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De Arembepe à Mangue Seco(SE).. a pé!


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Vai aí o relato extraido do meu diario de bordo. É extenso, porem contem todas as dicas necessarias pra curtir TODO o litoral norte bahiano a preço de banana. Agradeço ao Ever pelas informacoes previas sobre Porto Sauipe.

 

ATRAVESSANDO A COSTA DOS COQUEIROS

Após quase um mês rodar o centrao país resolvi fechar a trip com uma prainha básica; sempre quis conhecer o litoral norte bahiano na base da caminhada, ate q enfim juntaram-se as condições básicas - pouca grana e tempo de sobra - uma vez q o "planejamento" limitou-se a conhecimento adquirido anteriormente na "Costa do Descobrimento" e uma certa dose de improviso. E lá fui eu tentar esta travessia, saindo de Arembepe(BA) e chegando em Mangue Seco (SE) por este trecho do litoral espremido entre o mar e a Linha Verde, rodovia ecológica q acompanha todo o trajeto. Esta caminhada de 8 dias (e quase 180km) revelou-se um achado atrás do outro, onde povoados primitivos de pescadores convivem lado a lado com luxuosos resorts; td isso em meio à beleza de praias enormes e desertas, faixas interminaveis de coqueirais perfilados, tartarugas marinhas, rios, manguezais, lagoas e dunas.

1º DIA - DIA PAZ E AMOR EM AREMBEPE

Após curtir o "aê, aê, aê" de Salvador, me mandei pra rodoviária sob o sol abrasante do meio-dia, onde tomei o coletivo (q sai de hora em hora) rumo à Linha Verde, q partiu duas da tarde. No busao, tive q ficar esperto pois durante o trajeto ele vai catando passageiro a torto e direito, sem respeitar limite de lotação algum! Em pouco tempo, já havia gente no corredor apinhada saindo pelo ladrão, o q dificultaria minha descida. "Com licença! Com licença!", e deixei meu cômodo assento pra ficar o mais próximo da porta; no entanto, apesar de relativamente próximo, demorou pra chegar a Arembepe e amarguei o resto da viagem espremido no corredor, equilibrado numa perna e varias sacolas de outros passageiros.

Viagem demorada é isso ai. Logo após deixar Salvador pega a BA-099, chamada de Estrada dos Cocos nos primeiros 50km, atravessa os municipios de Lauro de Freitas e Camaçari. O bus passa pelas entradas de algumas praias urbanas mais democráticas, tipo Buraquinho, Abrantes e Jauá; e outras nem tanto, privadas, com seguranças armados, como Busca-Vida e Interlagos.

Após quase 50km rodados, saltei na rodovia, bem na entrada pra vila de Arembepe quase 15:30. Daí tive q andar os 4km pelo asfalto ate a vila propriamente dita. Estradinha bem movimentada, tanto de pedestres como de veículos, em meio a um enorme descampadao cheio de capim de restinga e uma placa indicando "APA Rio Capivara". Bem q tentei carona, sem sucesso.

Chegando na vila - bem estruturada, com um centrinho simples -me dirigi à praia, logo atrás. A maré tava alta e o mar agitado, o q me obrigou a caminhar tropegamente pela areia fofa os 20min seguintes, rumo norte, já dando um preview da dificuldade de andar nestas condições. Neste trecho há alguns quiosques e casas simples a beira-mar, mas logo depois td some e começa um coqueiral sem fim, já sem banhistas. Meio cansado (já?), sigo pelos coqueirais (terra mais firme) onde logo acho uma estrada de terra, q termina numa das sedes do Projeto TAMAR,e, logo após, as casinhas de palha espalhadas pela praia, sob a sombra fresca dos coqueirais já me dizem q estou na Aldeia Hippie, local do meu primeiro pernoite.

A Aldeia Hippie é um local no mínimo pitoresco, em meio à restinga e coqueirais, afastado do centrinho. Me informei q em qq casinha vc pode encostar a barraca, e procurei a q estivesse melhor protegida pelas pequenas dunas do forte vento q vinha do mar. Acabei ficando no "quintal" do Luis (um clone do Carlinhos Brown, serio!) q se dizia artista plástico, bem desencanado, cuja cabana era uma zona só, infestada de gatos (alguns comendo o rango da panela, sobre o fogão) e muito baguncada, com quadros e artesanias espalhadas por todo canto. Minhas vizinhas de barraca eram umas simpaticas espanholas bicho-grilo, devidamente "acasaladas" com legítimos bahianos. "Namorados Nativos!", de acordo c/ elas. Me falaram q foi ali q aportaram Janis e M.Jagger, após serem expulsos de Salvador, nos anos 60, dando fama mundial à essa antiga vila de pescadores.

Enfim, o "camping" era isso: não havia energia elétrica, nem água encanada..Haviam algumas rusticas bombas dágua espalhadas, quase todas quebradas. E agora? Banho só num rio próximo, e água potável só de garrafas adquiridas no centro ou tendo coragem pra beber a do rio..

Instalado, fui tomar banho e dar um rolê. Atravessei os coqueirais e muitas cabanas similares espalhadas por ali, bem simpático mesmo. Muitas das casinhas de palha lembravam a casa do Robinson Crusoé ou da Lagoa Azul; havia uma q de tão criativa ate parecia hotelzinho bem rústico, de galhos e palhas. No meio da aldeia havia um local chamado de "barraco comunitário", q não passa de uma feirinha hippie, onde os moradores alternativos expunham suas artesanias pra vender aos poucos turistas q iam ate ali por excursão (sim, ali foi tombado como patrimônio historico!) Claro, o fumo rola solto, numa boa, sem grilos! Ali, atrás de uma cabaninha fechada q devia ser "restaurante alternativo", vi q uma das bombas tava funcionando e não titubiei em abastecer minhas garrafas dágua, garantindo o precioso liquido já p/ o dia seguinte. Claro q adicionei hydrosteril e mandei ver, embora o gosto dela fosse meio ferruginoso.

Após a Aldeia, andando pela areia em meio a capim e restinga chega-se num rio bem calmo, numa área de várzea, o Rio Capivara, onde haviam algumas pessoas já se banhando em suas águas escuras. O sol ta pegando e faço o mesmo, constatando q esse rio de água doce é perfeito pra se refrescar. Ali, convenientemente instalado, um vendedor de bebidas e seu inseparável isopor me providenciam uma bem-vinda cerveja, q divido com uma outra riponga (capixaba, q do nada apareceu e colou junto), e me diz q ta ali faz meses, acampada sozinha, no meio dos arbustos e a restinga. Bem q tentou me convencer a conhecer a "residência" dela, porém o visível interesse dela no meu mirrado bolso, sua aparência pra lá de esculachada, e outras preocupações fizeram recusar sua oferta.

Voltei pra vila onde fiquei morgando o resto da tarde, conversando ou apenas apreciando a maré alta chegando quase ate a base das dunas, onde coqueirais se remexem com o forte vento soprando do mar. Na areia fofa da praia, inúmeras varetinhas brancas espalhadas indicam locais de desova de tartarugas, e de cima das dunas da aldeia tem-se um por-do-sol espetacular, a oeste! Aproveito e faço um lanchinho rápido dentro da barraca..apenas pra enganar o estomago.

Ao cair a noite chega mais um casal paulista ali, e quase toda galera acampada se junta na cabana do Luis, q assiste tv num pequeno aparelho movido a uma rústica bateria. Tento sentar num sofá, mas quase acabo esmagando dois gatinhos recém-nascidos..Claro q ali rolou uma "cannabis" básica, mas o sono, cansaço e necessidade de levantar cedo o dia seguinte falam mais alto. Bem q quis dar uma volta de noite pela praia, pois Luis fala q era possível ver tartarugas desovando, mas me despido da galera e caio morto na barraca.

A madrugada - estreladissima - foi marcada por forte ventania, mas o pior foi uma galera q resolveu fazer um "luau" barulhento bem proximo, o q me irritou de certa maneira, mas fazer o q, ne? O jeito é levar na boa, no melhor estilo paz e amor, ne? E, com enorme esforço, consegui pegar no sono novamente. Enfim, passar pela beleza e rusticidade de Arembepe é uma experiência singular, já q não foi somente descoberta pelos hippies de outrora e q ainda mantem seu estilo de vida alternativo; é também prova q as tartarugas tem tb ate bom gosto em escolher locais paradisíacos pra desova..

