"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Caros amigos, enfim estou acertando as coisas na minha vida pessoal e finalmente vou postar as fotos da minha última viagem que fiz nas férias.
Me desculpem o post longo, mas acho interessante para que se alguém quiser um dia fazer esta alucinante viagem, tenha uma fonte de pesquisa de informação.
No dia 03 de maio de 2009, eu, Mauro Goulart e Marcelo Schmoeller (os dois são fotógrafos profissionais), partimos para uma viagem com meu carro (Fiat Palio Adventure Locker 2009) com destino ao Ushuaia e retorno pelo Chile, atravessando a Cordilheira dos Andes até chegar de volta em casa, Florianópolis.
A idéia inicial era de 12.000 km, onde após conhecermos Pucon, retornaríamos ao Brasil. Durante a viagem fizemos uma alteração de roteiro, onde aumentamos 4.000km indo até o deserto do Atacama no norte do Chile e depois retornaríamos ao Brasil, aumentando em 4 dias nossa viagem.
Minhas fotos estavam hospedadas em um site que passou a cobrar pela hospedagem e caiu todas as imagens que tinha upado aqui. Vou colocar o link da minha galeria da viagem caso alguem queira ver alguma foto:
https://goo.gl/photos/yTeCtSXoW6PAoiu8A
Aqui segue uma idéia do que foi nossa viagem, onde a linha azul seria o percurso a ser percorrido
A idéia era de gastar pouco, separamos itens de acampamento, barracas, sacos de dormir térmicos, fogão, etc. O carro foi completamente carregado, afinal 3 fotógrafos equivalem a 03 mochilas com muito equipamento, 03 tripés, e assim vai.
Dia 01
Saímos de Florianópolis as 03:00hs. Só conseguimos sair este horário porque o Marcelo estava fotografando um casamento e acabou indo direto para a viagem. Tocamos pela BR-282 até Lages e depois pegamos a BR-116. Passamos a fronteira por São Borja, divisa com Santo Tomé(ARG) por volta do meio dia. Pegamos a RN14 e paramos em seguida para almoçar em uma das várias parrillas pela estrada. Decidimos tocar até onde o cansaço permitisse. Paramos por volta das 22:00hs na cidade de Gualeyguachú, totalizando 1.700km no primeiro dia de viagem.
Dia 02
Como ainda estávamos com disposição de sobra, levantamos bem cedo e voltamos a estrada. Por volta das 07 da manhã fizemos nossa primeira parada fotográfica, passando pelas pontes sob o Rio da Prata ao amanhecer. Conseguimos pegar um caminho pelo meio do mato para fazer umas fotos. Começamos a sentir um friozinho de leve, pegando 6 graus de temperatura, sendo que ainda desceríamos ao sul mais 5.000km.
https://photos.app.goo.gl/mdZTtXBLJjXMXHFq5
https://photos.app.goo.gl/RmGej19R8yzyi6HQ6
https://photos.app.goo.gl/GhpJnD4Za1to2TVKA
Continuamos dirigindo até onde daria, pois a primeira parada que daríamos seria só em Peninsula Valdéz, então, pé na estrada. Paramos a noite novamente, agora em Viedma, completando mais 1.141 km de viagem.
Dia 03
Acordamos empolgados, pois iríamos passar pela famosa Peninsula Valdéz. Um pouco cansados, acordamos pela primeira vez com a luz do sol já aparecendo.
Chegamos na Peninsula Valdez por volta do meio dia. Infelizmente não foi como esperávamos. As baleias já haviam migrado para águas mais quentes e os pingüins ainda não haviam chegado por lá. Restou apenas ver alguns leões marinhos e aproveitar a paisagem.
Marcelo Schmoeller, Mauro Goulart e eu.
Voltamos para a estrada e acabamos ficando em uma cidade chamada Caleta Olivia. Hoje mais comedidos, fizemos apenas 915km.
Dia 04
Saímos de Caleta Olivia ainda cedo e começamos a sentir o vento + frio. O bicho começou a pegar. Casaco e tocas jaó não ocupavam mais o bagageiro. Paramos no caminho em uma cidade chamada Com. Luis Piedra Buena e o vento que estava no local era absurdo. O frio já era muito intenso. A cidade bem pequena mas a natureza foi muito generosa lá.
No final do dia chegamos em Rio Gallegos, nossa última parada antes da Terra do fogo. Estávamos muito empolgados. Aproveitamos a noite para ir em um café com internet e atualizar o nosso blog da viagem. Percurso light, apenas 694km.
Dia 05
De madrugada começamos a ouvir um barulho e logo pensamos, começou a chover. Ficamos meio tristes, pois seria um dia cheio de expectativa para a gente, afinal atravessaríamos o estreito de Magalhães, chegaríamos a Ilha da terra do fogo e conseqüentemente na cidade de Ushuaia (Fin Del Mundo).
