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Olá viajante!

Bora viajar?

Relato de Viagem RTW / (Volta ao mundo)

Postado
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Oi pessoal,

 

Vou tentar colocar aqui um apanhado geral da minha trip RTW de pouco mais de um mês de duração que fiz nas minhas últimas férias. O roteiro ficou mais ou menos assim, tirando as conexões :

 

Brasilia – Paris – Londres – NY – Los Angeles – Tahiti – Sydney – Filipinas – Londres – Brasília

 

Sim, eu cruzei o Atlântico três vezes mas só a grana que economizei valeu o esforço. A propósito, a idéia inicial era viajar no sentido leste mas por causa de indisponibilidade de vôos na data que eu queria no trecho Tahiti – Los Angeles, acabou que tive que fazer a trip no sentido contrário.

 

O tempo foi curto mas como parte dos lugares eu já havia visitado antes, acho que tá valendo então tudo bem. Além do mais eu não sou gringo (e nem professor rsrs) e sendo assim, como a maioria dos mortais assalariados brasucas, tenho 30 dias de férias. Não vejo nenhum problema em revisitar lugares então eu consegui mesclar lugares novos com outros que já conhecia. Viajo para colecionar experiências e não bandeirinhas de países para colocar na mochila. Se fosse assim, poderia fazer uma viagem pela Europa passando por “trocentos” países em menos de um mês no estilo : “se hoje é quarta-feira, isso aqui deve ser Amsterdam”.

 

Por motivos de força maior (uma “bucha” no trabalho pouco antes das minhas férias que atrapalhou incrivelmente os meus planos), tive que fazer algumas alterações no roteiro original - que iria sair mais barato - mas mesmo assim acho que ficou legal afinal poderia ter sido pior : eu não ter feito a viagem.

 

A idéia desse relato é dar uma geral de como é uma trip RTW e que, apesar de muitos pensarem o contrário, não é nenhum bicho de sete cabeças, mas exige bastante planejamento, pesquisa e atitude, principalmente quando não tem muito tempo. E grana.

 

Estou pensando seriamente em preparar a próxima, aí sim vou poder provar que dá pra viajar pelo mundo gastando mais ou menos que uma viagem de mochila pelo continente europeu. Enquanto isso não acontece, fica esse relato para os interessados, espero que vocês curtam pois a intenção também é incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

 

Boa viagem !

 

PRIMEIRA PARTE – EUROPA

 

Saí de Brasília (não sou funcionário público, afinal eu trabalho. Sem ofensa) voando TAP direto pra Europa. Até gostaria de ter ido via Sampa (minha cidade natal) para visitar familiares, porém a diferença de preço no ticket era bastante significativa. Além disso pra mim quanto menos vôos, melhor. O vôo em direção à Europa foi tranqüilo, avião novo da Airbus, serviço correto e tripulação atenciosa. Nem esquentei que tinha gente no meu assento - que era na janela - então fiquei no corredor mesmo, o que até prefiro em vôos longos. O mais engraçado foi na hora do jantar onde os comissários ofereciam “vaca ou frango”, o que provocou risadas nos passageiros brasucas. O comissário não se fêz de rogado e brincou “a vaca acabou, serve boi ?”, provocando novas risadas no pessoal. Assisti a um filme e passei o resto do tempo jogando tetris e ouvindo música no aparelho de entretenimento da aeronave, pena que de boa música mesmo só tinham umas duas então fiquei ouvindo elas praticamente o vôo inteiro. Apesar de eu ter assistido apenas um, os filmes até que davam pra encarar, por incrível que pareça. Como eu não consigo dormir em avião, ônibus, trem, bicicleta, skate, etc, passei a noite acordado.

 

Chegando no velho mundo, a imigração em Lisboa foi sussu e tinha até uma fila destinada apenas praqueles de língua portuguesa. Após passada a fácil e tranquila imigração e mais toda aquela encheção de saco com segurança que se repetiu “n” vezes durante a trip, fui pegar meu vôo para Paris - primeiro destino desta RTW - que partiria logo a seguir.

 

Chegando na Cidade Luz, apanhei um pouco para me entender com o metrô/trem e após uma série de baldeações consegui chegar no albergue, que ficava em Montmartre. Paris é simplesmente fantástica, tudo que falam dela é verdade, podem ir com as expectativas lá encima que serão superadas assim que você der a primeira caminhada na cidade, não é à toa que ela é destino favorito de muitas pessoas e ganhou mais um fã : EU.

 

Costumam aparecer aqueles papos de comparação entre Paris e Londres, querendo saber qual a melhor. Prefiro não fazer comparações porque são cidades diferentes então vou ficar encima do muro : empate técnico. As duas têm sua posição de destaque entre as capitais mais importantes do mundo e isso já vem há séculos. E vai continuar por muitos outros mais.

 

Deixei minhas coisas no albergue antes mesmo de fazer o check-in (lock-out time), arrumei um mapa e fui explorar a cidade. Passei os dias seguintes andando mais do que camelo em deserto e aproveitei bastante os dias longos de primavera. Me perdi várias vezes sendo que a última foi por umas 3 horas no final do dia e lá pros lados da Catedral de Notredame (chato, né ?). A outra “culpada” foi uma loira maravilhosa que estava voltando do trabalho e quase fêz eu perder a compostura... Aproveitando o gancho, além da arquitetura, beleza e do charme da cidade com seus cafés e boulevares, ainda tem as francesas !!! Mas isso eu já sabia porque sempre arrastei uma asa (e algo a mais) pra elas, loooonga história... Você pega uma brasileira gata, tira os 70% de frescura de sua composição, troca por charme e estilo e voilá tem uma francesa.

 

Me achei um tanto underdressed com meus panos de mochileiro e vi que realmente a moda pega pesado por lá, muita gente bem vestida e perfumada. E nada daquela moda spooky-fashion (inventei este termo agora...) que você vê principalmente em japoneses no exterior (lembrando que "os nossos japoneses são melhores do que os outros" ! Volto nisso no capítulo Sydney) e de gosto bastante duvidoso, uma mistura de Falcão com Marilyn Manson.

 

Champs Elysees “chove” gente bonita. Se não bastassem as francesas, ainda têm as turistas do mundo inteiro. Acabou que fiquei inspirado e comprei um perfume numa baita loja na Champs, mas isso eu ia fazer de qualquer jeito.

 

Não andei quase nada de metrô/trem, fiz apenas aeroporto-hostel e vice-versa e não me arrependi, Paris é muito bonita pra ficar enfurnado debaixo da terra. Como adoro caminhar e meu GPS interno simplesmente não existe, achei melhor me perder nas ruas mesmo e não no metrô.

 

Visitei pontos turísticos e outros nem tanto, mas tão belos quanto, mas isso não importa quando você está numa cidade como Paris porque pra qualquer lado que eu olhava era alucinante, subi na torre Eiffel, comi crepe, andei incontáveis quilômetros por dia explorando a cidade e quando estava cansado de tanto andar, utilizava o ônibus sem teto que ficava fazendo um tour pela cidade e aproveitei bastante o bilhete dava direito a 2 dias.

 

Fui embora de Paris triste, mas com a certeza de voltar afinal ela entrou na minha lista de cidades favoritas.

 

Próximo destino, Londres. Voei de Easyjet e entrei via aeroporto de Luton, imigração também tranqüila. De lá, ônibus e metrô para o hostel. A garota do hostel me respondeu errado um email que eu havia pedido indicações para chegar lá, não era para virar a esquerda no primeiro farol e sim a direita... Perguntei para um segurança de um hotel nas imediações, que chamou seu superior e me deu as coordenadas certas. Após fazer o check in, fui dar uma olhada na minha favorita Londres, o hostel ficava ao lado do Museu Natural (entrada franca) e a primeira parada foi lá. Já havia estado no país dos Beatles antes e o impacto é sempre o mesmo: “PQP, estou em Londres !!!” Eu estava com aquele travelcard que dá direito a um dia inteiro nos transportes públicos, naquela cidade eu não perco o metrô por nada e fiquei até íntimo dele, o que para um perdido por natureza e que se perde até em estacionamento de supermercado, é um marco impressionante. Falando nisso, se tiver alguma boa alma pra explicar como funciona os tickets econômicos, por favor me dêem uma luz (podem emendar e me falar como funciona o tal Orange não sei o que lá de Paris que eu também queria saber...)

 

Sei que em Londres tem um tal de Oyster Card, acho que tem que carregá-lo mas como não ia ficar muito tempo na cidade, não comprei. Como sou perdido por natureza, fiquei apenas no metrô sendo que o de Londres (o mais antigo do mundo, por sinal) é um mundo a parte : Mind the Gap !

 

Depois de ter dado uma olhada na vizinhança do hostel, peguei o metrô e me mandei pra Piccadily Circus. Saindo da estação do metrô, olhei ao redor e não pude segurar : “PQP, estou em Piccadilly Circus” !!! Muito irado, não tem pra ninguém, aquela cidade é demais !!! Eu tenho um amigo de lá (infelizmente nessa trip não deu pra visitá-lo) que não vê a hora de ir embora !! Dia desses vou propor uma troca, ele fica aqui no Brasil e eu me mando pra terra da Rainha...

 

O mais engraçado é que ele vive dizendo como estão quebrados (a crise atingiu o Reino Unido em cheio) e eu olhava pela janela do albergue e via uma fila de Land Rovers, BMW´s série 7, Aston Martins e afins. Quebrados ? Imagino se não estivessem.

 

Apesar de possuir um passe do metrô que me permitiria cruzar a cidade pra lá e pra cá, eu preferi explorar Londres do melhor jeito : à pé. Pra quem conhece, saí da região do Piccadilly Circus e fui andando até o Big Ben, prestando atenção em tudo ao redor sem esquecer da Trafalgar Square, obviamente, e também prestando atenção no trânsito maluco, ainda bem que eles escrevem no chão pra que lado olhar porque, vou te contar, risco de vida total, só perde pra Sydney e seus 5 segundos de farol verde para pedestre (até no Vietnam eu achei menos perigoso atravessar a rua), Parlamento, Westmister Abbey e depois me mandei pra Tower Bridge, via south-bank, passando pela London Eye, Tate Museum e por aí foi. Depois fiz o caminho inverso, tudo na caminhada. E olha que o metrô de Londres, como eu falei antes, é um mundo à parte. No tube dá pra ver o quanto a cidade é multicultural, vários povos, biotipos (e bota tipo nisso...), as constantes gatas, algumas do leste europeu com suas bochechas rosadas e pinta de boneca, vários idiomas diferentes dentre os quais, se você tiver sorte, escuta até o inglês britânico. rs

 

Deu pra perceber que as obras para as Olimpíadas estão a milhão, vários guindastes despontando aqui e ali no skyline da cidade.

 

A lamentar apenas a visão deprimente de uma garota segurando sua amiga bêbada que estava cambaleando. As duas muito bem vestidas, voltando do trabalho e aproveitando os escassos dias de sol para curtir uma happy hour nos vários pubs da região. Não só os gringos, mas as gringas também são verdadeiras esponjas e não sabem quando parar, proporcionando essas cenas lamentáveis. Se tem algo deprimente é mulher bêbada. Conheço bem o tipo quando o assunto é gringa...

 

No dia seguinte continuei meu tour pela cidade e fui visitar a região de Leicester Square, Covent Garden (que fica ali perto de Piccadilly) e imediações. Eu não curto muito esses artistas de rua mas os de Londres são muito legais, uns tipos muito bem sacados, vale a pena conferir. Os meus favoritos são o "homem invisível" e um cara que pinta o rosto de cachorro, mete a cabeça dentro de uma mala de transporte de animais e fica tirando sarro da galera, fingindo ser cachorro, o pior é que parece mesmo ! Simplesmente hilário. Esses lugares são próximos entre si então você vai andando, vê algo extraordinário (o que não falta na cidade ), vai até lá, avista outro monumento de cair o queixo e vai seguindo. Como eu não conheço muito a Europa acho que isso é normal praqueles lados. Tanto é que um inglês que dividiu comigo o dormitório no albergue em Paris e que, após perceber o quanto eu estava gostando da arquitetura, prédios, praças, monumentos, etc do lugar, me recomendou ir pra Roma. Tá anotado.

 

Aproveitei que era fim de semana e me mandei pra Camdem Market dá uma olhada na fauna humana, bem Londres mesmo. Na estação aconteceu um evento que mostra o quão multicultural é a cidade : uma local veio me pedir informações sobre como chegar em tal lugar e aí me apresentei que era apenas um visitante e não saberia informar, ela se desculpou e foi perguntar pra um grupo de espanholas um pouco adiante e que sabiam menos do que eu. Acho que ela tentou de novo com mais outra pessoa que, de novo, também era de fora ! Nisso, ela acabou desistindo.

 

Não acredito que uma cidade assim possa perder sua identidade, espero que não. Fiquei sabendo que o fotógrafo mais popular é peruano e a comida mais popular (típica ?) é indiana (ninguém é perfeito, né ? ). Londres tá batendo na casa dos 2.000 anos, já passou por muita coisa e a "Jovem Senhora" (ou seria o contrário ?) continua firme e forte, uma mistura de clássico, história e modernidade que dá gosto de ver. E aplaudir de pé ! "Bass in the place, London"

 

No metrô para Camdem entraram umas gatas inglesas e uma me chamou bastante a atenção, parecia brasileira : bonita, de mini-saia, belo par de pernas, pele branca, cabelos pretos e longos e um sotaque britânico que, de novo, quase fêz com que eu perdesse a compostura de novo...

