"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Fotos da bodega, cortesia do Ronald Colombini
http://rcolombini.multiply.com/photos/album/34
TRAVESSIA ZIRIGUIDUM PELO PN SEMPRE-VIVAS
São mtos os caminhos q se concentram nas derivações da Serra do Espinhaço, enorme cordilheira q divide MG em dois, de norte a sul, e sempre escancara novas alternativas trilheiras q parecem nunca esgotar. Longe do Cipó, Lapinha,Tabuleiro, e mais precisamente ao norte de Diamantina, encontra-se o desconhecido Parque Nacional Sempre-Vivas, unidade de conservação criada em 2002 (q está somente no papel) q homenageia aquelas típicas florzinhas q nunca perdem a aparência, mesmo depois de retiradas. Com córregos de água límpida, campos rupestres de perder a vista, garimpo ilegal e personagens gentis e hospitaleiros, a travessia de boa parte deste parque - do vilarejo de SJ da Chapada ate o arraial Pé de Serra - foi uma agradável surpresa de caminhada no feriado reservado longe dos festejos de Momo.
"SE EU NÃO DURMO NINGUEM DORMEEEE!!"
"Fudeu!", foi o singelo pensamento q veio à mente qdo soube q o Bastos - q sabia de cor o roteiro da trip - não viria mais conosco, já quase embarcando p/ Diamantina. No entanto, c/ mapa em mãos, coragem e disposição de sobra, e alguma vaga lembrança das confabulações de nosso prévio encontro semanas atras, eu, Ronald, a Fran e a Gi embarcamos no Gontijo c/ destino à cidade de Xica da Silva e JK, entregando a empreitada ao Deus-dará. Não bastassem já as 15hrs tediosas de busao, prova de fogo foi tê-las feito na cia de um grupo de jovens foliões q faria corar de inveja qq torcida organizada. Chamar de farofeiros é elogio: já entraram no busao c/ um isopor enorme de cerveja!! "Esta noite vai longe!", pensei. Pior q não dava p/ reclamar pq eles compunham 2/3 dos passageiros. Paciência.. Assim q partimos, as 22:30, o busao parecia trio-eletrico de tanta bagunça. Como andar no corredor era impossível tanto pela zona como pela cevada seca derramada no chão (q grudava os pés de qq um), o jeito foi permanecer sentado e tentar cochilar. Como é praxe, não tardou ao olfato apurar o nauseante cheiro de "cannabis" no ar. Mas, por incrível q pareça, ou devido ao cansaço do dia-dia, conseguimos breves instantes de sono naquela q parecia uma Sodoma & Gomorra de 4 rodas. A Fran, sortuda, partira num busao meia hora antes e se livrou deste suplicio pré-trilha.
Acordamos o sábado já em terras mineiras, com o coletivo tendo um raro momento de paz e silencio; os moleques tavam detonados de goró e erva, sendo q um deles havia vomitado no fundo. Mas depois da parada em BH a zona voltou c/ forca redobrada c/ um interminável repertorio de festa-trash, q ia desde hits do Sergio Mallandro ate Perla, musicas q ficaram martelando na cabeça ate o final da trip. "Comprei um quilo de farinha p/ fazer farofa-fá!" Farofa esta q parecia não ter fim.
DE SÃO JOAO DA CHAPADA ATE QUARTEIS
As 14hrs e num sol de rachar, chegamos ao som de axé (ecaaa!) na muvucada Diamantina a tempo de encontrar a Fran, comer algo e tomar o bus local c/ destino a São João da Chapada, as 15hrs. Assim, fomos atravessando os enormes e vastos campos rupestres sentido norte por estrada de terra, parando em minúsculos arraiais ora deixando ora pegando passageiros, q se apinhavam no corredor do rústico cata-jeca. A oeste, nuvens carregadissimas pareciam vir na nossa direção, mas logo o sol tornou a sair em definitivo. E após 25km de sacolejo e mta poeira, chegamos no minúsculo arraial as 16:30hrs.
