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De Lapinha a Tabuleiro - A Tradicional Travessia
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[align=justify][t3]Travessia Lapinha - Tabuleiro[/t3]
A travessia Lapinha – Tabuleiro é uma tradicional rota de tropeiros, que há séculos, transportavam mercadorias de um vilarejo a outro, em lombo de mulas, num trajeto de 27km em meio aos mais belos campos rupestres.
O seu início dá-se no pequeno e simples vilarejo de Lapinha da Serra, pertencente ao município de Santana do Riacho e sito à aproximadamente 140km da capital mineira Belo Horizonte. Sua origem é a mistura de imigrantes europeus, levados até a região para a construção de uma represa, com índios e negros quilombolas.
A jornada finda em meio às montanhas, no calmo vilarejo de Tabuleiro do Mato Dentro, pertencente ao município de Conceição do Mato Dentro, onde sua população original tem ascendência alemã, de imigrantes que se instalaram na região para trabalhar nas forjas de ferro de Cubas.
[t3]A Programação[/t3]
Peter diz: Edy, você teria facilidade de viajar para Minas no feriado de Corpus Christi?
Há algum tempo, eu e Peter viemos tentando conciliar um trekking, porém em virtude da agenda de compromissos, não estava fácil.
Prontamente, após receber o convite, tratei de compensar a quarta-feira, dia 02.06.10 e logo após a confirmação do Peter (ele tinha um problema a mais, precisava do aval da chefe e da esposa!) comprei o trecho aéreo de Porto Alegre para Belo Horizonte.
Nos conhecemos no hotel, onde dividimos um quarto (Hotel Financial, 300m do terminal rodoviário), trocamos muita informação durante a janta, sobre equipamentos, sobre o que cada um levaria, sobre como seria a volta. Gaúcho, acostumado com a calmaria dos pampas, só consegue dormir com o barulho do silêncio! Porém, acabamos por adormecer, mesmo com o ensurdecedor barulho das avenidas movimentadas de Belo Horizonte.
[t3]A Travessia[/t3]
[t3]1º Dia[/t3]
Nossa jornada iniciou às 6h da manhã, após um bom café no hotel. No deslocamento para a rodoviária notamos que a cidade praticava o feriado. O Peter já havia comprado as passagens para Santana do Riacho, pois estava em BH a trabalho, desde a segunda-feira, então foi só aguardar a chegada do ônibus.
A viagem foi um pouco demorada, mas foi compensada pelas belas vistas da Serra do Cipó, que tínhamos da janela do busão. No ônibus, mais aventureiros a caminho da tradicional travessia.
Prontamente ao chegarmos em Santana do Riacho, acertamos a ida do ônibus para Lapinha da Serra. Um gostoso lanche de trilha foi feito ao lado da igrejinha. Enquanto comíamos, observávamos o imponente Pico do Breu, encoberto pela neblina.
Exatamente as 13h15 colocamos as mochilas e rumamos ao pé da serra. Por pouco tempo, não cruzamos com a trupe do Jorge Soto, Paulo BR e demais que fariam uma travessia alternativa: Lapinha – Cardeal Mota. O relato do Soto foi muito bem escrito e as fotos dão uma idéia de uma travessia mais selvagem. Realmente, um belo destino!
A caminho da serra, encontramos dois aventureiros com um mapa gigante da travessia, plotado em A3. Logo mais eles seriam nossos companheiros de trilha. Bastou iniciarmos a pernada para percebermos o quão árdua seria a subida para o Pico do Breu. Com a neblina fechando a vista, a idéia inicial de subir o Breu estava sendo descartada, em virtude do forte vento e da pouca visibilidade. O tempo que dispúnhamos também não era dos melhores, afinal já eram quase 14h e não saberíamos o que nos aguardava no seu topo.
A decisão foi sensata, começamos a contornar a Serra do Breu, pela rota que a maioria utiliza. A meio do caminho, encontramos os dois jovens do mapa gigante, Cássio e Raione, dois irmãos de BH que estreavam no trekking, muito legais e bem dispostos a nos acompanhar. Um pouco despreparados, porém tiraram a travessia de letra.
Após alguns minutos de caminhada, avistamos a Capelinha no topo da Serra, pausa para algumas fotos, uns goles de água e a contemplação da vista maravilhosa para o vilarejo da Lapinha. Logo mais, a serra seria transpassada e a caminhada passaria em meio a belos campos, onde o vento sopra em sua magnitude de leste para oeste. Um indicador natural de direção são as lapas rochosas que apontam sempre para oeste.
