"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Apesar da imagem que o título evoca, não se trata aqui de uma expedição de caçada a animais selvagens em terras baianas, barbárie travestida de esporte, muito praticada pelas elites européias e ianques do século XIX e início do século XX, e muito menos de sua versão hodierna, enganosamente ecologicamente correta, de safaris fotográficos, onde apesar de não matarem os animais, perturbam-nos em busca da melhor pose e da imagem mais sensacional. A Safari a que me refiro é um micro motorhome, fabricado em série pela Karmann Ghia entre o final da década de 1970 até meados da década de 1990, sobre a plataforma da Kombi, oficialmente chamado de Karmann Mobil Safari.
Há anos eu tinha a idéia de adquirir um destes veículos para com ele viajar pelo Brasil e países limítrofes, com economia e certa independência, pelo menos no que concerne à estadia e alimentação, eis que possuindo o veículo duas camas de casal, fogão, geladeira e banheiro, os principais gastos dos viajantes estariam resolvidos, se podendo viajar longos períodos com baixo custo . Dorme-se no veículo com razoável conforto, idem no que tange a uso do banheiro e refeições ligeiras (principalmente café da manhã e lache noturno). Finalmente consegui adquirir um Safari em março último, em muito bom estado de conservação e por um preço módico em relação ao mercado, onde está cotado em cerca de R$45.000,00.
Como pretendia viajar para lugares distantes, uma checagem geral se fazia necessária, mandando então desmontar o motor e trocar pistões, cilindros, cabeçotes, anéis de segmento, embreagem, caixa de direção, checagem dos sistemas de freios e suspensão, parte elétrica, etc., o que já custou algo em torno de R$3.500,00. Verifiquei também o funcionamento da parte habitável, como fogão, geladeira, aquecedor de água, etc. O ideal para mim é que o veículo seja o mais independente possível, para tanto inclusive adquirindo uma bomba de pressurização da água, mas infelizmente não consegui alguém tecnicamente confiável para sua instalação. Assim, dependeria de uma tomada de água nos locais onde parar.
Por outro lado, apesar de originalmente os Safaris virem equipados com geladeiras que funcionam com 110 V, 12 V e à gás, o meu veio com geladeira que funciona somente com 110 V, pelo que dependeria também de uma tomada de energia elétrica. Ainda pensei em conseguir uma geladeira original, mas ao saber de sua pouca eficiência, demorando horas para gelar o que uma geladeira moderna faz em questão de minutos, desisti. Por outro lado, as geladeiras à gás usam circuitos de amônia, sendo acusadas de serem causadoras de incêndios, o que é um ponto crítico dos Safaris, com seu isolamento de isopor. Em suma, meu Safari está equipado para ficar parado em campings, não em praias desertas sem água e luz. Para que não fosse assim, teria que instalar mais uma bateria de 75 Ah (ele já veio com uma bateria de 75 Ah e eu instalei para a habitação outra de 60 Ah) e um inversor de no mínimo 1000 Watts, de modo que a geladeira funcione somente com a energia das baterias, mesmo durante as viagens.
Apesar destas limitações minha primeira viagem foi para a Bahia, iniciando em Praia do Forte, aprazível localidade no município de Mata de São João, que eu já visitara anteriormente. Resolvi que viajaria sozinho até Praia do Forte, de modo a poder resolver com maior liberdade eventuais problemas que surgissem, e comprei passagens de avião para meus pais e esposa, que viajariam para Salvador no dia 15 de outubro.
Saí de casa no dia 11 de outubro cerca de 6:00 horas, por azar pegando o enorme temporal que desabou sobre o Rio de Janeiro, o que acarretou monumental engarrafamento na Linha Vermelha. Vencido este obstáculo “caseiro”, me pus na estrada rumo a Campos, no norte do Estado, me surpreendendo com a cobrança de diversos pedágios no que eles chamam de “AUTOPISTA FLUMINENSE”, que apesar de relativamente baratos (R$1,60), são plenamente injustificáveis, pois a pista está exatamente da mesma maneira que quando a rodovia federal (BR-101) não era pedagiada.
Todo este primeiro trecho foi feito sob chuva fina, parando apenas para descansar algumas horas, comer e abastecer, eis que estava preocupado em preparar tudo a tempo de pegar meus pais e esposa em Salvador, já estando devidamente alojado. Meus pais ficariam na Pousada Balanço do Mar, em Praia do Forte, que eu adredemente reservara, já conhecida e com ótimo atendimento, limpeza e localização privilegiada.