Enfim, mochilas nas costas e pé na estrada. SJ da Chapada já conehcia de 2 anos atrás (Trilha do Algodão), so q da Igreja do Senhor do Bonfim tomamos a estrada p/ norte. Porem, logo ela termina assim como uma breve garoa de verao. Perguntei aos locais (pois iniciativa masculina, so minha!) o caminho p/ Quartéis (a 8km dali) e, tomando umas quebradas por dentro do vilarejo, damos numa precária estrada-trilho na extremidade leste do mesmo, q desce a serra suavemente em meio a arbustos e lajedos cortados por pequenos corregos. Minutos depois caimos numa estradinha de areia clara (quartzito) q basta seguir p/ norte, enqto a paisagem do entorno revela cumes e paredões rochosos ao longe, típicos do Espinhaço. Subindo a serra c/ pouco aclive, alcançamos um pequeno topo no qual nossos horizontes de alargam descortinando um vale encaixotado no meio de pequenos morros, e ao norte, uma enorme muralha composta de maciços rochosos q parece não ter fim. Um belo arco-iris confere à paisagem um aspecto quase impressionista.
Descendo o vale lenta e sinuosamente, passamos uma ponte sobre o ruidoso Rio dos Quartéis, ao mesmo tempo em q nuvens escuras ocultam o belo sol ate entao. Felizmente, as primeiras casinhas esparsas do mirrado vilarejo de Quartéis já começam a aparecer, ao mesmo tempo q gotas de uma breve pancada começam a fustigar nosso rosto. Sem titubear, as 19hrs acampamos no ótimo gramado de um pequeno cpo de futebol ao lado da estrada, onde uma oportuna cx dagua despejava seu precioso liquido afim de abastecer nossos cantis e servir tb de eventual chuveiro, sob olhar perplexo de cavalos q ali pastavam. Assim q escureceu tornou a chover outra vez, mas ate la estávamos devidamente entocados, preparando a janta ou já deitando p/ repôr o sono da noite anterior. Era o meu caso, agravado ainda por uma inconveniente dor-de-cabeca. As ultimas a deitar foram as meninas, q pelo cheiro q tomou conta nosso MST devem ter feito uma janta divina. A noite fora tranqüila, relativamente fresca, sem maiores intercorrencias fora algumas pancadas passageiras de chuva.
DO CÂNION DO MACACO ATE O TSUNAMI NO SEMPRE-VIVAS
Levantamos as 6hrs de domingo, totalmente encoberto e c/ bruma ocultando todos os picos ao nosso redor. Contudo, aos poucos a nebulosidade foi se dissipando escancarando um sol q nos encheu de disposicao. Tomamos rapidamente café, arrumamos as coisas e zarpamos as 8hrs, outra vez tomando a estradinha principal sentido norte.
Passamos pelo "centro" do arraial, a charmosa Igr. N. S das Mercês e pelas demais casinhas , algumas misturando arquitetura colonial c/ placas solares modernas. Logo acompanhamos o leito do Rio Caeté-Mirim, de onde a estrada o segue p/ norte c/ destino a Inhai, e onde tb alguns pequenos afluentes obstruem a mesma na época de chuvas, como agora. Uma cobra no caminho nos lembra de prestar atenção onde pisamos. Daqui, um trilho lamacento, largo e obvio sai pela esquerda, passa pelo Caeté-Mirim e continua na outra margem, o q nos obriga a molhar os pés pela 1ª vez. Apesar de largo, o rio é na verdade raso, assoreado pela areia trazida dos garimpos a montante. Assim, cruzamos o dito cujo c/ água ate o joelho, exceto qdo a areia cede subitamente e a perna parece afundar mais uns 20cm.
Do outro lado, após a Gi levar uma picada de marimbondo (cortesia do Ronald ao esbarrar numa arvore p/ pular outro fiapo dágua), a trilha sobe forte por uma encosta de pasto e algumas palmeiras, contorna a montanha passando algumas porteiras, e desce pro amplo vale seguinte, pra alegria da Fran, q mostra sinais de cansaço mas continua guerreira ate o fim. Contornando a base de mais um morro pela direita, a trilha vira p/ oeste, no largo vale do Rio Macaco, e as 10:30hrs chegamos à "vila" de Macaquinhos, q se limita a uma única casa!! Aqui podíamos ir ainda pela trilha, atravessar o raso rio Macacos e continuar pela encosta oposta, c/ destino ao arraial de Barreiros (nordeste). No entanto, nosso destino é Macacos, vilarejo à oeste, e pra isso descemos ao amplo, largo e alvo rio - q brilha de longe devido a enorme qtdade de areia assoreada no entorno - bastando segui-lo ora pela areia, ora pelo leito seco ou pela água rasa, eventualmente atolando o pé. No caminho, muito material de garimpo acumulado nas margens, palhoças abandonadas feitas de folha de palmeiras, etc.