 

2º DIA - JACUÍPE, GUARAJUBA, ITACIMIRIM..

Levantei cedo na terca-feira afim de não pegar maré alta nem o sol escaldante, levantei acampamento e iniciei a pernada por volta das seis da matina. Cruzo a duna rente a orla e logo estou pisando na razoável faixa de areia q a maré(semi-baixa) me permite andar; o refluxo do mar deixa a mostra pequenos recifes e barreira de corais q formam pequenas piscinas em todo trajeto, invisiveis na tarde anterior. Poucos casais perambulam, ainda apreciando a bela alvorada q tinge gradualmente de um laranja singlar o céu no horizonte.

A caminhada comeca com alguma dificuldade, devido à mediana (e fofa) faixa de areia, mas logo depois a areia fica mais dura e firme. Logo, com o sol despontando à minha direita, ando por uma praia q parece não ter fim, incrivelmente deserta, na qual apenas o remexer dos coqueiros, a arrebentação do mar e alguns elétricos quero-quero quebram a monotonia e o silencio q me acompanham os quase 9km q são reconhecidos como "Praia de Arembepe". De praxe, inúmeras varetinhas do TAMAR em todo trajeto.

Lá pelas 8:30 a praia termina no primeiro rio a transpor, a Barra do Jacuípe, um enorme, calmo e sinuoso rio q atravessa um manguezal considerável; do outro lado, a pequena vila pesqueira de Jacuípe, onde os rústicos quiosques começam a arrumar charmosamente as cadeiras e mesas dentro das partes bem rasas do rio, q noutros trechos é visivelmente fundo, sem chance de atravessar, mas não há nenhum barqueiro a vista. Na verdade a Barra do Jacuípe é onde dois rios se encontram, o Capivara (aquele onde me banhei) e o Jacuípe.

Pergunto pra uns locais q pescam robalo e arraia, perto dali, q me dizem q devo adentrar o manguezal, rio acima, na parte mais estreita do rio, onde de fato havia um barqueiro de prontidão. Andar rente o mangue, com água quase na cintura e pé na lama já é meio penoso, porem necessário. No local indicado aceno pro barqueiro e aguardo sentado, sob a sombra fresca de um coqueiro. A travessia de canoa (bem simplezinha) é marcada pela conversa q tenho com o pescador, q usa a dita cuja pra levar turistas passear rio acima, pelo mangue. Reclama da profusão de esportes náuticos q nos feriadões ali se concentram, principalmente jet-sky, q espanta os peixes q abastecem sua mesa, tipo charel, tainha, mero e carapeba.. Mostra ate uma enorme rachadura na canoa devido a uma colisão com.

Do outro lado do rio e descalço, retomo a caminhada atraves da pacata e simpática vila, onde os poucos turistas já começam a chegar pra se bronzear. Após subir o rio já estou novamente na Praia de Jacuipe, muito bonita, larga e ampla, perfeita pra caminhar. Rente a orla, muitas casas q se misturam aos coqueiros, sempre presentes. No inicio há muitos banhistas, porem eles tornam-se escassos a medida q nos afastamos do rio. Logo, minha companhia são os pequenos siris e carangueijos, q saem(ou entram) em suas tocas diante minha aproximação. Meu cuidado é não pisar nas inumeras águas-vivas de cor lilás, tb onipresentes neste trecho. O vento e a maresia conseguem, em parte, aplacar o forte sol q comeca a torrar o lado direito do meu rosto. E assim a caminhada prossegue por mais de uma hora.

Lentamente, a presença maior de gente e casas (cada vez +tchans) me dizem q estou próximo de outro point, e um vendedor de coco montado num legitimo "jegue-coco" me diz q estou em Guarajuba. Em pouco tempo estou numa praia bem urbana, e opto por caminhar - já sentindo o esfolar da sola do pé - de chinelo pela ciclovia q acompanha toda a orla, onde os quintais são muito bem cuidados e as casas são ate luxuosas, em contraste com a vila anterior. Vendedores de boné, óculos, artesanias, picolé e acarajé perambulam pelas claras areias dali! Tatuadores de henna tem de monte tb!! De Arembepe ate aqui foram 17km!

São quase 10:30 e o sol ta de rachar! Cansado, encosto num dos zilhoes de quiosques - q se misturam com guarda-sois - q estão na praia principal, onde mando ver duas Primus geladas (mas salgadas no preço, mas fazer o q?), uma casquinha de siri com carne de sol, q serão meu almoço, alem de coletar informações úteis. Se quisesse ficar aqui o camping é possível diante das casas, pois há uma extensa faixa de restinga, com muitos coqueiros, q as separa do mar. Mas aqui há muita muvuca, muito turista pro meu gosto, meio farofado até...parecia ate Guarujá!

Tomo uma bela ducha num dos varios chuveiros comunitários e parto pro centro da vila, à procura de um armazém pra me abastecer. Guarajuba é bem urbana, ta td asfaltado e as casas são bem chiques. No armazém compro suprimentos e mando ver um hamburgao, pra logo em seguida descansar (e tirar ate um cochilo) na ampla e bem cuidada praça q antecede a praia.

Mas o dia ainda não terminou e resolvi sair daquela muvuca, mesmo com o sol a pino. Não são nem uma e meia da tarde e já estou na praia novamente, desta vez de chinelo pois a areia ta fervendo! Aos poucos, vou me afastando da muvuca de Guarajuba e os quiosques, assim como banhistas, logo começam a rarear; apenas uma casa aqui ou acolá.

Me encontro no começo da extensa Praia de Itacimirim e a faixa de areia firme vai se estreitando cada vez mais. O mar agitado é chamariz pros poucos surfistas q ali marcam presença. Na torneira de uma pousada a beira-mar me abasteço de água, uma preocupação constante em mente, e a caminhada prossegue. Itacimirim é enorme, parece não ter fim e já estou bem cansado, já de olho num local pra encostar a barraca. Uma senhora me diz q estou na Praia da Espera (ainda Itacimirim), q ficou famosa por ser a praia onde Amir Klink aportou após voltar de viagem da África. No entanto, apesar de deserta e bonita, eu não via hora de achar lugar decente pra ficar; ora tava ocupado por alguma casa ou pousada fechada (com caseiros vigiando), td em meio a muita mata de restinga alta espinhenta, sem chance! E a maré subindo..

Três da tarde resolvi encostar na frente de uma pousada mesmo, aparentemente desativada, sem ninguém a vista. Ledo engano, logo o caseiro apareceu, mas expliquei minha situação e ele permitiu o pernoite no quintal da mesma, em meio a muitos coqueiros, de frente pro mar! E o melhor: havia uma caixa dagua da qual caia água fresca, q foi minha ducha vespertina!! O restante da tarde foi de mais puro e merecido descanso e relax, sob a sombra das amendoeiras e coqueiros da pousada. Estava numa praia deserta, literalmente numa pousada, apreciando o mar bravio, no qual eram visíveis as tartarugas e golfinhos nadando entre as ondas!! De onde estava, tb podia apreciar meu destino no dia seguinte, o Farol da Praia do Forte, pequenino numa ponta no extremo norte!

Deitei cedo, cansado. A noite, apesar de ventar razoavelmente, estava agradavelmente fresca e estreladissima! Diferentemente da anterior, o silencio permitiu q dormisse numa boa, sem nenhuma intercedencia!!

 

3º DIA - DA LUXUOSA PRAIA DO FORTE ATÉ A RÚSTICA STO ANTONIO

Levantei antes do sol dar as caras no horizonte e parti por volta das cinco e meia, sentindo algumas dores musculares nas pernas, assim como um pouco queimado. A maré não tava tão baixa assim e normalmente sempre as primeiras horas da manha eram razoavelmente difíceis de andar: numa faixa semi-estreita e misto de areia firme e fofa, q no decorrer da manha ia se alargando cada vez mais. Ainda sim, o frescor daquele inicio de dia era bem mais estimulante q o sol escaldante da tarde.

A praia estava deserta, o sol saia timidamente porem estava razoavelmente encoberto, e não havia vento algum. Os coqueiros se sucedem no mesmo compasso q as poucas habitações, todas inabitadas, onde apenas siris e quero-queros registram (e reclamam) a minha presença.

