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Poesia mochileira

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Pablo mandasse bem.................

 

S.O.S. de Raulzito é bem viagemmmmm ""ô,ô seu moço,do disco voador, me leve com você,por onde você for,ô ô seu moço mas não me deixe aqui,enquanto eu sei que tem,TANTAS coisas por aí........""

 

Pois leve sempre uma frase,poesia,canção por esse mundo afora Mochileiros/......

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O grande poeta do sertão, brasileirissimo...

 

A Vida de Viajante

Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil

 

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia

Descanso feliz

Guardando as recordações

Das terras por onde passei

Andando pelos sertões

E dos amigos que lá deixei.

 

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E alegria no coração.

 

Minha vida é andar...

 

Mar e terra

Inverno e verão

Mostra o sorriso

Mostra a alegria

Mas eu mesmo não

E a saudade no coração

 

 

Mateiro50, brasilidade total em seus versos, parabens...

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E óiem que o que não falta no nordeste são poetas da musica........

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O Poeta da Roça

 

Patativa do Assaré

 

Sou fio das mata, cantô da mão grosa

Trabaio na roça, de inverno e de estio

A minha chupana é tapada de barro

Só fumo cigarro de paia de mio.

 

Sou poeta das brenha, não faço o papé

De argum menestrê, ou errante cantô

Que veve vagando, com sua viola,

Cantando, pachola, à percura de amô.

 

Não tenho sabença, pois nunca estudei,

Apenas eu seio o meu nome assiná.

Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,

E o fio do pobre não pode estudá.

 

Meu verso rastero, singelo e sem graça,

Não entra na praça, no rico salão,

Meu verso só entra no campo da roça e dos eito

E às vezes, recordando feliz mocidade,

Canto uma sodade que mora em meu peito.

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Aos poetas clássicos

 

Patativa do Assaré

 

Poetas niversitário,

Poetas de Cademia,

De rico vocabularo

Cheio de mitologia;

Se a gente canta o que pensa,

Eu quero pedir licença,

Pois mesmo sem português

Neste livrinho apresento

O prazê e o sofrimento

De um poeta camponês.

 

Eu nasci aqui no mato,

Vivi sempre a trabaiá,

Neste meu pobre recato,

Eu não pude estudá.

No verdô de minha idade,

Só tive a felicidade

De dá um pequeno insaio

In dois livro do iscritô,

O famoso professô

Filisberto de Carvaio.

 

 

No premêro livro havia

Belas figuras na capa,

E no começo se lia:

A pá — O dedo do Papa,

Papa, pia, dedo, dado,

Pua, o pote de melado,

Dá-me o dado, a fera é má

E tantas coisa bonita,

Qui o meu coração parpita

Quando eu pego a rescordá.

 

 

Foi os livro de valô

Mais maió que vi no mundo,

Apenas daquele autô

Li o premêro e o segundo;

Mas, porém, esta leitura,

Me tirô da treva escura,

Mostrando o caminho certo,

Bastante me protegeu;

Eu juro que Jesus deu

Sarvação a Filisberto.

 

 

Depois que os dois livro eu li,

Fiquei me sintindo bem,

E ôtras coisinha aprendi

Sem tê lição de ninguém.

Na minha pobre linguage,

A minha lira servage

Canto o que minha arma sente

E o meu coração incerra,

As coisa de minha terra

E a vida de minha gente.

 

 

Poeta niversitaro,

Poeta de cademia,

De rico vocabularo

Cheio de mitologia,

Tarvez este meu livrinho

Não vá recebê carinho,

Nem lugio e nem istima,

Mas garanto sê fié

E não istruí papé

Com poesia sem rima.

 

 

Cheio de rima e sintindo

Quero iscrevê meu volume,

Pra não ficá parecido

Com a fulô sem perfume;

A poesia sem rima,

Bastante me disanima

E alegria não me dá;

Não tem sabô a leitura,

Parece uma noite iscura

Sem istrela e sem luá.

 

 

Se um dotô me perguntá

Se o verso sem rima presta,

Calado eu não vou ficá,

A minha resposta é esta:

— Sem a rima, a poesia

Perde arguma simpatia

E uma parte do primô;

Não merece munta parma,

É como o corpo sem arma

E o coração sem amô.

 

 

Meu caro amigo poeta,

Qui faz poesia branca,

Não me chame de pateta

Por esta opinião franca.