Fui o primeiro a levantar, fiz um café na cozinha, tomei um banho e fui ligar o carro, pois fazia frio demais. Quando sai do hotel para ir ao carro a minha surpresa. Não era chuva, foi neve que caiu de madrugada e, diga-se de passagem, muita neve. Tudo estava branco, carro, ruas, gramados, enfim, a paisagem mudou por completo.
A funcionária do hotel chegou por volta das 06 da manhã dizendo que havia caído uma nevasca e que a estrada estava interditada que ia para o ushuaia. E que havia feito -5 graus aquela madrugada. Na aflição, carregamos o carro para tentar chegar até nosso destino.
O problema foi: e agora quem dirige? Não tínhamos correntes, nem conclave (pneus com pregos para dar mais aderência sob o gelo). Bom, ganhei o premio, fui o motorista do gelo e da neve. Sem nunca dirigir nesta situação, tive que aprender a cada curva, a cada esquina. Não tem como pisar no freio, pisou no freio já era. O carro vai embora. Não dá para acelerar muito, pois o carro patina e sai de traseira. O negócio é dirigir na manha, devagar e reduzindo marchas o tempo todo para parar o carro. Partimos em direção de um posto para comprar as tais correntes.
Aqui começa nosso desespero e a aventura que irei com certeza contar para meus filhos e netos. No posto de gasolina de Rio Gallegos pedi pela tal corrente e, o frentista me olhou estranho falando: “como assim? “. Resumindo, os moradores desta região, todos possui o pneu com pregos, ninguém usa corrente. Corrente é item para turistas e, nós muito espertos, não estávamos em temporada de turismo. Ou seja, não existe a tal da corrente para vender esta época do ano no sul da Argentina. Esta região é tão fria de Abril a Setembro, que todos os supostos aventureiros que embarcam nas expedições sempre vão no verão e, nós idiotas, estávamos na porta do inverno num dos lugares mais frios do planeta.
Bom, já que estávamos ferrados a quase 5.000 km de casa, fazer o que né? Vamos encarar e ver onde vai dar isto... Pegamos a ruta nacional seguindo para a Aduana Chilena, Pois um pouco antes do Estreito de Magalhães, passa a ser Chile e depois, dentro da ilha da Terra do fogo, volta a ser Argentina denovo. É isso mesmo, essa confusão de aduanas e imigrações.
Enquanto íamos prosseguindo, cada vez mais a estrada ia ficando mais lisa, completamente coberta por gelo e neve. Tinhamos 50km para percorrer até a imigração e lá, íamos conversar com os oficiais e ver o que íamos fazer, (Maldita nevasca...).
Vários carros argentinos vinham em sentido contrário dando luz alta fazendo gesto de que a estrada não tinha condições de passar, mas nós como bons brasileiros, não desistimos nunca. Meu braço já apresentava sinais de cansaço de tanto esforço em manter o carro dentro do que eu imaginava que seria a estrada, afinal não dava pra perceber onde acabava a estrada e onde era acostamento.
Durante o caminho demos algumas paradinhas para curtir o frio (provavelmente algo em torno de -10 graus) e fazer umas fotos:
Estrada completamente congelada
Este foi guerreiro
Por: Mauro Goulart
Por: Mauro Goulart
Por: Mauro Goulart
Por: Mauro Goulart
Por: Mauro Goulart
Quando de longe avistamos a aduana Argentina, indicando que sairíamos da Argentina para o Chile, ficamos contentes demais. Vencemos os 50km de gelo e neve e mostramos pros gringos que os brasileiros são braço!
Conversando com os policiais argentinos, eles não nos queriam deixar atravessar. Não tínhamos conclave nem Cadeñas (Correntes) e eles estavam apavorados com a nossa petulância de irmos tão longe sem os itens de segurança. Depois de muito conversar e explicar que não íamos desistir depois de vir de tão longe, convencemos a nos liberar e deixar ir para a aduana do Chile, alguns kms a frente. Enfim, chegamos no extremo sul do Chile.
Eu. Por: Marcelo Schmoeller
Já com os oficiais chilenos, estes foram bem mais simpáticos e nos advertiram, querem seguir, problema de vocês. Então, vamos embora.... Antes, vimos a temperatura: -16graus. É, começou a fazer um friozinho. Continuamos então a dirigir no gelo e neve, até que depois de uns 20 a 30km percebemos que a neve foi diminuindo e simplesmente a paisagem voltou a aparecer de maneira natural, mostrando que a nevasca foi realmente localizada. Mais tranqüilos, chegamos ao estreito de Magalhães para adentrar a ilha da terra do fogo.
Já na balsa
Eu dirigindo e mauro de navegador saindo da balsa e entrando na Isla da tierra Del fuego.
