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França - 16 dias - Paris, Val de Loire, S.Malo, M.Saint-Michel, Rouen e Giverny - outubro de 2011

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Este relato é uma cópia do que eu estou escrevendo no meu blog e continuação de uma viagem que começou na Grã-Bretanha e cujo relato eu já postei aqui no Mochileiros.com (por isso já começa do décimo sexto dia). As fotos dessa viagem eu só vou postar no blog. Quem se interessar pode dar uma olhada. O link está no fim do post, na minha assinatura.

 

Décimo sexto dia. Segunda-feira, 17 de outubro de 2011.

 

Acordamos cedinho, ainda estava escuro. Nosso trem saía exatamente às 08:02 da manhã (depois de 15 dias na Grã-Bretanha, comprovamos a história da pontualidade britânica). Claro que já tínhamos organizado tudo na véspera, então foi só tomar banho, pôr a mochila nas costas e passar na recepção para devolver o cartão do quarto. Como pagamos tudo no check-in, nem perdemos tempo acertando a conta.

 

Fomos caminhando até a Victoria Station, nossa estação de metrô, em meio a tranquilidade do início da manhã. O metrô estava vazio e depois de apenas cinco estações na Victoria Line, sem precisar fazer nenhuma conexão, chegamos a estação King’s Cross-St. Pancras, de onde sai o Eurostar.

 

Compramos a passagem de trem para a França ainda no Brasil, com dois meses de antecedência, pelo site da RailEurope. O site é em português, pois é voltado para o Brasil, e os preços são em reais. Compramos cada passagem por R$ 130, mas os preços variam bastante, podendo até dobrar ou muito mais que isso. Comprar com antecedência é a melhor coisa, tanto por garantir a vaga quanto por conseguir melhores preços.

 

No voucher que imprimimos dizia que deveríamos estar pelo menos meia hora antes na estação para fazer o check-in. Chegando lá tínhamos que imprimir os cartões de embarque em uma máquina, mas acho que o sistema não estava funcionando e a moça só carimbou no nosso comprovante de compra das passagens e entramos na sala de embarque.

 

Depois, passamos pela imigração. Colocaram um carimbo nos nossos passaportes com um trenzinho desenhado. Não fizeram nenhuma pergunta sequer. Aliás, só percebi que aquilo era o controle de imigração da França depois, quando vi o carimbo e percebi que estava escrito ”Londres” (em francês) e não ”London” (em inglês). Nesse processo de embarque todo não pegamos fila nem uma vez sequer, mas a estação e a sala de embarque estavam cheias. Chegamos bem em cima da hora e se houvesse filas talvez tivéssemos tido problemas. Para não correr o risco de perder o trem o melhor mesmo é chegar cedo.

 

Logo que entramos no trem, colocamos nossas coisas no bagageiro que fica perto das portas e nos sentamos. Não demorou e o trem partiu, pontualmente. Como não tínhamos tomado café, fomos até o vagão restaurante. O vagão estava cheio e enquanto esperávamos ficamos olhando a paisagem do sul da Inglaterra passar pela janela. Pedimos cafés, sucos e sanduíches. Os preços para comer no trem não são dos melhores. Aproveitamos para gastar as últimas Libras. Comemos no vagão restaurante mesmo e depois voltamos para nossas poltronas. Pouco depois o trem entrou no túnel que passa por baixo do Canal da Mancha.

 

Essa era a primeira vez que andávamos em um trem de alta velocidade, o tal trem-bala. Mas até que a viagem foi bem normal. Não dá para sentir a velocidade e o trem é muito estável e silencioso. A poltrona é confortável e até chegamos a dormir grande parte da viagem. Os 492 km de trilhos por onde passa o Eurostar foram inaugurados em 1994, encurtando a distância entre duas das mais importantes capitais do mundo, Londres e Paris. O trajeto também passa por Bruxelas, capital da Bélgica, e Lille, uma importante cidade francesa, quase na fronteira belga.

 

Nossa viagem entre Londres e Paris pelo Eurostar durou 2 horas e 15 minutos. Escolhemos ir de trem pois, comparando, é muito mais barato e prático do que ir de avião, por vários fatores. Além do valor da passagem, que não nos pareceu cara (R$ 130), podemos ir de metrô para as estações, que ficam bem no centro das cidades (e não afastadas como os aeroportos), economizando com taxi. Ainda por cima não precisamos despachar bagagens, muito menos se preocupar com uma franquia de peso tão pequena e com as exorbitantes multas por excesso de bagagem que as companhias aéreas cobram.

 

Chegamos em Paris, na Gare du Nord, às 11:17 da manhã, no horário francês, que é uma hora a mais que o da Grã-Bretanha. Como o controle de imigração é feito em Londres, em Paris estamos livres, é só pegar a bagagem e sair da estação, sem nenhuma burocracia.

 

Na Gare du Nord me lembrei da minha primeira aula de francês na Alliance Française de Belém. O diálogo dessa minha primeira aula se passava justamente nessa estação. Passados 10 anos desde que eu comecei a estudar francês, finalmente conheceria Paris.

 

Fomos logo procurar o metrô da estação para ir para o hotel deixar as coisas. Quando encontramos, procuramos nos informar como funciona o sistema de metrô. Vimos um cartaz que mostrava as tarifas e fomos para a fila para comprar no guichê de atendimento. Foi aí que um negócio estranho aconteceu.

 

Um rapaz de mais ou menos uns 18 anos e ascendência árabe nos abordou e disse que para comprar o bilhete do metrô deveríamos ir às máquinas automáticas. Nós nem tínhamos reparado nas máquinas então fomos lá com ele. Aí é que mora o perigo. Se deixar guiar por um desconhecido é um erro que ninguém deve cometer mas nós, ainda meio desorientados com a chegada e na pressa para ir para o hotel e se livrar da bagagem, acabamos dando essa vacilada.

 

Na frente da máquina, enquanto eu pegava meu cartão, o cara foi logo se adiantando na minha frente e falando muito disse que fazia tudo para mim com o cartão dele e começou a apertar os botões bem rápido e, quando eu vi, meteu a mão no compartimento da máquina e pegou dois bilhetes de metrô e quis me dar.

 

Se o meu erro foi ter seguido um estranho, meu acerto foi desconfiar a tempo do excesso de “boa-vontade” do cara e prestar muita atenção ao que ele fazia. O fato de ele achar que eu não dominava o francês fez com que ele me subestimasse. Enquanto ele apertava os botões eu lia tudo que aparecia na tela e vi claramente quando o cartão dele foi recusado e o aviso de que a transação não tinha sido concluída. Então como ele conseguiu os bilhetes? Provavelmente já estavam lá! Com a certeza de que havia alguma coisa errada, agradeci e disse que não precisávamos de ajuda e saímos de perto. Ele nem insistiu também e continuou por lá. A Dani ficou meio sem entender e fomos de volta para a fila do guichê de atendimento, onde eu expliquei para ela minha desconfiança.

 

Na fila, começamos a olhar em volta e perceber que havia vários desses caras, pelo menos uns três, todos jovens e de origem árabe, abordando várias pessoas que vinham da estação de trem com malas. Achamos aquilo muito estranho pois eles não faziam nem questão de ser discretos, como se não estivessem fazendo nada de errado. Tivemos uma sensação de insegurança, mas não conseguimos entender o que estava acontecendo com certeza.

 

Em Paris, eles não tem um sistema como o do Oyster Card de Londres. Ou melhor, até tem, o cartão NaviGo, mas pelo o que eu entendi é só para quem mora em Paris (ele é parcialmente financiado pelo empregador e também voltado para quem tem direito a descontos nas passagens, como os estudantes). Nós, que não moramos na cidade, temos que comprar uns bilhetes de papel pouco menores que um cartão de visitas (idênticos aos bilhetes do metrô de São Paulo). A gente tem que pôr o bilhete na catraca quando entra e pegar logo em seguida pois tem que colocar de novo na catraca de saída. Cada bilhete comprado individualmente custa 1,70 Euros (R$ 4,25). Há também outras opções, mas como estávamos com pressa de chegar logo ao hotel nem olhamos com calma e compramos dois bilhetes individuais mesmo.

 

A primeira impressão do metrô de Paris não foi das melhores, com a história do cara que queria ”ajudar”. Mas outros problemas nos chamaram a atenção também. O metrô de Paris está um pouco mal conservado, com sinalização confusa, pichações e lixo jogado em alguns lugares. Fora que não vimos um segurança sequer. Os vagões também são um pouco antigos (ou melhor, rétro hehehe), com uma maçanetazinha para levantar quando o trem chega à estação, senão a porta não abre.

 

É verdade que eles estão há algum tempo se preparando para uma Olimpíada e isso influencia muito, mas foi inevitável lembrar do metrô de Londres, com vagões novinhos, tudo muito limpo e reformado. Mas mesmo com os problemas é impossível negar o charme do metrô parisiense. As paredes revestidas de ladrilhos brancos e com propagandas emolduradas, o teto côncavo das amplas plataformas, a maciez dos pneus em lugar das barulhentas rodas de aço…

 

O metrô estava bem tranquilo, apesar de ser quase meio-dia de uma segunda-feira, o que foi bom pois estávamos com bagagens e não tem nada pior do que pagar metrô lotado quando se está com malas. Seis estações e uma conexão depois nós chegamos à estação mais perto do nosso hotel, a Richelieu-Drout, na linha 4. A saída da estação fica exatamente no cruzamento do Boulevard des Italiens com o Boulevard Haussmann, no coração do Segundo Arrondissement. Paris é dividida em 20 arrondissements que são zonas que se organizam em espiral a partir de um ponto central, que é o Primeiro Arrondissement.

 

Saindo da estação, nos vimos no meio de Paris (até então só tínhamos visto a Gare du Nord e o metrô). É meio inexplicável a sensação de estar ali, no meio daquelas avenidas ladeadas por largas calçadas e edifícios da mais elegante arquitetura. Paris tem um clima muito especial, capaz de renovar os ânimos.

 

Andamos menos de uma quadra para chegar ao nosso hotel. Ficamos no Peletier Haussmann Opera Hotel, um pequeno e simples hotel instalado em um prédio antigo da Rue Le Peletier, quase esquina com o Boulevard Haussmann. Fizemos duas reservas. Uma para esse primeiro período na cidade e outra para quando voltássemos da viagem pelo interior da França. Por essa primeira parte pagamos 781,20 Euros (R$ 1.953) por sete diárias, sem café-da-manhã, incluindo a taxa de estadia (1,60 Euros por dia). A localização do hotel é excelente, além de já ser em uma área muito bonita da cidade, com vários pontos de interesse bem pertinho, nosso hotel ficava quase em frente a estação Richelieu-Drout do metrô, muito fácil de ir para qualquer lugar. Apesar de antigo, o hotel é bem cuidado, muito limpo e bem confortável. E o preço foi um achado para essa área da cidade, onde a maioria dos hotéis é de luxo. Recomendo.

 

Quando entramos a Dani foi ao banheiro e eu fiquei fazendo o check-in. Conversando com o rapaz da recepção, contei a história do cara na Gare du Nord e ele me explicou o que aconteceu. Esses caras que ficam por lá tem direito a comprar passagens com desconto pois são estudantes. Então eles compram por metade do preço e vendem pelo preço inteiro para turistas, ficando com a diferença. É claro que é ilegal, mas pelo menos os bilhetes provavelmente eram válidos. O problema é se algum fiscal pegar um turista usando bilhete de estudante.

 

Aproveitei também para perguntar para ele qual era a melhor forma de comprar os bilhetes do metrô. Foi então que ele explicou que o melhor era comprar um carnet, um conjunto de 10 bilhetes individuais que custa 12,70 Euros (R$ 31,75). Assim, cada passagem cai de 1,70 Euros (R$ 4,25) para 1,27 Euros (R$ 3,17).

 

Depois de fazer o check-in, subimos para o nosso quarto, que ficava no quinto andar. Antes, passamos pelo elevador do hotel, que é um caso a parte, mas isso depois eu conto. No quarto tínhamos uma cama de casal, dois criados-mudos, uma mesa maior e um frigobar bem pequeno. O banheiro era espaçoso e todo novo. Mas o melhor mesmo era nossa sacada com vista para a rua.

 

Depois de guardar as coisas, só tínhamos mais dois planos para o dia. O primeiro era almoçar. O segundo, claro, ir ver a Torre Eiffel, passeando sem rumo pela cidade. Querendo ou não essa torre é um marco. Acho que não tem quem chegue a Paris pela primeira vez e não tenha a visão da Torre Eiffel como prioridade absoluta.

 

Descemos e fomos andando pelo Boulevard Haussmann em busca de um restaurante para almoçar. E nessa avenida são muitas as opções, de fast food a restaurantes refinados. Escolhemos um bistro de comida italiana, que nos pareceu mais informal. Pedi uma lasanha de carne gratinada no forno e a Dani uma salade niçoise. Para beber pedimos refrigerantes e de sobremesa uma tarte tatin para mim e um crème caramel para ela. Tudo saiu por 40 Euros (R$ 100) já com a gorjeta do garçom. A comida, é claro, estava muito boa, afinal, é Paris, onde até a comida mais simples é muito boa.

 

Saímos do restaurante quase 3 horas da tarde e fomos pegar o metrô para ir ver a Torre Eiffel pela primeira vez. Pegamos a linha 8 com destino à estação École Militaire, que nos deixa bem perto do Champ de Mars, aquele enorme gramado em frente à torre. Na estação compramos o tal carnet com os dez bilhetes por 12,70 Euros (R$ 31,75), ou 1,27 Euros (R$ 3,17) por bilhete.

 

Quando saímos do metrô eu peguei o mapa para nos localizar e fomos caminhando até avistar o famoso ícone da cidade. A sensação de estar ali olhando tudo aquilo que nós já vimos milhões de vezes por fotos e pela televisão é indescritível. Nem parece verdade. O sentimento é de encantamento, de estar pessoalmente em um lugar que na verdade sempre esteve nos nossos pensamentos, que não nos é totalmente estranho.

 

Sentamos no gramado do Champ de Mars e ficamos vendo o movimento e o tempo passar, tirando muitas fotos, claro, como se aquela fosse a nossa primeira e última vez ali. Depois levantamos e continuamos nos aproximando da Torre até ficar sob o gigantesco vão. a estrutura realmente impressiona pelo gigantismo. Deixamos para subir um outro dia. Hoje só queríamos dar uma volta por Paris, sem pressa.

 

Continuamos andando até ter nossa primeira vista do rio Sena, bem ao lado da torre. Atravessamos a Pont D’Léna em direção aos Jardins du Trocadéro, que são um pouco mais elevados, de onde poderíamos ter uma vista de toda a esplanada onde fica a torre. De lá temos a vista mais clássica da Torre Eiffel (se é que pode haver uma só vista clássica, sendo aquele monumento bonito de qualquer ângulo). Muitas fotos depois, fomos caminhando pelas margens do Sena e tivemos o privilégio de começar a ver o pôr-do-sol dourado refletindo na Torre Eiffel.

 

Sabíamos que íamos voltar ali ainda muitas outras vezes nessa mesma viagem, então resolvemos voltar para o hotel para descansar e estar bem dispostos para o dia seguinte, quando começaríamos a explorar cada um dos cantos da cidade conforme planejamos. Pegamos o metrô na estação Bir-Hakeim na linha 6, fizemos conexão para a linha 8 e depois de 9 estações chegamos ao nosso hotel.

 

Quando saímos do metrô já estava escuro. Caminhando pelo Boulevard Haussmann, encontramos uma loja Franprix, que é uma rede de pequenos supermercados que há em toda a França. Eu e a Dani adoramos visitar feiras, mercados e supermercados de todos os lugares que visitamos para conhecer os produtos e ter uma ideia dos preços. A variedade dos supermercados daqui é enorme (de queijos então nem se fala…). Compramos três queijos, duas baguettes ainda quentes, refrigerante, água e chá gelado para mais tarde (17,29 Euros – R$ 43,22).

 

Uma das coisas que eu me ressinto nessa viagem é ter que evitar tomar vinho. Justo aqui na França! Estou com uns probleminhas no fígado e mesmo as poucas cervejas que eu tomei na Grã-Bretanha não me caíram muito bem. Mas na próxima vez, se Deus quiser já curado, eu vou tomar de tudo, nem que seja para ficar doente de novo!

 

No hotel, lá íamos nós pegar o elevador outra vez. Mas esse não era um elevador qualquer. Quando chegamos, de manhã, até nos assustamos. Era simplesmente o menor elevador que já tínhamos visto. Tivemos que subir separados pois não cabia nós dois e mais as bagagens de uma só vez. Já tínhamos lido nos comentários do hotel no Booking.com que o elevador era pequeno, mas não imaginávamos que seria desse jeito!

 

Como o prédio é antigo, o elevador foi instalado tempos depois, no pequeno vão central da escada. Tínhamos que entrar e ficar na mesmo posição até sair. Era todo um processo: entrar, encaixar, se encolher ainda mais para a porta poder fechar e só se mexer outra vez quando fosse para sair! Lagrimamos de tanto rir! Até tirar uma foto para explicar a inusitada situação depois era difícil! Mas com certeza é melhor usar esse elevador hilário do que subir 5 andares com a bagagem pela escada!