 

Após alguns poucos dias curtindo Londres e suas infinitas atrações, deu pra ver que a cidade que estava bem alegre pelos benvindos dias de sol que a mudança de estação trouxe, era hora de me mandar pra Big Apple, mas isso fica pro próximo post.

 

 

Virunga / RTW 2009

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estamos aguardando............

que viagem maravilhosa fizestes!

Parabéns

to aqui guardando meus "reais", sabe,

sonhar não custa nada afinal.

Parabéns pela Paciência em colocar tudo detalhadinho pra gente

valeu mesmo!

bj

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estamos aguardando............

que viagem maravilhosa fizestes!

Parabéns

to aqui guardando meus "reais", sabe,

sonhar não custa nada afinal.

Parabéns pela Paciência em colocar tudo detalhadinho pra gente

valeu mesmo!

bj

Oi Káren !

 

Obrigado pela mensagem.

 

Estou aguardando um amigo dar um jeito no meu computador (eu ainda acho que meu micro precisa de um exorcista porque a coisa tá feia, vou te contar. Você não imagina o sufoco que foi para eu conseguir postar essa resposta, ontem à noite eu fiquei horas e acabou que não consegui) e assim que arrumar continuo o relato.

 

Tem bastante coisa que eu pulei, queria fazer algo mais resumido afinal isso é um post e não uma novela mas é só começar a escrever que parece que a viagem recomeça e aí já viu, quanto mais escreve, mais recorda a viagem, o que faz escrever mais ainda e acaba virando um ciclo vicioso. Memórias de viagem, sabe como é...

 

Que bom saber que você continua guardando seus reais (espero que seja para uma volta ao mundo também), e te garanto que você precisa muito menos do que imagina, dia desses eu explico. É incrível como uma trip RTW pode sair muito mais em conta do que parece, aquele lance de saber balancear lugares caros com baratos, pesquisar bastante e aprender com quem sabe : os gringos. Foi assim que eu aprendi e continuo aprendendo, mas tem que se saber filtrar porque gringo viaja com dinheiro do governo desde a época dos descobrimentos ! hehe

 

Eu também já estou economizando os meus parcos reais para a próxima. O negócio é juntar grana e esperar as próximas férias pra ver se vai dar certo, tem bastante coisa envolvida aí e haja planejamento, outra viagem por si só. Trabalhoso ? Sim. Complicado ? Nem tanto. Vale a pena ? Sempre !

 

Ótimo saber que você está curtindo, valeu pela visita e pode esperar que tem bastante coisa ainda por vir.

 

Agora deixa eu ir antes que esse micro exploda ! rs

 

Beijos e valeu mais uma vez !

 

Virunga

  • 2 semanas depois...
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E bota "demoro" nisso !

 

Continuo com problemas técnicos mas pode deixar que sua espera vai terminar logo logo, vou tentar colocar mais alguma coisa hoje ainda.

 

Valeu !

 

Bjs

 

Virunga

 

 

 

 

 

 

 

demoro,

to esperando mesmo!

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Dzaí pessoal, tudo bem ?

 

Meu micro continua precisando ser exorcizado (Ai meu Santo CTRL_ALT_DEL !!), mas pelo menos não explodiu. Ainda.

 

Aproveitando que os vírus e seus espíritos cibernéticos se aquietaram momentaneamente, vou dar uma adiantada no relato então simbora embarcar pras “Filipas”, mas antes tenho que averiguar se o e-ticket que deu um trabalhão para comprar através do site da simpática cia aérea com duas moedas diferentes vale alguma coisa.

 

Peguei minhas coisas, desci do ônibus e antes de seguir para o guichê do check-in dei uma arrumada na mochila e fui procurar meu vôo.

 

O aeroporto de Bangkok que custou US$ 3 bilhões aos cofres públicos é grande e fácil de usar então rapidamente encontrei meu vôo no imenso painel na parede logo ali, próximo a entrada do banheiro mais vazio do aeroporto, que por sinal também é um bom lugar para arrumar a mochila, trocar de roupa, escovar os dentes, etc. Para ser perfeito só faltava um chuveiro pois o calor estava de nordeste brasileiro. Pensando bem, muita calma com esse negócio de chuveiro, troca de roupa, escovar os dentes, se barbear, etc porque vai que chega um outro passageiro desavisado e perguntar algo como “Are you sure you don´t live here ?” rs

 

Me certifiquei que não tinha nenhum passageiro desavisado nas imediações, calcei minha bota anti-indiano que estava pendurada na mochila, perfazendo aquele visual que provocou um olhar enviezado que recebi daquele colega americano da minha amiga lá na ensolarada Califórnia, há dois continentes atrás.

 

Depois peguei meus documentos, conferi os prints de reserva que foram impressos num sufoco danado, dei aquela última ajeitada e segui tranquilamente em direção a área onde se concentram os check-in.

 

Chegando no andar, acho que era o 3º, dei aquela olhada básica no imenso saguão do aeroporto. Não me perguntem o porquê (já falei que o médico disse para não contrariar) mas pra mim aquela parte do aeroporto de Bangkok me lembra um imenso hipermercado : grande, arejado, claro, bastante movimentado e com o pé direito muito alto.

 

Não tem como se perder (olha quem está falando...) nem se a pessoa quiser, ali você facilmente acha o check-in do seu vôo procurando pela letra e número correspondentes. E ainda tem o emblema da cia aérea para dar uma força a mais. Tudo isso em 2 idiomas : inglês e tailandês, com sua escrita bonita.

 

Eu sei que não tem nenhuma novidade até aí mas o de Bangkok é diferente, até turista entende. uma letra e um número, simples assim. E pra chegar no lugar indicado, nenhuma dificuldade também, nada daquela complicação e sopa de letrinhas com numa sinalização que mais parece um mapa da NASA, mostrando a asa não sei o quê, terminal não sei o que lá, tudo escrito em cirílico antigo traduzido para o aramaico onde para chegar tem que pegar três trens - cada um num piso diferente, é claro – sendo que para alcançar o local onde sai o tal trem que liga os terminais o passageiro ainda tem que pegar um ônibus da linha “xis” na cor azul escuro porque se o coitado pegar o ônibus “x” na cor azul marinho, dançou. E vai ter que passar por mais três security checks de novo. E pelado!

 

O “hipermercado” é tão grande que quase, senão todas, as letras do alfabeto estão ali representadas mostrando o caminho a seguir para passageiros perdidos ou almas errantes e eternamente nômades, como esse mochileiro que vos escreve.

 

Caminhei lentamente em direção ao meu check-in ouvindo os mais variados idiomas, desviando de passageiros apressados, apreciando a fauna humana que a gente vê em aeroportos (mas ali não chegava nem aos pés dos tipos que você vê no aeroporto de Johannesburgo), admirando tripulações inteiras com seus uniformes impecáveis e podem falar o que quiser mas que ainda rola um glamour nisso tudo, eu acredito piamente que sim. Pra completar, na minha humilde opinião o avião é a máquina mais espetacular (e mais assustadora também !) que existe. E ainda foi inventado por um brasuca, o que o torna mais assustador do que já é...rs.

 

Apesar de eu não morrer de amores por voar (pra mim voar em muitos casos tem um significado semelhante, guardada as devidas proporções (no bom sentido, é claro) ao de usar camisinha - um mal necessário), eu adoro aviação e tudo aquilo que ela envolve, quer dizer, exceção seja feita às turbulências, desastres aéreos, crianças mimadas e mal educadas gritando e brigando para ver quem vai ficar na janela durante o pouso (e tudo isso ocorrendo no exato momento em que seus pais frouxos e idiotas emudecem e ficam assistindo a tudo como se nada estivesse acontecendo), aeromoças feias e barrinhas de cereal.

 

Não me importo muito com classe econômica mesmo eu sendo um cara alto e obviamente ficar apertado ali na espremida “cattle class” com a turma do fundão. Acho que já falei mas pra mim saindo e chegando com segurança é o que vale. O resto é frescura. E boiolagem.

 

Não adianta reclamar que a poltrona é assim, o embarque é assado e a comida tem gosto de isopor (não me perguntem, nunca comi isopor) e custa caro. Não gosta ? Vai reclamar pro papa ou compra um ticket da primeira classe da Emirates e não enche o saco. Ou vai de ônibus. Se tiver que atravessar oceanos, paciência, vai a nado. Ou chama seus (bis)avós e encara o navio.

 

Seguindo o caminho das pedras, digo, das letras, achei o guichê, não peguei fila e fui atendido pela simpática atendente que rapidamente digitou algumas coisas no teclado na sua frente e voilá, meu ticket existia; mais uma vez comprovando a teoria que a maioria dos problemas somos nós mesmos que criamos, ocupam um tempo danado nos nossos pensamentos e queimam neurônios que poderiam ser muito melhor aproveitados com outras coisas.

 

Feito o check-in e me livrado da mochila eu estava livre para dar mais uma circulada rápida pelo aeroporto e depois seguir para a imigração, afinal nunca se sabe se a fila estará grande ou não. Dessa vez pelo menos não estava.

 

Peguei meu carimbo de saída, atravessei o portão e me deparei com um bonito e gigantesco saguão cheio de lojas bacanas, restaurantes, bares, uma escultura de muitíssimo bom gosto que custou US$ 1,5 milhão mas foi doada ao aeroporto (falando em escultura, quando São Paulo vai mandar explodir aquela estátua gigante do Bandeirante ali no Borba Gato ? Chama a galera do Afeganistão que eles são bons nisso. Os espanhóis da época da colonização também). Havia também um balcão de um bar bacana que ficava no meio do corredor e um monte de gente com cartão de embarque na mão.

 

Caminhei sem rumo apenas para matar o tempo, visitei algumas lojas mas minha cabeça estava longe. Para evitar o quase mico do ano anterior, me dirigi com antecedência ao portão de embarque porém antes tinha que passar por um security-check, o que é um saco, convenhamos.

 

Passei pelo detector de metais, andei mais alguns “quilômetros” (afinal aquele aeroporto é grande pracas), encontrei meu portão e aguardei meu vôo, que por sinal já havia chegado de Manila.

 

Dei uma olhada rápida nos passageiros que ali estavam e não notei nenhum outro mochileiro, o que não me deixou surpreso afinal as Filipinas não são um destino comum como o resto do sudeste asiático, o que aumenta ainda mais o seu charme.

 

A esmagadora maioria dos passageiros era de famílias filipinas, mas não pude deixar de notar alguns casais onde a moça era filipina e o cara, gringo. Sei.

 

Quanto a nítida ausência de outros viajantes não me surpreendi. Off-the-beaten track o escambau, acho que a grande maioria de viajantes gringos gosta mesmo é de lugar manjado, por mais que tentem provar o contrário : “ah, esse lugar é muito batido, aquele outro é muito turístico” e por aí vai.

 

Se não gostassem de lugares manjados, os pubs irlandeses, que por sinal são muito divertidos, não estariam lotados por onde quer que você vá, estejam eles na África com a galera assistindo jogo da liga inglesa ou na bizarra (eu achei triste) Phuket, com a galera tomando uma Guiness cara pra cacete...

 

Só andam em grupo com “seres iguais” indo para os mesmos lugares, não se esforçam para falar alguma coisa no idioma local e ainda reclamam quando os nativos não falam inglês. Em relação ao idioma, alguns brasucas são assim também, ignorantes e tapados, falam como se no Brasil o povo falasse outro idioma que não o português. Coitado do gringo que vem pra cá. E olha que nem vou falar dos compatriotas que ficam “chocados” ou com os “olhos marejados” (How sad. Sniff) quando viajam para países menos favorecidos e se deparam com pobreza, crianças famintas, estradas esburacadas, corrupção e problemas sociais. Aqui não tem, né ? Cada uma...

 

De volta aos travelers snobs do off-the-beaten-track.

 

Desconfiam de tudo e de todos, principalmente do “local people”, que são muitas vezes vistos (usados ?) como muletas e capachos para os gringos, estando ali apenas para servi-los.

 

Acho intrigante essa relação de queda de braço entre os caras-pálidas se borrando de medo de assaltos, da água, do povo esquisito, comida estragada de origem duvidosa, falta de higiene e dando piti por causa do atraso de trem que não saiu às 7:32 AM como acontece na terra deles e os nativos que vêem a gringaiada como dólares ambulantes e não pensam duas vezes na hora de enfiar a faca e girar. Pois é, como diria Jean-Paul Sartre : “o inferno são os outros”.

 

Eu falei que é intrigante, mas nada de generalizar, rapaziada !

 

Esse lance do off-the-beaten-track cai no mesmo papinho groselha do volunteering, save the world, be green (incrivel Hulk ou marciano ?), no debts, total interaction with local people and culture (essa é uma pérola sem tamanho, vide parágrafo anterior), charity, FREE TIBET e outras babaquices gringas.

 

Depois é só olhar como tratam de assuntos delicados e polêmicos como imigração (“eu sou de país rico e você, pobre. FORA !”), aquecimento global (cada um por si e o efeito estufa pra todos, China e Estados Unidos que o digam), fome (ainda não passamos de um bilhão de famintos mas a humanidade está se esforçando para alcançar a marca histórica) e depois falem comigo.

 

Credo, parece papinho da ONU, aquela instituição que, pelo menos na minha opinião, juntamente com o Congresso Nacional e os campeonatos daquele tal Ultimate Fighting é a maior concentração de idiotas da face da terra. Hipocrisia pouca é bobagem.

 

Quimeras pré-vôo noturno a parte, enquanto estava sentado ali fiquei pensando sobre o próximo destino. Como comentei antes, as Filipinas entraram de última hora na minha trip e isso tornava o momento ainda mais surpreendente. Estava consciente que o tempo seria curto para visitar o segundo maior arquipélago do mundo mas estava satisfeito com a minha decisão e com os lugares que escolhi.