Rio acima, aos poucos a "avenida branca" pela qual seguimos vai sendo lentamente afunilada por enormes paredões rochosos. Agora, subimos o rio saltando de pedra em pedra no interior de um cânion, o q é bem cansativo diante do forte sol das 11hrs. Felizmente, vários córregos e pequenas cachus despejam suas águas cristalinas no rio principal e molhando nossa goela, alem de tornar a paisagem mais interessante. Pra tornar menos ardua a subida, há trilhas na margem q sobem o rio, ora de um lado ora de outro, mas q após um tempo deixa o rio p/ trás e sobe a serra em definitivo, aos ziguezagues pela direita, em meio a uma matacao de arbustos e samambaias. No alto, uma breve pausa pra retomada de fôlego. Daqui a trilha acompanha uma cerca ate cair numa estradinha de terra q, num piscar de olhos, desce pro vilarejo de Macacos. As 12:15hrs, pausa merecida p/ relax, lanche e banho nas águas cor-de-coca-cola do Córrego do Burro, bem do lado da ponte q da aceso à entrada do rustico vilarejo.
Revigorados e novamente pela estradinha, tomamos à direita numa bifurcacao e logo estamos no interior do minúsculo arraial. Aqui ha uma trifurcação, e pelas infos q colhi (sim, sempre eu!) tomamos o caminho da direita (cruzando uma porteira de arame), bem na frente de uma rústica igrejinha. Dali é so seguir em frente. O caminho desce um pouco ate um riachinho (sem ponte) p/ depois subir suave e sinuosamente serra acima. Aos poucos, a vegetação muda e diminui de tamanho, pequenas arvores de galhos retorcidos surgem e os campos rupestres tomam conta da paisagem ao redor. Após serpentear afloramentos rochosos de formatos bizarros, estamos no "Campo das Sempre-Vivas" (ou seja, no parque) q na carta consta como "Campo de São Domingos". São campos de perder a vista, ora dominados por pasto ou por matas de cerrado arbustivo, compacto e espinhento, alem das onipresentes sempre-vivas, claro! Por conta disto, resolvemos nos manter na segurança da estradinha, embora as possibilidades de exploracao à leste/nordeste fossem tentadoras.
O caminho arenoso e repleto de borboletas se mantem inalterado, sem maiores desníveis, rasgando o cerrado plano p/ norte. E o forte sol fritando nossos miolos, sem sombra ou brisa disponiveis, duplica nosso desgaste e consumo de agua. Como não notamos presença do precioso liquido fazia tempo, nossa prioridade foi essa: achar onde repor os cantis urgentemente. Por sorte, as 17hrs, divisamos à direita da estrada (por trilho menos batido, ao longe), a casinha do Ibama q nos fora mencionada, e pra la nos dirigimos sem titubear. A casa estava em construção e c/ algum lixo ao redor, porem dispunha de água (caindo de um cano), acomodações, e ate comida. Estava trancada, mas isso não foi problema, pois com uma escada entramos pela única janela aberta, onde as meninas fizeram uso da toalette, alem de descolar suculentas bananas. Por termos a certeza de água e lugar plano, meu voto foi p/ q pernoitássemos ali, já q não sabíamos se mais adiante teriamos essas facilidades. Porem, Ronald achou o local "deprimente" demais e queria continuar a andar, mas como eu já havia convencido as meninas de não trocar certo pelo incerto, foi voto vencido; deprimente ou não, o local era prático, logisticamente falando. Ate ai o tempo tava ótimo, mas não notamos nuvens agourentas se aproximando sorrateiramente c/ os ventos do sul.