 

Tomamos banho, usamos a internet e comemos a baguette com os queijos. Muito delicioso. Tanto o pão como os queijos são especialidades deles e realmente são muito bons. O pão é crocante e, ao mesmo tempo, macio. Os queijos é até difícil de explicar. E olha que nem compramos marcas caras.

 

Depois de lanchar e usar a internet fomos dormir. O dia seguinte seria cheio.

 

Em menos de um dia em Paris, já podíamos dizer que adoramos essa cidade. É tudo tão bonito, tão bem cuidado, são tantos detalhes, tanta história, o clima é tão agradável, as pessoas tão elegantes… enfim, tudo fascina por aqui. Até esquecemos o cansaço acumulado nos últimos 15 dias de viagem. Estávamos empolgados e dispostos a passear o dia inteiro.

 

Só depois de ver com os próprios olhos é que entendemos completamente porque Paris é conhecida como La Ville-Lumière. Essa cidade tem luz própria.

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Vigésimo segundo dia. Domingo, 23 de outubro de 2011.

 

O dia estava bem melhor que o anterior, com céu azul e temperatura agradável, sem aquele gelo da véspera. Nosso plano inicial era ir à Montmartre e, de tarde, considerando esse tempo bom que fazia, subir a Torre Eiffel.

 

Saímos outra vez sem tomar café pois já estava um pouco tarde. É inevitável a essa altura da viagem já não conseguirmos acordar tão cedo, mesmo não indo dormir tarde na noite anterior. Pegamos o metrô na Richelieu-Drout, a estação mais perto do nosso hotel, e descemos na estação Pigalle (linha 12). Era domingo e as ruas de Montmartre estavam bem movimentadas. Ali vimos que o bairro é bastante turístico. Há muitas lojinhas, lugares para comer, famílias e turistas passeando. Em uma loja de souvenirs de Montmartre consegui achar uma bandeira da França para costurar na minha mochila. Fomos caminhando por essas ruas movimentadas do bairro até avistar a Basílica do Sacré Coeur.

 

O nome do bairro vem dos mártires cristãos que foram torturados e mortos naquele monte no início do Cristianismo. Saint Denis, que foi bispo de Paris e é o padroeiro da França, foi decapitado ali no ano de 250 d.C. Em 1534, Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier fundaram ali a Companhia de Jesus, grande ordem religiosa cujos membros são conhecidos por Jesuítas e se espalharam pelo mundo.

 

Entretanto, o lugar ficou famoso mesmo só no séc. XIX e início do séc. XX, quando era palco da vida noturna mais agitada de Paris, com inúmeros restaurantes, cafés e cabarés. Essa imagem de Montmartre como bairro boêmio e festeiro se perpetua até hoje. Naquela época, por ser um vilarejo fora de Paris, sem ter que pagar os impostos da cidade, com aluguéis mais baratos que os do centro e com produção de vinho pelos conventos locais, Montmartre tornou-se o bairro dos artistas. Muitos deles ficaram famosos e tornaram Paris o centro de uma vanguarda artística que até hoje é muito cultuada. Monet, Cézanne, Degas, Pissarro, Matisse, Renoir, Van Gogh, Picasso, Modigliani e, claro, Toulouse-Lautrec, o pintor dos cabarés, foram alguns dos que frequentaram o bairro durante aquela época.

 

No ponto mais alto do monte, a basílica, toda em mármore branco, se destaca no céu azul. A escadaria e os gramados até lá estavam lotados. Muita gente aproveita para pegar sol.

 

A Basililique du Sacré Coeur (Basílica do Sagrado Coração) foi construída entre 1875 e 1914 com dinheiro de doações dos católicos parisienses. O estilo arquitetônico tem influências românicas e bizantinas e as cúpulas são os elementos que chamam mais atenção. A cúpula central tem 80 metros de altura. Diz-se que a ideia de construir a igreja surgiu como uma forma de expiação dos pecados do povo francês em um período em que a auto-estima deles estava abalada após a derrota na guerra franco-prussiana de 1870-1871.

 

Subimos os 234 degraus e entramos na Basilique du Sacré Coeur. A entrada é gratuita. Em fila, a multidão de visitantes caminha devagar pelos corredores laterias da basílica.

 

Ali, sentados nos bancos da igreja, eu e a Dani vimos uma cena chocante. Um rapaz franzino, de uns vinte anos no máximo, foi abordado aos gritos por um funcionário da igreja (pelo menos eu acho que era um funcionário). O homem segurou no braço dele e, aos gritos e chamando a atenção de todo mundo, disse que ele não podia tirar fotos. Achamos até que ele ia bater no rapaz. Sacudindo o rapaz pelo braço ele ordenou que as fotos fossem apagadas e ficou mexendo na máquina dele para se certificar de que ele tinha apagado tudo.

 

Demoramos para entender o que estava se passando. Primeiro porque o rapaz, que ficou muito assustado, estava sendo bastante discreto. Tanto que ele estava sentado no banco em frente ao nosso e nós nem percebemos que ele estava tirando fotos. Segundo porque não podíamos imaginar que toda aquela cena era só porque ele estava tirando fotos.

 

Eu também já tinha tirado fotos da igreja logo que entramos e estava com a máquina na mão. Depois que ele soltou o rapaz, veio para cima da gente dizendo que queria ver a minha máquina. Eu guardei minha máquina no bolso do casaco, chamei a Dani, virei de costas e fomos embora, deixando ele gritando lá igual um desequilibrado.

 

Mesmo sendo proibido tirar fotos no interior da igreja (só vimos placas avisando depois, quando já estávamos saindo), achei o comportamento do funcionário completamente inadequado. Não estava havendo missa e quase todo mundo ali era visitante, a maioria provavelmente era católico e não teria interesse nenhum em desrespeitar a igreja. Com certeza mais desrespeitoso com o local foi o tom de voz e a violência com que o funcionário tratou um visitante.

 

Aliás, essa política de fotos é uma coisa interessante. Já cheguei a visitar lugares em que tirar fotos era proibido, a não ser que se pagasse uma taxa a mais. Em outro lugar não se podia tirar fotos pois o flash danificava as obras, mas a luz do sol que vinha da janela aberta e batia diretamente nas pinturas estranhamente não. Até acho que deve haver realmente um controle com as fotos pois tem gente que abusa e os ambientes acabam ficando meio bagunçados, mas acho um exagero abordar um visitante agressivamente, seja qual for o motivo.

 

Enfim… regras são regras e devemos respeitá-las. Aconselho a todos a não tirarem fotos no interior da Basílica de Sacré Coeur (para evitar serem mal tratados). Até porque a basílica é muito bonita mas, sinceramente, acho que mais por fora do que por dentro.

 

Pois bem, saindo da igreja, fomos comer. Já era mais de meio-dia e ainda não tínhamos comido nada. Ali por perto da igreja não achamos nenhum restaurante, mas encontramos um café que era um local bem turístico mas, como não queríamos procurar outro, ficamos por lá mesmo.

 

As mesas eram ao ar livre, com vista para a igreja. Compramos saladas, sanduíches, bolinhos e refrigerantes. Estávamos comendo quando um casal de americanos muito simpáticos, na faixa dos sessenta anos, perguntou se nos incomodávamos se eles sentassem conosco pois não havia outra mesa vaga. Nós respondemos que não e convidamos eles a sentar.

 

Eles eram de Seattle, extremo oeste americano. Conversamos sobre Paris e sobre os programas para se fazer na cidade. Eles concordaram com a gente que a cidade é incrível. Como sempre ocorre quando conversamos um pouco mais com estrangeiros, eles perguntaram sobre o Brasil.

 

Invariavelmente eles pensam que vivemos no país das maravilhas, onde tudo funciona. A crise que eles estão passando faz eles pensarem que pode ser até melhor viver no Brasil. Não têm nem ideia de quanto a nossa qualidade de vida é ruim, os salários são baixos, o custo de vida é alto e do quanto somos deficitários em setores básicos como as escolas, o sistema de saúde, a segurança pública, o saneamento… Eles ficaram surpresos ao saber que a nossa cidade, Belém, com mais de dois milhões de habitantes, não tem outro sistema de transporte a não ser ônibus e que a passagem é cara e o serviço é péssimo. Ficaram mais surpresos ainda quando dissemos que praticamente só São Paulo tem um sistema razoável de metrô e, mesmo assim, deficitário perto das necessidades.

 

Nos despedimos e continuamos para ver o que tínhamos programado. Nosso primeiro objetivo marcado no guia era o Espace Dalí.

 

Esse pequeno museu expõe obras do grande mestre surrealista Salvador Dalí. Aliás, ele reúne a maior coleção de Dalí na França. São mais de 300 obras, entre esculturas, gravuras e pinturas!

 

Íamos visitar o Museu Dalí em Londres mas acabou que não tivemos tempo. Por sorte viemos a este museu aqui em Paris, apesar de nem ser um museu muito divulgado. Para quem gosta do trabalho deste gênio-louco, como nós, é imperdível.

 

A loja também é muito interessante e têm muitas recordações estilizadas da obra dele. Para quem gosta de Dalí (e tem muito dinheiro, claro) há também obras originais à venda. Para nós, pobres mortais, está de bom tamanho pagar os 10 Euros (R$ 25) do ingresso. Passamos um pouco mais de meia hora dentro do Espace Dalí. Vale muito a pena. Ah, e aqui é permitido tirar fotos!

 

Do Espace Dalí seguimos para a Place du Tertre, que fica bem pertinho do museu e bem ao lado da Basílica. Essa pracinha é o coração de Montmartre, cercada por restaurantes e cafés lotados, com muita gente passeando e muitos artistas expondo e até fazendo suas obras ali mesmo, ao vivo. Lembro de ter crescido vendo uns quadrinhos com aquarelas feitas aqui em Montmartre. Minha mãe ganhou esses quadrinhos do meu avô quando vieram à paris em 1970!

 

A temática das obras é quase sempre a mesma: Paris. E nem precisava ser outra. Cenas do cotidiano, os famosos monumentos, o estilo de vida, o glamour de uma cidade que ditou moda durante tanto tempo e influenciou o mundo todo.

 

É preciso parar para pensar que na época em que esses quadrinhos se tornaram populares entre os visitantes da cidade e fonte de renda para vários artistas instalados em Montmartre não existia a facilidade da câmera fotográfica portátil. Quem quisesse uma recordação de sua passagem por Paris tinha que comprar pinturas ou cartões postais. Mesmo depois, com as máquinas a filme, o número de fotos que as pessoas podiam tirar era muito limitado. Imagina passar trinta dias viajando e só tirar 36 fotos e depois de pagar uma verdadeira fortuna para revelar, ficar sabendo que algumas não ficaram boas! E isso nem faz tanto tempo. Quando eu era pequeno era assim.

 

E o incrível é que mesmo hoje, com a facilidade das máquinas digitais, tirarando quantas fotos quisermos e vendo se ficaram boas na hora, essa arte de rua de Montmartre ainda é muito valorizada. Achamos os quadrinhos bem caros. Os pequenos estavam na faixa dos 50-70 Euros (R$ 125-175) e os grandes facilmente chegavam a 300 Euros (R$ 750)!

 

Da Place du Tertre fomos para a parte baixa de Montmartre, descendo a íngreme escadaria da Rue Foyatier, por onde também passa o funicular, um elevadorzinho que leva as pessoas até a base da Basílica do Sacré Coeur. Não pegamos, mas é uma boa para quem quer evitar as escadas ou tem dificuldades de locomoção. se eu não me engano custa o mesmo que uma passagem de metrô.

 

Um dos maiores achados foi uma confeitaria sensacional, La Cure Gourmande, que fica na Rue de Steinkerke, perto da estação Anvers do metrô. A variedade de biscoitos (que é o forte deles), chocolates e doces é enorme. Interessante é que a ideia de resgatar as receitas artesanais e tradicionais francesas parece estar dando certo. Eles já possuem várias lojas em Paris, no interior da França e também no exterior. Gastamos uns 12 Euros (R$ 30) comprando um de cada para provar.

 

Apesar de fazer parte do passeio, deixamos de visitar a parte de Montmartre e do bairro vizinho de Pigalle onde está localizado o distrito vermelho de Paris com vários sex shops, boates e os famosos cabarés (vou ficar devendo a foto do Moulin Rouge).

 

Resolvemos então ir para a Torre Eiffel ver o panorama lá do alto. Pegamos o metrô na estação Anvers e seguimos pela linha 2, trocamos para a linha 6 e descemos na estação Bir-Hakeim, nas margens do Sena. Fomos caminhando pelas margens do rio e vendo como um dia bonito faz toda a diferença. Ancorados às margens do Sena, muitos barcos particulares bem bacanas, que pareciam casas flutuantes.

 

Chegando lá vimos que não tinha condição de subir. As filas estavam enormes e tinha uma multidão aos pés da torre. Também não era para menos. Além do dia bonito, era domingo, o pior dia para se visitar um monumento famosos como esse. Deixamos a Torre Eiffel para um outro dia e resolvemos então fazer o tal passeio de barco pelo Sena. Às margens do rio, à altura da torre, está uma das maiores empresas desses passeios, a Vedettes de Paris.

 

O bilhete custa 12 Euros (R$ 30). Quando compramos nos iludimos achando que era só comprar e embarcar. Ledo engano. Ficamos uma hora e meia na fila esperando! Quando embarcamos já era mais de 5 horas da tarde. O passeio dura meia hora e faz uma ida e volta no rio, começando e terminando no mesmo ponto perto da Torre Eiffel.

 

Ficamos no teto do barco e há um locutor que explica os lugares por onde passamos em francês e em inglês. O problema é que o leito do rio é baixo e não vemos muito dos prédios e monumentos que estão nas margens. Fora que o barco é um pouco rápido, meio estilo “temos que voltar logo para trazer mais uma galera”.

 

Eu e a Dani temos um pouco de aversão a pacotes, city tours e coisas do gênero. Em geral só usamos quando não há outra opção. Sempre preferimos fazer tudo por conta própria, usar transporte público, andar à pé… procurar viver como as pessoas da cidade vivem, sem o artificialismo dos serviços turísticos de massa. Resolvemos dar uma chance ao passeio de barco pelo Sena. Ao fim foi só para confirmar a nossa concepção. Nada contra quem gosta, mas se um dia eu voltar à Paris (o que é um plano) acho que não farei esse passeio outra vez. Prefiro mil vezes fazer uma caminhada pelas margens e ver tudo por conta própria, no meu ritmo.

 

Desembarcamos e já era fim da tarde. Pegamos o metrô na estação École Militaire e voltamos para o hotel. Comemos os queijos e pães que tínhamos e fomos arrumar nossa bagagem. Tínhamos que acordar cedo nessa segunda-feira para começar nosso roteiro de cinco dias pelo interior da França. O domingo tinha sido proveitoso e a nossa semana prometia muito mais.

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Acompanhando seu relato! Ótimo como sempre =D

Gosto muito das suas fotos (eu também acompanho no blog) e como você dá vários detalhes interessantes sobre os lugares, acaba criando uma curiosidade maior a respeito deles do que eu já tinha a princípio.

Ansiosa pelo restante!

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Acompanhando seu relato! Ótimo como sempre =D

Gosto muito das suas fotos (eu também acompanho no blog) e como você dá vários detalhes interessantes sobre os lugares, acaba criando uma curiosidade maior a respeito deles do que eu já tinha a princípio.

Ansiosa pelo restante!

 

Oi Amanda

 

Obrigado. É bom saber que tem gente acompanhando!

 

Pode deixar que eu vou escrever até o fim. Já tem um post novo. Daqui a pouco eu publico aqui.

 

Abraço

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Vigésimo terceiro dia. Segunda-feira, 24 de outubro de 2011.

 

Acordamos cedo e foi só o tempo de tomar banho, comer uns queijos e pães que tínhamos no quarto, dar uma última olhada para ver se não estávamos esquecendo nada, pegar a bagagem e descer. Fizemos o check-out na recepção e pegamos o metrô rumo à Gare du Nord. Apesar de termos ido para a Gare du Nord, não íamos pegar o trem. É que foi lá onde escolhemos retirar o carro que locamos para fazer nossa viagem de cinco dias pelo interior da França.

 

Lógico que tivemos que restringir bastante o roteiro mas, no fim das contas, até que chegamos a um bom itinerário. Íamos ao Vale do Loire (Château de Chambord, Amboise, Château de Chennonceau e Tours), à Bretanha (Saint-Malo) e à Normandia (Mont Saint-Michel, Rouen e os Jardins de Monet à Giverny) voltando para Paris em um roteiro circular, sem longas distâncias entre um ponto e outro. O roteiro completo dessa viagem, com mapa, está aqui.

 

Até esse dia eu nunca tinha dirigido fora do Brasil. Nas cidades que eu visito dou preferência para transporte público ou andar à pé e para viagens entre as cidades prefiro usar ônibus ou trem. Sempre tive um pouco de receio de me envolver em um acidente no exterior e acabar transformando a viagem em um inferno…

 

Mas, durante o planejamento dessa viagem, eu e a Dani vimos que seria muito complicado conhecer o que queríamos viajando de trem ou ônibus. Muitas das atrações (castelos do Vale do Loire, Mont Saint-Michel, Jardins de Monet à Giverny) ficam fora das cidades e arranjar transporte para lá tornaria tudo mais difícil, demorado (não tínhamos muito tempo), desconfortável (pois teríamos que ficar carregando as bagagens) e talvez até mais caro do que se alugássemos um carro.

