Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka
#988679 por mcm
04 Ago 2014, 15:07
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Muito mais fotos sobre Agra e arredores podem ser vistas no relato da Katia sobre Jaipur clicando aqui.

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O táxi estava à nossa espera na hora e local combinados. Fomos cedo para Fatehpur Sikri. Chegando lá, nos foi oferecido o serviço de guia, supostamente licenciado pelo governo. Não dá pra saber se é realmente licenciado ou não. Conversamos e optamos por topar, sob condições: que as coisas fossem feitas no nosso tempo, ou seja, pararíamos diversas vezes para admirar e fotografar os lugares. Como geralmente acontece, depois nos arrependemos da decisão de termos contratado guia.

Fatehpur Sikri é um lugar lindíssimo, bem amplo, repleto de construções muito maneiras. Curtimos MUITO, e no nosso tempo (apesar das aceleradas do guia), exploramos todos os lugares. Valeu muito a pena admirar aquelas construções e buscar os detalhes internos de cada uma delas.

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Ficaríamos horas por lá, por conta própria, dispensando o blablabla do que é isso ou aquilo e da história do lugar (respeito e admiro muito quem se interessa, mas naquele caso não era nosso foco), mas... estávamos com guia, então ouvíamos a história. Na verdade, eu abstraía, ficava mesmo admirando o lugar.

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A seguir, fomos na mesquita, que fica logo ao lado. Também muito bonita, bem ampla – tal qual a Jama Masjid de Delhi. Lá, no entanto, o guia escorregou feio no nosso conceito ao tentar nos jogar numa clássica armadilha. Pediu-nos para sentarmos em frente a um cara “que iria nos explicar” sei lá o quê. Só sei que é uma clássica situação de armadilha que busca constranger o turista a abrir a carteira para alguma coisa. Eu não tenho muito problema com isso, digo “não” solenemente. No fim das contas era para comprar uns panos que seriam oferecidos a sei lá quem, que o Sarkozy (?!) tinha comprado quando esteve lá e blablablá. “Não, obrigado” é a minha resposta automática. Katia ainda emendou com uma historinha de que nossa religião não permite comprar coisas para oferecer (?!) e assim rechaçamos a armadilha. Não foi a última da viagem. Enfim, frustramos a turma. Pior que nem ouvimos os preços, fiquei na curiosidade.

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Dentro da mesquita, em Fatehpur Sikri

Retornamos para Agra. Fechamos com o motorista de ficar o dia todo conosco por 2.000 rúpias. Esquema-patrão total!! Pedimos para ele nos levar ao Forte Agra/Agra Fort. Era o pico do calor do dia, pouca gente se aventurava fora das sombras. Ainda assim, tivemos de dispensar os insistentes guias na entrada. O forte também é muito maneiro, com vários ambientes. Inclusive mesquitas. Foi nosso primeiro contato visual, ainda que bem distante, com o Taj Mahal. Muito imponente, mesmo assim. O rio estava bem seco.

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Nosso primeiro contato visual com o Taj, a partir do Agra Fort

Vimos muito poucos turistas estrangeiros. A maioria avassaladora dos turistas que vimos eram indianos, que aproveitavam algum momento de férias locais para viajar pelo país. Como éramos exceção, geralmente éramos muito observados. Mas quase sempre com sorrisos, o que era bem legal.

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Cenários diversos, e belíssimos, de dentro do Agra Fort

Seguimos para o I'timād-ud-Daulah, popularmente conhecido como Baby Taj. Mas não sei porque eu fixei Baby Mahal na cabeça. De qualquer forma, é tida como uma “miniatura” do Taj Mahal. A comparação pode ser problemática (do tipo “ah, já vi o Taj, não vou ver a tal miniatura”), mas o lugar merece a visita – sobretudo se você ainda não tiver ido ao Taj.

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Baby Taj

Acabamos planejando o resto do nosso dia de acordo com as atrações listadas no LP, então a visita seguinte foi a Chini-Ka-Rauza. Nosso motorista nos disse "not good", mas que nos levaria lá na boa. É realmente bem pequeno, escondido, e praticamente não tem turista -- mas os malas estão lá esperando pelos incautos. Visitamos rapidamente.

Fechamos o dia com Methab Bagh, o parque pago cuja atração única é uma vista espetacular para o Taj. Aliás, espetacular é pouco, a vista é magnífica, estupenda. E quaisquer outros adjetivos. Meio surreal pagar para entrar num parque cuja única atração é ver o que está do outro lado do rio... Mas lemos que turistas agora sequer podem chegar ao rio por conta própria, é proibido. Tudo para forçar a entrada paga no parque. Na saída vimos um turista tentando ir para o rio a pé, por fora do parque, e sendo barrado.

Ficamos um bom tempo no parque admirando o Taj e sentando o dedo na máquina fotográfica.

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Foram tantas fotos de um ângulo praticamente igual, para somente uma ser colocada aqui...

Encerramos o dia às 16hs. Ou seja, se o Taj abrisse naquele dia, teríamos ido em todas as atrações que nos interessavam na cidade num único dia! Mas ainda tínhamos um outro dia inteiro pela frente em Agra. Sabendo disso nosso motorista se ofereceu de levar-nos a Mathura e Vrindavam, duas cidades próximas. E que constavam do LP. Eram cidades ligadas a Krishna e tal. Não era muito a nossa, era Plano B total para nós, mas aplica-se a nossa Lei Fundamental: é melhor ir do que não ir (e com o agravante de ficar em Agra sem ter muito o que fazer). Agora ele nos cobrou 2.500, alegando que era mais longe (e é mesmo). Até tentei negociar, desdenhei, falei que achava que não ia, mas não teve jogo. No fim topamos.

De volta a Agra no fim de tarde, fomos procurar um lugar para comer, finalmente. Era um horário meio ingrato, quase nenhum restaurante aberto. Queríamos um com cerveja. Fomos em dois que propagandeavam ter cerveja no terraço, mas... não tinham. Um deles foi surreal: o terraço estava em obras, os caras estavam fazendo obra naquele momento, mas o cara nos disse que colocaria uma mesa para nós ali! Sim, no meio da poeirada e logo ao lado da obra rolando! Declinamos, naturalmente. Ele ainda mandou outra cartada sinistra: 25% de desconto em todo o cardápio! Ahahahahahah. Mas tem coisas que não se pagam, e essa é uma delas. Acabamos comendo honestamente num restaurante por perto (sem terraço e sem cerveja – e sem cerveja a conta sai MUITO mais leve).

Com tempo de sobra, aproveitamos para fazer uma massagem ayuruvédica, que tinha propaganda no hotel. Foi meio tenso no começo, mas foi das melhores massagens que já fiz. E bem barata – ainda assim, depois vimos que pagamos caro para o padrão local!
Editado pela última vez por mcm em 14 Ago 2014, 12:03, em um total de 1 vez.


#988683 por mcm
04 Ago 2014, 15:16
Acordamos às 6 da manhã e fomos logo para o Taj. Fomos andando através de um parque que ficava perto e que dava para a entrada oeste. O parque estava cheio logo cedo! Galera acorda cedo, pelo visto. E no caminho vimos macacos.

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A camnho do Taj

Dispensamos os tradicionais guias e conversinhas da entrada. Na rigorosa checagem que fazem, tomaram minhas pilhas da lanterna, dizendo que não pode entrar. PQP. O Taj Mahal dispensa maiores delongas. É monumental na pura acepção da palavra. Seguramente o lugar com mais estrangeiros que vimos em toda a viagem até então -– vimos mais lá do que em todos os dias anteriores somados. Até brasileiro nós vimos.

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Ei-lo

Dentro do Taj não é nada de mais, como já tínhamos lido. Curtimos bastante o lugar, paramos para admirar com calma. Observamos um pouco as pessoas (people-watch). Encontramos turistas com quem tiramos fotos no dia anterior no Agra Fort.