Ao longe um pequeno córrego era avistado, era o Mara Capim. Lá, encontramos dois trekkers descansando, bebendo água e consultando o GPS. Pegamos algumas informações e seguimos no intuito de chegarmos ao Rio Parauninha. Fomos informados pelos jovens, que o dono das terras não gosta que acampem nas áreas do Parauninha, ele chega até a ameaçar dizendo que está armado! Resolvemos não arriscar e com uns 30min de caminhada, estávamos à beira de outro córrego com uma bela área para armar as tendas.
O Peter me passou um ótimo macete que facilita muito a montagem de uma tenda túnel: unir previamente o teto com o sobreteto com o auxílio dos velcros existentes. Tendas montadas, achamos que não seria necessário ancorá-las; foi a noite que mais ventou. Um grupo passou pelo nosso acampamento, quase na penumbra da noite, rumavam à casa de Dona Ana. Preparamos um manjar dos deuses: macarrão ao molho vermelho com frango para mim e macarrão com provolone e frango para o Peter, ele mesmo comprou a comida liofilizada em Salvador, foi só aquecer a água, adicionar e aguardar.
Comida era o que não faltava, havia chocolate, castanhas, suco de açaí e laranja, banana desidratada, chá verde, queijo, salame, pão árabe, sopas. Claro que as tarefas também são divididas num trekking, o Peter cozinhou na primeira noite e eu lavei a louça (a dona onça já me acostumou em casa
). A temperatura estava próxima de 10ºC e enquanto eu esfriava as mãos numa fina corrente de água, o Peter passou ao meu lado no maior estilo Tarzan, toalhinha cobrindo as intimidades, lampião e sabão de côco noutra mão. Pendurou o lampião, ensaboou a carcaça e num golpe seco, deitou na água gélida e cristalina do ribeirão. Também precisava de um banho e assim que o Peter saiu da água, foi minha vez de provar um banho em águas termais, afinal aqui no sul a gente tira a manga longa do armário quando faz uns 8ºC.
Avistamos um grupo descendo pelo Breu à noite, estavam com apenas duas lanternas e o grupo tinha umas cinco pessoas, achei loucura da parte deles! Dormi bem na primeira noite. Quando em vez, acordava com o som das turbinas pairando sob nossas tendas, num vôo de aproximação para pouso em Confins ou com o som do vento e chuva na barraca. Estava com um saco bom da Lafuma, dormi apenas de cueca e camiseta. Mais na madrugada, fechei o saco e coloquei um casaco. Emprestei o fleece para o Peter, afinal ele é baiano
.
[t3]2º Dia[/t3]
Acordamos com uma leve chuva, tomamos uma sopa muito boa no café da manhã e nos preparamos para o restante do dia.
Uns poucos minutos de caminhada, avistamos o Parauninha e suas prainhas formadas por pedras e areia.
O Pico do Breu nos acompanhou em boa parte desse dia, imponente, sempre à esquerda e encoberto por neblina.
Poucos passos e chegamos à casa de Dona Ana Benta, senhora muito simpática, gozando de um perfeito estado de saúde física e mental, ainda recebe trekkers, oferece abrigo e comida e uma companhia pra lá de agradável. Nos fez um café muito gostoso, contou várias estórias, falou de sua vida, passamos bons minutos em sua casa.
Seu sobrinho Lucas, nos passou uma dica aparentemente boa, subir a serra que se ergue por trás da casa de Dona Ana e interceptar a trilha no topo da serra. Utilizando esse atalho, pouparíamos uns 3km, porém ao chegarmos na bifurcação da estrada, pegamos a direita (devíamos ter pego a esquerda) e seguimos paralelos à trilha principal por uma estrada utilizada por veículos. Continuamos uns 2km por essa estrada, logo o Peter avistou uma porteira e iniciamos um desvio de encontro com a trilha principal. O tempo estava fechado, muita neblina e um leve chuvisco atrapalhavam a visão ao longe. Nesse momento, vestes próprias foram necessárias e o GPS do Peter foi fundamental para encontrarmos a via tradicional.
As 12h paramos para um rápido lanche, retomamos a caminhada em trilhas onde a Mata Atlântica se encontra com o Cerrado. Encontramos um rústico casebre e seu simpático morador nos informou que logo adiante, encontraríamos a casa de Dona Maria. Novamente não seguimos a trilha principal, parecia mais lógico atravessarmos a mata logo acima de um córrego, ao invés de dar a volta pelo morro. Ao sair da mata, avistei a trilha que seguia visivelmente em outra encosta, distante poucos km de onde estávamos. Descemos o vale e logo após cruzarmos o rio e subir a trilha pela encosta, avistamos a casa de Dona Maria. Algumas barracas já estavam armadas no local, acertamos pouso com a simpática Dona Maria e montamos acampamento.
