Acho que todo mundo que faz trilha tem um relato de uma que sempre fica como lição e vai ser lembrada pelo resto da vida devido às cagadas que a gente fez ao longo da caminhada.
Fotos, croquis e coordenadas geográficas:
Era a minha primeira incursão pela região e logo de cara resolvi fazer a travessia Marins-Itaguaré, mas no sentido inverso, entrando pelo Pico do Itaguaré.
Como era uma semana de recesso na faculdade por causa da Semana Santa, consegui também algumas folgas no meu trabalho e com isso tinha uma disponibilidade de alguns dias para fazer essa travessia. Estava indo para lá com a pretensão de fazer essa travessia em no mínimo 3 dias, sem correria. Quem também resolveu embarcar nessa comigo foi o Sérgio (amigo de faculdade e de trilhas).
Para essa trilha só tava levando o relato do Sérgio Beck publicado no livro Caminhos da Aventura que iria ser nossa referência, mas na dúvida resolvi ligar para o Maeda do CEC de Campinas que abriu essa travessia na década de 90 (fuçando na Internet achei o telefone dele - atualmente ele possui uma pousada/camping na região, no lado norte do Pico do Marinzinho).
Perguntei sobre como tava a trilha e a minha intenção de fazer a travessia e o que ele me disse já me deixou mais tranqüilo. Mesmo dizendo que ia ser minha primeira lá, o Maeda falou para eu ficar sossegado. A trilha estava bem demarcada. O problema era só a distância entre os picos para ser feito em apenas 1 dia. Talvez esse tenha sido nosso erro.
Nosso objetivo era chegar no topo do Pico do Itaguaré no primeiro dia e no dia seguinte realizar a travessia.
No dia 12 de Abril, na Rodoviária do Tietê encontrei o Sérgio por volta das 07:30 rs e embarcamos em direção a Passo Quatro (MG) no ônibus das 08:00 hrs (um pouco tarde, mas era a única opção).
Depois que terminamos a subida da Serra da Mantiqueira, passamos ao lado de um Monumento que fica bem na divisa SP/MG e daqui para frente a estrada ainda passa ao lado de um posto de gasolina e depois de seguir no plano por uns 5 Km, pedimos para descer (esse acesso fica pouco mais de 1 Km antes de chegar no Bairro do Pinheirinho - o primeiro de Passa Quatro).
Aqui existe uma estradinha que desce à esquerda em direção ao Bairro do Caxambú (pertencente a P4).
Saltamos aqui por volta das 12:00 hrs e ainda tínhamos uma pequena descida até um pequeno vale e lá embaixo depois de cruzar uma linha férrea iniciamos uma caminhada pelo plano até passar ao lado de uma pequena igrejinha.
Passado esse trecho do Bairro, acaba a alegria e iniciamos a longa subida íngreme que vai nos levando serra acima.
A todo momento olhava para trás para ver como o Sérgio tava aguentando a subida e sempre ouvia dele as mesma palavras: “tô animado.....tô animado.....” .
Depois de uns 40 minutos de subida fiz uma burrada, que depois iria nos custar muito caro: recusei uma carona em uma picape. Disse para o motorista que a gente queria caminhar, já que era a primeira vez naquela região, imaginando que a subida não fosse tão forte assim (não deveria ter feito isso, mas já era tarde).
Expliquei ao Sérgio o que tinha feito e ele entendeu (naquele momento tudo bem, mas creio que até hoje ele se arrepende, como eu também).
A caminhada vai seguindo rumo acima tendo um rio à direita no fundo do vale e com belas vistas da Serra Fina atrás da gente. Ao longo da subida, o Sol vai castigando porque são pastos à esquerda e à direita. A água que tínhamos trazido era de são Paulo e estava acabando e segundo o relato do Beck, logo encontraríamos o precioso líquido quase no final da subida. Conforme avançavamos, a estrada seguia para a esquerda, mas sempre rumo ascendente e pouco depois das 14:30 hrs chegamos a uma pequena bica de água do lado direito da estrada e aqui já seguíamos por mata fechada com o Sol dando uma aliviada.
Mais uns 10 minutos e terminamos a subida, marcada por um mata-burros e logo a frente chegamos na primeira bifurcação e aqui existe uma placa apontando uma Fazenda que produz mel para a direita, mas nossa direção é seguir em frente. Mais alguns minutos e já quase se avista um grande lago à direita e a estrada vai seguindo próximo a ele.