Nasci entre a natureza,

Sempre adorando as beleza

Das obra do Criadô,

Uvindo o vento na serva

E vendo no campo a reva

Pintadinha de fulô.

 

 

Sou um caboco rocêro,

Sem letra e sem istrução;

O meu verso tem o chêro

Da poêra do sertão;

Vivo nesta solidade

Bem destante da cidade

Onde a ciença guverna.

Tudo meu é naturá,

Não sou capaz de gostá

Da poesia moderna.

 

 

Dêste jeito Deus me quis

E assim eu me sinto bem;

Me considero feliz

Sem nunca invejá quem tem

Profundo conhecimento.

Ou ligêro como o vento

Ou divagá como a lêsma,

Tudo sofre a mesma prova,

Vai batê na fria cova;

Esta vida é sempre a mesma.

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O vaqueiro

 

Patativa do Assaré

 

Eu venho dêrne menino,

Dêrne munto pequenino,

Cumprindo o belo destino

Que me deu Nosso Senhô.

Eu nasci pra sê vaquêro,

Sou o mais feliz brasilêro,

Eu não invejo dinhêro,

Nem diproma de dotô.

 

 

Sei que o dotô tem riquêza,

É tratado com fineza,

Faz figura de grandeza,

Tem carta e tem anelão,

Tem casa branca jeitosa

E ôtas coisa preciosa;

Mas não goza o quanto goza

Um vaquêro do sertão.

 

 

Da minha vida eu me orgúio,

Levo a Jurema no embrúio

Gosto de ver o barúio

De barbatão a corrê,

Pedra nos casco rolando,

Gaios de pau estralando,

E o vaquêro atrás gritando,

Sem o perigo temê.

 

 

Criei-me neste serviço,

Gosto deste reboliço,

Boi pra mim não tem feitiço,

Mandinga nem catimbó.

Meu cavalo Capuêro,

Corredô, forte e ligêro,

Nunca respeita barsêro

De unha de gato ou cipó.

 

 

Tenho na vida um tesôro

Que vale mais de que ôro:

O meu liforme de côro,

Pernêra, chapéu, gibão.

Sou vaquêro destemido,

Dos fazendêro querido,

O meu grito é conhecido

Nos campo do meu sertão.

 

 

O pulo do meu cavalo

Nunca me causou abalo;

Eu nunca sofri um galo,

pois eu sei me desviá.

Travesso a grossa chapada,

Desço a medonha quebrada,

Na mais doida disparada,

Na pega do marruá.

 

 

Se o bicho brabo se acoa,

Não corro nem fico à tôa:

Comigo ninguém caçoa,

Não corro sem vê de quê.

É mêrmo por desaforo

Que eu dou de chapéu de côro

Na testa de quarqué tôro

Que não qué me obedecê.

 

 

Não dou carrêra perdida,

Conheço bem esta lida,

Eu vivo gozando a vida

Cheio de satisfação.

Já tou tão acostumado

Que trabaio e não me enfado,

Faço com gosto os mandado

Das fia do meu patrão.

 

 

Vivo do currá pro mato,

Sou correto e munto izato,

Por farta de zelo e trato

Nunca um bezerro morreu.

Se arguém me vê trabaiando,

A bezerrama curando,

Dá pra ficá maginando

Que o dono do gado é eu.

 

 

Eu não invejo riqueza

Nem posição, nem grandeza,

Nem a vida de fineza

Do povo da capitá.

Pra minha vida sê bela

Só basta não fartá nela

Bom cavalo, boa sela

E gado pr’eu campeá.

 

 

Somente uma coisa iziste,

Que ainda que teja triste

Meu coração não resiste

E pula de animação.

É uma viola magoada,

Bem chorosa e apaxonada,

Acompanhando a toada

Dum cantadô do sertão.

 

 

Tenho sagrado direito

De ficá bem satisfeito

Vendo a viola no peito

De quem toca e canta bem.

Dessas coisa sou herdêro,

Que o meu pai era vaquêro,

Foi um fino violêro

E era cantadô tombém.

 

 

Eu não sei tocá viola,

Mas seu toque me consola,

Verso de minha cachola

Nem que eu peleje não sai,

Nunca cantei um repente

Mas vivo munto contente,

Pois herdei perfeitamente

Um dos dote de meu pai.

 

 

O dote de sê vaquêro,

Resorvido marruêro,

Querido dos fazendêro

Do sertão do Ceará.