As 7 da matina (e quase 12km, desde Guarajuba) chego ate mais um rio q marca o final de Itacimirim, é o Rio Pojuca, relativamente grande e fundo, limite da Estrada do Coco com a Linha Verde. Ele serpenteia um bom trecho de mangue, rio adentro. Sem barqueiro de plantão, frustrado, acabo tendo q esperar alguém dar as caras e aguardo sentado num dos vários rústicos quiosques q beiram o rio. Um pescador q ali passava (q se dizia chamar "Zéu-Seis-Dedos" devido à visível polidactilia na mão direita) me disse q teria q aguardar os quiosques de pitu abrirem pois os donos sempre chegavam de bote, vindos rio acima. E la fico eu, prostrado durante quase uma hora!

Aos poucos os quiosques vão abrindo mas nem sinal de barco algum. Aí q uns moleques me dizem q a maré havia baixado um pouco e q era possível chegar na outra margem na boa. Bem, deixei eles irem na frente e fui atrás, sem mochila, claro, afim de testar a profundidade. De fato, dava pra atravessar e fui buscar a mochila. Lentamente, com a mochila (quase 13kg) na cabeça e água ate o peito, atravessei o dito cujo cautelosamente pra não tropeçar num banco fundo de areia. E tateando bem o chao e indo de contra uma leve corrente, cheguei ate a outra margem!

Novamente na praia, já com um sol forte batendo no rosto, retomo a caminhada pela areia neste q deve ser o inicio da Praia do Forte, bem deserta por sinal! Aqui anda-se em chão amplo e firme o resto do dia, os coqueirais perfilam-se charmosamente e na areia as varetinhas do TAMAR são uma constante! A medida q me aproximo do Farol (ou Forte, q dá nome ao local) Garcia D'Ávila, as pessoas vão surgindo, assim como casas, jangadas de passeio, hoteis e quiosques padronizados, enfim, muvuca. A maré baixou consideravelmente e uma barreira enorme de arrecifes formam piscinas naturais de cor esmeralda em todo o percurso, onde crianças se esbaldam juntamente com pescadores q procuram moluscos em meio aos corais; são os chamados "Papa-Gente". Atravesso o Rio das Moças, bem rasinho.

Dez e meia da matina me encontro no centrao da Praia do Forte, a "Polinésia Brasileira", onde turistas de toda espécie circulam tanto pela praia como pela vila, onde as casinhas rústicas dos locais tornaram-se lojas (de artesanatos, souvenirs, etc) em meio à visível urbanização com muitos loteamentos e ate sofisticados resorts e restaurantes. Logo atrás esta a Reserva de Sapiranga. Enfim, um pólo de turismo internacional.

Ainda caminhando pela areia grosa, após a ponta do Farol, estou na Praia do Leste, ao lado da base-mae do Projeto TAMAR, onde uma espécie de Simba-Safari de bichos marinhos é ate bem interessante! Logo, após umas 3 pequenas enseadas seguidas, as praias voltam a ser selvagens e desertas. A paisagem é idilica: sol forte, céu limpo e azul, com as ondas fortes quebrando atrás das piscinas de tons verde turquesa de corais..

Adiante comeca uma enorme praia reta interminavel, q devem corresponder ao ultimo trecho dos 13km q contabilizam a Praia do Forte. A caminhada - de chinelo, pra não esfolar o pé - pela areia clara e firme é cansativa neste horario e minha preocupação se volta pra água q disponho, q vai lentamente diminuindo devido ao forte sol do quase- meio-dia. A monotonia se instala e procuro andar olhando pro chão, pros siris ou pros coqueiros, pra não ver o quanto falta a minha frente. Neste trecho cruzo apenas com 4 pescadores solitários, reclamando q o mar bravio os impede de fisgar arraia e xereu..

Meio-dia e meia - e muito cansado - cruzo o raso Rio Barroso e chego na bela Praia de Imbassaí, com muvuca similar a da Praia do Forte, porem o ambiente é muito mais rústico e ate original. A praia é extensa, separada do continente pelo manso Rio Imbassai (em tupi, "caminho do rio"), q corre paralelo à orla toda a parte central da praia, formando uma pequena península de areia claríssima onde se concentram todos os quiosques lado a lado. As barracas colocam as cadeiras e espreguiçadeiras de ambos lados, ora do lado da praia ora do rio.

Num dos quiosques estaciono merecidamente e mando ver duas geladas! O cardápio é farto:caldo de sururu, pititinga, agulhinha, moqueca dourada, badejo;e drinkes a base de pinga, caipiroska, siringueroska, mangabaroska, etc.. mas me contento com uma porção de aipim (mandioca) frita e carne de sol, enquanto troco idéia com o "barman".. Me diz q a "vila" de Imbassai não tem quarteirões nem centro organizados, tampouco rua a beira-mar, apenas os quiosques e as pousadas, alem do rio. Apesar de charmoso e simpatico ate, o local estava fervilhando de gente, e decididamente não era ali q queria pernoitar. Fui tomar um banho de rio pra me refrescar e apenas constatar q a água escura era um pouco salubra, isto é, intragável! Comecei a me preocupar com meu estoque da dita cuja.

De acordo com as informações do cara, Sto Antonio era a próxima vila, a quase 6km dali, e foi pra la q rumei após merecido descanso pós-banho. A areia fervia de quente e chegava ate ofuscar a vista de tão clara q é, ainda mais naquele horario... Novamente estou numa enorme praia deserta, ornada de coqueiros q mais parecem sentinelas permanentes daquela bela região, sem nenhuma alma a vista, onde o vento e a maresia disfarçam o calor do sol a pino, tornando a coloração do mar estupidamente azul!

Quatro da tarde chego no primeiro sinal de vida de Sto Antonio, a Praia do Diogo, onde um único quiosque, bem rústico e simplezinho, onde estaciono definitivamente. Tomo + um "energético de cevada" e mando ver uma porção de pititinga, farofa e salada, alem de repôr meu estoque de água. A faixa de areia vai se estreitando e os corais a muito forma cobertos pelo mar, sinal q a maré sobe rapidamente. Sentado comodamente no quiosque, posso ver a ponta q terei de andar amanha, onde as belas construções da Costa do Sauípe se misturam nos coqueirais rente a praia, a meros 8km dali.

Uma trilha de areia fofa adentra uma enorme duna ornada de coqueiros q separa a vila da praia, e logo estou numa extensa faixa de restinga salpicada de pequenos arbustos, pé-de-manga e coqueirais onde uma tímida e pequena vila parece estar mais escondida do q estabelecida propriamente dita. Sto Antonio foi uma enorme e agradável surpresa! Se tivesse mais tempo certamente ficava ali uma semana!! Em contraponto à P. Forte e Imbassaí, esta vila é um sossego de charme: criada recentemetnte, aqui se resume a um punhado de casinhas locais bem simples, um restaurante pra la de rústico, uma lojinha de artesanias e uma única pousadinha, q basicamente se concentram no q deve ser a "praça" central, onde todas as ruas são de areia, e os carros so chegam por uma imperceptível "estrada de chão"(como eles chamam estrada de terra) pela Linha Verde. No meio da "praça"havia um chuveiro comunitário q lavou a alma deste q vos fala.

O movimento se resume aos locais, já q não vi turista nenhum! Como havia espaço de sobra, armei a barraca perto da duna e da praia, próximo da barraca de outros dois jovens casais, provavelmente ripongas "snowboarders". Aqui tive q me chinelar pois na areia haviam alguns matinhos espinhentos, mas o local era perfeito e ssossegado, protegido do vento pelas dunas, e do sol pelos coqueiros! A seguir conversei um pouco com um jovem morador q me recomendou conehcer as dunas interiores e o rio, vila adentro. E foi o q fiz. O cara já me confundiu com hippie e, discretamente, perguntou se eu não tinha uma "seda" pra lhe oferecer. Afeeee..

