A idéia de ir para a Bolívia surgiu após eu saber de uma promoção da Gol com passagens de retorno por R$ 39,00. Não resisti e comprei: vôo direto São Paulo/Santa Cruz de La Sierra ida e volta por R$ 436,00 incluindo taxas.
Eu teria 19 dias e o roteiro inicialmente seria:
- SCLS-Sucre(avião)
- Sucre-Uyuni(ônibus)
- Uyuni-Oruro(trem)
- Oruro-La Paz(ônibus)
- La Paz-Copacabana-Isla del Sol(ônibus/barco)
- Copacabana-Puno(ônibus)
- Puno-Cuzco(ônibus)
- Cuzco-Ollantaytambo(ônibus)
- Ollantaytambo-Águas Calientes(trem)
- Cuzco-Lima(ônibus)
- Lima-SCLS(avião).
Eu não estava contente com esse roteiro por vários motivos: seria muito corrido, custaria muito caro, não dava margem a imprevistos e o principal: tava muito “turisticão”. Eu não consigo me contentar em apenas visitar os lugares mais bonitos ou mais famosos. Em uma viagem eu gosto de ter contato com a população local, ver como é a vida das pessoas e ser surpreendida por alguma coisa diferente.
A mudança foi inevitável quando eu vi um vídeo sobre o Buscarril, um ônibus que trafega sobre trilhos. Na Bolívia existem dois trechos que utilizam esses veículos: Sucre-Potosi e Aiquile-Cochabamba. São verdadeiros dinossauros das ferrovias, uma preciosidade. Eu precisava ver isso de perto e seria de Aiquile a Cochabamba,o trecho mais longo.
Acabei mudando tudo. Decidi cortar Cuzco e Machu Pichu e deixar para curtir esses lugares com calma em uma próxima viagem. Assim sobrou mais tempo para conhecer a Bolívia.
O roteiro ficou assim:
- SCLS-La paz(ônibus)
- La Paz-Copacabana-Isla del Sol(ônibus/barco)
- Copacabana-Puno(ônibus)
- Puno-La Paz(ônibus)
- La Paz-Oruro(ônibus)
- Oruro-Uyuni(trem) (*)
- Uyuni-Sucre(ônibus)
- Sucre-Aiquile(ônibus)
- Aiquile-Cochabamba(Buscarril)
- Cochabamba-SCLS(ônibus)
(*)Não consegui fazer a viagem de trem entre Oruro e Uyuni por conta de um atraso nos primeiro dias.
Nessa viagem a minha maior preocupação era com os efeitos da altitude sobre o meu corpo. O famoso "Soroche" já estragou a viagem de muita gente e eu tinha muitos motivos para crer que comigo não seria diferente: 50 anos, asmática e extremamente sedentária. Prá piorar, morando em São Paulo, que naquele momento passava por uma seca sem precedentes e com um nível altíssimo de poluição, a minha capacidade respiratória era a pior possível.
A recomendação era evitar o esforço físico, beber muita água(nunca das fontes) e fugir das bebidas alcoólicas. Não segui nenhuma dessas recomendações. O que aconteceu? Vamos ao relato.
Dia 15/09/2014
Mais uma vez partindo em viagem solo na companhia da minha mochila escolar, dessa vez um pouco mais gordinha por causa das roupas de frio(a mochila e não eu).
Sai de SP às 11:00 e cheguei em SCLS às 13:00( horário local que é de 1 hora a menos que no Brasil).
Troquei alguns dólares por bolvianos no aeroporto de Viru-viru e tomei um táxi para o Terminal Bimodal (Bs 60). Chegando lá, o auto falante anunciava o bloqueio em diversas estradas da Bolívia e a suspensão de saídas de ônibus para alguns lugares.
Por isso é importante fazer um roteiro com uma certa folga, já que esses bloqueios acontecem com bastante frequência.
Fui me informar sobre as saídas para La Paz e me disseram que a estrada nova estava bloqueada, mas que seria possível ir pela estrada antiga. A viagem que dura cerca de 8 horas levaria 18 horas pela estrada velha. Sem outra opção, comprei a passagem para o próximo horário às 16:00.
Tive tempo suficiente para almoçar e comprar água e lanche para a viagem. Comprei pães de queijo, que eles chamam de Cuñape (um pacotão com uns vinte pães por Bs 10).