Cheguei em Campos dos Goytacazes em torno do meio dia e logo de cara um engarrafamento na entrada da ponte que atravessa o Rio Paraíba do Sul, depois o intenso tráfego de caminhões pela BR-101, achando eu enormes dificuldades nas ultrapassagens, eis que as Safaris são equipadas com motores Porshe-Reimpess (boxer refrigerados a ar) de 1600 cc, sendo os motores conhecidos como “planos” os que equipavam a Variant II e os “altos” os que equipavam as Kombis, ambos rendendo cerca de 67 H.P., o que, em razão da elevada massa das Safaris (em torno de 2 toneladas), os faz trabalhar no limite, logicamente sacrificando torque nas retomadas de velocidade e na subida de serras e rampas. Às vezes tinha que subir morros a 45 Km/h, o que me exasperou no início, mas depois acabei me acostumando com o ritmo de viagem da Safari, que por recomendação da própria fábrica, deve ser conduzida a uma velocidade de no máximo 80Km/h.
No caminho por vezes encontrava acampamentos do Movimento dos Sem Terra nas margens da rodovia, com barracões formados por estruturas de madeira forradas com lonas plásticas, destas que servem para caminhoneiros cobrirem suas cargas, mas um deles me chamou a atenção, eis que apesar da precariedade daquelas moradias, praticamente todas estavam equipadas com antenas parabólicas de recepção de TV. Isto que é definir prioridades!
No caminho tomei banho em postos de gasolina, por vezes jantando e dormindo algumas horas, mas sempre saindo cerca de 5:00 horas, para ver o dia raiar já na estrada e aproveitar o frescor do dia nascente. Numa delas logo ao sair verifiquei que o pedal do freio estava muito baixo e pouco eficiente, acendendo um alerta na minha mente, pois certamente enfrentaria declives acentuados, mas me exasperando mais com os quebra-molas que prefeitecos das cidadezinhas cortadas pela rodovia mandam construir, sem atender às mínimas normas técnicas do DENATRAN, que inexplicavelmente são toleradas omissivamente pelo DNIT, o que só pode ser explicado pelas evidentes injunções políticas.
E as cidadezinhas e vilas passavam com o andar da viagem, até que ao chegar em Cruz das Almas o freio falhou totalmente e fui obrigado a parar. Consegui encontrar um mecânico que desmontou o sistema, constatando que o cilindro auxiliar da roda (que os mecânicos chamam de “burrinho de freio”) traseira direita arrebentara e vazara todo o óleo do sistema de freios. Mandei desmontar também o sistema de freios da outra roda, e descobri apavorado que a lona de freio da roda traseira direita estava toda quebrada, já no final, inservível para seu fim, além da porca que retém a roda na ponta do eixo estar frouxa e sem o contra-pino de segurança. Fui tomado de ódio contra o mecânico a quem eu encomendara a revisão do sistema de freios, pois sua negligência criminosa pôs em risco minha vida, e pela dificuldade com que desmontamos os tambores de freios, ficou evidente que ele jamais revisou o sistema. Depois acertaria as contas com ele!
Encomendamos na casa de peças da cidadezinha dois cilindros de roda, óleo de freio, lonas e pinos de segurança, mas quando o motoboy trouxe as peças verificamos que apesar de serem especificadas como para a Kombi 1980 (ano da minha Safari) não cabiam no local. Consultadas outras autopeças nas redondezas ninguém possuía as peças corretas. Resolvi improvisar e comprar peças usadas em ferros-velhos somente para continuar a viagem, mas nem assim resolvendo. O jeito seria ir de van até uma cidade maiorzinha por onde havia passado há uma hora, Santo Antônio de Jesus, onde o tal mecânico me garantiu que eu acharia as peças, mas resolvi assim mesmo levar os cilindros de rodas defeituosos e uma das sapatas onde a lona seria cravada. Em uma casa de autopeças o atendente examinou o cilindro de rodas e trouxe duas caixinhas, me garantindo que eram os mesmos, apesar de quase imperceptíveis diferenças. Diante do meu ceticismo ele chamou outro atendente mais experiente que garantiu que as peças eram idênticas. Comprei os dois cilindros e o óleo de freio.