Mais duas bifurcações aparecem a esquerda, mas nosso caminho é seguir acompanhado o lago à direita. A estrada segue agora por plantações de eucaliptos à direita e à esquerda e cerca de 1 hora depois do final da subida chegamos em uma outra bifurcação para a direita que leva a algumas casas, que ignoramos e continuamos seguindo em frente. Alguns pequenos riachos cruzam com a estrada e logo chegamos em uma porteira que estava fechada a cadeado, mas um pequeno portão ao lado permite o acesso e junto dela existem outras casas do lado direito e o trecho é todo no plano e com isso resolvemos apertar o passo.
O relógio marcava 16:00 hrs e ainda tínhamos uma boa caminhada pela frente.
Mais uns 30 minutos e chegamos a outras casas e a uma outra porteira fechada a cadeado.
Daqui já é possível avistar o Pico do Itaguaré bem a esquerda e ao fundo o Pico do Marinzinho. A estrada termina nessa porteira e cruzando ela, se chega a uma outra que vem da direita e segue para esquerda e foi por onde seguimos, ainda sempre no plano (aqui não tem erro, é sempre seguir na direção leste).
Logo cruzamos uma ponte sobre um rio e bem mais a frente aparece uma bifurcação à direita que nos confundiu e por isso paramos por um certo tempo para estudar a carta topográfica e o relato do Beck.
Aqui continuamos pela estrada principal até chegarmos ao descampado à esquerda que marca o início da trilha de subida até o topo do Pico do Itaguaré. O problema era o horário: 17:15 hrs e com isso talvez não conseguiríamos chegar no topo antes do anoitecer.
O descampado é um gramado perfeito para um acampamento, já que ele é todo plano e com um pequeno riacho bem ao lado e depois de um pequeno descanso e com cantis reabastecidos iniciamos a caminhada pela mata fechada.
A trilha segue à esquerda do riacho, passando por uma canaleta e uns 5 minutos de trilha já temos de cruzar o riacho para a direita.
Seguindo por trilha demarcada e mais uns 40 minutos depois, passamos ao lado de uma enorme pedra do lado direito e a partir daqui a subida se inicia.
A trilha é bem fácil de visualizar já que ela está quase que totalmente erodida e só tínhamos um pequeno problema: o Sol já estava se pondo e logo chegaria a noite e talvez não conseguiríamos chegar no topo antes do anoitecer, por isso mesmo que cansados começamos a subir mais rápido, passando ao lado de algumas pedras a direita que podem servir de bivaque ou até acampar, mas resolvemos continuar a caminhada.
Pouco depois das 18:00 hrs começou a escurecer e resolvi ligar a lanterna, torcendo para que chegássemos logo e pouco antes das 19:00 hrs chegamos na base das primeiras lajes de pedras que é a base de um pico menor que o do Itaguaré. Aqui era até perigoso subir pelas pedras porque só tínhamos 1 lanterna (outra cagada minha).
Conversei com o Sérgio e pedi para ele ficar aqui na base das lajes com as mochilas, enquanto eu ia subindo até procurar um local plano para montarmos a barraca e passarmos a noite.
Depois de uns 20 minutos voltei com a notícia de que havia um local por entre a vegetação onde poderíamos acampar.
Não era um local perfeito, já que não era a base do Itaguaré (lá sim, existiam bons lugares para acampar), mas que serviria para dormirmos aquela noite.
Depois de montada a barraca e um jantar merecido, a temperatura diminui bastante e nem saímos para apreciar a noite.
Por volta das 08:00 hrs do dia seguinte acordamos e pudemos presenciar ótimos visuais, já que ao redor do pico estava tudo encoberto pela neblina (na verdade estávamos acima dela) e olhando para sul e sudeste, só víamos um colchão de nuvens por sobre o Vale do Paraíba.
Para o norte só víamos algumas nuvens que iam se dispersando.
Depois do café da manhã e desmontada a barraca, fomos seguir para a travessia até o Pico do Marins e conforme íamos subindo, alguns totens orientavam a trilha e depois de uns 10 minutos (por volta das 09:30 hrs) chegamos na base do Pico do Itaguaré.
Aqui existem 3 topos (um ao sul, mas um pouco mais abaixo do Itaguaré, outro mais baixo ainda, pelo lado norte, próximo de onde tínhamos acampado e outro o próprio cume do Itaguaré à oeste) e com um pequeno riacho em um vale entre eles. A água é de pouca quantidade e no inverno não é bom confiar, pois a nascente pode secar.
O Itaguaré é bem fácil de identificar, pois está bem a oeste, mas ainda existe uma longa subida e resolvemos seguir para o topo e procurar a continuação da trilha (se tivéssemos olhado o croqui e as anotações do Beck não teríamos cometido essa burrada).
