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                                                                                         MONTÃO DE TRIGO

          Deitado naquele caiaque de plástico amarelo, vejo o céu qualhado de estrelas, enquanto ele roda sem rumo, num vai e vem de ondas que sobem e descem, chacoalhando feito uma máquina de lavar. Ao meu redor, uma escuridão avassaladora e a única coisa que enxergo são as luzes ao longe, numa ponta distante que deduzo ser para onde devo seguir. Fico me perguntando que fim levou o Alexandre, teria sido tragado para o fundo do mar ou estaria em segurança em algum lugar da costa, mas não há tempo nem para procurar tais respostas, preciso me levantar dessa inércia que me cooptou, mas como, se não consigo forças nem para me colocar sentado? Maldita hora que fui ter essa ideia estupida, ainda por jamais ter remado em mar aberto em toda minha vida. Meus braços mal conseguem se mexer, meu peito queima, minhas costas estão imprestáveis, não sei para onde ir, é provável que eu vá explodir em algum paredão de pedra e se isso acontecer, não sei se vou conseguir nadar até a praia, dessa vez fui longe de mais, passei dos limites por me enfiar em terreno que não domino, é o preço que se paga por ser marinheiro de primeira viagem, na verdade, estou mais para naufrago de última viagem.

          Num sábado de sol, estava eu às voltas com afazeres domésticos, quando o Alexandre Alves me liga:

          - O Diva, vamos comigo para São Sebastião? Você sabe que estou treinando remo aqui na lagoa perto de casa e acho que chegou a hora de experimentar remar no mar e estou querendo ir lá para aquela tal de ILHA MONTÃO DE TRIGO.

          - Num sei não Alexandre meu velho, acabei de retornar do litoral no último final de semana.

          - Vamos lá amigão, você fica de boa lá na praia, pode levar sua prancha de surf e tentar ver se consegue ficar em pé encima dela, já que você falou que queria aprender a surfar.

          Verdade mesmo que eu não estava animando para sair num domingo de madruga, enfrentar 05 horas de estrada e depois voltar no mesmo dia, mas o Alexandre é daqueles caras bacanas de mais, então acabei cedendo ao convite somente para não deixar ele na mão e resolvi que ia  lhe fazer companhia, nem que fosse só para ficar sentado na areia fazendo castelinhos.

          Para ajudar o Alexandre na sua saga oceânica, fui buscar informações com uns amigos que já haviam remado naquela região e todos me disseram as mesmas coisas: Fala pra ele não ir para o Montão de Trigo sem experiência de mar, melhor ele fazer o roteiro das ilhas perto da costa, remar para AS ILHAS, ILHA DAS COUVES e finalizar na ILHA DOS GATOS, que seria um roteiro mais adequado para quem nunca entrou com um caiaque no mar antes.

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          Liguei para o Alexandre e passei os betas, as informações colhidas com quem já remava a algum tempo, com quem já tinha experiência com caiaque oceânico, mas o Alexandre já mandou a real, bem na minha cara, sem rodeios.

          - O Divanei, cara, aí, eu não quero fazer o roteiro que todo mundo faz não, tô descendo para o litoral em um bate e volta alucinante com o objetivo de ir até o Montão de Trigo, vc tá ligado que a gente gosta de fazer coisas diferente, não gostamos das mesmices de sempre, vamos sempre à procura de aventura.

          Fiquei espantado com as palavras do Alexandre, mas nem falei nada, sabia eu que o “miseravi” estava certo, quem era eu para repreender tal atitude, logo eu que sempre fui desprovido de bom senso, então que ele fosse lá se lascar nessa tal Ilha do Montão de Trigo, que eu mal sabia onde ficava, mas não demorou muito e ele me ligou novamente:

          - Diva, cara, olha só, consegui contato com um local lá no litoral e consegui um caiaque pra gente alugar pra você, assim não precisa ficar só parado o dia todo na areia.

          Bom, eu era outro que jamais tinha remado no mar e minha experiência não passava de uma voltinha com um caiaque alugado em Picinguaba e outra volta de meia hora com um amigo na Ponta da Figueira, no fim do ano passado, nada mais que isso e  nem contava pra coisa nenhuma. Mas tava bom, poderia ficar matando o tempo na beira da praia enquanto o Alexandre ia se aventurar mar adentro, mas mesmo assim, fiz questão de levar meus equipos de sobrevivência, sem eles, não importa onde eu vá ou no que eu me meta a fazer, pareço estar nu.

          Pouco antes das 4 da manhã, Alexandre passou na minha casa e me apanhou e a viagem até o litoral foi tranquila, fomos batendo papo e mal vimos o tempo passar, só deu uma enroscada pra chegar na PRAIA DA BARRA DO SAHY, porque acabamos entrando no lugar errado e fomos parar em Juquei, mas logo corrigimos o rumo.

          Mal encostamos na praia e já demos de cara com o nativo que iria nos alugar o caiaque. E era como eu imaginava: um caiaque de plástico, daqueles abertos, que minha ignorância não sabe nem dizer o nome, mas se o caiaque não era lá grande coisa, a pessoa que iria rema-lo valia menos ainda, no caso eu.

          Colocamos os 2 caiaques na água, mas sinceramente, ainda não tinha a menor ideia do que iria rolar, só sabia que a intenção do Alexandre era ir para o Montão de Trigo, uma ilha que mal dava pra ver ali da praia. Na minha cabeça, vendo um conjunto de ilhas infinitamente mais perto que esse tal Montão de Trigo, pensei que poderia seguir com o Alexandre até elas pelo menos, talvez meus braços dessem conta de remar até lá, não era possível que eu não desse conta de remar uns 2 ou 3 km, mesmo nunca tendo remado na vida, mas pensando bem, ainda teria a volta, mas foda-se, ia tentar assim mesmo.

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    (Praia Barra do Sahy)

          Quando os caiaques caíram na água, fiquei meio apreensivo, pensando o que seria de mim se não conseguisse nem sair do lugar, preocupado em não dar trabalho para o Alexandre. Amarrei minha mochila estanque na traseira, nela levava além de 2 litros de água, roupa seca, camisa de neopreme, primeiros socorros, bussola, anorak, capa de chuva, comida de emergência, lanternas e até um cobertor de emergência, mesmo sabendo que não passaria ali da primeira ilha, mas não poderia deixar de estar preparado, ainda mais eu que sempre vomitei aos 4 ventos que as pessoas quando sai para uma trilha, precisa estar preparado sempre para o pior, no mar, não poderia ser diferente. No caiaque oceânico do Alexandre, com compartimento para carga, ia mais água, os lanches e outros equipamentos de emergência e foi assim, depois de verificar tudo, que dois caipiras entram no mar, vencendo as ondas iniciais, remando o mais de pressa que podem para não serem jogados de volta à praia.

