vontade de continuar andando e voltei para o hotel bem antes do final da tarde. Acho que a minha opinião de cidade grande na Índia já está em formação. Preciso de uma cidade pequena novamente…

 

Próximo post: Trichy e Thanjore.

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Acordei bem cedo em Pondcherry para o próximo destino, que ainda estava em aberto entre as duas cidades. Havia recebido informações conflitantes dos horários de ônibus e iria pegar o primeiro que aparecesse, para qualquer das duas cidades. Chegando no terminal, veio uma outra informação: Domingo não havia ônibus direto para nenhuma delas. Deveria pegar um ônibus para Viluppuram e de lá procurar esses destinos. O ônibus saiu pouco antes das 6 da manhã e levou uma hora até a cidade. Esses dois dias foram excelentes na convivência com os indianos. Já nesse ônibus, conheci um senhor que me ajudou a localizar, em Viluppuram, o ônibus para Trichy (assim que cheguei já estava saindo, e fiz minha escolha de destino na hora). Como cheguei em cima do horário peguei o ônibus lotado e me espremi por lá. E conheci uns indianos que gostavam de conversar. Rapidamente alguns se espremeram para dar uma beirada do banco para eu sentar. E ficamos batendo papo a viagem toda, de quase 4 horas de duração. A noção de espaço deles é diferente da nossa. Antes do meio do caminho, muitas pessoas desceram e o aperto diminuiu. Conheci mais um pouco da Índia, dicas de pontos para visitar, dos hábitos das pessoas e etc. E passei algo do Brasil também, que eles sempre são curiosos em saber. Um deles escreveu em tamil no meu caderno de notas todos os nomes das cidades que eu iria, para eu poder localizá-las na frente de cada ônibus. É estranho sentir-se um completo analfabeto frente a um alfabeto tão natural a eles. Para uma ideia de preços de ônibus, gastei 105 rúpias nessa manhã, em uma viagem (lenta) de 5 horas. Isso mesmo: 2 dólares!

 

Cheguei em Trichy (ou Tiruchirappalli) por volta das 11 da manhã. O terminal de ônibus fica em uma área central e ao lado existem bastante hotéis. Fiquei no primeiro que encontrei, e saí rapidamente para ir a Thanjavur (ou Thanjore) ver o famoso Templo Bridhadeeswara. O ônibus partia do mesmo terminal e novamente, por sorte, estava de saída. Aliás, a sorte estava do meu lado em todas as viagens de ônibus que fiz nesses dois dias (ou a frequência dos mesmos é muito alta): nunca esperei mais do que 3 minutos. Curti por alguns momentos a aventura de viajar ao lado do vão onde deveria existir a porta do ônibus (eles não possuem portas). Parece estranho, mas dá uma sensação de liberdade e de capacidade de auto-defesa contra todas as coisas que o mundo tenta nos proteger. Nossa sociedade está ficando cada vez mais chata com tanta proteção contra tudo e na Índia essa sensação ainda é possível de ser sentida. Como andar de moto sem capacete. Era bem mais gostoso antigamente. Em Trichy ainda tive que pegar outro ônibus para o terminal antigo, que fica próximo ao templo.

 

O templo Bridhadesswara foi construído no século XI no Reinado dos Cholas e é considerado um grande marco na evolução das construções do sul da Índia. Não é apenas um templo, e sim um grande complexo fortificado com muros e muito bem conservado. Guarda um santuário de granito dedicado ao deus Shiva e é cercado por corredores com pinturas e outras imagens de deuses. Foi o local na Índia onde, até agora, pude sentir o real esplendor de uma grande civilização do passado. O local é tombado como patrimônio da humanidade pela UNESCO. Contornando as muralhas do templo externamene, chegamos ao parque Siva Ganga e ao lado encontra-se a Schwartz Church, que, além de não ter nada de especial, permite o acúmulo de lixo ao seu redor, assim como em toda a área externa ao templo. Outro local visitado foi o Palácio Maratha, residência oficial dos governantes do século XVII ao XVIII. Esse local já não está muito bem conservado (suas paredes externas são painéis para colagens de cartazes, muito acúmulo de teias de aranhas nos tetos, morcegos, etc…) mas guarda em sua biblioteca (Saraswathi Mahal) alguns materiais interessantes, como muitos livros e mapas europeus e indicanos, além de escritos em folha de palma indianos, a maioria em sânscrito. Muita pinturas das cidades indianas, feitas por indianos no reinado do rei Saraboji, encontram-se disponíveis. Pena que as fotografias eram proibidas. Havia muitas de alta qualidade. Estátuas de bronze do período Chola são expostas na Art Gallery, ao lado da biblioteca. Voltei posteriormente para Trichy através das duas viagens de ônibus. As quatro viagens (ida e volta) custaram algo próximo a 40 rúpias. Em Trichy resolvi comer uma comida chinesa dessa vez. Mais apimentada que eu esperava, mas o Lassi, comprado em uma barraquinha, me salvou novamente. Não sei qual dos dois me deu uma indigestãozinha na manhã seguinte. Primeira experiência na Índia…

 

No dia seguinte a proposta era conhecer os dois principais templos de cidade e andar um pouco. Ficar próximo ao terminal de ônibus foi uma mão na roda. No mesmo local peguei o ônibus número 01 (esse foi fácil de identificar) que faz esse circuito. O ônibus pára em frente à bela Igreja de St. Joseph, construída em 1792. Atravessando a rua segui em direção ao Rockfort Temple (25 rúpias, incluindo taxa da câmera), na verdade um complexo de templos, e um deles (Arumilgu Uchipillayar) guarda a imagem do deus Vinayaka, está no topo do rochedo e oferece uma linda vista de 360º da cidade. Na escadaria que leva ao topo, parte esculpida na própria rocha, existem pequenos templos nas laterais onde muitos hindus estavam presentes, recebendo as dádivas de seus gurus. Em um ponto particular, algumas pinturas decoravam o local, e uma delas chamou-me a atenção por assemelhar-se muito com as pinturas católicas que retratam a vinda do messias. Ajuda a aceitar que todas as religiões parecem ter uma motivação comum: a redenção da vida. Formas e meios são suas variáveis. Nesse templo conheci uma indiana, Phrinca, que falou um pouco sobre as festas (a que está ocorrendo nesse período chama-se Pongal) e o motivo pela qual está cheia de turistas vindos de outra parte do país. Falou um pouco sobre o templo e o significado de tantos deuses para os indianos. Mas aula mesmo eu recebi no templo a seguir, com um líbio-italiano radicado na Índia há 30 anos. Dentro do templo Sri Ranganathaswamy, após me interpelar que eu estava entrando em um local exclusivo para hindus, passou mais de meia hora explicando muitas coisas sobre o hinduísmo, seu verdadeiro significado e que não está presente na maioria dos indianos com seu típico materialismo (percebi isso na conversa com os indianos no dia anterior, quando me perguntaram minha renda, que tipo de casa e carro eu tinha, etc…). E a conversa do Dindaial (era seu nome) até que estava agradável e deixei ele continuar. Falou muitas coisas com as quais concordo, como a forma com que o materialismo pode distorcer certos valores e impedir a pessoa de viver o que realmente importa na vida. E ainda, como muitas pessoas usam a religião como uma forma de arbitrar os bons valores a si próprio sem praticá-los no dia a dia. Sim, o Dindaial era bem esperto. Bem, e falando do templo em si, ele possui a mesma configuração