Agora tínhamos 480km até chegar no Ushuaia. O grande problema é que não daria para dirigirmos a noite, pois íamos atravessar a cordilheira dos Andes e com certeza voltaríamos a pegar neve e gelo na pista e já eram 15:00. Como anoitece cedo demais no sul, tivemos que optar em ficar em Rio Grande (já de volta na Argentina).
Guanacos, da família das lhamas. Está sempre presente na vegetação patagônica.
Entrando de volta na Argentina
Fim de mais um dia, agora na terra do fogo.
Dia 06
Acordamos com um pouco de tempo, afinal tínhamos que percorrer apenas 250km para chegarmos até Ushuaia. Então iríamos aproveitar o caminho e sabíamos que a cordilheira nos esperava o que renderiam algumas boas imagens.
Ponte sobre o Rio grande
Avistando a Cordilheira dos Andes
Lago escondido, Passo Garibaldi. Um pouco antes de chegar em ushuaia
Este lugar é fantástico.
Eu, Mauro e Marcelo. Muito frio, neve até a cintura.
Por Mauro Goulart
Estrada que estava dirigindo pela cordilheira. Emoção é pouca... Só saindo de traseira
Neve é mato....
Enfim chegamos ao Ushuaia. Cidade muito legal. Bastante movimentação portuária e cravada na cordilheira dos Andes. Cercada por montanhas e pelo canal beagle, que faz divisa imaginária pelo mar com o Chile. Pertinho da Antártica.
Monte Olivia, montanha mais alta do Ushuaia.
Cidade do Ushuaia
Chegamos ao ushuaia presenteados por um lindo e dia e pela lua cheia.
Por: Mauro Goulart
Ficamos tão empolgados por ter alcançado nosso objetivo, de estar sentindo o clima de estar no fim do mundo, de poder respirar aquele ar gelado cercado por exuberantes montanhas e vendo aquela lua cheia que nem almoçamos e nem procuramos hotel. No final da noite, saímos de lá para pegar um albergue e recompor as energias.
Dia 07
Este dia foi bem especial pois íamos fazer um passeio de barco pelo canal de beagle e presenciar imagens que tínhamos pesquisado por tanto tempo na internet.
Partimos rumo ao sul, onde cruzaríamos a linha imaginária da argentina com o Chile via mar, para avistarmos o farol eclaireurs, que é super famoso. Embora não seja o farol mais ao sul do planeta, ele é conhecido como o farol do fim do mundo.
Continuando o passeio, e tentando sobreviver a sensação extrema de frio, pois a temperatura era inferior a -20 graus e com o vento que vinha do barco, a sensação térmica chega a ser perto do absurdo de se suportar, passamos por uma colônia de leões marinhos. Em seguida, paramos em uma ilha que era habitada por aborígenes, ou seja, pisamos em terras mais austrais do que a cidade de Ushuaia.
Este passeio levou toda a manhã e, planejamos para a tarde subir uma das montanhas de carro onde tem uma estação de esqui. A subida foi difícil, pois estava bem congelada a estrada e sem as correntes o carro não conseguia tracionar. Foi de novo na raça...
Chegando na base da montanha, começamos a subir a estação a pé, pois a temporada de esqui é no verão (isso mesmo, de tão frio a estação fica fechada ate julho). Só havia moradores da cidade andando de snow ou esquiando. O que rendeu algumas fotos.
Voltamos para o centro da cidade e aproveitamos para fazer umas compras a noite, passando num dutty free e em lojas de souvenirs, afinal estávamos no final do mundo.
Dia 08
A idéia da programação era ir para o parque nacional da terra do fogo onde fica a Lapataia e o final da estrada Panamericana. Mas para nossa infelicidade, não nos deixaram entrar por causa das malditas correntes. A estrada realmente estava bem perigosa dentro do parque e havia tido um acidente com vítimas. Como o parque é particular, tivemos que abandonar nosso projeto e isto realmente foi um dos pontos baixos da viagem.
Voltamos para o centro da cidade e fizemos um tour por outra parte da orla captando imagens por outros ângulos que não os tradicionais. E tiramos o resto do dia para descansar e seguir viagem no outro dia.
Avião da força aérea armada argentina
Dia 09
Alguns moradores do Ushuaia haviam nos dito que fomos incrivelmente abençoados pelo tempo, pois pegamos dias absurdamente espetaculares e, lá na maior parte do ano, sempre o tempo é fechado e com chuva. Um rapaz que trabalhava no barco em que andamos falou que em 4 anos que ele morava lá, nunca havia pego mais que dois dias de sol. Como pegamos três, no quarto é claro que a chuva tinha que dar o ar da graça. Pegamos a estrada e rodamos os quase 500km que vai do Ushuaia até o estreito de Magalhães com chuva. De lá, ao invés de voltar para a Argentina, pegamos a esquerda e seguimos pelo Chile, percorrendo toda a cordilheira dos Andes até chegar a cidade de Puerto Natales, a base operacional do Parque Torres Del Paine.