Embarquei antes das 16:00 em um ônibus leito bastante confortável. Passou uma hora, passou duas e nada do ônibus partir. Era mais ou menos 18:10 quando finalmente saímos do terminal. Logo escureceu e eu dormi. Acordei às 23:00 com o ônibus parando no meio da estrada. Tudo escuro, mas ainda consegui ver umas árvores na beira da estrada.
Dia 16/09/2014
Dormi novamente e quando acordei já havia amanhecido e ao olhar pela janela vi as mesmas árvores da noite anterior. Ficamos parados ali a madrugada inteira, mas porquê? Olhei mais adiante e vi uma fila de ônibus e caminhões parados e nenhum veículo vindo pelo lado oposto. As pessoas desciam dos ônibus e tentavam buscar uma explicação para aquilo. Logo veio a notícia: a 3 km dali havia dois caminhões atravessados na pista impedindo a passagem nos dois sentidos. Até hoje não sei se foi um acidente ou um protesto.
Desci do ônibus para esticar as canelas e também para achar um lugar discreto para fazer xixi. O lugar era muito bonito, com muitas árvores e dali dava pra ver uma cachoeira.
Do lado direito, a encosta da montanha com algumas fontes onde o pessoal aproveitava para lavar o rosto e abastecer as garrafinhas. Do lado esquerdo, um barranco bastante íngreme que acabava nas margens do rio. Só havia um lugar plano e uma pequena moita que as pessoas usavam como banheiro. Fui para a moita e descobri que quem estava dentro do ônibus conseguia ver tudo lá de cima. Foi o primeiro xixi com platéia (entre muitos) ao longo dessa viagem pela Bolívia. E quer saber, não me senti constrangida. É libertador abandonar esse tipo de frescura. Quando voltei pra São Paulo, a minha prima até brincou comigo dizendo: “_ Vai tratando de se livrar desse espírito de chola! Não vai querer fazer xixi em plena Av. Paulista, heim?”
As horas demoravam pra passar e não havia previsão para a liberação da estrada. Muita gente caminhando pelo acostamento, alguns arrastando malas de rodinha, outros carregando melancias e laranjas que conseguiram comprar em algum sítio por ali. Em um determinado momento surgiu uma caminhonete com a caçamba cheia de peixes, provavelmente alguém que estava pescando nas imediações. Alguns peixes foram doados e as pessoas fizeram uma fogueira e assaram os peixes ali mesmo.
Lá pelas 16:00 começaram a passar os carros vindos do sentido contrário e às 17:00 finalmente reiniciamos a viagem.
Dia 17/09/2014
Chegamos em La Paz às 4:00, no total 36 horas dentro do ônibus, ãã2::'> um dia perdido e eu teria que refazer o roteiro. Mas tudo o que eu queria naquele momento era chegar no hostel, tomar um banho e descansar o meu esqueleto. Peguei um táxi e fui para o Hostal Alsigal onde eu tinha uma reserva. Fiquei um tempão tocando a campainha e ninguém aparecia para abrir a porta, quando enfim surgiu um rapaz com a cabeça toda ensaboada, devia estar no banho. Pedi desculpas por estar ali tão cedo e no dia seguinte a minha reserva e expliquei o acontecido. O rapaz foi bem simpático e permitiu que eu ocupasse o quarto antes do horário de check-in. O hotel não é grande coisa, há outros bem melhores, mas do jeito que eu tava acabada, achei ótimo.
Acordei lá pelas 10:00 e fui conhecer o centro de La Paz.
Troquei alguns dólares ao lado da Igreja de San Francisco e fui até a Calle Illampu para comprar um casaco. Não comprei um “The North Fake”, mas comprei um casaco made in China autêntico por Bs 250. Gostei do casaco, impermeável, com forro quentinho e que se comportou bem no Chacaltaya e em Uyuni.
Pesquisei o preço dos passeios para o Chacaltaya e acabei fechando por Bs 100 e o transporte para Uyuni por Bs 250. Eu faria o passeio no dia 23 e à noite seguiria para Uyuni. O plano era ir de ônibus para Oruro e de lá pegar o trem para Uyuni, mas como perdi um dia no início da viagem por conta do bloqueio da estrada, resolvi ganhar tempo indo de ônibus.