física do templo de Thanjavur, ou seja, é uma grande área, outrora fortificada, com 4 entradas colossais e muitos templos internos. Sua idade é estimada em mais de 2000 anos. Não hindus não podem entrar na área central do santuário dourado, mas podemos subir ao telhado do primeiro templo de forma a observar de longe o santuário dourado (10 rúpias para tal). O templo geral é considerado o mais antigo do deus Vishnu (um dos deuses da trindade hindu; Brahma e Shiva a completam) e possui a mais alta torre de entrada de um templo do mundo (Raja Gopuram, com 60 metros). E como sempre, os indianos usam o templo como um local de comércio, social e comunitário da forma que bem entendem (não, não é uma crítica, mas é estranho). Comento pois nesse último, um deles levou até um elefante para dentro do templo para “abençoar” as pessoas em trocas de moedas... Ambos os templos de Trichy ficam a mais de 5km da cidade e gastei 16 rúpias em três ônibus para ir e voltar.

 

Voltando à cidade, após um pequeno descanso no hotel, jantei uma comida indiana para os indianos, não para turistas, num restaurante próximo ao hotel. Era um restaurante simples e sem estrangeiros, apenas moradores locais. O valor do almoço denunciava seus clientes (de 40 a 60 rúpias a refeição). Os indianos comiam a comida com a mão, sobre uma folha de bananeira, que por alguns, era “lavada” com a água do copo que sempre vem antes da refeição. Eu estava me preparando para fazer o mesmo e experienciar isso, mas a minha comida vegetariana (paneer, o queijo cottage deles) veio em uma bandeja num potinho em cima da folha de bananeira, com uma colherzinha. Acho que o garçom percebeu que eu estava olhando muito as pessoas e trouxe-me algo mais tradicional. Mas ok, terei tempo de fazer novamente e pedir antecipadamente para vir da mesma forma da comida para os indianos. Ora, quem não pega a coxa de frango e faz o mesmo no Brasil rs?

 

Próximo post: Madurai

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Na manhã do 36º dia saí do hotel em Trichy e fui à rodoviária para pegar um ônibus a Madurai. Mantendo a tradição nas viagens de ônibus da Índia, assim que cheguei tinha um veículo de saída. E vazio. Consegui um lugar logo na frente para percorrer visualmente a estrada, coloquei o fone de ouvido e me embalei ao som do rock Brasil da segunda metade dos anos oitenta. Nunca mais tivemos tantas boas bandas em um curto período de tempo. Tínhamos que contar o dinheiro para decidir em qual LP investir entre tantas opções. Uma pena que novas tendências da música brasileira ocorreram em detrimento ao rock nacional. Nesse ponto, precisamos resgatar o passado, não há outro jeito... E foi uma viagem de 3 horas tranquilíssima, embora a velocidade média não ultrapasse 50km/h. Lenta, novamente.

 

Chegando em Madurai, precisei pegar um outro ônibus para a estação Periyar, mais central e próxima ao Templo Meenakshi, principal atração turística da cidade e local que abriga vários hotéis. No primeiro que chequei eu não gostei do quarto, mas acertei duas noites na minha segunda visita. Deixei as coisas no hotel e fui procurar como eu iria sair da cidade em direção ao próximo destino, Kochi. Eu decidi fazer uma mudança no meu planejamento original em função do tempo e logística disponível. Após Madurai eu tinha me planejado ir ao Parque de Periyar, onde poderíamos estar em contato com animais. Acredito que seja algo como era o Simba Safari em SP, através de comentários que vi na internet. Porém, o transporte para lá é meio complicado e no fundo, não me animei em gastar meu tempo na Índia com isso. Outro destino seria Kumarakon, onde também o transporte era mais difícil (duas conexões) e que seria apenas um local de relaxamento, nas backwaters de Kerala. Porém, li sobre a cidade de Kochi e me pareceu um local legal para conhecer. E se eu animar, por lá posso fazer um passeio para as backwaters também. Assim, ao invés de ficar apenas um dia em Kochi, resolvi ir direto para lá e ficar dois ou três. Para ir a Kochi, não me aventurei a ir com o transporte público. Seria muito desgastante (20 horas de viagem em ônibs muito ruins). Fui em uma companhia privada para ver como seria. Pelo que o agente me falou e fotos que vi, a viagem duraria 11 horas e o ônibus possui ar-condicionado, bancos reclináveis na parte de baixo e camas reais na parte de cima. Peguei o melhor pacote com a cama. O valor ficou 5 vezes mais caro do que ficaria com transporte público, mas mesmo assim, nem se compara com os preços brasileiros: 600 rúpias, ou cerca de 24 reais. No próximo post comento como foi essa viagem.

 

Bom, acertada a saída, andei um pouco pela cidade e próximo ao templo Meenakshi. A cidade de Madurai, uma das cidades mais antigas habitadas de forma continuada no mundo (há evidências históricas desde o século 3 a.C.), cresceu ao redor do antigo templo, e é uma das maiores fontes de peregrinação do povo Tamil, com mais de 25000 visitantes por dia aos finais de semana. De fato, a cidade estava cheia de peregrinos. A presente estrutura do templo foi construída no século XVII e compreende quatro entradas principais, relacionadas aos pontos cardeais com torres (gopurams) de até 52m de altura, que são um show à parte em função de todos os detalhes que a compõe, com a representação dos milhares de deuses e seus avatares. O templo é riquíssimo em esculturas, principalmente no Museu de Arte dentro do complexo, tetos ricamente decorados e colunas bem preservadas. Os grandes templos são uma grande oportunidade para conhecer mais a fundo a cultura religiosa dos tamilenses, com suas orações e manifestações frente às esculturas, frente uns aos outros e frente também aos visitantes. Visita imperdível para quem vai ao sul da Índia. O visitante pode comprar um ingresso “full” para uso da câmara fotográfica e entrada ao Museu interno por 100 rúpias, mais a gorjeta deixada no local de guarda dos calçados. O quadrilátero que cerca o complexo do templo é um calçadão dedicado aos pedestres e assim, um local agradável para se caminhar, longe do infernal trânsito indiano. Estava com a camisa do Brasil nesse dia e ela sempre chama a atenção. Vários indianos vieram conversar comigo, perguntavam algo a alguns até pediam foto. Passei um bom tempo nessas conversas, observações do cotidiano e perplexo como as culturas de um povo podem ser tão diferentes do outro.