Como prevendo o q viria a seguir, as 19hrs montamos acampamento numa clareira próxima a tempo de nos protegermos da primeira forte pancada de chuva, seguida de violenta rajada de vento. Foi breve, mas suficiente p/ alagar e criar um sem-numero de goteiras no interior das barracas, alem de vinagrar a janta das meninas; não sei como, mas semi-encharcado, ilhado no interior da minha tenda consegui preparar meu miojo. Foi ai q as meninas sugeriram a possibilidade de ir dormir na casa. As coisas pareciam voltar à normalidade, c/ o chão absorvendo o rio q corria abaixo da gente e eu tentando me acomodar pra dormir onde estivesse seco. Mas foi ai q veio o tiro de misericórdia sob a forma de outra implacável tempestade. Se o local já estava alagado, agora nossa situação emulava a de um tal Noé; agua se infiltrava dentro da barraca como se tivesse uma mangueira dentro. Bem q tentei dormir "molhadinho", sobre a mochila ou sentado no isolante, mas não teve jeito. Juntei-me às meninas e fomos correndo p/ casa, tiritando de frio. Chamamos o Ronald mas ele permaneceu na barraca dele, q mais parecia boiar sobre um brejo. No interior da casa, colocamos os sacos-de-dormir sobre os colchões dos beliches e tivemos uma noite agradável e seca, enqto o forte vento se debatia nas janelas e rajadas de chuviscos varriam intermitentemente la fora.
AINDA PELO CAMPO DAS SEMPRE-VIVAS
Segunda amanheceu encoberto e sob fina garoa, mas mesmo assim levantamos as 6hrs p/ avaliar os estragos e tentar secar alguma coisa. Tentar, pq ainda tínhamos um cronograma de caminhada a seguir. Ventava razoavelmente, razão pela qual minha barraca não tava tao molhada conforme imaginara. Ainda assim, ao arrumar a mochila parecia q tava com mais peso do q no 1º dia. Ronald sim q tinha boa parte de pertences úmidos, e incrivelmente, conseguiu passar dormir assim; confessou q, se houvesse a possibilidade, desistia da trip. Assim, levamos nossos pertences p/ casa afim de dar um trato e, claro, tomar café na cozinha. As meninas, por sua vez, concluíram a janta da noite anterior.
Retornamos à estrada principal as 9:30; o nevoeiro se dispersara e um tímido sol nos animou, repleto de promessas. Ao longe, a bruma remanescente cobria o topo dos rochosos, numa cena digna das obras de Tolkien. Aos poucos, o caminho desvia p/ oeste, nos dando outra perspectiva dos enormes maciços e cumes q viramos o dia anterior, ao longe. Já os campos e cerrado rupestre próximos pareciam ganhar novas cores, com sua textura habilmente erodida e repleta de liquens amarelo-laranjas. De acordo o super-relogio do Ronald, estamos constatemente na linha dos 1283m de altitude.
As 11:15 o caminho se divide; pela carta e pouco q avançamos p/ checar, o trilho da esquerda continuava p/ oeste, menos batido, descendo rapidamente as escarpas p/ vale do Rio Preto e, conseqüentemente, Curimatai. Mas como nossa intenção era nos manter nos campos por mais um dia, continuamos pelo caminho principal, ou seja, pela direita e noroeste. Assim, fomos chapinhando trechos alagadiços, caminhando por trilha pedregosa e contornando afloramentos rochosos, agora na cia de irritantes moscas q se enroscavam no cabelo. Foi qdo começamos a descer suavemente ate entrar numa mata maior, e sua bem-vinda sombra serviu de pretexto p/ parada p/ lanche, as 12:30, bem do lado de um pequeno córrego q descia à direita. Aproveitamos o sol daquele horario p/ secar boa parte do q tava úmido. Foi qdo passou um senhor a cavalo, e como parecia q eu era o único homem c/ cordas vocais solicitei algumas infos; este confirmou minhas suposições, mas adiantou q o trilho pelo qual seguíamos já não daria mais em Curimatai (destino original) e sim no arraial de Pé-de-Serra, mais ao norte. Como me garantiu q la havia condução p/ Buenopolis, decidimos entao seguir ate la mesmo. Os tempos por ele fornecidos deviam estar corretos, não fosse nosso desconhecimento da região e, principalmente, do tempo gasto em perdidos, lanches, descansos e banhos, q não eram poucos.
