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  1. TRAVESSIA PINDAMONHANGABA X CAMPOS DO JORDÃO Já passava das cinco da tarde, quando joguei minha mochila às costas e sai quase sorrateiramente sem que minha filha percebesse, provavelmente teria que escutar seu choro querendo ir junto, e eu teria o maior prazer em levá-la comigo, se tivesse mais idade. Quando desembarco em Campinas neste quinze de julho, apesar de não ser feriado, não encontro mais passagem para Pindamonhangaba, e nem para qualquer outra cidade do vale do Paraíba, a solução foi ir para capital, onde consegui com muito custo uma passagem até Taubaté. Já é meia noite quando finalmente o ônibus da Pássaro Marrom encosta na rodoviária nova da cidade de Taubaté . Desço do ônibus feito cachorro que acabou de cair da mudança, sem saber para onde ir, pois transporte para Pinda só ás cinco e meia da manhã. Resolvo achar um pulgueiro para dormir, coisa que fiz com extrema competência, pois lugar pior do que aquele em que eu dormi, duvido que exista. Depois de uma péssima noite de sono, lá estava eu, correndo feito um doido para chegar até o terminal tentando pegar o ônibus para Pindamonhangaba. Chegando à Pinda, o objetivo era encontrar com uns primos meus que estavam acampados no bairro de Ribeirão Grande, junto a uma fazenda que é a sede nacional da filosofia Hare Krishina. A nossa intenção era realizar uma travessia de montanha, que se iniciaria em um bairro chamado “Bairro do Pinga”, passaria pelo morro de mesmo nome, subiria até o pico do Itapeva, já em Campos do Jordão, e desceria a Serra da Mantiqueira até a fazenda Hare Krishina. Portanto as sete da manhã embarco no ônibus, que em pouco mais de 40 minutos me deixa a 2 km da fazenda Hare Krishina. Jogo a mochila nas costas e ponho-me a marchar neste trecho final. Logo alcanço duas pessoas com quem puxo conversa. Descubro que um deles pertence à fazenda Hare, e enquanto eu tento, sem sucesso, arrancar alguma informação que poderia me ser útil, o indivíduo cantarola um mantra, do qual não consigo entender nenhuma palavra. Finalmente depois de meia hora encontro com os meus primos, e sem perder muito tempo, arrumamos nossas mochilas para o início da travessia, ou melhor, eu arrumo a minha mochila, porque meu primo fez o favor de esquecer a dele, e eu tive que carregar a bagagem praticamente sozinho. Tudo certo e resolvido, a mulher do meu primo nos levou até o início da trilha, a uns 30 km da fazenda. Despedimo-nos dela e prometemos nos encontrar no dia seguinte, na própria fazenda. Nossa caminhada começa na estradinha rural, que vai adentrando o Vale do Pinga, cada vez mais encostando nos paredões gigantescos da Serra da Mantiqueira. Depois de alguns minutos, após cruzarmos um pequeno riacho, tropeçamos em uma porteira preta, que não estava prevista no roteiro. Voltamos um pouco para nos informarmos em uma casa próxima. As palavras da gentil moradora não foram muito animadoras. Ela nos disse, que a trilha que procurávamos, deixou de existir ha muito tempo. Por falta de uso, o mato tinha tomado de volta o que lhe pertencia, e a muito tempo ninguém conseguia fazer mais esta travessia, inclusive alguns escoteiros tentaram subir a montanha, mas não tinham alcançado nenhum sucesso. Alertou-nos ainda para tomarmos cuidado com as onças, que estavam atacando muito os animais da região. Quanto a isto não me preocupei, histórias de onças eu já ouvira em quase todos os lugares, essa era só mais uma. Mas o caso da trilha que desapareceu, isso sim me deixou preocupado. O roteiro que eu seguia, já tinha mais de dez anos e não era muito claro. Resolvemos arriscar, afinal de contas não tínhamos nada a perder, só a nos perder. Voltamos a porteira preta, e depois de uma análise, descobrimos que ela havia sido pintada, e que sua cor original era azul, justamente a porteira que constava em nosso mapa. A estradinha agora subia para valer e depois