 

Outro ponto que vale a visita em Madurai é o complexo do Palácio de Thirumalai Nayak, que originalmente era quatro vezes maior do que a construção remanescente, e data do século XVII. A estrutura é imponente, bonita, mas, embora estruturalmente esteja bem conservada, a manutenção visual é muito falha. As belas colunas do monumento estão todas riscadas, existe muita sujeira nos tetos e a área interna do museu possui armários que deveriam proteger as peças (pinturas antigas, objetos do período neolítico, esculturas e manuscritos) estavam abertos, possibilitando a qualquer um tocar ou mesmo levar as peças. Existem armários inclusive aberto e sem peças. E durante toda minha visita, não havia nenhum segurança, desde a entrada até a saída. Passei a andar pela cidade posteriormente, para conhecê-la e indiretamente, um local para comer e depois fazer algumas compras de supermercado. Andei por várias avenidas principais e concêntricas à área central do templo, por mais de duas horas. Não encontrei nada minimamente decente. E olhe que Madurai é uma cidade grande, de mais de um milhão de habitantes. A impressão positiva anterior, da beleza do templo, das pessoas amáveis que vinham conversar contigo, acabou sendo arranhada, pois fiquei realmente estupefato como que em uma cidade desse porte, na região central, turística, não encontrava nenhum lugar agradável para ficar e comer tranquilamente. A Índia realmente impressiona de ambos os lados. No final acabei encontrando uma lanchonete estilo McDonald´s, até com Wifi, mas foi um oásis no meio do deserto. E voltei para lá no dia seguinte.

 

No último dia, meu ônibus só partia às 20:30hs e fiz o check-out no hotel ao meio-dia. Deixei o mochilão por lá e após uma passadinha na lanhouse fui ao cinema. Assisti um filme em tamil que misturou “O Vingador do Futuro”, “A Rede” e “O Show de Truman”, com muitas danças e musicais no meio. O herói indiano (aquele que bate em todo mundo e nunca é alvejado por uma saraivada de tiros) do filme é colocado na pele de outra pessoa em uma grande armação e seus passos são acompanhados visualmente em tempo real. Meio hilário, apesar de eu não ter entendido praticamente nada dos diálogos. O filme de ação, meio hollywoodiano, abusou de lindos cenários, grandes edifícios, avenidas largas e praças limpas. Talvez por isso não houve nenhuma cena externa gravada na Índia, apenas em Bangcok e Kuala Lumpur. Eles não devem ter encontrado tais paisagens por aqui ainda, assim como eu… A sala de cinema até que era boa, mas para ir ao banheiro os homens precisavam sair fora da sala e pegar um sol. Idem para comprar algo para beber ou comer. A sala estava cheia em plena quinta-feira à tarde (aliás, é difícil encontrar algo na Índia que não esteja cheio) e mais de 90% eram homens. Nas ruas a proporção cai um pouco, para cerca de 80%…

 

Próximo post: Kochi

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  • 2 semanas depois...
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A cidade de Kochi desde seus primórdios teve a vocação para o comércio portuário, o que atraiu, além dos habitantes da região, sírios cristãos e judeus nos séculos passados. Com a colonização européia, iniciada na Índia através de seu porto pelos portugueses, foi palco de batalha entre esses, holandeses e ingleses. Vestígios da colonização européia são vistos pela cidade, pricipalmente na área do Forte Kochi e arredores, que hoje é a área turística da cidade e foi o local onde limitei minha visita. Minhas impressões da cidade limitam-se à essa região. Viajei em um ônibos noturno privado a Kochi, partindo de Madurai. A utilização desse meio de transporte entre cidades na Índia mostrou-se uma opção interessante. Apesar de bem mais caro (5 vezes o valor de uma passagem nos ônibus normais), é barato para os padrões brasileiros (24 reais), vai bem mais rápido e não possui conexões. Porém, o que mais chama a atenção é o conforto. O valor que paguei é de uma cama literalmente, dentro do ônibus acima das poltronas, que também são confortáveis. Sim, viajar de ônibus na Índia pode ser uma experiência positiva. Na cidade fiquei pela primeira vez em um hostel na Índia, que durante a minha estadia foi frequentado apenas por estrangeiros, na maioria europeus. Recomendo o local para futuros viajantes, pois é confortável, possui ar condicionado e um padrão de limpeza mais ocidental, além de possuir wi-fi, embora não de grande qualidade. E com papel higiênico nos banheiros! Vê-se que o objetivo do público são mesmo turistas ocidentais (Hostel Verdanta Wake-up).

 

Historicamente, a cidade guarda as primeiras igrejas construídas, pelos portugueses, na Ásia (1502 e 1503). Existem dezenas em toda a cidade, fazendo com que Kochi seja umas das cidades da Índia com maior proporção de cristãos. Em 1568 os portugueses construíram um palácio como presente para o marajá local, em trocas de permissões e favores. Após a vitória holandesa, o palácio foi denominado Dutch Palace e hoje abriga um museu, com muitas pinturas hindus nas paredes, carruagens de mão, armas e outras peças. Não é algo tão vistoso, mas a entrada é de apenas 5 rúpias. Próximo ao local concentram-se muitos bazares de temperos e especiarias. A influência holandesa é sentida nos diversos bangalôs e construções da cidade, alguns hojes restaurados e transformados em hotéis. A sinagoga foi construída pelos judeus em 1568 e a área foi palco de refugiados durante as cruzadas, abrigando uma grande comunidade antes da criação do Estado de Israel. Seu entorno possui hoje um grande comércio de joias e antiguidades.