O caminho desce ate terminar numa casa e os restos de uma caminhonete, onde um senhor de idade nos acenou gentilmente. Passado um curral, continuamos por trilhos de vaca q se dividiam, mas q logo se juntavam mais adiante. Ainda em descida, atravessamos um belo trecho de cerrado florido - repleta de arvores de galhos retorcidos e muitos arbustos salpicados de flores coloridas - ate alcançar um amplo campo, onde a nascente do largo Rio Jequitai brilha de forma convidativa. Claro q não deu outra e paramos p/ um merecido tchibum em suas águas cristalinas, as 14:30.
O trilho continua na outra margem do rio em meio a um campo forrado de sempre-vivas e canelas-de-ema, porem sentido nordeste-leste(!?), fato q não atentamos por julgar q o trilho contornasse os rochosos p/ depois continuar p/ noroeste, nosso destino. Entramos numa mata ate q o trilho desaparece num decrépito curral. Procuramos a continuação e nada. Decidi q voltassemos pelo mesmo caminho p/ procurar alguma bifurcacao q nos tivesse passado desapercebida. Dito e feito, voltamos à margem do rio e, sentido noroeste e andando pelo pasto, notamos um trilho q ia na direção de um selado no meio dos rochosos, a noroeste. Dali não tem erro, pq após o referido selado - e uma pancada breve de chuva - a trilha passa a bordejar pela direita as encostas de pasto alagadiças da morraria, sentido norte, ora atravessando alguns focos de mata ou cruzando com pequenos córregos. Sempre com forte sol da tarde esbofeteando nosso rosto.
As 17:30 alcançamos um pequeno gramado, seguido de uma porteirona e dois rios seguidos (q depois ficaria sabendo se chamarem oportunamente "Dois Córregos"), onde decidi q pernoitassemos, principalmente pela presença de nuvens escuras se aproximando ao norte. Como desta vez não dispúnhamos de uma casa, a prioridade era montar as barracas em lugar apropriado e seco, e ali parecia ser o lugar ideal. Felizmente, a pancada de chuva fora breve limitando-se a uma só. O único senão fica por conta dos mosquitos (inclusive abelhas!), q ao anoitecer enlouquecem, parecendo praga biblica. Preparamos a janta e logo depois deitamos, exaustos daquele dia. À noite dei uma espiada la fora e vi o ceu quase limpo, pontilhado de muitas estrelas. Dose foi depois ter de dormir ouvindo o zumbido de malditos pernilongos no ouvido, alem de me retorcer por conta do pescoço queimado e lábios rachados pelo sol.
CHEGANDO EM PÉ-DE-SERRA
A manha seguinte levantamos cedo, e logo q o sol toca as barracas as gotas da fina garoa noturna se desfazem. Depois de um café sem pressa e o equipo engolido pelas mochilas, partimos pontualmente as 8:15. Saltando de pedra em pedra o rio, a trilha continua na outra margem em meio ao cerradao rupestre. Enormes cupinzeiros se acomodam ora sobre rochas c/ cactos, ora a meio caule nas arvores afim de se proteger das eventuais queimadas q devem ocorrer naquela região agreste, naturais ou não. Carcarás e gaviões singram o ceu azul despreocupadamente enqto vamos perdendo imperceptivelmente altitude.
As 9hrs chegamos num curral vazio, seguido de duas casas mergulhadas na sombra de frondosas mangueiras (sem fruto). A trilha desce ate novo rio, q atravessamos com água na altura da coxa, e continua do outro lado por um largo descampado, p/ subir outra vez novo selado atraves de lajedos q servem de degraus naturais. Do selado vamos perdendo outra vez altitude em meio a breves trechos de mata fechada grudenta, acompanhando as nascentes de um corrego. Foi aqui q encontramos Seu Alves, q montado e fumando seu cigarrinho de palha, subia a serra pra buscar cavalos e nos confirmou estarmos na direção certa. A presença de uma espingarda no seu ombro nos causou certa apreensão, mas relaxamos depois ao saber q ele so a carregava por forca do habito, sem munição. Mesmo assim, a Gi já ia dar sermão nele caso mencionasse estar caçando.