Chegamos na cidade de Puerto Natales por volta das 20:00 horas e com muita chuva ficamos preocupados. Íamos ter apenas o dia seguinte no nosso roteiro para conhecer o parque e Torres Del Paine sempre fica encoberto, mesmo com sol.
Achamos um hotel bem bacana e o pessoal do Hotel falou a mesma coisa. Previsão de chuva por 4 dias. Sem chance de pegar Torres Del Paine. Que pena, fomos dormir frustrados, mas sabendo que tínhamos muita coisa bacana pela frente ainda.
Dia 10
Acordamos preparados psicologicamente para irmos embora para nosso próximo destino mas não acreditamos quando fomos para o café e vimos que o céu estava azul. Com o tempo do dia anterior era improvável que isto fosse acontecer e realmente aconteceu. Animados e apressados, engolimos o café e pegamos o equipamento para partir para o parque.
Quase uma hora depois começamos a avistar as imponentes montanhas que formam o parque.
Essa foi uma das minhas fotos que mais gostei
Por: Mauro Goulart
Quando chegamos em frente as montanhas que formam as torres Del paine, onde estão os cuervos Del paine (Rochas entre as montanhas ), havia uma névoa, mas para quem achou que não ia ver, estávamos no lucro...
Por: Marcelo Schmoeller
Entramos no parque, fomos até o rio grey onde vimos os icebergs que se desprendem do Glaciar grey. O tempo fechou e acabei não me empolgando em fotografar, mas foi um passeio legal, principalmente por tentar caminhar contra as rajadas de vento acima de 150km/h. Lá a gente entendeu o porque que as arvores não crescem para cima e sim para o lado.
Depois retornamos ao hotel para um banho quente e deixar as malas prontas para a estrada no outro dia.
Dia 11
Acordamos com um belo dia de sol e como o parque era caminho, resolvemos esticar um pouco mais antes do passo para a Argentina e tentar a sorte para pegar as montanhas sem as nuvens encobertas. Não deu outra. Simplesmente fantástico...
Por: Mauro Goulart
Por: Mauro Goulart
Por: Marcelo Schmoeller
Acabamos não fazendo as fotos do lado clássico porque não entramos no parque, primeiro porque era caro para pagar por dois dias e segundo porque tínhamos que voltar para Argentina e seguirmos viagem para El Calafate, base operacional do Glaciar Perito Moreno.
Chegamos em El Calafate e fomos surpreendidos de maneira mais do que positiva pela cidade. Encantadora, lembra a cidade de Gramado no RS. Bem estruturada para o turismo, muitos restaurantes, agencias de turismo, locais para compras, etc. Foi sem sombra de dúvida a cidade que mais gostamos de ficar.
Aproveitei para fazer a troca de óleo, pois já tínhamos rodado mais do que 8.000km. Em seguida pegamos um hostel, muito bom por sinal e fomos atrás de uma agência para fecharmos a escalada sobre o glaciar, que era algo que queríamos muito fazer. Depois curtimos o clima aconchegante da cidade.
Dia 12
Mais um dia com muita expectativa para nós. O glaciar Perito Moreno era um dos Highlights da viagem para nós. Ainda por cima não só iríamos vê-lo como também andar sobre ele. Algo realmente indescritível.
Acordamos cedo, tomamos um café e fomos em direção ao parque nacional onde se encontra o glaciar, de El Calafate até lá vão uns 40 minutos de carro.
Chegando no parque, havia uma promoção de ingressos. Comprando um acesso de um dia, ganhava acesso livre para o dia seguinte. Ótimo para nós, mas a idéia era apenas ficar um dia no glaciar. Estacionando o carro, e chegando aos balcões de visitação, é indescritível a sensação de olhar aquele gigante e imenso glaciar. O paredão frontal chega a ter 80 metros de altura. E o Glaciar tem o tamanho de quase duas vezes a ilha de Florianópolis. Você pensa sobre a vida, sobre como você é pequeno neste mundo. A imponência deste bloco de gelo faz você ficar quase uma hora olhando sem sequer ter vontade de tirar qualquer fotografia. Como tínhamos até as 11 horas da manhã para sair o nosso barco, ficamos observando e fotografando.
As 11 da manha nos dirigimos para o local de partida do nosso barco para fazer a escalada no glaciar. Chegando lá nos juntamos com outros turistas de várias partes do mundo. O lance é bem organizado, com monitores falando em inglês e espanhol.
Quando o barco parou, saímos numa encosta de uma montanha, onde ela encostava com uma das bordas do Glaciar. Lá tem um acampamento onde guardamos nossas coisas, pois é extremamente aconselhável a não levar peso, pois a subida é íngreme e extremamente escorregadia, mesmo com os grampones (acessórios para os calcados para caminhar no gelo).
Recebemos uma mini aula de história sobre como se formou o glaciar e também um rápido treinamento para subir e caminhar no gelo. Depois foi só alegria....