          Entro no mar tentando manter o caiaque reto, sem dar chances de uma onda me pegar de lado. O bico da minha embarcação sobe, como se eu estivesse nos velhos barcos vikings da minha infância. Meto o remo na água e tento remar o mais depressa que posso, mas sou arremessado para trás e quase volto ao ponto inicial. Dobro a força dos braços, quebro a arrebentação, caiaque sobe, caiaque desce, ganho 30 metros de distância da praia e me estabilizo definitivamente e aí tenho tempo para apreciar a transparência da água, finalmente me sinto um homem do mar, agora é tentar alcançar o Alexandre voador, que já vai longe com seu caiaque oceânico.

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          Como primeiro objetivo, embicamos nossos caiaques em direção a ilha que recebe o subjetivo nome de AS ILHAS. Porque desse nome, não consegui descobrir, talvez por ao longe parecer 2 ou 3 ilhas, sendo que é apenas uma. Então para lá nos dirigimos e não passa mesmo de mais de 2 ou 3 km de distância entre a praia da Barra do Sahy e a ilha, mas para quem nunca se viu sozinho num minúsculo caiaque, em meio aquele marzão imenso, é algo que num primeiro momento assusta, mas vou me mantendo firme, colado ao Alexandre, compensando minha inexperiência e a diferença gritante de qualidade de equipamento, apenas na raiva e na força dos braços.

          No início parece que não saio do lugar, mas logo sou avisado pelo Alexandre que estamos progredindo bem e cada vez mais, vamos ficando distante da Barra do Sahy e a cada remada, mais solitário vamos nos sentindo, ainda que à nossa frente vamos mirando na praia da ilha, que é nosso foco principal. Colo de vez no caiaque do meu companheiro, na tentativa de me sentir mais confortável, porque apesar do Alexandre também não ter nenhuma experiência em mar, pelo menos já está habituado ao remo.

          Quando vamos nos aproximando da ilha ou das ILHAS, como ela é chamada, meto remo atrás de remo, ultrapasso o Alexandre e o deixo uns 300 metros para trás. Entro na área de arrebentação e sem tempo nem para pensar, sou carregado suavemente até a areia da PRAIA DE DENTRO, deslizando calmante até que possa saltar do caiaque e arrastá-lo acima da linha da maré. Foi uma saída de mar quase perfeita, nem parecia minha primeira vez. Já o Alexandre não teve a mesma sorte. Até aportou tranquilamente, mas ao sair do caiaque oceânico, tropeçou em alguma coisa e foi parar no fundo do mar, que nem era tão fundo assim, mas nos rendeu um tombo cinematográfico e várias risadas pelo batismo inesperado.

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    ( AS ILHAS)    

          A Praia de Dentro é um charme só e por estarmos num fim de semana comum, quase não há pessoas na areia, apenas meia dúzia de gatos pingados, incluindo uns remadores com uma linda canoa havaiana. Há um quiosque na ilha, mas já nos disseram que cobram os olhos da cara por qualquer coisa, então nem nos aproximamos de lá. Verdade mesmo que ficamos uns 20 minutos, até tomarmos um gole de água e do mesmo jeito que chegamos, partimos, e nem chegamos a investigar muito sobre as belezas do lugar, mas me pareceu mais um daqueles paraísos perdidos do Litoral Norte Paulista e valeria uma nova visita, com mais calma, apenas para ficar por ali mesmo, curtindo um ócio, mas nós viemos para remar e quando o Alexandre deu o start, partimos, aproveitando que as ondas quase inexistiam naquele momento e voltar para o mar foi como brincadeira de criança, coisa bem diferente da volta.

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          Saímos remando no sentido anti-horário, primeiro para oeste e depois corrigindo o rumo para sudoeste, como se fossemos dar a volta na ilha mesmo, mas nosso pensamento é irmos conhecer a outra ilha que fica atrás dessa, por isso vamos remando rente ao costão, mas não tão perto para não sermos jogados contra os rochedos, até que nos surpreendemos com mais uma prainha encantadora. Ali estava a PRAIA DE FORA, vazia e silenciosa e combinamos de visitá-la na volta, por isso passamos batido, ainda eufóricos pela empreitada que estávamos nos submetendo e ainda por parecer que estávamos indo muito bem.

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          Passamos pelo canal que separa AS ILHAS da próxima ilha e fomos nos dirigindo para um píer que avistamos de longe e 2 km depois da Praia de Dentro, aportamos na ILHA DAS COUVES DE SÃO SEBASTIÃO. Não há praias nessa ilha, por isso desembarcamos numa bela piscinas naturais do lado esquerdo e puxamos os caiaques para cima das pedras e fomos nos apresentar para umas pessoas que papeavam ao lado do píer, que imaginamos que fossem os donos da propriedade e do camping que eli existe. No píer, algumas pessoas brincavam na água, uns campistas que por lá estavam. À sombra de uma árvore, nós pusemos a conversar com os proprietários e pergunto sobre a distante Montão de Trigo e como sempre, as informações são desencontradas, ninguém sabe informar quanto tempo se levaria para lá chegar, um senhor chega a cogitar que poderia levar umas 5 horas de remo. Mas é o Alexandre que acaba me surpreendendo e cochicha no meu ouvido com seu sotaque carioca:

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        ( ilha das Couves)

            - Aí Divanei, deixa eu te falar umas paradas, não vou mais para o Montão de Trigo não, aquela ilha é longe pra caralho, tá lá na puta que o pariu, vamos ficar por aqui, curtindo essas ilhas mesmo, se é louco a gente enfrentar esse mar , aí .

          Não sei, o simples fato do desafio já começa a tomar conta da minha cabeça, meu cérebro simplesmente desliga a chave do bom senso e quando alguém diz que é algo impossível (pelo menos para a gente como nós) eu só consigo ouvir a palavra AVENTURA, como uma voz lá no fundo do inconsciente, gritando para que a gente ir – vai lá Divanei, o que pode dar errado, talvez nunca mais vocês tenham outra chance.

          - Alexandre, meu caro amigo, já viemos até aqui, o tempo parece que vai se manter firme, o mar tá balançando pouco, eu estou me sentindo bem fisicamente e se você tiver paciência comigo, acho que a gente poderia encarar essa travessia para esse tal de Montão de Trigo.

          O Alexandre ponderou, pensou , pensou :

          -Aí caraca, então vamos nessa merda, Divanei, já tamo aqui memo.

          Eu nem esperava outra resposta, o Alexandre foi provocado e respondeu à altura, sabendo que quando a gente se junta não é para fazer o comum e não importa em que esporte seja, sempre vamos estar em busca de algo a mais e remando nunca que iria ser diferente.

          Nos despedimos do pessoal da Ilha das Couves e botamos os caiaques no mar, remando sobre as piscinas naturais na beira do píer, vendo o Montão de Trigo lá na puta que o pariu, como dizia o Alexandre. O mar já não era mais aquele mar liso do início, mas ainda nos pareceu favorável e naquele sobe e desce, botamos força nos braços e nos impulsionamos, agora em mar aberto, sem a proteção psicológica do continente e nem das ilhotas, dois homens perdidos num oceano de águas salgadas, tentando esconder seus medos de principiantes, se segurando agora na vontade de reencontrar terra firme.