de passar por uma bica d’ água, entrou na mata, até finalmente terminar em uma porteira, e em mais cinco minutos de caminhada, chegamos a um degrau na montanha, onde pudemos ter a nossa primeira grande visão de todo o Vale do Paraíba e de todo o vale que havíamos bordejado. Aqui há uma casa, que foi reformada a pouco tempo, sua construção data da década de 50, e o proprietário, o sr Luís Reis, nos recebeu muito bem. Enquanto batíamos um bom papo, um esquilo exibido brincava em um mourão de cerca. O seu Luís também disse que alguns rapazes haviam passado por ali na semana passada portando um GPS, mas não conseguiram chegar a lugar algum. Contrariando mais uma vez os prognósticos negativos, seguimos nosso caminho. A pequena estrada, agora deu lugar a uma estreita trilha, que em mais alguns minutos nos levou a uma enorme casa de caboclos feita de madeira e barro. Esta construção muito antiga, hoje simboliza a decadência desta região. Nela mora apenas um indivíduo, que teima em tentar sobreviver neste pedaço de terra tão hostil. Aqui não há energia elétrica ou qualquer outro indício de progresso e até a casa não tarda em desmoronar. Continuamos subindo a trilha, até que depois de quinze minutos tropeçamos em duas casas em ruína. uma delas totalmente destruída e a outra ainda se segurava em pé, mas servia somente como moradia para dezenas de morcegos. Foi nesta decrépita habitação que recolhemos em um pequeno riacho a última água disponível que teríamos para o resto da travessia. Daqui para frente começava o nosso pesadelo. Procuramos, mas não encontramos trilha alguma que nos levasse ao alto da serra, como estava descrito no roteiro. Tentamos todas as direções, mas não obtivemos sucesso em nenhuma delas. Calculo que perdemos a trilha um pouco abaixo das casas em ruína. Resolvemos então enfrentar o mato no peito, guiando-nos apenas pela bússola. Prefiro subir por uma canaleta de água, aonde havia algumas bananeiras plantadas. O caminhar é lento e dificultoso, os cipós insistem em agarrar-se nas nossas mochilas. De repente ouço um barulho de algo correndo no mato. Meu primo mata logo a minha curiosidade, dá um pulo pra cima e grita: “É um tatu, um tatu galinha” . Eu não sabia que o cara era especialista em tatus. Finalmente emergimos da mata no topo desta serra. Que prazer estar aqui, sentir o vento no rosto e poder observar toda a beleza da Serra da Mantiqueira, com seus paredões gigantescos, seus vales profundos recobertos com a mais bela mata, que o olho de um ser humano pode apreciar.. Daqui já avistamos o Pico do Itapeva, que será alcançado só no dia seguinte. Também já avistamos daqui o Morro do Pinga, nosso próximo objetivo a ser alcançado. Depois de um bom descanso, retomamos a trilha que se metia no meio de enormes samambaias, na direção noroeste. Em alguns minutos a trilha simplesmente desapareceu e tivemos que seguir nossa intuição. Seguíamos bordejando o Vale do Bonfim a nossa direita e de repente estávamos travados em uma parede rochosa sem ter para onde ir, tentando adivinhar para que direção o diabo desta trilha havia seguido. Parados ali feito lagartixa na pedra, resolvemos tentar achar a trilha mais abaixo, mas para isso seria preciso tentar descer da parede. Foi quando meu primo com uma atitude totalmente desastrada e até meio irresponsável resolveu pular da pedra na vegetação logo abaixo. Resultado, o chão estava mais longe do que ele pensava, e o cara caiu feito uma jaca madura e por pouco não bateu a cabeça em uma enorme rocha que estava logo abaixo de nós. Passado o susto, descemos ao selado logo abaixo e reencontramos a trilha procurada. Estávamos agora com a encosta do Morro do Pinga subindo a nossa esquerda, mas nossa trilha não ia até o topo, continuava seguindo para nordeste até chegar de novo à floresta. Entramos na mata, mas sem nenhuma explicação, a trilha, que já não era clara, subitamente desapareceu. A incerteza