 

A área de Fort Kochi lembrou um pouco a pequena área de influência francesa em Pondcherry, porém, possui todos os problemas vistos na Índia até então, mas com algumas atenuações. Existem bem menos lixos nas ruas, menos trânsito e mais ruas arborizadas, além das construções melhor cuidadas e algumas casas muito bonitas. Porém, destoa a poluição da praia e detalhes pouco cuidados como as praças centrais. Se andarmos fora do pequeno centro, voltamos a nos deparar com a visão de uma cidade indiana. A península é cortada, inclusive, por um córrego muito poluído com mal cheiro, que deságua na praia sem nenhum tratamento. A rua principal da cidade e com construções agradáveis é a Princess Street, onde existem bons restaurantes e deliciosos sorvetes. Porém isso é um pequeno oásis na cidade, já que a rua engloba apenas um quarteirão.

 

Esses dois dias na cidade foram dias de descanso (no sábado acordei às 10 da manhã) em função da viagem noturna anterior e de uma rotina pesada que me espera em Delhi a seguir. Comprei a passagem aérea via web ainda quando estava em Madurai pela empresa Spicejet (190 dólares). Vamos ver como que é voar em uma companhia low-cost indiana!

 

Próximo post: Nova Delhi e Agra.

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O vôo de Kochi a Nova Delhi fez uma escala em Hyderabad, e foi pontual. A companhia Spicejet é uma companhia low-cost na qual até a água é paga. E a passagem nem foi tão barata assim (US$ 185) para um vôo de 4 horas. Cheguei no aeroporto e aguardei um grupo de turistas brasileiros. Participaríamos juntos de dois passeios nos próximos dois dias: a viagem a Agra e um city-tour na cidade de Nova Delhi. Eu não havia reservado hotel, mas sabia que existe uma grande área na cidade com uma enorme concentração de hotéis com preços razoáveis, boa infra-estrutura e próximo à Estação Ferroviária, a qual eu iria utilizá-la para continuar a viagem dentro de poucos dias. Fiquei no hotel Chanakya, com uma boa estrutura geral, mas em um quarto que deixava a desejar um pouco na conservação do mobiliário e paredes. Porém, o hotel tinha um bom sinal de wi-fi mesmo no quarto e isso pesou na escolha. Não ter que procurar lan-house já é um grande avanço nos hotéis low-cost da Índia.

 

No dia seguinte, encontrei o grupo no hotel em que se hospedaram e fomos juntos de trem a Agra, onde um ônibus nos esperava para visitarmos o Taj Mahal e o Agra Fort. Agra foi a capital do império islâmico Mughal durante mais de 100 anos nos séculos XVI e XVII. Grandes construções foram realizadas no período, como o Agra fort (construído por Akbar) e o Taj Mahal (por Shah Jehan). O Taj Mahal foi algo que impressionou pelos detalhes da construção e devido estar permeado por uma grande história de amor, pois é um mausoléu feito em função da morte da esposa favorita do imperador Shah Jehan, Mumtaz Mahal. Feito de mármore branco, com diversas pedras, outrora preciosas, incrustadas no mármore através de uma técnica específica na época (nada foi pintado), é um dos monumentos mais bem conservados na Índia, apesar do Estado não conseguir evitar todas as inscrições de vândalos no mármore. Além do lindo trabalho de inscrustação, os detalhes esculpidos no mármore nas paredes e guias são fantásticos. O mausoléu demorou quase 20 anos para ser construído no início do século XVII e a ideia posterior de Shah Jehan era a construção de outro mausoléu idêntico em mármore preto em frente ao Taj Mahal, para abrigar o seu corpo após sua morte. Seu plano, em função das condições financeiras do império foi abortado pelo seu filho, Aurangzeb. Há historiadores inclusive que associam a construção do Taj Mahal com a decadência do império Mughal, em função dos recursos que o mesmo drenou das finanças do império.

 

O outro monumento visitado em Agra foi o Agra Fort, construído em arenito vermelho no século XVI pelo imperador Akbar. O que hoje restou para visitação foi uma pequena parte do forte, que em seus tempos áureos, podia abrigar mais de 3000 moradores dentro de suas muralhas. O forte contém muitas alas, incluindo a moradia do imperador, de onde ele podia observar a construção do Taj Mahal ao fundo e os quartos de suas esposas. Em alguns locais podem ser observados influências hindus nas construções, porém sem a representação de imagens de pessoas ou animais, proibidas na cultura mulçumana. O ingresso para o Taj Mahal e Fort Agra, comprados em conjunto, custou 1000 rúpias, o mais alto preço pago para uma visita a um monumento na Índia. Após a visita, retornamos a Nova Delhi e presenciamos o primeiro grave acidente na Índia: um caminhão virou ao atropelar e matar alguns bois e machucou seriamente o motorista. Aconteceu poucos metros na frente e ficamos parados no trânsito observando o demorado socorro durante meia hora.

 

No dia seguinte, fiz o city tour em Delhi com o grupo. A cidade de Nova Delhi, incrustada praticamente dentro da grande Delhi é a capital do país e foi construida pelos ingleses entre o final do século XIX e início do século XX. Essa área abriga grandes avenidas, ligadas por um sistema de grandes rotatórias, e, cercada por alguns edifícios, mostra um pouco da influência ocidental na Índia, algo que eu ainda não tinha presenciado. Mas entre as avenidas, ou saindo da área central, a Índia volta a mostrar sua face, com ruas estreitas, cheia de gatos elétricos, sujas, comércio de rua e aquele trânsito infernal. Foi em um local assim que iniciamos a primeira visita do dia, a maior mesquita da Índia, a Jama Masjid. A entrada é cobrada apenas para quem vá usar câmera (300 rúpias). Como estávamos em um grupo, apenas uma câmera foi usada para cobrança. A mesquita não guarda tantas atrações e beleza, entretanto. Sua construção é um tanto diferente das grandes mesquitas que vi na Turquia: possui um grande pátio aberto e uma pequena área coberta, horizontal. Posteriormente, visitamos o Raj Ghat, um memorial onde foi cremado o corpo de Mahatma Gandhi. No momento, ocorria um ensaio realizado por militares para a comemoração do dia da independência da Índia (26 de janeiro). Muitos locais de interesse (Indian Gate, Red Fort) inclusive, não estavam acessíveis em virtude da proximidade desse feriado, guardados sob forte esquema de segurança para evitar atentados. Em seguida, visitamos o Gandhi Smriti, uma grande mansão onde Gandhi foi assassinado e hoje transformada em museu, mostrando toda sua história e guardando vários de seus instrumentos pessoais. O museu está muito bem conservado e possui uma nova área superior chamada por eles de multimídia, onde a tecnologia auxilia a transmissão das mensagens. A entrada é gratuita e a visita é altamente recomendada. Terminamos o city-tour no complexo Qutub (250 rúpias), onde o destaque é o minarete Qutub, com 72,5 metros de altura e na época de sua construção (1193-1368), era a estrutura mais alta do mundo. O complexo possui muitas tumbas, a primeira mesquita construída em Delhi (parcialmente em ruínas), a base de uma segunda torre que deveria ser construída mas foi interrompida após a morte de Ala-ud-din-Khilji e o consequente esfacelamento do império. Abrigava uma grande comunidade de esquilos também.