As lonas de freio foram outra novela, pois em todas as lojas nenhuma das que encontrava casavam com a largura, comprimento e furação das sapatas. Até que em uma loja encontrei lonas que eram precisamente feitas para as sapatas, muito empoeiradas e feitas ainda de amianto, material que está proibido de uso em freios há tantos anos, que eu bem podia imaginar o tempo de estoque daquelas peças. Comprei-as assim mesmo, me fiando na falta de prazo de validade para tais peças, o que foi um erro, pois as tais lonas de freio ressecam e ficam quebradiças depois de muito tempo armazenadas.
Mais uma hora de van e de volta à oficina onde estava minha Safari, descobrimos que os cilindros estavam errados. Malditos atendentes incompetentes! Se não tinham certeza porque venderam peças incompatíveis com o veículo? Perder mais 3 horas retornando à loja nem pensar, mormente sem ter certeza se acharia os cilindros corretos, de modo que mandei o mecânico montar todo o sistema, isolar os freios traseiros e encher o sistema com óleo de freio. Iria para Feira de Santana com freios somente nas rodas dianteiras, o que apesar de algo perigoso, seria minha única alternativa para consertar o carro ainda no mesmo dia. Cheguei em Feira de Santana no final da tarde, e depois do maior estresse para achar um lugar para parar, comecei a percorrer as autopeças, que já estavam quase na hora de fechar. Em uma delas afinal consegui encontrar os cilindros corretos, constatando que eram os usados nas Kombi até 1975, nos Xavantes, etc., mas como só havia um cilindro naquela loja o atendente pediu outros na filial e eu fiquei esperando. Enquanto isso perguntei-lhe por um mecânico que os instalasse ainda naquele dia, bem como cravar as lonas dos freios de ao menos uma das rodas, para que eu prosseguisse viagem e ele, depois de alguns telefonemas, acertou com um mecânico, que ficaria esperando eu chegar. O próprio motoboy da loja me levaria até a oficina.
Caminhei muito a pé até onde a Safari estava parada somente para não pegar carona com o motoboy, pois não ando nas motocicletas deles (e das moto-taxis idem!) nem que seja para salvar a vida da minha mãe. É mesmo engraçado como o homem se acostuma ao perigo diuturno, banalizando-o até que ele não represente nenhum temor. Os profissionais das motocicletas enfrentam o trânsito com uma desenvoltura ímpar, passando a milímetros dos carros, jogando com “janelas” entre os carros que “fecham” em frações de segundos, e num erro de avaliação qualquer, lá se vai o motociclista para o asfalto, sendo que a pele humana tem uma incompatibilidade nata com o asfalto!
O motoboy da autopeças foi na frente para me levar até a oficina onde o mecânico me esperava, tendo eu advertido que tinha que andar com extremo cuidado por só ter freios nas rodas dianteiras. Ele até que tentou, parando a intervalos regulares para me esperar, mas acho que foi somente ali que travei conhecimento com a falta de educação no trânsito dos motoristas baianos, com a neurose de ganhar alguns milímetros na batalha das cidades. Um deles entrou no exíguo espaço entre a Safari e a motocicleta, tendo eu freiado o que pude, somente a custo evitando a colisão. Juro que por uma fração de segundos passou pela minha mente a idéia malévola de afundar a lateral direita do corsa daquele baiano folgado, mas resolvi evitar aborrecimentos.
O mecânico consertou os freios traseiros e me aconselhou a trocar lonas e “burrinhos” dos dianteiros, o que ficaria para outra oportunidade, resolvendo partir naquela mesma hora para Praia do Forte. De Feira de Santana a avenida principal desemboca já na rodovia BR-324, que a exemplo da “Autopista Fluminense”, cobra alguns pedágios baratinhos mas injustificáveis, tendo em vista o estado da pista. Alguns dias depois, aliás, caminhoneiros interditaram esta rodovia durante horas, atravessando seus caminhões, protestando contra o mau estado da rodovia, apesar de ser pedagiada. No caminho automóveis me ultrapassavam em manobras temerárias, invariavelmente em velocidade excessiva e incompatível com a rodovia.