Não perciso maió gozo,

Sou sertanejo ditoso,

O meu aboio sodoso

Faz quem tem amô chorá.

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ABC do Nordeste flagelado

 

Patativa do Assaré

 

A — Ai, como é duro viver

nos Estados do Nordeste

quando o nosso Pai Celeste

não manda a nuvem chover.

É bem triste a gente ver

findar o mês de janeiro

depois findar fevereiro

e março também passar,

sem o inverno começar

no Nordeste brasileiro.

 

 

B — Berra o gado impaciente

reclamando o verde pasto,

desfigurado e arrasto,

com o olhar de penitente;

o fazendeiro, descrente,

um jeito não pode dar,

o sol ardente a queimar

e o vento forte soprando,

a gente fica pensando

que o mundo vai se acabar.

 

 

C — Caminhando pelo espaço,

como os trapos de um lençol,

pras bandas do pôr do sol,

as nuvens vão em fracasso:

aqui e ali um pedaço

vagando... sempre vagando,

quem estiver reparando

faz logo a comparação

de umas pastas de algodão

que o vento vai carregando.

 

 

D — De manhã, bem de manhã,

vem da montanha um agouro

de gargalhada e de choro

da feia e triste cauã:

um bando de ribançã

pelo espaço a se perder,

pra de fome não morrer,

vai atrás de outro lugar,

e ali só há de voltar,

um dia, quando chover.

 

 

E — Em tudo se vê mudança

quem repara vê até

que o camaleão que é

verde da cor da esperança,

com o flagelo que avança,

muda logo de feição.

O verde camaleão

perde a sua cor bonita

fica de forma esquisita

que causa admiração.

 

 

F — Foge o prazer da floresta

o bonito sabiá,

quando flagelo não há

cantando se manifesta.

Durante o inverno faz festa

gorjeando por esporte,

mas não chovendo é sem sorte,

fica sem graça e calado

o cantor mais afamado

dos passarinhos do norte.

 

 

G — Geme de dor, se aquebranta

e dali desaparece,

o sabiá só parece

que com a seca se encanta.

Se outro pássaro canta,

o coitado não responde;

ele vai não sei pra onde,

pois quando o inverno não vem

com o desgosto que tem

o pobrezinho se esconde.

 

 

H — Horroroso, feio e mau

de lá de dentro das grotas,

manda suas feias notas

o tristonho bacurau.

Canta o João corta-pau

o seu poema funério,

é muito triste o mistério

de uma seca no sertão;

a gente tem impressão

que o mundo é um cemitério.

 

 

I — Ilusão, prazer, amor,

a gente sente fugir,

tudo parece carpir

tristeza, saudade e dor.

Nas horas de mais calor,

se escuta pra todo lado

o toque desafinado

da gaita da seriema

acompanhando o cinema

no Nordeste flagelado.

 

 

J — Já falei sobre a desgraça

dos animais do Nordeste;

com a seca vem a peste

e a vida fica sem graça.

Quanto mais dia se passa

mais a dor se multiplica;

a mata que já foi rica,

de tristeza geme e chora.

Preciso dizer agora

o povo como é que fica.

 

 

L — Lamento desconsolado

o coitado camponês

porque tanto esforço fez,

mas não lucrou seu roçado.

Num banco velho, sentado,

olhando o filho inocente

e a mulher bem paciente,

cozinha lá no fogão

o derradeiro feijão

que ele guardou pra semente.

 

 

M — Minha boa companheira,

diz ele, vamos embora,

e depressa, sem demora

vende a sua cartucheira.

Vende a faca, a roçadeira,

machado, foice e facão;

vende a pobre habitação,

galinha, cabra e suíno

e viajam sem destino

em cima de um caminhão.

 

 

N — Naquele duro transporte

sai aquela pobre gente,

agüentando paciente

o rigor da triste sorte.

Levando a saudade forte

de seu povo e seu lugar,

sem um nem outro falar,

vão pensando em sua vida,

deixando a terra querida,

para nunca mais voltar.

 

 

O — Outro tem opinião

de deixar mãe, deixar pai,

porém para o Sul não vai,

procura outra direção.

Vai bater no Maranhão

onde nunca falta inverno;

outro com grande consterno

deixa o casebre e a mobília

e leva a sua família

pra construção do governo.