5f73856226c3a.jpg( Ilha dos Couves)
         

          Pouco depois de partirmos, somos parados por uma embarcação e coube ao Alexandre desenrolar a solicitação de parada. Por incrível que pareça, nesse barco se encontrava nada mais, nada menos que uma LENDA DO CAIAQUE NACIONAL. Fábio Paiva, dono da fábrica de Caiaques OPIUM, simplesmente o cara que introduziu a canoagem oceânica no Brasil, ganhador de tudo que é prêmio relacionado ao esporte. Inclusive, o Fabio ficou encantado em encontrar um dos seus caiaques, fabricado por ele, sendo remado pelo Alexandre e segundo nosso amigo, se ofereceu até para comprar de volta. O Alexandre relatou que pensávamos em ir no Montão de Trigo, mas que por não termos muita experiência, não estávamos seguros quanto a nossa capacidade e é aí que a gente consegue enxergar quem são os verdadeiros incentivadores, ao invés de ficar cagando regra, o Fábio nos incentivou a ir, nos deu forças para continuar enfrente.
          Nessa primeira experiência em mar aberto, o pensamento corre longe, num primeiro momento, ficamos a nos perguntar quão estúpida foi aquela decisão, não levamos em conta uma mudança repentina do mar, já que o tempo estava muito quente e poderíamos até termos um tempestade na volta ou sei lá, sermos pegos por alguma corrente que nos levasse para longe da ilha, meio que aqueles pensamentos cretinos de quem não conhece bulhufas nenhuma das coisas do mar, dois tontos que vivem no interior do Estado, desacostumado com os procedimentos de navegação. Mas, já estávamos totalmente comprometidos com a aventura, voltar atrás não era mais possível, então, levantamos a cabeça e remamos, remamos como nunca havíamos remado na vida, com a cabeça erguida, subindo e descendo, para baixo e para cima, até não aguentar mais, até pararmos e quase cairmos morto no fundo do caiaque.

          Paramos por um breve momento, eu já comecei a dar sinais de cansaço, na verdade, meus braços já estavam começando a queimar e um desconforto lombar já começava a me fazer querer mudar constantemente de posição, então aproveitei  para me sentar de lado no caiaque, botar as pernas para fora, com os pés dentro d’água, um claro sinal de que a vaca começava a ir para o brejo.

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          Depois dessa última parada, o Alexandre disparou na frente, segundo ele, era para ver se me convencia a me animar a remar mais rápido, mas que na verdade, só me fez me sentir um coitado, um remador de merda, perdido naquele mundão de água e parece que quanto mais rápido eu tentava remar, mais distante aquela maldita ilha ficava. Enquanto eu já ficava mareado de tanto sobe e desce, Alexandre desapareceu por completo das minhas vistas e eu já não conseguia mais identificar sua presença no mar em meio a outras embarcações que despontavam no horizonte. O jeito foi remar, remar e remar, ir vendo a ilha crescendo diante dos meus olhos, 300 metros de altura a me assombrar, procurando localizar em que parte estava o porto, tentando identificar alguma habitação que satisfizesse minha ânsia de chegar. Eu já estou em estado lastimável, tento achar energia sei lá de onde, é o último fôlego disponível, a última barrinha de energia, até que atinjo finalmente as encostas, onde o Alexandre já me espera com cara de poucos amigos.

 

           Eu pensando que o Alexandre estava meio puto comigo por eu ter me atrasado quase meia hora, mas o menino estava era mesmo muito puto com os moradores da ilha que não deixou ele aportar o caiaque no PORTO DE VARAS. Contou ele que o morador que se apresentou como líder da comunidade, foi de uma estupidez sem tamanho, mesmo o Alexandre dizendo que nem queria acessar a comunidade, apenas usar o porto para descansar por uma meia hora, antes de tomar o caminho de volta. Mas isso não era nenhuma novidade, já haviam relatos de outros que ali chegaram e foram tratados com desdenho por essas pessoas, que parece quererem se esconder atrás dos seus dogmas religiosos, numa hipocrisia sem tamanho. Talvez não sejam todos como esse senhor, mas o simples fato de deixarem esse tipo de gente como líder, também os faz coniventes com essa patifaria toda. Mas mandamos esses caras à  merda e ao adentrar uma piscina natural ali ao lado, conseguimos puxar os caiaques para cima de uma grande rocha e comemoramos nossa travessia , que mesmo com todos os percalços, foi um grande sucesso, ganhamos definitivamente a ILHA MONTÃO DE TRIGO, impossível é coisa que ainda procuramos nessa vida.

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    ( Porto de Varas a esquerda da foto)

          Nos sentamos sobre a pedra, junto a PISCINA NATURAL e ficamos observando as belezas das rochas da ilha, que são muito parecidas com as formações rochosas das Agulhas Negras de Itatiaia, lembrando até um pouco das Ilhas Seicheles no Oceano Índico. É um cenário realmente encantador e havíamos até conversado sobre a possibilidade de subir até o alto da Ilha, mesmo que fosse por algum caminho alternativo, mas esses planos foram por água abaixo quando o Alexandre me perguntou se já passava das 13 horas e me viu responder que já passava era das 3 da tarde.

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          Foi um desespero mútuo, uma correria dos infernos para engolir o lanche, beber o suco gelado, enquanto o Alexandre descia rapidamente seu pequeno drone, a fim de ganharmos tempo para sairmos vazados o mais rápido possível. Dentro de nós, um sentimento de que iríamos nos ferrar bonito, a possibilidade de voltar remando a noite já era realidade e com o mar ficando cada vez mais balançado, a preocupação já começava a querer beirar a agonia. Chutamos os caiaques para o mar e pulamos para dentro deles e sem nem pensar muito, nos pomos a remar, agora contra o tempo, mas eu não havia descansado nada e ainda sentia o peito e os braços queimarem, mas como eu sempre digo: O desespero é que move o homem antes da derrota final, era preciso continuar, seguir em frente até não aguentar mais.

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          Dois km antes de chegarmos ao Montão de Trigo, o Alexandre se ofereceu para me rebocar, mas meu orgulho foi tamanho que nem se quer passou pela minha cabeça aceitar tal ajuda, mas agora, remando de volta, talvez essa ajuda fosse bem-vinda, mesmo porque, o caiaque do Alexandre era muito mais rápido que o meu e ele estava um pouco mais preparado. Mas fiquei só na vontade, Alexandre velho, sumiu na frente e poucas vezes eu consegui alcançá-lo, ainda mais que agora éramos obrigados a remar num vento lateral, nos jogando sempre para a direita, dificultando ainda mais a gente nos mantermos no rumo. O Alexandre me confessou que estava bem mareado e não tardaria em botar os bofes para fora. Eu também estava um pouco enjoado, coisas de principiantes, mas quando resolvia parar por alguns segundos para retomar o fôlego, além de passar mal, ainda tinha que ouvir os gritos do Alexandre me alertando que deveria seguir ou iríamos ficar muito tempo remando no escuro, correndo até o risco de sermos atropelados por alguma embarcação.

