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. . . . . Rio de Janeiro Sem Dinheiro


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Rio de Janeiro Sem Dinheiro

 

Edmilson Vieira

 

Amigos. O sonho europeu acabou. Sai da Argentina e quem aproveitou,

aproveitou, quem não aproveitou, deixou pra trás. Cheguei num Rio de

Janeiro num calor daqueles. Quando fui ao caixa eletrônico do aeroporto,

a memória não deu ordem pra sacar. Fiz duas tentativas e o resultado

bárbaro da máquina se resumia à palavra, "inválida". O que vocês

queriam? Com guerra no Iraque, Big Brother na TV, e um mês fora do

Brasil sem usar o cartão, esqueci das três letras que precisava colocar

depois da senha.

 

Gostaram da insensatez?

 

 

Contava apenas com o dinheiro do hotel e do microônibus, para o centro

da cidade maravilhosa, exatamente isso! Como a credibilidade dos

bancos para os seus clientes só vai até a segunda tentativa, parei. Já

pensaram nas conseqüências de estar numa cidade grande e

desconhecida, sem dinheiro? Só tinha uma saída: procurar um médico

pra receitar um estimulante cerebral.

 

O bicho vai pegar!

 

Mesmo nessa situação devastadora, tomei o micro e fui ao hotel. No

caminho, passando pela Avenida Presidente Vargas, não encontrei o

médico, e sim, medicamentos sambísticos. Era ensaio de duas escolas de

samba no sambódromo. Fui com a bagagem ao hotel na Praça Tiradentes

e armou-se conflito com o funcionário pra que ele recebesse somente no

outro dia. Calma, calma, mantenha a calma, ele não vai aceitar. Pegou o

dinheiro com o maior prazer. Só me restavam dois reais. Falei com o motorista

de um ônibus ali na praça e consegui carona até o

sambódromo (domingo à noite, 28 de janeiro de 2007). Naquele ensaio

tinha a fome como samba-enredo e drama pessoal. Não que seja pró-

samba, mas queria experimentar um pouco do que a Globo mostra como

extraordinário.

 

Sobre a cerimônia de ensaio das escolas posso dizer que também tem

música de ambulância e de bombeiro pra socorrer as vítimas que não

agüentam o calor. Numa determinada hora, os seguranças abrem os

portões e parte do público que está na rua tem autonomia pra se sentir

dono da festa. Do lado que a bateria da escola fica estacionada, tem

placas indicando o lugar da comissão julgadora. Ao terminar o primeiro

desfile, passaram quatro ônibus com cartazes na frente informando o

nome da ala e do responsável. Os camarotes ficam fechados e só existe

uma categoria, a geral. A multidão eufórica flutuando na arquibancada e

as pessoas do meu lado conversando sobre escolas rivais. Cada

integrante é uma estrela e sua alegria colabora pra levantar o ânimo da

torcida. Fiquei tentando entender o que significava aquele evento, próprio

do hemisfério sul. Se a festa é feita na maioria pelo povo pobre,

como diz a TV, porque naquele momento, todos tinham dinheiro pra

voltar pra casa, pra comer um cachorro quente, e eu não? Só dois reais

pra sonhar. Arrastei do bolso o valor e comprei um refrigerante, minha

porção de veneno pra enganar a fome e matar a sede.

 

Lá pela uma da madrugada, defini a estratégia de volta ao hotel: seguir a

multidão que ia a pé.

 

Na solidão do quarto estava proibido de pensar em comida pra não

destruir os últimos hemisférios do cérebro. Também não podia ficar

maluco tentando lembrar letra de conta de banco. De manhã ao acordar,

abriu-se uma trilha e veio nesta ligação, cada uma das três letras

esperadas. Na própria praça tem uma agência da Caixa Econômica

Federal. Os dedos digitaram sem precisar de luta. Foi a proporção exata

que estava faltando.

 

Vou te levar prum restaurante! A mais importante volta ao mundo da

alimentação: suco, café, almoço e sobremesa. "Avisa lá, avisa lá,

avisa lá êô, avisa lá que eu vou" comparar com as comidas argentinas.

E esse foi o início de uma nova era do sobrevivente da senha digital.

 

Edmilson Vieira é artista plástico e cronista. [email protected]

Editado por Visitante
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  • 3 anos depois...
  • Membros

Caraca!!! Adorei o seu relato...essa sim posso dizer que foi uma legitima aventura. Eu morei na Argentina por 6 meses e sei muito bem como é essa coisa da comparação da comida....(que para mim a nossa é melhor, cheguei a sonhar que tinham aberto um restaurante brasileiro onde era o infernal palacio de las papas - meu pesadelo..da calle lavalle...)...

Adorei sua coragem de andar toda a presidente vargas de ape com o povo em pleno carnaval...na epoca que voltei para o rio era carnaval, meu primeiro aqui (sou gaucha) e te digo...entrei em panico com a multidao...

 

adorei, adorei!!!!!!!!!!

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  • 1 mês depois...
  • 1 mês depois...

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Visitante
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