 

 

P - Porém lá na construção,

o seu viver é grosseiro

trabalhando o dia inteiro

de picareta na mão.

Pra sua manutenção

chegando dia marcado

em vez do seu ordenado

dentro da repartição,

recebe triste ração,

farinha e feijão furado.

 

 

Q — Quem quer ver o sofrimento,

quando há seca no sertão,

procura uma construção

e entra no fornecimento.

Pois, dentro dele o alimento

que o pobre tem a comer,

a barriga pode encher,

porém falta a substância,

e com esta circunstância,

começa o povo a morrer.

 

 

R — Raquítica, pálida e doente

fica a pobre criatura

e a boca da sepultura

vai engolindo o inocente.

Meu Jesus! Meu Pai Clemente,

que da humanidade é dono,

desça de seu alto trono,

da sua corte celeste

e venha ver seu Nordeste

como ele está no abandono.

 

 

S — Sofre o casado e o solteiro

sofre o velho, sofre o moço,

não tem janta, nem almoço,

não tem roupa nem dinheiro.

Também sofre o fazendeiro

que de rico perde o nome,

o desgosto lhe consome,

vendo o urubu esfomeado,

puxando a pele do gado

que morreu de sede e fome.

 

 

T — Tudo sofre e não resiste

este fardo tão pesado,

no Nordeste flagelado

em tudo a tristeza existe.

Mas a tristeza mais triste

que faz tudo entristecer,

é a mãe chorosa, a gemer,

lágrimas dos olhos correndo,

vendo seu filho dizendo:

mamãe, eu quero morrer!

 

 

U — Um é ver, outro é contar

quem for reparar de perto

aquele mundo deserto,

dá vontade de chorar.

Ali só fica a teimar

o juazeiro copado,

o resto é tudo pelado

da chapada ao tabuleiro

onde o famoso vaqueiro

cantava tangendo o gado.

 

 

V — Vivendo em grande maltrato,

a abelha zumbindo voa,

sem direção, sempre à toa,

por causa do desacato.

À procura de um regato,

de um jardim ou de um pomar

sem um momento parar,

vagando constantemente,

sem encontrar, a inocente,

uma flor para pousar.

 

 

X — Xexéu, pássaro que mora

na grande árvore copada,

vendo a floresta arrasada,

bate as asas, vai embora.

Somente o saguim demora,

pulando a fazer careta;

na mata tingida e preta,

tudo é aflição e pranto;

só por milagre de um santo,

se encontra uma borboleta.

 

 

Z — Zangado contra o sertão

dardeja o sol inclemente,

cada dia mais ardente

tostando a face do chão.

E, mostrando compaixão

lá do infinito estrelado,

pura, limpa, sem pecado

de noite a lua derrama

um banho de luz no drama

do Nordeste flagelado.

 

 

Posso dizer que cantei

aquilo que observei;

tenho certeza que dei

aprovada relação.

Tudo é tristeza e amargura,

indigência e desventura.

— Veja, leitor, quanto é dura

a seca no meu sertão.

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Antônio Conselheiro

 

Patativa do Assaré

 

Cada um na vida tem seu direito de julgar.

Como tenho o meu também, com razão quero falar

Nestes meus verso singelos , mas de sentimentos belos

Sobre um grande brasileiro, cearense, meu conterrâneo.

Líder sensato, espontâneo, nosso Antônio Conselheiro

 

Este cearense nasceu lá em Quixeramobim.

Sei eu sei como ele viveu , sei como foi o seu fim.

Quando em Canudos chegou, com amor organizou

Um ambiente comum, sem enredos nem engodos,

Ali era um por todos e eram todos por um

 

Não pode ser justiceiro e nem verdadeiro é

O que diz seu conselheiro , enganava a boa fé

O conselheiro queria acabar com a anarquia

Do grande contra o pequeno. Pregava no seu sermão

Aquela mesma missão que pregava o nazareno.

 

Com a sua simpatia, honestidade e brio

Ele criou na Bahia um ambiente sadio

Onde vivia tranqüilo, ensinando tudo aquilo

Que a moral cristã encerra. Defendendo os desgraçado

Do julgo dos potentados, dominadores da terra.

 

Seguindo um caminho novo, mostrando a luz da verdade,

Incutia entre o seu povo, amor e fraternidade

Em favor do bem comum, ajudava a cada um

Foi trabalhador e ordeiro, derramando o seu suor.