começava a tomar conta de nós. Havíamos chegado até ali na raça, mas as coisas agora estavam muito complicadas. Tentei achar a trilha no meio da floresta, infelizmente sem sucesso. Saímos da mata para tentar achar outra solução, e depois de muito procurar achamos um rabo de trilha meio apagada. A trilha não era lá grande coisa, mas pelo menos serviu par nos dar alguma noção de direção. Tínhamos que tentar achar agora, uma cerca, que nos faria mudar radicalmente de direção. Claro que não encontramos cerca alguma, mas depois de meia hora de caminhada conseguimos localizar o tal selado que teríamos que atravessar. Chegando lá achei uma trilha mais nítida, que se iniciava depois de uma porteira de arame farpado. No começo a trilha até era bem aberta, mas depois de algum tempo, ela também desapareceu, e mais uma vez toca a gente ter que rasgar o mato no peito. Nesta briga incansável com a vegetação, acabei caindo em um buraco, que engoliu a minha perna, que acabei não quebrando por pura sorte. Logo a mata acabou e vimos surgir diante de nós, dois gigantescos vales, um a direita e outro a esquerda. O da esquerda nos deixava ver ao longe, algumas casinhas, que indicava ser ali o tal bairro de Piracuama(bairro das Oliveiras ?) descrito no nosso mapa, já o da direita, nos proporcionava uma linda visão de suas matas verdes e preservadas. Percebemos depois de algum tempo que a única maneira de cruzarmos os dois vales, seria pelo selado logo à baixo. Mas como chegar até lá, Se trilha alguma conseguimos encontrar? Ora, do mesmo jeito que chegamos até aqui, abrindo trilha no peito. A vegetação agora não era mais composta de árvores, mas sim de samambaias de mais de dois metros de altura. Que sufoco!! Prosseguíamos lentamente, vencendo a vegetação centímetro por centímetro, até esbarrarmos em algumas árvores isoladas, a meio caminho do selado. Paramos para descansar um pouco. O sol já ameaçava se jogar atrás da serra, e nós ali parados no meio de lugar algum, sem um centímetro plano e limpo para acampar. Escalei uma das árvores para melhor avaliar nossa posição. Estava cansado e com algumas dores pelo corpo, e dali de onde estava a melhor solução seria mesmo continuar seguindo em frente, até tentar alcançar a mata logo abaixo, pelo menos lá teríamos como achar algum lugar que desse para montar uma barraca. A decisão que tomamos se mostrou logo acertada e em menos de meia hora estávamos caminhando dentro da mata, até que avistamos ao longe o que parecia ser o telhado de alguma habitação perdida por estas paragens. Chegando ao local vimos que se tratava apenas de caixas para apicultura. E em mais um minuto desembocamos no que deveria ser no passado, uma estradinha, que hoje não passava de uma mera trilha um pouco mais larga. O local era perfeito para acampamento. Gramado, plano e seco. O único problema é que não tínhamos mais água, e não era ali que acharíamos o precioso líquido, pois estávamos muito longe dos vales, onde provavelmente algum riacho cristalino e gelado pudesse nos abastecer. Do final desta estradinha, onde pretendíamos acampar, encontramos uma trilha bem batida, com sinal de que era bem utilizada pelo pessoal da região. Mas de onde vinha? Para onde iria? Enquanto meu primo se recompunha e descansava no nosso futuro acampamento, fui investigar. Subi pela trilha durante uns dez minutos. A trilha serpenteava montanha acima e talvez nos fosse útil no dia seguinte. Mas foi nesta trilha que encontrei, para nossa sorte, dois pés de laranjas lima carregados. Posso dizer que foi a destruição da lavoura. Colhi o tanto de laranjas que uma pessoa magrela de 58 kg podia carregar. Voltei ao acampamento, e enquanto meu primo montava a barraca, fui investigar a parte da trilha que descia ao vale, para ver se achava água. O sol já acabará de se recolher a oeste e reinava sobre o vale apenas a penumbra, que dava ao local um ar de mistério e fascínio e, enquanto