Continuamos descendo suavemente, acompanhados pelo rio, atravessando pastos alagadiços ou trechos pedregosos de fundas valas, ate adentrar na mata fechada. As 11:30 fizemos uma parada p/ lanche e banho, às margens do rio Curumataizinho, q descia a serra na forma de numeras corredeiras, poços e cachus. Aqui constatamos varias coisas: a presença de enormes carrapatos, q a bota da Fran rasgara na lateral, q eu tava ralado no tornozelo, q a Gi tava com bolhas e q mta roupa suja devia ser lavada. Feitas as devidas "gambearras" retomamos a pernada serra abaixo, sempre acompanhando o rio.
O Ronald tava apressado e se adiantou, seguido da Fran e a Gi. Eu cabei voltando na cia do Seu Alves, c/ quem tive longa prosa enqto percorríamos um trecho da trilha com calçamento colonial, similar aos da Bocaina. Me contou dos "letreiros antigos" (pinturas rupestres) da regiao, da presença de onças nos campos (daí a razão dos currais estarem sempre vazios), de seu pavor de cobras, de uma planta fulminante só de se cheirar (uma tal de "erva de rato"), entre outros causos. Gentil e hospitaleiro, pediu q o seguíssemos ate sua casa, no pé da serra. Contudo, o calor daquele horario fez com q parássemos novamente p/ nos refrescar noutra das muitas cachus do Curumataizinho. A Fran, cansada, acompanhou Seu Alves serra abaixo. Afinal, sua casa não deveria estar longe dada a presença de varios canos de captação.
Retomamos a caminhada e damos de cara com uma trifurcação. E agora, qual a Fran tomou? Seguindo as pegadas aparentemente dela, tomamos a trilha de areia clara da esquerda (após checar a da direita e desprezar a do meio, q tinha uma cerca de arame). Francamente, eu estava preocupado (e meio puto) pq não deveríamos ter nos separado, pq se for pra nos perder, q fosse ao menos juntos. De qq maneira, sabíamos q ela tava com Seu Alves e por ele deveríamos buscar. Pois bem, a trilha cruzou o rio p/ margem esquerda e se afastou do mesmo, descendo por picada pedregosa e seca, ate q alcançamos o fundo do vale, ou seja, os limites rurais do "sertão" de Pé-de-Serra, as 15hrs. Nos dirigimos às casas próximas onde tive a informação da moradia de Seu Alves, e tivemos q dar uma volta enorme sob forte sol da tarde, passar uma estrada de terra e varias porteiras ate chegar num sitio, onde o Curumataizinho despencava na forma de uma bela e enorme cachu, q por sinal se chama Pé-de-Serra. Do lado, a casa do Seu Alves onde a Fran nos aguardava. Tava resoluto a dar bronca, mas isso foi impossível c/ o doce de pessoa q é, mesmo ela alegando q deixara marcação pra nós, provavelmente ensinada pelo "Manual do Escoteiro-Mirim" já q ninguém viu..
Together again, fomos dar um mergulho refrescante na imponente cachu enqto Seu Alves ficou de ver um veiculo c/ o cunhado p/ Buenopolis. Na seqüência, a tradicional hospitalidade de sua enorme familia fez questão de q almoçássemos fabulosa comida mineira caseira, e so não limpei a panela do frango caipira pq esquecera meu óleo-de-peroba em casa. A casa era simples porém de rusticidade acolhedora, com bichanos, cães esquálidos, galinhas e patos convivendo harmonicamente, tanto q tinham livre aceso as dependências da casa. "Animal Farm" rules!! Entre goles de leite fresquinho, Seu Alves nos conta causos e mais causos, inclusive de sua estadia no Iraque(!?). O proprio sugeriu q pernoitássemos ali mesmo e q amanha tomássemos um bus local p/ Buenópolis, ideia q eu adorei, principalmente c/ a possibilidade de tomar mais da pinga de alambique q ele me dera a bebericar. Eita trem bão, sô! Entretanto, o resto tava impaciente em conseguir condução ate BH ainda naquela noite, e acertamos o preço de R$80 pela carona ate Buenópolis naquele final de tarde.