Chegando em Salvador resolvi parar e deixar o GPS veicular me dirigir, somente então tomando conhecimento das falhas do software IGO 8, que por vezes me mandava entrar em ruas na contra-mão, conversões proibidas, etc., terminando perdido, e somente então resolvendo seguir as pouquíssimas placas que indicavam o litoral norte e/ou Lauro de Freitas, onde fica o aeroporto de Salvador, onde eu sabia que passava a Rodovia do Côco, que vai para Praia do Forte. Afinal consegui acessar a rodovia, depois de cerca de meia hora dando voltas, em uma das quais, inclusive, entrei em um bairro muito suspeito, parecendo baixo meretrício, com figuras suspeitas pelas ruas. O Safari com seu jeitão misturando Kombi e “trailer” chama normalmente a atenção por onde passa, principalmente na Bahia, onde pouquíssimos deles existem, sendo mais conhecidos no sul do Brasil. E o menos que eu queria, naquelas circunstâncias, era chamar a atenção, receoso pelas histórias que tinha ouvido sobre a criminalidade de Salvador. Fechei os vidros do carro e tranquei as portas, mesmo sabendo que isto pouco adiantaria se algum malandro, vendo as placas do Rio de Janeiro, resolvesse “depenar” um carioca, pois bastaria entrar na frente do carro e apontar a arma, pois pela baixa velocidade que andava na rua cheia de pessoas, fatalmente teria que me render. Nesta hora amaldiçoei a Gabriela (a voz que lhe dirige no GPS veicular do IGO
e a burocracia da Polícia Federal, responsável por eu ter viajado sem meu confiável ROSSI .38”. É que eu, sendo aposentado, para renovar o registro da arma de fogo tenho que apresentar um laudo de um psicólogo credenciado, e como o registro da minha arma está vencido há um ano, trazê-la comigo seria uma temeridade.
Mas afinal estava rodando pela Rodovia do Côco, excelente rodovia pedagiada, vendo a intervalos regulares placas indicando a distância que faltava para meu destino, com a certeza de estar no caminho certo. Cheguei em Praia do Forte cerca de 24:00 horas, e para aliviar as tensões do dia, como o estresse de consertar os freios e da “tournée” por regiões perigosas de Salvador, resolvi estacionar na Rua Aurora, quase em frente à Pousada Balanço do Mar, e ir beber umas cervejas, o que não fazia desde que saí de casa. Parei em uma pequena pizzaria, pedi uma Skol e liguei para a minha mãe, avisando que chegara bem e já estava em Praia do Forte, pois quando passei na casa dela para apanhar as bagagens (eles viajariam apenas com bagagens de mão), ela me fez prometer trezentas vezes que ligaria assim que chegasse.
A primeira cerveja desceu redondo, bebida com a sofreguidão de quem estava precisando relaxar depois de um dia especialmente tenso, e resolvi pedir outra e a conta, indo dormir no Safari.
No outro dia comecei a buscar o estacionamento da prefeitura, onde me informaram por e-mail que poderia estacionar, sendo fornecido água e energia elétrica pela diária de R$20,00. Como o responsável ainda não chegara, deixei o carro no estacionamento gratuito e de vez em quando ia lá saber. Quando afinal falei com ele, fiquei sabendo que não tinham condições de deixar o Safari ali, que era área de guarda de veículos rebocados por infrações de trânsito, e muito menos fornecer água e energia. É que em Praia do Forte é proibido o trânsito de veículos automotores nas principais ruas, somente bicicletas e pedestres, o que faz parte do charme do local. Mas em compensação, as ruas laterais ficariam apinhadas de carros estacionados, se não fosse proibido o estacionamento ali também, restando uma área pequena de estacionamento gratuito, insuficiente para o número de carros que visitam, ou então estacionando distante do centro. Mostrei-lhe então o e-mail que recebera, somente então sabendo que o autor do e-mail não era da Secretaria Municipal de Turismo, como me fizera pensar, mas sim de um setor de fomento do turismo da Associação Comercial de Praia do Forte. Como meu Safari estava regularmente estacionado, fui em busca do “Seu Quelé”, dono da barraca Garcia D’Ávila, na praia, ou da atendente da mesma barraca Dilma, pessoas que eu conhecera na outra vez que estive em Praia do Forte, cerca de um ano antes. Na barraca soube que Dilma não mais trabalhava lá, e que “Seu Quelé” estava doente, sendo a barraca agora administrada por seu filho, a quem eu não conhecia. Mas resolvi ficar e beber umas cervejas mesmo assim.