Muitas fendas no glaciar que iam até o fundo do rio, o que se tornava perigoso para caminhar.
Para fechar com chave de ouro, a agencia nos presenteou com um whisky on the rocks, com o gelo quebrado do próprio glaciar na hora.
Lagoas límpidas sob o glaciar formado pelo degelo
Já na volta no acampamento.
No barco, retornando do passeio.
Chegando aos balcões novamente por volta das 15:00, voltamos a fazer mais algumas fotos até o final do dia.
Imensidao do glaciar perto de um catamarã de 3 andares
Por volta das 17:30 resolvemos voltar para El Calafate. Ainda deu para fazer mais umas fotos no caminho...
A noite fomos jantar uma parrillada no centro de El calafate. Discutimos sobre o dia e tivemos uma certeza. Adiaremos um dia a nossa partida para poder ficar contemplando de novo o glaciar, afinal tínhamos entrada gratuita por causa da promoção do parque.
Dia 13
Nos demos o luxo de acordar mais tarde, fazer câmbio no banco e nos dirigimos ao glaciar por volta das 11 da manhã. Eu fiz questão de não fotografar, queria registrar na minha memória todos os detalhes, pois é realmente uma das maravilhas do mundo.
O dia foi bem interessante, pois a correria que a viagem vinha sendo, foi importante ter um dia assim para conversar, descansar, e não se preocupar com tempo. Voltamos para a cidade as 16:30 e saímos para umas comprinhas. Durante a janta tomamos uma importante decisão...
Nosso projeto inicial era subir a ruta 40 até Esquel com destino a Bariloche. Acontece que eram quase 1.000km de estrada de rípio (chão + cascalho) muito ruim. Achamos uma rota que voltaríamos para a ruta nacional que pegamos para descer para ushuaia e depois uma outra estrada nos levaria para Esquel. Teríamos apenas 100km de estrada de chão. Mas aumentaríamos nossa viagem para Bariloche em 700km. A dúvida então era, 1.000km de chão ou 1.700km de asfalto + 100km de chão?
Para o bem do carro, ficamos com a segunda opção.
Dia 14
Bom, esse dia incorporei o motorista. Afinal, eu fui o maior responsável por aumentarmos o nosso caminho. Se fizéssemos a ruta 40 com os 1.000km levaríamos um dia e meio para chegar em Esquel. Eu tinha que provar que ia ser mais rápido pelo asfalto. Começamos a viajar as 04:00 da manha e eu peguei sem parar os 1.700km, chegando em Esquel por volta das 02:00 da manhã do dia 15. Isso mesmo, 22:00 no volante sem trocar dirigindo sem parar. Quer dizer, paramos para fazer umas fotos do nascer do sol e do entardecer.
Achamos um hotel em Ésquel e partiríamos para Bariloche depois de carregarmos a bateria com algumas horas de sono.
Dia 15
Um dia que era para ser inesquecível acabou virando um pesadelo. Mais tarde vão entender porque.
De Esquel a Bariloche eram apenas uns 200km. Viagem curta, tranqüila. Levantamos, pegamos o carro e fomos até um parque nacional que tem em Esquel, mas nem valeu foto pois chovia muito. Depois paramos em um ótimo restaurante, tomamos um bom vinho, comemos um cordeiro e seguimos para Bariloche.
Chegamos com tempo, por volta das 15 horas. Fomos atrás de hotel e albergues. Depois de olharmos uns 5, nos hospedamos no Tango Inn. Faço questão de colocar o nome, pois tivemos um grande problema lá. Entraram no nosso quarto e roubaram um HD de Mao do Mauro, 400 pesos argentinos do Marcelo e minha filmadora com a filmagem da nossa caminhada sobre o perito moreno junto. Lastimável, valor incalculável. Corremos pela cidade, fomos na policia, fizemos B.O.
Ficamos muito chateados, vou dizer que isto influenciou na nossa estadia em Bariloche. Queriamos ficar três dias na cidade. Acabamos ficando um dia e meio. Aliás, não conseguimos ver graça nenhuma na cidade. Vai ver porque não tinha nevado ainda. Bariloche deve ser uma linda cidade coberta por neve. Mas o que vimos foram montanhas coberta de matos com meia dúzia de lagos. Mas como disse, ficamos tão chateados com a situação que tenho certeza que isto influenciou na nossa percepção sobre a cidade.
Bom, claro que na mesma hora saímos do albergue e fomos para um hotel, pagar a mais mas pelo menos ter segurança. Depois saímos para jantar e fomos dormir.
Dia 16
Saímos do hotel e o tempo não colaborava muito. Abria um sol, fechava, garoava, fazia sol. Um saco literalmente. Resolvemos ir no Cerro Otto. Famoso pelo seu restaurante giratório no alto da montanha.