 

No terceiro dia útil em Nova Delhi, separei-me do grupo e fui andar pela cidade, pela área construída pelos ingleses, ou seja, a parte mais nobre e central da região. Entre as grandes avenidas de mão dupla, várias rotatórias e muitas dificuldades aos pedestres, não surgiam muitas coisas interessantes para ver e nem para desfrutar. Entretanto, o cenário da cidade era muito mais bonito do que eu vinha presenciando até então no país. Há bem menos lixo (embora ainda mais do que vemos no Brasil) e as avenidas são arborizadas. Porém, continua não sendo uma cidade com alguns padrões ocidentais que sinto muita falta aqui na Índia. Não há praças na região central. As pessoas sentam para descansar no chão das pequenas ilhas verdes das rotatórias. Continuo sem encontrar um supermercado e uma boa padaria para comer algo com gosto. Quem substitui de alguma forma essa falta, são algumas redes de fast-food como Mcdonalds, Pizza Hut e KFC, situadas próximas à Cornaught Place. Ao menos, um alento em relação às outras cidades que visitei. Nosso guia havia comentado que existem shopping-centers mais para fora da cidade, porém, eu não iria lá apenas para isso. Visitei ainda o Jantar Mantar, um dos cinco observatórios astronômicos construídos sob o reinado de Sawai Jai Singh no século XVIII, com enormes instrumentos para observação dos astros e medição de suas posições (100 rúpias). Os indianos, que pagam (ou deveriam pagar) apenas 10 rúpias, usam a área como um parque de lazer, talvez pela ausência desses locais na cidade. Durante a tarde passei por toda a área governamental da cidade, com mansões e palácios imensos que abrigam estruturas burocráticas do governo, drenando a riqueza do país e devolvendo apenas uma pequena parte, após os montantes perdidos na ineficiência e corrupção. Toda essa região estava sob forte esquema de segurança, inclusive com várias barricadas montadas para evitar ataques no dia da Independência.

 

Posteriormente, após haver checado que a situação de reservas de trens na Índia estava muito complicada em função dos festivais (um me afetava diretamente: o Kumbh Mela em Haridwar) acertei antecipadamente todo o roteiro de trens nos meus últimos 13 dias na Índia. Contratei os serviços de uma agência de turismo, pois estava muito complicado montar todo o roteiro sozinho. Achei meio bagunçado a forma de compra dos tickets. O valor total do pacote ficou em 110 dólares, e calculei que deixei ao menos 40 dólares para a agência. Serão 5 trens (todos em classe AC, pois não me animei em pegar trens populares, três deles noturnos com minha bagagem desprotegida) para Haridwar (Rishikeshi), retorno à Delhi, ida a Khajuharo, posteriormente Varanasi e retorno à Delhi antes da viagem ao Nepal, comprada para 04 de fevereiro. A passagem está marcada para às 15:40hs e o trem chega em Delhi às 07:40hs. Vamos ver se não tenho nenhuma surpresa desagradável…

 

Próximo post: Rishikeshi e Haridwar.

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O trem 12017 partiria às 06:50hs da Estação de Nova Delhi. Cheguei meia hora mais cedo para não ter problemas de encontrar a plataforma correta. Na ida a Agra, havia percebido que a estação é imensa, porém naquela situação estávamos com o guia para nos mostrar o local correto. Agora era comigo mesmo. Porém, não houve complicações. Apesar de andar um tantinho, as plataformas são bem anunciadas. Para andar de trem na Índia, você, já com a passagem na mão, não precisa parar em nenhum lugar e sim ir direto ao trem, em seu vagão e assento corretos. Já havia visto na internet para evitar malandros no caminho que dizem que você precisa de boarding pass. Mas não vi nada do tipo. Talvez eles não estivesses acordado ainda. A viagem foi tranquila, e foi servido um razoável café da manhã, com pão, geleia, manteiga, leite e uns bolinhos salgados com batata e queijo. A primeira parte da viagem foi bem lenta em função da neblina que nessa época é normal na região de Nova Delhi. Em função da neblina, cheguei em Haridwar com uma hora de atraso e, como o primeiro destino seria Rishikeshi, fui direto à estação de ônibus para mais uma viagem de quase 1 hora. Durante o percurso, passamos por alguns diques artificiais do Rio Ganges, onde em um deles existia uma pequena central hidrelétrica e , em algumas travessias, as pontes cruzavam apenas um vale, praticamente seco, mas o indiano ao meu lado confirmou que na época chuvosa a água preenche todo aquele espaço vazio.

 

Rishikeshi fica bem no norte da Índia, localizada no pé de uma cordilheira próxima ao Himalaia, e é um dos portões de entrada para trekkings nas montanhas e outros esportes radicais. A cidade é margeada pelo Rio Ganges, que aqui ainda é limpo e ficou famosa pela visita dos Beatles a um de seus inúmeros Ashrams, centros espirituais de meditação e evolução espiritual que são geridos por gurus diversos. A cidade possui sua região central, bem estilo indiano, mas subindo a estrada 58 em direção às montanhas com uma linda vista do Ganges à sua direita, chega-se a um distrito chamado Tapovan no lado direito do rio (direção de seu fluxo), muito próximo à duas belas pontes pênsil: a Ram Julha e Laxman Jhula. É nessa região, que pode ser conhecida inteiramente a pé, que situa-se o principal ponto turístico, com uma ótima infraestrutura de comércio, restaurantes, inúmeros ashrams e agências de turismo que vendem todos tipos de esportes de aventura. Por incrível que pareça, aqui nesse distritinho dessa cidadezinha encontrei o melhor supermercado de toda Índia, com grande variedade de produtos importados que encontramos pelo mundo. Fiquei 4 noites no hotel Ganga Ambiance e ele não decepcionou. Foi um dos melhores que fiquei na Índia, boa equipe e wifi no quarto. Ajudou a tornar esses 4 dias um momento de saudável recuperação da energia que precisarei para a parte final da Índia, antes da ida ao Nepal.

