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Mochilão - Parte II: Equador, Peru (Trilha Santa Cruz e Machu Picchu), Bolívia (Titicaca, Salar...)


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(continuação do relato do mochilão que começou em Galápagos)

 

Eu e Daniel, meu companheiro de viagem, chegamos em Quito e pegamos um taxi para o hostel El Taxo, na rua Mariscal Foch, que tínhamos visto no Guia do viajante independente na América do Sul. Acho que cada um pagava 14 dólares, mas tínhamos um quarto enorme só nosso, com uma cama de casal, uma beliche, um sofá e um banheiro enorme com banheira. Ficamos satisfeitíssimos. Resolvemos aproveitar o resto do dia e dar uma caminhada para conhecer a região. Essa é bem a área dos hotéis e restaurantes, onde está o burburinho. Depois de nos depararmos com vários restaurantes mexicanos, italianos e internacionais em geral, resolvemos comer no restaurantezinho em frente ao hostel, chamado El Chicharón. Pedimos um prato chamado choclo mixto. Eu, que amava milho, fiquei maravilhada com os milhos andinos. O choclo é como o milho cozido, macio e branquinho daqui, mas os grãos são bem maiores e mais gordos. O prato, além de oferecer vários tipos diferentes de milho, vinha com um bolinho de batata delicioso, carne de porco, queijo, abacate, além de um molhinho picante como o do ceviche. Fiquei completamente apaixonada pela comida de lá, pedimos outro prato igual, além da limonada da casa, cuja receita o dono não divulga, mas que é deliciosa e refrescante. O dono, aliás, era um senhor muito simpático, que ficava na mesa ao lado jogando cartas com os amigos.

 

Na verdade o plano era passar apenas um dia em Quito, apenas para seguir viagem para o Peru. Mas confesso que a cidade nos encantou, e acabamos ficando três deliciosos dias, que foram necessários para o descanso de Galápagos.

 

Na primeira manhã, fomos procurar lugar para tomar um café da manhã quentinho, pois ainda fazia frio. Quito costuma ser muito frio à noite e de manhã, por causa da altitude, mas à tarde, quando o sol está alto, faz um calor bom, afinal, estamos na linha do equador. Então entramos em um lugarzinho que parecia uma sorveteria e nos serviram um super café. A novidade foi o ponche, que é um leite quente batido com ovo e canela, muito bom, um pouco pesado, mas que dá sustentação para o dia. Pegamos um ônibus pra Mitad Del Mundo, um parque onde fica o monumento que deveria marcar a metade exata do mundo. No final das contas, o lugar foi meio decepcionante. Principalmente depois que descobrimos que o parque fica uns 300 metros afastado da verdadeira metade do mundo, onde fica um laboratório e se realizam experimentos. Na verdadeira metade do mundo, dizem, se você coloca um ovo no chão, ele para em pé. E a descarga não desce em espiral, mas reta. Droga. Queria ter visto isso. Saindo da Mitad Del Mundo, pegamos outro ônibus, desta vez para ir ao teleférico, de onde podemos ver toda a cidade. Pegamos o teleférico e esse passeio valeu muito a pena, tínhamos uma visão linda de Quito, além de o próprio lugar onde estávamos ser encantador, repleto de montanhas. Diferentemente de outros teleféricos, não é apenas para se ficar parado em um lugar e contemplar, lá você podia caminhar entre os montes. Alugamos cavalos e demos uma agradável volta por ali. No final do passeio, entretanto, Daniel começou a ter dores de cabeça e enjôo, foi a primeira vez que sentimos o efeito do soroche, o mal de altitude, afinal, chegávamos lá a 4.700m de altitude, sendo que mal chegáramos de Galápagos. Descemos do teleférico, voltamos para o hotel e paramos para comer em uma lojinha recém aberta, chamada Los Desgranados. Coincidentemente, era o dia da inauguração da loja. O dono era um rapaz simpático e que também adorava viajar, chamado Fabian. A loja servia choclo, o milho delicioso deles, em copinho, com opções de molhos, queijo e acompanhamentos. Fiquei viciada pelo lanche e voltei lá todos os dias, tanto para comer, quanto para pegar dicas com Fabian. Uma das dicas dele, quando perguntamos por um bom café, foi o República Del Cacao, que também passamos a freqüentar sempre. O ambiente era delicioso, o café e os chocolates também, além de terem vários chapéus panamás que me enlouqueceram. Ficamos horas no café, planejando nossa descida para o Peru.