Pegamos o teleférico e lá em cima observamos os lagos e as ilhas. Tomamos um café no restaurante e fomos embora. Vimos umas fotos lá coberto de neve, realmente muito bonito. Mas não demos sorte porque começa a nevar apenas meados de junho.
Mauro e eu no teleférico
Em seguida fomos para o Cerro Catedral, local mais famoso de Bariloche onde é a estação de esqui. Chegando lá, estava fechado pois não tinha neve na montanha para esquiar. Mais uma vez, frustração. Estava completamente vazio. Vimos fotos por lá também de uma montanha coberta por neve, deve ser muito legal esquiar ali. Ficamos apenas com algumas fotos para registro.
Resumindo, acabamos nosso tour por bariloche em uma manhã. Depois do almoço, fomos fazer umas compras no centro. Cada um foi para um lado. Realmente estávamos precisando disto, foram 16 dias convívio intensos sem nunca ficar sozinho, a não ser quando estava no banheiro. Foi um alívio poder caminhar sozinho e fluir as idéias. A noite comemos uma pizza e pegamos um pub para ouvir um rock.
Dia 17
Saímos de Bariloche com uma sensação de tristeza e alívio ao mesmo tempo. Fomos em direção de San Junin de los Andes onde iríamos voltar para o Chile. Passamos por uma reserva florestal muito bonita com araucárias, e por um parque nacional repleto de verde exuberante. Pena o tempo não aliviar, fomos com chuva até Pucón.
Em Pucón então, nem se fala. Um dilúvio estava caindo. Fomos até um cyber ver a previsão do tempo e não foi positivo, chuva por mais 4 dias. E pela forma como caia a água não parecia que íamos ter a sorte que tivemos em torres Del paine. E agora, o que fazer? Pucon era nossa última cidade antes de voltar para o Brasil, onde íamos subir o vulcão Villarica. Aquela frustração de Bariloche voltou naquele momento.
Logo tomamos uma decisão, estávamos no sul do Chile. De Pucon a Santiago iam uns 600 a 700km. Vamos a Santiago e ficamos uns três dias por lá fazendo um circuito cultural, indo em viniculas, etc. Pareceu uma boa idéia.
Fizemos o check in no hotel e aquela sensação de que algo não estava certo continuava a nos atormentar. Lá no hotel coincidentemente encontramos um casal de minas que havíamos conhecido no Ushuaia, que fazia uma expedição como a nossa.
Depois de umas cervejas, já tarde da noite, o colega de minas sugeriu. Voces estão em três, o deserto do atacama fica a 3.200km daqui, porque não revezam e vão para lá? Aquilo entrou como música para nossos ouvidos. Ninguém falou nada, nem precisou. Fomos dormir com um brilho no olhar. Acho que ao amanhecer ia haver mudança nos planos...
Dia 18
O Marcelo ficou um pouco preocupado em relação ao tempo. Estava com medo de não conseguir chegar ao Brasil para seus compromissos. Eu e o Mauro (mesmo ele já conhecendo o Atacama) estávamos empolgados demais com a idéia de irmos para o deserto do Atacama, afinal era um lugar que eu tinha toda a vontade do mundo de conhecer mas pensava em fazer outra viagem para isso, quando eu percebi da possibilidade estava empolgado demais. Acabamos convencendo ele com o argumento de que não dormiríamos esta noite, revezaríamos sem parar até chegar ao fim dos 3.200km.
Fui o primeiro a pegar o volante do carro. Saímos de Pucon embaixo de chuva por volta das 08 horas da manha. Eram 18 horas qdo chegamos a Santiago. A chuva já havia passado e eu continuava dirigindo,meu objetivo era dirigir o máximo que meu corpo agüentasse, afinal sou acostumado a dirigir bastante.
Dia 19
Entreguei o carro por volta das 04:30 da manha. Havia conseguido dirigir quase 2.000km. Mauro assumiu o volante e entregou por volta das 08:00 da manha para o Marcelo. As 11 horas assumi de novo a direção.
Por volta do meio dia chegamos a Antofagasta, porta de entrada do deserto do atacama. A paisagem já havia mudado bruscamente, mostrando a aridez do deserto. Antofagasta é banhada pelo oceano Pacífico, paramos em um monumento chamado “Manos Del Desierto para fazer umas fotos e depois entramos na cidade de Antofagasta para fotografar um pouco mais também.
Antofagasta e o oceano pacífico, meu terceiro oceano.
Continuamos a viagem, estávamos próximos de San Pedro de Atacama, base operacional do deserto do atacama. A viagem dos extremos começava agora a apresentar a variação de temperatura. Depois de pegar o frio exorbitante do ushuaia, a temperatura já batia nos 34 graus.
Chegamos em San Pedro de Atacama as 16:30. Um pouco antes de chegar a cidade vimos uma concentração de vans de turismo se dirigindo para uma estrada, nós brasileiros e malandros que somos, fomos atrás, afinal podia ser um ponto turístico que não precisaríamos pagar para uma agência o passeio.