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Voltamos e fomos tomar um café da manhã na rua. Precisava trocar mais dólares. O novo primeiro ministro da Índia, Mody, tinha sido eleito, e isso serviu de justificativa para a queda da cotação do dólar, ahahaha. Mas foi só procurar um pouco mais que encontrei a cotação no mesmo patamar de antes. Até nisso rola alguma negociação!

Ficamos no relax até 12hs, hora que marcamos com nosso motorista, Mr. Khan, de nos pegar para fazermos o passeio da tarde. No caminho, paramos na Tumba de Maria/Marias's Tomb. Bem bacana, bonito.

Seguimos para Mathura. A primeira (e única) parada na cidade foi para ir num templo Krishna. Não podia entrar com nada, nem bagagem, nem celular, máquina, nada. Tinha um lugar logo ao lado para deixar essas paradas. Tudo por causa do triste massacre de Ayodhya em 1993. Katia ficou grilada de deixar a máquina e a bolsa por lá e decidiu não entrar. Fui sozinho. Muito bacana lá dentro. Como estava quente pacas e tinha de estar descalço, eles colocam tapetes e água nos tapetes para amenizar, ou melhor, para possibilitar que se caminhe pelo lugar. Lá é o lugar onde (supostamente) nasceu o Krishna. Eu era o único estrangeiro naquela hora. Gostei.

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Aqui, dizem, nasceu Krishna

Em seguida, fomos para Vrindavan. No caminho paramos em mais um templo Birla Mandir. Acho esses templos muito maneiros, mas em nenhum dos que estivemos pode tirar fotos.

Chegando em Vrindavan, logo surgiu um guia para nos mostrar o que havia de interessante. Grilei na hora. Como eu desconhecia o que ver por lá e não tinha mapa (e lá você não teria muito como se locomover por conta própria sem se perder), ter um guia não era de todo ruim. O guia se apresentou, simpático. Era um senhor. Perguntei quanto custava o serviço dele. Ele disse que não tinha preço, que eu daria o que achasse melhor no fim do tour. Insisti para ele dar um preço. Ele insistiu que não. Ou seja, um convite a problemas futuros. Mas se é pra jogar, eu jogo. Logo me lembrei de um valor que tinha lido de guias no Agra Fort, de 300 pratas por 1-2 horas. Essa era minha referência. E assim fomos.

O primeiro lugar que o guia nos mostrou foi o mais interessante do dia. Um belíssimo templo Godvind Dev. Lindo, sinistro, escuro por dentro. Cheio de macacos. Dentro e fora. Macacos tocando o zaralho lá dentro. Nosso guia avisou para não usarmos óculos nem nada que fosse "pegável" nas mãos. Tudo porque os macacos podem vir e tomar de você. Li vários relatos disso. Eu ficava admirando aquele belo templo e o guia insistindo em falar sei lá o quê, mas eu não conseguia (nem queria) dar muita atenção, o lugar era muito atraente e eu precisava admirar aquilo, e não ficar ouvindo. Mas Katia não consegue abstrair e ficou dando atenção. Melhor pra mim, o guia passou a se dirigir a ela geralmente.

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Não somente o templo era interessante, os macacos tornavam tudo mais surreal! Havia brigas entre eles, logo espantadas por "guardadores" do templo, que batiam com o pau em algum lugar do templo para espantar os bichos. Nosso guia mesmo andava com um pedaço de pau na mão para bater em algum canto (mas nunca nos bichos, pelo menos que eu tenha visto) e espantar os macacos.

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Depois do templo, o guia nos levou por diversas ruelas da cidade. Tudo muito sinistro. Esgoto correndo a céu aberto nas laterais das ruas, muita sujeira, muito lixo espalhado. De vez em quando um templo no caminho. Ou alguma coisa pitoresca, surreal. Pareceu uma prévia de Varanasi -- e depois vi que foi exatamente isso. Nosso guia acelerava, mas nós paramos diversas vezes para registrar alguma coisa interessante que víamos pelo caminho. E ele ficava lá na frente nos esperando, meio impaciente.

Chegamos ao Rio Yamuna. Mais macacos. Belíssimas construções beirando o rio, e boa parte, senão todas, pareciam abandonadas. Lugar muito fotogênico. Bem prévia de Varanasi mesmo! Queríamos curtir muito mais o lugar, mas lá estava nosso guia acelerando e nos puxando à frente.

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Belos visuais no Rio Yamuna

Então retornamos às ruelas sinistras da cidade, mas agora o guia nos levou a alguns templos. Um deles, algo como Maduha (??), ou coisa parecida, tinha interessantes troncos de árvores que se entrelaçavam. E tome explicações, as quais eu ouvia parcialmente (inclusive pelo inglês meio capenga do guia) e que já esqueci. Mas é tudo de alguma forma ligado a Krishna.

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Repare na fila (à esquerda) de pedintes na entrada de um dos templos. Será que escolher um deles ao acaso causaria ciumeira nos outros?

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Eis o nosso guia, de pau na mão; e os macacos por toda parte

Em outro templo, em que não se podia fotografar, dezenas (ou centenas) de mulheres que se dedicavam a Krishna. Mas será que é só isso que fazem da vida? Preferi não perguntar. Em todos eles tinha de retirar os sapatos e, claro, deixar uma gorjeta para o "flanelinha de sapatos" -- figura que encontramos em boa parte dos templos na Índia.

Até que, num desses templos, o guia tentou nos empurrar para uma armadilha -- semelhante à de Fatehpur Sikri. Ele foi mostrando várias placas que foram doadas por estrangeiros ao templo, em suposta homenagem a Krishna, que foram fixadas nas paredes. De fato, havia algumas de países diversos. Mas isso pouco me interessava, assim como aquele templo não tinha nada de interessante para mim. E aí veio um cara do templo e começou a nos "dar explicações" sobre as placas. O cara era arrogante pacas. Possivelmente ele sacou que não ia conseguir nada conosco, sei lá. Na hora eu saquei que era armadilha e já comecei a demonstrar desatenção, esperando apenas o momento do “não, obrigado”. O mais interessante é que o cara só falava de dinheiro! Que a placa custa 6 mil rúpias, que isso é equivalente a 100 dólares e blablabla. Ele terminou de falar, eu disse meu tradicional "não, obrigado", Katia sacou a tal explicação dela em paralelo (“nossa religião não permite pagar por coisas para oferecer”). Então o cara falou para assinarmos um tal livro. "Não, obrigado". Aí ele insistiu, com a ajuda do nosso guia, dizendo que era apenas para registro. Fui ler e não era. Era tipo um atestado de doação. Falei que não ia assinar. Então pediram uma doação para Krishna. Ahahaha, tá bom. Saquei 10 rúpias e dei. O cara arrogante falou que eu podia ficar com aquilo. "Muito obrigado", eu disse, sorridente. E ai veio o guia me questionar: "Isso é o que você dá ao guardador de sapatos; é o que você vai doar para Krishna?". "Sim". Ahahahah, turismo na Índia envolve muitas escapadas de armadilhas! Com essa, o guia desceu vertiginosamente em nosso conceito. Mas ele não voltou ao tema.

O complexo de templos que eu tinha lido no LP era a atração seguinte, mas o guia disse que era vedado a estrangeiros. Hoje eu acho que foi historinha dele para encerrar logo a coisa, tendo visto que não caímos na armadilha da placa para o Krishna.

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O templo que eu queria ter ido

Logo a seguir, ele falou que nosso tour estava encerrado. E aí começou a clássica historinha do "vocês gostaram dos meus serviços? Eu levei vocês para isso, aquilo e aquilo outro, blablabla". Rapidamente saquei os 300 que eram minha referência (até daria uma gorjeta, não fosse a armadilha da placa), disse muito obrigado e entreguei. Ele recusou! Ficou dando uma de ofendido com os 300, falou que aquele valor não era nada para o serviço que ele tinha prestado e por aí vai. E aí começou a discutir com a Katia (a Katia reage a essas coisas) e, no fim das contas, ao ver que eu não daria nada além daquilo, ficou com os 300 mesmo. Falei para ele que ele deveria ter dado um preço quando perguntei, por duas vezes. Ele respondeu que, se soubesse que daríamos "só" aquilo, não teria nos levado em "tantos" lugares. Repliquei que isso era mais um motivo para ele dar o preço antes. E assim encerramos nossa relação, um tanto litigiosa no fim.