 

Para completar, a maioria dos relatos que lemos na internet foi de pessoas que foram aos lugares que íamos de carro alugado e todas recomendavam isso. Aí acabei me convencendo de que era a melhor forma mesmo.

 

Além das carteiras de habilitação brasileiras, eu e a Dani tiramos também a Permissão Internacional para Dirigir, que serve para vários países. O processo é simples. É só imprimir o boleto bancário no site do DETRAN, pagar e esperar a permissão chegar pelo correio. É bom conferir os prazos e tirar com bastante antecedência.

 

Há várias locadoras de carro na Gare du Nord e os carros ficam guardados no estacionamento da própria estação. Fizemos a reserva pela internet ainda no Brasil. Escolhemos a Europcar, que estava com o melhor preço, fora que o site é organizado e para reservar não temos que pagar nada antes, só na hora.

 

Depois de demorar para encontrar as locadoras de carro na estação e esperar um pouco para sermos atendidos, assinamos o contrato e recebemos as chaves. Alugamos por seis diárias um Polo grafite novinho (com menos de 3.500 km rodados), um modelo mais recente do que o que roda no Brasil, a diesel, com GPS e tanque cheio, por 304,98 Euros (R$ 762,45). Foi o mais barato que encontramos sem que fosse aqueles micro carrinhos.

 

Descemos para o estacionamento, guardamos a bagagem e ligamos o GPS. Como perdemos um bom tempo em todo este processo de sair do hotel, pegar o metrô e alugar o carro, não queríamos mais nos atrasar pois o dia seria comprido. Nosso plano era visitar o Château de Chambord e seguir para dormir em Amboise. O problema foi que o GPS resolveu não colaborar. Quando ligamos ele ficou muito lerdo. Achamos que era porque estávamos no subsolo. Saímos da Gare du Nord totalmente sem rumo pois o GPS ainda estava se encontrando.

 

O carrinho do GPS estava sempre atrasado. Quando ele dizia que tínhamos que dobrar, o cruzamento já tinha passado. Isso quando não era em um cruzamento desses estrelados, cheios de ruas, e ele dizia para dobrar mas não sabíamos em qual das opções! Aí, na hora de refazer a rota, o mapa ficava rodando indefinidamente e eu tinha que ficar dirigindo sem rumo no meio do trânsito pesado de Paris pois não encontrava um lugar para estacionar e não podia parar no meio da rua. Ficamos rodando em círculos pelas ruas próximas à Gare du Nord. Me senti o Chevy Chase no filme Férias Frustradas na Europa!

 

Já estávamos achando que o GPS não prestava (a marca era Tomtom) e que estávamos ferrados pois sem GPS eu não saberia dirigir nas estradas, completamente sem mapas! A essa altura eu já estava esculachando a Dani, dizendo que a culpa era dela por ter inventado de alugar carro, e ela estava rezando para a porcaria do GPS funcionar.

 

Foi aí que encontramos uma rua mais tranquila onde pude estacionar. Ficamos parados um tempinho até parecer que o GPS estava correto. Aí saímos e pronto, tudo resolvido, ele resolveu trabalhar! Depois ficamos sabendo que isso é normal. Provavelmente o aparelho estava atrasado e confuso porque ficou desligado por muito tempo e precisou refazer a rede de satélites de onde ele busca a nossa localização.

 

Pois bem, seguimos pelas margens do Sena para pegar a estrada. O trânsito é muito pesado na saída da cidade. Quando finalmente chegamos à rodovia ficou muito melhor. Perto de Paris são quatro pistas para ir e quatro para voltar. As estradas são perfeitas. Aliás, esse comentário é meio óbvio pois todo mundo já ouviu falar que as rodovias europeias são excelentes. Mas o que as pessoas não dizem é que lá também tem pedágio. E muitos. Só nesse primeiro dia de viagem acho que passamos por uns dois. E eles nem sempre são baratos. As tarifas variam muito. Ao longo desses cinco dias que circulamos pelas rodovias francesas pagamos pedágios de 3 euros (R$ 7,50), 7 Euros (R$ 17,50), 10 Euros (R$ 25) e até 13 Euros (R$ 32,50)!

 

Uma coisa que também não se ouve muito é o fato de que as grandes rodovias lá não passam no meio das cidades como aqui no Brasil. Para acessar uma cidade temos que pegar um das saídas. E se perder a saída, aí sim complica um pouco pois é difícil retornar (daí a importância do GPS).

 

As estradas têm muitos recuos, que lá eles chamam de aire. Sempre quando chegamos perto de um, as placas informam o que está disponível lá (restaurante, banheiro, hotel, posto de gasolina…). Alguns não têm nada, só banheiros e uma área aberta para os carros e caminhões estacionarem fora da pista, em um lugar seguro para passar a noite. Quanto mais longe de Paris, melhor o trânsito, mas dificilmente a estrada fica completamente deserta. Quando saímos das rodovias e entramos nas estradinhas menores aí fica mais tranquilo. Elas continuam sendo excelentes, mas não são duplicadas.

 

Durante a Idade Média, a região do Vale do Loire (Vallée de la Loire), um dos principais rios do país, foi palco de intermináveis batalhas entre dinastias pelo domínio do Reino da França e também pela sucessão do trono da Inglaterra. Essas batalhas se alongaram do séc. XI ao séc. XV, desembocando na Guerra dos Cem Anos (1340 a 1453) e nos grandes feitos dos exércitos comandados por Joana D’Arc.

 

Ao longo desses séculos os nobres mais poderosos da França foram se instalando na região do Vale do Loire e erguendo seus castelos como fortalezas militares. Isso fez as cidades de Orléans, Blois, Amboise, Tours, Angers e Nantes, as principais do Vale do Loire, se tornarem cidades importantes para todo o reino. Por isso a região tem um enorme significado para o sentimento nacional.

 

Mas foi com a pacificação da região e a chegada do Renascimento que o Vale do Loire conheceu seu auge. Em 1461, o Rei Luis XI transferiu a capital do reino para Tours, uma das principais cidades do Vale do Loire. A capital permaneceu lá até 1594 quando Henrique IV transferiu a capital de volta à Paris. Durante esse período os antigos castelos foram tomando forma de palácios e outros castelos foram erguidos pelo rei e sua corte já sob a estética renascentista dos artistas e artesãos italianos trazidos por eles para a região. Dentre esses artistas, o maior de todos eles, Leonardo da Vinci.

 

E foi para ver as paisagens dessa região e alguns dos mais de 300 castelos do Vale do Loire que fomos até lá. Durante nossa pesquisa, foi dureza escolher entre tantos castelos, um mais bonito que o outro e com jardins igualmente fantásticos, os que iríamos visitar. É impossível conhecer tudo, ainda mais em uma só viagem de poucos dias.

 

Essa tradicional e histórica região, conhecida na França por Vallée de la Loire, está dentro de duas regiões administrativas francesas, a região Pays de la Loire e a região Centre. A Unesco conferiu o título de Patrimônio da Humanidade a somente uma parte da região tradicional, denominando-a Val de Loire. Chambord fica a exatos 200 km a sudoeste de Paris. Depois que entramos no Parc de Chambord ainda rodamos meia hora lá dentro, por estradas que cortam os bosques, até chegar ao castelo. Quando estacionamos, depois de mais de duas horas de viagem, já era 13:30.

 

A cidade do Vale do Loire mais próxima do Castelo de Chambord é Blois, que fica a 15 km de distância, é a parada do trem que vem de Paris e de onde saem os ônibus rumo ao castelo. O estranho é que no caminho inteiro nós não vimos nenhum ônibus trazendo visitantes. No estacionamento também só vimos carros de passeio. O estacionamento é enorme e custa 3 Euros (R$ 7,50) por dia. Deixamos a bagagem no carro e fomos logo ver a fachada principal do castelo.

 

O Château de Chambord é o maior e mais visitado castelo do Vale do Loire e um dos melhores exemplos da arquitetura renascentista francesa. Sua construção foi iniciada em 1519 pelo Rei Francisco I. Concebido para ser uma estância de caça real, o castelo se tornou um dos mais ambiciosos e caros projetos já postos em prática por um rei francês.

 

Francisco I teria conhecido de perto a arquitetura renascentista italiana durante os combates para recuperar parte do território da atual Itália que pertencia ao Reino da França e que foi perdido pelo seu antecessor, Luis XII.

 

Depois de algumas fotos em frente ao castelo, do outro lado do fosso que passa em frente, fomos comprar os ingressos para entrar. Cada ingresso custou 9,50 Euros (R$ 23,75). Há também audioguias (4 Euros/R$ 10) disponíveis em várias línguas, inclusive português, mas não pegamos.

 

Por dentro o castelo é também muito bonito e, claro, luxuoso. Em um panfleto que peguei na recepção estavam os colossais dados do castelo. Distribuídos pelos três andares estão 426 ambientes, 77 escadas e 282 lareiras! Os cômodos e corredores são absurdamente espaçosos. O teto é sempre bastante alto.

 

A parte mais interessante do interior é sem dúvida a escadaria de dupla hélice que fica bem no centro do prédio principal e leva aos três andares. São como duas escadas em espiral entrelaçadas de modo que se uma pessoa descer e outra subir, cada uma por uma das escadas, elas não se encontram no caminho. A engenhosidade dessa escada é atribuída a ninguém menos que o próprio Leonardo da Vinci, que a teria projetado por encomenda de Francisco I. Da Vinci estava na França desde 1515, a convite do rei.

 

A capela do castelo foi iniciada por Francisco I, mas só foi terminada no reinado de Luis XIV. É o maior cômodo do castelo. Muitos dos cômodos apresentam uma decoração mais atual que a do séc. XVI, época da construção. É que com o tempo o castelo foi se adaptando aos gostos e comodidades de cada época e dos seus moradores. O Château de Chambord serviu de estância de caça para vários reis, entre eles Luis XIV, e também residência oficial de um marechal do exército francês, de um rei polonês deposto e de um duque de origem italiana.

 

O seu construtor, Francisco I, esteve no castelo apenas por cerca de 50 dias durante todo o seu reinado de mais de 30 anos, em curtas estadias de caça.

 

O Château de Chambord foi feito para ser pouco usado mesmo. Suas grandes janelas e seu teto alto, influências do Renascimento Italiano, não eram muito adequados ao frio da França central pois tornavam o castelo difícil de aquecer. Além disso, como não havia nenhuma cidade por perto, para ir para lá o rei tinha que levar tudo que ia precisar, inclusive a mobília, para ele e para as cerca de duas mil pessoas que iam junto entre nobres e serviçais.

 

Do alto dos telhados temos uma vista de todas as redondezas. O Parc de Chambord que fica em volta do castelo tem 52 km². Até onde podemos ver só há floresta que, nessa época do ano, está com as cores do outono.

 

Apesar de toda a história de ostentação, o Château de Chambord também viveu vários períodos de decadência. No maior deles chegou a ficar oitenta anos seguidos completamente abandonado, sem qualquer morador, uso ou manutenção. Desde 1930 o castelo é propriedade do Estado francês, sendo que sua mais profunda reforma se deu depois da Segunda Guerra Mundial. Hoje o castelo é uma das maiores atrações turísticas do país.

 

Antes de sair ainda passamos na lojinha onde eu comprei alguns cartões postais do castelo para a minha coleção (3,80 Euros/R$ 9,50).

 

Já era mais de quatro horas da tarde quando resolvemos ir almoçar. Estávamos com muita fome pois praticamente não tínhamos comido nada o dia inteiro. Lá mesmo, ao lado do castelo, há uma espécie de vila cheia de restaurantes e cafés. Já tinha passado da hora do almoço, mas um deles ainda estava servindo. Entre as várias opções escritas em um quadro com giz, escolhemos a lasagne à la bolognesi que vinha acompanhada de fatias de pão e salada verde.

 

Pegamos uma mesa em meio às árvores e, enquanto a moça preparava tudo, tomamos uns refrigerantes para enganar. Não demorou e o nosso almoço chegou, junto com meia jarra (demi pichet) de vinho tinto. Ainda pedimos dois crêpes e um sorvete de sobremesa. É incrível como até as comidas mais simples são deliciosas na França. Nesse país se come muito bem. Tudo saiu por 44 Euros (R$ 110).

 

Com a barriga forrada, fomos outra vez ao ponto de observação do outro lado do fosso, que fica bem em frente ao castelo. Parece que tudo foi pensado para impressionar, não só pela grandeza, mas pelo requinte e imponência. É um dos monumentos mais bonitos que eu já visitei, uma verdadeira preciosidade.

 

O fosso cheio de água em frente nunca teve funções de defesa. Aliás, pelo que lemos durante a visita, o Château de Chambord nunca foi fortificado para resistir a ataques. Todos os elementos têm apenas funções decorativas. As assimétricas estruturas do telhado, por exemplo, têm o objetivo de se assemelharem à silhueta de uma cidade.

 

A pedra calcária clara usada na construção desse e de vários outros castelos do Vale do Loire, coberta pelos telhados cinzas com torres pontudas faz o cenário parecer de mentira. Vale muito a pena visitar Chambord. Quem quiser outras informações pode dar uma olhada no site oficial do Domaine National de Chambord.

 

Por volta das 5 e meia da tarde deixamos Chambord com destino a Amboise. Ainda estava claro, mas tínhamos que seguir pois ainda tínhamos mais 50 Km pela frente. No caminho, passamos por Blois. A cidade parece muito bonita e com certeza é maior que Amboise. De Blois até Amboise a estrada margeia o rio Loire o tempo todo. Chegamos em Amboise já quase seis e meia da tarde e fomos logo para o hotel.

 

Escolhemos o Hôtel Le Choiseul, localizado bem na avenida que beira o rio. Paramos o carro no estacionamento do hotel e vimos que o lugar era requintado, com jardins bem cuidados, esculturas e fontes. Ao entrar fomos recebidos por um funcionário bem vestido, muito educado e simpático. Ele até elogiou meu francês! Como íamos passar somente um dia em Amboise, escolhemos esse que parecia ser o melhor hotel da cidade. A mobília e a decoração eram impecáveis. Tudo novinho e de muito bom gosto. Tínhamos feito a reserva de um quarto clássico, ao preço de 146 Euros (R$ 365).

 

Para nossa surpresa, o recepcionista disse que como eles tinham disponibilidade, ele ia nos colocar em uma suite superior, sem cobrar nada a mais por isso, e apontou para a tabela de preços. Simplesmente a diária do quarto que ele nos colocou custava 320 Euros (R$ 800), mais do que o dobro do que pagamos! E esse era o nosso segundo upgrade da viagem! O primeiro tinha sido em Londres.

 

Quando entramos no quarto ficamos até emocionados. Era fantástico! A cama era gigante e muito macia e a decoração muito bonita, com as paredes forradas em tecido. Decidimos deitar para tirar um cochilo e um pouco mais tarde sair para ver Amboise à noite e comer alguma coisa. Esse era o plano. O problema é que estávamos tão cansados e a cama era tão boa que só acordamos no outro dia!

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kkkkk que coisa chata! Mas enfim, viajar normalmente é cansativo, uma viagem da duração da sua, já imagino que vá chegando a noite e a única coisa que a gente quer é uma cama confortável pra deitar e apagar.

 

Adorei o Château de Chambord, até queria incluir o Vale do Loire no meu roteiro, mas não vai dar, vai ter que ficar pra próxima! Mas quando for pretendo alugar carro também, cheguei a pesquisar o transporte de Paris pra lá e me pareceu um pouquinho confuso, acho que prefiro a garantia de poder chegar e sair na hora que quiser.

 

Ansiosa pelo restante :D

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Vigésimo quarto dia. Terça-feira, 25 de outubro de 2011.

 

O sono foi revigorante. Esse hotel de Amboise foi um dos melhores que já ficamos. E o melhor é que, como dormimos cedo, não acordamos tão tarde.

 

Ao abrir a janela tivemos uma vista fantástica do pátio do hotel. De um lado o Château de Amboise. Do outro o rio Loire. O Le Choiseul faz parte de uma rede de hotéis de luxo franceses, geralmente instalados em castelos e edifícios históricos, a Grandes Etapes Françaises. Aliás, vi em um livreto no quarto que dentre os hotéis da rede esse aqui de Amboise parece ser um dos mais simples. Mas para mim já está bom demais!

 

Tomamos banho, arrumamos as coisas e descemos para tomar café. O café da manhã do Le Choiseul é uma coisa fora de série. A variedade e a qualidade de tudo é acima da média. Eu e a Dani éramos os mais jovens do hotel. A maioria dos hóspedes estava torrando o dinheiro da aposentadoria (sem dúvida, principalmente pelo preço, esse hotel não é um dos preferidos dos mochileiros!). Comemos tanto e tão bem nesse café da manhã que nem vimos o tempo passar. Depois demos uma volta pelos jardins do hotel e subimos para pegar as coisas e fazer o check-out.

