"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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COSTA DOS CORAIS: DA FOZ DO VELHO CHICO ATE MACEIÓ
Com jeitão de Caribe e águas verde-claro, a Costa dos Corais compreende o litoral sul alagoano cujas areias são acompanhadas por longa faixa de recifes. Repleto de praias desertas e selvagens, intermináveis coqueirais, rústicos vilarejos, insolitas falésias, travessias de rios e mangues, a pernada dos seus quase 100km - partindo da foz do grandioso Rio São Francisco e subindo ate Maceió - é otima proposta pra andarilhos desejosos de desvendar este rústico roteiro por um litoral desconhecido e desconcertantemente belo. E com muito, muito sol.
1 BUSAO, 3 LOTACOES, 1 BALSA E 10KM A PÉ
Decididamente, chegar à foz do Velho Chico é demorado. Cheguei na rodô de Aracaju ao meio-dia e fui me informando como fazer p/ chegar em Piaçabuçu, única referencia proxima q tinha p/ chegar na famosa foz. Pelas infos teria q fazer uma sucessão de baldeações p/ alcançar meu destino. Meia hr depois tava dentro de uma lotação c/ destino a Neópolis, viagem tediosa feita sob fina garoa, ceu cinzento e lorotas inconvenientes de um bêbado sentado atrás de mim. No entanto, era agradável constatar a paisagem cada vez + verdejante a medida q nos aproximávamos do litoral, em contraste dos tons ocres e sem-vida da aridez do sertão percorrido dias atrás. Neópolis é uma mirrada cidade localizada numa planicie às margens sergipanas do S. Francisco (e a 30km da foz) e lá cheguei as 14:30. Agora tinha q passar pro lado alagoano, e como "quem tem boca vai a Roma" logo soube q isso era possível atraves de balsas freqüentes q paravam em "pontos" ao longo do rio. Me encaminhei a um deles e logo cruzava as águas calmas e mansas do largo Chico, salpicado do colorido de pequenas embarcações de velas quadradas, q iam e vinham do extenso e viçoso manguezal q acompanha o rio de ambos lados.
Aportei em Penedo (AL) as 15hrs e pasmei c/ a beleza barroca das igrejas e do casario colonial das proximidades da pracinha central. Conhecida como a "Ouro Preto do Nordeste", é a maior cidade da região e foi uma das maiores aglomerações humanas na época colonial. Perto do cais parte uma infinidade de lotações p/ qq lugar, e 15:30 tomei uma em direção ao porto de Piaçabuçu. A viagem de 20km sentido litoral é feita atraves de uma APA muito bonita, cuja paisagem alterna mata ciliar, mangue e restinga. Cheguei meia hr após em Piaçabuçu, de onde parte td tipo de barco p/ foz, sejam agencias ou particulares. A cidadezinha vive em função do porto e é cercada de coqueirais, ilhotas e canais. Como não ia de barco ($$) ate a foz , o jeito foi tomar outra van p/ badalada Praia do Peba, relativamente "próxima". Não deu 5min de van e desci no asfalto, tomando uma "estrada de chão" q me levaria ao vilarejo pesqueiro de Potengi, e dali seguiria p/ foz. A pernada solitária começou as 16:30 em meio a um vasto e interminável coqueiral. Quase 10km depois notei a vila poucos minutos adiante, mas como o dia já findava resolvi acampar à beira da estrada, num precário campo de futebol em terreno arenoso cercado de baixos coqueiros, as 17:30. Preparei minha janta e dormi logo depois, pois queria começar a caminhar cedo o dia sgte p/ aproveitar o frescor matinal. À noite soprou uma brisa suave e o firmamento se coalhou de estrelas, q eram ofuscadas pela bela lua cheia q iluminou tênuamente a paisagem ao redor. Acordei diversas ocasiões apenas por conta de uma inoportuna tosse, fruto de alguma friagem dos dias anteriores.