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          A paciência do Alexandre comigo chegou ao fim, teve uma hora que ele não aguentou mais e picou a mula, deu linha na pipa, mas eu nem estava mais ligando, já me encontrava resignado com minha condição e só fazia tentar me manter em movimento, nem que fosse com um mínimo de esforço, só pensava em continuar remando, remando, remando....... O dia já não mais existia, apenas uma penumbra ainda nos fornecia uma leve iluminação, mas sem os óculos, eu mal enxergava as ilhas à minha frente, apenas via alguns vultos e para lá tentava remar ou ao menos, tentava continuar me movimentando. O Alexandre já havia sumido das minhas vistas faz tempo e foquei minha remada olhando apenas para o canto das ILHAS , deixando para trás a Ilha das Couves, mas quando emparelhei nela, já não mais conseguia remar. Tentei até remar deitado no caiaque, mas não conseguia manter a direção, então apenas permanecia estático por alguns minutos, tentando me livrar das dores nas costas, já que os braços eu nem sentia mais, porque já eram órgãos imprestáveis que apenas pareciam fazer peso no meu corpo. Como era um caiaque aberto e até bem estável, pensei que poderia melhorar a postura tentando remar em pé, vai que dava certo, mas a única coisa que consegui foi ir para no fundo do mar e emergir desesperado procurando voltar para o caiaque , tendo que  resgatar meu remo quase no escuro, mas que ideia mais cretina.

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          Mas era preciso continuar e não sei nem como continuei, acho que me valendo de uma energia psicológica quando ao longe avistei a praia e para lá me dirigi, só para descobrir que aquela era só a Praia de Fora, que havia esquecido que existia, então nem desembarquei, óbvio, segui me arrastando e quando fiz a curva, embiquei meu caiaque para a ponta da Praia de Dentro das ILHAS. Dessa vez o mar já não estava tão calmo como estava de manhã e era preciso encarar a pior parte de quem rema, que é fazer a entrada na praia. Sempre ouvi dize que é preciso entrar com o caiaque reto, o mais reto possível, então é isso que eu faço, alinho meu caiaque, embico para praia e espero que uma onda entre para que eu possa pegar uma carona. Quando ela aparece, remo o mais rápido que meu braço possa aguenta e subo junto com ela, mas nem tempo de gritar, dou um rodopio, viro de lado e me transformo em passageiro do destino e não tardo em ser jogado na areia, de ponta cabeça, a cara enfiada na praia, eu de um lado, caiaque do outro, remo do outro. CARALHO DOS INFERNOS.

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    ( Praia de dentro pela manha( calma), mas a noite com ondas.)  

          Me levanto muito puto, mas muito puto, é pouco. Desviro o caiaque, apanho o remo e saio arrastando pela areia da praia, tentando encontrar o Alexandre que já se encontrava no outro extremo, tentando ajudar uma pequena embarcação, que se encontrava atolada na areia. O Alexandre me pergunta se estou bem, nem forças para conversar eu tenho mais, apenas pego duas lanternas no meu estojo de primeiros socorros, dou uma para ele e fico com a outra. Acendo a minha do modo luz vermelha e ele no modo piscante. Ao longe, muito mais longe do que parecia, avistamos umas luzes meio que apagadas. Pergunto para ele para onde vamos seguir e ele me diz que acha que devemos remar em direção a grande ponta, mas sem aquela certeza e antes mesmo de conversamos mais sobre o assunto, ele bota o caiaque no mar e vai ser perder na escuridão da noite, ainda que no começo eu consiga identificar a lanterna dele piscando.

          É preciso encontrar forças, físicas e psicológicas e o simples fato de voltar ao mar já me embrulha o estômago, enjoado, mareado, destruído fisicamente, um homem atormentado pela sua condição de principiante. As primeiras remadas nessa derradeira travessia faço com cara de choro, dores terríveis são desencadeadas, mas vou avançando, na escuridão da noite, num mar que balança para cima e para baixo. Não tardou em eu já não localizar mais o Alexandre e agora sou um navegador solitário, estou por conta e risco. Miro na ponta quase escura, onde meia dúzia de luzes fracas me servem como um farol em busca da minha salvação. Remo com um braço só e vou alternando com o outro, não saio muito do lugar, não avanço, então volto a buscar energias para não desistir de vez.

          A progressão é lenta, a resignação é bruta e chega uma hora que não há mais como seguir, o limite parece ter chegado. Deito-me no caiaque, estico o corpo, recolho o remo e ali fico prostrado, entregue a minha própria solidão, num vai e vem sem rumo, num sobe e desce sem destino, apenas olhando as estrelas do céu, sem me importar do que vai ser de mim. Pareço estar a meio caminho de lugar nenhum, um homem inerte, sem coragem nem para pensar, apenas ali, estático, sendo levado ao sabor do vento. Por uns 10 minutos é assim que permaneço, até me dar conta que se eu não fizer nada por mim, ninguém irá fazer. Me levando, tomo meu assento e continuo tentando remar com os ombros e não com os braços, como foi o conselho que me deram antes de enfrentar essa aventura, mas isso não resolve, não tenho técnica para isso.

          É para ponta que eu remo, é para lá que minha alma deseja chegar, mas num estalo repentino, descubro que a única coisa que vai acontecer é eu me chocar com os costões rochosos, porque aquelas luzes não são da praia e agora, aquele homem que já não encontrava mais forças para nada, é obrigado a remar desesperadamente para escapar de um destino inglório. Desviei o rumo para a esquerda, não passava pela minha cabeça explodir nos rochedos. Fui remando paralelo a ponta, tentando ver algum vestígio que me dissesse para onde seria a praia, ainda mais por me lembrar que ali mesmo havia a foz do Rio Sahy e eu nem saberia precisar qual o tamanho da encrenca enfrentaria caso me encontrasse com a desembocadura desse rio enfrentando o mar, então só fiz tirar forças para remar ainda mais para esquerda, procurando o fundo da areia caso eu precisasse pular fora do caiaque em caso de emergência. Minha preocupação era me fuder toda ao chegar na praia, a noite e sem enxergar nada. Enquanto estava envolto na minha saída do mar, fui agraciado com um cardume de peixes enormes, pulando na frente do caiaque e mesmo na situação em que eu me encontrava, não teve como não me emocionar com tamanha beleza.

          A ficha caiu quando percebi que estava realmente perto da foz do Rio Sahy e por um breve momento, avistei a faixa de areia da praia. A minha preparação para o pior foi acontecendo. Já havia dado como certo que mais uma vez seria estraçalhado pelas ondas, era certo que seria cuspido pelo mar, sem dó nem piedade, por isso pensei em me jogar na água e deixar que o caiaque explodisse na areia, mas não tive tempo, uma onda subiu o meu caiaque, me elevou como se eu fosse uma prancha de surf: “Minha Nossa Senhora, vou me foder todo, ai, ai, ai,  caralhoooooooooooo..........” O caiaque subiu, balançou para cá e para lá, surfou, embicou para a praia, enquanto eu remava desesperado, tentando mantê-lo reto, até que bateu o bico na areia e deslizou suavemente até a linha da maré. Pulei para fora, cai de barriga para cima e por lá fiquei alguns minutos, olhando para o nada, quase chorando, um misto de vitória, êxtase, satisfação pessoal, como um naufrago que alcança a glória, 3 km,  dez horas entre o céu e o mar.