Isso é, naturalmente, um jogo. É baixo para o "padrão dólar"? É. Mas é alto, ou justo, para o "padrão Índia". Mas o jogo foi proposto por ele, ao não dar preço. Se tem uma coisa que eu não cedo é a essas tentativas de constranger o turista a abrir a carteira. Eu digo "não" tranquilamente. E cumpro com o que foi acordado previamente.

Encontramos nosso motorista (que seguramente devia ter esquema de comissão com o guia) e tocamos de volta para Agra. Ele nos perguntou como foi e relatamos a ele. Sabendo que ele já sabia, claro. Foi mais para ele também não se engraçar para o nosso lado. E ele não se engraçou, pagamos a ele conforme acordamos. Acordamos com ele de um tuc-tuc nos pegar mais tarde para nos levar à estação (provavelmente o preço acordado era alto, mas tudo bem). Ele disse que mandaria o irmão dele, que tinha um tu tuc.

Mas tudo na Índia tem esquema, ahahahah. O motorista nos pediu para não falarmos com ninguém que ele tinha nos levado para passear naqueles dois dias. Perguntei "mas falar para quem"? "Para o pessoal do hotel, para o meu irmão". Perguntei o motivo. "É a minha comissão, né". Ahahahaha, até para o irmão! Pior é que eu acho que acabamos falando. O irmão dele veio nos procurar e, todo simpático (e esperto), perguntou como tinha sido o dia, se tínhamos gostado desse e daquele lugar, e nós confirmamos. Depois que nos tocamos que supostamente não deveríamos ter falado. Mas eu não ia mentir para o cara.

Jantamos no Maya, a matriz do nosso hotel. Boa janta.

No fim da noite fizemos nosso check-out (negociamos uma meia diária para ocupar o hotel ate o fim do dia) e lá fomos para a estação. Cheia, galera dormindo no chão. Vi o primeiro rato da viagem, passeando pelos cantos da estação em busca de comida.

O trem vinha de outro lugar e atrasou. O painel da estação não avisa os atrasos, você tem de ficar de olho. Do tipo: são 22:30, o trem era pra ter chegado às 22hs. Ele fica lá no painel (com previsão de chegar meia hora antes!) até chegar. Quando chega, você tem de catar seu vagão -- no nosso caso, o AC3.

Enquanto esperávamos um garoto de Hong Kong veio conversar conosco. Sobre o trem, sobre a India. Estrangeiros facilmente se identificam na Índia. Gente boa. Nisso, tinha um outro garoto, indiano, que parecia ser mudo, ao lado dele. Ficava gesticulando para ele esperar ali, que o trem chegaria ali. Perguntei o menino de Hong Kong se o mudo estava com ele. E ele: "esse cara tá me perseguindo aqui, nem sei quem é!". Ahahahahah, clássica jogadinha.

Enfim, o trem chegou e lá fomos catar nosso vagão. É pra lá, é pra cá? Perguntamos aos locais e eles nos informaram corretamente. Entramos. Tudo escuro, todo mundo dormindo (o trem vinha de outro canto). Enfim, achei nossas camas (ou melhor, assumi que eram aquelas, porque as outras estavam vagas – não conseguia ver os números no escuro). E tinha uma figura sentada na nossa cama dormindo sentado!! Cutuquei, acordei o cara, falei que era nosso lugar. Estava escuro, não conseguia ver a expressão do cara, mas ele levou um tempo até se situar e levantar dali. Quando levanta... é um funcionário do próprio trem!! Aaahahaha, Índia é muito divertido. Ele nos deu lençóis e cobertor.

Katia achou que as cabines seriam fechadas -- não são. Ficou muito grilada e pediu para dormir na cama de baixo. Tínhamos reservado as duas camas laterais. Conforme recomendações, amarrei as mochilas em algum canto (amarrei com cadarço mesmo) e fomos dormir.

Nisso entrou um outro turista no trem, um garoto do Chile que ficou perto de nós e com quem passaríamos o dia seguinte.
#988885 por rafaelrossignoli
05 Ago 2014, 00:42
Acompanhando o relato... Cara, eu também não tenho paciência com "esquemas" pra cima de mim, e minha namorada pelo visto se parece com a sua - fica com o coração mole diante dessas situações... seus toques sobre essas "malandragens" estão sendo ótimos!
#988958 por mcm
05 Ago 2014, 10:24
Valeu, Rafael! Bom saber que está sendo útil.
Na verdade ela não fica com o coração mole não, o lance é que ela se preocupa em justificar o "não" -- eu sou mais seco. :)
#989110 por mcm
05 Ago 2014, 17:32
O trem atrasou uma hora. Toda a galera já estava pronta pra sair, e nós atrasados. Não dá pra saber se está chegando, só mesmo pela movimentação dos locais. Os trens na Índia, ao menos os que pegamos, não avisam onde você está chegando, tal qual é feito nos trens principais da Europa. O chileno também não tinha se mexido e fomos lá acordar ele e avisar que o trem tinha chegado. Nisso entram alguns locais no trem, catando coisas perdidas. A galera larga carregador de celular no trem, por exemplo. E, claro, entram também os agenciadores de tuc-tuc.

Tinha lido que a corrida ate o centro sairia por mais de 100 pratas, mas a turma foi baixando o preço conforme íamos declinando! Muito bom. Acabamos dividindo um por 3 por 50 pratas, total. Bem barato.

Tinha a dica do hotel Harmony pra negociar de passar o dia. Fomos para lá. Negociamos, fechamos. Tomamos um café por lá mesmo, meio fraquinho. Nosso amigo chileno estava viajando pelo mundo após ter se formado, tal qual o pai dele tinha feito. Tinha vindo do SE asiático, iria para Israel e Europa a seguir. Coisa boa de se fazer!!

Fomos conhecer os templos de Khajuraho. Estava bem quente, na faixa dos 43º naquele dia. Achei tudo aquilo (o conjunto de templos) ESPETACULAR. Era a coisa mais maneira que vimos na viagem até ali, na minha opinião. Ficamos horas por lá, retornamos em alguns templos de que tínhamos gostado mais. Ficamos buscando umas sacanagens específicas que tinham sido descritas no LP (os templos têm várias situações eróticas esculpidas nas paredes, internas e externas). Acabamos nos separando do chileno, que fez uma visita bem mais rápida -- ele vinha de templos da Malásia e as comparações matam!

Gostei tanto dos templos que vou despejar aqui uma quantidade maior de fotos.

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Durante a visita, conhecemos um casal mais velho de indianos que estava viajando de férias por lá. Como eles falavam inglês com desenvoltura (a maioria expressiva das pessoas locais com que conversamos antes, geralmente em meio a fotografias, não falava muito, ou não falava inglês tão bem), foi talvez a primeira conversa mais prolongada (e descompromissada) com indianos que tivemos na viagem.

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Estátuas peitudas nos detalhes internos!

Uma coisa que praticamente todos recitavam quando falávamos que éramos do Brasil é a clássica música "Aquarela do Brasil" (Brasil, meu Brasil brasileiro...."). Impressionante como vários sabiam! Fossem turistas indianos ou pré-scams (os malandros que querem lhe vender algo ou lhe levar para a loja ou agência deles), muitos recitaram essa música. Além disso, claro, havia constante referência ao futebol. Só que as referências ainda são a craques aposentados, como o Ronaldo (o gordo), ou a craques “aposentados em atividade”, como Ronaldinho (o gaúcho). Ou ao Pelé. Até mesmo Romário (menos comum). Raríssimos eram os que sabiam da existência do Neymar. O casal com quem conversamos fez referência à música, a Pelé e ao Ronaldo.