Atravessando a pacata vila chega-se num misto de dunas e restinga bem bonito, onde os montes de areia clara e fofa tem tamanho considerável, e seguindo o q parecia ser um caminho imperceptível chega-se no topo de uma delas, de onde se tem uma vista fantástica da vila e do mar azul, logo atrás dela; do outro lado, o verde de resquicios de Mata Atlântica, misturado com coqueirais contrastam muito com a claridao da duna e, la embaixo, um rio de água doce q, timidamente, serpenteia toda essa paisagem!!! Não pensei duas vezes e foi lá onde dei um tchibum com muito prazer! A água era doce mesmo e mandei ver vários goles, embora ali houvessem uma locais lavando roupa. Mais adiante havia o q parecia ser uma ponte de madeira q provavelmente devesse levar ate o asfalto...

Revigorado, volto pra vila apenas pra apreciar o sol faiscar seus ultimos raios do dia no horizonte sob a duna e os coqueirais da praia..Mais tarde janto um suculento miojo e me recolho merecidamente. Estou exausto e meu lado direito do rosto arde de queimado. As poucas luzes da vila me dizem q ela está literalmente morta, td fechado e silencioso!

Dormi muito bem naquela noite fresca e de vento considerável. O céu esta coalhado de estrelas, porém ao norte nota-se o horizonte fortemente iluminado, provavelmente oriundo da sofisticação dos resorts do Sauípe. No entanto, a tranqüilidade de Sto Antonio é um convite irrecusável ao ócio, e torno a dormir. Assim como a simpática vila.

 

4º DIA - DO RICAÇO SAUÍPE AOS PELADÕES DE MASSARANDUPIÓ

Amanhece c/ nebulosidade, diferentemente dos demais dias, e o mar está bravio. Minha empolgação com Sto Antonio fora tanta q esqueci de comprar lanche pro café-da-manha e procuro improvisar com o q tenho: misturo adoçante em pó num pacote de miojo, q trituro, chacoalho, e logo tenho um "sucrilhos de emergência"... e olha q tava até bom!

Seis da matina já estou novamente pisando na praia deserta com a mochila nas costas. Pra variar, a maré ta semi-baixa e o primeiro trecho de pernada é razoavelmente sacal, alterna chão forme e areia fofa. Porém, a proximidade com o Complexo do Sauípe, uma hora depois, chama minha atenção. Mas minha presença tb desperta a atenção dos inúmeros seguranças (armados) q surgem, ora pelas espreguiçadeiras na praia ora em meio aos coqueiros, e começam a se comunicar entre si por meio de comunicadores, provavelmente pra "ficar de olho no elemento mochilado na praia."

O Complexo do Sauípe é um "resortódromo" pra lá de chique, é o oposto de Sto Antonio! Da praia é possível ver, no meio dos coqueirais e um belo gramado bem cuidado, hotéis luxuosos ligados por uma passarela de madeira; no interior, piscinas, campo de golfe, quadra de tênis, etc.. Sei q ainda tem shopping próprio e q quem não estivesse hospedado e quisesse desfrutar das praias deveria desenbolsar 50 pilas (carro c/ 4 pessoas). Um belo sistema de seleção natural. Tratei de atravessar rápido aquele trecho pois tava ate me sentindo mal de tão vigiado q eu tava, já q a praia tb não era lá essas coisas, e não havia nenhum hospede naquela manha.

Em pouco tempo caminho por uma praia deserta, já um pouco maior e mais ampla, ainda com o tempo nublado e ventando razoavelmente. Novamente as varetinhas do TAMAR e a fileira de coqueirais marca presença. Deserta e com tempo ruim, o tédio se instaura e procuro caminhar olhando pro chão, afimd e não ver o quanto ainda falta, um artifício ate eficaz! A enorme praia termina quase 8km após, limitada por mais um enorme rio a transpôr, o Rio Sauípe, cuja largura, profundidade e correnteza impediam qq ilusão de cruza-lo no peito.

São 8 da matina. Esperei um pouco e gritei pra única pessoa q vi na outra margem, q pra minha sorte estava com uma pequena canoinha! O cara atendeu meu pedido e veio ate mim. Era um funcionário do TAMAR q tava andando por ai, mas a canoa dele era menor, de plástico e creio q comportava apenas uma pessoa, isto é, ele; porem, como pra ganhar um troco vale td o cara me garantiu q eu e minha pesada mochila cabíamos na dita cuja. Como não tinha escolha, topei a parada. Meu, essa travessia foi medonha! Com o peso, a canoa boiava-afundava levemente ate a metade, molhando toda minha bermuda; eu carregava no colo minha mochila torcendo pra canoa não virar de vez, enquanto o cara remava rapidamente e dizia pra não me mexer muito..já q aquilo tava mais pra caiaque q canoa!

Após tempo q pareceu interminável, cheguei são e salvo do outro lado, embora molhado ate a cintura! Dei o "agrado" ao cara e continuei minha marcha por entre os quiosques fechados no inicio daquela nova praia a percorrer, Porto Sauípe, um ponto de atracação de barcos pesqueiros, com uma infra mais modesta e simples q a praia anterior. Felizmetne, a praia aqui é bem larga, de chão duro, ideal pra caminhar e procuro forçar o ritmo. Rente a orla apenas algumas casas esparsas, pequenas pousadas e barraquinhas, separadas por amplos trechos de restinga e coqueirais. Poucas pessoas circulam naquela manha cinza, nenhum turista e quase todas pescadores. Alguns vendedores de artesanato, chapéus e bolsas trancados em palha de piaçava, circulam a procura de fregueses, em vão. Lentamente o sol vai surgindo...

A medida q me afasto de Porto Sauípe, a praia vai novamente ficando deserta e reta, onde minha diversão é ver o forte vento fazer deslizar a espuma do mar pela praia, alem de fustigar minhas pernas com grãos de areia. O sol já esta com forca total e varias paradas pra descansar e beber água são necessárias! Não vejo a hora de chegar na próxima praia, q será a q vou permanecer..mesmo chinelados, sinto os pés levemente esfolados.

Quase 10km depois de não ver alma viva, eis q surgem vultos à minha frente, e um quiosque tb!! Ufaaa, demorô! Ao me aproximar, reparo q os poucos casais na praia - sentados em cadeiras - passam a me olhar feio, o q me incomoda de certa maneira. Meu cansaço era tanto q nem havia reparado num detalhe: elas estavam peladas! Havia chegado em Massarandupió!! Como quem não "viu" nada, passo batido e coleto informações com o tiozinho do quiosque, tb peladão, q confirma onde estou. Mais adiante, uma placa anuncia, em sentido oposto, "Amanat - Praia Nudista - Nudez Total Obrigatória". Se viessem me encher o saco eu simplesmente retrucaria q de onde vim não havia placa alguma..

Tomo uma trilha q sobe a duna rente a praia e atravesso uma faixa de restinga rala de onde sai uma estrada de terra, por onde veículos chegam à praia.. A vista aqui é muito bonita: restinga, dunas claríssimas e um rio lado-a-lado..é aqui q pernoitarei! Caminho ainda + 3km ao lado de uma área de varzea, com muito esforço sob forte sol, ate chegar no centrinho da vila. Meus pés estão doloridos e pedem pra sentar! Felizmente me delicio com mangas, carambolas e cajueiros, onde é possível pegar o fruto apenas esticando o braço!

O centro de Massarandupió é uma vilinha simples, bem rústica e de pouca infra! Mas foi lá q mandei ver num bar 2 Frevo (a cerveja regional q não é la essas coisas, mas é barata e dá pro gasto) e um suculento pf (bife, feijão e arroz) pra comemorar minha chegada, alem de pegar mantimentos e água de uma bica disponível. São onze da manha!!

Em seguida, depois do almoço, volto pra me refrescar. O calor e sol estão de torrar miolos e passo o restante da tarde descansando no riozinho q atravessa toda a faixa de restinga q antecede a praia dos peladões! O banho foi ótimo, dose foi aturar os peixinhos ficarem beliscando vc... Logo após fui de fato acomodar minha barraca, embora não faltasse vontade de dar uma espiada na praia. A faixa de restinga é descoberta, ampla e larga, porem mais próximo das dunas haviam coqueirais q providenciavam a sombra e privacidade necessárias e foi la q estacionei. Só dava eu lá! Descansei, fiz um lanche e ate mandei ver água-de-coco direto da fonte! No final da tarde o tempo fecha novamente e comeca a ventar bem forte.