 

Além do descanso em si e da atualização de várias leituras atrasadas que eu acumulava, decidi fazer aulas de ioga e meditação (90min – 150 rúpias) todos os dias no Ashram Anand Prakash. Afinal, a cidade é tida como capital mundial da ioga. O Ashram é um local muito agradável que acolhe turistas para pernoite também, mas a reserva para tal tem de ser feita com grande antecipação. Ficava a 5 min do meu hotel. As aulas tiveram um professor no 1º e 3º dia e outro no 2º e 4º dia e estiveram bem cheias, com média de 20 pessoas cada dia. O estilo foi bem diferente entre os professores. O primeiro usou muito mais sons para relaxamento e incluiu muito mais a meditação e cuidado com a respiração, bem zen mesmo. O segundo ministrou uma aula fisicamente mais puxada, com muitos alongamentos e propostas das posições clássicas de ioga, as quais algumas tive grande dificuldade de realizar. Mesmo com algum condicionamento a idade mostra suas caras… Mas foi muito bom. Faz-nos lembrar em quanta paz existe no silêncio, em quantos benefícios existem quando percebemos o nosso corpo. Nunca havia feito uma aula no Brasil e foi muito interessante conhecer como funciona justamente aqui, com professores indianos. Quanto à minha dificuldade de concentração… acho que estou melhor, mas tenho um grande caminho a percorrer ainda…

 

No terceiro dia fiz um rafting no Rio Ganges de quase duas horas (400 rúpias), com um intervalo no meio do circuito. A maior parte foi sossegada, pois o fluxo do rio não é muito intenso nessa parte do ano, mas pegamos algumas descidas que o guia comentou que possuía classe 3. De fato, deu para molhar bem e alguns momentos, éramos levados a tombar o corpo para o lado em função do movimento do bote. E a água estava extremamente gelada no inverno norte-indiano. De dia as temperaturas mal passavam de 22ºC, mas de noite caía a 7ºC. Mesmo assim, essa oportunidade seria única e não queria perdê-la. Valeu muito a pena!

 

A caminhada é agradável em torno da região das duas pontes, que é frequentada por dezenas de macacos. Ouvi comentários de roubos de comidas pelos mesmos e realmente, alguns ficam encarando você, esperando uma oportunidade. Na margem esquerda da Laxman Jhula fica o templo Travambakeshwar, uma bela construção e do mesmo lado do rio, ao final da Ram Jhula fica o Swarg Ashram, na região tido como o ponto espiritual central de Rishikeshi, com grande concentração de ashrams e templos. É parte mais “zen” da cidade, com muitas lojas tocando músicas de meditação e queimando incenso. Muitos prainhas e gaths (escadarias que levam ao rio) existem pela margem do Ganges, onde os indianos fazem suas devoções.

 

Aqui a maioria do povo indiano continua com a mesma simpatia de sempre, parando os estrangeiros na rua, perguntando de seu país, profissão e características de sua viagem. O balanço característico da cabeça está em quase todos e pode significar tudo. Estou me acostumando a prestar atenção em outros sinais para saber se ele quer dizer “sim”, “não” ou “talvez”. Claro que existem os tipos “vendedores chatos”, aos quais o turista deve ser duro logo no começo pois caso contrário eles não saem do seu pé. E pedintes aos montes tornando impossível classificar os realmente necessitados daqueles utilizados como meio de manobra para extorquir dinheiro dos turistas (é um negócio, como no Brasil). Já passando para a parte final da minha visita no país, começo a entender mais certas situações e comportamentos do dia a dia dos indianos.

 

O último dia na região eu passei em Haridwar, pois meu trem saía dessa estação no dia seguinte, às 06:22hs. Não ia conseguir arranjar um transporte confiável em Rishikeshi para poder ir direto de lá nesse horário. Haridwar é uma cidade sagrada para os hindus, também é banhada pelo Ganges (já com alguma poluição visual nas margens) e centro de peregrinação, notadamente na época do festival Kumbh Mela, que por sinal estava ocorrendo nesse mês. Possui vários gaths e templos para purificação e devoção. Porém, procurei na internet e não achei nada muito diferente do que já vi na Índia. Como fiquei poucas horas na cidade, resolvi andar um pouco na mesma e dormir cedo para a viagem do dia seguinte que seria emendada com uma outra viagem noturna, para Kajuhaho após permanecer algumas horas em Nova Delhi.

 

Próximo post: Khajuharo.

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Dias 50 a 53 - Khajuharo

 

O trem de Nova Delhi para Khajuharo não parte da estação central, e sim da estação Nizamuddin, mais ao sul da cidade. Passei algumas horas na agência de viagens que comprei os tickets usando a internet e depois o dono me levou até a estação. Ele deve ter explorado bem minhas rúpias anteriormente para fazer toda essa gentileza… Os trens-leitos na Índia, mesmo nas classes superiores (2A e 3A) são relativamente apertados. Mas não há grandes dificuldades de se pegar no sono. Você recebe um jogo de cama (teoricamente limpo) para forrar o leito. Na classe 3A, são seis camas por “cômodo”, enquanto na classe 2A são 4. Viajei junto com um casal de indianos e seus dois filhos e mais um japonês. A mulher não abria a boca e tinha sempre o olhar baixo. Apenas o marido que falava. Faces da dominação de gênero (A religião, a mulher e o relativismo cultural)?… Dormi no topo, e foi muito melhor. Se o seu lugar for a cama de baixo, precisa esperar todos se arrumarem para depois arrumar a sua. Em relação às pessoas, tive total segurança em deixar o mochilão e as botas embaixo da cama; o casal não despertava nenhuma suspeita, muito menos o japonês rs. Mas os banheiros sempre possuem problemas. Imagino como deve ser na segunda classe. Antecipe tudo o que puder antes de entrar em um trem indiano!

 

Cheguei em Khajuharo em ponto, às 06 e meia. A estação fica longe da cidade, mas por sorte conheci duas coreanas que estavam no mesmo trem e dividimos um tuk-tuk. O motorista sugeriu o hotel Lakeside e ficamos por lá mesmo. O hotel é bom, possivelmente um dos melhores que fiquei na Índia. Quarto bem limpo para os padrões indianos, arejado, boa wi-fi e uma grande vista no terraço para o lago da cidade, com vista para o nascer e pôr-do-sol. Uma pena que esses dias estavam todos enevoados e não consegui ver um bonito espetáculo. No café da manhã o dono, sabendo que eu era brasileiro, me mostrou um jornal local com destaque para a tragédia que ocorreu na boate em Santa Maria no Brasil, que na verdade não teve nada de fatalidade, mas sim uma sucessão de erros que envolvem tanto o poder público quando à irresponsabilidade da banda. Duas lições para serem aprendidas: alvarás de funcionamento não servem para muitas coisas, a não ser molhar a mão de funcionários públicos. Isso deveria ser feito por uma empresa privada, que, operando em um mercado de concorrência, seria responsável por emitir o seu próprio alvará e o faria com os melhores critérios possíveis, para manter sua empresa entre as melhores do mercado. E ao final das contas, as responsabilidades são sempre individuais, e não coletivas. Cada um deve responder pelos seus próprios atos, como o indivíduo que faz pirotecnia dentro de ambiente impróprio.