Almocei no Snack Tia Gladys e aproveitei para levar algumas empanadas e doces para comer à noite. Andei um pouco pela Calle de Las Brujas e voltei para o hostel. Não queria abusar da sorte, porque até então não tinha sentido o soroche. No final das contas acho que aquelas 36 horas plantada na estrada serviram bem para me acostumar com a altitude. Há males que vem pra bem, por isso é que não reclamo quando acontece alguma “zebra”. Por falar em zebra, adorei ver as zebras em ação em meio ao trânsito caótico de La Paz. Jovens fantasiados de zebra realizam um trabalho de educação no trânsito com bom humor e muita simpatia.
18/09/2014
Acordei cedo e peguei a van que vai pro cemitério(Bs 1,50). Chegando lá, havia a opção de pegar um ônibus ou uma van para Copacabana. O ônibus é mais confortável, mas ia demorar para sair então peguei a van mesmo(Bs 20). Depois de 2:30 de viagem foi preciso descer da van e atravessar o Estreito de Tiquina de barco (paga-se Bs 2). Os veículos fazem a travessia em balsa e é preciso esperar um pouco para então seguir por mais 40 min até Copacabana. A viagem entre La Paz e Copacabana é muito agradável, a paisagem é linda e passa rapidinho.
O nome Copacabana vem da expressão aymara “kota kahuana”, que significa “vista do lago”. A Copacabana carioca veio bem depois, quando comerciantes espanhóis levaram para o Rio de Janeiro uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana. Uma igreja foi construída para abrigar essa imagem e com o tempo o local cresceu e deu origem ao bairro.
Em Copacabana me hospedei no Hostal Colonial del Lago. Localização ótima, perto de tudo. Quarto espaçoso, com banheiro privativo e chuveiro a gás (Bs 50). Só o café da manhã que deixa a desejar.
Fui dar uma volta no cais e já comprei a passagem de barco para a Isla del Sol às 8:30 do dia seguinte. Atenção ao comprar o ticket: há duas opções, Challapampa - lado norte da ilha(Bs 25) ou Yumani – lado sul(Bs20). Eu já tinha planejado ir para o lado norte e seguir pela trilha até o lado sul onde eu passaria a noite.
Almocei em um pequeno restaurante na Av. 6 de agosto. Pedi o menu econômico(sopa de quinua, truta, arroz, batatas fritas e banana de sobremesa) por Bs 22. O preço é bem em conta, mas o peixe servido é bem pequeno. Vale a pena pagar um pouco mais e comer uma truta no capricho.
Depois do almoço passei na Tourperu para comprar a passagem para Puno no dia 20. Na mesma rua há várias agências que vendem passagens para Puno, algumas da própria Tourperu. Chegando no escritório da Tourperu o cara me cobrou 40, aí eu perguntei como que na agência ao lado estavam cobrando Bs 30 pela mesma passagem. O sujeito ficou sem jeito e me cobrou 30. Vai saber se o valor não é menor que isso. Então é bom pesquisar antes.
Tomadas todas as providências, hora de passear.
Fui conhecer a Igreja de Nossa Sra. De Copacabana. Chegando em frente a igreja, um padre estava benzendo um carro e um caminhão. Aos sábados há um número maior de carros e a benção se transforma numa grande celebração.
Seguindo por uma rua em frente a igreja chega-se ao início do caminho que leva ao Monte Calvário.
Ao longo desse caminho foram construídos marcos representando as 14 estações da Via Sacra. A subida é um pouco cansativa, mas o visual lá de cima compensa. Muita gente vai para lá no final da tarde para ver o por do sol, mas nesse dia uma tempestade estava se formando e eu decidi descer. Choveu forte durante toda a noite e eu já estava triste por ter que desistir do passeio a Isla del Sol.
19/09/2014
Para minha alegria o dia amanheceu ensolarado. Paguei a conta do hostel e pedi para guardarem minha mochila até o dia seguinte. Comprei bananas, maçãs e água para comer ao longo da trilha (foi bom ter levado, porque só havia um único ponto de venda no caminho). O barco chegou às 10:00 em Challapampa e logo um guia se apresentou e explicou como seria a visita e também sobre a tarifa de ingresso no lado norte (Bs 10) e no lado sul(Bs 15). Não curto muito essas visitas guiadas, principalmente com um grupo grande, mas achei que valeu a pena ouvir as explicações.
O bilhete de acesso ao lado norte dava direito a visita ao Museu del Oro, cujo acervo traz artigos e artefatos feitos pelos povos pré-colombianos, porém não há ali nenhuma peça de ouro. Perguntei ao guia onde estavam as peças de ouro que foram encontradas e ele me respondeu que estão na ilha mesmo, só que muito bem escondidas e protegidas por pessoas da comunidade. Será???