 

O recepcionista fez tudo para a gente ficar mais um dia. Disse que poderíamos ficar no mesmo quarto que já estávamos pois ele estava disponível. Interessante a tática deles. Nos dão um upgrade na chegada e depois oferecem para continuarmos no quarto, pagando o preço real dele (320 Euros/R$ 800 a diária!) e não o do quarto que originalmente reservamos (146 Euros/R$ 365). E olha que quase eles nos convencem! Eu agradeci a gentileza mas disse que tínhamos que seguir viagem. Realmente o hotel era fantástico e não temos do que reclamar. Foi tudo impecável. Para quem pode gastar um pouquinho mais, nem que seja por uma noite só, vale muito a pena.

 

O plano do dia era conhecer o Castelo de Chenonceau e, na volta para Amboise, almoçar no restaurante do próprio hotel, o Le 36, que parecia ser muito bom e era referência na cidade. Depois íamos passear por Amboise e, no fim da tarde, seguir para Tours.

 

Viajar de carro pelo Vale do Loire é muito prático. As estradas locais são muito boas e tranquilas, fora a paisagem no caminho que é um show a parte. Tendo um GPS é tudo muito fácil. Era só entrar no carro, programar o destino e seguir as orientações. É fundamental saber como se escreve o nome do lugar no idioma local. Fora a demora do GPS para se encontrar logo que o ligamos em Paris, não tivemos nenhum outro problema com ele a viagem inteira.

 

De Amboise para o Château de Chenonceau são menos de 15 km. O castelo fica ao sul de Amboise, à beira, ou melhor, em cima do rio Cher, um afluente do Loire. Em menos de meia hora estávamos lá. Já era quase 11 horas quando chegamos. Deixamos o carro no estacionamento e fomos à bilheteria. O ingresso custa 10,50 Euros (R$ 26,25) e inclui um detalhado guia de visita com 12 páginas disponível em várias línguas, inclusive português.

 

Com os ingressos ficamos livres para visitar todas as partes do parque, dos jardins e do castelo. Na entrada passamos por um longo corredor de altas árvores. As folhas do outono filtravam a luz e deixavam tudo dourado. Logo avistamos o castelo, mas de um ângulo diferente do da foto mais conhecida que vimos na internet e que fez com que o incluíssemos no nosso roteiro.

 

O clima estava muito instável. Às vezes parecia que o tempo ia abrir e às vezes o céu escurecia e parecia que ia chover forte. Chegando bem em frente à entrada do castelo começou a chuviscar. Aí decidimos entrar logo e deixar para ver os jardins e a fachada do castelo sobre o rio depois.

 

O Château de Chenonceau começou a ser construído em 1515 por um ministro do Rei Carlos VIII. Mas foi a sua esposa, Mme. Briçonnet, quem idealizou a maior parte da obra. Outra mulher na vida do Château de Chenonceau foi Diane de Poitiers, amante do Rei Henrique II. Ela morou no castelo e acrescentou à ele uma ponte em arcos para a travessia do rio Cher. Foi ela quem mandou construir também o maior dos jardins clássicos que fica em frente ao castelo e ao lado do rio.

 

Quando o rei morreu, Diane de Poitiers foi obrigada pela rainha, Catarina de Médicis, a se mudar para um castelo menos suntuoso. A rainha, que chegou a morar em Chenonceau, também fez acréscimos ao castelo e aos seus jardins. Duas filhas e três enteadas dela, todas elas futuras rainhas, também moraram em Chenonceau.

 

Por último, Mme. Dupin, esposa de um dos homens mais ricos da França do séc. XVIII, tornou o Château de Chenonceau o ponto de encontro da mais fina aristocracia e intelectualidade da época. Rousseau, Montesquieu e Voltaire chegaram a frequentar os bailes promovidos por ela no castelo. Durante os primeiro ímpetos da Revolução, suas amizades fizeram com que essa preciosidade renascentista fosse preservada da demolição.

 

Tantas mulheres ao longo de sua história renderam a Chenonceau o apelido de ‘Château des Dames’.

 

O interior do Château de Chenonceau é um pouco escuro. Diferentemente de Chambord, esse castelo é muito mais intimista, com cômodos menores e sem aqueles exagerados tetos altos e aqueles salões e corredores enormes. Ainda assim, Chenonceau é um castelo do Vale do Loire e, como tal, é bastante luxuoso. Uma parte da decoração chama a atenção em quase todos os cômodos: a tapeçaria nas paredes. Trata-se de uma das melhores coleções de tapeçaria de Flandres do séc. XVI, retratando temáticas medievais e da natureza. Pelo castelo ainda encontramos pinturas de vários artistas famosos, entre eles Tintoretto e Rubens.

 

Também diferente do frio Castelo de Chambord, o Château de Chenonceau é bem mobiliado, não tem aqueles enormes espaços vazios, e a mobília é muito bonita, digna dos antigos moradores dali.

 

O grande salão de baile que fica em cima do rio foi mandado construir por Catarina de Médicis sobre a ponte mandada construir por Diane de Poitiers e mede 60 m de comprimento. Das janelas do salão pudemos avistar os jardins e o rio Cher e ver que o céu ainda estava negro e uma chuva fraca persistia.

 

Depois de visitar todo o castelo resolvemos sair mesmo que fosse embaixo de chuva. Para nossa surpresa, o céu já estava azul e não chovia mais! Finalmente, pudemos ver o Château sobre o rio.

 

Passeamos por todo o clássico jardim que nem estava no auge da sua forma por causa do outono, mas mesmo assim estava muito bonito. Fomos até o fim do muro que cerca o jardim à beira do rio Cher para ter a mais bonita vista do Château de Chenonceau. As calmas águas do rio eram como um espelho refletindo o Château de Chenonceau e seus séculos de história.

 

Uma moça que nos viu tirando fotos um do outro perguntou se queríamos uma foto juntos. Desanimados, dissemos que sim. Geralmente essas fotos ficam bem ruins… E não é que essa ficou boa? Ficamos tão satisfeitos que ela nem entendeu nossa reação.

 

Parece besteira mas é raríssimo conseguir alguém que tire uma foto da gente sem cortar toda o cenário. É impressionante como as pessoas pensam que foto boa é de corpo inteiro (e mais um metro de chão) ou uma 3×4 sem que a paisagem apareça. Tenho fotos de Machu Picchu sem a montanha, do Big Ben sem o relógio, da Torre Eiffel pela metade, do Empire State só com 20 andares…

 

Uma vez, em Washington, um grupo de americanos me pediu uma foto deles na escadaria do congresso. Eu me contorci todo no esforço para tirar uma foto de meio corpo com tudo aparecendo, incluindo a grande cúpula, claro. Quando mostrei o que eu achava ser uma obra-prima da fotografia contemporânea, eles me pediram para enquadrar só eles, de corpo inteiro. Aí eu fui lá, tirei uma foto deles dos pés à cabeça em frente a um prédio branco não-identificável e… eles adoraram! Vai entender…

 

Pois bem, depois de conhecer o Château de Chenonceau, era hora de voltar para Amboise. Voltando para o carro passamos pelo mesmo túnel de árvores que nos recepcionou. O parque que pertence ao Château de Chenonceau tem bosques iguais àqueles de descanso de tela de computador. No meio do caminho ainda nos deparamos com outros ambientes bem bonitos, como um labirinto feito com arbustos podados.

 

Esse é um passeio inesquecível e menos que duas horas é o suficiente para ver tudo. É bom dar uma olhada nos horários de funcionamento no site oficial do Château de Chenonceau.

 

Pegamos o carro e fizemos o caminho de volta para Amboise. Agora sim íamos conhecer a cidade e também o seu famoso Château. Quando chegamos em Amboise estacionamos o carro em uma rua tranquila, próxima à igreja de de Saint Denis. Não é difícil arrumar vagas para estacionar na cidade (não sei no auge da alta temporada).

 

Essa igreja, que data do séc. XII é muito bonita. Infelizmente ela estava fechada e não pudemos ver por dentro. Seguimos caminhando para o Château Royal de Amboise.

 

Caminhando vimos como a cidade é tranquila. Parecia que era fim de semana ou feriado. Havia poucas pessoas nas ruas e, com exceção da avenida que margeia o rio, quase não há trânsito. Amboise é uma cidadezinha pequena, tem menos de 12 mil habitantes, e lá podemos sentir bem o que deve ser morar no interior da França. Tudo é muito pequeno, mas também muito organizado, limpo e bem cuidado. Praticamente todas as janelas do casario geminado com telhados de ardósia têm flores. São pequenos detalhes como esses que fazem toda a diferença, tornando o lugar tão agradável. No caminho para o Château, passamos em frente a algumas lojinhas. As pâtisseries sempre chamam a atenção com suas deliciosas vitrines.

 

Grande parte da história da cidade se confunde com a história do Château de Amboise e parece que todos os caminhos levam para lá. O primeiro forte construído no alto daquele morro à beira do rio Loire, data do séc. XI. Ele foi diversas vezes ampliado e reformado, principalmente depois que foi confiscado pela coroa, em 1434, tornando-se um Château Royal. No final do séc. XV e início do séc. XVI, Amboise viveu seu auge, com a corte morando no castelo por quatro reinados consecutivos.

 

O claro interior do castelo abriga uma mobília antiga muito bonita. Grandes salões, como a sala do conselho, serviam para o encontro da corte com o rei. O teto e as paredes desta elegante sala são todos decorados com entalhes da flor-de-lis, símbolo da monarquia francesa. Mas, mesmo com um interior tão bonito, o que parece roubar a cena mesmo é a vista privilegiada do rio Loire e da cidade que temos lá de cima.

 

A posição do castelo é estratégica, à beira do rio, no alto de um morro. Caminhando à beira do alto muro temos uma vista de 360 graus da região, o que era fundamental para a defesa do Château Royal.

 

O Rei Francisco I, um dos moradores do Château de Amboise, foi um grande mecenas e admirador das artes e da cultura. Foi ele o responsável pela vinda de muitos artistas italianos para o seu reino e, junto com eles, o estilo renascentista que tanto prosperou na França. O Château de Amboise foi pioneiro na estética italiana no Vale do Loire e os detalhes de sua arquitetura mostram bem a transição entre o estilo gótico flamboyant francês e o estilo renascentista italiano.

 

Entre os artistas italianos convidados para vir à França, o mais famoso de todos foi Leonardo da Vinci, que se mudou para Amboise em 1516, aos 64 anos, trazendo com ele muitas obras realizadas na Itália (entre elas, a hoje famosíssima Monalisa). Às contas do rei, ele morou em um outro castelo a cerca de 1 km do Château de Amboise, o Château du Clos Lucé, onde fez muitos desenhos e projetos, principalmente nas áreas da engenharia, da arquitetura e do urbanismo. O Château du Clos Lucé é aberto a visitações e exibe muitas réplicas de projetos de Da Vinci em seus jardins. Infelizmente não tivemos tempo de ir lá.

 

Da Vinci morreu em Amboise, em 1519, e seu corpo foi enterrado no Château Royal, em uma capela que já não existe mais. Em uma das reformas, durante uma escavação arqueológica, seus ossos foram encontrados e transladados para a Chapelle de Saint-Hubert, também no Château Royal de Amboise.

 

Esta capela, toda no estilo gótico flamboyant, é bem pequena, praticamente só uma sala. Saint-Hubert é o santo padroeiro dos caçadores e por isso a fachada, muito trabalhada, é cheia de entalhes de animais e chifres de cervos. No interior, uma simplória lápide informa ser aquele o lugar do descanso final de um dos maiores artistas que a humanidade conheceu.

 

Em meados do séc. XVI, o Château Royal de Amboise serviu de cenário para o começo dos conflitos entre católicos e protestantes, conhecidos por ‘Guerras de Religião Francesas’. Na época, dois grupos dinásticos, um protestante e outro católico, disputavam o trono da França. Depois de uma conspiração fracassada contra a ascensão de Francisco II, conhecida por ‘Conjuração de Amboise’, mais de mil protestantes foram enforcados e muitos corpos foram pendurados nas altas muralhas do Château.

 

Como eu já disse, grande parte do castelo original foi perdida. Durante a Revolução Francesa, o castelo foi muitíssimo danificado. Mais tarde, já durante o Império, Napoleão mandou demolir mais uma parte da construção, considerada irrecuperável. O Rei Luis Felipe foi responsável por uma grande restauração e remodelação, não totalmente terminada por causa de sua abdicação em 1848. Já durante a Segunda Guerra Mundial, o castelo foi novamente muito danificado por ataques nazistas. Estima-se que apenas 10% a 20% do que já foi o Château Royal de Amboise resiste até hoje.

 

O que restou faz valer a pena uma visita. O ingresso custa 10 Euros (R$ 25) e acredito que podemos ver tudo com calma em cerca de uma hora e meia. Na saída, na loja, comprei uns cartões postais da cidade e do castelo e um pão de mel para enganar a fome. Para saber os horários de funcionamento é bom dar uma olhada no site oficial do Château Royal de Amboise.

 

Saindo do castelo, atravessamos a ponte que cruza o rio a pé. Do outro lado, temos a melhor vista da cidade e do Château de Amboise. Vale a pena tirar uma foto de lá. Quando atravessamos de volta fomos pegar o carro. Já era quase 5 horas da tarde quando voltamos ao hotel no qual nos hospedamos, o Le Choiseul, para ver se conseguíamos comer no seu restaurante, o Le 36. Infelizmente ficou para uma próxima. O horário de almoço já tinha acabado e o de jantar ainda ia demorar para começar. Aqui na França dificilmente encontramos um restaurante que sirva almoço muito depois do horário normal.

 

Era hora de se despedir de Amboise e seguir nosso roteiro até Tours, onde íamos dormir. Colocamos o endereço do hotel de Tours no GPS, pegamos a estrada que beira o Loire e em apenas meia hora chegamos. Amboise é muito perto de Tours, apenas 25 km separam as duas cidades.

 

Parei o carro em frente à entrada do nosso hotel, que fica em uma esquina, para tirarmos as bagagens, fazermos o check-in e depois ir deixar o carro em algum estacionamento próximo pois ali era proibido deixar.

 

Eu já estava fora do carro quando a Dani abriu a porta no exato momento em que um Clio caindo aos pedaços, provavelmente modelo 1980, fez a curva e enganchou nossa porta na lateral dele. O estrondo foi tão alto que na hora eu pensei: ‘pronto, arrebentou todo o carro e acabaram-se as férias!’. Meu maior temor de dirigir no exterior era esse. E o pior é que eu não estava nem dirigindo, estava fora do carro e ele estava parado.

 

A Dani saiu do carro toda nervosa e eu fui falar com o senhor. Era um francês de seus 40 e poucos anos com bigode igual ao do Asterix que ficou todo desconcertado. Ele admitiu a culpa, mas pelo carro todo velho e acabado dele e mesmo pela aparência de gente simples que ele tinha, eu sabia que não podia esperar que ele pagasse nada.

 

Deixei a Dani tomando conta do carro e entrei para pedir ajuda para alguém do hotel. O recepcionista foi muito solícito e saiu para ver o carro. O bigodudo já tinha ido embora com a lata velha dele. Foi aí que na verdade eu percebi que tudo aquilo tinha sido mais um susto por causa do barulho do que outra coisa. Apenas a ponta de baixo da porta tinha levantado, como uma orelha de um livro. A pintura estava perfeita e não havia nenhum arranhão ou amassado em mais nenhum lugar do carro.

 

O próprio recepcionista disse que aquilo não era nada. Mas o carro era alugado e eu não podia devolvê-lo daquele jeito. Foi então que entramos, o rapaz do hotel procurou uma oficina da internet, imprimiu o mapa e nos deu o endereço. A oficina ficava em St. Cyr sur Loire, no aglomerado urbano de Tours. Então eu e a Dani fizemos o check-in e fomos lá (com a confusão toda, deixamos para fazer o pagamento depois).

 

A Dani ficou toda jururu e eu tive que parar de azucrinar ela por causa da falta de atenção ao abrir a porta. Parei o carro em frente à oficina, que era bem arrumada, nada a ver com as oficinas mecânicas no Brasil. O gerente me atendeu e foi olhar o carro. Ele disse que não precisava eu me preocupar, que aquilo era simples e que ele resolvia em 10 minutos. Infelizmente ele não podia fazer naquela hora pois já estavam fechando, mas que se eu voltasse de manhã cedo ele fazia o serviço.

 

Entramos no carro mais tranquilos e voltamos para Tours. Deixamos o carro em um estacionamento público a uns cinco quarteirões do nosso hotel. Não é tão fácil arranjar vaga nas ruas de Tours quanto é em Amboise. É proibido estacionar em quase todos os lugares e a polícia fiscaliza bastante. Tours possui vários estacionamentos públicos pagos. Para quem é residente em Tours, um dia inteiro no estacionamento custa 1,50 Euro (R$ 3,75) e 6 dias custam 7 Euros (R$ 17,50). Para quem não é, como nós, turistas, a tarifa é de 3 Euros (R$ 7,50) a cada 2 horas e a cada duas horas temos que voltar para fazer o pagamento. Não há atendentes e tudo é feito em máquinas. Não pagamos nada pois de 18:30h até 09:00h estacionar é gratuito. Mas teríamos que ir pontualmente às 9 da manhã do dia seguinte pagar o estacionamento ou a fiscalização poderia nos multar ou mesmo guinchar o carro.