eu caminhava pela trilha, ouvia apenas o barulho do vento e do riacho, que provavelmente corria a centenas de metros abaixo. Caminhava a passos largos, quase correndo, foi quando de repente cai e bati o joelho em uma pedra. A dor era tanta que fiquei ali caído, uivando para o vale, feito lobo. Levantei-me e recuperado da dor e do susto, continuei descendo e percebendo que nada encontraria, resolvi voltar. Temos que agradecer muito, a sorte e a nossa competência de termos conseguido chegar até aqui neste fim de dia, como é bom poder tirar nossas botas e apreciarmos uma janta quentinha, mesmo que nossa comida não passe de uma mera lata de feijões, enriquecida com uma lata de sardinha e um pouco de queijo ralado. Se tivéssemos encontrado água podíamos nos dar ao luxo de cozinhar um bocado de arroz, mas não podemos reclamar. A lua está clara, não há nenhuma probabilidade de chuva. Já são quase sete horas da noite e antes mesmo que eu me recolha para dentro do meu saco de dormir, meu primo já havia apagado. Foi um dia longo e cansativo e novas aventuras nos espera no dia seguinte. Antes das 06 da manhã já estávamos de pé. Desmontamos acampamento e sem mesmo tomar café, por motivos óbvios, nos pusemos a caminhar. O nosso mapa dizia que deveríamos seguir para o oeste, até encontrarmos a trilha principal, que subia do vilarejo de Piracuama. Mas a trilha de conecção a esta trilha principal, não mais existia e então resolvemos ariscar a subir pela trilha batida que havíamos encontrado no dia anterior, acreditando que ela se encontraria com a trilha principal, já quase no meio da montanha. Caminhávamos com muito vigor e a passos largos, aproveitando a temperatura fresca da manhã. Conforme avançávamos na trilha, atrás de nós iam surgindo vistas de montanhas e vales mais distantes, sinal que ganhávamos altura com grande rapidez. Em pouco tempo a trilha entrou na mata e virou de vez para oeste, confirmando a nossa suspeita. E em quarenta minutos a dita cuja surgiu em nossa frente, sem aviso prévio e nos fez comemorar este golpe de sorte, ou de competência. Esta nova trilha deve ser muito antiga, pois se apresenta larga e bem consolidada. Provavelmente é usada por tropeiros e viajantes, que procuram encurtar o caminho entre o Vale do Paraíba e o sul de minas, claro, passando primeiro por Campos do Jordão. Por ela é possível até, com muita perícia e habilidade, subir de moto. Subíamos de vagar, aproveitando para apreciar as casinhas de Piracuama , quando a mata fechada abria uma janela, quilômetros abaixo de nós. A caminhada era gostosa e desimpedida. Sobre nós passavam as frondosas copas das enormes árvores, nos oferecendo sombra que ajudava a arrefecer o calor. Andávamos no ritmo de um pé à frente do outro, quase sem conversar, apenas ouvindo o som do mato, a batida do coração e o ar de nossos pulmões. Eu à frente, o Lindolfo atrás, às vezes desviávamos dos profundos sulcos que iam aparecendo na trilha, causados provavelmente pelas patas dos cavalos que eventualmente frequentam estas paragens. Foi quando em uma curva da trilha, de repente, sem que eu esperasse, surgiu à minha frente, algo que eu jamais esperaria encontrar nesta trilha. Algo que eu já vinha sonhando ver nestes quase quinze anos de caminhada em lugares remotos. Caminhadas em florestas e montanhas, em vales e cavernas, em serrado e planícies. Lugares desertos em que passei dias sem ver viva alma. E agora ali estava, e eu não estava sonhando, era real. Ali na minha frente se encontrava o maior carnívoro das nossas matas, o mais temido, o mais lendário, o mais folclórico, aquele que não perdoa ninguém, aquele que come bicho, come gente. Aquele que mete pânico nas pessoas da cidade e do campo. O bicho? A famosa e espetacular ONÇA. Isso mesmo, uma onça. Uma onça adulta. Uma ONÇA PARDA. Uma Suçuarana. E agora eu estava ali, frente a frente com a “comedora de homens” frente a frente a cinco metros