 

Voltando… A cidade de Khajuharo me impressionou positivamente. Pouco lixo nas ruas e pouquíssimo trânsito na área que fiquei, ao lado dos templos do lado oeste – as ruas principais do centro são fechadas para veículos, o que dá uma sensação de paz dificilmente vivida nas cidades da Índia. É possível ouvir o canto dos pássaros no meio da cidade! Além disso, parece que a cidade faz algo que eu havia comentado anteriormente com um colega britânico em Kochi como sendo algo lógico: muitos bovinos da cidade ficam confinados em uma área, próxima aos templos da área leste. Até as deidades gostariam dessa paz! E de fato, não vi bois nas ruas, embora as cabras e porcos estejam presentes… nada é perfeito. Mas já diminui muito a sujeira. Entre a área turística e a estação de ônibus, na avenida principal, existe algo raro no país: uma praça e, ainda por cima, bem cuidada! Bancos para descanso, bonitos jardins… Claro, conservação não era muito boa dos postes e do piso, mas na Índia, isso é algo bem raro. Presenciei uma boa conservação dos locais apenas em alguns pontos turísticos como o Taj Mahal, o Shore Temple e nos próprios templos aqui de Khajuharo.

 

Em relação às pessoas daqui, senti uma insistência maior na aproximação, na conversa e na tentativa de surrupiar seu dinheiro. A cidade vive pelo turismo e aqui as pessoas aparentemente não tem muito o que fazer. Ficam zanzando na rua à nossa caça. E notei que aqui, os indianos exageram um pouco nos comentários feitos e são mais atrevidos. No primeiro dia, por exemplo, visitei os templos com as duas coreanas. E vinham indianos (não foi um só) que me puxavam ao lado, perguntavam se eu era namorado, se eu ia “pegá-las” de noite, qual das duas eu preferia… um humorzinho bem ácido para uma pessoa que você acabou de conhecer. Espiritualidade zero rsrs. Eles também grudavam nelas e pelo que conversamos depois, não foi uma conversa agradável. Talvez aqui eles sejam influenciados pelas esculturas eróticas dos templos e só pensem naquilo…

 

O grupo principal dos templos são os templos Oeste e são os únicos que cobram a entrada (250 rúpias). Soube que o ticket do Taj Mahal valeria para entrar aqui, mas havia jogado fora… Os templos em Khajuharo, com arquitetura indo-ariana, foram construídos nos séculos 10 e 11 AD na dinastia Chandela, refletindo a paixão da disnatia pela arte proibida, representada através das esculturas eróticas que permeiam vários templos, uma divulgação da literatura do Kama Sutra. Os templos ficaram escondidos vários séculos pela vegetação (tamareiras) e foram redescobertos em 1838 pelos ingleses. A história lembra a mesma situação vivida em Machu-Pichu, décadas depois. Existem diversos templos nessa área e o destaque maior é o templo Lakhmana, mais antigo e com esculturas mostrando a trindade hindu (Brahma, Vishnu e Shiva). Já o templo Devi Jagdamba é o que contém o maior número de esculturas eróticas. Outros destaques são os templos Varaha e Vishwanath. A cidade ainda possui dois sítios de templos com entrada livre, o grupo leste (com alguns templos com arquitetura Jain) e sudoeste, com destaques para os templos de Parsvanath e Dulhadev. O ticket pago no grupo Oeste é válido como entrada no Museu Arqueológico da cidade, quase em frente ao lago e ao lado do hotel que fiquei. O Museu é pequeno, mas traz esculturas encontradas nos sítios e que são, portanto, similares aos padrões existentes nos templos. É separado em quatro alas diferentes, com arquitetura Saiva, Jaina, Vaishnava e uma ala “geral”. Fotos são, entretanto, proibidas.

 

Faltando apenas uma cidade para deixar a Índia, começa a bater a sensação de despedida do país. Aquela sensação de “ame” ou “odeie” que li em vários relatos na Internet é a mais pura verdade. Você precisa fechar os olhos para algumas coisas se quiser curtir melhor a viagem. O melhor mesmo do país são os indianos, não em relação aos seus costumes em si, os quais muitos são chocantes para a nossa cultura, mas de sua amabilidade, mesmo quando você sabe que eles querem uns trocadinhos seus. No último dia de Khajuharo, um indiano que havia conhecido no primeiro dia me encontrou e convidou para jantar na casa dele. Achei uma boa oportunidade para conhecer uma família indiana de fato. A casa, modesta, reflete o seu modo de vida e a forma diferente de percepção de espaço e conforto. Morava com a mulher, dois filhos e os pais em quatro cômodos, com o banheiro externo e trabalhava com turismo. Posteriormente, levou-me até a estação ferroviária para mais um trem noturno. O último choque na Índia ainda aconteceria na próxima cidade, onde são realizadas cremações de mortos em público e suas cinzas jogadas no Rio Ganges, onde milhões se banham para purificação. O trem noturno sairia de Khajuharo às 23:40hs.

 

Próximo post: Varanasi.

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E chegamos ao final dessa “inacreditável” Índia, com mais uma vivência da extrema devoção religiosa de uma parte dos indianos e infelizmente, muita, mas muita sujeira. Cheguei em Varanasi pela manhã, com cerca de uma hora de atraso. Conheci um sul-coreano no trem e fomos procurar um hotel juntos. Como o quarto era duplo, resolvemos rachar a diária, e nesse meu dia e meio de Varanasi fizemos juntos o tour pela cidade. Ficamos na Vishnu Guest House por falta de opção. A cidade estava cheia de turistas e não havia vagas nos dois primeiros locais que procuramos. Como eu ia ficar apenas uma noite, não exigi muito. O quarto era ruim, apesar de possuir sacada e ter uma tamanho razoável.