 

Tudo bem que eu gostaria de visitar uma área um pouco mais inóspita do país e supostamente com praias incrivelmente lindas, mas pelo dificil acesso e a inconstância do transporte naquela área específica, principalmente dos vôos, resolvi deixar para uma outra oportunidade. Não tinha o luxo do tempo ao meu favor e perder um vôo naquela ocasião poderia desencadear em conseqüências sérias.

 

Estava confiante que os lugares que eu iria visitar valeriam a pena. Melhor assim porque uma boa parte da grana economizada em função da maneira que eu viajo RTW (já falei que são três principais, né ?) foi investida nesse trecho em específico e como não tinha tempo de sobra, os vôos tornaram-se essenciais na confusa malha aérea filipina, malha essa que deve ter sido feita usando a inteligência herdada de tempos coloniais, afinal o arquipélago foi descoberto por um português patrocinado pelo rei da Espanha (tô falando que gringo viaja com dinheiro do Estado desde a época do descobrimento...). Coitado do povo filipino, mereciam melhor sorte.

 

Vai ter malha aérea enrolada assim lá nas Filipinas ! Pra quase todas conexões tem que passar por Manila (ou Cebu), o que faz o passageiro ter que ficar intimo do enfadonho aeroporto elefante branco. (NR.: O aeroporto não é de todo ruim, muito pelo contrário, mas achei ele muuuuito chato porém limpo e seguro, o que realmente importa. Volto nisso depois, afinal nem saí do aeroporto de Bangkok ainda).

 

O planejamento para viajar pra lá, apesar de ter sido de última hora, teve que ser cirúrgico e apesar de as Filipinas me parecerem um tanto quanto naive quando o assunto é turismo, estava contente de poder ir conferir in locco. Isso pra não falar daquela sensação boa de explorar o desconhecido e me apoiar apenas no que sabia de cabeça pois não levei guias, não tinha endereços e conhecia apenas alguns nomes de lugares; mas estava confiante no que havia lido à respeito, mesmo superficialmente.

 

(In)felizmente um vôo com um preço camarada para um paraíso do mergulho (sonho antigo) absolutamente inacreditável, maravilhoso e espetacular que fica ali perto e faz parte de um outro grupo de ilhas (e um outro país também) não vingou (certamente foi culpa da cia aérea americana que monopoliza o destino pra ela, mais ou menos como a LAN CHILE faz com a exótica Ilha de Páscoa, o umbigo do mundo) e não existia mais, caso contrário eu fecharia os olhos, enfiaria no meu cartão de crédito raquítico, arrumava uma francesa, sueca, brasuca, sei lá, decretava um debt moratorium ad eternium (sei lá se existe isso, se não existe ia passar a existir) e me mandava pra lá pro resto da vida, usando as Filipinas apenas como conexão dessa vez.

 

Mas como não existia mais o tal vôo achei melhor deixar pra lá e ficar apenas com as Filipinas, não apenas como conexão, mas como destino mesmo. Na minha situação pindaíba de tempo e grana, tive que fazer escolhas e foi o que fiz.

 

Finalmente uma voz feminina com inglês de gente grande saiu dos altos falantes chamando todos para o embarque que iria começar. Meu coração bateu forte, hora de embarcar, putz !

 

Que legal ! Eu poderia estar embarcando para Espanha (toc toc toc), eu poderia estar indo para Portugal (toc toc toc de novo) mas que nada, estava indo pras Filipinas e mal podia esperar. Bora logo !

 

Entreguei meu cartão de embarque, cumprimentei a simpática comissária, ganhei um sorriso em troca e embarquei.

 

Passando a porta do avião não pude deixar de notar numa linda aeromoça filipina com rosto traçado de forma suave característico daquela parte do mundo e que eu levaria, sem pensar duas vezes, para o tal destino paradisíaco que fica ali perto cujo vôo foi “subtraído” para acabar com a concorrência.

 

Aquela aeromoça foi das mais bonitas que já vi, juntamente com uma outra companheira de profissão dela e que vi numa outra vez, num vôo pra lá de inacreditável (seu simplesmente não acreditava que estava fazendo aquilo, voando de Thai Airlines da África do Sul para Tailândia) e que era o clone da atriz londrina Rachel Weisz (aquela da trilogia “A múmia”), só que com traços levemente asiáticos afinal era ela tailandesa.

 

Naquela ocasião eu só não interrompi o trabalho da moça pra perguntar se era ela mesmo a tal atriz na versão asiática porque vai que ela me respondesse algo como “Sou eu sim, estou disfarçada de comissária para caçar múmias como você. Agora me responde : Asian or western food, sir ? ” E tudo isso dito de um jeito que resumia bem o bordão característico da competentíssima companhia aérea tailandesa : Smooth as a silk . Imaginem o mico ! Já que era assim, achei melhor deixar o comentário da aeromoça parecida, mas com detalhes orientais, com a atriz inglesa pra lá.

 

O avião que me levaria para as Filipinas era um Airbus 319 igual aos da TAM, só que um pouco mais velho. Essa cia aérea comprou uns 5 Airbus zero quilômetro esse ano então creio que esteja em processo de ampliação, o que acho ótimo. Philippines Airlines que se cuide, daqui a pouco ela é engolida.

 

Falando nisso, a British Airlines se juntou com a espanhola Iberia. Isso que eu chamo de decadência, realmente os súditos da rainha não são mais o mesmo. Será que não tinha uma pior não ? Também, pra quem estava passando o pires e pedindo para os funcionários abrirem mão dos salários e trabalharem de graça, vai saber. Mas pqp, se juntar a uma cia espanhola ? Se a moda pega (já pegou, tá todo mundo se juntando para ver se garante a sobrevivência, parecem os bancos. Viva a globalização) daqui a pouco a Ryanair “taxas-pra-que-te-quero” engole as duas juntas.

 

Havia bastante poltronas vazias, me dirigi ao fundo do avião, já tinha meu assento marcado mas nem precisava.

 

Me ajeitei na poltrona e só tinha que esperar. O vôo seria relativamente curto e em 3 horas eu chegaria em Manila. Já havia passado da meia-noite mas dormir ali nem pensar, aquela ansiedade característica antes de um vôo não me permitiria pregar os olhos.

 

Pois é, tais deslocamentos são partes importantes numa jornada que inclui destinos diferentes numa mesma viagem. Custam caro e tempo então devem ser feitos e planejados com carinho e muita atenção para evitar desgaste e um rombo no bolso.

 

Apesar de eu ainda não ser totalmente adepto ao slow travel (mas eu chego lá), gosto muito da idéia e esse jeito de viajar tem o meu total apoio e admiração.

 

Por outro lado ainda não aprendi a fórmula mágica do maraturismo (adoro o termo) para poder visitar 5 cidades diferentes, sendo 4 capitais, em apenas 5 dias. Típico daqueles que andam com bandeirinhas costuradas na mochila (15 países em 30 dias) e saem em todas as fotos no estilo auto-retrato (uma ou outra vá lá mas TODAS ?!?!), afinal eles têm que provar que tiveram lá. Insegurança é uma coisa mesmo. Depois ainda falam dos turistas que viajam pelas janelas dos ônibus. E também falam dos simpáticos japoneses que viajam em grupo tirando foto de tudo.

 

Será que a idéia do teletransportador vingou ? Se alguém souber me avisa porque eu pensava que isso era apenas em filme de ficção.

 

Tudo bem que numa trip a gente quer ir à todos os lugares e fazer “tudo ao mesmo tempo agora” afinal depois de tanto sacrifício (pelo menos pra quem não é gringo e nem expatriado) conseguimos realizar a viagem que sempre sonhamos naquele curto período de férias que temos, mas precisamos perceber que tudo tem limite pois “dois destinos legais não ocupam o mesmo espaço de tempo”.

 

As pessoas esquecem ou não contam o tempo de deslocamento de um lugar para o outro e da grana gasta com tais deslocamentos nessa brincadeira. Isso pra não falar da reinvenção da matemática (ou seria reinvenção do tempo ?) : “Gentém, vou chegar segunda feira à noite em Amsterdam e irei embora na quarta pela manhã, vocês acham que TRÊS DIAS (?!?!?!) são suficientes para conhecer a cidade ?”

 

Putz, o que será que esse povo anda tomando, speed ? (desculpa o trocadilho).

 

Além de ser estressante e dispendiosa, a pessoa sempre fica com aquela sensação de “saída”, nunca de “chegada” afinal nem dá tempo de parar e curtir um pouco mais o lugar, por alguns momentos que seja. Parar só pra tirar foto mesmo.

 

Mas enfim, cada um com seu cada qual. O que vale é viajar, né ?

 

Pouco tempo depois a comissária (aquela mais gata) passou conferindo se estava tudo ok para decolagem e começou a indisponibilizar alguns assentos, mexendo nas almofadas. Quando ela viu minha cara de interrogação ela soltou “é para ajudar no equilíbrio do avião”. Não me perguntem.

 

Nisso o piloto deu a chamada (a comunicação entre a tripulação e a cabine de comando era feita em inglês), as aeromoças fizeram aquela demonstração de segurança inútil mas, sei lá, deve ter com os tempos de outrora porque hoje em dia ninguém presta atenção - a não ser que a aeromoça seja gata - e lá fomos nós para um dos momentos mais fascinantes de voar : a decolagem.

 

Os pilotos taxiaram a aeronave até a cabeceira da pista, não se fizeram de rogados e saíram de segunda ! Nada de parar, apontar, se benzer (rs), soltar os freios e ir pro abraço ! Arrojados esses pilotos filipinos... Será que teve a ver com o equilíbrio perfeito que conseguiram com a re-arranjo das almofadas das poltronas vazias ?

 

Só sei que nem deu tempo de respirar, os caras saíram de segunda mesmo à milhão. Haja velocidade e potência para colocar um tubo com asas e mais de 40 toneladas de peso no ar. Ao contrário do endiabrado vocalista do Iron Maiden (o cara é piloto. E nada de jatinho não, ele é piloto comercial mesmo, pousou até em Congonhas...), o Rubinho jamais poderia ser piloto de avião. Muita velocidade, sabe como é, ele não se sente muito bem nessa situação. hehehe

 

Rapidinho alcançamos a altitude desejada, o piloto alinhou o avião e agora era só esperar. Acho voar tão fora da nossa natureza que, pqp, piloto pra mim é um ser de outro planeta, só pode ser ! Eu dizia isso pra um ex-piloto pai de um amigo meu e ele não achava nada disso, pra ele a sua profissão era algo “absolutamente normal”, uma espécie de “chofer de luxo”. Para minha indignação, dizia isso do jeito mais blasé possível. Sei, tô falando que pilotos são de outro planeta ! rsrs

 

O serviço de bordo foi rápido pois o avião estava bem vazio e ninguém muito a fim de comer. Eu tinha me esquecido que estava numa cia low cost (pra mim ela não parece), então o rango era vendido. “Food for sale”, diziam as simpáticas comissárias enquanto empurravam o carrinho pelo corredor apertado. Eu não estava com fome àquela hora da madrugada e também não gostei muito da cara do rango : nooddles. E tinha que pagar ! E tem gente reclamando de barrinha de cereal...de graça. rsrs

 

O vôo foi do jeito que eu gosto : tranqüilo, relativamente rápido e sem muitas emoções. Tiveram alguns momentos de turbulência (sempre tem !) mas nada muito desesperador, apenas assustador mesmo, só pra não fugir a regra. Quando vão inventar um avião a prova de turbulência ?

 

A madrugada avançava, eu nada de dormir (será que ainda vou aprender ? Estou pensando seriamente em apelar para o tal DRAMIN) então fiquei “curtindo” o vôo do jeito que dava. A tripulação até tentou colaborar fazendo sorteios e pequenos jogos de adivinhação com direito a prêmios para a ajudar a fazer a jornada mais prazerosa. Não, não rolou bingo.

 

Depois de algum tempo, finalmente a hora mais esperada do vôo : a aterrissagem, o que pra mim também é uma das melhores afinal isso é prova que estamos chegando. Em poucos minutos o breu do mar da China foi substituído por luzes da cidade. Sobrevoamos Manila por um tempo e iniciamos a descida. Logo depois a aeronave tocou o solo suavemente, desacelerou e foi estacionar lá na frente, perto do saguão. Eu percebi que o vôo havia durado por volta de 2:45hrs (não que eu estivesse contando) ao invés das 3 horas previstas.

 

Logo após o pouso a aeromoça confirmou o que eu já havia percebido : chegamos com 15 minutos de antecedência e eu deduzi que foi por conta de um vento de cauda no sentido leste-oeste. Tá bom, eu entrego... deduzi nada, foi puro chute mesmo !

 

Após toda aquela ansiedade do vôo vem a ansiedade da chegada : “PQP, estou nas Filipinas !”.

 

Aquela hora da madrugada a cidade ainda dormia e o aeroporto estava quase vazio, só tinha o nosso vôo chegando. Formaram-se algumas filas no guichê de imigração mas como sempre acontece em filas e no trânsito, a do lado sempre anda muito mais rápido. Pra ajudar tinha um monte de estudantes de Cingapura na minha frente que travou a fila em que eu estava enquanto os recém-chegados nas outras filas eram atendidos rapidamente ! É sempre assim !