 

Já começava a escurecer e esfriar quando chegamos ao hotel. Tomamos banho e resolvemos sair para dar uma volta pela cidade e também jantar pois, fora o reforçadíssimo café da manhã do hotel em Amboise, não tínhamos comido quase nada o dia todo.

 

O centro histórico de Tours é quase todo pedestralizado. As ruas são compridas e curvas, com uma iluminação dourada que dá um clima muito legal à cidade. Há várias opções para comer. Muitas delas são lanches rápidos e vimos várias casas vendendo comida árabe. São vários os lugares que servem kebabs, aqueles sanduíches feitos com carne de carneiro que fica rodando no espeto. As ruas ficam com o cheiro dessa comida e, além dos muçulmanos imigrantes das antigas colônias francesas do Magreb (Argélia, Marrocos e Tunísia), os franceses mesmo parecem gostar muito dessa comida.

 

Deixamos para provar o kebab em outra oportunidade e buscamos algo mais francês. Encontramos um restaurante que parecia ser bom, chamado Chez Gerard, perto da Place Plumereau, o centrinho medieval de Tours. Sentamos primeiro na varanda. Ficamos um tempão esperando para sermos atendidos e nada. Estava ficando muito frio e tivemos que entrar. Procuramos outra mesa sem que ninguém nos recebesse então sentamos à mesa vazia que havia.

 

O garçon passou por nós várias vezes e parecia fingir que não nos via. Quando finalmente nos atendeu, deixou os cardápios e saiu sem falar nada. Depois veio anotar o pedido e não deu uma palavra. Demorou uma eternidade para trazer o pão, as entradas, o vinho e a água. E outra eternidade para trazer o pedido principal. Ficamos mais de uma hora esperando para ele largar os pedidos na mesa de qualquer jeito, na maior grosseria.

 

E o mais estranho era que essa demora toda era só com a nossa mesa. Nas mesas em volta, ocupada por franceses que chegaram muito depois de nós, já estavam comendo e o garçon a toda hora parava para perguntar se faltava alguma coisa com a maior simpatia do mundo!

 

Eu já estava pegando corda com aquela palhaçada mas preferi não fazer nada, afinal, não se deve brigar com quem está com a nossa comida. Quando ele finalmente trouxe os pratos principais, não trouxe os talheres! Ficamos mais um tempão esperando ele trazer. Só podia ser de propósito! Quando ele trouxe os talheres aí sim eu armei o barraco, perguntei até quem ele estava achando que era… e ele continuou agindo que nem um idiota, como se não soubesse do que estava falando!

 

Comemos de mau humor. Não vou ser injusto. A comida estava boa. A Dani pediu uma salada de salmão e eu pedi, pela primeira vez, escargots. Achei muito gostoso. Uma pena que daqui para frente eu vá associar esse prato ao mau tratamento que recebemos nesse restaurante. São pessoas como esse garçon e aquele guarda da Basilique du Sacré Coeur, em Paris, que fazem a fama de grosseiros, antipáticos e xenófobos dos franceses. O importante é não generalizar pois a esmagadora maioria dos franceses com quem conversamos foi muito educada, solícita e gentil com a gente.

 

Enfim, pagamos a conta no balcão (37 Euros / R$ 92,50), onde também ninguém fez questão de ser simpático, e saímos estressados daquele restaurante lazarento. Nossa vingança foi não ter deixado nenhuma gorjeta e agora contar essa má experiência aqui para quem ler, evitar esse lugar. Há muitas outras opções em Tours, com certeza com comida excelente e atendimento melhor.

 

Depois do dia corrido que tivemos, cheio de lugares interessantes e também alguns estresses, voltamos para o hotel e desabamos na cama. Esses acontecimentos inesperados fazem parte de qualquer viagem. Uma coisa é certa: Tours tem muito mais a mostrar do que uma batida de carro e um garçon idiota!

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Vigésimo quinto dia. Quarta-feira, 26 de outubro de 2011.

 

Este seria o nosso último dia no Vale do Loire e o plano era passar a manhã em Tours e seguir para Saint-Malo, na Bretanha, à tarde. Mas antes, tínhamos que resolver o problema do carro. Descemos para tomar café da manhã cedo, pois o estacionamento onde o carro estava teria que ser pago se passássemos das 9 da manhã.

 

Em Tours ficamos no Hôtel Ronsard. O hotel é simples, mas todo reformado e perto do centro. O atendimento também é bom. Na véspera, com a batida do carro, o recepcionista foi muito prestativo e nesta manhã uma senhora nos serviu o café com a maior simpatia. Por uma noite em uma suíte de casal, pagamos 71 Euros (R$ 177,50). O café da manhã custou mais 8 Euros (R$ 20) para cada. Não era como o do hotel em Amboise, mas era bom, com café, leite, suco, queijo, geleia e os sempre presentes e deliciosos pain au chocolat, croissants e baguettes.

 

Pegamos o carro em cima da hora e não precisamos pagar pelo estacionamento. Voltamos para o hotel para pegar as coisas e fazer o check-out e depois seguimos para a oficina. Chegando lá, o gerente da véspera me recebeu, chamou um outro funcionário e mostrou o amassado. Ele disse que em 5 minutos estava pronto e que inclusive não precisávamos pagar nada. Quando eu vejo vem o mecânico com um martelo na mão, coloca um pano por cima do amassado e dá umas quatro marteladas fortes na porta. Quando ele tirou o pano, estava perfeito. Apenas uma leve ondulação, quase imperceptível. Insisti em pagar e dei 20 Euros (R$ 50) para eles. Saímos relaxados da oficina.

 

Nosso medo maior era que a locadora, percebendo o problema, que realmente era pequeno, descontasse valores absurdos do meu cartão de crédito a título de reparação. Ia ser quase impossível questionar isso já de volta ao Brasil. Do jeito que ficou bom, ficamos tranquilos.

 

Voltamos para Tours e deixamos outra vez o carro no estacionamento público, dessa vez pagando, pois já era mais de 9 horas da manhã. Para garantir que estávamos fazendo tudo certo, pedi a ajuda de um senhor que estava deixando o carro. Ele me explicou que era só ir até a máquina, inserir o dinheiro, pegar o cartão e colocá-lo no painel do carro, visível para a fiscalização. Como não tínhamos o cartão de residente, pagamos 3 Euros (R$ 7,50) por duas horas (para residentes é bem mais barato). Achei esse sistema de estacionamento público muito bom pois livra as ruas de uma centena de carros estacionados. O local é todo aberto e cercado por prédios residenciais. Não há controle de entrada das pessoas, mas a segurança não parece ser um problema aqui (deixamos toda a nossa bagagem no carro). Com algumas adaptações um sistema como esse seria muito útil no Brasil, melhorando o trânsito e ajudando a nos livrar do absurdo que é essa indústria dos flanelinhas.

 

Finalmente estávamos livres para passear por Tours. Pegamos o guia e revisamos os pontos que queríamos conhecer. Saímos andando e vendo como a cidade funciona. Apesar de ser uma das maiores cidades do Vale do Loire, Tours ainda tem a tranquilidade de uma cidade pequena. Com cerca de 300 mil habitantes na região metropolitana, Tours tem uma boa estrutura para servir de ponto de referência para quem quer visitar alguns dos castelos da região.

 

A região do Vale do Loire durante muito tempo demandou as habilidades dos melhores artesãos franceses e também estrangeiros, tanto para a construção dos châteaux e de magníficas catedrais, mosteiros e pontes, quanto para a manutenção do estilo de vida exuberante dos nobres. Um pouco dessa história pode ser vista no pequeno mas interessante Musée du Compagnonnage, a primeira atração que visitamos.

 

Todo mundo já ouviu falar no colégio sobre as Corporações de Artes e Ofícios da Idade Média. Essas associações de artesãos guardavam com elas os segredos das mais variadas áreas e controlavam as profissões como verdadeiras mantenedoras de monopólios. No Musée du Compagnonnage podemos ver vários exemplares de trabalhos de alguns famosos mestres artesãos.

 

O museu é pequeno, praticamente só um salão onde ficam expostas réplicas em menor escala de muitas obras construídas e de outros projetos nunca postos em prática. Algumas obras são bastante impressionantes. Há altares de igreja, portas e móveis, entalhes em pedra, bolos enormes, fechaduras intrincadas, roupas bordadas… tudo excessivamente detalhado, trabalhos realmente difíceis de se ver hoje em dia. O museu conta também um pouco da história de vida e do trabalho dos artesãos. A França muito se orgulha dos seus compagnons (termo que literalmente significa companheiros, mas poderia ser traduzido como artistas-técnicos-artesãos), responsáveis por algumas das mais fantásticas obras que a humanidade já viu. O próprio governo promovia concursos e dava prêmios para os mais habilidosos.

 

Antigamente as poucas escolas e universidades priorizavam os estudos mais teóricos. Os trabalhos práticos de construção, engenharia, arquitetura, entalhe em pedra, trabalho em ferro, carpintaria, marcenaria, culinária e de fabricação de vários produtos como relógios, fechaduras, armas, roupas e sapatos ficavam a cargo das Corporações de Artes e Ofícios. Os membros dessas guildas repassavam seu conhecimento para poucos escolhidos, em geral, da própria família. A maioria desses artesãos, como a maioria da população na época, sequer sabia ler e escrever e aprendia tudo na prática, observando o trabalho dos mais experientes.

 

Não se pode tirar fotos no interior do prédio. O ingresso custa 5,20 Euros (R$ 13) e a visita dura uns 20 minutos, mas vale a pena. Depois que saímos do museu, fomos ver a Catedral que, aliás, é um excelente exemplo do trabalho dos compagnons franceses. A Catedral de Saint-Gatien de Tours fica um pouco afastada do centrinho mais antigo da cidade e se destaca no meio de um bairro de classe alta, em frente à uma pequena praça. Considerando que a estrutura é basicamente pedra esculpida, a altura da construção impressiona. As torres medem 87 metros.

 

Essencialmente em estilo gótico, mas com elementos românicos e renascentistas também, essa catedral demorou mais de 300 anos para ficar pronta. Iniciada em 1170, só foi terminada em 1547. O interior, como quase toda igreja gótica, é todo em pedra, sem revestimentos. Chamam a atenção o órgão do séc. XVI e, como sempre nas igrejas francesas, os maravilhosos vitrais.

 

É interessante ver como o catolicismo é diverso de país para país. Os santos populares na França não são sequer conhecidos no Brasil, que segue uma tradição portuguesa. Saint-Gatien foi o primeiro bispo de Tours, enviado de Roma para converter os habitantes da região ao cristianismo no séc. III.

 

A visita à Catedral é de graça e vale muito a pena. Saindo da Catedral, fomos visitar outra igreja, a Basilique de Saint-Martin de Tours. Essa Basílica fica bem perto do centro medieval, a mais ou menos uns 15 quarteirões da Catedral de Saint-Gatien. Fomos caminhando, olhando as lojas e admirando a arquitetura da cidade.

 

Como já contei aqui, entre 1461 e 1594, Tours foi a capital do Reino da França e a região foi palco de incontáveis batalhas entre dinastias que disputavam os tronos da França e da Inglaterra. A construção dos mais de 300 castelos pela aristocracia que se mudou para lá na época, seguindo o poder real, ajudou a transformar todo o Vale do Loire em uma região de grande significância para a França e o sentimento nacional. Depois que a cidade deixou de ser capital, toda a região experimentou uma certa decadência que só foi revertida com a chegada da ferrovia no séc. XIX.

 

Mais do que a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial representou uma grande catástrofe para a cidade. Muito do seu patrimônio histórico foi destruído pelos bombardeios e quase tudo teve que ser reconstruído, incluindo o traçado das ruas que hoje são largas e ladeadas por prédios mais modernos, em estilos arquitetônicos dos sécs. XIX e XX.

 

Chegando à Basilique de Saint-Martin já vimos que ela é bem menor que a Catedral, além de muito mais nova. Construída entre 1886 e 1902, a Basílica é em estilo Neo-Bizantino e tem um interior muito claro e bonito.

 

Quando entramos, vimos uma mesa com panfletos sobre a igreja e uma velhinha carola puxou conversa com a gente. Quando disse que éramos brasileiros ela ficou toda alegre e começou a perguntar se tínhamos igrejas bonitas no Brasil, se éramos muito religiosos… Contei para ela do Círio de Nazaré, que reúne mais de 1 milhão de pessoas em Belém e ela ficou impressionada. Depois de dizer que eu falava bem francês, disse em voz baixa, só para mim, que a Daniela era muito bonita. Uma simpatia a velhinha. Por fim, ela nos disse que tínhamos que visitar a cripta.

 

Quase passamos batido. A cripta é a razão de ser da Basílica. É lá onde está o túmulo de Saint-Martin de Tours. O local onde ele foi enterrado foi descoberto em 1860 e fez com que a igreja fosse construída ali, no mesmo lugar.

 

Saint-Martin, apesar de também não ser muito conhecido no Brasil, é um dos principais santos do catolicismo. Muito popular no país, ele foi bispo de Tours no séc. IV e responsável pela construção de vários mosteiros na França. A cripta onde está o seu túmulo, no subsolo da Basílica, é um lugar muito silencioso e tem as paredes e o teto cheios de mensagens de agradecimento. A visita à Basilique de Saint-Martin de Tours também é gratuita. Vale a pena.

 

Saindo da igreja, fomos procurar comer alguma coisa. Uma das poucas áreas medievais ainda preservadas de Tours é o centrinho pedestralizado que fica nos arredores da Place Plumereau, circundada por casinhas com a estrutura de madeira aparente nas fachadas. Na maioria dessas casinhas hoje funcionam cafés e restaurantes e a praça é quase toda tomada por mesas e cadeiras ao ar livre. Entre as várias opções, escolhemos um café chamado Le Lys D’Or, de frente para a praça, e sentamos em uma mesa ao ar livre. Já era mais de meio dia e esse lanche/almoço seria nossa despedida de Tours.

 

Essa praça e as ruas em volta são muito agradáveis. É um lugar bastante turístico mas, ao mesmo tempo, muito tranquilo, com passarinhos pousando embaixo da nossa mesa para comer farelos. Pedimos dois crêpes salgados, um de queijo e um de cogumelos, e dois crêpes doces, um de nutella e um de geleia de framboesa, além de dois refrigerantes. Foram os melhores crêpes que comemos durante toda a viagem. Muito bom. Fomos bem atendidos e tudo saiu por 27,60 Euros (R$ 69). De barriga cheia fomos pegar o carro e seguir caminho para Saint-Malo, cidade histórica que fica ao norte de Tours, na beira do Canal da Mancha.

 

Localizada na Bretanha (em francês Bretagne), essa cidade entrou quase por acaso no nosso roteiro. Era certo que queríamos visitar o Mont Saint-Michel, que fica quase na divisa entre a Bretanha e a Normandia, mas sabíamos que não valia a pena dormir uma noite lá pois menos de um dia seria suficiente para conhecer tudo. Então resolvemos escolher uma cidade próxima para dormir. Quando achamos Saint-Malo bem ali ao lado, vimos as fotos no Google Earth e lemos um pouco sobre a Cidade dos Corsários, foi fácil se decidir.

 

A distância entre Tours e Saint-Malo é de cerca de 300 km. É um trecho longo, que percorremos em quase três horas de viagem. No caminho percebemos uma radical mudança de paisagem. A Bretanha é conhecida pelo clima úmido, frio e muito chuvoso. Quanto mais chegávamos perto do mar, mais o céu ficava escuro e mais constantes eram os chuviscos.

 

Passamos por uns três pedágios no caminho (os valores variam de 3 Euros/R$ 7,50 a 13 Euros/R$ 32,50). Paramos em um posto para abastecer. O preço da gasolina não é tão diferente do preço no Brasil. Aqui não há frentistas. Eu mesmo abasteci e depois fui pagar no caixa da loja de conveniência, onde também comprei umas besteiras para comer e beber no caminho.

 

Na saída do posto fomos parados por uma blitz da polícia. O guarda pediu minha habilitação e eu entreguei a carteira internacional e a minha carteira do Brasil. Fiz até o teste do bafômetro. Mais de dez anos dirigindo no Brasil e nunca havia feito, a primeira vez foi essa na França! Sorte que eu não tinha bebido nada e estava com todos os documentos corretos. No fim, quando me devolveu os documentos o guarda ainda puxou assunto. Ele viu que eu era brasileiro, claro, e disse que conhecia Belém! Falou que quando tirou férias passou pela Guiana Francesa e por Belém antes de seguir para Fortaleza. Disse até que o clima era parecido com o da Bretanha. A diferença era que Belém era úmida e quente e a Bretanha era úmida e fria.

 

Chegamos em Saint-Malo quase no fim da tarde. Não tivemos nenhum problema com o GPS que trabalhou direitinho. A cidade é composta por uma área cercada, chamada Intra-Muros, e a área externa, que é mais nova. Claro que escolhemos ficar dentro dos muros.