          Levantei a cabeça, e no outro canto da praia, avistei as luzes piscantes do Alexandre. Apanhei a cordinha do caiaque e como fiz na Praia de Dentro, arrastei-o até o meu amigo. Encontrando ele, nos cumprimentamos, NOSSA MISSÃO ESTAVA CUMPRIDA. E foi assim, que dois remadores inexperiente, moradores do interior do Estado, resolveram abandonar as mesmices da vida, para se aventurarem num esporte novo, enfrentar seus medos, desafiar o desconhecido, para fazer a vida valer a pena, como sempre fizemos e esse vai ser sempre o nosso compromisso com o mundo da Aventura, seja lá qual seja for, nas montanha, nas trilhas, nos rios ou no MAR.

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       ( foto Earth-Altahair de Morais) - AS ILHAS - ILHA DAS COUVES E MONTÃO DE TRIGO.                                                                       

                                                                                   Divanei- setembro/2020

         

 

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        .....................Olhos ao mar e uma esperança que parece nunca ter fim. Espectadores somos nós, numa noite agradável à beira da praia de PICINGUABA, simples ouvintes de uma tragédia soluçada por uma mãe e uma esposa que ainda aguarda a volta do filho e do marido que o mar tragou para sempre num longínquo dia de Páscoa. Aquela senhora que cambaleia de bêbada pelos dias que ali estivemos e que às vezes nos fez desdenharmos da sua condição, acabara por nos apunhalar o coração com  sua história de vida. A sua narrativa vai nos desconcertando e aos poucos vamos nos tornando passageiros da sua história, sendo levados juntos à embarcação que ao colidir nos arredores da Ilha das Couves, naufragou e vitimou seu marido e seu filho de 7 anos de idade. E lá está ela, mesmo depois de mais de uma década, ainda a olhar para o mar na esperança de ver seu marido e seu filho voltar, e lá estamos nós, com um nó na garganta e eu já com um véu nos olhos capaz de inundar mais de um oceano. Quem nunca leu ou ouviu falar das histórias contadas de naufrágios e famílias destroçados pelas agruras trazidas pelo mar, mas quantos tiverem a oportunidade de poder escutar da boca daqueles que por isso passaram? Essa história ouvida numa noite escura à beira da praia, num acaso inesperado, vai compondo as memórias guardadas num canto das nossas cabeças, as memórias de viagens, as histórias guardadas numa vida de descobertas, aventuras e encantos.................

         ( A equipe )
                Depois de quase dez dias desfrutando das praias e ilhas incríveis no norte de Ubatuba, na divisa com Parati-RJ e ser abastecido por uma infinidade de histórias, não aguentava mais escutar piadinhas da Aline e da minha filha Julia, sobre eu ainda não ter inventado uma trilha naquele recesso de fim de ano. A gente quer sossegar, ficar quieto no nosso canto, mas essas pessoas insistem em ficar nos cutucando, em ficar nos desafiando, então passei a mão no mapa e de última hora resolvi montar uma travessia pelas praias que nos cercavam.
                A caminhada que tracei começaria ali mesmo pela praia de Picinguaba e na minha cabeça poderia ser finalizada na Baia de Ubatumirim, um percurso longo, mas tranquilo, passando por praias selvagens e urbanas, um apanhado geral do que o Litoral Norte Paulista tem de mais sensacional. O dia estava lindo, sem nenhuma nuvem no céu e o sol reinava soberano e não havia motivos para carregarmos muita coisa, poderíamos comer pelas praias que passássemos e era certeza que no final da tarde já estaríamos de volta para o churrasco em família que nos propusemos a fazer. Mesmo assim, apanhei uma mochilinha e dentro dela joguei meu estojo de primeiros socorros, uma capa de chuva e 2 sacos grandes de lixo, agasalho e uma comida reserva, mas claro, era só um exagero sem fundamento de montanhista já meio cabreiro com grandes travessias e grandes expedições. A travessia ia ser um divertimento só, tanto que eu ia de sandália, mas aconselhei as meninas a colocarem um tênis na mochilinha delas porque a previsão era de atravessar uma meia hora de trilha entre duas praias.

          (PRAIA PICINGUABA)
                Além da minha filha Julia e da amiga Aline, o outro que comporia o grupo seria nada menos que meu amigo de infância, Rogério, esse sim, companheiro de uma infinidade de perrengues e roubadas memoráveis, mas que nos últimos anos estava afastado do mundo da aventura. Nos despedimos da família e descemos os degraus da casa onde estávamos abrigados e ganhamos logo o minúsculo centro da tradicional vila de pescadores da PRAIA DE PICINGUABA, um lugar pacato e tranquilo e que só agora parece ter ganhado mais notoriedade porque serve de partida para quem quer ir conhecer a Ilha das Couves. Tomamos, portanto, a rua principal, na verdade a única do vilarejo e vamos seguindo em direção à Rio-Santos, deixando as águas transparentes da praia para trás e ganhando a subida do asfalto carcomido e 15 minutos depois somos obrigados a parar no mirante de onde se descortina uma das mais incríveis vistas do litoral de São Paulo. Aos nossos pés a foz do Rio da Fazenda que ao se encontrar com o Rio Picinguaba, desagua no mar em tons de vermelho, num cenário impressionante e como bônus, nosso olhar pode se deleitar com os 3,7 km da selvagem praia da Fazenda.

          (MIRANTE FOZ DO RIO DA FAZENDA)
                Nossa caminhada pelo asfalto vai seguir por não mais que 15 minutos, talvez um pouco menos, porque aí deixaremos a estrada pavimentada em favor de um caminho de terra que pegamos para esquerda, acompanhando o próprio Rio Picinguaba por dentro da floresta sombreada até que o mundo se abre à nossa frente nos apresentando agora de perto o encontro com o Rio da Fazenda já devidamente abastecido pelo Picinguaba e ambos acabando seu ciclo no oceano Atlântico. Do outro lado do rio está a Grande Praia da Fazenda, eleita uma vez por um jornal inglês como uma das 10 praias mais bonitas do Brasil.

          ( TRAVESSIA DO RIO DA FAZENDA)
                O Rio da Fazenda ali na sua foz terá que ser atravessado com a água pelo peito, o que pode assustar alguns que não sabem nadar, mas com a maré mais baixa, passamos de boa, apenas cuidando para que as mochilas não molhassem. Aliás, dos 4 caminhantes, somente a Aline não sabe nadar e é com ela que tomamos mais cuidado, mas a travessia acabou por ser tranquila e logo adentramos definitivamente na PRAIA DA FAZENDA e fomos chapinhando em suas águas calmas e transparentes, batendo papo e vez por outra brincando de catar conchinhas, que logo iam sendo abandonadas porque ali é uma praia que pertence ao Parque Estadual da Serra do Mar e não se pode levar nada, nem uma mísera pedrinha. Uns 2 km de caminhada na areia da praia já nos levam perto da saída de acesso para a sede do Núcleo Picinguaba e é por ali que chegam os turistas de carro, mas felizmente, enquanto outras praias ficam entupidas de gente, essa praia não conta com mais de uma dúzia de gatos pingados porque aqui não existem bares, lanchonetes, quiosques e nem quaisquer outras comodidades, é ambiente bruto e selvagem a serviço da paz e do sossego.