 

Resolvido os trâmites burocráticos, lá fui eu achar minha mochila. Não sei quando foi construído mas que aquele aeroporto me pareceu novo, isso sim. Achei ele grande, bom para pousar aeronaves maiores num país-ilha onde existem muitos vôos com aviões de menor porte, mas como Manila é uma cidade grande e também recebe vôos de longa distância, aquele aeroporto para Manila tava bom demais, ao contrário do aperto do “soviético” Cumbica para uma cidade como Sampa. Com o tempo e as conexões diversas, tive bastante tempo de explorar aquele aeroporto mais tarde, contra a minha vontade, confesso. Manila é ponto de conexão, concordo com quem disse que para ir no banheiro nas Filipinas a pessoa tem que passar por ali. Herança lusa ou espanhola ? (NR. A colonização européia das Filipinas foi espanhola. Coitados...).

 

Fui um dos últimos ao chegar ao saguão e a esteira já estava girando com um monte de bagagens. Até ali estava tranqüilo, não ia perder tempo em Manila, estava ali só para conexão e tinha tempo de sobra para o meu próximo vôo com direção a praia dos Butandings. Mal podia esperar para cair no mar.

 

A esteira estava esvaziando e nada de aparecer minha mochila. Parou um pouco de sair bagagem e quando recomeçou, nada da minha mochila de novo. Até aí eu estava calmo, esperando...esperando...esperando.

 

A espera passou a ser demora que em pouco tempo virou um suspense que momentos depois se transformou numa angústia quase igual aquela que a gente tem enquanto não sai a nota da prova daquela matéria dificil daquele professor lazarento e fdp.

 

Eu sei que o sonho de todo o viajante é viajar sem bagagem mas daí pra perder a mochila quando tinha uma conexão na manhã seguinte indo para um fim do mundo era de lascar.

 

A esteira continua girando e nada da minha mochila…

 

Pra aumentar o imbróglio, que por sinal estava quase começando a imbrogliar meu

estômago (exagero, eu sei. É só para aumentar o suspense mesmo...), o próximo vôo daquela cia aérea proveniente de Bangkok seria só na madrugada seguinte e eu nem tinha endereço para a cia áerea enviar minha bagagem perdida.

 

A esteira esvaziando...

 

Quando eu inseri as Filipinas na minha trip de maneira milimetricamente cirúrgica com bastante competência, inteligência, classe, durante longas noites pois durante o dia eu trabalho duro (afinal não sou funcionário público), determinação, “catiguria” (sic!), precisão, conhecimento de causa, um trabalho árduo e dificil (que nada, eu adoro planejar trips assim), louvor, pontualidade, vontade, dedicação, etc. (e digo tudo isso na mais absoluta modéstia, que fique bem claro !!!), perder mochila não estava nos meus planos.

 

Até cheguei a considerar viajar sem a mochila maior (tinha um desconto merreca) mas com toda essa neurose de segurança até com produtos de higiene (me falem, como alguém pode explodir um avião com creme dental, shampoo, fio dental, barbeador, cotonete e tesoura de unha ? Mas nem o Macgyver !), achei melhor levar a mochilona, que não era tão “lona” assim, longe disso. Eu sou mochileiro, não sacoleiro ou muambeiro.

 

E a esteira continuava passando, cada vez mais vazia, assim como o saguão onde os passageiros pegavam sua bagagem e iam embora.

 

Tudo bem que dos quatro mais importantes ingredientes pra quem deseja dar a volta ao mundo (atitude, passaporte válido, cartão de crédito internacional e escova de dentes) eu estava com os três primeiros ali comigo e a última, que ficou na mochilona, era fácil de conseguir ali na lojinha de conveniência do aeroporto mesmo, mas realmente sem mochila eu não ia ficar, não mesmo. "Poxa, o vôo estava vazio !", pensei comigo mesmo, como se isso contasse alguma coisa quando o assunto é perda de bagagem pelas cias aéreas.

 

A esteira continua girando...

 

Seria um sinal ? Confesso que de quando em vez passava alguns pensamentos na minha cabeça como : “será que eu deveria ter ficado na Tailândia curtindo as praias, tentando a sorte com as suecas, saltando do teto de barcos em águas trepidas e cristalinas, descansando (dá-lhe gerundismo!!!!grrr) ? Ou quem sabe poderia ter ido revisitar o Camboja, talvez o Vietnam para treinar os saltos do teto do barco em Halong Bay (nem gosto de lembrar, dei um mal jeito danado nas costas. O babaca aqui foi se exibir pras gringas e só podia dar nisso...rsrs ), quem sabe repetir o floating (acho que eles chamam de river tubing) em Vang Vieng, no Laos ? Uma experiência engraçada e um tanto surreal. Falando em Laos, uma visita naquela cachoeira (pra mim a mais bonita do mundo) cujo nome eu esqueci (oops) também seria umas, ainda mais estando perto da bela Luang Prabang.

 

De repente poderia ter ido pra Borneo ou uma visita rápida para algum dos destinos da “Ásia enlatada” ? Humn, esse último não combina comigo. Não sei, mas tinha que ser um lugar rápido, barato e perto da Tailândia porque o tempo era curto. Talvez uma esticada para rever os templos em Bali ? Talvez ter feito aquela esticada que eu não fiz no ano passado (a sueca não deixou...), saindo de Phi Phi para uma ilha da Malásia ali perto e fazer snorkeling com tubarões ?

 

Last but not least, quem sabe realizar o sonho e ter ido pras Maldivas, afinal com a grana economizada (bendito planejamento para RTW) eu teria dindin de sobra para essa extravagância. Imaginem só, Tahiti e Maldivas numa mesma trip RTW !!!!! Eu ainda chego lá, ô se chego. E sem precisar ganhar na Megasena. Mas para isso tenho que aprender a mergulhar.

 

A esteira continuava passando e nada de mochila...

 

Vamos lá mochila, não desista por favor, lembre-se “o pulso ainda pulsa” !!!

 

Depois de um tempão que se arrastou por uma eternidade, o saguão esvaziou e só sobraram os funcionários do aeroporto e um brasileiro perdido com uma interrogação na testa, a segunda em menos de 4 horas, e cheio de perguntas na cabeça :

 

Será que minha mochila não veio ? Será que mandaram ela pra Beijing ? Será que ela era tão bonita assim (mas isso ela é mesmo. Foi escolhida a dedo, sempre no bom sentido, é claro) que algum corinthiano da região se apoderou dela ? Será isso, será aquilo, será só imaginação ou será o Benedito ?

 

Só sei que ela realmente não apareceu, sendo assim olhei para os lados e comecei a considerar minhas opções :

 

Sentar e chorar ? Esquece, homem não chora.

 

Ajoelhar e rezar ? Deus me livre (pausa para o sinal da cruz) ! Sou ateu (graças a Deus !), sem chance.

 

Juntar os simpáticos funcionários ainda ali presentes, dar as mãos, fazer um coro e cantar “Kumbaya my Lord !” ? Iria ser muito cômico, se trágico não fosse.

 

Muita calma nessa hora, nada de exageros. São em momentos dificeis da vida de um viajante a 20.000 kms de distância de todos os seus ente-queridos, numa terra sem nenhum rosto conhecido por perto para dar um apoio, enfrentando uma situação crítica onde tomadas de decisões erradas poderão desencadear em conseqüências imprevisíveis, onde os homens são separados dos meninos e os viajantes dos turistas, em que você deve criar coragem, levantar a cabeça, respirar fundo, contar até dez, escolher cuidadosamente e com sabedoria as palavras certas no momento certo que expressam com exatidão a gravidade da situação, estufar o peito e dizer de boca cheia, nem que seja para você mesmo, em alto, claro e bom som : "FODEU" !

 

Valeu galera pela companhia, no próximo relato eu continuo.

 

Abraços

 

Virunga

Editado por Visitante

  • 2 semanas depois...
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Oi pessoal, eu demoro mas apareço. Nada do que se preocupar porque é claro que vou terminar o relato, ainda mais sendo de uma trip volta ao mundo.

 

Espero que um dia vocês façam o mesmo pois é muito mais fácil do que imagina desde que a pessoa saiba escolher a maneira mais eficiente e ace$$ivel, caso contrário corre o risco de ficar só no sonho e não é essa a idéia quando comecei a escrever. Deixo isso pros $churmann da vida.

 

Continuando...

 

Depois de comprovado que da esteira não ia sair mais nada e um tanto aliviado depois da constatação (vide último paragrafo do relato anterior), era hora de arregaçar as mangas e ir à luta afinal a situação precisava ser resolvida. Dei uma olhada no saguão quase deserto e descobri uma espécie de balcão onde havia alguns funcionários.

 

Me arrastei na direção deles já sabendo a bateria de perguntas que teria que responder, afinal não foi a primeira vez que iria passar por tal situação. Foi a segunda. Na primeira vez havia sido em Bali, cheguei naquela ilha da Indonésia mas minha mochila ficou passeando em Hong Kong. No aeroporto o cara havia me pedido uma camisa da seleção do Brasil para resolver o problema, óbvio que eu não tinha e já expliquei aqui antes.

 

Recém-chegado nas Filipinas, no caminho até o balcão eu fiquei imaginando se isso fosse nos States, o que será que pediriam ? Uma maldita “tip” afinal aquele país é movido a isso. “Take or leave it”. Acho que não ia dar certo porque estou pensando seriamente em ficar adepto ao "TOC" (Tip O Cacete !).

 

Estava um tanto mal humorado mas não havia muito o que fazer e não ia descontar nos funcionários, né ?

 

Estaria eu mal humorado por ter que lidar com aquela situação tão comum nos aeroportos mundo afora ? Estaria eu mal humorado por não ter pregado os olhos naquela longa noite ? Ou meu mau humor tinha a ver por estar sem mochila, sem lenço e com pouco documento ? Que nada, estava mal humorado porque em breve o dia já ia amanhecer e eu sem pelo menos um gole de café preto me deixa bravo mesmo. Enquanto não tomo um baita copo (ou xícara, mas tem que ser das grandes) de café pela manhã meu dia não começa. Melhor nem chegar perto... rsrs

 

Cheguei ao balcão e rapidamente se formou uma pequena comissão com funcionários super prestativos que na hora me desarmou. Não tinha cabimento eu virar um turista ali e fazer um escarcéu, né ? O pessoal foi super bacana e seria capaz de apostar que eles ficaram contentes com o acontecido só para terem o prazer de prestar ajuda. Muito bacana essa primeira impressão do povo, digo, segunda porque a primeira foi com as comissárias.

 

Eu conversei com eles num inglês “cheio de dedos”, caprichando na pronúncia, falando pausadamente para que eles pudessem me entender direito. Pois é, como eu não sou gringo então eu sei que apesar do inglês ser um idioma mundial eu também sei que não é todo o mundo que domina o idioma. Não contem pra ninguém mas até aquele momento eu não tinha sacado que o país é praticamente bilíngüe, isso fora os vários dialetos... Oops.

 

Depois começou a hora de preencher aquele formulário que não ajuda muito mas não tinha como fugir. Estava torcendo para um dos atendentes fazer que nem fêz o cara do aeroporto de Bali. Não, nada de pedir camisa da seleção mas sim pegar o código da bagagem, digitar no computador e dizer que minha mochila estava não sei aonde, de preferência na Ásia...

 

Mas que nada, o cara começou a preencher o formulário e minhas esperanças foram se esvaindo a medida que ele escrevia alguma coisa.

 

Poxa, cadê o computador mágico ? Pega aqui o código da bagagem, digita no computador do Sherlock Holmes e fala que encontraram minha mochila sã e salva !

 

Já estava sem esperanças quando algo aconteceu : alguém chamou lá perto da porta, eu olho e avisto dois funcionários próximos a algumas bagagens isoladas bem no canto perto da saída !

 

Depois chegou uma funcionária esbaforida, falou com seu companheiro de trabalho e vi que meu problema estava resolvido :

 

“Apareceu a Margarida !”, digo, “apareceu a mochila !”

 

Puxa vida, já era sem tempo !

 

De longe mesmo eu a vi : linda, leve e preta. Com detalhes cinzas.

 

O “comitê da mochila perdida” respirou aliviado, rasgou o formulário inútil e percebendo minha alegria, riu comigo.

 

Felizmente no fim deu tudo certo. O que aconteceu foi que algum corinthiano (humn, acho que não. Se fosse corinthiano eu não veria minha mochila nunca mais... rs) pegou ela por engano mas felizmente percebeu que “aquele objeto não o pertencia”. Não quero acreditar que alguém tentou roubá-la, deve ter levado ela por engano mesmo, aí quando estava perto da saída, percebeu a tempo. Só acho que pelo menos o desatento individuo poderia ter dado ao trabalho de retorná-la para a esteira, afinal certamente ela tinha dono. Eu.

 

Para a próxima trip já bolei uma identificação legal para assim vai evitar “enganos” futuros. Num repente de criatividade que até hoje não acredito que fui capaz, vou mandar fazer uma identificação bem legal, agora periga alguém gostar tanto que vai levar a mochila por causa da identificação, e não por causa da mochila propriamente dita...rs Dia desses eu explico. Ah, nada de bandeirinhas costuradas, me poupe. Qual o próximo, uma bandeira gigante do Brasil pendurada ? Me poupe de novo...

 

Mas tudo bem, nada de ficar resmungando, segue o jogo.

 

Agradeci e fui em direção a saída do saguão, peguei minha mochila indefesa e fomos dar continuidade na viagem, afinal ainda faltava um vôo curto para chegar no meu destino final.

 

Só um parênteses aqui : viram como é importante sair dos rudimentos de inglês ? Aquele “the book is on the table” pode não ser suficiente para certas situações de viagem. E nem o “Hello, I am from Brazil. Ronaaaldooo, yeah”. Seu conhecimento no idioma pode até ser meio tosco, mas se souber um pouquinho a mais vai te ajudar bastante. O crianção Bruno de Lucca que o diga. Ainda nas Filipinas ocorreu um evento que precisei de jogo de cintura e utilizar bastante o inglês pra me safar e também teve a ver com logística de viagem, mais uma vez relacionado a vôos. Depois eu conto.