FOZ DO VELHO CHICO, PEBA E FELIZ DESERTO
Como aqui amanhece cedo, as 5hrs levantei ao som dos motores de barcos no porto proximo. Tomo rapidamente café e deixo minha cargueira engolir td p/ dar inicio à pernada do dia. 10min e estou em Potengi, vila mirrada as margens de um dos vários braços e canais do Velho Chico. Encho meu cantil e um tiozinho de bike q vendia pão me abastece c/ de "lanche", pois aqui não havia mercado. Segui pela estrada de terra, atravessei o vilarejo e logo andava pela areia acompanhando o rio pela esquerda em meio a uma fazenda de coqueiros.
Assim q o sol comeca a estender seus raios c/ + força, a caminhada na areia fofa torna-se + cansativa. Logo, a estrada torna-se um trilho q contorna uma alta mata de restinga pelo areal, onde o cheiro agridoce de caju aponta pro chão forrado do delicioso fruto, q acabam complementando meu café. As 6:30 entro numa área de dunas (sul), em direção ao povoado de Pixaim e da foz do Velho Chico. Felizmente aqui é + fácil andar; compactas, as dunas amareladas contrastam belamente c/ o mar verde do coqueiral pelo qual andara ate entao. Caminhando por suaves ondulações sem maiores dificuldades, vejo alguns cavalos e bodes pastando nas escassas regiões planas onde há algum capim, mas me chama a atenção a distancia do mar, q dista ainda meia hr dali (leste). O mesmo tempo gastei p/ alcançar Pixaim, um ex-quilombo composto por um punhado de pitorescas casas de taipa e palha espalhadas no meio das dunas. Coletar infos c/ Seu Aladim, q tem jeitão de ser o patriarca dali e me diz q água doce obtem de pequenas cacimbas cavadas na areia s/ nenhum tipo de tratamento, em meio a frondosos cajueiros. A presença de poucos coqueiros, algumas lagoas e vegetação rasteira dao ao vilarejo um aspecto de legitimo oasis.
A caminhada prossegue (sul) atraves de um ultimo lance de dunas e logo nivela num chão de areia dura e plana por um tempao. Finalmente, as 8:20 alcanço o isolado e deserto Pontal da Barra, local onde o "mar do sertão" encontra o Atlântico! E do outro lado, Sergipe! Um pequeno farol e um punhado de coqueiros rompe a horizontalidade do local, onde a dificuldade de acesso justifica a ausência de qq alma viva a não ser no rio, onde alguns pescadores singram as águas em busca de xareus, dourados e albacoras, ao longe.
Após descansar, dou meia-volta efetivamente começando a travessia, seguindo pela larga, ampla e consistente faixa de areia desta enorme praia deserta sentido norte. A maré baixa permite caminhar perfeitamente neste q é extremo sul da Praia do Peba, de quase 20km de extensão. Como sua largura é de quase 2km, a paisagem à esquerda é de pura duna. O tempo passa e o sol comeca a bater forte, mesmo c/ suave brisa soprando do mar. Tenho muito q andar e nenhuma alma viva à vista! No caminho, quero-queros e carcaças de tartarugas. Faltando quase 5km, um tiozinho aparece do nada num trator(!?) levando pescadores ao Peba me oferece carona. Como isso é raro, não recuso, claro!
Chegando no Pontal do Peba a paisagem muda totalmente: gente tanto na praia como nas inúmeras piscinas naturais formadas pela barreira de recifes na orla, alem de muitas embarcações balançando num mar verde claro de sonho! O sol e calor das 11hrs me obriga a uma pausa na sombra de um bar, onde a tentação de estacionar ali é gde. Mas apenas me limitei abastecer de água (e beber um copo de vinho oferecido por um gentil pescador) e continuei pela orla, deixando a muvuca pra trás e outra vez me encontrar pernando solitário numa gde enseada, desta vez acompanhado por uma vasta lavoura de cocos à esquerda e uma extensa faixa de corais pela direita.
