Montevidéu já tinha mostrado a cara. Estava sendo paciente comigo nas caminhadas do centro onde bisbilhotava os prédios antigos. Cada centímetro de rua formava a cidade em minha cabeça. Queria ficar, mas tinha que retornar ao Brasil. As telas me esperavam para serem pintadas com motivos do mercado, da Praça Independência e das colunas do Congresso Nacional uruguaio. Eu era produto de importação made in Brazil e tinha compromissos de trabalho, se não voltasse, minha vida entraria em erupção vulcânica.
A propósito, os ônibus atrasam tanto pra sair que dá tempo de você ir a uma pescaria e voltar. Os transportes públicos levam o Uruguai ao primitivo dos primitivos. Montevidéu é quase do tamanho de Recife ou Porto Alegre, mas é como as cidades da Europa, não têm rodoviárias, o que é uma excelente idéia. Só que uma coisa não justifica a outra, no continente europeu eles dispõem de trens para todos os lugares.
A comitiva de passageiros esperava pelo ônibus no escritório da empresa no centro de Montevidéu sem outra opção. Eu quase congelava na rua. Estava prestes a soltar um grito igual ao de Tarzan pra ver se atingia a região do rio da Prata. Do outro lado foi chegando o ônibus. O motorista com a cara mais cínica do mundo.
A cena de despedida dos passageiros é sempre comovedora, um show de abraços e beijos e os parentes ficam na calçada dando adeus parecendo que nunca mais vão se ver.
Depois de todas as solenidades de conferência de passagens, estávamos soberanamente na estrada. Espera de um século, violação dos direitos humanos dos ônibus atrasados, e esses problemas viraram coisa do passado. Motorista, cuidado! Estamos em suas mãos. De tanto adorar o veículo, que não era blindado, ele se quebrou.
Ohhhhhh!!!!!!
Situação que não estava no contrato e que ninguém avisou por oficio ou e-mail. Seria bom que devolvessem até os centavos. Quase dez horas da noite, vamos sair pra passear nas trevas, talvez seja uma alternativa melhor do que ficar na poltrona sonhando que dias melhores virão. Dentre as figuras privilegiadas daquela noite, se destacava um menino de oito anos. Era o único que ousava falar. Perguntava a avó porque o ônibus não saía: ?abuelita, por que no sale el coche?? O repertório se resumia a essa frase. A avó de Sebastian, devido à herança de educação das escolas uruguaias ou talvez por conhecer as fragilidades da empresa, se limitava a pedir que o menino fizesse silêncio. ?Os senhores passageiros trabalharam durante o dia, é preciso ficar em silêncio,? cochichou no ouvido do menino. O garoto ficou calado. Ah! Seres humanos podem ensinar as crianças como elas devem respeitar os outros seres humanos? Isso é pedagogia familiar. Seria boa a implantação da frase nos ônibus de outros lugares. Nunca mais vi essa cena educada se repetir. Sempre tem criança barulhenta nos cenários onde estou e olha que pareço um satélite vasculhando alguma mãe, pai ou avó que mande elas diminuírem o volume, mas elas neco de se apaixonar!
Depois de alguns minutos, um caminhão parou e ofereceu carona até Marilena Chauí ou Chuy. E agora José? Vamos lá, vamos virar essa página sangrenta da história. Na boléia, a avó e na carroceria, Sebastian com os demais passageiros. ?Tenham cuidado com mi Sebastian,? dizia a senhora com empolgação de quem queria chegar em casa sã e salva concentrada em um menino que valia mais do que os R$15,00 do bolsa-escola ou os R$25,00 do bolsa-família e de outras tantas promessas de programas sociais. Ah, mas estamos ainda no Uruguai, talvez neste país nem tenha Febem e as crianças sejam tratadas de outra maneira.
Madrugada e chegamos na fronteira, final de viagem. Não foi um minuto e descemos do caminhão. Carona aprovada. Precisa dizer que o menino e demais passageiros dormiram embrulhados na lona, como se estivessem no Hilton Hotel?
Dificuldades à parte, a demora do ônibus foi um empecilho que não desmereceu a visita ao país. Pisarei em solo uruguaio tantas vezes, quantas apareçam oportunidade. A nação dispõe de gente educada como a oratória da avó com o neto.
Livros, livros, livros, é o que os tornam diferentes.