 

Saí daquela área de bagagens e fiquei impressionado com o aeroporto, apesar de chato ele era bem novo, “quite” organizado, seguro e bastante limpo.

 

Como eu disse antes, pra mim ele tinha um “quê’ de “óóbra de Mááluf”, uma espécie de elefante branco, não sei explicar. Um tanto quanto exagerado para o lugar (apesar de não ter conhecido Manila, tenho certeza que tanto a cidade quanto o simpático país merecem um aeroporto decente), tinha pinta de obra sobrefaturada também, mas não me perguntem o porquê, sei lá, bastante espaço inutilizado. Prefiro achar que ele ainda está em plano de expansão.

 

Apesar de Manila não ser exatamente um hub da região, ela recebe vôos dos mais diversos lugares, muitos deles com preços bastante atraentes. Uma jóia a ser descoberta. E com o advento das cias aéreas low cost, cedo ou tarde Manila ia começar a receber vôos delas também, o que torna o país um destino ainda mais promissor.

 

Transporte interno nas Filipinas me pareceu bastante complicado então um aeroporto moderno se faz necessário, e não nos esqueçamos que as Filipinas é um país-arquipélago então os deslocamentos podem demandar bastante tempo. Isso pra não falar das mazelas da natureza como chuvas, deslizamentos, mares bravios e furacões que somados a infra-estrutura pior do que a brasuca, já viu no que pode dar, né ?

 

Dei uma volta pelo aeroporto tentando localizar meu vôo e cheguei no saguão dos check-ins, onde já havia bastante movimentação. O aeroporto tinha uma infra legal, só que parecia aqueles lugares pra onde alguém acaba de se mudar : bastante espaço pra pouca coisa.

 

Rolava um certo "bololô de honolulu" (muvuca, para os menos iniciados) num determinado lugar enquanto a poucos metros dali estava tudo vazio, achei que poderiam distribuir melhor os espaços. Pra ajudar, só entrava ali quem estava com a passagem (eu sei, isso é normal) mas como dava para atravessar e cortar caminho por ali, as pessoas tentavam fazer isso a toda hora mas eram prontamente barradas pelo “guardinha de trânsito de aeroporto”. Sendo assim, só cabia dar uma baita volta para chegar no outro lado.

 

Havia meia dúzia de monitores mostrando os próximos vôos, a maioria era de vôos internos mas não se enganem, já falei que em Manila chega e sai vôos de muitos lugares.

 

Achei meu vôo que partiria dali a algumas horas mas vi também que havia um vôo indo para o meu destino em breve e achei que poderia tentar um assento nele, poupando longas e entendiantes horas naquele aeroporto e caso eu tivesse sorte em poucas horas poderia estar no mar atrás dos butandings afinal a gente veio aqui pra procurar butandings ou para mofar em aeroporto ?

 

Me dirigi ao setor do check-in, falei com o “oficial coordenador de movimento interno”(leia guardinha de trânsito de aeroporto), ele me pediu pra ver o ticket mesmo sabendo que eu queria só uma informação mas foi de boa, apesar de as vezes eu parecer chato na maioria das vezes sou bem sussu, ainda mais quando estou viajando feliz da vida. Claro que às vezes o caldo entorna e eu fico longe de ser bonzinho e calmo mas tento saber separar o joio do trigo e não sair distribuindo abordoada pra todo lado.

 

Aqui em Brasília acontece direto, sabe como é, mentalidade de funcionalismo público e tal, setor de serviços uma desgraça, muito bom pra treinar a paciência, principalmente praqueles que não tem muita.

 

Mostrei meus tickets pro guardinha e fui prontamente liberado para falar com a moça do check-in. Na fila percebi alguns turistas que iriam embarcar naquele vôo e um deles estava com uma bagagem de mão que confirmou minhas expectativas : apesar de estar no fim da estação acho que ainda dava tempo de pegar os últimos butandings estacionados nas Filipinas antes de recomeçarem sua jornada nômade pelos mares.

 

O rapaz viajava com a mãe e carregava uma sacola com nadadeiras e snorkel...Sacola mesmo, nada daquelas bolsas especiais de formato bacana e que, espero, ainda vou ter uma.

 

Rapidamente chegou minha vez, expliquei o caso para a simpática atendente, ela anotou alguns dados do meu ticket, digitou alguma coisa no computador e...

 

“Sorry sir, infelizmente não posso colocar o senhor nesse vôo porque seu ticket é código “não sei o que lá” quando deveria ser o código “não sei das quantas”.

 

“Ah tá, sei.” Lamentei, caprichando na minha cara de tacho. Até tentei contra-argumentar mas pra ajudar o vôo estava lotado então sem chances, teria que esperar o meu vôo mesmo, horas depois mas ainda no começo da manhã.

 

O que aconteceu foi que, como comprei o ticket “casado” (as so speak), não tinha como adiantar esse segundo vôo. Na próxima vez vou tentar comprar em separado, quem sabe terei mais sorte. Eu lembro que das minhas 247 tentativas eu tentei fazer algo do gênero mas não pude, deu uma confusão no site e o destino sumiu da tela. Só fui achar ele de novo uns 355 cliques depois. Vai entender...

 

Agradeci e fui achar um lugar para esperar meu vôo. O dia já tinha amanhecido e percebi que o aeroporto não ficava tão longe assim da cidade mas sair para dar uma volta era fora de cogitação.

 

Apesar de ser uma pessoa de cidade grande e de gostar da maioria dessas, não estava com muito saco para conhecer Manila. Não sabia muito a respeito e fiquei com receio de ter aquela “herança” em forma de Plazas e Iglesias. No gracias. Sei lá, se tivesse uma plaza de Armas e uma “vibe” a la Cuzco, vá lá mas eu duvido. Deduzi que ali poderia ser diferente, colonização espanhola na Ásia seria um mix pitoresco mas mesmo assim não cogitei conhecê-la, mesmo se tivesse tempo.

 

Como me falou um inglês companheiro de quarto num hospedaria na Jordânia e que tinha viajado pela América Central : “depois de um tempo tudo parece igual”; (ele se referia as cidades).

 

Claro que ali na Ásia seria diferente com seus meios de transportes característicos, gente de traços orientais e a bagunça característica de cidades de paises em desenvolvimento mas acho que uma hora dessas já deu pra perceber que Espanha e/ou Portugal e suas ex-filiais não fazem parte da minha lista de coisas que me atraem. Prefiro ir à Kabul. O lance de voltar a Barcelona continua de pé (no bom sentido, é claro), seguindo aquela condição que eu expus anteriormente.

 

Mesmo se eu quisesse arriscar a dar uma volta na cidade também não teria tempo, Manila pra mim é apenas conexão, simples assim. E quando eu pisar nas Filipinas de novo vai ser o mesmo esquema, espero que até lá a malha aérea seja mais simpática com os viajantes.

 

Dei uma caminhada pra matar o tempo (o aeroporto é grande mas não tem quase nada pra ver e fazer), troquei alguma grana e fui procurar um lugar pra tomar meu café da manhã, estava mais do que na hora afinal eu estava até aquele momento “coffeeless” e, repito, melhor não ficar muito perto quando estou assim.

 

Subi até o mezzanino que não tem vista pra lugar nenhum (?!?!?!), nem uma janela pra gente ficar vendo o sobe e desce de avião (eu sei, coisa de paulista então mereço um desconto...rsrs) e ali havia algumas poucas opções para fazer um rango rápido.

 

Tinha um balcão que vendia pizzas, mas estava fechado, havia um fastfood com comidas que não cairiam bem naquela hora da manhã mas que estava bastante movimentado, um mini-mercado que me lembrou uma loja de conveniência com preços camaradas e guloseimas como bolos de chocolates embalados e pedindo para serem devorados numa mordida só.

 

Havia também uns pequenos estandes vendendo café da manhã com cara de café da manhã : café preto, café com leite e alguns salgadinhos com pinta de croissant e afins. Voilá, era isso que eu e meu estômago estávamos precisando ! Um pãozinho com manteiga seria o bicho mas aí seria pedir demais.

 

Escolhi um que parecia o melhor e com os salgados ainda soltando aquela fumaça de recém-chegado, digo, recém-saído do forno, conversei rapidamente com o atendente que era bastante simpático também (chover no molhado nas Filipinas, juntamente com os fijianos e, no geral, latino-americanos, achei eles o povo mais amigável que já tive o prazer de conhecer) e ele caprichou no café. Foi tão bom que tive de repetir.

 

O mezzanino era até ajeitado mas faltava lugar para a pessoa sentar e comer sossegado. Entre lojas e lugares para comer, acho que não chegava a sete ou, quiçá, uns dez estabelecimentos. Não que tivesse muita gente, mas faltava mobília para quem quisesse comer em paz. Ainda prefiro pensar que o aeroporto estava em reformas então dei um desconto. Esperei uma garota terminar a refeição dela e achei um lugar bom.

 

De estômago cheio e com o humor renovado era hora de dar mais uma volta pelo saguão do aeroporto enquanto meu vôo não chegava. As horas passaram vagarosamente e finalmente meu vôo apareceu no monitor. Hora do check-in !

 

Fui um dos primeiros da fila mas não ajudou muito. Para (não) variar as filas ao lado andaram muito mais rápido e a passageira que estava na minha frente, uma local, demorou um tempão. Depois eu descobri que tinha algo a ver com excesso de bagagem, ultrapassou um pouco e foi aquele Buda nos acuda para pagar, arrumar troco, pegar recibo, assina daqui, assina acolá, pesa de novo (!?!?!), reclama da vírgula, reclama do preço e assim foi um tempão.

 

Na minha vez deu tudo certo, minha mochila estava dentro dos limites então foi rápido. Depois ainda tive que pagar uma grana de taxa de aeroporto que eu pensava que estava inclusono ticket mas que nada. Aquele aeroporto arrecada muita grana e as taxas não são muito palatáveis mas como eu não sabia o câmbio direito (até hoje eu não sei ! Crianças não façam isso em casa), fingi que não percebi que eram caras, fui lá e paguei. A internacional era uma facada que eu tive o desprazer de pagar quando deixei o país.

 

O local de pagamento era nos guichês pouco antes do famigerado security-check, que por sinal fizeram todo mundo tirar os calçados e mesmo depois de passar pelo detector de metais ainda tínhamos que ser revistados por um agente. As Filipinas fazem parte do circuito de terroristas então todo o cuidado é pouco. Pena que esqueceram dos outros aeroportos, depois eu volto nisso.

 

Finalmente estava no saguão interno do aeroporto, aquele que só entra passageiros mesmo. Mesmo esquema : longos corredores, muito espaço e meia dúzia de lojas e lanchonetes. Tudo muito limpo e quase tinindo de novo.

 

Achei meu portão de embarque e, acreditem vocês, mais espera. O vôo não chegava nunca e minha ansiedade aumentava mas felizmente depois de um bom tempo ele foi anunciado e embarcamos num outro Airbus 319 da simpática cia aérea filipina.

 

Eu fiquei um tanto surpreso porque pensava que iria voar naqueles turbo-hélices parecidos com os que voam para Noronha mas que nada, fomos de Airbus mesmo e quem sou eu pra reclamar ?

 

Fiz um cálculo rápido de cabeça e vi que demoraria algo em torno de uma hora, uma hora e pouco. Claro que havia a possibilidade de ir de ônibus mas pelo que eu pesquisei seria uma jornada overnight e tinha minhas dúvidas que seria direto. Totalmente fora de cogitação no meu caso, além da falta de tempo não teria as mínimas condições de ficar matando tempo em Manila até embarcar no ônibus noturno, viajar a noite toda para chegar no início da manhã seguinte, acertar acomodação, transporte, café da manhã e já cair no mar direto. Mesmo se eu fosse uma pessoa capaz de dormir em ônibus eu não faria. Isso aqui é férias e não programa “No Limite”. Já fiz algo parecido saindo de Cuzco até o Equador em busca de uma "playa" maravilhosa no Equador. Querem um conselho ? Jamais acreditem no gosto duvidoso de gringo para praias... rsrs

 

Tem todo aquele lance também de, como é uma volta ao mundo num período curto de pouco mais de um mês, a pessoa tem que estar ciente que vai ter que botar a mão no bolso para pagar um ou outro vôo a mais, às vezes gastar um pouco a mais aqui ou ali em troca de uma certa comodidade. Caso contrário vai ter que fazer uma viagem a noite toda “para economizar uma noite de acomodação” e chegar no dia seguinte totalmente pregado e ir “aproveitar” o lugar porque na noite seguinte estaria se mandando para outro local afinal “não há tempo a perder”. Isso pra mim é o que chamo de “economia porca” e realmente não é comigo. Qual a próxima dica de economia, viver de miojo, comer uma vez ao dia ? Tá louco, fique em casa ou junte mais grana...

 

Consegui um assento na primeira fila do avião e não lembro da última vez que aconteceu isso comigo pois eu sempre faço parte da turma do fundão. Bem na minha frente havia um adesivo grandão com o logo da cia aérea me dando as boas vindas... Falei que a cia aérea filipina era simpática. Ali no banco da frente tinha mais espaço e eu ainda sentei na janela e fui vendo o bonito cenário lá embaixo.

 

Esse vôo foi bem tranqüilo, no começo ainda consegui avistar o mar mas depois ficamos sobrevoando uma área montanhosa bastante verde e muito bonita. Havia algumas pequenas montanhas com formato engraçado que eu apelidei de “baby Chocolate Hills”. Já que não deu pra visitar a região original que fica ali mesmo nas Filipinas, fiquei feliz de ter visto um clone reduzido.