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Ficamos mais de 3 horas nos chamados templos do lado oeste (os que você tem de pagar para entrar). São belíssimos, são muito mais do que um conjunto de esculturas eróticas. Quando saímos, ainda demos uma olhada num templo logo ao lado, na parte externa. Era o pico do calor. Estava bem quente mesmo, poucas pessoas nas ruas -- praticamente ninguém incomodando! Aliás, Khajuraho mal parecia Índia, sob esse aspecto. Não havia enchedores de saco de turistas, não havia o barulho infernal de buzinas, não havia trânsito! Estava tudo bem parado naquela tarde. Bem cidade do interior. Optamos por tomar umas cervejas para refrescar e relaxar. Fomos no Raja café.

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Sessão sacanagem (imprópria para menores):
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Depois negociamos com um tuc-tuc para nos levar nuns templos do lado leste que tínhamos listado. Achei que estava caro, se não me engano 80 pratas, mas rolou concorrência entre eles e ninguém se dispôs a dar um preço menor. Alguns dos templos eram muito maneiros, outros nem tanto. Num deles, reencontramos nosso amigo chileno, com quem fomos tomar mais cervas e bater papo num restaurante com terraço (Bella Italia).

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Mais templos formidáveis na área do Adinath e arredores

Enquanto bebíamos, a tarde caía e com ela o calor se ia. E aí sim, a cidade toma vida. Mercados, buzinas e até algum trânsito. Khajuraho é bem pequena para ter trânsito. Toda paz e silêncio da tarde se esvaem quando chega a noite. Galera evita o sol, pelo visto.

Fomos jantar no Raja mesmo. No caminho reencontramos o menino de Hong Kong da noite anterior. Ele falou que o tal mudo da estação ficou perseguindo ele até entrar no trem e cobrou 100 rúpias pelo “serviço”. Ele deu 10 e gritou para o cara sair, que ele não tinha pedido nada a ele e etc. Fico imaginando a situação. E ele tinha ido de sleeper (uma classe de trem mais guerreira, sem ar condicionado), e isso rolou dentro da cabine!

Depois da janta fomos tomar um banho e dormir um pouco. Nosso trem sairia tarde da noite para Varanasi.
#989303 por mcm
06 Ago 2014, 09:59
Fala, Sergio!
Não procurei, pq já tinha roteiro pronto e passagem de trem comprada. Mas recebi muitas ofertas de agências apenas andando nas ruas. Seguramente vc encontra isso fácil por lá. O problema vai ser procurar, negociar e etc. O hotel em que vc ficar provavelmente poderá lhe auxiliar (e provavelmente terá comissão...).

Pela minha experiência e pelo meu ritmo de viagem, entendo que um tour de um dia inteiro para Agra, saindo bem cedo e pulando almoço, é suficiente.
#989803 por mcm
07 Ago 2014, 15:00
Dia 8 – Varanasi

Galera acorda cedo no trem. Acho que acorda-se cedo em toda a Índia. Optei por dormir mais, o trem só chegaria no fim da manhã em Varanasi. Não é tão fácil dormir, porque a galera começa a conversar. Acordei e fiquei lendo. Não rolou interação com os locais -- como já falei, não tomamos a iniciativa. O trem atrasou mais de 2 horas!!

Pegamos um tabelado tuc-tuc pré-pago para o Assi Ghat. Primeiro fato estranho do nosso tuc-tuc é que, além do motorista, foi um outro cara do lado dele. Cheiro de armadilha no ar. Não deu outra. Primeiro o cara veio com uma historinha de que era melhor eu ficar no hotel tal, que tinha isso e aquilo. Falei que não, que tinha reserva já paga. Ele então parou num ponto e falou que o resto teríamos de ir a pé com ele até o hotel. Essa era a informação que eu tinha, de que os tuc-tucs não chegam até o hotel. Só que eu tinha informação de que meu hotel tinha vista para o rio, e ali não tinha rio algum. Estranho. O cara falou que me acompanharia até o hotel, que era para um ir e outro (a Katia) ficar no tuc-tuc esperando. Até parece! Fomos os dois seguindo o motorista pelas ruelas. Quando chegamos no que ele disse que era o hotel, vimos que era tentativa de armadilha. Era claro que não era aquele. Ainda tentaram jogar outras armadilhas manjadas (“Ganges View is busy!”). Recusei todas e falei para ele nos levar ao Assi Ghat, que era onde ficava nosso hotel.

De volta ao tuc-tuc, o cara vai e para em mais um hotel que não é o nosso! Ahahahaha, só pode ser piada. Falei novamente que aquele não era o meu hotel, e que era para nos deixar no Assi Ghat. De qualquer forma, enquanto o papel do pre-paid fica comigo, ele não recebe. Ou seja, ele estava gastando a gasolina dele tentando aplicar algum golpe.

Até que ele finalmente nos deixou no Assi Ghat. Ali eu podia ver o rio. Assim que vi o rio, falei para ele parar que eu desceria ali mesmo. Ele parou, dei o papel a ele e Katia saiu em disparada para longe. Encontramos nosso hotel rapidamente. Talvez o cara, no fim, depois das tentativas de golpe, realmente não soubesse onde era o hotel. Mas é aquela coisa: jamais confiar. Infelizmente.

O Hotel Ganges View era para ser o momento relax da viagem, uma esbanjada hoteleira que eventualmente incluímos em viagens. Os ambientes comuns do hotel são realmente muito maneiros e de fato tem vista para o rio. Mas eu esperava mais, bem mais do hotel. Era uma dica do LP, e isso acabou por reforçar meu pé atrás com dicas do LP no que se referem a hotéis e restaurantes. A decepção com o hotel é basicamente em função do quarto, que é bacana, mas nada de mais, e sobretudo pelo banheiro, típico de lugar econômico (ficamos em hotéis econômicos na viagem com banheiros melhores do que aquele). Pra piorar só tinha wifi na recepção (tipo de coisa que eu não ligaria se o restante fosse bom). O hotel não é ruim, só achei que não valeu a pena a esbanjada.

Estávamos com fome e a alternativa nos arredores que foi eleita foi o Vatika Café, que estava listado como lugar de pizza no LP. Comemos alguma coisa indiana, como sempre. E então saímos para desbravar os ghats de Varanasi.

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Pitoresco

Fomos andando pelos ghats até chegar ao Manikarnika, o chamado burning ghat. Ghats são basicamente escadarias que descem até o rio, salvo engano meu. Eu achava que eram alguns poucos, mas é um atrás do outro. Quer dizer, eu sabia que a caminhada era longa, coisa de meia hora, mas achava que cada ghat era mais longo. Eu diria que há dúzias de ghats entre o Assi e o Manikarnika. Há vacas pelo caminho. Vimos uma vaca numa varanda (!). Em alguns ghats há macacos.

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As vacas nos ghats e no Ganges

Chegando perto do Manikarnika ghat, o assédio aos turistas estrangeiros sobe exponencialmente. Era difícil andar sem ser abordado por diversos tipos. O cara do barco, o guia, o da loja, o da massagem, o que vende isso, o que vende aquilo. Mesmo ignorando e sendo incisivo nos "nãos", a turma insistia.

Circulamos pela área. O Manikarnika, o famoso ghat onde se queimam os cadáveres, lembrou-me imediatamente o cenário onde aparecia o Marlon Brando no filme Apocalypse Now. Não sei dizer exatamente o motivo, mas minha cabeça associou um ao outro instantaneamente, e passei a chamar o ghat pelo nome do filme. Não foi chocante ver os corpos (são envoltos em tecido) na fila para serem cremados, ou mesmo queimando, acho que porque eu já esperava por aquilo. Mas achei o lugar com um aspecto bem sinistro. Nesse primeiro dia, não dava pra ficar muito tempo por lá, porque muita gente enchia constantemente o saco.