Saindo do museu iniciamos a caminhada rumo a um lugar sagrado onde encontra-se a Pedra do Puma, a Mesa Ritual e o Labirinto Chinkana, passando por uma prainha linda de águas cristalinas.
O caminho é tranquilo apesar de ser uma subida, mas se quiser acompanhar as explicações do guia tem que ir num ritmo meio acelerado.
Ao final do passeio um grupo iniciou a trilha para o lado sul e o outro retornou ao cais.
Esperei todos irem embora e fiquei algum tempo a sós desfrutando daquele lugar tão especial. Comecei a caminhada somente às 13:00 depois de comer um sanduíche que eu havia comprado no cais e uma banana. A trilha é bem demarcada e não há como se perder. As paisagens que vão surgindo, conforme vamos avançando, não tem como descrever, só vendo mesmo. Parei muitas vezes, não por causa do cansaço, mas para deixar que o silêncio e a beleza do lugar tomassem conta de mim. Que lugar maravilhoso! Na minha opinião visitar a Isla del Sol e não fazer essa caminhada é disperdiçar 50% do passeio.
Acho que a cobrança de pedágio ao longo da trilha varia conforme a sorte da pessoa. Li alguns relatos que falam de três, quatro pedágios. Só me cobraram a entrada no lado norte e na metade do caminho, a entrada para o lado sul. Recebi um comprovante em cada um desses lugares e tive que apresentar no final da trilha, um pouco antes de chegar a Yumani.
O lado sul tem várias pousadas. As mais caras são as que ficam mais próximas do final da trilha, com terraços de onde se pode ver o por-do-sol.
Caminhei um pouco mais e encontrei o Hostal Casa de La Luna. A pousada tem apenas 3 quartos e tem um restaurante que serve comidas simples e um ótimo café da manhã com suco de laranja feito na hora (uma raridade na Bolívia).
Fiquei no quarto que fica ao lado de um jardim cheio de flores.
Sem dúvida a melhor hospedagem de toda a viagem. Um quarto com dois ambientes, banheiro grande, tudo novinho, vista para o lago Titicaca por Bs 80.
20/09/2014
No dia seguinte acordei cedinho para ver o nascer do sol. A essa hora não vi nenhum turista, apenas os moradores com suas lhamas e burricos.
O café só ia ser servido após às 8:30 e eu tinha algum tempo para passear. Subi um morro que tem ao lado da vila e no meio do caminho arrumei a companhia de um perrito muito animado.
A vista lá do alto é linda e dá vontade de ficar horas ali, mas eu tinha que descer, tomar meu café e seguir para o cais.
Ainda deu tempo de passear um pouco pela escalera inca e beber a água da fonte da juventude com suas três vertentes que representam as três virtudes incas:
- Não seja preguiçoso (Ama K'ella).
- Não seja mentiroso(Ama Llulla).
- Não seja ladrão (Ama Sua)
Bebi a água dessa fonte e não tive piriri, mas é meio arriscado porque não sabemos de onde vem essa água.
O barco saiu do lado sul às 10:30 e chegou em Copacabana ao meio-dia. Almocei em um restaurante de frente pro lago (dessa vez veio uma truta descente).
Passei no hostal para pegar minha mochila e às 13:30 peguei o ônibus para Puno.
Lá pelas 17:00 cheguei em Puno. Eu deixei de trocar os dólares por soles na fronteira e me dei mal. O câmbio na rodoviária estava horrível, mas tive que aceitar porque não tinha dinheiro para o táxi e além disso eu queria comprar com antecedência a passagem de volta para La Paz.
Fiquei no Hostel El Manzano que fica perto do porto de onde saem os passeios de barco a Uros. O hostel é razoável, a equipe que trabalha lá é muito amável, mas o local não inspira segurança, assim como toda a cidade de Puno. Já era noite e eu fui a pé para o centro em busca de algo para comer. Só tinha pollo com papas fritas, as pizzarias ainda estavam fechadas e acabei comendo um sanduíche qualquer. Fiquei sem coragem de voltar a pé e perguntei ao garçom se seria seguro pegar um tuc-tuc. Ele respondeu que não, porque muitos deles costumam assaltar os turistas e que o ideal seria pegar um táxi, com vidros transparentes e com as luzes internas acesas. Tenso!
Fiz o que o garçom recomendou e cheguei inteira ao hostel.