 

Saint-Malo é uma cidade monocromática. Praticamente todos os prédios são feitos da mesma pedra marrom com toques verdes dos musgos e líquens que recobrem quase tudo devido ao frio e à grande umidade da região.

 

Deixamos as coisas no lobby do hotel e fomos estacionar o carro. Dentro dos muros não há estacionamentos públicos e as ruas são estreitas, sem vagas. A recepcionista do hotel nos deu um mapa e nos explicou onde ficam os estacionamentos públicos, do lado de fora dos muros. Saímos e deixamos o carro no estacionamento que basicamente é uma área a céu aberto, à beira do cais, delimitada por uma cerca. Paga-se um valor por horas e é tudo automatizado.

 

Adentramos os muros a pé e fomos para o hotel fazer o check-in. Ficamos no Hôtel du Louvre, que fica em um prédio antigo, mas que por dentro está todo novo. Por uma noite em uma suíte confortável pagamos 65,75 Euros (R$ 164,37). Nosso quarto ficava no quinto andar (ainda bem que eles tem elevador). Deixamos as coisas e saímos outra vez para conhecer a cidade.

 

Saint-Malo é um lugar incrível! Parece que voltamos no tempo. Apesar da região já ser habitada desde tempos remotos por celtas, gauleses e romanos, a cidade como conhecemos hoje surgiu no séc. XII e foi se fortificando para se proteger de ataques do Reino da França. Isso porque a Bretanha não fazia parte da França e tinha muitas ligações com a Grã-Bretanha, especificamente com a região do atual País de Gales, de onde veio Saint MacLow, que deu nome à cidade. Os ingleses sempre cobiçaram a Bretanha.

 

Saint-Malo chegou a ser até mesmo uma cidade-estado independente. Apesar de ter vivido vários períodos sob dominação francesa, foi somente a partir de 1593 é que a Bretanha e de Saint-Malo foram definitivamente anexados ao Reino da França.

 

Mas foi com a descoberta da América e das rotas para as Índias, no séc. XVI, que essa cidade portuária viveu sua grande transformação. Com a instalação de muitos armadores (donos de navios mercantes), a cidade Saint-Malo se tornou um dos mais importantes portos da França e um grande entreposto comercial.

 

Mais tarde, nos sécs. XVII e XVIII, Saint-Malo teve sua era de ouro. Nessa época a cidade se tornou a principal base dos corsários franceses, sendo daí que vem o seu apelido de Cité Corsaire. Basicamente os corsários eram piratas que tinham a chancela real para atuar nos mares como verdadeiros bandidos que atormentavam a vida das marinhas dos países rivais. Essa era uma política de Estado voltada para enfraquecer o poder naval das outras potencias europeias.

 

Quem mais sofreu com a atuação dos corsários franceses pelos mares do mundo foi a Inglaterra, a Holanda e a Espanha, as então maiores potencias marítimas mundiais. Mesmo Portugal teve seus problemas com os corsários franceses. O produto dos saques das cidades colonias desses países e dos ataques às suas esquadras carregadas de mercadorias e tesouros valiosos não ia diretamente para os cofres do Rei da França, mas ao menos deixava de ir para os cofres dos outros monarcas.

 

Nessa época a cidade era bastante perigosa pois os corsários, apesar de serem ‘apoiados’ pelo poder central, não respeitavam ninguém, nem mesmo o Rei, e Saint-Malo era como uma cidade sem lei, governada e protegida pelos próprios corsários. Talvez apenas a igreja tivesse algum respeito por parte dos corsários. Não é a toa que a torre pontiaguda da catedral de Saint-Vincent pode ser vista de qualquer lugar da cidade, ocupando uma posição central dentro dos muros.

 

A temperatura média em Saint-Malo ao longo do ano varia entre 5° C em fevereiro e 17° C em julho. Apesar da temperatura ainda ser baixa e a umidade grande, no verão a cidade ferve com as praias lotadas. A população sobe de 50 mil para 200 mil habitantes. Por isso a cidade tem uma boa infraestrutura turística, com muitos hoteis e restaurantes.

 

Mas, para mim, é agora, com o frio e o tempo completamente fechado, que a Saint-Malo mais apresenta a sua identidade bretã. Aliás, a Bretanha possui uma identidade quase nacional dentro da França. Todos os habitantes falam francês, mas eles se orgulham muito de próprio dialeto, o bretão, e o sotaque forte dos habitantes da região é reconhecido por toda a França. Os bretões costumam se referir à Bretanha como um país.

 

Passeamos por toda Intra-Muros, passando por ruelas e também caminhando por cima dos altos muros que beiram o mar. Em uma das ruas paramos para provar o doce típico da Bretanha, o kouign amann. É um doce folhado, enrolado e caramelado que pode vir com doce de maçã ou nutella em cima. É delicioso e lembra muito um doce que eu comia quando era criança na cantina do colégio e que se chamava ‘orelha’.

 

A parte murada de Saint-Malo fica em uma ponta que avança sobre o mar. Originalmente a parte murada era uma ilha que depois foi ligada ao continente. Dos altos muros podemos avistar várias pequenas ilhas que circundam a cidade. Podemos chegar caminhando até elas quando a maré está baixa e algumas delas também são fortificadas.

 

Nem sempre o mar cobre as praias e bate nos muros como víamos nesse fim de tarde de maré alta. O movimento das marés é bastante sentido aqui em Saint-Malo e entre a maré baixa e a maré alta a diferença pode ser de até 14 metros! Em uma loja de souvenirs vimos cartões postais que mostravam ondas tão fortes que quando batiam nos altos muros quase os cobriam. O senhor da loja me disse que esse fenômeno só acontece em uma determinada época do ano quando as maiores marés coincidem com fortes ventos. Nessa época é até proibido passear nos muros pois existe o risco de ser arrastado para o mar. Agora as ondas estavam bem mais comportadas mais já cobriam partes dos caminhos à beira mar.

 

Já estava escurecendo quando voltamos para o hotel para descansar um pouco. Mais tarde levantamos, tomamos banho e saímos outra vez para jantar em um dos vários restaurantes que vimos. No hotel, a recepcionista nos indicou alguns restaurantes de frutos do mar que, como não podia deixar de ser, são a especialidade da cozinha local.

 

Um deles se chamava Jacques Cartier, o nome do conquistador francês que saiu de Saint-Malo em 1535 para descobrir o Canadá. O restaurante parecia muito bom, mas já estava fechando. Então seguimos para um outro restaurante que tínhamos visto mais cedo, o Café de L’Ouest, que fica na Place Chateaubriand. Começou a chuviscar e a esfriar ainda mais. O restaurante estava vazio e lá dentro os aquecedores estavam no máximo. Isso é uma coisa interessante. Parece que quem mora no frio, ao invés de se acostumar com ele parece que fica mais friorento ainda!

 

O restaurante parecia ser muito bom. O cardápio era enorme e muito variado. Para começar pedimos ostras grandes e, como entrada a Dani pediu tartare de thon à la thaitienne e eu pedi mille feuilles de homard breton et avocat sur une note de curry. Como prato principal a Dani pediu maquereaux grillés avec pommes de terre sautées et moutarde ancienne e eu pedi risoto de Saint-Jacques au basilico et parmigiano. Os pratos do Café de L’Ouest são verdadeiras obras de arte e o atendimento é muito bom. No fim desse verdadeiro banquete, a conta ficou em 86,90 Euros (R$ 217,25), com vinho e água. Valeu a pena. Estava tudo delicioso.

 

Quando fomos embora a chuva ficou ainda mais forte o que deixou as ruas desertas. Tudo estava fechando, inclusive o nosso restaurante. Resolvemos encerrar o dia também e voltar para o hotel. No dia seguinte íamos explorar um pouco mais essas cidade incrível que é Saint-Malo.

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Vigésimo sexto dia. Quinta-feira, 27 de outubro de 2011.

 

Como a nossa diária não incluía café da manhã, não nos apressamos para levantar. Na véspera tínhamos visto que o Café de L’Ouest também servia café da manhã e então fomos para lá. Assim como com o almoço, não é bom demorar muito para ir tomar café pois se passar muito da hora eles não servem mais.

 

Pedimos um Petit Déjeuner que vinha com pão, croissant, geleias, manteiga e chocolate quente. Ainda pedimos dois cafés au lait e dois omelettes jambon fromage. Muito bom. Ficamos mais do que satisfeitos com o que foi praticamente um almoço. A conta saiu por 36 Euros (R$ 90).

 

Depois, voltamos ao hotel e fizemos logo o nosso check-out, levando as coisas para o carro. Assim estávamos livres para andar pela cidade sem a preocupação de voltar para desocupar o quarto. A parte Intra-Muros de Saint-Malo é bem pequena e é muito fácil se localizar, mesmo sem mapa. É possível dar uma volta completa na cidade acompanhando os muros em pouco tempo.

 

Nem parece, mas quase toda a cidade velha de Saint-Malo é uma reconstrução. Apesar da antiga e rica história que a cidade tem e que eu contei no post anterior, cerca de 80% da zona Intra-Muros teve que ser reconstruída depois da destruição causada durante a Segunda Guerra Mundial, quando a cidade foi ocupada pelos nazistas e tirá-los de lá exigiu muitas toneladas de bombas.

 

As muralhas são praticamente a única parte que guarda o traço medieval original. Os prédios foram reconstruídos com fachadas em estilos arquitetônicos dos sécs. XVIII e XIX, mas com as pedras originais e os mesmos telhados cinzas. Com o tempo, o clima implacável da Bretanha se encarregou de cobrir tudo de musgo e líquens, dando esse ar uniforme à cidade. Mesmo sabendo que quase tudo é ‘novo’, é incrível como a cidade ainda nos remete ao passado.

 

Saint-Malo é bem tranquila e não é uma cidade cheia de atrações (talvez no verão seja mais movimentado, quando é temporada de praia). Não há grandes museus nem monumentos. O melhor de Saint-Malo está na cidade em si, em caminhar pelas suas ruas e pelos seus muros admirando a paisagem.

 

A catedral de Saint-Vincent fica bem no meio da cidade e a sua torre pontiaguda pode ser vista no final de quase todas as ruas. Fomos até ela para ver se conseguíamos entrar.

 

A igreja original foi construída por volta do séc. XII. Ainda se pode ver os resquícios dos antigos estilos românico e gótico. Por dentro a igreja é simples, toda em pedra e muito escura. A fachada e os vitrais coloridos são novos e com desenhos geométricos, denunciando a reconstrução do pós-guerra.

 

Mas o mais interessante dessa catedral é a sua ligação com um período de ouro vivido pela cidade. Ali estão enterrados duas figuras históricas que nasceram e viveram em Saint-Malo e foram muito importantes para a França, para o Canadá e, quem diria, até para o Brasil!

 

Uma delas é Jacques Cartier. Esse navegador francês nasceu em Saint-Malo e, em 1535, partiu do porto da cidade em busca de um caminho para as Índias e acabou descobrindo o Canadá e tomando posse daquelas terras em nome do Rei da França. No chão da catedral há uma placa indicando o exato local onde ele se ajoelhou para receber a bênção do bispo antes da expedição do descobrimento. Quando eu e a Dani estivemos no Canadá, em 2010, passamos por Québec e pudemos constatar como ainda é forte a identidade francesa lá. Em Montréal e Ville de Québec, o descobridor Jacques Cartier é nome de avenidas, praças, pontes…

 

O outro ilustre filho de Saint-Malo que está enterrado na catedral, apesar de ser considerado heroi nacional na França, entrou para a história do Brasil como um vilão. Trata-se de René Duguay-Trouin, um dos maiores corsários da história. Esse pirata oficial, feito Almirante pelo Rei da França, participou de muitas campanhas contra as armadas espanhola, britânica, holandesa e portuguesa, atacando e saqueando também muitas das possessões coloniais desses países no séc. XVIII. O maior feito dele, também considerado ‘o último feito imortal da marinha de Luis XIV’, foi comandar a segunda invasão do Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1711. Com 17 navios e mais de 5.000 homens, René Duguay-Trouin saqueou e ocupou a maior e mais importante cidade brasileira da época por mais de um mês, levando com ele de volta para a França toneladas de ouro e prata brasileiros.

 

Saímos da Catedral e fomos passear pelos muros. Chegando lá encontramos uma paisagem totalmente diferente da que vimos na véspera. As águas não estavam batendo nos muros e podíamos ver uma grande faixa de areia. Com a maré baixa, pudemos atravessar a pé até as ilhas que ficam no entorno de Saint-Malo.

 

No caminho encontramos uma placa explicando os riscos de atravessar e ficar preso em uma das ilhas com a subida repentina da maré. Por segurança, o correto a fazer seria ficar na ilha e esperar a maré baixar outra vez, ou seja, umas 12 horas!

 

As principais ilhas na baía de Saint-Malo são a Petit-Bé e a Grand-Bé. Na Petit-Bé está o Fort Vauban, construído no séc. XVII para reforçar a defesa da cidade. Não fomos até ele pois a água ainda estava alta e o caminho não estava totalmente descoberto.

 

Fomos andando na areia da praia até a ilha Grand-Bé, que fica mais perto dos muros da cidade. Subimos até o topo e de lá tivemos uma vista total de Saint-Malo e suas grandes muralhas, além da vizinha ilha Petit-Bé. De lá também podemos ver a piscina que retém água do mar toda vez que a maré baixa. Tem até trampolim. É claro que com o frio que fazia ninguém se animava a dar um mergulho, mas ela deve ficar lotada no verão.

 

Depois de explorar toda a ilha e pegar muito vento, voltamos para a cidade e passeamos mais um pouco pelas muralhas. Passamos pelos portões principais e também pela marina onde ficam guardados centenas de barcos.

 

Era pouco mais de uma hora da tarde quando seguimos viagem rumo ao Mont Saint-Michel, onde íamos passar o resto da tarde. De Saint-Malo para lá são apenas 56 km, que percorremos em pouco mais de meia hora. Apesar de tão perto, o Mont Saint-Michel já fica na vizinha região da Normandia. Mas o clima úmido com céu fechado é o mesmo da Bretanha.

 

A primeira vista que temos da ilhota pontiaguda, ainda na estrada, é inesquecível. Acho que todo mundo que já viu uma foto desse lugar fica com vontade de conhecê-lo. O Mont Saint-Michel é um lugar que, no mínimo, desperta a nossa curiosidade. Com mais de 1.300 anos de uma história que mistura fé e guerras em um cenário inóspito, chuvoso e frio, o imponente monastério-fortaleza medieval no alto da montanha impressiona.

 

A estrada que hoje leva até o portão de entrada, conectando a ilha ao continente, só foi construída no séc. XIX. Há muita discussão sobre sua remoção, o que tornaria o Mont Saint-Michel novamente inacessível por terra durante a maré alta. Segundo os especialistas, a construção do caminho mudou o curso natural das águas e está provocando o assoreamento da baía. A vegetação já avança a partir do continente e há risco do Mont Saint-Michel um dia deixar de ser uma ilha.

 

A água da maré cheia circunda todo o Mont Saint-Michel. Mas, assim como acontece em Saint-Malo, a diferença entre as marés é muito grande, chegando a 15 metros. É a maior diferença de marés da Europa e quando a maré está baixa todo o entorno fica seco e é possível inclusive caminhar na areia. O perigo é ser pego de surpresa pela subida das águas que, segundo um dito local, é ‘mais rápida que um cavalo em disparada’.

 

Deixamos o carro em um dos estacionamentos ao longo da estrada principal (6 Euros/R$15 a diária). Há muitas vagas, tanto na estrada principal, quanto nas áreas laterais. O problema é que apenas a estrada principal é elevada o suficiente para não ser encoberta pelas águas da maré alta.

 

O perigo é tão real que há placas indicando o horário em que a maré sobe e inunda a área dos estacionamentos laterais ao longo da estrada. Para a nossa sorte, a maré estava bem baixa e a água só chegaria onde estacionamos o carro às 7 horas da noite. Portanto, tínhamos tempo de sobra para visitar o Mont Saint-Michel com tranquilidade.

 

Mais uma vez chegamos à conclusão de que alugar um carro foi a melhor opção. Ficamos livres, sem preocupação com a volta por meio de transporte público. A maioria das pessoas que vem de Paris para visitar o Mont Saint-Michel pega o TGV (Train à Grande Vitesse, o trem-bala francês) na Gare de Montparnasse até Rennes (2 horas de viagem) e de lá pega um ônibus para o Mont Saint-Michel (mais 1 hora). A cidade mais próxima é Pontorson, que fica a 9 km de distância e onde ficam muitos hoteis voltados para o turismo no Mont Saint-Michel.

 

Os séculos de peregrinação ao Mont Saint-Michel fizeram florescer, ainda durante a Idade Média, o pequeno vilarejo dentro dos muros. Para a Igreja Católica, São Miguel é o chefe do exército celestial, Arcanjo que julga as almas e lhes conduz (ou não) ao paraíso. A busca pela salvação fez do Mont Saint-Michel um dos mais importantes centros de peregrinação cristã da Europa durante a Idade Média, juntamente com Roma e Santiago de Compostela.

 

Depois de garantir muitas fotos com o Mont Saint-Michel ao fundo, resolvemos entrar. A impressão que temos é que estamos em um lugar cenográfico. A pequena vila dentro dos muros nos remete aos filmes épicos medievais.