Após circular pela área, ficamos para o famoso cerimonial (religioso) de fim de tarde no Dasaswamedh ghat, outro famoso da região. Conforme a hora vai chegando, o ghat vai lotando. Enquanto a galera se acomodava, eis que um boi resolve carcar uma vaca em pleno ghat! Cena surreal! O cerimonial é interessante, leva uma longa hora e a galera começa a dispersar um pouco antes do fim. Vários barcos ficam parados no rio em frente ao ghat, mas você pode assistir a tudo estando no próprio ghat, grátis. É questão de ângulo, pelo que observei.

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O cerimonial

Voltamos andando para o Assi ghat. É tranquilo, embora eventualmente haja partes escuras -- nós levamos lanterna, sobretudo por conta dos cortes de energia. Vimos uma estrangeira caminhando sozinha de volta, sem ser incomodada. Vimos gente bebendo água que escoava de um cano para o rio. Ou seja, salvo alguma novidade sanitária que desconheço, o cara bebia água do ralo. E não parecia morador de rua nem nada. No dia seguinte vimos gente escovando os dentes com essa mesma água.

No caminho, drogas nos foram oferecidas algumas vezes. Na verdade, naquele dia nos ofereceram de tudo um pouco, mas o tal haxixe foi o mais estranho. Talvez seja comum, sei lá.

Chegando no Assi ghat, fomos procurar um lugar para comer. Meio complicado, demos de cara na porta em alguns lugares. Pelo visto as coisas fecham cedo por lá. Acabamos comendo alguma coisa num terraço de um hotel por perto. Que, por sua vez, estava fechando também. Era antes das 21hs, se não me engano. Perto do rio não há álcool (é proibido), então não rola a tradicional cervejinha. Ainda assim, havia muita gente nas ruas. Parecia cidade do interior brasileiro, sob esse aspecto.

Voltamos para o hotel e, uma meia hora depois, saí para comprar uma água. A galera que estava nas ruas do ghat tinha simplesmente desaparecido! Acho que tem uma hora meio que toque de recolher, não é possível. Tudo escuro, tudo fechado. Parecia toque de recolher.

O Assi é ghat beeeeem mais tranquilo que os ghats principais para se hospedar. Nada de buzinas, maior paz. Fica a meia hora andando dos principais (Dasaswamedh e Manikarnika), mas gostei de ficar lá.

O ar condicionado do nosso quarto não gelava, então trocamos de quarto. O ar do novo quarto também não gelava (!!), mas ao menos esfriava. Vamos em frente.

Dia 9 – Varanasi
Nesse dia acordamos bem cedo para ver o sol nascer de dentro de um barco. Já estava claro quando saímos – na verdade o sol já tinha raiado. Era pouco depois das 5 da manhã. E lá fomos negociar com barqueiros. A minha estratégia sempre era a de dizer “não, está caro” e sair andando. A ideia era que o cara viesse atrás de mim baixando o preço. O que realmente acontecia, mas não ao ponto em que eu queria. Vários deles empacavam nas 400 rúpias para levar, ficar um tempo e trazer. Então essa deveria ser a faixa de preço, sei lá. Ainda assim eu recusava e seguia em frente. Enfiei na cabeça que deveria ser uns 200. Até que um nos ofereceu por 300 e topamos. Foi a menor oferta.

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Nosso barqueiro -- muito bom! -- e o raiar do dia em Varanasi

Os passeios que saem dos ghats principais são, naturalmente, mais em conta. Acho que umas 100 pratas. Desde o Assi é um trajeto bem mais longo e os barcos são a remo, então trata-se de um trabalho braçal. Tem de ser mais caro mesmo.

Gostamos muito de passear de barco por lá. Cedo de manhã, o calor era bem pouco. Clima de maior paz. Mesmo sabendo que você está num barco sobre um rio de esgoto (é como estar sobre o rio Tietê, ou sobre o rio Maracanã ampliado, por exemplo). Muitas pessoas usufruem do rio logo cedo pela manhã. Tomando banho, fazendo suas orações, lavando roupa, escovando os dentes, etc. Inclusive se divertindo, como numa praia. Os banhistas, aliás, são maioria entre os que usufruíam do rio àquela hora.

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Rituais matinais

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Galera já se divertindo no rio logo cedo pela manhã

Fomos até o Manikarnika, onde pede-se não fotografar, em respeito às famílias dos mortos. Não fotografamos. Ficamos um tempo por lá, assistindo ao ritual. Havia muitas cinzas. Cães e vacas buscando comida. Em meio às cinzas. Depois paramos no Dasaswamedh e seguimos de volta. Com calma, para curtir cada ghat, agora olhando “de fora” deles.

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A paradoxal (para mim) lavagem de roupa suja no Ganges

Varanasi, de fato, é muito fotogênica. Chega a ser clichê dizer isso, mas é verdade. As cores das roupas e das pinturas sobre o concreto, o próprio concreto dos ghats e todo aquele surrealismo das pessoas se banhando no (extremamente poluído) rio formam um conjunto convidativo a fotógrafos (o que não é meu caso, geralmente fotografo apenas para registrar o momento).

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Outros rituais

Gostamos muito do nosso barqueiro. Ele falava inglês bem e falava pouco, ou seja, valorizava o necessário silêncio para admirarmos os ghats. Dei 50 pratas de gorjeta. Katia falou que ele parecia satisfeito. Sinal de que os 300 já eram inflacionados?

Chegamos pouco antes de começar o café da manhã. Depois do café, fomos andando pelos ghats, agora até o Panchganga ghat, que fica um pouco além do Manikarnika. Depois desse ghat havia muito pouca gente. Quase ninguém, na verdade. Até porque fazia muito calor. Deu pico de 43º naquele dia. Mas, para nós, cariocas, estava ok de encarar.

Durante o caminho, em algum ghat anterior, um simpático menino (parecia um pré-adolescente) veio nos tentar vender umas flores. Eu fui andando agradecendo e dizendo não, e ele veio atrás tentando. O menino falava bem inglês, se expressava bem, era bom de falar. Ele dizia que as flores trariam “bom karma” para mim e para a minha família. Que o karma seria proporcional ao valor pago (!). No fim, ao não conseguir me vender as flores, desejou-me "bad luck" (para mim e toda minha família) e "he dies!" (?!). Chega a ser divertido, mas é pena que o talento do menino não seja aproveitado de forma mais saudável.

Fomos explorar as ruelas e becos da parte velha, basicamente a parte que fica nos fundos do Manikarnika. São ruelas imundas, com vacas, cães, cabritos, gente, motos correndo (isso vale um parágrafo a seguir) e muito, muito lixo. Sei que tem cadáveres também (é por elas que eles são transportados até o ghat), mas não vimos.

As ruelas são estreitas (redundante!) e, as motos passam varadas buzinando para que você saia da frente. Pedestre não é preferência na Índia em canto algum!! Não vi acidente algum -- as pessoas se habituam --, mas é surreal que se permitam motos ali, mais surreal ainda é a velocidade com que elas trafegam.

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Transeuntes em meio às ruelas de dentro de Varanasi

Paramos no badalado Lassi Blue, recomendado pelo LP. A experiência bateu exatamente com o que o LP descrevia: leva um milênio para chegar (o lassi de Jaipur foi praticamente instantâneo), mas é muito saboroso. E cuidadosamente preparado. E mais caro que a média. O dono ficou conversando conosco, ofereceu de mostrar alguma coisa que a mãe dele fazia, mas nossos radares ligados declinaram da oferta, por via das dúvidas.

Não entramos no templo que tinha por lá, estava com fila e ainda tinha uma segurança sinistra. Katia encontrou lojas com preços fixos, uma raridade. No pico do calor, lá pelo meio-dia, fomos para o Manikarnika. Era mais uma tentativa de observarmos o ritual de dentro do próprio ghat sem sermos incomodados. E deu certo. Até vieram umas duas figuras oferecer barco, mas dispensamos rapidamente. Não insistiram e ninguém mais veio, ficamos um bom tempo observando o ritual. Pudera, estava quente pacas, somente nós estávamos expostos diretamente ao sol naquela escadaria. A ideia era ficar ali até que começar a sermos incomodados, mas ninguém mais apareceu! Os corpos chegam, são banhados no rio e depois cremados. A muito grosso modo o ritual é assim. Depois de observar em paz e durante o tempo que quisemos, retornamos ao hotel. É expressamente recomendado não fotografar -- e assim o fizemos.