 

As aeromoças fizeram um jogo de adivinhação para ajudar a matar o tempo e venderam alguns produtos da cia aérea.

 

O vôo foi bem curto, do jeito que eu gosto (ultimamente pra mim qualquer vôo com mais de uma hora de duração me dá agonia. Preciso urgentemente resolver isso antes das próximas férias...) e rapidamente começamos os procedimentos de aterrissagem.

 

Procurei encontrar o vulcão Monte Mayon por entre as nuvens quando estávamos nos aproximando, mas consegui vi ele mesmo só quando eu estava em terra firme. Pra quem não sabe é um vulcão ainda ativo e absolutamente maravilhoso, com o formato perfeito que a gente tem de um vulcão que desenhamos quando criança. Fiquei feliz por ter visto um desses pois a última vez que vi um vulcão foi em Pucon, no Chile. Lindo de morrer mas o chileno tinha neve, o que o tornava ainda mais especial. E ainda soltava um vaporzinho pra mostrar quem é que manda.

 

O vulcão filipino também era majestoso, e como ! Bonitão, verde e ativo. As Filipinas estão cheias dessas forças da natureza e o povo já se acostumou a viver com a ameaça da natureza a poucos metros de casa. Volto nisso mais tarde com a história que passou nessa mesma cidade que um francês que mora nas Filipinas há 17 anos me contou.

 

O “aparelho mais fantástico do mundo” que dessa feita foi construído pelo consórcio europeu (galera, estou falando do avião da Airbus !!!) pousou suavemente no projeto de aeroporto. Adoro lugares distantes !

 

O aeroporto era um tanto acanhado e eu não pude conter o sorriso afinal esses “momentos Mastercard” em viagens realmente não tem preço. Todos os perrengues, esperas, sustos, grana, etc ficam pequenos comparados a satisfação de estar num lugar assim. E olha que eu nem tinha chegado ao saguão do aeroporto, quer dizer, vamos chamar de sala porque de saguão ali não tinha nada. Achei um sarro, me divirto bastante com essas coisas. Não comprometendo a segurança das pessoas pra mim tá tudo certo.

 

Desembarcamos e fomos a pé esperar a bagagem. Chegando na salinha me deparei com o que deve ser a menor esteira de aeroporto da face da terra : aquele móvel por onde corria a esteira devia ter uns cinco metros, se tanto, muito engraçado. Agora imagina aquilo ali recebendo as bagagens de um aviãozão daqueles.

 

Não tive como evitar e me lembrei da cara que faria a alemã (essa mina foi uma verdadeira “vela” danada naquela trip atrapalhando os esquemas com uma americana recém formada em medicina mas deixa pra lá...) com quem viajei parte de uma trip pela Namíbia e que achou o aeroporto de Windhoek uma piada se comparado com o de Frankfurt (e olha que o aeroporto da capital da Namibia era de gente grande) se visse um negócio daqueles. A garota era fascinada por aviação e me contou sobre um centro de treinamento próprio da Lufthansa, mais ou menos como aquela faculdade própria do MacDonalds só que ao invés de produzir administradores e bigmacs, esse centro produzia pilotos. Volto nessa garota mais tarde.

 

Todo mundo ficou ali espremido enquanto não chegava a primeira leva de malas. Notei que dentre os funcionários do aeroporto havia um tiozinho que desfilava para lá e pra cá com um uniforme com os dizeres “esquadrão de bomba”.

 

A parte interna do aeroporto ali era menor do que rodoviária de cidadezinha do interior e ficou todo mundo espremido enquanto as bagagens não chegava.

 

Avistei a minha mochila de longe ainda próxima ao avião e fiquei sossegado, agora era só esperar o pequeno caos sossegar um pouco que muito em breve eu estaria fora dali. Depois de um empurra empurra todo mundo pegou a sua bagagem e saiu fora, eu fiz o mesmo.

 

Depois de ter conseguido me livrar da saleta apertada com o pessoal brigando por sua bagagem, dei poucos passos e saí do aeroporto. Um não tão pequeno grupo de taxistas estava ali como comitê de boas vindas ao recém-chegados mas no geral estava bastante tranqüilo para situação, já encarei outras piores.Fiz cara de quem sabia exatamente pra onde estava indo e pra que lado seguir. Mentira, sabia nada. A única coisa que sabia era que estava ainda a mais de uma hora de distância do local onde eu deveria ir (lá não tem aeroporto e esse era o mais próximo) mas nada de pânico. Ainda era parte da manhã, havia acabado de chegar então vamos ver pra onde o vento aponta.

 

Uma vez no Cairo dois caras quase saíram na porrada e eu fiquei torcendo para que quebrassem o pau. Confesso que eu botei pilha, danem-se eles. Assim eu poderia pegar outro táxi tranquilamente enquanto os idiotas treinavam boxe mas infelizmente não deu em nada. Egito é uma piada mesmo. Uma pena que 5 mil anos de história sejam estragados por...ah, deixa pra lá.

 

Nisso chegou um cara que estava disputando a atenção dos passageiros e também tentando a sorte no meio dos seus amigos e concorrentes taxistas e gritou pra mim : “transport sir, 400 pesos ”. “Tudo isso ? Sai fora, tá caro !”, respondi num fôlego só sem ter a mínima noção se o preço estava caro ou barato, se eu ia pra longe ou pra perto, quanto dava isso em grana (eu ainda estava apanhando do câmbio. Crianças, de novo : não tentem isso em casa !), só sei que de primeira eu sempre respondo isso com vistas a despachar o cidadão.

 

Como eu estava bem humorado, respondi de boa. Ai se o cara fosse indiano quiçá egípcio... Deu dó só de pensar. Se fosse africano então, nossa ! o fuzuê estava armado : gargalhada, sarcasmo, chega-pra-lá e tiração de sarro pra todo lado...

 

Continuei com minha cara de quem sabia onde estava e fui ouvindo negociações de preço de terceiros. Dei uma chorada aqui e ali (ainda não tendo a mínima noção qual o preço da corrida e com uma vaga idéia pra onde queria ir) e o cara queria fazer negócio. “Por esse preço, sem chance” eu disse, sabendo que daquele mato ia sair cachorro.

 

Nisso o cara viu que se permanecesse com aquele preço comigo não iria sair negócio mas nem que a vaca tussa, chamou um outro rapaz e fechamos a 150,00. Não tinha a mínima noção do preço mas que pra mim me pareceu bom, isso sim !

 

Fomos caminhando em direção a rua e acabei entrando em um dos meios de transporte mais engraçados que já vi : um típico triciclo filipino, uma espécie de sidecar da era jurássica, valente e muuuuuuito divertido. Uma moto dessas que a gente conhece, só que muito mais velha com uma cabine minúscula acoplada. Não sabia que uma simples moto de baixa cilindrada pudesse carregar tanto peso que até Buda duvidaria. E nem vou entrar no quesito alegoria e decoração.

 

Um tanto perigoso para encarar trânsito pesado mas para percorrer distâncias pequenas tava bom demais.

 

Nossa, como eu adoro essas coisas ! Por isso que eu digo que viajar volta ao mundo não combina muito com detestáveis patricinhas e mauricinhos, o que eu particularmente acho ótimo porque raramente cruzo com eles por aí.

 

Me ajeitei ali naquela cabine minúscula e até agora não sei como coube minha mochila também. As cabines possuem diferentes tamanhos mas aquela em especifica foi tamanho mirim. Rapidamente tocamos rumo ao lugar de onde pegaria minha condução para a cidade que queria chegar. No caminho, um cenário tipicamente característico da região com suas ruas estreitas, carros pequenos, muita simplicidade, moradores entretidos cuidando de seus afazeres e a vida passando devagar.

 

“Putz, como eu estou longe de casa”, pensei comigo mesmo.

 

O trajeto foi relativamente curto mas deu pra dar uma rápida olhada no lugar. Finalmente chegamos ao local onde concentrava o transporte para diferentes cidades, vilarejos e afins. Era um terreno murado que estava mais para estacionamento de mecânica.

 

O piloto do triciclo confirmou pra onde eu estava indo e apontou a direção de uma van que estava prestes para sair. Nada de horário, encheu a van o motorista vai embora. Por sorte haviam algumas pessoas nela e por mais sorte ainda faltavam poucos lugares para encher a van.

 

Confirmei o destino, entreguei minha mochila pro cara instalar ela na parte de trás, me ajeitei ali na última fileira e estava pronto. Nisso passou um cara oferecendo uvas e disse “800 pesos”. “Tudo isso ? Tá caro !”, respondi de bate e pronto não tendo a mínima idéia se estava no preço ou não mas pelo que paguei na Van, aquela uva tava muito cara. Me arrependi depois porque experimentei algumas e estavam muitas boas ! Paciência.

 

Nisso chegou mais uma mulher, pegou o último assento vazio e era hora de partir. A van era confortável, pra quem já andou de matatu em Nairobi aquilo pra mim era limosine. E o motorista dirigia bem, nada dos psicopatas motoristas de vans ou ônibus daqui de Brasília. Ainda bem que pelo menos as vans saíram de circulação nas áreas mais nobres, provavelmente rolou algumas maletas recheadas de dinheiro para as autoridades. Agora continua rolando um tal de “propinetone” por essas bandas daqui...

 

Pegamos a estrada e mal sabia eu que estava indo para o lugar errado. Perrengue ? Que nada, longe disso ! Juntamente com a estrada que me levou para a Montanha dos Gorilas nos cafundós da África Central, aquela foi a estrada mais bonita que eu tive o privilégio de percorrer.

 

Mas isso vai ficar pro próximo relato.

 

Pessoal, aquele abraço e valeu pela companhia !

 

Virunga

 

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Caraca!!

demorou pra eu ler isso tudo :D

com certeza um dos melhores relatos do fórum ::cool:::'>

esperando pela continuação :wink:

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Caraca!!

demorou pra eu ler isso tudo :D

com certeza um dos melhores relatos do fórum ::cool:::'>

esperando pela continuação :wink:

 

Diga lá Artur,

 

Nossa, nem me fala ! Estou tentando editar mas quando vou ver o texto já ficou grande mais... Oops! Legal saber que você também está curtindo, valeu pelo elogio.

 

Pode deixar que a continuação sairá muito em breve, a saga continua.

 

Abraços,

 

Virunga.

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Fala pessoal,

 

Puxa, estou com vergonha pelo tamanho do relato mas agora é tarde. Prometo numa outra viagem, caso eu faça um relato, ser mais sucinto. O mais louco é que estou cortando um monte de coisas e nem estou caprichando tanto assim, apesar de vocês merecerem muito mais.

 

Mas vamos deixar o relato resumido para uma próxima viagem, combinado ? Provavelmente vai ser RTW também mas isso a gente vê depois.

 

Dito isto, simbora pegar van errada nos recônditos das Filipinas em direção a capital dos Butandings.

 

Confortavelmente instalado no último banco da van e sentado na janela, era hora de partirmos em direção ao vilarejo de pescadores que ficou famoso por abrigar umas das maiores concentrações de Butandings do mundo.

 

A essa hora eu estava tão animado por estar indo para um lugar tão pitoresco que tudo era motivo festa, até pegar van errada...oops.

 

Pra falar a verdade eu já tinha desencanado de cair no mar atrás dos bichos naquele dia mesmo, o pouco que eu sabia era que os barcos saiam bem cedo pela manhã e como não consegui pegar o primeiro vôo proveniente de Manila, uma hora daquelas acho que nem dava mais. Sabem de uma coisa, não tava nem aí, nunca fui muito bom com horários mesmo, ainda mais em férias.

 

O negócio era relaxar e aproveitar a jornada, caso desse certo cair nesse dia, beleza. Se não conseguisse, beleza do mesmo jeito. Eu tinha algumas informações sobre o lugar então o primeiro passo é chegar, depois a gente vê como tá pra saber como é que fica.

 

Rapidamente pegamos a estrada e fiquei impressionado com a beleza do lugar, bastante verdejante e bonito que chegou a me lembrar Fiji mas pra isso ficou faltando as plantações de cana. As paisagens passavam rápido pela janela e aos poucos a cidade ia ficando para trás enquanto adentrávamos cada vez mais no interior da ilha, longe do mar.

 

A estrada era estreita e com alguns trechos sinuosos aqui e ali. Viajar por terra costuma ser bastante gratificante pois se tem um contato maior com a geografia, o povo e as paisagens do lugar. Em muitos casos pode ser muito mais legal do que ficar trancafiado num gigantesco tubo de alumínio a uns 10 quilômetros de altura passando por cima de gente, cidade, montanhas e oceanos.

 

Dentre outras coisas, o bonito dali era que tinha muito verde com campos de arroz, vegetação, montanhas e coqueiros. Também quase me lembrou o Vietnam, mas sem os locais agachados e com chapéus em forma de cone trabalhando agachados nos arrozais formando aquela paisagem de cartão postal.

 

Com lotação esgotada, a van não parou no caminho e a viagem foi direta e dividi o momento com os outros passageiros, todos locais, que também ficaram curtindo o visual.

 

Apesar do Brasil também ter estradas bonitas (eu gosto muito da Rio-Santos mas hoje ela está muito longe de mim, infelizmente) e com bastante verde no caminho, aquela ali era diferente, tinha aquele toque especial asiático. Certamente vai ficar na memória como uma das mais bonitas que percorri, não necessariamente pelo belo visual mas também pelo conjunto da obra e pelo momento. Juntamente com o Tahiti, aquele percurso só perdeu para a imbátivel estrada montanhosa que eu percorri quando estava também indo em direção a mais um espetáculo da natureza selvagem : os magníficos e bastante ameaçados de extinção gorilas das montanhas em algum lugar da África Central. Já ouviram falar de Diane Fossey ? Não, não é uma gorila, é uma pesquisadora mas...ah, deixa pra lá. Dia desses eu explico.