Na subida existem alguns trechos perigosos, sendo que em um deles tivemos de pular de uma pedra para outra por um precipício, que só de olhar já dava medo.
Próximo ao topo, tínhamos uma linda vista para o sul, oeste e ao leste, mas nada de trilha, então chegamos a conclusão que trilha aqui não existe.
Depois de checar as anotações do Beck vimos a burrada que tínhamos feito e descemos até a base, mas perdemos tempo precioso que nos atrasaria na travessia (já eram quase 10:30 hrs).
Na descida do Itaguaré encontramos um grupo que tinha vindo pela mesma trilha que a gente e disseram que tinham deixado o carro lá no descampado, junto da estrada.
Nos despedimos de todos e enquanto eles subiam, agora era procurar a trilha em direção ao Marins e foi bem fácil, já que existem inúmeros totens.
A trilha se inicia bem a direita da base do Itaguaré e os totens existentes podem orientar melhor por qual caminho seguir e foi o que fizemos (isso pouco depois das 11:00 hrs).
Nossa direção agora era descer por uns 15 minutos até chegarmos em um trecho onde as pedras dificultam muito a passagem e aqui foi preciso tirar as mochilas e içá-las para transpor as pedras e já na saída desse trecho os totens ajudam a se orientar.
Continuamos descendo ainda mais até atravessarmos um trecho de bambuzal.
Até aqui foi só descida e daqui para frente seguimos subindo se orientando por algumas fitas presas nos galhos até emergirmos por entre as lajes de pedras onde pode-se apreciar a vista do Itaguaré.
Nesse trecho ele aparece em todo o seu esplendor atrás e vale alguns minutos para contemplá-lo.
Nesse ponto o pessoal que encontramos na descida do Itaguaré já estava no topo e que mereceu uma bela foto.
A trilha aqui é por entre a vegetação baixa de arbustos e não mais que 20 minutos começamos a descer de novo e por volta das 12:30 hrs chegamos numa área com lugares planos (alguns acampam aqui, porque encontramos vestígios de camping).
Outra pequena subidinha básica e mais um trecho de bambuzal, mas esses de troncos bem finos e se orientando por alguns totens que são vistos em cima das lajes de pedras.
Não chegamos ainda no topo da crista, mas vamos subindo para chegar lá e a trilha vai seguindo para esquerda evitando um vale muito grande à direita.
Pelo menos a subida deu uma aliviada, mas havia uma outra que levava até a Pedra Redonda.
A trilha é um pouco confusa e vamos procurando pelas fitas brancas e amarelas e alguns totens que vão nos orientando e conforme vamos subindo já conseguimos ver a Pedra Redonda lá em cima à esquerda, mas antes passamos por um trecho de capim elefante bem alto e onde encontramos alguns descampados perfeitos para montar barracas.
O problema é a falta de água. Quando passamos próximo a esses descampados cruzamos com um mochileiro que estava fazendo a travessia, vindo do Marins e que pretendia chegar no Itaguaré no final da tarde.
Desde o Itaguaré já passamos por inúmeros vales, mas todos com subidas e descidas tranquilas e por volta das 14:30 hrs estávamos subindo ao acesso final da Pedra Redonda, localizada bem na crista e no topo do morro.
Aqui o visual é de 360º e para quem vê ao longe a Pedra Redonda tem a impressão que a mesma é redonda, mas não é.
Na verdade ela está rachada ao meio e fizemos uma parada para um lanche. Embaixo da pedra encontramos uma caixa que continha um livro de anotações com várias mensagens de quem passou por aqui e deixamos nossas contribuições também.
Depois de um descanso e pouco antes das 15:00 hrs seguimos em direção ao Marins que aparecia bem visível à sudeste e a oeste o Pico do Marinzinho dava a impressão de estar muito próximo.
A trilha agora vai descendo a crista, seguindo para a direita com vistas ao norte e passando ao lado de matacões com totens servindo de orientação, sem maiores dificuldades.
A vegetação é sempre de arbustos e com vários trechos de bambuzal e uma coisa nos preocupava: o horário.
Só de olhar a íngreme subida do Pico do Marinzinho já sentíamos cansaço e o cair da noite poderia nos pegar antes de chegar no Marins. A partir da Pedra Redonda a trilha já fica mais fácil, pois as subidas e descidas mais difíceis acabaram.
Por volta das 17:00 hrs pegamos o último trecho de descida onde encontramos uma corda que ajuda na descida até o fundo do vale. A água já tava acabando e tínhamos ainda uma longa subida da encosta do Marinzinho à frente e como já estávamos bem cansados fomos parando em diversos momentos para retomar o fôlego.