Exausto, me recolho antes de anoitecer, enquanto o céu faísca com clarões de relâmpagos, q anunciam chuva vindo ai. Dito e feito, acordei horas depois com água pingando no rosto e fortes rajadas de vento estremecendo a estrutura (já quebrada) da barraca. Por + de duas horas fiquei ali - sob a fragil luz da lanterna e dos raios esporádicos - tentando conter os vazamentos q se concetravam do lado das rajadas carregadas de chuva; alem de segurar a estruttura qdo as mesmas a atingiam agressivamente. Foi uma noite dura, ate q desencanei já q precisava dormir; deixei molhar mesmo o q fosse molhar, apenas protegendo minhas roupas e saco de dormir. So dormi qdo a chuva diminuiu, assim como o vento...

 

5º DIA - DE SUBAÚMA A BAIXIOS

Sexta-feira acordei as 6 hrs, sob um céu nublado claro e sem vento algum. Após um rápido café, tento secar a barraca, levanto acampamento e dou inicio à pernada daquela manha. Embora a margem de chão seja ampla, há muita areia fofa misturada à molhada, dificultando aquele começo de dia; junte-se a isso o peso extra do equipamento molhado. Paciência, tinha q aproveitar q não havia sol.

Por quase 9km anda-se por uma praia deserta, acompanhado ora por mata de restinga c/ pequenas dunas ora por mangues semi-secos, mas sempre com coqueirais por perto. Pra variar, ao caminhar me distraio pisando as tocas dos siris ou tentando chegar perto dos elétricos quero-queros. E, após andar por umbom trecho de areia preta, a gradual presença de gente e de um pequeno farol indica q cheguei noutra vila q desperta pra mais um dia.

São 8:30 e estou em Subaúma, uma vila de pescadores com uma infra bem maior, lembra uma Guaraú (Peruíbe) mais rústica.. Alguns bares e quiosques a beira mar estão recém começando a abrir, e é no chuveiro de um deles q tomo um banho refrescante, alem de repor meu estoque de água. Adentro na vila, com armazém, igreja, pequenas e simples pousadas, mas não há lanchonete alguma aberta. O jeito é reforçar o meu "breakfast" com uma ambulante, q alem do café me dá uma bela porção de leléu de milho, uma espécie de bolo q veio a calhar.

Pé na areia novamente, onde o movimento na praia aumenta razoavelmente, principlamente de pescadores artesanais de robalo. Não demorou, e logo surge mais um rio a transpor, o Rio Subaúma, q serpenteia um mangue ate desaguar numa gde e calma bacia onde se misturam água escura doce e clara salgada, onde crianças se divertem nos locais rasos.

Aparentemente raso, me informam da melhor maneira e ponto de atravessa-lo, pois o lado onde estão os pescadores esta cheio de ostras e conchas, alem de ser fundo. Seguindo conselhos, sigo um tiozinho (q ta s/ mochila) perpendiculamente o sentido do rio, mas logo percebo q desta vez o problema não é a profundidade do rio (água ate o peito) e sim a correnteza do mesmo; alem de sentir cãibra no pescoço por levar a mochila na cabeça, o esforço de ir contra corrente é muito desgastante! Volto pra margem afim de esperar a maré baixar mais e descansar, enquanto o sol ameça sair. Mas não consigo esperar nem uma hora, pois logo percebo q o melhor jeito de atravessa-lo é paralelo à corrente, após ver uns caras com isoporzão cruza-lo sem dificuldade alguma!

Dez da matina, e após pouco esforço desta vez, me encontro do outro lado do Subaúma pronto pra continuar a pernada. No inicio desta praiona há alguns surfistinhas curtindo o mar agitado, alguns turistas caminhando e , mais adiante, alguns pescadores locais. Nem sinal do sol, embora permaneça aquela nebulosidade clara. 20 min de pernada e me encontro novamente só, numa faixa de praia diante de mim q parece infindável, onde uma brisa leve e a maresia sacodem os coqueirais e abranda o mormaço do quase meio-dia. O chão é firme e calço os chinelos, principalmente pq há muitas conchinhas quebradas forrando boa parte do trajeto.

Após 12km de caminhada constante o tédio (e cansaço) já começam a se instaurar, embora a paisagem ao redor já valha a pena. Coqueirais alinhados indefinidamente eventualmente se alternam com mangues, onde pequenas lagoas a beira-mar propiciam a formação de ecossitemas completamente dispares convivendo lado-a-lado e separados apenas por uma pequena faixa de areia. E é numa destas lagoas, a Lagoa Verde, q paro pra descansar e fazer um breve lanche. O local é muito bonito, distante, a meio caminho das vilas mais próximas, prova disso é marca de pneus (de bugge) e de cavalos na areia, confirmando q não deve ser qq um q vem aqui a pé. Divido meu lanche com umas gaivotas e uns siris q parecem ser amigáveis naquele local ermo, onde o silencio so é rompido pela arrebentação do mar.

Mas ainda tem muita pernada pela frente e continuo minha romaria a passo firme, sem maiores intercedências, em meio a paisagem q parece não mudar nunca, se não fossem as varetinhas do TAMAR, dispersas ao longo da praia. E assim acrescento mais 10km àquele comecinho de tarde, onde agora sim o sol comeca a despontar com forca total. Felizmente, a presença de pessoas (e de um barco encalhado na areia branca e fina) cada vez maior é indicio q cheguei em Baixios, exatas duas e pouco da tarde!! Há ainda uma lagoa rasinha, repleta de garças e outros passaros, q antecede a vila. Q alivio! Já fui logo encostando no primeiro quiosque q achei, na entrada da vila, e mandando ver 2 geladas! Pela alegria do cara do quiosque, eu devia ser o primeiro freguês do dia, e o cara me deu uma farta porção de carne de sol por conta da casa!! De fato, ali não havia quase ninguém, creio q somente os locais. Depois soube q isso era devido a precária estrada de areia q ligava a vila à Linha Verde. "Posso ver as pulseiras q vc ta vendendo??", o cara me pergunta, numa conversinha q me soa familiar; dose foi convence-lo q não era hippie nem vendia nada, afinal quem estaria caminhando pela praia com uma enorme cargueira nas costas??

Mas Baixios é uma vila bem simpática, sossegada e pouquíssima infra q merece uma visita! Diferentemente das demais vilas, os quiosques (boa parte deles fechado) se localizam num quadrilátero perpendicular em meio à areia, quinem Trancoso, o q lhe confere um charme especial. No povoado ha pouca infra, apenas algumas casas de comercio, bares simples e as casas dos moradores em torno de uma simpática pracinha, onde uma igreja parece concentrar as atenções dos mais velhos. Aproveitei e me abasteci de água num chafariz q ali havia.

Após descansar e apreciar as águas azuis do mar contrastarem ao sol com a areia branca dali, acabei acampando do lado do trailler do cara do quiosque, ali mesmo, sem problema algum! O banho consegui no chuveiro da única pousadinha q ali existe, quase na frente do "camping": "Posso tirar o sal do corpo?", foi a minha deixa...

O resto do dia foi reservado à descanso, conversa com os locais e uma voltinha pela vila e pela costa de Baixios, q é de mar aberto. Notei q dez min ao norte havia mais um rio q teria q atravessar, o Rio Inhambupe, e procurei me informar da presença ou não de barqueiros pro dia seguinte; me garantiram q haveria, o q revelou-se falso. Na barra do mesmo rio haviam alguns rusticos quiosques, tdos fechados, e algumas crianças brincando nas águas mansas nas beiradas mais calmas.

O fim de tarde daquela sexta fui na única padaria dali (apinhada de locais, parece q tem horários fixos em q abre) e estacionei definitivamente num dos banquinhos da pracinha, observando o vai-vem pacato e tranqüilo do local, assim como os enormes cururus (sapos) q circulam tranquilamente por la.. Ao escurecer, bares e traillers próximos a praça ligam o som ao maximo e pra minha infelicidade é aquele misto de axé-pagode-forró-sertanejo-brega q o povão adora!! Um dos quiosques servia tb de cabeleireiro (!?), onde o único atendente alternava drinkes e tesoura com certa destreza..