 

Uma e hora e meia depois chegamos numa cidadezinha bastante movimentada e como não tinha avistado o mar até então, desconfiei um pouco. Quase todos os passageiros desembarcaram e quando o motorista me perguntou onde eu ia ficar eu falei pra ele me deixar no “centro do Butanding” que de lá eu me ajeitava.

 

O cara me olhou assustado no exato instante que eu vi o nome da cidade, que por sinal eu já tinha ouvido falar mas sabia que NÃO era exatamente onde eu deveria estar. Oops. Em situações assim a gente sente falta de viajar com uma outra pessoa nem que seja para poder jogar a culpa nela mas no meu caso a situação que se apresentou só tinha um culpado : eu.

 

Geralmente quando isso acontece a pessoa costuma ficar muito p@#$% da vida com ela mesma e comigo não é diferente mas por incrível que pareça isso não aconteceu. Claro que não fiquei nem um pouco feliz porque a pequena chance de cair no mar naquele dia atrás do motivo principal que me levou praquele lugar no planeta ficou ainda menor e não adiantava xingar, reclamar ou espernear.

 

Naquele momento me senti um ser de orelhas grandes e com cascos mas paciência, não chegou a tirar meu humor que continuava em alta, ainda mais num lugar daqueles, isso aqui são férias ! O negócio foi ver pelo lado positivo : teria que pegar mais uma vez aquela estrada bonita nas Filipinas.

 

Conversei com o motorista que foi muito atencioso e, gente finíssima (algo bastante normal até ali o que aumentou ainda mais meu conceito para com o povo local), me ajudou a resolver a situação. Ele terminou de deixar os outros passageiros, deu meia volta e me deixou numa espécie de estacionamento de vans. De dentro do carro ele falou num outro idioma com seu colega de trabalho que me apontou uma van que estava esperando mais passageiros para poder sair.

 

Explicou para o colega motorista que ele deveria me deixar na intersecção entre “Napoleão perdeu as meias” com “Judas perdeu as botas”, umas quinze léguas a noroeste de onde “o vento faz a curva” que estava tudo certo. Ali era o lugar ? Não, exatamente, ali era onde eu tinha que desembarcar e depois era só pegar um transporte para chegar na cidadezinha que eu queria ir.

 

“Ah tá, sei. Entendi, valeu mesmo”, respondi, sincero, com um bom humor que até eu duvidei.

 

Nem deu tempo de esquentar o banco, a van saiu poucos minutos e mais uma vez tomamos o rumo da estrada na direção contrária da onde eu vim. Nossa, que vacilo. Pra quem não tem muito tempo isso poderia custar muito mas como diz o ditado “o que vale é a jornada” e até ali a jornada tinha sido muito boa.

 

Curti mais uma vez a estrada e sabia que ia ter que ficar mais ou menos no meio do caminho, fiz uns cálculos rápidos (pobre sabe como é, tá sempre fazendo conta) e acho que o trajeto devia ser algo entre 30 e 45 minutos. Deu 37. Não que eu estivesse contando...

 

Estava com a cabeça a milhão, fruto do aumento da ansiedade e do tempo para chegar ao lugar correto, nada de vacilos dessa vez. Aí pensei : “ o que falta agora acontecer, chuva ?”. Maldita boca. E não é que ela veio ? E junto veio o lugar onde eu tinha que descer. É sempre assim.

 

O motorista parou no acostamento, me apontou um pequeno mercado que ficava na esquina no outro lado da estrada e disse que era ali onde eu devia pegar o transporte.

 

Agradeci efusivamente pela ajuda, peguei minhas coisas, atravessei a rua quando começou a cair um temporal de proporções bíblicas que até Noé duvidaria e sairia correndo, ou seria nadando ?

 

Arrumei um abrigo ali na vendinha mesmo e fiquei esperando o ônibus, riquixá, disco-voador, triciclo, sei lá, o que viesse eu tava pegando (mas sempre no bom sentido, é claro).

 

Com direito a raios, relâmpagos e muita chuva e o céu a ponto de desabar, o negócio foi puxar conversa com os tímidos locais que estavam por ali até eles irem embora em busca de um abrigo para se protegerem melhor da chuva.

 

Com o barulho dos trovões e pra ajudar a passar o tempo não tive como não pensar numa música chamada “thunderstruck” da melhor banda de rock deste e de outros planetas afinal como eu costumo dizer “AC/DC é AC/DC, o resto é pagode !” Pois é, quem disse que na Austrália não tem coisa boa ?

 

Enquanto esperava minha condução, na estrada passava de tudo : carros, ônibus, motos e vans mas o que eu queria não, é sempre assim...rs.

 

Depois de esperar por uns quinze minutos tentando me proteger do dilúvio em que tive que procurar um lugar para não molhar nem eu nem minha mochila, disputando um espaço exíguo entre a calçada e um saco de batatas, chegou meu transporte.

 

“what the porra is that ?”, perguntei pra mim mesmo, não acreditando na minha sorte que começava a virar.

 

Não era bem um ônibus, acho que estava mais para uma jardineira - mas nada a ver com aquela que leva(va) a super-valorizada (até demais...) Jericoacoara - mas vou fazer como os gringos e chamar aquilo de jeepney, que tá para as Filipinas assim como os le trucks estão para o Tahiti. É o meio de transporte mais popular das ilhas e, mais uma vez, um dos mais engraçados e divertidos que tive o privilégio de andar. Vai ter meios de transporte engraçados assim lá na Ásia.

 

Não era necessariamente confortável mas quem liga para conforto numa hora dessas e num lugar tão bacana assim ? Pra mim tava bom (e divertido) demais, nada daquelas boiolagens tipo “ah, mas não tem tv, ar condicionado e nem wi-fi”.

 

Ele veio um tanto quanto cheio mas eu consegui me instalar ali atrás, disputando o espaço com locais, bagagem, cocos e bananas. Apesar de eu detestar chuva estraga-prazeres, principalmente nas férias, aquela veio em boa hora para refrescar um dia quente num país tropical; chuva de verão, uma pancada d´agua daquelas mas não a ponto de estragar a viagem porque logo depois passa e o sol volta a brilhar de novo.

 

Eu estava era curtindo tudo aquilo, realmente nada para se preocupar, ainda mais devidamente instalado num veículo que era o resultado improvável do cruzamento de um jeep abandonado da Segunda Guerra Mundial com um ônibus e tudo isso enfeitado de maneira espalhafatosamente engraçada daqueles caminhões que percorrem a Estrada Karakoram. E dividir isso tudo numa estrada bonita com um povo hospitaleiro, bastante receptivo e amigável tava bom demais !

 

Falei alguma coisa com a mulher (tomei um susto com o nível de inglês dela porque até o momento as pessoas só conversavam numa outra língua. Algo a ver com o período de domínio pelos americanos, que derrotaram os espanhóis e “ganharam” as Filipinas ao invés de um cheque de duas dezenas de milhões de doletas. Por ironia do destino a história desses países se cruza em guerras, onde lutaram juntos. Certos líderes de certas nações, sabe como é, adoram uma guerra pra manter a paz, vide States. Falem-me de contradição...E depois ainda ganham Nobel da Paz, vai entender. Quem será o próximo, Kim Jong II, Ahmadinejad, Netanyahu talvez ?) que servia de cobradora e era também a esposa do motorista, que por sua vez dirigia com bastante destreza sob chuva numa estrada agora bastante sinuosa e íngreme, mas igualmente bonita.

 

Acostumados as chuvas torrenciais de verão, rapidamente deram um jeito de baixar a lona para não molhar as pessoas ali dentro. Como estava cheio, um cara sumiu pela porta de trás e eu só vi ele quando desceu, mais de meia hora depois, de cima do teto. Apesar da chuva que agora caia mais fraca, o visual deve ter sido something else.

 

Depois de ter arrumado um espaço pra mim, minha mochila e minha bota anti-indiano, só bastava curtir a viagem naquela chuva que ia e voltava (no bom sentido, é claro). Agora entendi porque as Filipinas é tão verde.

 

Com o tempo os outros passageiros foram descendo, a chuva foi diminuindo e a viagem ficou mais confortável. Um bom tempo depois, algo como uma hora quiçá uma hora e meia, chegamos numa cidadezinha e a mulher me perguntou onde eu iria ficar : “ai meu Buda, só falta eu estar na cidade errada de novo” mas a preocupação foi em vão, eu sou perdido mas não sou bobo (já disse que o médico falou para não contrariar...). Expliquei pra ela o nome do lugar que estava guardado em algum lugar da minha sofrida memória, ela pensou um pouco e propôs me deixar perto da igreja (igreja, na Ásia ? Ah tá isso aqui é as Filipinas e os coitados foram ludibriad...digo...apresentados para o catolicismo da maneira mais “pacifica” possível, entre a cruz e a espada. O primeiro padre foi levado pela expedição de Fernão de Magalhães mais ou menos na época do descobrimento do Brasil).

 

Ela me disse que o jeepney não passava onde eu queria ir (e não passava mesmo) e me deixou num ponto onde tinha alguns triciclos. Ela falou com o cara que se dispôs a me levar no lugar combinado. Se fosse em outro lugar eu deduziria de bate e pronto que alguma coisa nebulosa estava rolando “ihhh, aí tem. Conheço essa história de outros carnavais. No Camboja rola direto” mas não naquele momento, naquela situação e naquele lugar, ali nas Filipinas. Tava tudo ok, o que eu achei ótimo.

 

Combinamos o preço que, apesar de eu não saber direto quanto valia a corrida, eu saquei que sairia bem barato, fiz aqueles cálculos tomando por base quanto eu havia gasto até o momento e vi que estava no preço, seja lá qual foi o resultado da minha calculadora cerebral.

 

Agradeci a mulher que seguiu seu caminho, agora com o jeepney vazio, e eu segui o meu com o rapaz que foi pilotando a moto antiga comigo no “puxadinho” ao lado.

 

Vira daqui, acelera de lá, engasga acolá e fomos em direção oposta à cidade. Até o momento ainda não tinha visto o mar mas sabia que ele estava por perto, dava pra sentir a brisa e ver o movimento da folhagem exuberante das imediações.

 

A cidade estava em clima de festa (ou fim de festa), me pareceu que ia ter (ou já havia ocorrido, não sei) uma gincana ou algo assim, aquelas do tipo que ocorrem em pátio de igrejas, onde o padre se esbalda de comer. Na alta estação deve rolar isso direto, como já havia acabado só havia mesmo o que restou da decoração.

 

Só sei que o cara foi acelerando e a cidade ficava cada vez mais pra trás. “Nossa, que fim de mundo”, pensei. Só esperava não ficar muito distante (mais ainda) da civilização porque até turista sabe que se ficar muito longe de tudo a pessoa fica a mercê dos altos preços cobrados por coisas como comida, bebida, acomodação, etc e vai passar aperto para poder encarar a facada. Estava pensando também se a grana que eu tinha comigo daria para os dias que ia ficar ali bem como para pagar o passeio e as taxas que estavam por vir. Pobre, já viu, sempre fazendo contas...

 

Só faltava eu chegar ali e os Butandings já tiverem levantado acampamento e ter ido pra não sei aonde, pra quem são considerados verdadeiros nômades dos mares isso não seria muito difícil. Preferi nem cogitar essa hipótese, se eles tivessem zarpado eu iria atrás a nado mesmo sabendo quem é que manda é a mãe natureza e é ela quem dá as cartas, sempre. Mas uma forcinha ali iria cair muito bem. E um pouco de sorte também.

 

Nos distanciamos um pouco da cidade, cruzamos uma pequena ponte onde havia uma molecada saltando na água ali embaixo (opa, acho que era um braço de mar. Menos mal...), acho que andamos uns três ou quatro quilômetros e fomos parar num resort/pousada que me pareceu bem ajeitado. O garoto tava meio perdido mas como era apenas uma estradinha de mão dupla, acho que não era o caso (olha quem fala... ).

 

Paguei o preço combinado, peguei minha mochila e num repente de sabedoria (de vez em quando eu dou uma dentro, mas sempre no bom sentido, é claro) eu pedi para ele esperar porque queria ver se tinha quarto disponível.

 

Eu me dirigi ao que parecia a recepção e fui atendido, vejam só, por mais uma simpática filipina. Me identifiquei e perguntei sobre as acomodações disponíveis e quando ela falou o preço, a resposta de sempre (mas dessa vez foi de boa, afinal era mulher e bastante simpática) e sem ter a mínima idéia de quanto valia aquilo eu soltei : “O quê, tudo isso ? Muito caro !”

 

Ela me explicou que os quartos mais em conta estavam ocupados e os que sobraram, um pouco mais anabolizados no quesito conforto com direito a ar condicionado e outros que tais, eram os mais caros.

 

Claro que não era nenhum fim do mundo (desculpem o trocadilho) pelo lugar que me pareceu ser bem legal e se fôssemos comparar com as porcaria$ que a gente vê pelo Brasil e que alguns (muitos) trouxa$ aceitam pagar, o preço ainda estava palatável mas eu não precisava daquilo tudo. Além do mais meu bolso sofrido de mochileiro brasuca merecia uma folga afinal não sou gringo, expatriado e nem funcionário público, se bem que nesse último grupo não são todos que tiram uma boa grana, só os que não merecem. É sempre assim.