6km depois e c/ sol escaldante, alcanço as 13hrs a Praia de Feliz Deserto, q faz jus ao nome pois o único sinal de civilização é um quiosque do lado de uma estradinha precaria q segue coqueiral adentro. Logico q fiz uma pausa demorada, bebericando uma cerveja e curtindo o visu. Me supreendeu o fato q apenas meia-duzia de pessoas estarem naquele verdadeiro paraíso a beira-mar! Aproveitei e usei o chuveiro dali p/ tomar meu banho diário antes de partir, quase as 14:30hrs.
Novamente numa praia deserta, andei apenas 1:30hr sob forte sol e algum vento. Tinha ainda um bocado p/ próxima vila, Miai de Cima, mas parei definitivamente a meio-caminho, as 16hrs. A maré estava alta e agora espremia a faixa de areia nos coqueirais perfilados. Larguei minhas coisas no interior de um quiosque de palha abandonado e la descansei o resto da tarde. Montei a barraca no interior do mesmo assim q escureceu, jantei e adormeci rapidamente ao som da arrebentacao do mar bem ao lado.
MIAIS, PONTAL DO CORURIPE E LAGOA DO PAU
Acordei por volta das 5hrs e me surpreendi com a qtdade de carangueijos q havia em volta da barraca. Tomo um rápido café e começo a caminhar meia hr depois pela estreita faixa de areia garantida pela maré alta. Estou na enorme enseada deserta da Praia do Toco, onde sou acompanhado permanentemente por um coqueiral quase encostado no mar, e o destaque é a carcaça de um velho navio naufragado à beira-mar, relembrando q a bela barreira de corais pode ser uma armadilha traiçoeira.
As 7hrs chego na pacata vila de Miai de Baixo, e 1hr depois, em Miai de Cima. Ambas passariam imperceptíveis em meio ao coqueiral não fossem alguns poucos e simplorios quiosques a beira-mar, onde alguns pescadores começam a estender suas redes em busca de alimento. E após breve descanso caminho novamente por uma gde enseada deserta, cortada por alguns pequenos córregos de água cristalina q morrem no mar. 9hrs alcanço um dos vários braços do enorme Rio Coruripe, q sinuosamente despeja suas águas calmas no mar após singrar uma bela área de manguezal. Como não havia barqueiro, largo a mochila na areia p/ testar a profundidade e felizmente a água bate acima da cintura, embora a correnteza estivesse relativamente forte. C/ a mochila na cabeça, atravesso com certa dificuldade o dito cujo, quase afundando de vez nos bancos de areia. Do outro lado, ando por curto trecho de praia, atravesso por trilha um pequeno manguezal seco - forrado de mini-carangueijos - e logo cruzo outra vez outro pequeno braço do rio anterior, desta vez sem nenhuma dificuldade, c/ água no joelho.
Agora me encontro na pacata vila de Barreiras, onde poucas casas sob onipresentes coqueirais dividem espaço nas áreas alagadiças de mangue, rente o rio. O local é mto bonito justamente pela junção de vários ecossistemas num pto só! Daqui caminho em direção à praia e à beira do gde (e largo) Rio Coruripe propriamente dito. Testo sua profundidade mas este infelizmente não dá pra ser atravessado c/ mochila na cabeça, somente a nado. Não havia barqueiro e fiquei um tempão matutando no q faria: esperava baixar a maré ou contornava o rio pelo asfalto? Felizmente, apareceram uns garotos caicaras num barquinho a motor q gentilmente me levaram à outra margem. Reparei q eram bastante supersticiosos pq não paravam de comentar das assombrações dali, tais como lobisomens e mula-sem-cabeça, e pasmaram qdo lhes contei q acampava ao relento p/ td noite. "Oxxeee, vc é louco! Outro dia pai meu viu umas 'bolas de fogo' flutuando perto daqui", disse um deles. Entao ta, ne?