Longa caminhada de volta, sob sol inclemente. Permitimo-nos uma soneca no hotel (viva o ar condicionado!) durante o começo da tarde. Há quedas constantes de energia em Varanasi nessa época, mas isso felizmente não nos atrapalhou. Acordamos e fomos curtir um esquema-patrão: um chá da tarde no hotel, observando o Ganges.

No fim da tarde, voltamos aos ghats principais. Bateu uma fome, então fomos procurar um restaurante guerreiro recomendado, Keshari, que ficava nas ruelas de dentro. Tem o restaurante original e uma cópia (!!), um perto do outro. Tal qual o Lassiwalla em Jaipur, que tem várias cópias na mesma rua. O Keshari (original) tem boa comida e bom preço. Demorou um pouco mais que o habitual, mas não foi problema. Esperava que o aspecto fosse bem pior, visto que a descrição era de um "podrão". Não havia outros estrangeiros no restaurante naquela hora, somente nós.

Coisa estranha: ao término das refeições na Índia, geralmente é oferecido uma combinação de açúcar com erva doce, que refresca a boca. Sempre saboreamos isso por lá. Você coloca um pouco de cada na mão e leva à boca. Nesse restaurante o garçom colocou delicadamente o nosso troco no meio (dentro mesmo!) do açúcar/erva doce!! E o fez por (um estranho) zelo, não por maldade!

A ideia seguinte era voltarmos para o ghat e tentarmos pegar um barco para observar os ghats de noite a partir do rio. Só que acabamos nos perdendo nas ruelas, a ponto de termos de pedirmos orientação em alguma loja. Quando comecei a notar a ausência de sinais em inglês nos mercados, vi que estávamos realmente longe da área turística e aí pedimos informação numa loja. Reorientados, acabamos desistindo do barco. A cerimônia já estava no meio e voltaríamos ao rio de barco na manhã seguinte.

Fomos em direção ao Manikarnika (o cenário Apocalypse Now fascinava) e demos de cara com nosso amigo do Chile no caminho. Ficamos batendo papo, depois observamos um pouco do ghat (novamente sem qualquer encheção de saco), combinamos de jantar no dia seguinte. Depois retornamos ao Assi.

Ah, enquanto conversávamos com nosso amigo chileno, um garoto local nos interrompeu para falar com ele. Cumprimentou, apresentou-se, perguntou sobre ele. Os olhos do garoto brilhavam, ele parecia estar encontrando um ídolo, ahahahah. Muito interessante essa perspectiva indiana sobre estrangeiros.

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Sessão murais de Varanasi:
Katia gostou dos murais de lá e registrou alguns. Achei bem legal.

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Dia 10 – Varanasi
Acordamos ainda mais cedo, agora pra efetivamente ver o sol nascer do barco. Eram 4:30 quando saímos. Recebemos as tradicionais ofertas absurdas (começava em 1.000, caía até pra 400), que eu dispensava dizendo que estava caro e que o preço era 200 (!!), mas ninguém topava os 200. No fim das contas, ninguém baixava dos 400 mesmo, então fomos com o mesmo barqueiro do dia anterior, que ficava alguns ghats à frente. Pelos mesmos 300 (mais a gorjeta que eu dava).

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Novamente

Dessa vez vimos o nascer do sol, literalmente. Muito bacana. A mesma paz do dia anterior, o mesmo barato de ver como a cidade acorda ao longo do rio. Novamente havia muita gente já naquele horário usufruindo do rio.

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Acho que Varanasi não é para ir atrás de atrações turísticas (sightseeing), é para você ver o dia-a-dia, é pra curtir o vai-e-vem (people-watch). Curtimos bastante, esses passeios matinais de barco são das lembranças mais legais que tenho da viagem.

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Críquete no ghat

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E também algum jogo de peteca

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E a galera

Na volta do passeio, chegamos bem antes da hora do café. Fui checar minhas mensagens no e-mail pelo celular e... Houston, temos problemas!! A CheapOAir (a forma mais econômica que encontrei para comprar o trecho Varanasi-Kathmanu pela Inet) me informava que houvera alterações substantivas (major changes) no meu voo e que não havia alternativa senão me reembolsar o valor pago. PQP!! O voo era no dia seguinte! No fim das contas, entendi: a Air India havia cancelado o voo, possivelmente por falta de passageiros. Nessa época do ano há pouco turismo em ambos os lugares e ela é a única cia aérea que opera esse trecho. O pior é que eu tinha programado um dia a mais em Varanasi só por causa desse voo, que não era diário. P-Q-P!! Bom, ferrou. Alternativa: ver com alguma agência local uma forma não cara de chegar a Kathmandu.

Havia uma agência logo ao lado do hotel. Fui perguntar na recepção do hotel se era uma agência confiável. O menino da recepção era geralmente seco, mas ele estava bem simpático naquela manhã. Ele falou que sim, perguntou se havia algum problema, eu relatei o problema, daí ele falou que tinha um amigo de outra agência que ele ia ligar. Bom, talvez role comissão entre eles, mas o que eu precisava era resolver meu problema. Por ser no dia seguinte, imaginava que uma passagem custaria um absurdo.

Para encurtar a história, o cara da agência foi até o hotel, me mostrou as alternativas (todas envolviam um voo para Delhi) e os preços. Quase não acreditei: Custaria poucos dólares a mais do que pagáramos meses antes. A passagem que tínhamos custara 410 dólares para os dois, incluindo a comissão da Cheap-O-Air. Agora, pela agência do camarada local, custaria menos de 440 dólares. Viva! Isso envolveria uma diária a menos em Varanasi – que eu não havia pago antecipadamente. Viva 2!! E ainda chegaríamos mais cedo em Kathmandu, pegando um voo no começo da manhã de Delhi. Viva 3!! Excelente!

Eu poderia ter optado pela via terrestre pra chegar a Kathmandu, mas levaria um longo tempo. Seria interessante pela aventura, mas optamos pela via mais rápida. E, com sinceridade, já estava bom de Varanasi. E a Cheap-O-Air me reembolsou rapidamente.

Resolvido o problema, tomamos o café, fizemos o check-out e fomos procurar um jeito de conhecer Sarnath. E o jeito era o de sempre: abrir concorrência entre os tuc-tucs. Processo sempre tortuoso, mas vamos lá.

Chegamos em Sarnath e o tuc-tuc iria nos esperar por cerca de 1 hora para conhecermos as atrações locais. Fomos primeiro na Mulagandha Kuti Vihara, um belo templo budista. Gosto desses templos desde que visitamos o templo budista de Três Coroas (RS), lindíssimo.

Passamos num outro templo janista meio que por engano, procurando a entrada para a estupa onde supostamente Buda deu seu primeiro sermão. Acho a parada janista meio estranha, confesso.

Chegamos enfim, ao principal de Sarnath, que é a estupa Dhamek e as ruínas de um monastério. A estupa tem 34 metros e toda a área de ruínas está muito bem organizada e limpa. Para entrar, paga-se ingresso. Curtimos bastante o lugar.

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A estupa

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E as ruínas

Na volta, pedimos para o tuc-tuc nos deixar perto dos ghats principais. Era uma corrida mais curta que retornar até o Assi, mas ainda assim o motorista chorou um extra. Não dei. Mas ele nos deixou lá mesmo assim.

Ficamos caminhando um tempo pelas ruelas novamente. Bastante calor, e o habitual assédio constante. O estranho que nós parecíamos ser alvos preferenciais. Vimos outros estrangeiros que não eram tão assediados quanto nós -- e olha que nós mal dávamos bola para os malas.

No começo da tarde decidimos que estava bom de Varanasi. Fizemos nossa última longa caminhada na cidade e retornamos ao Assi ghat para seguir para o Aeroporto. O voo seria mais tarde, mas curtiríamos umas cervejas no aeroporto mesmo.