Foi quando me lembrei de outro garçon com quem travara amizade na outra vez, chamado Daniel, a quem eu apelidara “Big-Dan”, mulato forte e bem falante, com cabelo tipo “rastafari”, e perguntando por ele o o garçon me apontou um mulato como sendo o DANIEL, a quem jamais reconheceria com seu novo visual mais “careta”. Chamei-o e depois de algum tempo ele se lembrou de mim e da minha mulher, já que eu passava o dia inteiro na barraca, enquanto a Ilma torrava no sol da Bahia. Ofereci-lhe um copo de cerveja, sabendo de antemão que uma “boca livre” (cerveja ou comida gratuita) era proposta irrecusável para o DANIEL.
Conversa vai, conversa vem, expus minha situação, dizendo que precisava de um camping onde deixar meu Safari, só necessitando de água e energia elétrica, tendo ele de pronto se recordado de um conhecido, dono de uma pousada, que poderia me acolher, com o único inconveniente de ficar seu sítio há cerca de 4 km do centro de Praia do Forte, o que não representava grande problema, sabendo que meus pais estavam bem alojados, e bastava eu acordar todos os dias mais cedo para encontrá-los na pousada. Por sorte, o tal amigo veio almoçar na barraca, então conversando com ele e acertando o preço de R$30,00 por dia, com direito ao uso dos banheiros, piscina, churrasqueira, etc., na pousada ainda desativada localizada na Reserva da Sapiranga.
Já aliviado pela solução do problema, como quem tira um peso das costas, continuei bebendo cervejas e curtindo a paisagem paradisíaca, o vento morno e constante da praia e as figuras que transitam por Praia do Forte, algumas tão exóticas no seu modo de vida alternativo, sempre vendendo bugingangas artesanais, que parecem ter saído de um filme de ficção científica sobre invasão de marcianos. Em certa hora uma das tais figuras oferecia seus serviços aos turistas, que iam desde tatuagens com henna a tererês, e ela vendo que eu observava sua “performance” veio até mim e sugeriu que eu fizesse um tererê, pois uso cabelos compridos e estavam soltos. Ante meu espanto a tal mulher, que se chamava ROSANA, convenceu-me que homens usam também tererês na Bahia, mas de um modo diferente dos femininos. Nas mulheres são dois nas têmporas, e os homens um único na parte de trás da cabeça. Entrei no clima e decidi fazer depois de pechinchar no preço, recebendo um desconto de 50%. Ela ainda disse que faria um tererê com motivo jamaicano que ficaria “massa”... Só fiquei imaginando a reação da Ilma e dos meus pais quando me vissem no dia seguinte, no aeroporto onde os buscaria, usando tererê, e me diverti com a imagem de escandalizados que imaginava seria a reação deles.
No final do dia o “Big-Dan” me levou no tal sítio, e depois de instalar a água e o cabo de energia elétrica, deixei as baterias carregando e fui tomar cervejas com o dono do sítio, pessoa muito agradável e conversador, bem como com os poucos hóspedes, improvisando-se um luau, com direito a cantoria acompanhada de violão, etc.
No outro dia acordei cedo e me mandei para Praia do Forte, indo tomar o café da manhã na padaria de sempre, que lá é conhecida como delicatessen, mas não encontrando seu dono, que da outra vez em que estive na cidade me chamava de carioca onde quer que me encontrasse. Não queria beber, pois o voo em que viriam meus pais e minha mulher chegaria somente às 19:00 horas, mas tinha medo que meu pai não tivesse conseguido fazer o check-in pela Internet, e assim teriam que chegar mais cedo ao aeroporto do Rio de Janeiro (Antônio Jobim). Fiquei dando voltas pela cidade e almocei no restaurante self-service de um carioca, bem próximo ao estacionamento onde estava o Safari, sendo o primeiro comensal. Depois fiquei no Safari ouvindo músicas no notebook, com as janelas abertas, sendo alvo da curiosidade de outros turistas que também deixavam o carro no estacionamento. É impressionante o quanto o Safari desperta curiosidade, evocando um estilo de vida livre ansiado pela maioria dos habitantes das grandes metrópoles. Duas ou três famílias me pediram inclusive para ver por dentro e explicar o funcionamento, ficando espantados mormente quando eu mostrava o aquecedor de água do banheiro.