No dia seguinte passamos o dia resolvendo probleminhas, como ir à rodoviária comprar passagens, etc. Passeamos pela cidade, voltamos ao Los Desgranados e seguimos a dica de Fabian para visitarmos o centro histórico da cidade à noite. Foi um passeio lindo e impressionante. O lugar à noite fica todo iluminado, com várias apresentações musicais, lojinhas de artesanatos, um clima super agradável. Saímos pela rua La Ronda procurando balas de coca, para ajudar na viagem e prevenir o soroche. Depois de perguntarmos a vários velhinhos na rua onde encontrávamos e eles sempre reagirem com susto, finalmente encontramos balas e folhas de coca em uma inesperada lojinha de artesanato. Só depois fomos saber que a folha era ilegal no Equador. Saindo do centro, voltamos a Mariscal, a região do hostel, e encontramos um restaurante super simples, de negros, com PFs muito bem servidos e baratos. Voltamos ao hostel satisfeitos.

 

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Tiramos o último dia em Quito para nos despedirmos dos lugarzinhos que havíamos aprendido a gostar. O restaurante El Chicharón, com seu dono simpático. Comer um último copinho de choclo no Los Desgranados, tomar um último café na República de Cacao. E é lógico que eu tive aproveitar para comprar um chapéu panamá, afinal, estava no Equador. No final das contas, a compra do tal chapéu foi uma das coisas mais estúpidas que fiz na viagem, pois não dava para colocá-lo dentro do mochilão e durante todo o resto da viagem eu tive que tomar cuidado com ele, para não amassá-lo nos longos trajetos de ônibus.

 

Pegamos um ônibus que viajou a noite inteira para Cuenca. Nosso último dia no Equador foi meio estranho. Chovia em Cuenca e não consegui ver o charme que dizem que tem a cidade. Passeamos um pouco, apesar da chuva, entramos nos cafés e voltamos para o hotel, para, no dia seguinte, seguir para o Peru. Nosso trajeto, então, foi ir de Cuenca para a fronteira, de lá pegar um ônibus para Piura, já no Peru. Como não havia ônibus para seguirmos a viagem no mesmo dia, dormimos uma noite em Piura e seguimos no dia seguinte para Trujillo. E de Trujillo para Huaraz. Ufa. Uma viagem cansativa e infelizmente a essa altura nos demos conta de que não tínhamos tanto tempo quanto pensávamos, já que não havíamos calculado o tempo que levaríamos e acho que imaginávamos que desapareceríamos de um lugar e apareceríamos no outro, mas leva tempo essa coisa de viajar por terra. Enfim, uma lição.

 

Huaraz era a cidade base da qual sairíamos para a Trilha Santa Cruz. Passamos dois dias lá, para aclimatar. É uma cidadezinha simpática, sem grande coisa. Ficamos em um hostel simpático, chamado Edward’s Inn. Eduardo, o dono, é um senhor ex-escalador, que conhece tudo e dá altas dicas sobre trekking e montanhas. O hostel é freqüentado por montanhistas e escaladores e um ótimo lugar para trocar ideias com pessoas afins. Fechamos em uma agência a trilha e, no dia, vieram nos buscar cedinho no hostel.

Foram quatro dias de trilha pela Cordillera Blanca, com uma paisagem surrealmente bela. O grupo que estava conosco tinha gente de todas as partes do mundo. Achei bacana que todo mundo tentava falar espanhol, só apelávamos para o inglês quando não conseguíamos mesmo nos entender. Mas confesso que essa trilha acabou com minha auto-estima. Sou acostumadíssima a fazer trilhas e não tenho problemas com escaladas. Mas desta vez senti muito a altitude, sentia-me extremamente cansada, tinha dificuldade para respirar. Isso mesmo tomando chá de coca todos os dias. Nos primeiros dias, tive dores de cabeça fortíssimas. Sem contar que também não é fácil passar quatro dias em acampamento selvagem, sem tomar um banho, já que os lagos eram geladíssimo, senão congelados, e era inviável pensar em nos molhar ali. A agência havia me prometido mandar um casaco de plumas, então não me preocupei tanto com o agasalho. Mas eles me deixaram na mão e eu congelava dentro da barraca todas as noites e não conseguia pregar o olho. No final das contas, a Trilha Santa Cruz foi uma experiência fantástica e transformadora, mas foi perrengue a cada minuto. Passei frio, tive dificuldade para respirar, tinha vontade de parar no meio e voltei com a auto-estima arrasada. Mas, afinal, acredito que tirar do espaço de conforto é o que faz de uma experiência transformadora.