Pegamos nossas mochilas e lá fomos negociar com os tuc-tucs uma corrida até o aeroporto. Foi uma negociação mais complicada, o aeroporto era bem mais distante (e eu não sabia e fiquei forçando um preço bem baixo). Enfim um senhor venceu a concorrência (preço mais baixo) e nos levou. No caminho ele veio com um monte de conversinha e chegou a parar num lugar para comprar e nos dar um daqueles colares de flores, insistindo para usarmos (apesar da nossa recusa). Parou pra comprar água e nos ofereceu também. No final da corrida, claro, chorou um extra -- além da gorjeta que eu dei espontaneamente. Não dei.

Varanasi foi o primeiro aeroporto na Índia que embarcamos. Tem checagem pra você entrar nele, pra você passar para o check-in e depois para você passar para a área de embarque. Meldels! Depois vimos que TODOS os outros aeroportos são assim, ou até pior. Ficamos por lá tomando umas cervas caríssimas, esperando nosso voo.

Chegando em Delhi eu tinha umas dicas de hotéis mais baratos pra passar a noite nas redondezas do aeroporto. Pegamos um taxi pré-pago negociamos a diária do hotel (vale a pena barganhar), jantamos nas redondezas e lá fomos apenas dormir em Delhi. Acordaríamos no meio da madrugada pra nosso voo para Kathmandu.


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Considerações sobre Varanasi:
Tenho muito boas lembranças das nossas caminhadas de ida e volta entre o Assi ghat e os ghats principais. Levava uma meia hora, sempre uns malas se aproximavam para alguma coisa, mas é a lembrança mais bacana que tenho do lugar. Acho que era a forma que tínhamos de "respirar" Varanasi, ou ao menos aquela região dos ghats de Varanasi. Paralelamente a lembrança dos passeios dos barcos também é das melhores que tenho.

Varanasi foi, de longe, o lugar onde os malas mais nos importunaram na viagem. Talvez também porque tenha sido o lugar onde mais andamos pelas ruas. Mas, na verdade Varanasi é reconhecidamente uma cidade de malas (touts, scams). Havia momentos em que isso enchia nosso saco, mas hoje olho para trás com um longo sorriso no rosto.

"Boat?, florzinha?, oferenda?, droga (haxixe)?, shave (barba ou cabelo!)?, boat?, guia?, loja?, boat?, massagem? (!), conhecer holy man?, boat?”. Tinha de tudo pra se oferecer e, em boa parte das vezes, não aceitar um "não, obrigado" como resposta. Oferecer barco ("boat, sir?") era constante, de ponta a ponta. Mas esses geralmente (alguns insistiam!) aceitavam a negativa.

Ainda assim o diálogo abaixo é real. Ocorreu mais de uma vez.
"Barco, senhor?"
"Não, obrigado"
"O barco sai a tal hora, levo vocês aqui e ali..."
"Não, obrigado"
"... e depois lá e acolá..."
"Não, obrigado"
"... e ainda tem isso e aquilo e aquilo outro..."
"Não, obrigado"
"... e blablabla..."
"Não, obrigado".

E nisso o cara ia nos (per)seguindo pelos ghats, até se convencer de que o "não, obrigado" era pra valer. :)

Dentre as coisas que nos chocaram em Varanasi, seguramente o uso do rio foi o mais impactante. A coisa do Manikarnika ghat e os corpos cremados não impactou tanto quanto ver, por exemplo, pessoas escovando os dentes com água do rio Ganges. Sempre que penso em água do rio Ganges, em Varanasi, penso em esgoto. Com cinzas de mortos.

Antes de ir, li muitos relatos que falavam de forma mágica ou mística de Varanasi. Pessoas que inclusive passavam uma semana por lá. Sinceramente, dois dias inteiros foi mais do que suficiente para meu ritmo e meus gostos e interesses.
#990320 por Isa.Bela
08 Ago 2014, 19:04
mcm, uma dúvida sobre o preenchimento do formulário se você puder me ajudar...na pergunta "marcas de identificação visível", não tenho, mas já li um cara que teve o visto recusado porque colocou "nenhuma". Você faz idéia?
#991036 por mcm
11 Ago 2014, 09:05
Oi, Isa.

A burocracia na Índia é desmotivante e começa pelo visto. Eu coloquei nenhuma também. Acredito que a recusa eventualmente pode ter sido por haver alguma marca no rosto (identificável na foto que vc enviar) e a pessoa ter colocado "nenhuma".

Sobre fotografar o Ganges, problema nenhum. Não fotografamos os crematórios, conforme orientação generalizada que recebemos por lá e que já havíamos lido antes. Mas tem gente que fotografa na moita. :/

Para fotografar pessoas nas ruas, vale o de sempre: ou vc faz discretamente ou vc pede a elas. Vi um menino esbravejando contra turista em Varanasi que meteu a câmera na cara dele pra tirar fotos -- sem prévia anuência. Tem gente que cobra, e isso é armadilha conhecida, mas vc vai sacar na hora (esses pedem para vc tirar fotos deles, e os indianos geralmente pedem para tirar fotos *de vc*!); basta declinar.
#991482 por senhorthiago
12 Ago 2014, 10:04
Parabéns Mcm,

Excelente relato!!!

Estou programando uma viagem para India/Nepal/Sri Lanka para o final do ano, você disse que comprou as passagens de trem pelo site da cleartrip, o que você pode me dizer da compra pelo site ?

Segura?
Você teve algum problema ?
Ele também exige alguma burocracia ?

Obrigado desde já

Abraços
#991596 por mcm
12 Ago 2014, 15:56
Olá, senhorthiago. Obrigado!

Minha experiência com o cleartrip foi bem tranquila, deu tudo certo.

Mas exige burocracia sim (como tudo na Índia): além de se cadastrar lá, vc tem de ter cadastro no site indiano, o que exige uma chateação só. Vc precisa de um código que eles mandam para um telefone celular indiano por sms; como vc não tem celular indiano, tem de mandar e-mail para eles pedindo para que enviem o código por e-mail. Se não me engano no próprio cleartrip tem o passo a passo para fazer essa parada toda.
#991610 por mcm
12 Ago 2014, 16:13
Dia 11 - Kathmandu

O aeroporto de Delhi é monumental. Em grandeza e em luxo. Difere completamente da Índia das ruas, é a desigualdade escancarada. Nesse aspecto o Brasil é mais realista, digamos. Nossos aeroportos traduzem com alguma honestidade o que é o nosso país.

Eu acordei com uma certa moleza ou com sono, então fui me deitar numas cadeiras-espreguiçadeiras que tinha por lá, pra esperar o voo. Depois, quando fomos desembarcar em Kathmandu, foi que vi que eu tinha algum problema. Minha pressão caiu, tive de esperar um pouco para me recompor.

Chegando em Kathmandu, você preenche formulários simples e obtém seu visto na hora. É bom levar fotografias de tamanho de passaporte, mas você pode tirar foto lá na hora também (a um custo naturalmente alto). Melhor que isso, só mesmo se o país abdicar de necessidade de visto para entrada! É assim que eu gostaria que o Brasil fosse, esquecendo essa bobeira (vingativa e contrária à economia nacional) de reciprocidade.

O pick-up do nosso hotel estava lá nos esperando -- eu havia escrito ao hotel sobre a mudança de voos e eles foram rápidos e eficientes em reagendar o carro. O pick-up na chegada estava incluso na diária.

Há uma clássica malandragem no aeroporto de Kathmandu, que eu tinha lido antes no fórum do Trip Advisor: carregadores de malas do aeroporto pegam a sua mala (inclusive sem você autorizar) e depois ficam lhe cobrando ostensivamente uma gorjeta pelo "serviço". Aconteceu conosco, mas o surreal foi que o malandro tinha a placa do nosso hotel nas mãos! Ou seja, teoricamente era ele que nos aguardava na chegada, então confiamos. Ele pegou nossas mochilas, colocou no carro e começou a cobrar gorjeta. E isso mostrando uma nota de 10 euros. Simplesmente falei que não ia dar. Ele insistiu um pouco, mas não perdeu tempo e foi buscar outra vítima. Sei lá se ele tinha esquema com o motorista do hotel.