Cerca de 14:00 horas fiz o check-in dos meus pais na pousada, lá deixando suas bagagens e às 16:00 horas, com o final da bateria do notebook, resolvi ir devagarzinho para o aeroporto em Lauro de Freitas, a cerca de 55 Km, me prevenindo de possíveis contratempos para achar o acesso ao aeroporto, o que demonstrou ser excesso de zelo, pois achei facilmente. Fiquei estacionado na fila de taxis próxima ao terminal de ônibus dentro do aeroporto, na cabeceira da pista, ouvindo CD’s de salsa que trouxera da Venezuela, vendo os aviões aterrissarem bem de perto, até que no horário vi passar o avião da Gol. Tranquei o Safari e fui para o desembarque, conferindo que o voo em que viriam havia aterrissado, e dentro de alguns minutos vi meus pais e a Ilma.
Depois dos cumprimentos de praxe, levei-os para o Safari e retornei para Praia do Forte, alojando-os na pousada e constatando com satisfação que Praia do Forte foi para eles uma grata surpresa, pois pelo menos meu pai tinha péssima impressão da Bahia, fruto de uma viagem que fizera há muitos anos a Salvador durante o carnaval, de lá voltando horrorizado com a sujeira, desorganização e falta de zelo das ruas e construções. Em Praia do Forte as ruas são limpas, as lojas e casas bem cuidadas e pintadas com capricho, a decoração é em estilo rústico, com profusão de madeiras envernizadas, mas tudo com extrema elegância e bom gosto.
Quando meus pais foram dormir na pousada, eu e a Ilma nos recolhemos ao nosso camping, e na manhã seguinte estávamos cerca de 08:30 h na Pousada Balanço do Mar, decidindo-se que no primeiro dia das férias dos meus pais iríamos para a praia. Arrumamos uma mesa com sombrero na areia, quase na linha d’água, onde tomei minhas cervejas e conversamos animadamente. Depois voltamos para o quiosque, na praça em frente à praia, onde almoçamos um peixe honesto, por um preço um pouquinho desonesto, mas compatível com o cobrado nas demais barracas e restaurantes da cidade.
Durante a tarde perambulamos pela cidade, olhando as lojas e artigos de artesanato local, que se vende em profusão, chamando a atenção a criatividade do baiano, que transforma materiais os mais inusitados em peças de arte. Com o cair da noite fomos comer pizzas, sendo atendidos por uma espanhola que falava pessimamente o português. Aqui merece um parêntesis a profusão de estrangeiros donos de negócios ou trabalhando nos pontos turísticos da Bahia, a vasta maioria deles, posso apostar minha vida, não tem visto permanente que lhes possibilitasse trabalhar. Permanecem com vistos de turistas, mais tempo do que permitido, exercendo atividades remuneradas, o que igualmente lhes é proibido, ante a condescendência omissa da Polícia Federal. Creio que as relações internacionais devem se pautar pela reciprocidade, e assim como brasileiros visitando a Europa ou EUA são imediatamente presos e expatriados quando encontrados com vistos de turistas vencidos, ou exercendo atividades profissionais proibidas pela sua condição de turistas, deveríamos fazer o mesmo com estrangeiros no Brasil.
No outro dia resolvemos ir a Imbassaí, outro distrito de São João da Mata distante cerca de 12 Km ao norte, igualmente famoso ponto turístico, repetindo-se lá o que se vê em Praia do Forte. Ruas limpas, enorme profusão de restaurantes e pousadas, todas belamente decoradas, deixando patente a vocação turística do lugarejo. Interessante a existência de ciclovias acompanhando praticamente todas as ruas, para passeios de pedestres e bicicletas, tudo muito limpo, bem calçado e sinalizado.
O ponto culminante de Imbassaí é, sem dúvida, o encontro das águas, que é aliás o que significa Imbassaí. É que de um lado ficam praias de um rio, com barracas onde se pode comer e beber com os pés na água, e do outro, atravessando uma simples duna, fica o mar, parecendo ali ser mais propício ao surf ou a banhistas destemidos, tal a violência das ondas. Em Praia do Forte, apesar de ser praia oceânica, existem recifes a certa distância da praia, funcionando como quebra-mar, de modo que a água, apesar de absolutamente límpida e transparente, chega na areia com ondas de alguns centímetros apenas. Com a maré baixa, cerca de 11:00 horas, se formam piscinas que aprisionam peixinhos e a pouca renovação esquenta a água até uma temperatura agradabilíssima, o que fez Praia do Forte ser conhecida como “Polinésia Brasileira”.