 

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Acabada a trilha, voltamos para Huaraz, jantamos com a galera do grupo, passamos mais um dia descansando na cidade e seguimos para Lima. Preciso dizer que e Cordillera Blanca alterou todos os próximos planos de viagem. Nossa ideia era fazer uma viagem mais roots, mas, depois dessa experiência, ficamos meio traumatizados e decidimos fazer algumas coisas do modo mais fácil. Em Lima, passamos apenas uma noite e de lá seguiríamos para Cuzco. Nesse trajeto, demos uma “roubadinha”: compramos uma passagem de avião. Além de termos encontrado uma passagem muito barata, nosso tempo era curto, e a viagem de Lima para Cuzco tomaria muito tempo. Mal chegamos em Cuzco, compramos o ingresso para Machu Picchu e encontramos um carro para nos levar a Ollantaytambo, uma cidadezinha simpaticíssima, onde passamos uma noite e de lá pegamos o trem para Águas Calientes. Um casal viajante que conhecemos havia nos dado a dica para irmos a Santa Tereza, em vez de Águas Calientes, pois as águas termais de lá eram mais interessantes. De lá, eles haviam seguido por três horas a pé, pela linha do trem, até chegar a Águas Calientes e de lá subiram a pé até Machu Picchu. Nosso plano era fazer como eles, até passarmos pelo perrengue da trilha Santa Cruz. Portanto chegamos em Aguas Calientes, onde tudo é muito turístico e, portanto, bem mais caro do que o resto do Peru. Realmente ficamos muito decepcionados com as águas termais, principalmente porque não era na natureza, mas uma piscininha estranha dentro de um clube. No dia seguinte pegamos o ônibus para Machu Picchu e passamos o dia admirando as ruínas. Foi impressionante, uma pena não termos conseguido ingresso para Wayna Picchu, já que só havia ingresso para duas semanas depois.

 

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Pegamos o trem de volta para Ollantaytambo, de lá um carro para Cuzco e então um ônibus para Puno. Passamos apenas uma noite em Puno, pois decidimos conhecer o lago Titicaca pelo lado boliviano. Pegamos um ônibus para Copacabana, na Bolívia, e entramos ao lado do lago Titicaca, com um pôr do sol incrível. O próprio motorista do ônibus era agente de turismo e nos levou a um hotel lindo na frente do lago e já negociamos com ele um passeio para a Isla Del Sol e a Isla de La Luna, no dia seguinte. Como tudo na Bolívia, o hotel saiu bem barato.

 

O passeio às ilhas foi bonito, mas muito cansativo, pois eu não contava que as águas de um lago também pudessem ser agitadas. Somando o enjôo do barco ao da altitude, deu pra dar um barato. Nas ilhas, as crianças aprendem a dizer desde pequeninas “tiene que pagar”, mesmo sem saberem exatamente o que elas querem que você pague. Fomos olhar as ruínas incas que permanecem ali, que não são nada do que esperávamos. Uma hora encontramos um casal e perguntamos onde ficava a fonte inca, eles responderam: “é aqui mesmo!” Era um lugar com pedrinhas e um pouquinho de água jorrando. Ok. Voltamos a Copacabana, passamos a noite e viajamos para La Paz, de onde pegamos o ônibus para Uyuni.