Caímos em uma estrada de chão horrível e a adventure teve que ser guerreira. Quando vimos, chegamos ao vale de La luna, uma das atrações do Atacama. Ótimo, mal tínhamos chegado e já estávamos prontos para fotografar...
Vulcão Licancabur
Exausto depois de subir um baita morro a 2.800 metros de altitude
Começamos a perceber a variação de temperatura do deserto. Chegamos a quase 35 graus no meio da tarde e quando caiu a noite a temperatura despencou para 5 graus. De manga curta, restou correr para o carro e procurar um hotel na cidade.
Nos hospedamos na mesma pousada que o mauro havia ficado outra vez e saímos para beber e fazer um brinde ao deserto porque Bariloche ninguém nem se lembrava mais.
Dia 20
Levantamos e fomos dar uma volta no centro de San Pedro de Atacama. Com população em torno de 1.000 habitantes, a cidade se concentra por umas 20 ruelas de chão e com um comercio completamente voltado para o turismo. A torre de babel parece ser lá. A variedade de idiomas que são falados pelas ruas, de gente e culturas diferentes já vale a ida a San Pedro.
Pegamos o carro e fomos até as lagunas cejas, que são lagoas de sal. O acesso é difícil e não tem sinalização nenhuma. Tem que sair da estrada, andar por dunas e torcer para encontrar. Como não estávamos afim de pagar agencia de turismo, resolvemos nos aventurar. Encontramos até com certa facilidade e como estava quente, aproveitar para tomar um banho...
O bacana que pelo fato das lagoas serem altamente concentradas de sal, por mais que se tente mergulhar, você nunca consegue afundar mais que a cintura...
Ainda conseguimos avistar uns flamingos...
Sobrando um tempinho e com o mapa do deserto em mãos, resolvemos ir ao altiplano chileno ver também as lagoas altiplanicas. O que pegou, que o mapa não falava sobre o relevo da região. Começamos a subir, subir, subir e a temperatura despencar, despencar, despencar. Para quem estava úmido do banho e de bermuda, chinelo e camiseta, não havia sido uma Ideia muito legal.
Quando chegamos a marca dos 4.500 metros de altitude o carro começou a apanhar feio. Por causa da falta de oxigênio, a combustão era prejudicada e o carro perdia potencia. Por varias vezes tinha que desligar o carro esperar, arrancar e embalar. Não conseguimos ficar mais do que 5 minutos fora do carro. A temperatura era de -1 grau.
Voltamos para a cidade congelados praticamente e após o banho fomos jantar e dormir cedo, pois no outro dia teríamos o esperado passeio aos Geisers Del tatio e a van nos pegaria as 4 da manhã. Expectativa de muito frio para o outro dia.
Dia 21
Como previsto, acordamos por volta de 03:15 da manhã para aguardar a van que nos buscaria em nosso hotel. Os Geisers devem ser apreciados por volta das 06:00 devido ao contraste de cores e temperatura do amanhecer, onde é mais visível o vapor expelido por ele.
Os geisers Del tatio ficam dentro da cratera do vulcão tatio. A cratera devido a erosão foi sedimentada por minérios como calcário e os gazes vulcânicos são expelidos por meio dos geisers. Ele é o maior e mais alto parque geotérmico do mundo, com aproximadamente 70 geisers.
Já dentro da van, percorremos quase duas horas montanha acima até chegar no topo do vulcão. San Pedro de Atacama fica a 2.500 metros de altitude e o parque fica a 4.600 metros. Aqui a altitude faz efeito devido as curvas sinuosas e a impressionante velocidade que o motorista andava.
Chegando lá, meio enjoado é claro, fomos informados que a temperatura era de -16 graus. Já sabíamos que lá fazia muito frio, portanto estávamos bem agasalhados.
O parque é muito bacana, não tem geisers como o Yellowstone nos EUA, mas como são muitos, fica bonito de se ver. Não tirei muitas fotos por causa do frio, realmente meu dedo estava meio travado.
Depois de ver os geisers e de um café da manha oferecido pela a agencia de turismo, fomos convidados a conferir uma piscina natural formada pelas águas vulcânicas. Como esta água vem do interior da cratera ela tem cerca de 30 graus. O que seria bem convidativo, afinal a temperatura estava quase em -20. A decisão é difícil, ir ou não ir? E o maior problema, se secar depois.... Bom, acabei entrando!
Após a pior sensação de frio da minha vida, que foi se secar pelado a -15 graus, me vesti e fomos embora com a van. Antes de chegar em San Pedro, demos uma parada no Peubelo de Machuca. Um povoado que fica próximo ao vulcão que tem 50 habitantes.
Chegando em San Pedro, além do sono por ter dormido pouco, a altitude deu uma balançada e capotamos. Levantamos inicio da noite para comer e voltar a descansar para começar o retorno para o Brasil.