Após curto trecho de areia, 11hrs me encontro no Pontal do Coruripe, onde um belo farol marca o fim daquela enorme enseada. Repleto de piscinas de água verde-clara represadas pela barreira de corais, muitos barcos e jangadas balançando ao compasso do mar, havia tb alguma muvuca. Quiosques a beira-mar anunciam repetidamente a "Festa de Bom Jesus dos Navegantes", um tipo de procissão anual. Com o sol fritando miolos, encosto num bar p/ relaxar, e apesar das bebidas + consumidas serem a Pitu em lata (cana c/ limão) e rum Montilla, mando ver 2 cervas geladas: a 1ª foi no gargalo num piscar de olhos e a outra foi degustada lentamente, acompanhadas de uma porção de carne-de-sol, embora ficasse tentado em experimentar uma tal de "igarassuma assada na casca do coco". O alto volume tocava forró estridente, mas o pior foi ter paciência c/ a gurizada, q não parava de me perguntar se eu "ia pular de para-quedas" de algum local. Aproveitei, claro, de + uma chuveirada e de me abastecer de água.
Minha teimosia fez c/ q retomasse a pernada as 13:30, agora c/ uma nebulosidade clara ocluindo o forte sol. Muvuca p/ trás, novamente me vejo na solidão dos 5km sgtes de areia ate a Lagoa do Pau, vila menor presenteada c/ linda praia de areias claras q contrasta c/ a água verde-turqueza e o ceu azul-calcinha! No mar, jovens caiçaras surfam enqto busco proteção do sol, q volta com força total novamente! Bebo um suco (quente) improvisado e continuo a pernada mesmo assim, mas não por muito tempo. Na extensa enseada sgte, as 15:30, o cansaço e calor me obrigam a breve descanso à sombra de um dos zilhoes de coqueiros. Tomei mto cuidado, já q acidentes de cocos despencando em cacholas incautas são comuns. No entanto, ali era um convite à preguiça pq o descanso se estendeu pelo resto da tarde, e montei acampamento no meio do coqueiral deserto. Li, descansei, comi algo e presenciei o sumiço do Baixios de Dom Rodriques, q é o conjunto de corais q na maré seca aflora do mar verde. E nenhuma alma a vista. Escureceu e resolvi me entocar na barraca, pq o sono não tardou a vir naquelas circunstancias. Acordei varias vezes em função do queimado q tava, já me sentindo um legitimo pimentao. No entanto, acordar e apreciar a bela lua cheia la fora não era tao ruim assim, pois bastava encostar a cachola na horizontal outra vez q tornava a dormir..
PITUBA, POXIM, BARRA DO JEQUIÁ E LAGOA AZEDA
Domingo levantei assim q clareou, isto é, 5hrs. Parti logo depois, sob o frescor da brisa e maresia matinal. Diferentemente dos dias anteriores, a pernada exigiu + disposição e vigor por conta da praia estreita, de areia fofa e levemente inclinada, onde tive impressão q os carangueijos pareciam caçoar do meu rosto suado. Mesmo assim, cabei chegando no final de 2 enseadas desertas, as 6:30, num local conhecido por Praia de Pituba. Aqui os coqueirais dividiam espaço c/ mata + densa, mandacarus solitários e gramados bem cuidados, porem não havia quiosque algum. Estava na Fazenda Pituba, e uma placa reforçava q tb era uma APA pertencente à Tereza Lira (ex-Collor). Noutras, um resort camuflado. No pontal havia apenas uma pequena casa onde coletei água e infos, q davam conta q haveria 2 rios a cruzar logo adiante, o Poxim e o Jequiá. No meio, a bela Praia de Duas Barras. Em pouco tempo me encontro às margens do belo Rio Poxim, q atravessa a areia após serpentear um exuberante manguezal. Tentei de todas as maneiras cruza-lo, porem a maré estava alta e alguns trechos exigiam braçadas p/ alcançar o outro lado. E o pior: não havia barqueiro algum. E agora, Jose? Frustrado, resolvi contorna-lo pelo asfalto pq não esperaria ate meio-dia a maré baixar e a probabilidade de aparecer barco naquela praia deserta era remota.