A idéia de ir para a Bolívia surgiu após eu saber de uma promoção da Gol com passagens de retorno por R$ 39,00. Não resisti e comprei:
vôo direto São Paulo/Santa Cruz de La Sierra ida e volta por R$ 436,00 incluindo taxas.
Eu teria 19 dias e o roteiro inicialmente seria:
- SCLS-Sucre(avião)
- Sucre-Uyuni(ônibus)
- Uyuni-Oruro(trem)
- Oruro-La Paz(ônibus)
- La Paz-Copacabana-Isla del Sol(ônibus/barco)
- Copacabana-Puno(ônibus)
- Puno-Cuzco(ônibus)
- Cuzco-Ollantaytambo(ônibus)
- Ollantaytambo-Águas Calientes(trem)
- Cuzco-Lima(ônibus)
- Lima-SCLS(avião).
Eu não estava contente com esse roteiro por vários motivos: seria muito corrido, custaria muito caro, não dava margem a imprevistos e o principal: tava muito “turisticão”. Eu não consigo me contentar em apenas visitar os lugares mais bonitos ou mais famosos. Em uma viagem eu gosto de ter contato com a população local, ver como é a vida das pessoas e ser surpreendida por alguma coisa diferente.
A mudança foi inevitável quando eu vi um vídeo sobre o Buscarril, um ônibus que trafega sobre trilhos. Na Bolívia existem dois trechos que utilizam esses veículos: Sucre-Potosi e Aiquile-Cochabamba. São verdadeiros dinossauros das ferrovias, uma preciosidade. Eu precisava ver isso de perto e seria de Aiquile a Cochabamba,o trecho mais longo.
Acabei mudando tudo. Decidi cortar Cuzco e Machu Pichu e deixar para curtir esses lugares com calma em uma próxima viagem. Assim sobrou mais tempo para conhecer a Bolívia.
O roteiro ficou assim:
- SCLS-La paz(ônibus)
- La Paz-Copacabana-Isla del Sol(ônibus/barco)
- Copacabana-Puno(ônibus)
- Puno-La Paz(ônibus)
- La Paz-Oruro(ônibus)
- Oruro-Uyuni(trem) (*)
- Uyuni-Sucre(ônibus)
- Sucre-Aiquile(ônibus)
- Aiquile-Cochabamba(Buscarril)
- Cochabamba-SCLS(ônibus)
(*)Não consegui fazer a viagem de trem entre Oruro e Uyuni por conta de um atraso nos primeiro dias.
Nessa viagem a minha maior preocupação era com os efeitos da altitude sobre o meu corpo. O famoso "Soroche" já estragou a viagem de muita gente e eu tinha muitos motivos para crer que comigo não seria diferente: 50 anos, asmática e extremamente sedentária. Prá piorar, morando em São Paulo, que naquele momento passava por uma seca sem precedentes e com um nível altíssimo de poluição, a minha capacidade respiratória era a pior possível.
A recomendação era evitar o esforço físico, beber muita água(nunca das fontes) e fugir das bebidas alcoólicas. Não segui nenhuma dessas recomendações.
O que aconteceu? Vamos ao relato.
Dia 15/09/2014
Mais uma vez partindo em viagem solo na companhia da minha mochila escolar, dessa vez um pouco mais gordinha por causa das roupas de frio(a mochila e não eu).
Sai de SP às 11:00 e cheguei em SCLS às 13:00( horário local que é de 1 hora a menos que no Brasil).
Troquei alguns dólares por bolvianos no aeroporto de Viru-viru e tomei um táxi para o Terminal Bimodal (Bs 60). Chegando lá, o auto falante anunciava o bloqueio em diversas estradas da Bolívia e a suspensão de saídas de ônibus para alguns lugares.
Por isso é importante fazer um roteiro com uma certa folga, já que esses bloqueios acontecem com bastante frequência.
Fui me informar sobre as saídas para La Paz e me disseram que a estrada nova estava bloqueada, mas que seria possível ir pela estrada antiga. A viagem que dura cerca de 8 horas levaria 18 horas pela estrada velha. Sem outra opção, comprei a passagem para o próximo horário às 16:00.
Tive tempo suficiente para almoçar e comprar água e lanche para a viagem. Comprei pães de queijo, que eles chamam de Cuñape (um pacotão com uns vinte pães por Bs 10).