Mas o cansaço fala mais alto e vou deitar após um lanche leve, já q comer alguma coisa é dolorido devido a meus lábios rachados de tão queimados q estão.. Ao entrar na barraca, um calor dos infernos, já q ali não corre vento algum! Já nao podia mais ver a cor de miojo na minha frente e me desfiz de dois pacotes do mesmo. Como se não bastasse, havia um razoável vai-vem de pessoas bem à minha porta; mas o pior eram uns burricos soltos no povoado q eu tinha a toda hora q espantar qdo eles ameaçavam enfiar a cabeça na minha barraca! Como q por vingança à minha pouca amistosidade, parece q eles derrubaram um latão de lixo próximo apenas pra q alem do calor, eu dormisse com mau cheiro o resto da noite. Mas td bem, eu tava morto de cansaço e dormi sem muita dificuldade.

Durante a noite não houve nada digno de nota, apenas o som do povoado q parecia ofender meus ouvidos, alguns veículos q focavam com os faróis na minha direção e um bêbado q por pouco não mija na entrada da barraca, já q eu tava num local pouco iluminado. La pela meia-noite o silencio parece reinar em Baixios, mas ate la eu já to no meu 13º sono.

 

6º DIA - PELA BARRA DO ITARIRI E O SITIO DO CONDE

Levanto antes do amanhecer, apenas pra dar uma voltinha pela areia e ver os primeiros pescadores iniciarem seu dia, fazendo altas manobras pra adentrar nas arrebentações do mar. O corpo esta dolorido, porem recuperado do cansaço acumulado. Belisco alguma coisa e levanto acampamento assim q a escuridão ia lentamente se dissipando. Não tinha muita pressa não, pois precisava esperar o povoado levantar pq dependia de barco a seguir.

Sem pressa alguma, chego na barra de rio q verificara o dia anterior. Esse rio consta nos mapas como Inhambupe, mas aqui ninguém sabia o nome dele, era o Rio Sem Nome!? Bem, já havia clareado e permaneci, do lado dos quiosques fechados, aguardando aparecer algum barqueiro q me levasse na outra margem do rio. O tempo vai passando e nada. É sábado e era de se supor q houvesse movimento desde cedo, mas nada. E agora? Uns locais aparecem pra rebocar um barco, mas não pra coloca-lo ao mar, enquanto uns quiosques já começam a abrir.

Preocupado, pergunto pra uns guris de um quiosque se haveria barco ou pescador disponível. Eles me dizem q quiçá nem haja barcos devido a maré.. Mesmo assim, aguardei por mais tempo, já ficando meio impaciente.O dia estava nublado claro, porem quente e não queria andar com sol a pino mais tarde. Foi ai q um dos guris veio negociar um barco comigo: eram dois, o menorzinho era o intermediário do maior, q tomava conta do quiosque. Claro q meteram a faca no preço (R$12), mas mesmo assim pechichei + , e olha q o menorzinho ainda queria comissão por estar "mediando a transação".. Não tinha opção, e acabei me rendendo ao ultimo lance daqueles mercenários-mirins-fdps por R$7, mais caro q a passagem de bus! O maior saiu em busca de barco enquanto o outro tomava conta do quiosque, pra logo voltar pelo rio, lentamente. Subi no bote, e o guri mal conseguia mover o pesado remo de tão raquítico q era, mas conseguiu chegar na outra margem. Paguei e me mandei, resmungando.

Bem, já estava caminhando e era isso q importava. Deviam ser quase umas 8 da matina, e a praia mostrava-se levemente inclinada, areia dourada, porem grossa. Difícil de andar, mas como sempre, hora adiante adiante a areia parece ficar mais firme e batida. A faixa interminável de coqueiros baixos na praia deserta é indescritível , mas o destaque ficou por conta de 2 tartarugas na areia, indiferentes a minha presença.

E assim prossegue minha andança inipterrupta, com direito ate a um "carangueijo retado", q ficou todo em posição de me enfrentar diante minha passagem..No caminho, varias piaçabas de coqueiros estão encravadas na areia servindo de guarda-sois improvisados. A maresia matinal forma uma leve nevoa esbranquiçada e a paisagem ao norte fica mais opaca, alem de deixar meu cabelo estilo "dreadlock", mesmo com banho tomado.

O tempo vai passando assim q percebo o céu lentamente ficando escuro, a minha frente. Vem chuva ai. Puts, e agora? To no meio do nada e lugar nenhum, felizmente qdo a chuva vem, me protejo na única palmeira anã rente a orla. A chuva com vento não dura nem 20min e torno a bater perna novamente. As 11hrs a maré dá uma recuada deixando a praia bem larga e fácil de andar, assim como a nebulosidade e mormaço dão lugar a um sol brilhante e um calor dos infernos.

Meio-dia exatos e após 18km chego na Barra de Itariri, onde o rio homônimo de águas semi-salubras divide um imenso manguezal numa margem e praias rasas e bancos de areia na outra. Me encontro na área do manguezal, com muita lama escorregadia. Felizmente a maré ta baixa e o rio razoavelmente raso é atravessado numa boa, com água ate a cintura. Do outro lado, apinhado de turistas e alguns quiosques.

To cansado e procuro um lugar pra me esparramar. A vila ta quase do lado do rio, me lembrou muito Subauma, muitas casinhas, pousadas simples e comercio. Ate policia havia. Dou uma voltinha rápida e acho um "chuveiro", uma bica despencando atrás de um bar onde dou uma refrescada geral, alem de lavar o cabelo e coletar água (1,5L). Em seguida mando ver uma cerveja e um pf (miojo não!) de carne de sol, enquanto pondero se passo a noite ali ou não. Ta muito muvucado e farofado ali, embora pareça ser agradável pelo vilarejo; deve ter camping, mas como ainda é cedo posso adiantar uns kms mais.

Após descansar bastante e ver o vai-vem do povoado, coloco a mochila nas costas e encaro o forte sol das quase duas da tarde. Dali ate Sitio do Conde me informaram q seriam 13km, distancia q duvido va completar. A praia é larga e extensa, muito bonita à aquela hora da tarde. O mar entao, nem se fala: águas q vão do azul-turqueza a um verde intenso! No entanto, o sol ta torrando minha cabeça, o q me obriga a improvisar um turbante com uma camiseta. Ando, ando e ando. Praia deserta, apenas garças, siris e gaivotas dão ar da graça. A presença humana é lembrada qdo passam raros buggies de passeio, q deixam as marcas na areia.

Apesar do lugar lindo, já começo a dar sinais de cansaço após um tempo, já de olho num local pra encostar a barraca. Na orla há uma faixa de dunas q separam a praia dos coqueirais. O q haveria alem delas? Subo desajeitadamente e constato q alem delas há uma larga faixa de restinga e algumas casinhas isoladas aqui e acolá. Se é propriedade particular ou não to nem ai, é aqui mesmo q vou acampar, na sombra de altos coqueirais, protegido do vento pela duna. Felizmente, os locais daqui são muito cordiais nem se importanto com uma barraca perto deles; e o tiozinho de uma das casas ate me disse q tinha uma bomba dagua, onde completei meu estoque dagua alem de tomar um refrscante banho. Q sorte!!

O final de tarde fiquei ali, observando a bela paisagem das dunas e avaliando o qto faltava pra Sitio do Conde, uns 4..5km talvez. Andara 9km ate ali e tava beeem cansadao, alem de bastante queimado nos ombros. Não sentia muita fome pois almocara bem, apenas tomei uma sopa Maggi - q mais parecia água com sal -engrossada com pão. A seguir me entoquei na barraca de onde não sai mais. Dormi muito bem, o céu estupidamente estrelado e ventou razoavelmente toda noite.

 

7º DIA - CONDE, POÇAS, SIRIBINHA, COSTA AZUL..

Pra variar, acordei com o corpo moído + uma vez por volta das seis, e aproveito pra enrolar e descansar mais um pouco, alem de dar uma arrumação e "faxina" no interior da barraca, repleta de areia. Isso ate qdo os primeiros raios alcançam a lona, avisando q é hora de zarpar. O dia promete, e ao leste um tenue arco-iris, torna a paisagem mais encantadora.

Pé na areia novamente, com leve brisa no rosto, marcho apenas 4km em praia ampla, larga e deserta, mas q lentamente vai mostrando vida diante a aproximação de Sitio do Conde, principalmente de pescadores aretesanais e, pra variar, os onipresentes quiosques, gde parte deles com erros gramaticais grotescos nos anuncios.