Um local muito bom, com uma grande rocha que protegia do vento predominante leste – oeste. Alinhamos as tendas com o vento, ancoramos e preparamos a janta: massa cabelo de anjo com molho de tomate e anchovas. Jantamos observando o lindo mar de montanhas. Por um momento senti uma sensação diferente, como se estivesse em casa, a região onde moro lembra muito a cadeia de montanhas da Serra do Cipó. Um grupo de motociclistas, praticando motocross, estava percorrendo a travessia, por ser uma área de Parque Nacional, achei que o controle deveria ser mais rigoroso.
Tomamos um quente e maravilhoso banho na casa de Dona Maria, jogamos uma boa conversa fora, ouvi causos e provei um café muito gostoso. Um grupo próximo a nós, acendeu uma fogueira e nos juntamos à roda para aquecer o espírito aos estalos dos galhos no fogo.
Não foi fácil dormir, haviam cachorros que esbarravam nos cordeletes, cheiravam por baixo das barracas a procura de comida e latiram a noite toda. Mesmo assim, o sono foi bom, descansei razoavelmente bem para a jornada mais curta e mais fácil da travessia.
[t3]3º Dia[/t3]
Acordamos em meio à neblina e após a despedida de Dona Maria, rumamos para a sede do parque. Nessa manhã, descemos boa parte da serra o que acabou castigando um pouco meu joelho. Quanto mais descíamos, mais o tempo abria e mais visível tornava-se o vale e o vilarejo de Tabuleiro do Mato Dentro.
A coroação final da jornada veio com a belíssima imagem da Cachoeira do Tabuleiro ao longe. Infelizmente não pudemos acessar a parte baixa da cachoeira em virtude da grande quantidade de água do ribeirão. A administração do parque fechou a trilha. Corríamos o risco de ficar ilhados do outro lado da cachoeira. A cada passo dado em direção ao mirante, mais próximos ficávamos da fantástica queda d’água. Ficamos um bom tempo admirando toda aquela beleza digna da criação Divina e logo apressamos o passo em direção à Tabuleiro do Mato Dentro, afinal ainda era necessário retornar à BH e não sabíamos se a volta seria feita por ônibus ou se dividiríamos o táxi em quatro.
Eu e Peter trocamos as mochilas. Estou interessado em adquirir uma de menor capacidade para pequenas travessias. Provei sua Deuter ACT Lite 50+10 e gostei muito da regulagem, gostei também do peso da mochila e da praticidade que ela oferece. O Peter também gostou muito da minha (Deuter AircontactPro 60+15), principalmente da barrigueira maior e mais acolchoada e de suas regulagens. Durante a caminhada até o singelo vilarejo, decidimos por lotar um táxi.
O povoado de Tabuleiro é muito pacato e acolhedor, chegamos na Igreja e tiramos a tradicional foto. Atrás, havia um evento com as crianças locais, jogos de capoeira, correta reciclagem de lixo, cantos e danças. A criançada estava eufórica, curtindo cada minuto. Enquanto apreciávamos o evento e descansávamos na grama, o Cássio ligou para a central de táxi em Conceição do Mato Dentro e fechou uma corrida para BH por R$270,00 com o Seu Zé Costa, cara muito gente boa, simpático e cheio de histórias da época do ouro, conhece a todos e toda a região (contato: (31) 8281-5115 ou (31) 3868-1716).
A viagem até BH foi muito tranqüila. Aos poucos, as fantásticas imagens das serras, picos e vales, davam espaço à selva de concreto em sua total turbulência. Deixamos o Cássio e seu irmão Raione perto de sua casa, nos despedimos, trocamos contatos e rumamos para o hotel. Ambos estávamos loucos para um merecido e gostoso banho. Jantamos muito bem e apagamos na penumbra do quarto no 15º andar.
Infelizmente, no dia seguinte, mais uma maravilhosa jornada findava. Fomos até o aeroporto com o ônibus das 6h da manhã e nos despedimos com a certeza de uma grande amizade conquistada. Nesses dias que passamos juntos, a simplicidade, a partilha, o auxílio e a preocupação um com o outro, nos acompanharam passo a passo.
Deixo aqui meu sincero agradecimento ao grande amigo Peter Tofte, idealizador da travessia, por ter dividido comigo bons momentos, por ter sido uma excelente companhia (e por ter trazido o chocolate
) e a certeza de que novas trilhas serão exploradas ao longo de nossa existência. Agradeço também aos novos amigos Cássio e Raione por terem nos acompanhado nessa bela aventura. Logo, mais delas virão!
[creditos]Edver Carraro
Peter Tofte
Guia de Trilhas e Trekking – Vol.1 – Guilherme Cavallari[/creditos]
Abraço
Edy[/align]
Editado por Visitante