         (PRAIA DA FAZENDA)
                Ainda na Fazenda, temos à nossa frente mais 1,5 km de pernadas até interceptarmos mais um rio, mas dessa vez bem menos que o anterior, que faz a alegria dos meninos pequenos por ser raso e inofensivo e logo que o cruzamos, paramos no final da praia para um breve descanso e gole de água numa bica providencial, antes de encararmos o nosso próximo desafio, agora mato à dentro.

         (PRAIA DA FAZENDA)

                A trilha vai subindo aos poucos, é um caminho aberto e desimpedido que muito provavelmente recebe manutenção por parte do Parque Estadual e é surpreendente que se possa seguir essa trilha sem ser molestado pelo excesso de burocracias e regras do próprio parque e isso é algo raro em se tratando desse tipo de unidade de conservação. É uma caminhada gostosa e eu apenas de sandálias, consigo evoluir tranquilamente mesmo tendo que cruzar por alguns pequenos atoleiros e não demora muito, talvez uns 20 minutos já damos de cara com uma saída a esquerda de onde já escutamos o barulho do mar e em 5 minutos estamos na beira da água. Não sei nem se podemos chamar aquilo de praia por conter apenas alguns metros quadrados de areia, mas não se engane, a PRAINHA DO CIRILO, nome me soprado pelos nativos, tem como principal atração uma grande piscina natural com fundo de areia e para aplacar o calor, corri para dentro dela enquanto os outros caminhantes faziam uma pausa para morder uns salgadinhos. O mar estava quente, como jamais havia visto nesse pedaço de litoral e foi difícil largar aquela água maravilhosa, mas quando achamos que era hora de partir, não tive problemas de correr para o riozinho de agua doce que ali desagua e tirar todo o sal do carpo naquele dia quente de verão.

       ( PRAINHA DO CIRILO)
                De volta à trilha, vamos subindo lentamente até que ela atingi seu cume, que nem é tão elevada assim e começa a descer suavemente em direção a nossa próxima praia, passa por uma construção em ruína e logo estamos com os pés na areia da deslumbrante e quase selvagem PRAIA BRAVA DA ALMADA.
       

           ( PRAIA BRAVA DA ALMADA)
                É incrível a belezura dessa praia, uma praia de uns 700 metros de comprimento com muita sombra e muitas amendoeiras e o melhor de tudo é ver que não mais de uma dúzia de pessoa por lá estavam, contando com o que estavam no mar. A Praia Brava da amada é mais uma que pertence a unidade de conservação e mesmo estando próxima à vila da Almada, ainda se mantém totalmente vazia e a vontade que dá é de sentar ali e nunca mais sair, mesmo porque, da última vez que aqui passei, vindo pelo outro lado, encontrei um mar revolto num dia chuvoso e agora o mar estava um espelho, um lago tranquilo e sereno, um convite para nadar ou simplesmente para se deleitar com a paisagem deslumbrante. Eu quero nadar novamente, mas as meninas e o Rogério querem caminhar, então atravessamos toda a areia da praia até o riozinho que desagua do seu lado direito e interceptamos a trilha.
                O caminho que liga uma praia à outra não  é surpreendentemente largo, quase uma estrada e a surpresa é saber que meros 15 minutos separam a fascinante e deserta praia Brava da PRAIA DO ENGENHO (300 m) e até que essa outra praia ainda se mantinha tranquila se comparada a da Almada. A praia do Engenho também é uma praia bonita, aliás não veremos praias feias nessa parte do litoral, o que diferencia cada uma é o número de gente que vamos encontrar nelas. Encontramos muita gente no Engenho, mas a atração principal é uma tartaruga enorme que o pessoal do Projeto Tamar estava soltando naquele exato momento.

          (PRAIA DO ENGENHO)

                Assim que a Tartaruga se foi, picamos a mula para a outra praia que se separa do Engenho apenas por uma língua de rochas e não mais que 5 minutos somos apresentados à uma praia lotada, onde havia fila até para entrar no mar. As pessoas se entulham na PRAIA DA ALMADA (400 m ) simplesmente pela comodidade de poder chegar com o carro quase na areia e se esbaldar nos quiosques e nas facilidades oferecidas. Nosso objetivo naquela praia muvucada era descobrir um meio de cair fora dela, já que no canto direito não havia passagem para lugar nenhum, aí com uma conversa com os locais, descobrimos que teríamos que subir a estradinha de asfalto até um mirante e de lá interceptar a trilha que nos levaria para a próxima praia do nosso roteiro. Fugimos de lá por dentro do estacionamento totalmente lotado, de onde novos banhistas tentavam entrar quase se pegando no tapa com os flanelinhas, era mais gente querendo se juntar ao caos enquanto a gente estava livre, sem nenhuma preocupação, apenas curtindo nosso roteiro levado pela maior máquina de locomoção já inventada em todos os tempos, nossas pernas.
       
         (PRAIA DA ALMADA)
                Ganhamos, portanto, a estradinha de asfalto e vamos subindo para valer em meio ao sol escaldante do início de tarde. O caminho não tem erro, é a própria estrada que liga a praia da Almada à Rio-Santos e vamos subindo lentamente, tentando aproveitar a sombra que por vezes se precipita para dentro do asfalto quente. Nesse caminho, as meninas já dão sinal de cansaço e é nessa hora que a gente aproveita para dar uma zuada nas novinhas dizendo que quem não aguentar pode simplesmente esperar passar o ônibus e voltar para casa, mas as meninas são tinhosas e não querem entregar os pontos para velha guarda. Falando em velha guarda, e põe velha guarda nisso (rsrsrs), Rogério ligou o turbo e nos deixou para trás e quando pensei que a Julia iria sucumbir de vez, ela também acelerou o passo e 40 minutos depois da Almada, chegamos ao MIRANTE DE UBATUMIRIM, na verdade uma das vistas mais belas de todo o litoral Paulista. A baia de Ubatumirim composta pela praia de mesmo nome e da praia do Estaleiro do Padre é daqueles lugares para se sentar e apreciar a beleza, num mar que se abre em cores e tons de azul e verde, com a Serra do Mar protegendo o cenário num cartão postal impressionante. Junto ao Mirante, uma lanchonete com o nome de Chica serve de referência e foi construída mesmo em um lugar estratégico e ali paramos para um gole de água e um refrigerante gelado.