Sitio do Conde já é uma antiga vila de pescadores mais estruturada, com pousadas, restaurantes, etc e tal. Quitutes como potu c/pirão, caldo de sururu, porções de pescada, cação, vermelho, cavala e cruvina parecem apetitosos, mas quiosques ainda nem abriram. As noites parecem animadas rente a orla Descansei rapidamente à sombra de uma barraca, evitando sentar nas mesas ou cadeiras ("proibido usar mesa s/ consumir!") e dei continuidade à pernada. Antes, porem, conversei com uma suíça q ali passeava.

A partir daqui a praia se estreita mais, deixando à mostra muitos recifes e lajedos q parecem "placas de asfalto rachadas" acompanhando todo o trajeto, onde pescadores artesanais (c/ gaiolas) parecem tirar seus sustento nas varias piscininhas q se formam. Durante um bom tempo se caminha alternando areia fofa e recifes. Depois, à minha esquerda, percebo q os coqueirais sumiram pra dar lugar a uma extensa planície de restinga q se alterna com mangue, onde logo surge uma "estrada de chão" q segue paralelo à orla, beirando a praia. Claro q agora continuo pela estrada, principalmente pela dificuldade de andar pela areia fofa.

E assim o percurso é ate + fácil; de um lado a praia estreita, e do outro um mangue com coqueiros. E 6km depois alcanço outra pequena vila, Poças, onde um cemitério interditado já me da uma luz da simplicidade da vila; era tão rustico q os "túmulos" eram ornados com telhas e bromélias no lugar de cruzes. A vila órbita ao largo da estrada de chão, com casas simples, coloridas e modestas, algumas ate de palhoça e pau-a-pique. Percebo q não há mta infra p/ turistas, e q os locais são quase todos pescadores, pois ta td mundo arrumando ou consertando redes ou canoas na rua..

Seguindo a estrada, paro pra beber minha 1ª cervejinha numa cantininha sem movimento algum, as dez. Enquanto aprecio a bela vista do mar, a praia estreita sem banhistas, converso rapidamente com um caseiro dali q, pra variar, acha q vendo bijouterias (novamente!) É incrível como é dificil deles compreenderem como alguem anda mochilado dias a fio apenas pelo prazer de faze-lo.. Alem disso, conta q Poças recebe este nome devido aos inúmeros recifes na água, q na maré baixa formam poças, mas q é justamente pela presença de pedras em abundancia q os turistas evitam banho ali. A praia era de fato estreita e inclinada, e o maximo q se podia fazer mesmo era tomar sol.

Deixo Poças ainda pela estradinha de terra e areia, q agora segue sinuosa adentrando num vasto coqueiral, q me agracia com sua sombra diante do sol e calor dos infernos q comeca a fazer. Nesta estradinha há muitos carangueijos atropelados, e nas clareiras de restinga diviso vários cactos q emergem discretos da areia.

Chego em Siribinha 7km após, com sol a pino. Hora de descansar, claro!É aqui tb onde a estradnha termina, pois adiante esta a foz do enorme Rio Itapicuru, q acompanha tanto Poças qto Siribinha atrás das mesmas num estenso manguezal. O vilarejo, originalmente uma vila de pescadores esta assentado nas pequenas dunas q se espremem entre o rio e a praia, é bem maior q Poças, detinha mais infra e era + simpático. Um palco médio acomodado no fim da estrada indicava q ali deviam ocorrer shows de verao.

Num quiiosque utilizo a ducha pra amenizar o calor das dez da manha! Dali à praia é um paso, após algumas casas, onde turistas desfrutam da razoavel faixa de areia claríssima - entre coqueiros, amendoeiras e mandacarus - q contrasta com o azul intenso do mar. Em seguida coleto informações sobre barco pra atravessar o rio ate q negocio com um cara q leva banhistas a passeio rio adentro. Ele diz q me pega assim q voltar, ótimo. Com tempo pra descanso, aproveito pra almoçar numa casa adaptada pra restaurante, onde detono um pf de mariscos q tava uma delicia! Afinal, preciso de comida mesmo, algo "pra dá sustança", como se diz aqui.

Por volta de meio-dia, me dirijo as docas atrás da cidade, de frente para um gde, denso e extenso manguezal, aqui chamado de "pantanal bahiano" e embarco na lancha do cara c/ quem combinara anteriormente. A viagem continua pelas águas mansas enorme Rio Itapicuru ainda um kilometro ate a foz, acompanhado por faixas de dunas de ambos os lados. Muito bonito. À esquerda, é possível ver a trilha q segue duna adentro e leva, atraves dos coqueirais, à atração do local, um tal de "Cavalo Russo", um lago de água doce de um afluente do rio ao pé de uma duna.

10min de viagem ate a foz, o cara encosta na outra margem do rio onde salto bem disposto. Mochila nas costas e pé na areia novamente, a praia é enorme, parece não ter fim. Larga, plana e firme, não oferece problema algum pra caminhar. A diferença é q a areia é claríssima, quase-branca e naquele horaio de sol a pino a faixa branca sem-fim chega a ofuscar a vista!! Como sempre, a praia é deserta, sem nenhuma alma viva ate onde a vista se perde, seja ao norte, seja pro lado, onde dunas brancas começam aser mais freqüentes e maiores, chegando a engolir parcialmente os coqueirais e as cercas q eventualmente nos acompanham! E assim, percorro os 10km q me separam do próximo povoado.

Duas e quinze da tarde, cansado, chego finalmente em Costa Azul. À primeira vista não se vê nada em meio as dunas, apenas um punhado de quiosques bem simples e rústicos a beira-mar. A minúscula vila esta logo atrás, escondida em meio as dunas e coqueiros. Claro q me dirijo num quiosque pra relaxar (e beber mais uma cerveja) e, após uma chuveirada basica, encosto ali mesmo e descanso o restante da tarde, ao som de um reggae c/ forró da barraca ao lado, q dispõe ate de rede pros fregueses. Aqui não há muitos turistas, o q se reflete na escassa infra, parece q esta linda praia é fequentada mais pelos habitantes q por turistas, o q é uma pena. Ou quiçá não. A vila é um ovo, algumas travessas de areiao, casas simples, etc..

Antes do por-do-sol levanto a bunda do bar e busco um lugar decente pra acampar. À esquerda da vila e atrás das dunas há um descampadao de restinga rala, perto dos coqueirais e do lado de um campinho de futebol, é ali mesmo! É domingo e os armazéns e padarias já estão fechados, o q me obriga a racionar o q já disponho pra comer, isto é, suco, pão e meu ultimo miojo.

Ao anoitecer, já bem acomodado na barraca, ouço alguém me chamando na porta da barraca. Ai, ai, ai..só falta eu estar em local proibido e estarem me enxotando dali... Mas, pra minha surpresa, era um local me oferecendo hospedagem na casa dele!!?? Isso comprova definitivamente a gentileza e hospitalidade do povo simples dali, sempre disposto a dar uma mão a quem vem de fora. Meio ate q sem jeito, recuso a generosa oferta pois já estava bem instalado ali e na verdade estava cansado, nem um pouco afim de levantar pra deslocar a barraca. Mas mesmo assim agradeço o cara, sem duvida.

O resto da noite foi tranqüila, mesmo o burburinho q vinha dos quiosques não durou muitoe logo a vila entrou num silencio profundo, rompido apenas pelas arrebentações do mar ao lado. Ah, o céu estava belamente estrelado e apaguei antes das 20hrs. Dormi muito bem, e precisava muito disso, pois o dia seguinte seria o mais puxado de todos.

 

8º DIA - ETA, ETA, ETA..ENFIM, MANGUE SECO!!!

Levantei antes do amanhecer por razoes obvias, as cinco. Seriam quase 30km ate o destino final, de um pique só, e não queri andar sob o sol forte do meio dia. Belisquei alguma coisa e coloquei td na mochila, enquanto uma leve brisa soprava do mar e céu ganhava a claridade do dia, lentamente.