Voltei p/ casa onde coletara água e tomei "estrada de chão" q me levou ao asfalto da AL-101 meia hr após. Dali foi so subir 5km, passando pelo povoado de Poxim, rente a estrada. As 8:30 cheguei na entrada p/ Barra do Jequiá, pequeno povoado as margens do rio homônimo, e q cultiva o tradicional habito da tv comunitária prostrada na pca central. Me abasteci de rango p/ na seqüência me ver novamente praia. A foz do Jequiá é maravilhosa, pois o rio faz uma curva logo antes de despejar suas águas escuras no mar verde, criando uma barra de águas mansas, verdadeira piscina emoldurada por areias brancas de um lado e um extenso e verde manguezal pelo outro! Porem, havia uma placa informando q a correnteza da foz era perigosa, ou seja, cruza-la na raça, sem chance. Contudo, há uma pequena balsa q leva os turistas q visitam (pelo dia) à outra margem, onde funciona o complexo ecologico "Dunas do Marapê", q de dunas não tem nada mas tira proveito do cenário paradisíaco. Havia q pagar R$30 apenas pra pisar no local, mas expliquei q não ficaria ali e seguiria adiante, daí me liberaram. Abusei e ainda pedi água, pois meu estoque tava acabando.
Pé-na-areia outra vez, as 10hrs, e logo me vi numa enorme praia deserta por um tempão. Rusticos toldos improvisados de folha de palmeira quebravam a retidão da areia, e indicava q fossem esporadicamente usados por pescadores errantes. E o sol pegando forte. Subitamente, a paisagem tranqüila de coqueirais deu lugar à imponência de enormes muralhas de mosaicos coloridos, as falésias! A caminhada aqui foi tranqüila: areia compacta no estreito espaço entre os paredões, corais e mar. Minha solidão foi brevemente interrompida pelo encontro c/ um quarteto sergipano fazendo o mesmo percurso meu, porem sentido contrario. Trocamos infos e logo seguimos nossos respectivos rumos. É bom saber q não sou o único doido q andarilha sob sol escaldante!
Meio-dia estou em Lagoa Azeda, mirrado povoado enfiado numa enorme falha entre as falésias. O nome vem da água salubra q se extrai dos poços, mas é + um povoado descaracterizado pelo agora fácil acesso. Particularmente, achei meio feinho. No entanto, foi la q encostei o esqueleto num dos poucos (e simples) "restaurantes" rente o mar, e mandei ver um pf c/ sururu acompanhado de 2 brejas q deviam estar furadas pq evaporaram como passe de mágica. Fiquei um tempão ali, apreciando o belo visu do mar daquele tórrido horario.
Retomei a pernada 14:45 acompanhando as enormes falésias. No alto, canaviais, e abaixo, areia branca. Formas inusitadas como castelos e templos coloridos - cinza, lilás, e tons acobreados - esculpidos pelo vento davam as mesmas aspecto lunar, reforçado ainda mais pela solidão. Contudo, marcas de pneu não tardaram em aparecer e, mais adiante, havia um pálio(!?) atolado numa pequena barra de rio, onde alguns pescadores tentam ajudar seus desesperados ocupantes. Atravesso o rio sem saber se a maré depois engoliu ou não o veiculo. E outra vez estou só, p/ logo depois descansar aos pés de um paredão rubro-cinza, as 16hrs. Chega por hj. Felizmente havia uma falha adentrando na falésia, c/ local plano otimo p/ pernoite. O resto do dia foi de puro relaxo na horizontal, onde tratei de bolhas nos pés. Tava sem apetite devido à exaustão e deitei assim q o sol se foi. A noite fora agradavelmente quente e dispensou saco de dormir. Dormi ao som da arrebentação do mar e da brisa soprando no corredor formado pela falésia.
PRAIA DO GUNGA, DO FRANCÊS E, ENFIM, MACEIÓ
A expectativa de concluir a travessia fez c/ q acordasse + cedo, beliscasse umas bolachas saboreando um mirrado café frio, e arrumasse já minhas coisas la pelas 5hrs. A alvorada tingindo o horizonte gradativamente de tons rubro-alaranjados e a suave e fresca brisa matinal são motivo mais q suficiente (e inspirador) p/ render na pernada. O q não contava era q a partir dali a maré alta deixava apenas uma estreita faixa de areia fofa e inclinada espremida contra as falésias, o q exigiu muita disposição e fôlego ate o fim daquela enorme enseada. E p/ me distrair nem mesmo conversar c/ meu ego ajudou a esquecer essa penúria, ate pq meu interlocutor tava sem assunto e muito chato.