 

Apesar de ser originalmente um ambiente religioso, a montanha também foi palco de muitas guerras e acabou por adquirir características militares também. Nos sécs. XIV e XV, em virtude de sua localização estratégica na foz do rio Couesnon, o Mont Saint-Michel foi fortificado com altas muralhas que cercam toda a ilha, transformando-a em uma fortaleza intransponível.

 

Durante a Guerra dos Cem Anos a montanha resistiu a nada menos que trinta anos de cerco inglês sem ser tomada, tornando-se o símbolo maior da resistência e da força da nação francesa. Uma das relíquias dessa época está exposta logo na entrada da rua que leva à abadia: um canhão de um navio de guerra inglês que atacou o Mont Saint-Michel em 1434.

 

Passear no Mont Saint-Michel é muito fácil. Há apenas uma rua que obviamente é só para pedestres. Todos os carros ficam fora dos muros. Essa rua circunda o monte sempre em subida, começando no portão de acesso e terminando na entrada da abadia. Não é uma subida difícil, mas há algumas escadarias grandes.

 

Ao longo dessa rua, tomada por uma multidão de turistas do mundo todo, há vários restaurantes, pequenos hoteis e incontáveis lojas de souvenirs. Os preços não são dos melhores e por isso só comprei cartões postais.

 

Conforme subimos a ladeira em direção à abadia, começamos a ter vistas de toda a baía de Saint-Michel. Não demorou muito e chegamos à entrada da abadia. O ingresso custa 9 Euros (R$ 22,50). Depois da bilheteria ainda há um grande caminho a percorrer até o terraço principal em frente a igreja, no alto da montanha.

 

A primeira igreja consagrada ao Arcanjo São Miguel foi construída na ilha no início do séc. VIII. No ano 966, por vontade do Duque da Normandia, os primeiros monges beneditinos se instalaram lá e logo em seguida iniciaram a construção da abadia no alto do rochedo.

 

A abadia foi se expandindo nos séculos seguintes e se tornou um importante centro de estudos teológicos. Logo depois da conquista e anexação da Normandia pelo Reino da França, no séc. XIII, o rei francês fez grandes doações para as obras que ainda não tinham terminado. Elementos arquitetônicos em estilo gótico foram sendo acrescentados ao predominante traçado românico.

 

Em frente a igreja há um amplo terraço com vista para toda a baía de Saint-Michel. É uma planície enorme sem nada no horizonte. Com a maré baixa, como nesse dia, vários grupos saem para caminhar na areia. De lá de cima também podemos ver todo o estacionamento ao longo da estrada que liga a ilha ao continente.

 

Depois de ver a igreja, entramos na parte da abadia onde viviam os monges. Uma das partes mais bonitas é o claustro, com sua colunata dupla. O interior da abadia é bastante escuro, frio e úmido. Os grandes salões estão em sua maioria vazios, quase sem nenhuma mobília. Também não há nenhuma decoração luxuosa, como exigia a rígida disciplina dos monges beneditinos.

 

Os enormes espaços com pesados tetos de pedra sustentados por esguias colunas góticas são conectados por escadas e passagens estreitas. Como a planta da abadia se adaptou ao formato do rochedo, não é muito fácil entender a disposição dos espaços.

 

Com a Revolução Francesa, os beneditinos foram expulsos da abadia, que se tornou uma prisão. Por incrível que pareça, o fato de ter sido instalada ali uma prisão, diante das circunstâncias revolucionárias, foi bom. A outra opção seria a demolição! Só em 1966 os monges beneditinos voltaram ao Mont Saint-Michel, retomando sua original vocação religiosa. Desde 2001 a Fraternidade Monástica de Jerusalém é responsável pela administração da abadia e pelas celebrações religiosas.

 

A loja na saída da abadia é grande, mas os preços e a variedade não são muito bons. Quando saímos da abadia estávamos mortos de fome e sede. Já era mais de 5 horas da tarde e só estávamos com o café da manhã que tomamos em Saint-Malo. Na descida passamos outra vez pela única rua da ilha, mas deixamos para olhar as lojas depois de comer alguma coisa.

 

Devido ao grande fluxo de turistas a toda hora do dia, aqui sempre há opções de restaurantes abertos, mesmo fora do horário normal de almoço. Paramos em um restaurante e pedimos o que achamos que seria mais fácil e rápido: pizza! Pedimos também suco e refrigerante. A conta saiu por 37 Euros (R$ 92,50).

 

Depois de uma rápida olhada nas lojas de souvenirs tivemos que nos despedir do Mont Saint-Michel. Já estava começando a escurecer e, além da maré estar subindo, ainda tínhamos um longo caminho pela frente até Rouen, onde íamos dormir.

 

Não é a toa que o Mont Saint-Michel é um dos lugares mais visitados da França, recebendo mais de três milhões de pessoas por ano. Religião, história, arquitetura, clima, paisagem… parece que tudo conspira para manter ali uma atmosfera única. Sem dúvida é um dos lugares mais marcantes de todos os que visitamos na França.

 

Para quem está planejando a viagem é bom visitar o site oficial do Mont Saint-Michel para confirmar os preços e os horários.

 

Pegamos a estrada outra vez, já praticamente escuro. Esse foi o segundo trecho mais longo da viagem de carro pela França e a maior parte do tempo a chuva não deu trégua. Foram mais de 250 km que fizemos em pouco mais de três horas, com paradas nos pedágios (os valores variam de 3 Euros/R$ 7,50 a 13 Euros/R$ 32,50) e uma parada para abastecer o carro, tomar um café e esticar as pernas.

 

Chegamos em Rouen quase 10 horas da noite, muito cansados. Nesse dia não conhecemos nada. Praticamente só vimos de longe a enorme catedral e as luzes coloridas de um parque de diversões nas margens do rio Sena. Paramos em frente ao hotel, tiramos a bagagem e a Dani ficou fazendo o check-in enquanto eu fui deixar o carro em um estacionamento público quase ao lado do hotel.

 

Ficamos no Comfort Hôtel Rouen Alba, bem no centro, perto do rio, de frente para uma pracinha e com vista para a grande catedral. Fizemos a reserva pelo Booking.com. O quarto de casal era simples mas espaçoso, limpo, novo e com todas as comodidades, incluindo internet wi-fi gratuita. Duas diárias custaram só 100 Euros (R$ 250), sem café da manhã.

 

Depois que eu estacionei o carro, eu voltei para o hotel, nós subimos e fomos logo dormir. Tínhamos planejado duas noites na cidade e sabíamos que, descansando bem, teríamos bastante tempo para conhecer Rouen no outro dia.

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Vigésimo sétimo dia. Sexta-feira, 28 de outubro de 2011.

 

Ao abrir a janela pela manhã demos de cara com a emblemática catedral de Rouen. É verdade que tinha um prédio e um estacionamento na frente, mas mesmo assim é uma imagem marcante. Afinal, não é todo dia que acordamos de frente para uma obra como essa.

 

Nosso hotel não incluía café da manhã então saímos direto para passear. Fazia um dia bonito em Rouen, com céu aberto e uma temperatura agradável, em torno dos 16 graus.

 

Muita gente vem à Normandia em busca das praias onde, na Segunda Guerra Mundial, as tropas aliadas desembarcaram no Dia D, dando o pontapé inicial da operação Overlord, que libertou a França do domínio nazista. A operação Overlord foi a maior invasão marítima da história e resultou em mais de 300 mil mortes. Nas cidades da região há vários cemitérios e museus alusivos aos eventos da guerra. Não visitamos esses pontos pois demos preferência para a capital histórica e principal cidade da Normandia, Rouen.

 

Com origens remotas em povoações gaulesas, a cidade foi oficialmente fundada pelos romanos, no séc. I d.C. Já na Idade Média, no séc. IX, Rouen foi invadida pelos Vikings (Normandos). O rei da França, Carlos III, percebendo que não conseguiria manter sua soberania no baixo Sena, cedeu aos Vikings e a região passou a se chamar Normandia. O chefe Viking, Rollo, jurou lealdade ao rei da França, converteu-se ao Cristianismo e tornou-se o primeiro Duque da Normandia.

 

Mais tarde, Guilherme, o Conquistador, Duque da Normandia no séc. XI, invadiu a Inglaterra, associando a Normandia continental aos domínios normandos nas ilhas britânicas. Apesar de inúmeras guerras, incêndios e da peste negra, a cidade prosperou como um importante centro comercial no rio Sena, rivalizando até mesmo com Paris.

 

Só em 1204 Rouen passou a fazer parte do Reino da França outra vez, quando a Normandia foi conquistada por Filipe II, rei da França. Durante a Guerra dos Cem Anos (1340 a 1453), foram travadas intermináveis batalhas entre duas dinastias (uma de origem anglo-normanda e outra de origem francesa). Em jogo estavam os tronos inglês e francês. Em 1419 Rouen chegou a ser invadida pelos ingleses.

 

Os séculos seguintes foram de relativa paz e prosperidade vinda do comércio, da pesca e dos tecidos. A cidade também teve papel importante na colonização de Québec, a parte francesa do Canadá, que recebeu muitos imigrantes vindos de Rouen.

 

Hoje Rouen é uma cidade grande para os padrões franceses, com cerca de 600 mil habitantes na região metropolitana. Mesmo assim, o centro histórico, que é onde se concentram as atrações, é bem compacto e podemos visitar tudo a pé e em um mesmo dia.

 

O centro é quase todo pedestralizado e formado por ruelas sinuosas e movimentadas, cheias de comércio. Apesar de toda a história de destruição que pontua o passado da cidade, o bairro antigo está bem conservado e apresenta quarteirões inteiros de casas medievais com as vigas de madeira aparentes na fachada, tradicionais na região.

 

Nessas ruazinhas há muitos restaurantes, bares e lojas. Um dos pontos mais conhecidos do centro é o famoso Gros Horloge, o grande relógio gótico decorado que fica em cima de um arco que liga duas ruas. É quase impossível caminhar pelo centro sem encontrá-lo alguma hora.

 

Entre as lojas, uma delas chamou logo a atenção da Dani. Les Macarons de Grand Mère Auzou é uma loja regional especialista no doce mais gostoso que comemos na viagem toda, o macaron. Compramos uma caixinha com sabores variados e guardamos para comer depois.

 

Passear pelo centro de Rouen é muito agradável. Há feiras de flores com floristas fazendo arranjos na hora, parquinhos para as crianças e a tranquilidade de ruas sem tráfego pesado de veículos. Tudo isso emoldurado pelo casario medieval. Na principal praça da cidade, a Place du Vieux Marché (Praça do Antigo Mercado), encontramos uma igreja moderna que destoa do entorno antigo. É a Église de Sainte Jeanne D’Arc.

 

Nascida na região do Vale do Loire, Joana D’Arc, de origem camponesa e pobre, foi a guerreira virgem e abençoada que liderou as tropas francesas contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos vencendo batalhas atrás de batalhas. Seus feitos ficaram famosos na época e o povo começou a acreditar que realmente Deus estava ao lado dela.

 

Em uma dessas campanhas militares Joana D’Arc foi capturada pelos exércitos aliados aos ingleses e levada a Rouen, então sob controle inglês. Foi então ‘julgada’ pela Igreja acusada de assassinato, heresia e bruxaria. Condenada, às 9 horas da manhã do dia 30 de maio de 1431, aos 19 anos, Joana D’Arc foi queimada viva em plena Place du Vieux Marché, no exato lugar onde hoje está sua igreja. Suas cinzas foram jogadas no rio Sena, que corta a cidade.

 

A igreja é de arquitetura moderna, por dentro e por fora. Vale a pena conhecer pela representatividade, mas não é das igrejas mais bonitas da França. O que chama mais a atenção sem dúvida são os vitrais. Eles foram retirados de uma outra igreja antiga que já não existe mais, sendo adaptados à nova construção.

 

Felizmente Joana D’Arc foi historicamente e religiosamente reabilitada. O Papa Calisto III, inocentou a heroína ainda em 1456, anulando o processo eclesiástico por vícios no conteúdo e na forma. Depois de muito tempo esquecida pelos livros de história, com o surgimento do monarquismo pós-Revolução Francesa e, mais tarde, do nacionalismo do séc. XIX, a história da guerreira patriota foi reavivada e ela foi elevada à categoria de heroína nacional. Em 1909 foi beatificada. Em 1920 o Papa Bento XV a canonizou e a nomeou santa padroeira da França.

 

Quando saímos da igreja, passamos no mercado ao lado, o Halle du Vieux Marché, que também é um prédio bem moderno, no mesmo estilo da igreja. Dentro há diversas lojinhas com os melhores ingredientes da região: verduras, queijos, frutas, carnes, peixes e especiarias. Vale a pena dar uma olhada.

 

Olhar toda essa comida nos fez lembrar que não tínhamos tomado café da manhã e nos deu fome. Resolvemos ir logo almoçar. Escolhemos um restaurante arrumadinho na própria Place du Vieux Marché, o Carpe Diem Café.

 

Pedimos salmão defumado com fois gras e torradas de entrada. Como pratos principais eu pedi entrecôte au sauce camembert (bife de costela com molho de queijo camembert) e a Dani pediu escalope de dinde a la normande (escalope de peru com molho de creme e cogumelos). De sobremesa pedimos pomme au four à la crème d’amandes (maçã ao forno com creme de amêndoas) e o melhor crême brûlée que nós já comemos. Tudo isso mais bebidas saiu por 58,80 Euros (R$ 147). O restaurante é bom e o atendimento é simpático. Recomendo.

 

Depois desse almoço farto e delicioso fomos nos arrastando conhecer os dois maiores monumentos góticos de Rouen: o Palácio da Justiça e, claro, a Catedral.

 

A construção do Palácio da Justiça data de 1499. A rebuscadíssima estrutura em estilo gótico, cheia de gárgulas, espirais e estatuária é uma das melhores amostras da arquitetura gótica francesa do final da Idade Média. É ainda mais significante por se tratar de uma construção civil e não religiosa.

 

Os bombardeios ocorridos em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, que precederam a invasão aliada da Normandia então ocupada pelos nazistas, danificaram muito o prédio. Em 1946 as obras de restauração começaram. O prédio já foi reinaugurado mas até hoje ainda são feitos alguns reparos e reconstituições de partes das esculturas da fachada que foram perdidas. Marcas de tiros ainda podem ser vistas nas paredes de pedra.

 

Seguimos caminhando rumo à Catedral de Rouen e passamos mais uma vez pelo Gros Horloge, sempre cercado de turistas tirando fotos.

 

A Catedral gótica é sem dúvida o ponto alto da cidade. É o grande símbolo de uma época áurea para Rouen e para a Igreja Católica. Há evidências de que no local já havia uma igreja desde o séc. VI. Destruída com as invasões normandas, a igreja primitiva foi substituída por uma catedral em estilo românico. A atual Catedral de Notre-Dame de Rouen foi construída entre 1201 e 1514 e está entre as mais belas catedrais góticas da França.

 

As proporções dessa igreja impressionam. Com mais de 60 metros de largura fica difícil conseguir tirar uma foto da fachada inteira, ainda mais porque a praça em frente à Catedral não é muito grande.

 

A torre mais alta, conhecida por ‘flecha’ ou ‘agulha’ mede 151 metros de altura e na época em que ficou pronta tornou essa Catedral a construção mais alta do mundo. Até hoje, a Catedral de Notre-Dame de Rouen é a mais alta igreja da França.

 

As duas torres da fachada principal são diferentes. Aliás, a fachada toda é completamente assimétrica. Toda entalhada, a Catedral se revela um trabalho único. Em uma época em que a maioria da população era analfabeta, as imagens serviam para contar histórias inteiras. Na fachada há muitos nichos para imagens santos e muitos deles estão vazios pois as peças estão em restauro. Desde a Segunda Guerra Mundial, quando a Catedral sofreu grandes danos, os trabalhos de restauração são contínuos e algumas partes estão bem escurecidas, contrastando com as partes já renovadas.

 

Por dentro a Catedral de Notre-Dame de Rouen não é tão detalhada quanto por fora e predominam as linhas retas. Nem por isso o interior é menos grandioso.

 

Claude Monet, o pintor impressionista que morou grande parte da sua vida em Giverny, uma pequena vila na Normandia no meio do caminho entre Rouen e Paris, retratou a Catedral de Rouen em vários quadros, explorando as diferentes tonalidades da luz na detalhada fachada ao longo do dia.

 

Não há cobrança de ingresso para visitar a Catedral. Era mais ou menos 4 e meia da tarde quando saímos e percebemos que estávamos muito cansados. Resolvemos ir para o hotel, descansar um pouco e sair outra vez à noite.

 

No hotel, lembramos dos macarons que compramos pela manhã. É difícil até explicar como é gostoso. Incrível como os sabores ficam reconhecíveis. Café, chocolate, pistache, baunilha, morango, uva, nozes, caramelo, rosas… tudo natural, sem aditivo nenhum. Comemos os 14 macarons sem nem perceber.

 

Quando acordamos já estava escuro. Saímos e fomos caminhando na direção das margens do rio Sena. Ao ver as luzes coloridas do parque de diversões, resolvemos que nossa noite seria por lá mesmo. E não poderíamos ter acertado mais!