Foi ele o líder maior do nordeste brasileiro.

 

Sem haver contrariedade, explicava muito bem

Aquelas mesmas verdades que o santo Evangelho tem.

Calado em sua missão contra a feia exploração

E assim, evangelizando, com um progresso estupendo

Canudos ia crescendo e a notícia se espalhando.

 

O pobrezinho agregado e o explorado parceiro,

Cada qual ia apressado recorrer ao Conselheiro

E o líder recebia muita gente todo dia. Assim,

Fazendo os seus planos, na luta não fracassava

Porque sabia que estava com os direitos humanos.

 

Mediante a sua instrução, naquela sociedade

Reinava paz e união dentro do grau de igualdade

Com a palavra de Deus ele conduzia os seus

Era um movimento humano de feição socialista,

Pois não era monarquista, nem era republicano

 

Desta forma, na Bahia, crescia a comunidade

E ao mesmo tempo crescia uma bonita cidade

Já Antônio Conselheiro sonhava com o luzeiro

Da aurora da nova vida. Era qual outro Moisés,

Conduzindo os seus fiéis para a terra prometida

 

E assim, bem acompanhado, os planos a resolver

Foi mais tarde censurado pelos donos do poder

O taxaram de fanático, e um caso triste e dramático

Se deu naquele local. O poder se revoltou

E Canudos terminou numa guerra social.

 

Da catástrofe sem pá o Brasil já tá ciente

Não é preciso contar pormenorizadamente tudo quanto aconteceu.

O que Canudos sofreu nós guardados na memória

Aquela grande chacina, a grande carnificina

Que entristece a nossa história

 

E andar pela Bahia, chegando ao dito local

Onde aconteceu um dia o drama triste e fatal,

Parece ouvir os gemidos entre os roncos e estampidos.

E em benefício dos seus , no momento derradeiro

O nosso herói brasileiro pedindo justiça a Deus.

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Caboclo Roceiro

 

Patativa do Assaré

 

 

Caboclo Roceiro, das plaga do Norte

Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,

A tua desdita é tristonho que canto,

Se escuto o meu pranto me ponho a chorar

 

Ninguém te oferece um feliz lenitivo

És rude e cativo, não tens liberdade.

A roça é teu mundo e também tua escola.

Teu braço é a mola que move a cidade

 

De noite tu vives na tua palhoça

De dia na roça de enxada na mão

Julgando que Deus é um pai vingativo,

Não vês o motivo da tua opressão

 

Tu pensas, amigo, que a vida que levas

De dores e trevas debaixo da cruz

E as crides constantes, quais sinas e espadas

São penas mandadas por nosso Jesus

 

Tu és nesta vida o fiel penitente

Um pobre inocente no banco do réu.

Caboclo não guarda contigo esta crença

A tua sentença não parte do céu.

 

O mestre divino que é sábio profundo

Não faz neste mundo teu fardo infeliz

As tuas desgraças com tua desordem

Não nascem das ordens do eterno juiz

 

A lua se apaga sem ter empecilho,

O sol do seu brilho jamais te negou

Porém os ingratos, com ódio e com guerra,

Tomaram-te a terra que Deus te entregou

 

De noite tu vives na tua palhoça

De dia na roça , de enxada na mão

Caboclo roceiro, sem lar , sem abrigo,

Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

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Cante Lá Que Eu Canto Cá

 

Patativa do Assaré

 

 

Poeta, cantô de rua,

Que na cidade nasceu,

Cante a cidade que é sua,

Que eu canto o sertão que é meu.

 

Se aí você teve estudo,

Aqui, Deus me ensinou tudo,

Sem de livro precisá

Por favô, não mêxa aqui,

Que eu também não mexo aí,

Cante lá, que eu canto cá.

 

Você teve inducação,

Aprendeu munta ciença,

Mas das coisa do sertão

Não tem boa esperiença.

Nunca fez uma paioça,

Nunca trabaiou na roça,

Não pode conhecê bem,

Pois nesta penosa vida,

Só quem provou da comida

Sabe o gosto que ela tem.

 

Pra gente cantá o sertão,

Precisa nele morá,

Tê armoço de fejão

E a janta de mucunzá,

Vivê pobre, sem dinhêro,

Socado dentro do mato,

De apragata currelepe,

Pisando inriba do estrepe,

Brocando a unha-de-gato.