Aqui na subida existe um trecho muito íngreme onde foi colocado uma corda, que estava em perfeitas condições e logo que atravessamos esse trecho demos de cara com um cachorro, que provavelmente tinha chegado até ali, mas não conseguiu descer.
Tentamos por várias vezes fazer o bicho voltar para o topo, mas sem sucesso, por isso desistimos.
Começou a surgir um problema: a neblina já começava a tomar conta de todo o lado leste e ainda não tínhamos chegado no topo e depois de pouco mais de 1 hora, terminava a última subida.
Aqui existem alguns lugares planos e protegidos, mas sem o precioso líquido seria complicado ficar aqui, por isso continuamos a descer e não demorou nem uns 10 minutos o Rei Sol se escondia no horizonte.
Pensamos: agora ferrou, mas não tínhamos opção, pois era acampar aqui sem água ou descer até a base do Marins.
Escolhemos a segunda opção e com a ajuda da lanterna que já dava sinais de esgotamento das pilhas eu e o Sérgio fomos descendo, seguindo no rumo da direita para evitar as lajes de pedra.
Por essa direção havia vegetação e logo chegamos em um trecho intransponível e aqui não tinha como passar, então voltamos um pouco e seguimos bordejando para a direita.
Pelo menos já conseguíamos ver algumas luzes de barracas que estavam junto ao riacho da base do Marins e fomos nos orientando por elas.
Na total escuridão, já que a pilha da lanterna tinha se esgotado, nem procurávamos a trilha e os totens. Nossa direção era sempre seguir as luzes lá embaixo e assim fomos descendo tomando rumo um pouco para esquerda, mas as lajes ficavam cada vez mais inclinada e de vez em quando éramos obrigados a seguir para a direita.
Com as luzes das barracas bem próximas resolvemos descer em direção à nascente do riacho, à esquerda e não foi fácil.
O relógio marcava por volta das 19:00 hrs e eu ainda tinha a pretensão de acampar no topo do Marins, mas o Sérgio só pensava em chegar nas barracas e em um trecho onde a encosta era bem íngreme, ele escorregou e foi cair em um pequena piscina, onde se molhou até quase a cintura. Pensei comigo: acho melhor acamparmos na base mesmo, porque depois dessa o Sérgio com certeza não queria pegar a trilha até o topo com a roupa toda encharcada.
Exaustos pelo cansaço e na total escuridão chegamos nas barracas, com sede e famintos, mas felizes.
Depois de conhecer a galera que ajudou a nos orientar na descida fomos montar a barraca e fazer o jantar.
Tínhamos levado quase 9 horas de caminhada desde o Itaguaré e aquele dia tinha servido de lição, pois tínhamos cometido várias cagadas e no final poderia ter acabado de uma forma até pior.
Combinei com o Sérgio que assim que acordasse seguiria para o topo do Marins e depois desceríamos em direção a Rodovia.
A subida é super fácil e a trilha bem demarcada com totens (até desnecessários).
Lá no topo o local estava cheio de barracas e seria até complicado encontrar uma vaga para a barraca na noite anterior. Voltei para a base e a galera que estava ao lado nos ofereceu carona até a Rodovia, que aceitamos na hora (eles tinham vindo de Kombi e deixaram ela um pouco abaixo do Morro do Careca).
Mochilas nas costas, seguimos descendo a trilha com a galera e íamos contornando o morro a noroeste com trechos bem íngremes. Bem demarcada, com totens e algumas setas pintadas nas pedras, a trilha é bem tranquila.
E logo chegamos no Morro do Careca e de Kombi seguimos para a Rodovia, onde chegamos por volta das 11:00 hrs e aqui só foi aguardar o ônibus que seguia direto para Sampa, vindo de Itajubá.
Ficou como lição essa travessia e depois dessa sempre carreguei 2 lanternas na mochila com pilhas e sempre de um ponto de água a outro carreguei mais que o necessário.
Depois dessa travessia voltei lá por mais duas vezes, sendo que a segunda eu fui sozinho (não dei muita sorte porque tive alguns problemas e na terceira eu estava fazendo as 3 travessias de uma vez só (Marins-Itaguaré, Serra Fina e Serra Negra - quase que uma Transmantiqueira).
Depois dessa travessia voltei lá por mais duas vezes, sendo que a segunda eu fui sozinho (não dei muita sorte porque tive alguns problemas e na terceira eu estava fazendo a Transmantiqueira.
Acho que todo mundo que faz trilha tem um relato de uma que sempre fica como lição e vai ser lembrada pelo resto da vida devido às cagadas que a gente fez ao longo da caminhada.