 

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Como fomos avisados, o ônibus para Uyuni foi sofrido. Ele não chegava a ser desconfortável, mas a viagem era longa e no meio da noite fazia muito frio. As janelas ficavam todas congeladas. Acho que a segunda metade da viagem era de estrada de terra ou coisa parecida, pois o ônibus não parava de sacudir. Depois de uma noite muito desgastante, chegamos a Uyuni e a primeira coisa a fazer foi comprar um tour para o salar. Quando o ônibus para, há várias pessoas de agências oferecendo pacotes, então fica fácil comparar e negociar os passeios. Fechamos com uma agência e fomos correndo encontrar um lugar para tomar café da manhã e nos aquecermos. Organizamos nossas coisas, deixamos o excesso na agência e pegamos o carro. Éramos seis pessoas, de todas as partes do mundo, todo mundo muito gente boa. Visitamos primeiro o lugar onde o sal era tratado e embalado, depois fomos ao Hotel de Sal, e, chegando no salar, propriamente dito, tudo que queríamos era tirar fotos daquelas fotos de proporção. Ficamos hospedados em um hotel feito de sal, paredes, chão, tudo de sal. Incrível. No outro dia acordamos cedinho para seguir o passeio, conhecemos vulcões e lagoas surreais, incluindo a Laguna Colorada, que foi uma das coisas mais impressionantes de viagem. Desta vez ficamos em um lugar simplezinho que, para nossa decepção, não era feito de sal. E mesmo não estando naquele branco imenso básico do salar, continuamos tirando fotos de proporção. No outro dia, fomos às águas termais, essas sim naturais e belíssimas, ao lado de um lago congelado. Algumas pessoas não tiveram coragem de tirar a roupa para entrar na água, então ficaram só olhando. O frio era imenso, então tirei a roupa e saí correndo. O momento de entrar na água foi impagável, não queria sair dali nunca mais. Era um contraste grande ver as pessoas todas agasalhadas do lado de fora e nós na água quentinha. As paisagens por ali eram lindas e, por fim, fomos até a fronteira do Chile deixar parte do grupo, que seguiria para lá. Nós voltamos para o Uyuni, de lá pegamos o ônibus congelante para La Paz, onde descansamos por três dias, antes de voltar ao Brasil. E, aí, a outra roubadinha da viagem: Nosso plano era pegar o Trem da Morte, mas, como o tempo apertou e minhas aulas do doutorado já haviam recomeçado, tivemos que pegar um vôo de La Paz para o Brasil e ficamos sem essa história pra contar.

 

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Oi Thamiris e Rodrigo! Obrigada! Thamiris, em grande parte das situações eu fotografava com o iphone mesmo, nas outras eu fotografava com a Panasonic Lumix Ts3, que quebra um galhão, porque é à prova d'água (aguenta até 12 m de mergulho), à prova de impacto e é compacta, o que faz toda diferença pra carregar na viagem.

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Oi Thamiris e Rodrigo! Obrigada! Thamiris, em grande parte das situações eu fotografava com o iphone mesmo, nas outras eu fotografava com a Panasonic Lumix Ts3, que quebra um galhão, porque é à prova d'água (aguenta até 12 m de mergulho), à prova de impacto e é compacta, o que faz toda diferença pra carregar na viagem.

 

 

Obrigada Lian! vou levar uma semi e uma normal vamos ver no que da :)

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Ah, galera! Sou estudante de doutorado em Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense. Minha pesquisa é sobre relatos de viagem na internet, o que inclui relatos em sites, blogs, redes sociais, enfim, os instrumentos na internet que cada um utiliza para compartilhar sua viagem. Trabalho com este tema inclusive porque também sou mochileira, blogueira e me interesso tanto por viajar quanto por compartilhar e entender esse fenômeno. Estou à procura de pessoas dispostas a contribuírem para minha pesquisa, tanto concedendo entrevista quanto permitindo que eu acompanhe seus relatos variados de viagem. Adoraria se você pudesse ajudar. Posso ser encontrada pelo e-mail [email protected] , ou pelo Facebook como “Lian Tai”, através do mesmo e-mail. Também tenho um blog, que, apesar de não ser específico sobre viagens, também uso para relatá-las: www.bolhinhasdalian.blogspot.com . Caso tenha interesse em contribuir ou queira mais informações sobre a pesquisa, por favor entre em contato pelo meu e-mail, com RELATOS DE VIAGEM como assunto, para que eu não confunda com o lixo eletrônico. Desde já agradeço! =)

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