Embarquei antes das 16:00 em um ônibus leito bastante confortável. Passou uma hora, passou duas e nada do ônibus partir. Era mais ou menos 18:10 quando finalmente saímos do terminal. Logo escureceu e eu dormi. Acordei às 23:00 com o ônibus parando no meio da estrada. Tudo escuro, mas ainda consegui ver umas árvores na beira da estrada.
Dia 16/09/2014
Dormi novamente e quando acordei já havia amanhecido e ao olhar pela janela vi as mesmas árvores da noite anterior. Ficamos parados ali a madrugada inteira, mas porquê?
Olhei mais adiante e vi uma fila de ônibus e caminhões parados e nenhum veículo vindo pelo lado oposto. As pessoas desciam dos ônibus e tentavam buscar uma explicação para aquilo. Logo veio a notícia: a 3 km dali havia dois caminhões atravessados na pista impedindo a passagem nos dois sentidos. Até hoje não sei se foi um acidente ou um protesto.
Desci do ônibus para esticar as canelas e também para achar um lugar discreto para fazer xixi. O lugar era muito bonito, com muitas árvores e dali dava pra ver uma cachoeira.
Do lado direito, a encosta da montanha com algumas fontes onde o pessoal aproveitava para lavar o rosto e abastecer as garrafinhas. Do lado esquerdo, um barranco bastante íngreme que acabava nas margens do rio. Só havia um lugar plano e uma pequena moita que as pessoas usavam como banheiro. Fui para a moita e descobri que quem estava dentro do ônibus conseguia ver tudo lá de cima. Foi o primeiro xixi com platéia (entre muitos) ao longo dessa viagem pela Bolívia. E quer saber, não me senti constrangida. É libertador abandonar esse tipo de frescura. Quando voltei pra São Paulo, a minha prima até brincou comigo dizendo: “_ Vai tratando de se livrar desse espírito de chola! Não vai querer fazer xixi em plena Av. Paulista, heim?”
As horas demoravam pra passar e não havia previsão para a liberação da estrada. Muita gente caminhando pelo acostamento, alguns arrastando malas de rodinha, outros carregando melancias e laranjas que conseguiram comprar em algum sítio por ali. Em um determinado momento surgiu uma caminhonete com a caçamba cheia de peixes, provavelmente alguém que estava pescando nas imediações. Alguns peixes foram doados e as pessoas fizeram uma fogueira e assaram os peixes ali mesmo.
Lá pelas 16:00 começaram a passar os carros vindos do sentido contrário e às 17:00 finalmente reiniciamos a viagem.
Dia 17/09/2014
Chegamos em La Paz às 4:00, no total 36 horas dentro do ônibus,
ãã2::'> um dia perdido e eu teria que refazer o roteiro. Mas tudo o que eu queria naquele momento era chegar no hostel, tomar um banho e descansar o meu esqueleto. Peguei um táxi e fui para o Hostal Alsigal onde eu tinha uma reserva. Fiquei um tempão tocando a campainha e ninguém aparecia para abrir a porta, quando enfim surgiu um rapaz com a cabeça toda ensaboada, devia estar no banho. Pedi desculpas por estar ali tão cedo e no dia seguinte a minha reserva e expliquei o acontecido. O rapaz foi bem simpático e permitiu que eu ocupasse o quarto antes do horário de check-in. O hotel não é grande coisa, há outros bem melhores, mas do jeito que eu tava acabada, achei ótimo.
Acordei lá pelas 10:00 e fui conhecer o centro de La Paz.
Troquei alguns dólares ao lado da Igreja de San Francisco e fui até a Calle Illampu para comprar um casaco. Não comprei um “The North Fake”, mas comprei um casaco made in China autêntico por Bs 250. Gostei do casaco, impermeável, com forro quentinho e que se comportou bem no Chacaltaya e em Uyuni.
Pesquisei o preço dos passeios para o Chacaltaya e acabei fechando por Bs 100 e o transporte para Uyuni por Bs 250. Eu faria o passeio no dia 23 e à noite seguiria para Uyuni. O plano era ir de ônibus para Oruro e de lá pegar o trem para Uyuni, mas como perdi um dia no início da viagem por conta do bloqueio da estrada, resolvi ganhar tempo indo de ônibus.