Fotos, croquis e coordenadas geográficas:
Era a minha primeira incursão pela região e logo de cara resolvi fazer a travessia Marins-Itaguaré, mas no sentido inverso, entrando pelo Pico do Itaguaré.
Como era uma semana de recesso na faculdade por causa da Semana Santa, consegui também algumas folgas no meu trabalho e com isso tinha uma disponibilidade de alguns dias para fazer essa travessia. Estava indo para lá com a pretensão de fazer essa travessia em no mínimo 3 dias, sem correria. Quem também resolveu embarcar nessa comigo foi o Sérgio (amigo de faculdade e de trilhas).
Para essa trilha só tava levando o relato do Sérgio Beck publicado no livro Caminhos da Aventura que iria ser nossa referência, mas na dúvida resolvi ligar para o Maeda do CEC de Campinas que abriu essa travessia na década de 90 (fuçando na Internet achei o telefone dele - atualmente ele possui uma pousada/camping na região, no lado norte do Pico do Marinzinho).
Perguntei sobre como tava a trilha e a minha intenção de fazer a travessia e o que ele me disse já me deixou mais tranqüilo. Mesmo dizendo que ia ser minha primeira lá, o Maeda falou para eu ficar sossegado. A trilha estava bem demarcada. O problema era só a distância entre os picos para ser feito em apenas 1 dia. Talvez esse tenha sido nosso erro.
Nosso objetivo era chegar no topo do Pico do Itaguaré no primeiro dia e no dia seguinte realizar a travessia.
No dia 12 de Abril, na Rodoviária do Tietê encontrei o Sérgio por volta das 07:30 rs e embarcamos em direção a Passo Quatro (MG) no ônibus das 08:00 hrs (um pouco tarde, mas era a única opção).
Depois que terminamos a subida da Serra da Mantiqueira, passamos ao lado de um Monumento que fica bem na divisa SP/MG e daqui para frente a estrada ainda passa ao lado de um posto de gasolina e depois de seguir no plano por uns 5 Km, pedimos para descer (esse acesso fica pouco mais de 1 Km antes de chegar no Bairro do Pinheirinho - o primeiro de Passa Quatro).
Aqui existe uma estradinha que desce à esquerda em direção ao Bairro do Caxambú (pertencente a P4).
Saltamos aqui por volta das 12:00 hrs e ainda tínhamos uma pequena descida até um pequeno vale e lá embaixo depois de cruzar uma linha férrea iniciamos uma caminhada pelo plano até passar ao lado de uma pequena igrejinha.
Passado esse trecho do Bairro, acaba a alegria e iniciamos a longa subida íngreme que vai nos levando serra acima.
A todo momento olhava para trás para ver como o Sérgio tava aguentando a subida e sempre ouvia dele as mesma palavras: “tô animado.....tô animado.....” .
Depois de uns 40 minutos de subida fiz uma burrada, que depois iria nos custar muito caro: recusei uma carona em uma picape. Disse para o motorista que a gente queria caminhar, já que era a primeira vez naquela região, imaginando que a subida não fosse tão forte assim (não deveria ter feito isso, mas já era tarde).
Expliquei ao Sérgio o que tinha feito e ele entendeu (naquele momento tudo bem, mas creio que até hoje ele se arrepende, como eu também).
A caminhada vai seguindo rumo acima tendo um rio à direita no fundo do vale e com belas vistas da Serra Fina atrás da gente. Ao longo da subida, o Sol vai castigando porque são pastos à esquerda e à direita. A água que tínhamos trazido era de são Paulo e estava acabando e segundo o relato do Beck, logo encontraríamos o precioso líquido quase no final da subida. Conforme avançavamos, a estrada seguia para a esquerda, mas sempre rumo ascendente e pouco depois das 14:30 hrs chegamos a uma pequena bica de água do lado direito da estrada e aqui já seguíamos por mata fechada com o Sol dando uma aliviada.
Mais uns 10 minutos e terminamos a subida, marcada por um mata-burros e logo a frente chegamos na primeira bifurcação e aqui existe uma placa apontando uma Fazenda que produz mel para a direita, mas nossa direção é seguir em frente. Mais alguns minutos e já quase se avista um grande lago à direita e a estrada vai seguindo próximo a ele.