Preciso sair do Uruguai
Montevidéu já tinha mostrado a cara. Estava sendo paciente comigo nas caminhadas do centro onde bisbilhotava os prédios antigos. Cada centímetro de rua formava a cidade em minha cabeça. Queria ficar, mas tinha que retornar ao Brasil. As telas me esperavam para serem pintadas com motivos do mercado, da Praça Independência e das colunas do Congresso Nacional uruguaio. Eu era produto de importação made in Brazil e tinha compromissos de trabalho, se não voltasse, minha vida entraria em erupção vulcânica.
A propósito, os ônibus atrasam tanto pra sair que dá tempo de você ir a uma pescaria e voltar. Os transportes públicos levam o Uruguai ao primitivo dos primitivos. Montevidéu é quase do tamanho de Recife ou Porto Alegre, mas é como as cidades da Europa, não têm rodoviárias, o que é uma excelente idéia. Só que uma coisa não justifica a outra, no continente europeu eles dispõem de trens para todos os lugares.
A comitiva de passageiros esperava pelo ônibus no escritório da empresa no centro de Montevidéu sem outra opção. Eu quase congelava na rua. Estava prestes a soltar um grito igual ao de Tarzan pra ver se atingia a região do rio da Prata. Do outro lado foi chegando o ônibus. O motorista com a cara mais cínica do mundo.
A cena de despedida dos passageiros é sempre comovedora, um show de abraços e beijos e os parentes ficam na calçada dando adeus parecendo que nunca mais vão se ver.
Depois de todas as solenidades de conferência de passagens, estávamos soberanamente na estrada. Espera de um século, violação dos direitos humanos dos ônibus atrasados, e esses problemas viraram coisa do passado. Motorista, cuidado! Estamos em suas mãos. De tanto adorar o veículo, que não era blindado, ele se quebrou.
Ohhhhhh!!!!!!
Situação que não estava no contrato e que ninguém avisou por oficio ou e-mail. Seria bom que devolvessem até os centavos. Quase dez horas da noite, vamos sair pra passear nas trevas, talvez seja uma alternativa melhor do que ficar na poltrona sonhando que dias melhores virão. Dentre as figuras privilegiadas daquela noite, se destacava um menino de oito anos. Era o único que ousava falar. Perguntava a avó porque o ônibus não saía: ?abuelita, por que no sale el coche?? O repertório se resumia a essa frase. A avó de Sebastian, devido à herança de educação das escolas uruguaias ou talvez por conhecer as fragilidades da empresa, se limitava a pedir que o menino fizesse silêncio. ?Os senhores passageiros trabalharam durante o dia, é preciso ficar em silêncio,? cochichou no ouvido do menino. O garoto ficou calado. Ah! Seres humanos podem ensinar as crianças como elas devem respeitar os outros seres humanos? Isso é pedagogia familiar. Seria boa a implantação da frase nos ônibus de outros lugares. Nunca mais vi essa cena educada se repetir. Sempre tem criança barulhenta nos cenários onde estou e olha que pareço um satélite vasculhando alguma mãe, pai ou avó que mande elas diminuírem o volume, mas elas neco de se apaixonar!
Depois de alguns minutos, um caminhão parou e ofereceu carona até Marilena Chauí ou Chuy. E agora José? Vamos lá, vamos virar essa página sangrenta da história. Na boléia, a avó e na carroceria, Sebastian com os demais passageiros. ?Tenham cuidado com mi Sebastian,? dizia a senhora com empolgação de quem queria chegar em casa sã e salva concentrada em um menino que valia mais do que os R$15,00 do bolsa-escola ou os R$25,00 do bolsa-família e de outras tantas promessas de programas sociais. Ah, mas estamos ainda no Uruguai, talvez neste país nem tenha Febem e as crianças sejam tratadas de outra maneira.
Madrugada e chegamos na fronteira, final de viagem. Não foi um minuto e descemos do caminhão. Carona aprovada. Precisa dizer que o menino e demais passageiros dormiram embrulhados na lona, como se estivessem no Hilton Hotel?
Dificuldades à parte, a demora do ônibus foi um empecilho que não desmereceu a visita ao país. Pisarei em solo uruguaio tantas vezes, quantas apareçam oportunidade. A nação dispõe de gente educada como a oratória da avó com o neto.
Livros, livros, livros, é o que os tornam diferentes.
Edmilson Vieira é artista plástico e cronista dnv01@uol.com.br
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