Almocei no Snack Tia Gladys e aproveitei para levar algumas empanadas e doces para comer à noite. Andei um pouco pela Calle de Las Brujas e voltei para o hostel. Não queria abusar da sorte, porque até então não tinha sentido o soroche. No final das contas acho que aquelas 36 horas plantada na estrada serviram bem para me acostumar com a altitude. Há males que vem pra bem, por isso é que não reclamo quando acontece alguma “zebra”. Por falar em zebra, adorei ver as zebras em ação em meio ao trânsito caótico de La Paz. Jovens fantasiados de zebra realizam um trabalho de educação no trânsito com bom humor e muita simpatia.
18/09/2014
Acordei cedo e peguei a van que vai pro cemitério(Bs 1,50). Chegando lá, havia a opção de pegar um ônibus ou uma van para Copacabana. O ônibus é mais confortável, mas ia demorar para sair então peguei a van mesmo(Bs 20). Depois de 2:30 de viagem foi preciso descer da van e atravessar o Estreito de Tiquina de barco (paga-se Bs 2). Os veículos fazem a travessia em balsa e é preciso esperar um pouco para então seguir por mais 40 min até Copacabana. A viagem entre La Paz e Copacabana é muito agradável, a paisagem é linda e passa rapidinho.
O nome Copacabana vem da expressão aymara “kota kahuana”, que significa “vista do lago”. A Copacabana carioca veio bem depois, quando comerciantes espanhóis levaram para o Rio de Janeiro uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana. Uma igreja foi construída para abrigar essa imagem e com o tempo o local cresceu e deu origem ao bairro.
Em Copacabana me hospedei no Hostal Colonial del Lago. Localização ótima, perto de tudo. Quarto espaçoso, com banheiro privativo e chuveiro a gás (Bs 50). Só o café da manhã que deixa a desejar.
Fui dar uma volta no cais e já comprei a passagem de barco para a Isla del Sol às 8:30 do dia seguinte. Atenção ao comprar o ticket: há duas opções, Challapampa - lado norte da ilha(Bs 25) ou Yumani – lado sul(Bs20). Eu já tinha planejado ir para o lado norte e seguir pela trilha até o lado sul onde eu passaria a noite.
Almocei em um pequeno restaurante na Av. 6 de agosto. Pedi o menu econômico(sopa de quinua, truta, arroz, batatas fritas e banana de sobremesa) por Bs 22. O preço é bem em conta, mas o peixe servido é bem pequeno. Vale a pena pagar um pouco mais e comer uma truta no capricho.
Depois do almoço passei na Tourperu para comprar a passagem para Puno no dia 20. Na mesma rua há várias agências que vendem passagens para Puno, algumas da própria Tourperu. Chegando no escritório da Tourperu o cara me cobrou 40, aí eu perguntei como que na agência ao lado estavam cobrando Bs 30 pela mesma passagem. O sujeito ficou sem jeito e me cobrou 30.
Vai saber se o valor não é menor que isso. Então é bom pesquisar antes.
Tomadas todas as providências, hora de passear.
Fui conhecer a Igreja de Nossa Sra. De Copacabana. Chegando em frente a igreja, um padre estava benzendo um carro e um caminhão. Aos sábados há um número maior de carros e a benção se transforma numa grande celebração.
Seguindo por uma rua em frente a igreja chega-se ao início do caminho que leva ao Monte Calvário.
Ao longo desse caminho foram construídos marcos representando as 14 estações da Via Sacra. A subida é um pouco cansativa, mas o visual lá de cima compensa. Muita gente vai para lá no final da tarde para ver o por do sol, mas nesse dia uma tempestade estava se formando e eu decidi descer. Choveu forte durante toda a noite e eu já estava triste por ter que desistir do passeio a Isla del Sol.
19/09/2014
Para minha alegria o dia amanheceu ensolarado. Paguei a conta do hostel e pedi para guardarem minha mochila até o dia seguinte. Comprei bananas, maçãs e água para comer ao longo da trilha (foi bom ter levado, porque só havia um único ponto de venda no caminho). O barco chegou às 10:00 em Challapampa e logo um guia se apresentou e explicou como seria a visita e também sobre a tarifa de ingresso no lado norte (Bs 10) e no lado sul(Bs 15). Não curto muito essas visitas guiadas, principalmente com um grupo grande, mas achei que valeu a pena ouvir as explicações.
O bilhete de acesso ao lado norte dava direito a visita ao Museu del Oro, cujo acervo traz artigos e artefatos feitos pelos povos pré-colombianos, porém não há ali nenhuma peça de ouro. Perguntei ao guia onde estavam as peças de ouro que foram encontradas e ele me respondeu que estão na ilha mesmo, só que muito bem escondidas e protegidas por pessoas da comunidade. Será???