Mais duas bifurcações aparecem a esquerda, mas nosso caminho é seguir acompanhado o lago à direita. A estrada segue agora por plantações de eucaliptos à direita e à esquerda e cerca de 1 hora depois do final da subida chegamos em uma outra bifurcação para a direita que leva a algumas casas, que ignoramos e continuamos seguindo em frente. Alguns pequenos riachos cruzam com a estrada e logo chegamos em uma porteira que estava fechada a cadeado, mas um pequeno portão ao lado permite o acesso e junto dela existem outras casas do lado direito e o trecho é todo no plano e com isso resolvemos apertar o passo.
O relógio marcava 16:00 hrs e ainda tínhamos uma boa caminhada pela frente.
Mais uns 30 minutos e chegamos a outras casas e a uma outra porteira fechada a cadeado.
Daqui já é possível avistar o Pico do Itaguaré bem a esquerda e ao fundo o Pico do Marinzinho. A estrada termina nessa porteira e cruzando ela, se chega a uma outra que vem da direita e segue para esquerda e foi por onde seguimos, ainda sempre no plano (aqui não tem erro, é sempre seguir na direção leste).
Logo cruzamos uma ponte sobre um rio e bem mais a frente aparece uma bifurcação à direita que nos confundiu e por isso paramos por um certo tempo para estudar a carta topográfica e o relato do Beck.
Aqui continuamos pela estrada principal até chegarmos ao descampado à esquerda que marca o início da trilha de subida até o topo do Pico do Itaguaré. O problema era o horário: 17:15 hrs e com isso talvez não conseguiríamos chegar no topo antes do anoitecer.
O descampado é um gramado perfeito para um acampamento, já que ele é todo plano e com um pequeno riacho bem ao lado e depois de um pequeno descanso e com cantis reabastecidos iniciamos a caminhada pela mata fechada.
A trilha segue à esquerda do riacho, passando por uma canaleta e uns 5 minutos de trilha já temos de cruzar o riacho para a direita.
Seguindo por trilha demarcada e mais uns 40 minutos depois, passamos ao lado de uma enorme pedra do lado direito e a partir daqui a subida se inicia.
A trilha é bem fácil de visualizar já que ela está quase que totalmente erodida e só tínhamos um pequeno problema: o Sol já estava se pondo e logo chegaria a noite e talvez não conseguiríamos chegar no topo antes do anoitecer, por isso mesmo que cansados começamos a subir mais rápido, passando ao lado de algumas pedras a direita que podem servir de bivaque ou até acampar, mas resolvemos continuar a caminhada.
Pouco depois das 18:00 hrs começou a escurecer e resolvi ligar a lanterna, torcendo para que chegássemos logo e pouco antes das 19:00 hrs chegamos na base das primeiras lajes de pedras que é a base de um pico menor que o do Itaguaré. Aqui era até perigoso subir pelas pedras porque só tínhamos 1 lanterna (outra cagada minha).
Conversei com o Sérgio e pedi para ele ficar aqui na base das lajes com as mochilas, enquanto eu ia subindo até procurar um local plano para montarmos a barraca e passarmos a noite.
Depois de uns 20 minutos voltei com a notícia de que havia um local por entre a vegetação onde poderíamos acampar.
Não era um local perfeito, já que não era a base do Itaguaré (lá sim, existiam bons lugares para acampar), mas que serviria para dormirmos aquela noite.
Depois de montada a barraca e um jantar merecido, a temperatura diminui bastante e nem saímos para apreciar a noite.
Por volta das 08:00 hrs do dia seguinte acordamos e pudemos presenciar ótimos visuais, já que ao redor do pico estava tudo encoberto pela neblina (na verdade estávamos acima dela) e olhando para sul e sudeste, só víamos um colchão de nuvens por sobre o Vale do Paraíba.
Para o norte só víamos algumas nuvens que iam se dispersando.
Depois do café da manhã e desmontada a barraca, fomos seguir para a travessia até o Pico do Marins e conforme íamos subindo, alguns totens orientavam a trilha e depois de uns 10 minutos (por volta das 09:30 hrs) chegamos na base do Pico do Itaguaré.
Aqui existem 3 topos (um ao sul, mas um pouco mais abaixo do Itaguaré, outro mais baixo ainda, pelo lado norte, próximo de onde tínhamos acampado e outro o próprio cume do Itaguaré à oeste) e com um pequeno riacho em um vale entre eles. A água é de pouca quantidade e no inverno não é bom confiar, pois a nascente pode secar.
O Itaguaré é bem fácil de identificar, pois está bem a oeste, mas ainda existe uma longa subida e resolvemos seguir para o topo e procurar a continuação da trilha (se tivéssemos olhado o croqui e as anotações do Beck não teríamos cometido essa burrada).
Na subida existem alguns trechos perigosos, sendo que em um deles tivemos de pular de uma pedra para outra por um precipício, que só de olhar já dava medo.