de distância. Ela caminhava em minha direção, com a cabeça baixa, caminhava como um enorme gato. Tem um ditado que diz que você nunca estará certo de sua coragem, antes que se encontre com o perigo. Acreditem, medo algum eu tive. Se tivesse tido, diria sem problema algum. Não quero aqui me fazer de grande corajoso, pois não o sou, apenas estou passando o que senti ao ficar cara a cara com a “fera”. Esperei tanto por este momento, que a única coisa que consegui sentir, foi uma emoção e um prazer imenso de estar ali. Não fiquei mudo, pelo contrário, soltei um grito para denunciar ao meu primo a presença do bicho. “Uma onça, uma onça, olha Lindolfo, uma onça” . Nesta hora o maravilhoso animal levantou a cabeça, me olhou nos olhos, deu meia volta e entrou no mato. No mesmo instante, pudemos ouvir um miado que parecia ser de seu filhote. Sim, ela estava acompanhada. Ouvimos também os passos da onça na mata, ao nosso redor, parecia que ela não queria se distanciar de sua cria. Subimos os próximos metros da trilha com todo cuidado, não queríamos que o animal se sentisse acuado. Caminhei os próximos minutos na trilha, quase sem sentir os pés tocar o chão, estava inebriado, não sabia se ria ou se chorava. Ri e chorei, chorei copiosamente, escondendo as lágrimas atrás dos meus olhos de acrílico. Em menos de uma hora, cruzamos uma porteira e a trilha nos cuspiu para fora da mata e nos lançou a um degrau na montanha. Ventava tanto que era quase impossível ficarmos em pé. A vista era com certeza a mais bonita da caminhada até agora. Dali já avistávamos o Pico do Itapeva e toda a extensão da Serra da Mantiqueira com seus enormes picos beirando os 2800 metros. Depois de um breve descanso, adentramos em um reflorestamento e logo depois já caminhávamos com a ilustre presença das araucárias. Finalmente chegamos a uma rústica habitação e pudemos enfim nos afogar de tanto beber água, cedida gentilmente por um caboclo habitante desta região. Ele também nos serviu um revigorante café e algumas bananas. Despedimo-nos deste novo amigo e em vinte minutos já estávamos com a rampa de acesso ao Pico do Itapeva sob os nossos pés. Quem vem a turística Campos do Jordão, dificilmente deixa de vir ao Pico do Itapeva. Ponto obrigatório, o Itapeva talvez seja o pico mais turístico do Brasil. Chega-se aqui por uma estrada asfaltada, e bem conservada. Nesta época de inverno toda a nata da sociedade, principalmente paulistana, vêm desfilar com seus carrões importados e suas roupas de grife. Se como formação rochosa o pico não é grande coisa, em contra partida a vista que ele proporciona é fabulosa. Subimos a rampa de concreto, deixando para trás as lojinhas que vendem roupas de lã e outras inutilidades mais. Enquanto caminhávamos em direção ao topo, os ricos nos fulminavam com olhar de reprovação. Possivelmente nossas roupas destoavam da maioria. Parece que na visão deles éramos viajantes do tempo, talvez do tempo das cavernas. Estendemos nossa bandeira no topo, tiramos algumas fotos, brindamos com refrigerante gelado, mandamos os burgueses a merda e seguimos nosso caminho. Por mais três quilômetros, caminhamos por uma estradinha de terra, sempre com o Vale do Paraíba a nossa direita e em quarenta minutos, numa curva da estrada, encontramos a trilha que nos levaria de volta ao vale. No começo a trilha é praticamente uma estrada, que serpenteia entre o reflorestamento de pinus. O caminhar é bem agradável, e por todo tempo a sombra é nossa companheira. Não demora muito e a trilha propriamente dita aparece. É uma trilha batida, larga e de fácil caminhar. Nos surpreende o esplendor desta floresta, com suas árvores de grande porte. De dentro da mata não se avista muita coisa. A caminhada de resume em pôr um pé na frente do outro, com o cuidado para não se esborrachar nos desníveis que vão surgindo à nossa frente. Com pouco mais de uma hora de caminhada chegamos a um platô na montanha, um