 

Será que se eu tivesse chegado antes eu teria mais sorte ? Lembro de ter visto, na entrada da cidade, um ônibus com uma galera gringa, de repente foram eles que chegaram antes e pegaram os quartos com preços mais acessíveis mas eu não ia pagar pra ver. Literalmente.

 

Agradeci a moça e fui falar com o chofer de triciclo que estava ansioso para ir embora. Comentei à respeito de outro lugar que eu tinha visto não sei onde e que sabia que ficava nas imediações (mentira, sabia que ficava por ali mas nas imediações, com o meu GPS interno inexistente, seria demais), ele por sorte conhecia o lugar e me deixou lá, mas pediu uma grana a mais..

 

Não costumo ser tão mão aberta assim, ainda mais quando viajo (melhor nem chegar perto quando rolam certas negociações, os tuk-tuks da região da Khao San Road em Bangkok que o diga, tanto é que acreditem ou não eles nem me oferecem mais seus serviços. E olha que eu costumo ser bem sussu), mas como eu disse o lugar era legal, o povo mais ainda e os preços, mesmo eu apanhando do câmbio, me pareceu justo. Como não sou gringo eu não ia fazer escarcéu por causa de uma quiçás duas moedas que não pagam nem uma latinha de refrigerante, né ?

 

Alguns minutos depois chegamos no que seria minha acomodação nos dias seguintes e eu gostei de cara, nem pedi pro cara ficar esperando caso não tivesse vagas. Era aquele e pronto.

 

Era um “resort” mas não desses cheios de frufru, longe disso. A garota que me atendeu era simplesmente a filipina mais simpática do mundo e competia com a Benedicta (vide relato sobre o Tahiti) como a funcionária que trabalha com turismo mais show de bola em simpatia, simplicidade, gentileza, eficiência e sorriso verdadeiro do mundo. Se algum dia eu montar um negócio que trabalhe com viajantes essas moças vão ser devidamente “importadas”, custem o que custar.

 

Infelizmente eu esqueci o nome da garota mas como eu pretendo voltar pras Filipinas outras vezes, na próxima vez eu memorizo.

 

O lugar não era luxuoso mas estava longe de ser meia-boca, tinha funcionários simpáticos, preço bom, ficava de frente a praia, um baita jardim e com bangalôs bastante aconchegantes. O que mais eu poderia querer ? Bem, pra ficar melhor só faltaram as suecas, francesas, brasucas e a lista continua mas por ser bem fim de temporada mesmo, só tinha eu e uma ou outra família filipina. Sniff.

 

Fiz meu check-in, conversei com a senhora que devia ser a gerente ou a dona do estabelecimento, peguei minha chave e a moça simpática que era uma espécie de faz-tudo me levou até o meu bangalô, no meio do jardim e a poucos passos do mar que ficava a poucos passos dali. Ê vidinha mais ou menos.

 

Dando uma olhada melhor eu vi que havia alguns equipamentos de snorkeling para alugar e caso quisesse algo mais sério (mergulho com cilindro, por exemplo) não ia ser dificil conseguir mas isso ficou para uma outra vez numa outra ilha afinal o que não falta nas Filipinas é lugar legal para mergulhar. Inclusive com direito a um tipo bem específico de tubarão que fica sempre nas profundezas mas nas Filipinas ele costuma sair cedo para "esticar as barbatanas" e durante essa natação matinal ele fica a "apenas" 30 metros profundidade, o que pra uma espécie que gosta de ir fundo (no bom sentido, é claro) já é uma boa profundidade para os mergulhadores poderem dar uma olhada no bicho.

 

A denomição “resort” em certos lugares do mundo pode ser diferente do que os turistas no geral estão acostumados. Em Fiji é assim também, praticamente todas as acomodações espalhadas pelas ilhotas tem “resort” no nome mas elas variam de qualidade, luxo, tamanho, preço, etc.

 

Quer saber ? Pra mim aquilo ali estava bom demais e eu nem estava aí se tinha wi-fi, internet, ar condicionado, tv a cabo, isso e aquilo. Desnecessário dizer o que eu acho de certos seres que ficam reclamando de tudo, né ? “ah, o café da manhã era irrisório”, “não tinha net grátis”, “o computador não era tinha tela plana e era muito lerdo”, o “wi-fi não tinha ou não funcionava”, “antena parabólica nem pensar” e a ladainha vai longe. Falam de pobre mas emergente é muito pior. Emergido então, melhor nem comentar.

 

Após devidamente instalado me lembrei que nem tinha almoçado ainda porém conversando com a tiazinha à respeito do que fazer para poder marcar minha trip com os Butandings, percebi que meu estômago teria que ser deixado para depois porque em pouco tempo o centro ia fechar e, sabe como é, poderia dar naquele lema que norteia o funcionalismo público : “hoje, só amanhã”. Como eu queria dormir já com o passeio marcado, peguei as coordenadas de como chegava no local e lá fui eu até o escritório de turismo.

 

Fui serpenteando a estreita estradinha cercada de verde pra todos os lados. Num lado, casas simples, alguns “resorts”, pequeno comércio e hotéis de frente ao mar e de outro, campos, muita vegetação, algumas choupanas, fazendinhas e vários coqueiros.

 

Imagino o impacto na vida de seus habitantes que um simples e sonolento vilarejo de pescadores deve ter tido quando virou a capital mundial dos Butandings. Hoje em dia os bichos são protegidos por lei e é bom saber que em certos lugares alguns seres pensantes finalmente entenderam que um animal vivo pode trazer muito mais retorno do que morto. Aqueles que antigamente pescavam o gigante gentil hoje em dia fazem parte dos seus maiores protetores e espero que a moda pegue mundo afora.

 

É só tomar cuidado com o discurso dos gringos que destroem o que é deles e depois vão vorazmente atrás do que é dos outros. Proteção no que é dos outros é refresco, quero ver quando é no seu próprio.

 

Andando calmamente pela estrada e cumprimentando um ou outro local que cruzava meu caminho finalmente cheguei no escritório de turismo que estava prestes à fechar. Após uma pequena confusão para saber com quem eu teria que tratar (eu disse que as Filipinas são um tanto quanto naive quando o assunto é turismo), finalmente fui atendido por uma mulher que me passou como funcionava as coisas por ali e me mostrou uma pequena tv onde passava um vídeo falando sobre a atividade e sobre o Butanding propriamente dito.

 

Rapidamente eu me inteirei do assunto mas ainda precisava me encaixar em algum grupo, algo que não chegou a ser tão problemático porque mesmo no fim da estação ainda havia alguns retardatários como eu. Uma mulher filipina chegou em mim perguntando minha situação, ela estava com um cara que no dia seguinte eu descobri que era um francês que morava em Manila há 17 anos. Conversei com a mulher, me certifiquei se ela não era de uma agência querendo fazer negócio com algum turista desavisado e depois que os pontos foram devidamente colocados nos seus respectivos ”is”, fizemos um grupo, paguei diretamente para o escritório de turismo (é assim que eu gosto e que faço negócio), nada de terceiros (se eu dependesse de terceiros/intermediários vocês acham que eu viajaria volta ao mundo ?) e combinamos para o dia seguinte bem cedo nos encontrarmos lá mesmo naquele lugar, que era de onde saiam as “bancas”. Depois eu explico.

 

Após tudo acertado voltei correndo para minha acomodação porque meu estômago já estava reclamando. Cheguei, pedi um prato bacana e enquanto o mesmo não chegava fiquei tomando uma cerveja filipina enquanto curtia o pôr do sol. “PQP, não é que estou mesmo nas Filipinas !?!?!”

 

O almoço/janta levou algum tempo e depois da digestão fui ler para matar o tempo. Antes que o sono me pegasse, resolvi sair e dar uma olhada na noite. Caminhei pela estradinha mas aí eu percebi que não ia dar muito certo, lugar deserto, não havia nada, alguns latidos aqui e ali, eu com minha pequena lanterna para usar entre uma luz fraca e outra mais ainda e que de tempos em tempos virava um breu total.

 

Apesar de eu não ter medo de escuro não pude evitar e tive que lembrar daquela música do IRON MAIDEN e a coisa ficou mais ou menos assim :

 

I am a man who walks alone

And when I'm walking a dark road

At night or strolling through the park

 

When the light begins to change

I sometimes feel a little strange

A little anxious when it's dark

 

Fear of the dark, fear of the dark

I have a constant fear that something´s always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there

 

Essa música tá entalada, na próxima vez que eu fôr pra Fiji vou cantar ela no karaokê, encima do palco e pra um bando de gringaiada porra-louca (e altas brotas também...) e de nativos gente finíssima que jogam volley de praia todo fim de tarde com a galera. Só espero que eles não se unam e me expulse da ilha à nado. (NR: Prefiro a morte do que falar em público, imagina então "tirar um som" ? Quero só ver, melhor não chegar perto... rs )

 

Depois do “momento Iron”, minha caminhada continuou rumo a lugar nenhum e após ouvir os latidos cada vez mais perto de um monte de cachorros na noite resolvi voltar. Se tem uma coisa que não gosto são de cachorros vira-latas, acho que já comentei alguma coisa quando estava no Tahiti. No breu então, pior ainda.

 

Dei meia-volta, realmente não ia chegar a lugar nenhum e a cidadezinha estava um tanto distante pra ir à pé e a noite. Nada a ver com falta de segurança, assalto ou algo do tipo (não estava no Brasil), o dia tinha sido cheio e como tinha que acordar beeeem cedo na manhã seguinte (algo que odeio), achei melhor tomar o caminho da cama mesmo. Ainda bem que estava com minha lanterna porque em alguns pontos não dava pra ver nada.

 

Depois, já perto de onde eu estava hospedado e com luzes pelo caminho, percebi que tinham dois moleques atrás de mim. Depois que eu dei um fora homérico quando tentei adivinhar a idade de duas gatinhas americanas quando estávamos fazendo o Caminho Inca, resolvi parar com esse papo de adivinhação de idade mas aqueles garotos ali deviam ter algo entre treze e dezesseis anos, se tanto. Um deles acelerou o passo e puxou conversa e veio com aquele papo de sempre e quem viaja sabe de cor : da onde é, de onde veio, pra onde vai, etc.

 

Nisso eu percebi que o outro deles ficou um pouco mais atrás mas tudo bem, não eram corinthianos ou algo do tipo e não me senti ameaçado um minuto sequer. Depois ele também se aproximou e conversamos um pouco enquanto caminhávamos.

Passado um curto perído de tempo depois percebi que eles tinham trejeitos um tanto quanto ahn...humn...well...como posso dizer ? Ah, vocês entenderam.

 

Putz, uns moleques tão jovens e cheio de gatinhas por aí mas, sei lá, cada um é cada um. Como diria o Ozônio, se ele pudesse falar, é claro : “cada um que cuide do seu buraco”. Mas sempre no bom sentido, é claro.

 

Para encurtar a história, aqueles moleques eram “100% puff” !

 

Como estava chegando no meu resort e els não eram nenhuma ameaça, eu estava tranqüilo, respondia o que me era perguntado, não dei muita trela e fiquei de boa enquanto pensava “PQP, cada uma que me acontece...”.

 

Já quase no portão o papo começou a ficar um tanto quanto esquisito demais pro meu gosto e me deu uma vontade de parar com aquele papo ali mesmo e falar :

 

“Escuta aqui ô pirralhos, vocês estão pensando que eu sou o quê, gaúcho ? Quem sabe são paulino (putz, se meu irmão ler isso ele me mata...rs), galã da globo, tenista ou vampiro vegetariano ?

 

Aproveitando o gancho, um quizz bem off-topic aqui : alguém aí sabe se aquela garota da saga Crepúsculo, a Bella, prefere ser chupada por um vampiro ou comida por um lobisomem ? Tudo no bom sentido, é claro.

 

Voltando...

 

Mas vamos ver pelo lado positivo no caso dos pivetes, vai que eu estivesse com minhas botas anti-indiano ? Daria uma bicuda daquelas naqueles moleques que eles iriam parar pra lá de Borneo. Mas como eu não bato em criança, mulher e nem híbrido (dependendo do caso, não foi o caso ali mas se continuasse, seria), rapidamente eu desconversei, acelerei o passo e fui para minha acomodação, mas não sem antes despistar os esquisitinhos.

 

Cada uma que só vendo. E eram bem jovens mesmo, será que me acharam com pinta de Michael Jackson, lobo-mau, bicho-papão ou quem sabe padre, afinal até onde eu sei esses sujeitos adoram comer criancinhas indefesas...

 

Cheguei são e salvo na minha acomodação mas antes de ir para o meu chalet, falei com a tiazinha que estava marcando bobeira ali e me informei sobre o café da manhã, queria saber se aquela hora da manhã a cozinha estaria aberta. Ela falou pra não se preocupar porque qualquer coisa ela mesma faria meu café. Agradeci, dei boa noite e com a consciência pesada fui dormir afinal não precisava se incomodar mas já que o povo é receptivo assim assim com os visitantes, que assim seja.

 

Me preparei para dormir, acertei meu alarme mas antes de me deitar ainda lembrei do caso dos, digamos assim, “garotos afetados” : “realmente tem pai que é cego !!!!

 

Galera, valeu pela companhia e vou adiantando que é melhor preparar a nadadeira (pé-de-pato para os menos iniciados) e o snorkel que no próximo relato a gente vai tentar encontrar esses tais Butandings (que raios é isso ?) e saber se eles estão na área ou não ! Agora se a gente vai achar, aí só esperando o relato pra ver. Fingers crossed !

 

Abraços e até lá.

 

Virunga

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