Próximo ao topo, tínhamos uma linda vista para o sul, oeste e ao leste, mas nada de trilha, então chegamos a conclusão que trilha aqui não existe.
Depois de checar as anotações do Beck vimos a burrada que tínhamos feito e descemos até a base, mas perdemos tempo precioso que nos atrasaria na travessia (já eram quase 10:30 hrs).
Na descida do Itaguaré encontramos um grupo que tinha vindo pela mesma trilha que a gente e disseram que tinham deixado o carro lá no descampado, junto da estrada.
Nos despedimos de todos e enquanto eles subiam, agora era procurar a trilha em direção ao Marins e foi bem fácil, já que existem inúmeros totens.
A trilha se inicia bem a direita da base do Itaguaré e os totens existentes podem orientar melhor por qual caminho seguir e foi o que fizemos (isso pouco depois das 11:00 hrs).
Nossa direção agora era descer por uns 15 minutos até chegarmos em um trecho onde as pedras dificultam muito a passagem e aqui foi preciso tirar as mochilas e içá-las para transpor as pedras e já na saída desse trecho os totens ajudam a se orientar.
Continuamos descendo ainda mais até atravessarmos um trecho de bambuzal.
Até aqui foi só descida e daqui para frente seguimos subindo se orientando por algumas fitas presas nos galhos até emergirmos por entre as lajes de pedras onde pode-se apreciar a vista do Itaguaré.
Nesse trecho ele aparece em todo o seu esplendor atrás e vale alguns minutos para contemplá-lo.
Nesse ponto o pessoal que encontramos na descida do Itaguaré já estava no topo e que mereceu uma bela foto.
A trilha aqui é por entre a vegetação baixa de arbustos e não mais que 20 minutos começamos a descer de novo e por volta das 12:30 hrs chegamos numa área com lugares planos (alguns acampam aqui, porque encontramos vestígios de camping).
Outra pequena subidinha básica e mais um trecho de bambuzal, mas esses de troncos bem finos e se orientando por alguns totens que são vistos em cima das lajes de pedras.
Não chegamos ainda no topo da crista, mas vamos subindo para chegar lá e a trilha vai seguindo para esquerda evitando um vale muito grande à direita.
Pelo menos a subida deu uma aliviada, mas havia uma outra que levava até a Pedra Redonda.
A trilha é um pouco confusa e vamos procurando pelas fitas brancas e amarelas e alguns totens que vão nos orientando e conforme vamos subindo já conseguimos ver a Pedra Redonda lá em cima à esquerda, mas antes passamos por um trecho de capim elefante bem alto e onde encontramos alguns descampados perfeitos para montar barracas.
O problema é a falta de água. Quando passamos próximo a esses descampados cruzamos com um mochileiro que estava fazendo a travessia, vindo do Marins e que pretendia chegar no Itaguaré no final da tarde.
Desde o Itaguaré já passamos por inúmeros vales, mas todos com subidas e descidas tranquilas e por volta das 14:30 hrs estávamos subindo ao acesso final da Pedra Redonda, localizada bem na crista e no topo do morro.
Aqui o visual é de 360º e para quem vê ao longe a Pedra Redonda tem a impressão que a mesma é redonda, mas não é.
Na verdade ela está rachada ao meio e fizemos uma parada para um lanche. Embaixo da pedra encontramos uma caixa que continha um livro de anotações com várias mensagens de quem passou por aqui e deixamos nossas contribuições também.
Depois de um descanso e pouco antes das 15:00 hrs seguimos em direção ao Marins que aparecia bem visível à sudeste e a oeste o Pico do Marinzinho dava a impressão de estar muito próximo.
A trilha agora vai descendo a crista, seguindo para a direita com vistas ao norte e passando ao lado de matacões com totens servindo de orientação, sem maiores dificuldades.
A vegetação é sempre de arbustos e com vários trechos de bambuzal e uma coisa nos preocupava: o horário.
Só de olhar a íngreme subida do Pico do Marinzinho já sentíamos cansaço e o cair da noite poderia nos pegar antes de chegar no Marins. A partir da Pedra Redonda a trilha já fica mais fácil, pois as subidas e descidas mais difíceis acabaram.
Por volta das 17:00 hrs pegamos o último trecho de descida onde encontramos uma corda que ajuda na descida até o fundo do vale. A água já tava acabando e tínhamos ainda uma longa subida da encosta do Marinzinho à frente e como já estávamos bem cansados fomos parando em diversos momentos para retomar o fôlego.