Por volta das 6:30 as falésias dão lugar novamente a uma extensa lavoura de coco, cravada na areia fofa e q quase invade o mar. Só meia hr após, e com o rosto e costas encharcados de suor , é q alcanço o fim da enseada, já avistando daquele pontal sinais de civilização em maior escala. Estou na belissima Praia do Gunga, onde parece ter havido uma gde festa em fcao de um palco montado, porem sem sinais de ninguém à vista a não ser alguns funcionários recém-chegando nos poucos quiosques espalhados pelo coqueiral. Diante de mim, a enorme e maravilhosa Lagoa do Roteiro me separa das praias sgtes, a Barra de São Miguel e a Praia do Francês, daqui visivelmente habitadas e q fazem parte do kit básico da Embratur, parecendo + c/ Ciudad del Leste ou Aparecida (cheio de estacionamento de bus) do q c/ os plácidos paraísos percorridos ate entao. A Lagoa do Roteiro, por sua vez, impressiona pelo tamanho e é la q desemboca o Rio São Miguel, antigo acesso ao Gunga por barco. Na verdade, naqueles dias eu passara por muitas lagoas sem saber, so q elas distavam alguns kms do litoral: Lagoa do Pau, Lagoa Poxim, Lagoa Jequiá, por exemplo. E vizinhas de Maceió, as enormes Lagoas Mundaú e Manguaba. Agora sei a razão do nome do estado, Alagoas.
Enfim, e agora, como sair dali? Após libertar meus pés do tênis e pousa-los num merecido chinelao, coletei infos e decidi ficar descansando enqto aguardava um barco q traria gente do outro lado da lagoa, embora pudesse andar + 1 hr ate o asfalto e de lá tomar condução ate Maceió. Mas como tava pregado fiquei ali, curtindo aquela manha e comendo um delicioso mocotó na sombra fresca, alem de tomar um bom banho. A medida q amanhecia, aumentava o ritmo da praia. Quem não trabalhava nos quiosques ou estava pescando na região de mangue c/ jereré (tipo de rede em forma de funil), ou lavando roupas na lagoa ou fazendo artesanato c/ palha de ouricuri (palmeira comum dali) p/ vender.
As 9hrs cruzo as águas mansas da lagoa e num piscar de olhos me vejo na pacata Barra de São Miguel, onde, historicamente, foi onde os indios caetés comeram o bispo Sardinha. Me dirijo p/ pracinha principal e aguardo uma lotação p/ Maceió, reabasteço numa padoca e procuro me informar, lendo as manchetes dos jornais numa banca. "Taxista bate bronha e vai parar no xilindró", estampa a Tribuna Popular. Péssima ideia, pois começo a dar risada forçando doloridamente meus lábios detonados pelo sol. Finalmente, as 9:30 pego a lotação c/ mochileiras norueguesas (c/ quem rachei o táxi p/ rodoviária, já no centro, posteriormente), numa tediosa viagem q demorou quase "uma hora de relógio" e apenas me brinda com o retorno à civilização na paisagem do entorno, sem nenhum atrativo a não ser a presença em massa da Petrobrás e de uma curiosa praça Rosane Collor..Cheguei na capital alagoana as 11hrs.
FINALIZANDO
É verdade q a abertura da rodovia AL-101, q percorre paralelamente o trecho da travessia, trouxe mudanças à regiao. Mas não muitas; boa parte dele ainda se mantem de difícil acesso e resiste bravamente as investidas imobiliarias. Ali o tempo ainda não desfigurou as paisagens primitivas nem a tranqüilidade da vida nas praias, q continuam deslumbrantes como nos tempos das invasões franco-holandesas. E assim a vida segue mansa e descompassada nesta região encantadora de Alagoas, o Estado das Lagoas.