ótimo lugar para acampar, com vistas desimpedidas para quase todos os lados. Que lugar lindo!! Quem me dera se tivesse tempo para ficar a tarde toda apreciando o mundo daqui de cima. Não é à toa que três grandes religiões escolheram este lugar para construir seus templos. O templo Hare Krishina, uma religião indiana, o Santo Daime, uma religião criada nos confins da Amazônia e o templo da religião católica, representada pela Basílica de Aparecida. Mas o tempo é curto e após um breve descanso, nos lançamos novamente montanha abaixo. Perdíamos altura rapidamente e eu ia à frente com o passo acelerado, tão acelerado que acabei deixando meu primo para trás e ele meio desatento, acabou pegando um desvio errado na trilha e foi parar do outro lado do vale. E foi só através de seus gritos que consegui localiza-lo, e traze-lo de volta à trilha principal. Falando em perder a trilha, não sei onde foi que deixamos escapar a trilha de conexão que nos levaria direto para o templo Hare, acabamos passando batidos e fomos parar a uns três quilômetros a direita de onde deveríamos ter saído. Toca enfiarmos a cara de novo na mata e nos guiarmos apenas pela intuição na direção do templo. Às vezes avistávamos apenas as torres do templo, dando-nos a sensação de estarmos caminhando em direção aos templos perdidos na selva do Camboja. Finalmente chegamos à fazenda Nova Gokula, que em sânscrito, significa lugar onde as vacas são protegidas. Passamos pela Vila Védica, vila construída para que os devotos pudessem levar uma vida de extrema simplicidade. Adentrar na área do templo é se sentir como se estivéssemos na própria Índia. Do seu topo soa uma música que acalma a alma. As mulheres, com suas roupas extremamente coloridas e com suas pintas de argila na testa, simbolizando os chacras, faz esquecermos por alguns instantes que estamos no Brasil. Enquanto meu primo corre para avisar sua família que chegou vivo. Fico sentado por alguns instantes nas escadarias do templo, admirando aquelas pessoas totalmente estranhas a minha cultura. Como já passava das duas da tarde, aproveitamos para experimentar a deliciosa comida vegetariana, que aqui eles chamam de ¨prachada¨ (todo alimento oferecido a Krishina, deus). Antes de pegarmos o caminho de volta para casa, ainda vimos dezenas de vacas sagradas tentarem enfiar seus chifres bentos em um pobre porquinho. A situação foi muito cômica, menos para o porco, é claro. Se há pessoas que cultuam a vaca como um verdadeiro santo, mesmo sendo um animal totalmente sem graça e sem poesia. Posso garantir que nesse final de semana ao me deparar com a onça, me encontrei com ¨deus¨. É isso mesmo, foi um privilégio que muito pouca gente já teve, quantos passam à vida toda morando no Pantanal e na Floresta Amazônica sem nunca ter avistado uma onça. Talvez agora eu faça parte do pequeno grupo dos iluminados, dos escolhidos. A única certeza que tenho é que ao me encontrar com este deus de nossas matas, descobri ser este um deus do bem, e que de assassino nunca teve nada. Ao ficarmos frente a frente, nos olhamos e nos respeitamos. Cada um seguiu seu caminho: Ela floresta a dentro e nós, montanha acima. Divanei Goes de Paula / julho de 2005. Nota importante : Talvez essa travessia hoje esteja interditada, mas pelo que fiquei sabendo, seria possível subir pelo proprio vale do Bonfim e interceptar a trilha onde vimos a onça. Antes que alguém me pergunte da foto da onça, lamento informar que naquela época as maquinas eram obsoletas e eu tinha uma com filme de 36 poses que trazia comigo guardada na mochila, portanto impossível de ter tirado uma foto diante da situação, na verdade, foram poucas as fotos que se salvaram. Passado todos esses anos, explorei lugares selvagens, alguns onde ninguém nunca esteve antes e infelizmente a unica coisa que vi foram pegadas e nunca mais consegui ver outra onça .
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