Aqui na subida existe um trecho muito íngreme onde foi colocado uma corda, que estava em perfeitas condições e logo que atravessamos esse trecho demos de cara com um cachorro, que provavelmente tinha chegado até ali, mas não conseguiu descer.
Tentamos por várias vezes fazer o bicho voltar para o topo, mas sem sucesso, por isso desistimos.
Começou a surgir um problema: a neblina já começava a tomar conta de todo o lado leste e ainda não tínhamos chegado no topo e depois de pouco mais de 1 hora, terminava a última subida.
Aqui existem alguns lugares planos e protegidos, mas sem o precioso líquido seria complicado ficar aqui, por isso continuamos a descer e não demorou nem uns 10 minutos o Rei Sol se escondia no horizonte.
Pensamos: agora ferrou, mas não tínhamos opção, pois era acampar aqui sem água ou descer até a base do Marins.
Escolhemos a segunda opção e com a ajuda da lanterna que já dava sinais de esgotamento das pilhas eu e o Sérgio fomos descendo, seguindo no rumo da direita para evitar as lajes de pedra.
Por essa direção havia vegetação e logo chegamos em um trecho intransponível e aqui não tinha como passar, então voltamos um pouco e seguimos bordejando para a direita.
Pelo menos já conseguíamos ver algumas luzes de barracas que estavam junto ao riacho da base do Marins e fomos nos orientando por elas.
Na total escuridão, já que a pilha da lanterna tinha se esgotado, nem procurávamos a trilha e os totens. Nossa direção era sempre seguir as luzes lá embaixo e assim fomos descendo tomando rumo um pouco para esquerda, mas as lajes ficavam cada vez mais inclinada e de vez em quando éramos obrigados a seguir para a direita.
Com as luzes das barracas bem próximas resolvemos descer em direção à nascente do riacho, à esquerda e não foi fácil.
O relógio marcava por volta das 19:00 hrs e eu ainda tinha a pretensão de acampar no topo do Marins, mas o Sérgio só pensava em chegar nas barracas e em um trecho onde a encosta era bem íngreme, ele escorregou e foi cair em um pequena piscina, onde se molhou até quase a cintura. Pensei comigo: acho melhor acamparmos na base mesmo, porque depois dessa o Sérgio com certeza não queria pegar a trilha até o topo com a roupa toda encharcada.
Exaustos pelo cansaço e na total escuridão chegamos nas barracas, com sede e famintos, mas felizes.
Depois de conhecer a galera que ajudou a nos orientar na descida fomos montar a barraca e fazer o jantar.
Tínhamos levado quase 9 horas de caminhada desde o Itaguaré e aquele dia tinha servido de lição, pois tínhamos cometido várias cagadas e no final poderia ter acabado de uma forma até pior.
Combinei com o Sérgio que assim que acordasse seguiria para o topo do Marins e depois desceríamos em direção a Rodovia.
A subida é super fácil e a trilha bem demarcada com totens (até desnecessários).
Lá no topo o local estava cheio de barracas e seria até complicado encontrar uma vaga para a barraca na noite anterior. Voltei para a base e a galera que estava ao lado nos ofereceu carona até a Rodovia, que aceitamos na hora (eles tinham vindo de Kombi e deixaram ela um pouco abaixo do Morro do Careca).
Mochilas nas costas, seguimos descendo a trilha com a galera e íamos contornando o morro a noroeste com trechos bem íngremes. Bem demarcada, com totens e algumas setas pintadas nas pedras, a trilha é bem tranquila.
E logo chegamos no Morro do Careca e de Kombi seguimos para a Rodovia, onde chegamos por volta das 11:00 hrs e aqui só foi aguardar o ônibus que seguia direto para Sampa, vindo de Itajubá.
Ficou como lição essa travessia e depois dessa sempre carreguei 2 lanternas na mochila com pilhas e sempre de um ponto de água a outro carreguei mais que o necessário.
Depois dessa travessia voltei lá por mais duas vezes, sendo que a segunda eu fui sozinho (não dei muita sorte porque tive alguns problemas e na terceira eu estava fazendo as 3 travessias de uma vez só (Marins-Itaguaré, Serra Fina e Serra Negra - quase que uma Transmantiqueira).
Depois dessa travessia voltei lá por mais duas vezes, sendo que a segunda eu fui sozinho (não dei muita sorte porque tive alguns problemas e na terceira eu estava fazendo a Transmantiqueira.
O relato dessa travessia está aqui: http://www.mochileiros.com/travessias-marins-itaguare-serra-fina-e-serra-negra-juntas-em-uma-so-caminhada-t1100.html
Abcs
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