Saindo do museu iniciamos a caminhada rumo a um lugar sagrado onde encontra-se a Pedra do Puma, a Mesa Ritual e o Labirinto Chinkana, passando por uma prainha linda de águas cristalinas.
O caminho é tranquilo apesar de ser uma subida, mas se quiser acompanhar as explicações do guia tem que ir num ritmo meio acelerado.
Ao final do passeio um grupo iniciou a trilha para o lado sul e o outro retornou ao cais.
Esperei todos irem embora e fiquei algum tempo a sós desfrutando daquele lugar tão especial. Comecei a caminhada somente às 13:00 depois de comer um sanduíche que eu havia comprado no cais e uma banana. A trilha é bem demarcada e não há como se perder. As paisagens que vão surgindo, conforme vamos avançando, não tem como descrever, só vendo mesmo. Parei muitas vezes, não por causa do cansaço, mas para deixar que o silêncio e a beleza do lugar tomassem conta de mim. Que lugar maravilhoso! Na minha opinião visitar a Isla del Sol e não fazer essa caminhada é disperdiçar 50% do passeio.
Acho que a cobrança de pedágio ao longo da trilha varia conforme a sorte da pessoa. Li alguns relatos que falam de três, quatro pedágios. Só me cobraram a entrada no lado norte e na metade do caminho, a entrada para o lado sul. Recebi um comprovante em cada um desses lugares e tive que apresentar no final da trilha, um pouco antes de chegar a Yumani.
O lado sul tem várias pousadas. As mais caras são as que ficam mais próximas do final da trilha, com terraços de onde se pode ver o por-do-sol.
Caminhei um pouco mais e encontrei o Hostal Casa de La Luna. A pousada tem apenas 3 quartos e tem um restaurante que serve comidas simples e um ótimo café da manhã com suco de laranja feito na hora (uma raridade na Bolívia).
Fiquei no quarto que fica ao lado de um jardim cheio de flores.
Sem dúvida a melhor hospedagem de toda a viagem. Um quarto com dois ambientes, banheiro grande, tudo novinho, vista para o lago Titicaca por Bs 80.
20/09/2014
No dia seguinte acordei cedinho para ver o nascer do sol. A essa hora não vi nenhum turista, apenas os moradores com suas lhamas e burricos.
O café só ia ser servido após às 8:30 e eu tinha algum tempo para passear. Subi um morro que tem ao lado da vila e no meio do caminho arrumei a companhia de um perrito muito animado.
A vista lá do alto é linda e dá vontade de ficar horas ali, mas eu tinha que descer, tomar meu café e seguir para o cais.
Ainda deu tempo de passear um pouco pela escalera inca e beber a água da fonte da juventude com suas três vertentes que representam as três virtudes incas:
- Não seja preguiçoso (Ama K'ella).
- Não seja mentiroso(Ama Llulla).
- Não seja ladrão (Ama Sua)
Bebi a água dessa fonte e não tive piriri, mas é meio arriscado porque não sabemos de onde vem essa água.
O barco saiu do lado sul às 10:30 e chegou em Copacabana ao meio-dia. Almocei em um restaurante de frente pro lago (dessa vez veio uma truta descente).
Passei no hostal para pegar minha mochila e às 13:30 peguei o ônibus para Puno.
Lá pelas 17:00 cheguei em Puno. Eu deixei de trocar os dólares por soles na fronteira e me dei mal. O câmbio na rodoviária estava horrível, mas tive que aceitar porque não tinha dinheiro para o táxi e além disso eu queria comprar com antecedência a passagem de volta para La Paz.
Fiquei no Hostel El Manzano que fica perto do porto de onde saem os passeios de barco a Uros. O hostel é razoável, a equipe que trabalha lá é muito amável, mas o local não inspira segurança, assim como toda a cidade de Puno. Já era noite e eu fui a pé para o centro em busca de algo para comer. Só tinha pollo com papas fritas, as pizzarias ainda estavam fechadas e acabei comendo um sanduíche qualquer. Fiquei sem coragem de voltar a pé e perguntei ao garçom se seria seguro pegar um tuc-tuc. Ele respondeu que não, porque muitos deles costumam assaltar os turistas e que o ideal seria pegar um táxi, com vidros transparentes e com as luzes internas acesas. Tenso!
Fiz o que o garçom recomendou e cheguei inteira ao hostel.
Continua...