Chegando ao hotel, logo reservamos nosso voo do Everest para o dia seguinte. A previsão era de tempo bom para o dia seguinte e nublado para os seguintes, achamos melhor ir logo. O hotel tinha uma agência que organizava essas paradas. Mas eu estava com uma moleza incomum naquela hora, parecia estar com febre, precisava de uma cama. Acabei morgando na cama, dormindo, pelo resto da manhã.

Acordei no início da tarde e decidi que iria sair, passear. Ainda não estava realmente bem, mas estava melhor. E quarto de hotel é lugar para dormir, não pra ficar! Saímos pelas redondezas, sem destino específico. Estávamos na região conhecida como Thamel. Mercadinhos, lojinhas, tudo bem mais organizado do que nas cidades onde passamos na Índia. E o grande choque: os vendedores não enchiam o saco, não insistiam. Não que não role barganha -- até rola --, mas é MUITO diferente do que vivíamos na Índia, sobretudo de Varanasi.

Enquanto nos perdíamos pelas ruas, entramos numa belíssima praça -- somente descobriríamos o que era dias depois. Kathmandu, ao menos naquele centrinho, mostrou-se ser uma cidade para andar pelas ruas -- mesmo que o trânsito seja tão agressivo quanto na Índia. Simplesmente não há calçadas, você anda no mesmo espaço dos carros e motos. E a preferência é deles, claro. Não vi auto-rickshaws por lá, só os cicles. Achei as mulheres locais consideravelmente mais soltas do que na Índia. Aliás, não apenas mulheres, todo mundo. É também um lugar bem cosmopolita, cheio de estrangeiros. Mesmo na baixa temporada.

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A bela praça que encontramos por acaso

Mas eu seguia muito mal, provavelmente com febre e com muita moleza. Precisava dormir ainda mais, e torcer para que os remédios fizessem efeito. No fim da tarde eu já não aguentava mais de fraqueza, então retornamos ao hotel e fui dormir novamente. Por conta dessa minha condição ruim, acabamos "perdendo" o dia que havíamos ganho na cidade. :(

Felizmente acho que expeli todo mal via suor durante esse sono da tarde, porque acordei inteiramente bem, horas depois, no começo da noite. Parecia outro! Lembrou um mal que sofri no dia que chegamos ao Salar do Uyuni em 2010, mas que só me recuperei inteiramente no dia seguinte. Imediatamente saímos para dar uma volta noturna e para jantar. Passeamos um pouco e fomos no badalado restaurante OR2K jantar e experimentar as cervas locais. Everest beer!


Dia 12 - Kathmandu

Acordamos bem cedo e lá fomos para o aeroporto. Eu estava bem. Amem! Era dia do voo do Everest. Tantos livros que li sobre o Everest ao longo da vida e dali a pouco ele estaria na minha frente! Não (ainda?) exatamente do jeito que eu gostaria realmente -- estando na base dele talvez fosse o ideal --, mas seria de certa forma uma realização.

Aliás, sobre a caminhada até a base do Everest, lembro-me que nos anos 90 era um grande feito fazer isso. Hoje em dia há chamadas em tudo quanto é esquina de Kathmandu para quem quiser fazer. Não é nada fácil, evidentemente. Envolve dias de caminhada puxada em altitude acima do que estamos acostumados.

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O voo ao redor do Everest era das coisas que eu mais queria fazer nessa viagem. Fechamos com o próprio hotel de nos levar e buscar por 185 USD cada. Sim, é caro. Vimos no aeroporto que tem umas três cias aéreas fazendo a todo instante. E geralmente lotados. Nossa cia foi a Simrik Airlines.

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Minha referência era o voo que fizemos em dezembro passado às linhas de Nazca, no Peru. As janelas desse avião do Everest eram menores e com visibilidade pior (vidros riscados e/ou embaçados). O avião era menor também, para cerca de 20 pax. Tinha uma aeromoça que ia mostrando os picos para todo mundo. Todos fazem ao menos uma visita ao cockpit durante o voo e lá o co-piloto fala alguma coisa e mostra alguns dos picos. Tanto os pilotos como a aeromoça foram muito cordiais e simpáticos (todos falando bom inglês), inclusive quando perguntávamos sobre algum pico era aquele que apontávamos no mapa. O voo segue a cadeia do Himalaia até perto do Everest, dá a volta e retorna. É relativamente rápido. É espetacular. E inesquecível.

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Eu não escalarei o Everest na minha vida e muito provavelmente não farei o trekking até a base dele. Então, repetindo, o voo foi uma realização de um (ex-)leitor voraz de livros sobre escaladas ao Everest. :)

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Ah, vale a dica: O lado direito do avião tem visão mais próxima das montanhas.

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É Ele!

Voltamos para o hotel, tomamos o café e saímos para finalmente explorar a cidade. Fomos andando para a Durbar Square/Praça Durbar. Compramos o passe para 3 dias. É o mesmo valor da entrada por 1 dia, você só precisa ir no centro de informações pra confeccionar seu passe e fornecer uma foto sua, que tínhamos levado. É que, para circular na área da Durbar Sq. (isso ocorre para outras praças interessantes no Nepal). Você precisa pagar para entrar. Há algum controle, mas seguramente muita gente burla. E, claro, esse passe é somente para estrangeiros. Naquele primeiro dia, ninguém nos pediu o passe. Nós é que tomamos a iniciativa de pagar e fazer. Acho que boa parte da coisa é na base da confiança, como nos transportes europeus.

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A Durbar Sq. tem diversos templos belíssimos! Lindos, repletos de detalhes que você pode ficar descobrindo e admirando por um longo tempo. Que foi o que fizemos. Ou pode contratar um guia para lhe mostrar (há sempre algum lhe oferecendo os serviços), o que dispensamos.

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Um dos problemas que vimos nos templos é que eles são muito afetados pelos pombos. Especificamente pelo cocô dos pombos. Lá eles não usam aquelas paradas anti-pombos tão comuns em monumentos europeus. O resultado é que a pombaiada domina o espaço e "embranquece" o que está embaixo... Ainda assim, os templos são estupendos de lindos.

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Depois de curtir todas as áreas externas da Durbar, fizemos duas caminhadas sugeridas pelo LP. Ambas eram para explorar áreas menos badaladas nos arredores da Durbar. Vimos muito templos nessas caminhadas. E finalmente descobrimos o lugar em que estivemos, por acidente, no dia anterior. Nesse lugar, que era uma praça, havia um templo tibetano, que visitamos rapidamente. Muito bacana, gosto muito desses templos. São gratuitos, não têm malas enchendo o saco nos arredores, ninguém de "guardador de sapatos". Sempre deixamos doações nesses templos.

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Retornamos ao Thamel e fizemos uma pausa no New Orleans Café. Pausa para cerva e para provar os tradicionais momos locais. Gorkha beer! Gostamos muito dos momos, são ótimos tira-gostos.

Já no fim da tarde fomos conhecer ainda algumas atrações nos arredores. O primeiro foi o Three Goddess Temple, que foi bem legal, também cheio de esculturas eróticas na fachada. O outro foi o Garden of Dreams, que é lindo e muito limpo, mas me pareceu também um jardim privado (a entrada é paga) onde a elite local vai curtir. Passamos o fim de tarde por lá.

Mais sessão sacanagem:
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As esculturas eróticas no Three Goddess Temple


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Garden of Dreams

Jantamos num restaurante mais guerreiro, Yangling Tibetan Restaurant, bastante frequentado por locais e especializado em momos. Mas era listado no LP, então havia alguns estrangeiros. Muito bom custo-benefício! Ou melhor, muito barato! Refeição mais barata de toda a viagem, prato de 1 USD! Como de hábito, o mais caro era a cerveja.

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