A SEPARACAO NA VOLTA
Nos despedimos de Seu Alves e sua família, as 17hrs, seguindo por poeirenta estrada e logo depois por um asfalto de dar inveja a qq queijo suíço. Chegamos em Buenopolis hora e pouco depois, apenas p/ saber q a agencia da Gontijo fechava as 16hrs, ou seja, nenhum ônibus pararia ali naquele dia. Ainda havia a remota esperança de outro bus p/ BH, pela Transnorte, parasse no trevo q dá aceso a cidade. No entanto, as infos desencontradas qto esse horario fez com ficássemos prostrados varias horas ali, feitos joão-bobo de psto de gasolina. Péssima ideia ter ido pra Buenopolis! E q saudades da branquinha.. Sem falar no barulho de axé audivel de longe, e na eventual zona de alguma molecada (e algum traveco, q deve ofertar como ninguém o famoso"redondo"mineiro) se preparando pra ultima noite de folia. Resumindo, Ronald foi o primeiro a debandar p/ buscar pouso, logo ele q suportou bravamente um diluvio, se dobrou tao facilmente às facilidade de uma pousada. Eu ainda permaneci mais 2hrs c/ as meninas, inutilmente, ate q as mesmas desceram, insistindo q as acompanhasse p/ alguma pousada. É ruim, hein? Eu já tava de olho no pasto atrás do posto-rodoviaria, e alem disso eu não carrego barraca à toa. Aquela cidade interiorana era segura, ainda mais p/ quem já acampou ate em cemitério. Quase 22:30hrs e morrendo de sono, não acampei onde queria (tava ocupado por caminhoneiros) e me dirigi do outro lado do asfalto, onde subindo um pouco havia um discreto campo de futebol, longe da bagunça. Montei a barraca e capotei, apenas p/ perder a noite mais estrelada da trip. Alguns cães vieram incomodar à noite, mas nada q duas pedradas certeiras não resolvessem.
Na quarta-feira de cinzas acordei as 5hrs, arrumei td e fui tomar café na padoca diante do posto. Na seqüência encontrei o Ronald e as meninas no referido trevo. Assim q o guichê da Gontijo abriu estudamos as possibilidades de retorno. Ate q finalmente apareceu o bus p/ BH da Transnorte, porem precisava de passagem antecipadamente, daí tivemos q esperar ele sair da cidade p/ ver se sobrava alguma vaga. Impaciente, preferi garantir a minha pela Gontijo no das 16hrs direto p/ SP. As meninas tiveram mais sorte, pq o Transnorte passou apenas com 2 vagas, justamente p/ elas, as 9hrs. Ronald queria pq queria tb chegar cedo, e tomou um bus p/ Curvelo logo depois, na esperança de abreviar distancias. E fiquei ali pelo resto do dia. Deixei a mochila no guichê e fui dar um rolê pela verdejante serra do lado, e em hora e meia, alcancei as torres de telefonia celular do alto e de onde se tem uma vista linda da cidade. Retornei no mesmo tempo, me entretendo com os ringtones do celular. Passeei pela simpática cidade ate estacionar de vez num boteco, no calor infernal do meio-dia, onde enchi a cara, comi alguma coisa e conversei com algumas locais. La pelas 14:30 voltei à rodoviária onde tomei uma boa ducha e comprei mantimentos p/ viagem. Parti pontualmente as 16hrs e o motora pisou fundo, pois as 20hrs já estávamos em BH, onde encontrei os farofeiros da ida, q felizmente estavam noutro bus. Cheguei em SP as 5hrs da manha sgte.
Pra quem se dispõe a conhecer lugares pouco explorados, mesmo q tenha q vencer gdes distancias, este outro Espinhaço reserva momentos inesquecíveis, ainda mais qdo é uma empreitada pioneira q certamente oferece muitas outras possibilidades futuras de reconhecimento. Agora, com td este previo know-how entregamos a aventura em suas mãos. Ou pés, como preferir, pq seja de exploracao ou não, as impressões desta serra mineira se mantem tal qual suas ilustres plantinhas, ou seja, sempre-vivas.