 

Você é muito ditoso,

Sabe lê, sabe escrevê,

Pois vá cantando o seu gozo,

Que eu canto meu padecê.

Inquanto a felicidade

Você canta na cidade,

Cá no sertão eu infrento

A fome, a dô e a misera.

Pra sê poeta divera,

Precisa tê sofrimento.

 

Sua rima, inda que seja

Bordada de prata e de ôro,

Para a gente sertaneja

É perdido este tesôro.

Com o seu verso bem feito,

Não canta o sertão dereito,

Porque você não conhece

Nossa vida aperreada.

E a dô só é bem cantada,

Cantada por quem padece.

 

Só canta o sertão dereito,

Com tudo quanto ele tem,

Quem sempre correu estreito,

Sem proteção de ninguém,

Coberto de precisão

Suportando a privação

Com paciença de Jó,

Puxando o cabo da inxada,

Na quebrada e na chapada,

Moiadinho de suó.

 

Amigo, não tenha quêxa,

Veja que eu tenho razão

Em lhe dizê que não mêxa

Nas coisa do meu sertão.

Pois, se não sabe o colega

De quá manêra se pega

Num ferro pra trabaiá,

Por favô, não mêxa aqui,

Que eu também não mêxo aí,

Cante lá que eu canto cá.

 

Repare que a minha vida

É deferente da sua.

A sua rima pulida

Nasceu no salão da rua.

Já eu sou bem deferente,

Meu verso é como a simente

Que nasce inriba do chão;

Não tenho estudo nem arte,

A minha rima faz parte

Das obra da criação.

 

Mas porém, eu não invejo

O grande tesôro seu,

Os livro do seu colejo,

Onde você aprendeu.

Pra gente aqui sê poeta

E fazê rima compreta,

Não precisa professô;

Basta vê no mês de maio,

Um poema em cada gaio

E um verso em cada fulô.

 

Seu verso é uma mistura,

É um tá sarapaté,

Que quem tem pôca leitura

Lê, mais não sabe o que é.

Tem tanta coisa incantada,

Tanta deusa, tanta fada,

Tanto mistéro e condão

E ôtros negoço impossive.

Eu canto as coisa visive

Do meu querido sertão.

 

Canto as fulô e os abróio

Com todas coisa daqui:

Pra toda parte que eu óio

Vejo um verso se bulí.

Se as vêz andando no vale

Atrás de curá meus male

Quero repará pra serra

Assim que eu óio pra cima,

Vejo um divule de rima

Caindo inriba da terra.

 

Mas tudo é rima rastêra

De fruita de jatobá,

De fôia de gamelêra

E fulô de trapiá,

De canto de passarinho

E da poêra do caminho,

Quando a ventania vem,

Pois você já tá ciente:

Nossa vida é deferente

E nosso verso também.

 

Repare que deferença

Iziste na vida nossa:

Inquanto eu tô na sentença,

Trabaiando em minha roça,

Você lá no seu descanso,

Fuma o seu cigarro mando,

Bem perfumado e sadio;

Já eu, aqui tive a sorte

De fumá cigarro forte

Feito de paia de mio.

 

Você, vaidoso e facêro,

Toda vez que qué fumá,

Tira do bôrso um isquêro

Do mais bonito metá.

Eu que não posso com isso,

Puxo por meu artifiço

Arranjado por aqui,

Feito de chifre de gado,

Cheio de argodão queimado,

Boa pedra e bom fuzí.

 

Sua vida é divirtida

E a minha é grande pená.

Só numa parte de vida

Nóis dois samo bem iguá:

É no dereito sagrado,

Por Jesus abençoado

Pra consolá nosso pranto,

Conheço e não me confundo

Da coisa mió do mundo

Nóis goza do mesmo tanto.

 

Eu não posso lhe invejá

Nem você invejá eu,

O que Deus lhe deu por lá,

Aqui Deus também me deu.

Pois minha boa muié,

Me estima com munta fé,

Me abraça, beja e qué bem

E ninguém pode negá

Que das coisa naturá

Tem ela o que a sua tem.

 

Aqui findo esta verdade

Toda cheia de razão:

Fique na sua cidade

Que eu fico no meu sertão.

Já lhe mostrei um ispeio,

Já lhe dei grande conseio

Que você deve tomá.

Por favô, não mexa aqui,

Que eu também não mêxo aí,

Cante lá que eu canto cá.

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