As barracas na beira do rio são tentadoras, dando mesmo vontade de ali ficar lagarteando e bebendo cervejas, mas como estão localizadas em área de proteção ambiental, não podem ter banheiros. Como meus pais são velhinhos, com 84 e 78 anos de idade, resolvi ficar em um restaurante que possuísse banheiro, mas não longe do paradisíaco rio. Ali eu bebi minhas cervejas e almoçamos uma moqueca de frutos do mar deliciosa, por um preço mais do que razoável em relação ao que se costuma cobrar nestas plagas. Em virtude do excelente atendimento resolvi deixar uma gorjeta caprichada.
De volta a Praia do Forte, descanso na pousada de tarde e de noitinha nova caminhada pelas inúmeras lojas de artesanato, feirinha de artesãos, etc., e depois das compras de praxe, nos recolhemos, meus pais à sua pousada e eu e Ilma ao camping.
No outro dia sugeri aos meus pais visitassem o Projeto Tamar, de preservação de tartarugas marinhas, se não me engano financiado totalmente pela PETROBRÁS , que consiste na localização das posturas noturnas das tartarugas, e colocação de uma cerca em volta, protegendo-a do ataque de cães e outros predadores, incluindo-se aí banhistas inconsequentes. Caso a postura tenha sido feita em local particularmente perigoso, o ninho é aberto e os ovos removidos para uma área protegida dentro da sede do projeto, onde as tartaruguinhas nascem e são removidas para um tanque, de onde são libertadas para o mar com a maré cheia, evitando-se fiquem presas nas piscinas da praia, à mercê dos predadores.
Para minha decepção, meus pais retornaram do TAMAR depois de uns poucos minutos, quando uma visita completa ao projeta deveria durar no mínimo 2 horas, demonstrando o desinteresse deles para com esses projetos de preservação.
Em Praia do Forte também funciona o Instituto Baleia Jubarte, de estudo e preservação destes colossos dos mares, sendo admirável, logo na entrada, um esqueleto montado de uma dessas enormes baleias. Diante do evidente fracasso na minha missão de entretenimento dos meus pais, no caso do Projeto Tamar, arrefeceu minha intenção de levá-los ao Instituto Baleia Jubarte, ficando todos na praia, conversando, tomando sol e ocasionais banhos nas águas mornas e transparentes da praia do centro, até o horário do almoço.
Meu pai já se tornara fã do restaurante self-service do CARLÃO, chamado MANAH DO FORTE, um carioca boa praça que se estabeleceu na Praia do Forte após sua filha se casar com um baiano. Almoçamos e meus pais foram descansar na pousada, nos encontrando já no final da tarde para os passeios, compras e comes e bebes habituais.
No outro dia amanheceu chuvoso, de modo que eu e Ilma nos demoramos um pouco mais no camping, permanecendo na Safari mesmo após tomarmos café, mas afinal partindo para a pousada. Lá decidi visitarmos as ruínas do Castelo Garcia D’Ávila, também conhecido como “Casa da Torre”, que foi sede do maior latifúndio das Américas, em 1550 o único feudo do continente, celebrizado pelo “Caramuru” e sua mulher índia “Catarina do Brasil”. Minha mãe especialmente adorou conhecer esta construção, que nos remete ao início da colonização do Brasil, mencionada em romances, livros de história, etc.
A chuva não arrefeceu e no final de tarde que nos restava, ficamos bebericando e conversando em um dos confortáveis barzinhos da cidade, depois indo refazer o roteiro de compras, feirinha de artesanato, etc.
No outro dia seria nosso último dia em Praia do Forte, devendo eu levar meus pais a Salvador para pegarem o avião de volta para o Rio de Janeiro, enquanto que eu e Ilma continuaríamos viagem, descendo o litoral, parando onde nos agradasse, sem prazo determinado de estadia. Para nossa sorte o dia amanheceu bom, indo todos cedo para a praia, curtir uma das piscinas naturais formadas pelo represamento da maré, quando esta abaixa (cerca de 10-11:00 horas). É uma beleza e a temperatura da água simplesmente deliciosa.
Retornamos à pousada antes das 12:00, quando meus pais se preparam para a viagem e fizemos o check-out, almoçamos e eu os levei ao aeroporto de Salvador.
(CONTINUA)