       
          (MIRANTE UBATUMIRIM)   
          (MIRANTE BAHIA DE UBATUMIRIM)
                Com a cabeça mais fresca e já tendo perguntado para os caiçaras de onde partia a trilha que nos levaria à próxima praia, tiramos uma última foto do mirante e voltamos para nossa pernada e não andamos nem 100 metros, já interceptamos a trilha de acesso do lado esquerdo da estrada, logo após uma jaqueira. É um caminho largo que vai descendo para valer e é preciso tomar cuidado para não escorregar. Uns 200 metros abaixo damos de cara com uma construção que deverá se transformar em mais um quiosque com vistas excepcionais para praia do Estaleiro e toda a baia. A trilha contorna o terreno carpido, passa por uma cerca de arame e desce até um amontoado de casa até desembocarmos de vez no canto esquerdo da PRAIA DO ESTALEIRO DO PADRE.

         (PRAIA DO ESTALEIRO DO PADRE)
                A praia do Estaleiro tem 1800 m de comprimento, o mar calmo feito um lago e com uma característica diferente de quase todas as praias do litoral de São Paulo. Num primeiro momento é estranho ver os carros na areia, espalhados de qualquer jeito, sem uma organização distinta, mas prestando bem atenção, isso acaba nos remetendo às décadas passadas quando era comum esse tipo de atitude com as famílias acampando com suas enormes barracas na areia. Acampar hoje não é mais possível, mas ficou o estilo quase único, a diferença é que hoje os carros são de novas gerações e a música vinda dos seus potentes alto-falante, uma porcaria inaudível.
                Sem nenhum compromisso com o tempo, vamos chapinhando nas águas rasas da baia, olhando o movimento dos banhistas e como o estômago já anda roncando, procurando um lugar para comer algo mais consistente, mas as passadas vão rendendo e quando chegamos à beira o rio Ubatumirim, que divide a praia do Estaleiro com a própria PRAIA DE UBATUMIRIM, resolvemos deixar para forrar o estômago só no final. Minha grande preocupação quando rascunhei esse roteiro era a passagem pelo Rio Ubatumirim, já que na minha única passagem por aqui, num dia de chuvas torrenciais, peguei o rio com a maré alta e pensei não ser possível atravessá-lo sem que se conseguisse um barco, uma canoa, mas ao chegarmos na foz, encontramos um rio raso e o cruzamos com a água pela cintura e adentramos de vez na Praia de Ubatumirim.

         (TRAVESSIA RIO UBATUMIRIM)
                A praia de Ubatumirim não difere muita da praia do Estaleiro, só que os carros ficam confinados na parte superior da areia da praia devido a instalação de mourões de madeira. É uma praia evidentemente com muita gente, mas por conter mais de 2km de areia não é difícil encontrar sossego no canto direito é para lá que nos dirigimos com a brisa da tarde batendo no rosto. É uma caminhada gostosa, um ar de amplitude com aquele mar lindo, cheio de ilhas que se descortina à nossa frente e quando chegamos ao seu final, o Rogério e as meninas já colam em um carrinho de sorvete, enquanto eu vou escalar a encosta rochosa para tentar uma foto com as duas praias de quase 4 km a nos encher a vista. A minha intenção era só chegar até o final dessa praia , mas quando estávamos no mirante, ainda no alto da serrinha, nos chamou a atenção a possibilidade de acrescentar mais  uma praia no nosso roteiro e como a maré estava baixa, a passagem para praia da Justa estava sendo possível ser feita por dentro do mar , beirando o costão.

          (PRAIA DE UBATUMIRIM)
                Existe um caminho que liga Ubatumirim à PRAIA DA JUSTA, mas nem chegamos a investigar, botamos as mochilinhas nas costas e nos enfiamos mar adentro, tendo ao nosso lado a Ilhota do Maracujá e menos de 10 minutos depois estávamos novamente pisando na areia. A Justa é uma praia pequena se comparada às anteriores ( 300 m) e nos chama a atenção o fato de ser um lugar vazio, onde duas ou três lanchas estavam estacionadas. Aqui temos um clássico exemplo da preguiça humana, que prefere se acotovelar em praias lotadas enquanto praias como essa, apenas por ser preciso míseros minutos de caminhada, ficam jogadas às traças.

         (ILHA DO MARACUJÁ)
                Mais de 20 km de andanças sob um sol de rachar coco, nos deixou exaustos e ao chegar ao final da nossa jornada, nos sentamos em um quiosque que serve comida para abastados e de frente para praia, ficamos a comtemplar aquele mar e seus barquinhos num vai e vem hipnotizante. Nossa missão estava cumprida, realizamos o trajeto do qual nos propusemos a fazer e como prêmio, sonhamos ser ricos apenas uma vez na vida e pedimos logo uma porção de camarão e de cação e enquanto a iguaria banhada a fios de ouro era preparada, corremos para o mar e fingimos ser donos de uma lancha chiquetosa que por ali boiava e a fizemos companhia, boiando ao seu lado até que a Aline nos chamou avisando que o chefe já iria trazer a comida.

         (PRAIA DA JUSTA)
                Comemos devagar, saboreando cada perna de camarão, até que resolvo perguntar à um nativo a direção do caminho que poderia nos levar de volta para Rio-Santos no intuito de pegarmos um ônibus de volta para Vila de Picinguaba. O caiçara se espanta quando descobre que estávamos vindo a pé da vila distante e sem nos dar chance de defesa já diz logo na cara: “ Seis veio andando de Picinguaba, porque não vão até Puruba”.  Pronto, foi a deixa para o diabinho da comichão pular para o meu ombro e ficar infernizando minha cabeça: “ Vai lá Divanei, quem fez 9 praias faz 10, vai lá, o que são só mais uma hora de caminhada numa trilha subindo esse morrinho de nada? ”

         (PRAIA DA JUSTA)
                Dando ouvidos aos conselhos do diabinho, arrastei a Julia, a Aline e o Rogério comigo e com a barriga cheia, mas a alma transbordando de más intenções, caminhamos pelos quase 300 m da Praia da Justa, cruzamos um riacho pela canela e junto a uma casinha, perguntamos a um nativo pela trilha, que estava ali justamente no final da praia. Antes de subir a trilha, calçaram os tênis e eu não tinha outra opção a não ser a de seguir de sandálias mesmo. A trilha é larga, mas em certos momentos o mato acabou por tomar conta, mas nada que atrapalhasse nossa caminhada, que seguia firme e decidida com o objetivo de pôr fim aquela travessia definitivamente. Vamos cruzando por baixo de uma floresta exuberante às vezes vendo o mundo distante através de algumas janelas que iam surgindo para os vales e montanhas. Meia hora depois, talvez menos, cruzamos por um grande atoleiro e vários pequenos riachos são cruzados e em outros 15 minutos saímos  no aberto, uma antiga plantação de mandioca, com uma placa indicando uma pequena trilha num aceiro ( corte no mato em forma de estradinha para proteger uma certa área contra fogo), então adentramos nesse caminho que logo voltou a ficar largo e de passagem desobstruída , mas 10 minutos depois esse caminho se perdeu no meio da floresta, nos deixando sem pai e sem mãe , sem saber para onde seguir.