 

Atravessamos o rio e para entrar no parque tivemos que passar por detectores de metal. Notamos que praticamente todos que estavam no parque eram moradores da cidade, ou seja, aquela obviamente não era uma atração turística. Ali vimos que os franceses também podem ser pessoas simples, quebrando o estereótipo de chics e refinados.

 

Havia muitas opções de brinquedos, estandes de jogos e de comidas. A Dani nem cogita ir em um brinquedo mais radical. Mas aí vimos um trem fantasma. Um carrinho vinha saindo com um garotinho de uns quatro anos gritando desesperadamente e agarrado ao irmão mais velho que não parava de rir. Achamos a cena hilária e resolvemos ir também.

 

O ingresso custava 2 Euros (R$ 5). Quase não coubemos no carrinho (que é feito para crianças e não para dois adultos que não tiveram infância). Chegamos a ficar nervosos a espera do carrinho começar a andar. Dentro tudo era escuro e até que as surpresas eram bem feitas. Os robôs de caveiras e monstros eram engraçados. Mas o destaque mesmo ficou por conta do cara que pegava na nossa cabeça e depois encostava uma moto-serra trepidando na nossa perna. Sabíamos que era de mentira, mas o reflexo era inevitável.

 

Acho que a última vez que eu tinha andado em um trem fantasma tinha sido há mais de 20 anos! Achamos muito legal! Saímos às gargalhadas. Continuamos passeando pelo parque que estava lotado. Para um parque itinerante os brinquedos pareciam ser até bastante seguros e tudo era muito organizado.

 

Paramos para comer em uma barraca de sanduíches. A Dani pediu um com salsicha alemã e eu finalmente resolvi provar o kebab, o famoso sanduíche árabe com aquela carne que fica rodando no espeto (tem gente que detesta, mas esse estava muito bom!). Os dois sanduíches vieram com batatas fritas. Tudo saiu por uns 15 Euros (R$ 37,50), com refrigerantes.

 

Depois do lanche voltamos a caminhar ao longo do parque que parecia não acabar, era enorme. Aí encontramos outro trem fantasma, mais ‘moderno’ que o outro. E lá fomos nós outra vez. Esse era um pouco mais caro, 3 Euros (R$ 7,50), mas foi também muito legal. Até pegamos alguns sustos de verdade!

 

Ficamos no parque por mais de duas horas. Por fim, resolvemos provar um doce presente em quase todas as barraquinhas coloridas, o guimauve. A massa fica pendurada em umas ‘árvores’ escorrendo lentamente até o doceiro dobrá-la e pendurá-la de novo. Não sei se tem um nome para essa guloseima em português, mas na França ele é muito popular nesses parques.

 

Pedimos um palito duplo (3 Euros/R$ 7,50) com sabor de banana e morango. Sentimos o gosto da infância. Parece muito com uma bala que eu comia quando era criança e que não existe mais, chamada xaxa. Vendia na porta do colégio e era embalado em um papel colorido com a cara de um gato.

 

Fomos embora mais de 10 horas da noite. No outro dia não passearíamos mais pela cidade. Nosso plano era acordar, fazer o check-out e seguir para Giverny e depois para Paris, onde íamos dormir.

 

Em Rouen, em um mesmo dia, fomos à uma Catedral histórica, à um parquinho de diversões itinerante e ainda comemos muito bem. O que dizer da capital da Normandia? Nós adoramos!

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Vigésimo oitavo dia. Sábado, 29 de outubro de 2011.

 

Esse seria o nosso último dia de passeio pelo interior da França. Deixaríamos Rouen rumo a Giverny, onde passaríamos a tarde visitando os Jardins de Claude Monet. De lá voltaríamos à Paris para a reta final da nossa viagem.

 

Acordamos por volta das 10 e meia da manhã. Arrumamos nossas coisas e eu desci para pegar o carro no estacionamento. Estacionei em frente ao hotel, colocamos a bagagem e entramos para fazer o check-out.

 

Sempre levamos com a gente uma pasta com todos os comprovantes das reservas, só para garantir. O comprovante desse hotel em Rouen dizia claramente que o valor seria debitado no momento da reserva. Então estávamos tranquilos. Seria só entregar as chaves do quarto e ir embora.

 

O problema é que, segundo o recepcionista, a estadia ainda não tinha sido paga. Nós mostramos o comprovante e ele disse que era um engano do Booking.com, site onde fizemos a reserva. Os ânimos começaram a se exaltar. Para mim e para a Dani, aquele papel era como se fosse um recibo e portanto tinha que ser aceito como prova do pagamento integral da estadia no momento da reserva. Tanto era assim que aquela reserva não dava direito a cancelamento gratuito. O recepcionista chegou a dizer que não era ladrão e eu respondi que nós também não! Aí ele ligou para o gerente geral que confirmou que as reservas do Booking.com não eram pagas com antecedência. Foi então que ele perguntou se eu tinha a fatura do cartão comprovando o débito do valor. Claro que eu não tinha.

 

Por fim, desistimos da discussão e pagamos os 100 Euros (R$ 250,00). Saímos do hotel praguejando o recepcionista, aborrecidos com a discussão e mais ainda por ter a certeza de que saímos no prejuízo. (Só quando chegamos no Brasil é que percebemos que o recepcionista estava certo. Nosso erro foi confiar no comprovante de reserva sem confirmar o débito no cartão antes de embarcar. Verificando as faturas do meu cartão constatei que o valor não tinha sido debitado mesmo… prezado recepcionista francês, se você estiver lendo este relato, o que eu acho muito difícil, aceite nossas desculpas!).

 

Ainda indignados e nos achando cheios de razão, seguimos para Giverny. De Rouen para lá são cerca de 70 km rumo ao sul, trecho que percorremos em pouco mais de uma hora. No caminho nós paramos em um posto de gasolina para tomar o café da manhã. Os postos de gasolina de beira de estrada na França têm lojas de conveniência bastante completas, que são quase uns supermercados.

 

Compramos sanduíches naturais, um de frango com queijo e outro de bacon. Compramos também iogurtes (que aqui são excepcionalmente bons, como todos os derivados do leite) e a Dani pegou um café em uma máquina de bebidas automática que vende todo tipo de cafés, achocolatados, chás e sopas. Comemos no balcão mesmo e logo seguimos viagem.

 

Depois de passar por um pedágio de 3,40 Euros (R$ 8,50), saímos da autoestrada e percorremos um bom trecho em estradas menores, passando por vilarejos cheios de casas de pedra.

 

Giverny é uma pequena vila na região da Normandia e que tem cerca de 500 habitantes. O vilarejo, que tem origens na Idade Média, ficou mundialmente conhecido através das pinturas de Claude Monet, pintor francês que construiu sua casa e magníficos jardins ali, transformando o lugar em um ponto de peregrinação para os amantes do Impressionismo.

 

Chegamos em Giverny por volta das 13:00 horas. Estacionei o carro na rua da casa do famoso pintor. Não há mais do que umas quinze ruas na cidade. A principal delas é a Rue Claude Monet, claro. A maioria das construções do vilarejo é de casas bem antigas feitas de pedra. Muitas estavam fechadas, acredito que fossem casas de campo pois estavam bem cuidadas. Algumas delas ficam cobertas por trepadeiras.

 

Fomos direto visitar os mundialmente conhecidos jardins que serviram de inspiração ao pintor impressionista. Hoje a casa e os jardins são administrados pela Fondation Claude Monet. O ingresso, com acesso à toda a propriedade, custou 5 Euros (R$ 12,50), mas o preço muda conforme a época. E os horários também. É bom conferir tudo no site oficial da fundação antes de ir.

 

Monet viveu nesta casa por 43 anos, de 1883 até sua morte em 1926. Em 1980 a propriedade foi aberta à visitação pública e está tudo muito bem conservado.

 

Um dos maiores impressionistas, Monet foi um pioneiro na busca de retratar nas telas o que os olhos viam ao primeiro olhar. Seu objetivo era captar as cores, as luzes, as primeiras impressões. Por isso suas obras são compostas por pinceladas quase desleixadas, sem excessiva preocupação com a precisão do traço e com os detalhes.

 

As paisagens são o forte de Monet e com certeza não há paisagem melhor para um pintor impressionista que os próprios jardins criados por Monet ao redor de sua casa. Pessoalmente não sei dizer se esse lugar foi mais inspiração para o trabalho ou trabalho da inspiração deste grande mestre. Os jardins de Monet em Giverny são por si sós uma verdadeira obra de arte.

 

A propriedade é dividida ao meio por uma rua. De um lado fica a casa, o atelier e um jardim simétrico e florido chamado Clos Normand. Como era outono, o Clos Normand não estava em seu auge. Em alguns canteiros nem havia flores. Vimos muitas fotos de como fica na primavera e realmente fica muito colorido com muitas flores. Mesmo assim estava bonito. Há uma jardinagem específica para cada época do ano, com exceção do inverno, quando a propriedade fica fechada.

 

Antes de seguir para o outro lado fomos visitar a casa por dentro. Temos acesso aos dois andares, cozinha, sala de estar, sala de jantar, quartos e banheiros. Na verdade a casa, apesar de bastante espaçosa, é até bem simples, não há grandes luxos. A decoração é sem exageros ou excentricidades.

 

Monet era admirador da arte oriental e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a coleção pessoal de gravuras japonesas tradicionais que está espalhada pela casa. Também há alguns quadros do pintor em uma das salas. Eu e a Dani já tínhamos planejado visitar o Musée de L’Orangerie e o Musée D’Orsay assim que voltássemos a Paris. Nesses dois museus as principais obras de Monet estão em destaque.

 

Do outro lado da rua fica o Jardin D’Eau (Jardim das Águas), onde fica o lago das vitórias-régias, abastecido por um riacho que passa por dentro do terreno. Essa parte da propriedade foi comprada por Monet somente em 1895. Há um túnel que passa embaixo da rua e liga os dois terrenos.

 

O lago das vitórias-régias (em francês, nympheas) é, para mim, a imagem mais emblemática de todo o jardim. É quase impossível não associar imediatamente a paisagem que vemos com os quadros famosos de Monet que retratam aquela mesma cena. A ponte curva, tradicional nos jardins japoneses, denuncia a admiração de Monet pela cultura oriental e tem presença constante nos quadros dele.

 

Apesar da falta de flores, a variedade das cores das folhas das árvores era impressionante. Durante nossa visita o tempo estava bem fechado e em alguns momentos chegou a chuviscar. Mas mesmo assim duas foram as vantagens de visitar esse lugar no outono e não na primavera. A primeira é justamente a cor das árvores.

 

A segunda vantagem é que o lugar fica mais tranquilo do que na primavera, quando é alta estação e há muito mais visitantes. Nesse dia conseguíamos até tirar fotos só com a paisagem, sem ninguém aparecendo, captando a tranquilidade dos tempos em que o artista ainda morava ali.

 

O maior objetivo de Monet ao criar o seu próprio jardim inspirador era observar e reproduzir os diferentes efeitos da luz natural sobre as formas e as cores da natureza ao longo do tempo. De Giverny saíram séries de quadros retratando as mesmas paisagens em vários momentos do dia e em várias épocas do ano.

 

Na saída dos jardins passamos no atelier montado pelo artista para abrigar suas obras, o Atelier des Nympheas. Agora ali funciona a lojinha da fundação e há muitos produtos com a temática das obras de Monet. A Dani comprou um jogo americano, daqueles de pôr na mesa, com reproduções de obras de artistas impressionistas (10 Euros/R$ 25).

 

Confesso que a ideia de vir conhecer esse lugar não me animava muito porque eu achava que fora da primavera não valeria a pena. Se não fosse a insistência da Dani talvez nem tivéssemos vindo. Hoje eu tenho a certeza de que valeu muito a pena. Se na primavera as flores são a atração principal, no outono o espetáculo fica por contas das folhas das árvores. Tranquilamente passamos uma tarde ali. É um passeio imperdível.

 

Saindo dos jardins de Monet fomos almoçar. Há vários restaurantes e pequenos hotéis em Giverny. Escolhemos um restaurante arrumadinho que fica na própria Rue Claude Monet, o Terra Café.

 

A Dani pediu um plat du jour, que era um filé com molho madeira, acompanhado de arroz e salada verde. Eu pedi um escalope de vitela com batas fritas e salada verde. De sobremesa eu pedi um sorvete de maçã com calvados, mas tive que acabar trocando com a torta de queijo da Dani. É que eu não sabia exatamente o que era calvados (uma espécie de cachaça de maçã típica da região da Normadia) e quando dei a primeira colherada percebi que era muito forte. Depois do teste do bafômetro que eu tive que fazer no caminho para Saint-Malo eu preferi não arriscar. A conta saiu por 55 Euros (R$ 137,50).

 

Do restaurante fomos ver uma igrejinha dedicada a Santa Radegonde que ficava ali perto. A igreja é bastante antiga, data do séc. XII, mas é também bastante simples. Atrás dessa igreja está o túmulo da família de Claude Monet, onde ele e vários parentes estão sepultados.

 

Já era quase 5 horas da tarde quando fomos embora de Giverny. O caminho que o GPS indicava estava interditado por causa de obras e o vilarejo é tão pequeno que ele não conseguia encontrar outra rota. O jeito foi pedir informação para um morador de um sítio que nos indicou por onde ir para chegar à estrada. Passamos até por estradas de terra no meio do nada até que o GPS conseguiu se reprogramar.

 

De Giverny para Paris foram mais 75 km que percorremos em mais ou menos uma hora e meia. Ainda passamos por mais dois pedágios, um de 2,50 Euros (R$ 6,25) e outro de 7,80 Euros (R$ 19,50). Quanto mais perto de Paris chegávamos, mais o trânsito fica pesado. Passamos até pela rotatória em volta do Arco do Triunfo.

 

Paramos o carro em frente ao hotel e deixamos logo a bagagem lá. Estávamos em cima da hora para devolver o carro e tivemos que deixar o check-in para depois. A missão principal agora era encontrar um posto de gasolina próximo da Gare du Nord, onde tínhamos que entregar o carro com tanque cheio. Programamos o GPS e ele nos indicou um. Passamos duas vezes na frente até entender que o posto era dentro de um prédio, camuflado atrás de uma fachada antiga.

 

Depois de encher o tanque levamos o carro para o estacionamento subterrâneo da Gare du Nord e estacionamos na parte da Europcar. Depois subimos e entregamos a chave e o GPS no escritório. O recepcionista só agradeceu e guardou a chave e o GPS sem nem ver o carro. Prático e sem burocracia.

 

Essa foi a primeira vez que eu aluguei carro no exterior. Para mim foi bastante útil e para os passeios que fizemos foi essencial a flexibilidade que o carro deu. Por exemplo, para visitar Giverny a partir de Rouen e depois seguir para Paris em um mesmo dia, sem carro, teríamos que pegar um trem até Vernon e de lá um ônibus até Giverny, depois pegar o ônibus de Giverny até Vernon e de lá o trem até Paris. A mesma complicação seria para visitar os castelos do Vale do Loire. E ainda teríamos que nos preocupar com a bagagem. Com um bom planejamento seria até possível fazer tudo por transporte público, mas perderíamos muito tempo, ficaríamos muito mais cansados, seria mais desconfortável e nem seria tão mais barato assim. Alugar um carro foi uma boa.

 

Da Gare du Nord pegamos metrô e voltamos para o hotel. Outra vez ficamos no Peletier Haussmann Opera Hotel. Por essa segunda estada pagamos 440,00 Euros (R$ 1.100) por quatro diárias, sem café-da-manhã, incluindo a taxa de estadia (1,60 Euros por dia). Recomendo esse hotel. Ele é bem localizado, perto de estação de metrô (Richelieu-Drouot), limpo, confortável, o atendimento é simpático e apesar disso ainda é barato se comparado com outros hotéis na mesma área. Na primeira vez ficamos no quinto andar. Dessa vez nos colocaram no terceiro. O elevador é aquele minúsculo que eu já mostrei aqui no blog no post do nosso primeiro dia em Paris, mas é melhor que subir de escada.

 

Já era noite e estávamos cansados para qualquer outro passeio. Aproveitamos para levar a roupa suja para lavar. Fomos outra vez na Lav’ Club, lavanderia self-service (em francês, launderette libre service) que fica na Rue Geoffroy-Marie, entre a Rue du Faub. Montmartre e a Rue de la Boule Rouge, perto da antiga casa de espetáculos Folies Bergère. Falei dessa lavanderia e de como ela funciona em um outro post. Vale muito a pena. Para lavar e secar a nossa roupa suja de quase dez dias pagamos 14,40 Euros (R$ 36).

 

Na volta para o hotel compramos baguettes, queijos e bebidas no Franprix da Bd. Haussmann. Chegando no nosso quarto foi só guardar as roupas, comer e dormir. Estávamos bem cansados.

 

Nosso passeio pelo interior da França tinha terminado e nós tínhamos aproveitado cada cidade que conhecemos ao máximo. Nosso roteiro privilegiou as regiões mais ao norte da França. O restante do país ficou para uma próxima oportunidade. Tínhamos mais três dias inteiros para Paris e já falávamos como se tivéssemos certeza de que voltaríamos à França. Que assim seja.

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