 

Mas mesmo assim, não recomendo essa guest house para ninguém. A cidade de Varanasi é famosa na Índia pelos seus funerais e cremações de corpos à beira do Rio Ganges, além da massa de indianos que fazem seus votos religiosos mergulhando na água poluída. Sim, é mais uma cidade sagrada (mais uma, o que torna o sagrado não uma exceção, mas quase um padrão), e uma das cidades mais antigas continuamente habitadas no mundo. As ruelas próximas ao rio são extremamente estreitas e carros e tuk-tuks são proibidos de circular. Isso porém, não garante um trânsito é fácil, pois motocicletas e bovinos sempre estão no caminho. As motocicletas com a buzina sempre travada no “on” e os bichinhos sempre obrigando-nos a manter o olho no chão. Não é fácil e muito menos agradável andar na cidade.

 

A cena dos hindus banhando-se no rio impressiona. A devoção religiosa é forte para se submeterem a entrar no rio gelado e extremamente poluído, onde o guia nos informou que não é raro corpos em putrefação surgirem na superfície. No raiar do sol do segundo dia na cidade, pegamos um bote com mais dois japoneses e fizemos um tour pela margens por duas horas. Paramos na outra margem, com uma grande faixa de areia que impede a vista da outra parte da cidade. Passamos em um dos gaths (escadarias que levam ao rio) de cremação onde estava um corpo esperando sua vez. Para os indianos de casta inferiores, a cremação ocorre próximo à areia, sem nenhuma base de sustentação do corpo. Para os indianos de casta superiores, existem uma área mais recuada onde o corpo é suspenso durante a cremação. Mais um dos flashs que mostram a ridícula segregação social existente e que comentei parcialmente aqui. A cidade possui vários templos, mas não os visitei, uma vez que não eram muito diferentes dos templos-padrão que existem em todas as cidades indianas. Gastei o resto do pouco tempo na cidade percorrendo suas vielas e aproveitando para comer bem, uma vez que aqui os preços são bem mais em conta do que as cidades chamadas turísticas da Índia. Mas precisamos ter coragem e escolher um local adequado.

 

A sujeira é o padrão da cidade. Achei que não ia ver algo pior do que já vi na Índia, mas Varanasi se superou. A cidade é incrivelmente imunda. A quantidade de bovinos, cachorros e macacos andando pelas vielas é absurda. Foi a primeira vez que vi uma manada de bois subindo escadas. Grandes escadas. Mas eles não são os únicos responsáveis pela sujeira. Os indianos jogam continuamente lixos nas vielas. Vendem alimentos no chão, ao lado de excrementos, animais e demais lixos. E isso faz o cheiro da cidade tornar-se insuportável. Gostaria de terminar os posts da Índia com uma visita positiva, mas seria falso se narrasse algo diferente. Varanasi foi a pior cidade que conheci na Índia e as fotos no Picasa mostram cenas adicionais. A energia positiva que muitos sentem por aqui não incorporou-se em mim. A sujeira, o cheiro, o ambiente em si impediram qualquer outra sensação ou manifestação.

 

No retorno o trem para Nova Délhi atrasou uma hora para sair, mas manteve esse atraso até a chegada. Fui direto ao aeroporto, pois não queria correr riscos de perder o vôo. A infreaestrutura da Índia é complicada e não sei o que poderia acontecer. Quedas de eletricidade eram comuns em todas as cidades que fiquei, o que poderia prejudicar o metrô. Ir por superfície seria complicado pelo trânsito caótico. E não me arrependi, pois o novo terminal 3 do aeroporto (e a linha expressa do metrô que liga a estação ferroviária até ele) são primorosos. Visão de primeiro mundo, a primeira que tive na Índia. Foram contruídos para a Copa Commonwealth dois anos atrás para receber as delegações e turistas. E ficaram como um bom legado para o país. E para o Brasil, qual será o legado que ficará com a Copa e com as Olimpíadas? Provavelmente, apenas estádios elefantes brancos… Nada de melhoria significativa de infraestrutura está sendo feita até agora. O pouco que está sendo feito vem da iniciativa privada, com alguns aeroportos privatizados. O que depende do governo possui um andar paquidérmico. Sempre. Não será o título ou as medalhas que deveriam ser motivo de orgulho, mas o que poderia-se fazer pelo país com a realização desses mega-eventos, embora a história mostra que o país-sede quase sempre sai perdendo. Mas poderíamos perder menos.

 

Bom, mas retornando à viagem… A Índia realmente possui muitos contrastes e para gostar do país, o viajante precisa fechar os olhos para muita coisa. Muitas mesmo. A não ser que faça uma viagem basicamente “turística”, não passando pelas mesmas situações em que a maioria dos indianos passariam, o viajante experimentará várias situações em que tenho certeza que ele dirá a si mesmo: “nunca mais”. Mas existem compensações. Como comentei anteriormente (Khajuharo), o povo em geral, lhe recebe muito bem. Claro que a maioria está interessada em algo, mas eu acredito que genuinamente, muitos têm interesse em conhecê-lo como pessoa, assim como os costumes do seu país. Em nenhum país do mundo vi tamanha recepção, tantas perguntas e vontade de bater papo. A Índia possui também cidades melhores e piores. Se Varanasi estava em um extremo, Mahabalipuram e Rishikeshi estavam em outro, com Khajuharo logo a seguir. São todas cidades menores, com menos lixo, menos barulho e aparentemente, pessoas mais amistosas. Porém, isso não seria suficiente para eu, um dia, pensar em viver no país. Acredito que falta muita coisa para se ter um mínimo de conforto na sua vida. Não penso em conforto material, mas sim em conforto vivencial. O dia a dia aqui cansa demais. Não só a sujeira, o cheiro, as intermináveis buzinas... Mas também a falta de encontrar algo gostoso para se comer, algum lugar gostoso para descansar, visões bonitas para descongestionar a visão. Fico imaginando como seria no verão, com um calor escorchante. Beiraria o insuportável.

 

Enfim, existem muitas formas de enxergar essas situações e eu respeito todas. Não faço nenhum julgamento de opinião. Mas eu respeito principalmente a opinião das pessoas que passaram por tudo isso que passei. Não vale adorar a Índia sem ter posto os pés por aqui. Não vale adorar a Índia ficando só em hotel 5 estrelas e andado de ônibus turístico com ar condicionado (embora alguns turistas nessas condições – e eu presenciei, aproveitam para uma vivência maior no dia a dia do país, e isso já é positivo). Se você encontra-se em um desses dois grupos, sua opinião pode ser tendenciosa. Faça uma visita real. No meio do povo. Você poderá se decepcionar, e muito. Ou amar de vez. Existem milhares de pessoas no segundo grupo.

 

E vamos para o Nepal!

 

Próximo post: Kathmandu.

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