                Procuramos a trilha, vasculhamos cada canto ao redor e nada. Voltamos para ver se não a havíamos perdido um pouco antes, mas nada encontramos, pode ser mesmo que não tenhamos procurado o suficiente, o certo é que agora teríamos que tomar uma decisão: Quando a gente é jovem, costumamos tocar o foda-se, fazer umas porra-louquisses inconsequente. A gente acaba por tomar decisões sem pensar muito nas consequências, vai meio que por impulso, é da nossa idade fazer estupidez, mas aí quando a idade chega e a maturidade já toma conta do nosso bom senso, a gente descobre que isso não tem nada a ver com nada e que quem viveu tomando decisões cretinas, nunca vai aprender mesmo, então, reuni o grupo todo e com o aval do Rogério, decidimos tocar o pau no mato, arrastar aquela floresta no peito e que os deuses tenham pena da nossa alma . (rsrrsrsrsrsrsrr)
                Liguei o gps do celular e fizemos um estudo prévio do terreno. Estávamos quase no alto do morro e nos pareceu que o melhor caminho seria passar pelo topo, então foi para lá que nos dirigimos, inicialmente tentando nos livrar dos cipós e arbustos parecidos com palmeiras. A cada metro avançado era um corte que ganhávamos, afinal de contas estávamos todos apenas com roupas próprias para banho. No começo até fui iludido pela vegetação e cheguei a pensar que passaríamos fácil, mas conforme fomos avançando os gritos de murmúrios e ranger de dente foram aumentando, era as meninas que gritavam a cada espinho e a cada corte que a vegetação lhes presenteava, a cada mosquito, a cada borrachudo, era um xingamento novo que eu recebia por tê-las colocado naquela enrascada. O avanço era lento e o Rogério já estava falando para apressarmos o passo para não termos que dormir no mato e aí foi que dei graças por ter pego alguns equipos de emergência. Já fazia mais de uma hora que a gente tentava nos livrar da vegetação e parecia que não saíamos do lugar, a não ser quando tentávamos descer um barranco liso e a força da gravidade nos dava uma forcinha, nos empurrando morro à baixo em escorregões memoráveis.
                 Meus pés não tinham mais lugar para furar e para cortar e as pernas das meninas já estavam todas retalhadas, quando tomamos a decisão de descer por dentro de um rio seco, uma calha da montanha que logo brotou água e matou nossa sede. As meninas já estavam emputecidas de tanta raiva, mas era preciso seguir em frente. Contornamos um desnível com uma pequena cachoeirinha e perdemos altitude rapidamente e aí conseguimos nos deslocar um pouco mais rápido por dentro do riacho até darmos de cara com umas mangueiras pretas, bem na capitação de água do vilarejo de Puruba, onde ao lado interceptamos uma trilha mais carpida e descemos até o Rio Quiririm.

                Chegar às margens do Rio Quiririm poderia até ser um alívio se não fosse o fato do rio ser extremamente fundo e largo e como a Aline não sabe nadar, o jeito foi tentar margeá-lo até que ele se encontre com o Rio Puruba e ganhe o mar, onde fica largo e raso, dando passagem para a praia, mas como por infelicidade fomos sair numa área de mangue, estava quase impossível passar andando pela margem e aí não tivemos outra alternativa senão tentar chegar a sua foz andando por dentro do rio. Fui guiando o grupo, inicialmente com a água na cintura, nos segurando nos galhos da margem e tomando cuidado com as pedras infestadas de cracas e ostras que cortam feito navalha.
                O avanço era lento, as meninas o tempo todo resmungando porque diziam que a qualquer momento poderiam ser comidas por uma sucuri ou outra cobra comedora de gente e não adiantava nada falar que esse não era o perigo porque eu e o Rogério já não gozávamos mais de nenhuma credibilidade com elas. A margem foi ficando cada vez mais funda e quando chegou ao meu pescoço, me veio a cabeça que nosso avanço pelo rio tinha chegado ao seu final e que não haveria outro jeito senão eu tentar atravessar o rio a nado e ir procurar um pescador com alguma canoa para nos tirar da enrascada em havíamos nos metido. Aliás , já fazia tempo que as meninas imploravam pra gente gritar e chamar atenção de umas jangadas que já estavam nas nossas vistas, mas nós não queríamos dar o braço a torcer, só iríamos pedir arrego quando não tivesse mais jeito. Acontece que quando a água bateu no pescoço, a Aline já deu uma baqueada e o Rogério cortou a perna numa craca e o “sangue véio” desceu, aí a menina resolveu acabar com a brincadeira e ao ver uma canoa fazendo a curva vindo do rio Puruba, que se encontra com o Quiririm, levantou os braços e acenou para o pescador que vem em nosso auxilio.
                O pescador, sem entender nada, sem saber de onde havíamos surgido, já foi perguntando e quando soube que vínhamos da praia da Justa, já foi dizendo que essa trilha não é mais usada pelos caiçaras e que aquele lugar era infestado de cobras bravas. Paciência, as meninas eram mais, ( rsrsrrsrr) . Rapidamente nos jogou para dentro da canoa e nos deixou do outro lado do rio e não quis nem receber pelo trabalho, já lhe bastava a satisfação de contar para toda a comunidade que havia resgatado 4 sem noção que foram dar com os burros n’água depois de varar aquele mato dos infernos.

       
       
       

           (FOZ DO RIO PURUBA COM O QUIRIRIM)
                Estando em terra firme, já que ali estávamos, aproveitei para mostrar a PRAIA DO PURUBA para eles, já que eu a conhecia de outros carnavais. Primeiro para chegar à praia é preciso atravessar o rio Puruba com a água pela cintura que corre paralelo ao mar. Essa é uma das joias do litoral de Ubatuba, uma praia enorme onde é possível tomar banho de mar e de rio ao mesmo tempo e no seu canto direito é praticamente deserta e selvagem. O sal do mar serviu para lavar as feridas de um grupo esfarrapado e retalhado pela floresta e quando todo mundo já estava mais ou menos apresentável, viramos as costas para o oceano e botamos o pé na estrada novamente, mais 40 minutos de caminhada até a Rio-Santos e por lá ficamos por quase 3 horas até que um ônibus tivesse dó da gente e nos desovasse novamente no vilarejo caiçara de Picinguaba, já depois das 11 horas da noite.

          (PICINGUABA)
                Não é preciso nem dizer que os nossos familiares estavam arrancando os cabelos de preocupação e mesmo assim, debaixo de uma saraivada de críticas pela nossa irresponsabilidade, fomos cumprir o prometido que era o de fazer o churrasco, mesmo sendo depois da meia noite. A Julia coitada, a mesma que de manhã fazia coro nos chamando de velhos, tomou banho e foi morrer num canto qualquer, indo dormir sem forças nem para jantar. Em volta da churrasqueira, eu e o Rogério demos muitas risadas do acontecido porque fazia tempo que não nos metíamos juntos numas enrascadas dessas, relembrando os velhos tempos em que saíamos sem rumo mundo à fora a procura de aventuras memoráveis e mostramos que em se tratando de arrumar encrencas, ainda estamos em plena forma.

                                                        Divanei Goes de Paula- dezembro/2018
       
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