Dia 22
Começamos nosso regresso para casa. Saímos de San Pedro de manhã cedo e iríamos cruzar para a Argentina por Passo Jama. O que não sabíamos seria da dificuldade.
Não havíamos percebido que iríamos cruzar a cordilheira ainda na altura em que estávamos, mas começamos uma subida incessante e logo o carro começou a perder desempenho de novo por causa da falta de oxigênio. Chegamos a altitude de 5.500 metros em determinada parte da estrada. O Mauro, nosso professor Pardal, fez com que abrissimos os vidros e colocássemos as mãos para fora com o carro a 80 km/h e foi impressionante... Não tinha vento contra, ou seja, não tinha resistência do ar nenhuma.
Passamos umas 4 horas de trabalho, mas logo fomos recompensados, já no lado da Argentina, cruzamos por dentro de um Salar, o Salar Salinas Grandes.
A cada km não sabíamos o que nos esperava, afinal não havíamos pesquisado absolutamente nada desta região, tudo era uma surpresa.
Estávamos a mais de 4.000 metros de altitude e sabíamos que uma hora ia ter que vir a descida. Só não sabíamos que seria tão bonita assim. Passamos por uma cerra que se chama Cerro sete colores, em Purnamarca. O lugar é patrimônio histórico da humanidade reconhecido pelo Unesco e nem sabíamos disso. A descida foi fascinante, cheio de cores e natureza completamente diferente.
Por Mauro Goulart
Chegamos na aconchegante cidade de Salta já tarde da noite, logo depois de pegar uma rodovia nacional onde é um lado de pista só e é Mao dupla, ou seja, se vem carro tem que jogar pro acostamento. Acho que a Argentina também foi colonizada por portugueses...
Era véspera de feriado nacional, a cidade estava bem eufórica a noite, aproveitamos para tirar umas foto (menos eu, não estava afim de sair com a câmera na Mao) e ir em um barzinho para fazer amizades em Salta.
Sacolinha da havana na mão.
Dia 23
Partimos por volta das dez da manhã, afinal a dorzinha de cabeça da cerva da noite anterior ainda estava pegando. Seguimos sem parar até chegar na cidade de Corientes, onde passamos a noite.
Dia 24
Este dia tivemos um outro episódio lamentável. Lemos por várias pessoas sobre a policia corrupta da Argentina, e foi impressionante como não havíamos nos incomodado com absolutamente nada até então.
Pois neste dia a policia de missiones nos parou na estrada e alegou que havíamos passado em alta velocidade por dentro da cidade e que haviam sido fotografado. Nós estranhando pelo fato de como eles já sabiam se havia apenas 5 minutos que passamos pela cidade pois fotografia se vê depois de um certo tempo. Ficamos argumentando durante uns 30 min. Falaram da nossa carta verde que não estava certo, entre outras coisas. No final, eles falaram que teríamos que dormir na cidade para pagar a multa no outro dia, pois o controle de transito fecha na hora do almoço e só abre no outro dia.
Na verdade tudo isto faz parte de um teatro. Tem o policial ruim que quer multar, o que fica dando indiretas e o bonzinho que depois de um tempo vem com o papo de que vai nos liberar para não atrasar a nossa viagem. Mas é claro que o das indiretas fala que eles são comissionados e blá blá blá. Acabamos tendo que pagar propina mesmo senão íamos perder um dia de viagem.
Continuando nossa jornada, chegamos No marco das três fronteiras por volta das 16 horas. Atravessamos de Puerto Iguazu para Foz do Iguaçu e paramos no ótimo dutty free que tem por lá pra fazer compras. Nos hospedamos em foz para no dia seguinte ir ao paraguay comprar muamba.
Dia 25
Fomos ao Paraguai com um carro particular, foi a melhor coisa que fizemos. Contratamos umc cara que foi com o carro dele e nos levou em lojas confiáveis para fazer compras. Entramos e voltamos sem problemas nenhum. Carregamos o carro e voltamos para casa. Chegamos em Floripa próximo a meia noite.
Esta foi nossa aventura, desculpem o post longo, mas acho interessante para que se alguém quiser um dia fazer esta alucinante viagem, tenha uma fonte de pesquisa de informação.
Alguns VIdeos:
Ansiedade antes de encarar a aventura
rodando na camada de gelo sem corrente
Chegando na Antártica, ops, na Aduana da Argentina...
Torres del Paine, Chile
Cerro otto - Bariloche - Argentina
Nascer do sol no Deserto do Atacama - Chile
Vale de la luna - deserto do atacama - chile
Laguna Ceja- deserto do atacama - chile
Uma vinheta com algum dos bons momentos da viagem, infelizmente o youtube cortou a faixa de áudio, mas o clip foi editado no inicio de Dire Straits, "Money for Nothing".
Editado por rkoerich