Subi a duna pra ganhar novamente a praia à meus pés, e lá vou eu pra minha pernada final, deixando Costa Azul - q ainda dorme - pra atrás. Olhando pra frente, eu via uma faixa larga de areia clara q se perdia no horizonte, acompanhada de um coqueiral tb sem fim. O chão é duro, não há dificuldade alguma em caminhar. À minha direita, lentamente, o sol desponta no mar no mar, dando à alvorada uma coloração vermelho-alaranjado q se esparrama pelas poucas nuvens ao leste.

O tempo vai passando e a paisagem permanece imutável; apenas o sol esta + forte, tostando o lado direito do meu rosto, ao mesmo tempo em q deixa mais evidente a claridade da areia, de tão branca q é. Agora as extensas faixas de coqueirais vão se alternando com enormes e amplas planícies de restinga rasteira, onde dá pra enxergar kilometros à oeste pequenos morrotes cobertos de vegetação. Olhando adiante, parece q não avancei nada e aquela ponta no extremo norte parece inalcançável.

Apesar da bela paisagem, a solidão e a caminhada vai se tornando tediosa e busco alternativas pra torna-la tolerável, seja tampando buracos de siris, contando conchas, cantando alto ou andando de costas. Aqui paro pra descansar num banco de areia e beber alguma coisa. Mais adiante haviam uns poucos pescadores, q com suas linhas ao mar pareciam estar "empinando" pipa. O sol forte me obriga a colocar meu turbante improvisado do dia anterior, e felizmente corre uma brisa q ameniza o calor refletido da areia.

Nove e meia da matina e + da metade do caminho percorrido, já consigo ver ao longe a ponta cada vez mais próxima. Pra minha felicidade já consigo distinguir o brilho do farol de Mangue Seco, mas ainda falta bastante. As faixas de planície foram deixadas pra trás, agora é uma enorme praia alva e um coqueiral em meio a dunas q me acompanham ate o fim. Num trecho da praia, perto dos coqueirais, vejo uma pequena construção de palha bem rústica e é la q vou descansar e me proteger do sol. Chegando la vejo q era um quiosque abandonado, e infelizmente não tinha nenhum isoporzinho básico, pois minha agua ta nos finalmentes.

Bem, a proximidade de meu destino (e de cervejinha gelada!) já é motivação pra colocar pé na areia novamente e la vou eu pela bela praia, cuja claridade naquele horario chega a ofuscar a vista! Aos poucos, as dunas tornam-se maiores e logo elas passam literalmente a engolir os coqueirais! A praia é muito bonita e deserta, mas aos poucos vejo marcas de bugge e de cavalos, sinal q to quase lá.

São onze hrs, sol de rachar e já devo estar quase lá. As famosas e enormes dunas alvas já me acompanham por um bom tempo, e consigo ver gente caminhando pela orla, ao longe. Cheguei! Meia hora depois, e já quase bem cansado, percebo q bem amis adiante aquela ponta q vira entra numa enseada. Claro q não sigo pela praia e corto caminho em meio as belas dunas, nas quais pode-se andar quase-bem não fosse a areia clara e fina. O engraçado é q as dunas soterraram td a tal ponto q vc anda com a copa dos coqueiros a mostra, no chão, sendo possível pegar um coco apenas esticando o braço,se quisesse. Olhando à sudoeste vejo alguns bugges percorrendo as brancas dunas, q contrastam lindamente com o azul do mar! Aqui descanso brevemente sob a sombra de um coqueiro apenas pra curtir o visual, q de tão bonito serviu de cenário pra Tieta (o livro e filme).

Em pouco tempo chego na praia principal de Mangue Seco, uma pequena enseadinha (logo após a ponta), onde logo depois há um gde mangue q precede o Rio Real, o maior rio de toda travessia e q faz jus ao nome q tem. É imenso em largura e comprimento. Na verdade Mangue Seco fica isolada numa enorme península e aqui so se chega de barco, atravessando o rio. Vou pros quiosques e barraquinhas - todos c/ rede - comemorar minha chegada, sem duvida! Há poucos turistas oq é ótimo.

Enquanto mando ver 2 Skin estupidamente geladas pra abrandar o calor, converso com a atendente, q devia estar entediada por não haver nenhum freguês ali. Cada morador dali tem uma historia pra te contar sobre o filme e de Jorge Amado, bem legal! A sola de meus pés sentiam a longa caminhada daquele dia, tavam ate levemente esfolados..Pergunto por chuveiro e nada, não havia. Mas havia um "poço" bem do lado, q consistia num cano de pvc enfiado na areia no qual havia outro cano dentro puxado por uma corda. Tirei água dali mesmo pra molhar a cabeça e bebericar, embora o gosto fosse o mais ferruginoso de todos..

Fiquei um bom tempo descansando, o local é muito convidativo, mas meu cronograma tava estourando. Poderia ter pernoitado ali, havia muito espaço entre as dunas, mas resolvi arredar pé dali. A travessia havia sido concluída com sucesso! Sob sol escaldante, deixo a praia por uma estrada de areiao q tava muito quente em direção à vila, uns 500m dali, espremida entre as dunas/restinga e o Rio Real. Do lado do rio, muito mangue..seco, claro! Uma preocupação evidente da vila, pequenina c/ praça, igreja e pouca infra, é o avanço das dunas de um lado e aumento da barra do rio noutro. É bom vir pra cá o qto antes entao, pois se não for o turismo desordenado, provavelmente sera a própria natureza q se encarregará de soterrar esta bela e simpática vila.

A VOLTA

Na vila, vários barcos, botes e lanchas flutuam ancorados na beira do enorme rio. São uma e meia da tarde e felizmente há um barco saindo pra Pontal, na outra margem, já em Sergipe. O q se segue é uma maratona de distancias percorridas quase q seqüencialmente pra chegar a Salvador. Após a viagem de 20min ate Pontal, consigo carona numa perua q me leva, sacolejante, atraves de uma estrada poeirenta no meio do nada (salvo os engenhos desaivados e vilas como Terra Caída e Indaiaroba), pra depois tomar o asfalto ate Regência, perto de Aracaju. Lá, a espera me dá tempo suficiente pra tomar banho numa pousada e me "enfiarem", as 15:30, no único lugar vago num busao de passagem pra Salvador, onde cheguei as 19hrs, após retornar pela estrada q eu acompanhara paralelamente durante aqueles oito dias seguidos. A Linha Verde enfim é isso, uma estrada ecológica q nos leva a um punhado de praias selvagens, protegidas por dunas e coqueiros, com uma lagoazinha aqui, uma barra de rio acolá. Todas enfim, disputando entre si o titulo de mais bonita, mas isso cabe a vc decidir. Agora, pela estrada ou pela praia? Bem, a escolha é sua.

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rapaa.... não sei se aguentaria esse trecho todo sozinha. Mas na hora de achar um parceiro pra fazer a caminhada comigo vou nessa. O teu relato é lindo demais e dá mta vontade de conhecer essas praias do mesmo jeito. (conheco bem jauá, arembepe e conde.....mas não dessa maneira).

que texto lindo!

 

Cara, que relato incrível! Como já conheço a maioria dessa praias (separadamente), pude ir pintando quadros na minha mente. Valeu por ter despertado o desejo de embarcar nessa aventura.

 

Cristina...

 

Se você topar, eu tô dentro! É só entrar em contato pra avaliarmos tudo.

 

Um abraço, Linsmar

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  • 3 meses depois...
  • 1 ano depois...
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Cara muito legal o relato. Mais legal ainda sua capacidade de transmitir sensações, emoções e as características de tudo. Conheci Mangue Seco em 2001, mas foi aquela viagem "sem graça" com parentes e tudo mais, com todo conforto do mundo e tal. Fiquei bem interessado em fazer este roteiro, só não animo ir sozinho, tenho um certo receio de assaltos e coisas do tipo, sem falar que repudio a solidão. Valeu pelo relato!!!

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E aí cara!

Preciso de mais algumas informções desse roteiro.

infelizmente vai ficar pra próxima fazê-lo a pé pois não encontrei compania.

Como faço pra ir do Aeroporto de Fortaleza pra Pontal de ônibus? Tem algum bus que vai pra lá? O que vc me diz de passar uns dois dias em Arembepe e depois pegar um bus pra Mangue Seco, rola?

Se puder me add no msn, fico agradecido: [email protected]

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  • 4 semanas depois...

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