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Resumo: Itinerário: Frankfurt (Alemanha) → Nova Déli → Pushkar → Ajmer → Jaipur → Agra → Varanasi → Sarnath → Gaya → Bodh Gaya → Gaya → Allahabad (Prayagraj) → Satna → Khajuraho → Satna → Pipariya → Pachmari → Pipariya → Manmad → Shirdi → Manmad → Mumbai → Colva → Margão → Panaji → Colva → Mumbai → Ahmedabad → Udaipur → Nova Déli → Frankfurt (Alemanha) Período: 30/10/1999 a 05/12/1999 31/10: Frankfurt (Alemanha) 01/11: Nova Déli (Índia) 02: Pushkar/Jaipur 03: Ajmer/Jaipur 04: Jaipur 05: Agra 06: Varanasi 07: Sarnath/Varanasi 08: Varanasi 09: Gaya/Bodh Gaya 10-11: Allahabad (Prayagraj) 12: Satna 13: Khajuraho 14: Khajuraho/Satna 15: Satna/Pipariya 16: Pachmari 17: Pipariya/Manmad 18: Shirdi 19: Manmad 20-22: Mumbai 23: Colva 24: Margão, Panaji 25: Colva 26: Mumbai 27-28: Ahmedabad 29-30/11: Udaipur 01-03/12: Nova Déli (Índia) 04: Frankfurt (Alemanha) 05/12: São Paulo Ida: Voo de São Paulo a Nova Déli pela Lufthansa, com parada de algumas horas em Frankfurt, o que me permitiu dar um passeio pela cidade. Volta: Voo de Nova Déli a São Paulo pela Lufthansa, com parada de várias horas em Frankfurt, o que me permitiu dar outro passeio pela cidade. O preço de ida e volta foi cerca de US$ 1920.00. Em 2015 voltei à Índia pagando cerca de metade do preço em dólares. Considerações Gerais: Não pretendo aqui fazer um relato detalhado, mas apenas descrever a viagem com as informações que considerar mais relevantes para quem pretende fazer um roteiro semelhante, principalmente o trajeto, acomodações, meios de transporte e informações adicionais que eu achar relevantes. Nesta época eu ainda não registrava detalhadamente as informações, então albergues, pousadas, pensões, hotéis e meios de transporte poderão não ter informações detalhadas, mas procurarei citar as informações de que eu lembrar para tentar dar a melhor ideia possível a quem desejar repetir o trajeto e ter uma base para pesquisar detalhes. Depois de tanto tempo os preços que eu citar serão somente para referência e análise da relação entre eles, pois já devem ter mudado muito. Sobre os locais a visitar, só vou citar os de que mais gostei ou que estiverem fora dos roteiros tradicionais. Os outros pode-se ver facilmente nos roteiros disponíveis na internet. Os meus itens preferidos geralmente relacionam-se à Natureza e à Espiritualidade. Informações Gerais: Em toda a viagem houve bastante sol. Chuva foi rara. Fui para áreas quentes e fora do período de chuvas. As temperaturas estiveram bem razoáveis, oscilando entre 15 C e 30 C na maioria do tempo. Em algumas áreas havia muita poeira, o que tornou a respiração um pouco pesada. A população de uma maneira geral foi muito cordial e gentil 👍 . Fui muito bem tratado em toda a viagem, com raras exceções. Porém houve muitas pessoas ligadas ao turismo ou à religião que tentaram tirar alguma vantagem, fornecendo informações incorretas ou contando histórias fantasiosas. Decepcionou-me um pouco a quantidade de pessoas que fizeram isso. Nem sempre fui bem aceito nos templos de diversas religiões. Muitos guardadores de calçados da entrada dos templos localizavam meu tênis no meio dos calçados deixados e ficavam com eles para na minha volta pedir gorjeta por tê-los guardado. Tive grandes dificuldades com a língua, pois a população em geral não falava inglês. Além disso, havia alteração de dialeto entre diferentes regiões do país (Hindi, Gujarati, Nepali etc). E muitos que falavam inglês tinham forte sotaque regional. E eu não falava nem compreendia bem inglês. A conclusão foi que precisei comunicar-me muito com as mãos, fazendo gestos. Mesmo estes nem sempre foram eficazes, posto que nem todos os gestos que temos por aqui tem o mesmo significado por lá. As paisagens ao longo da viagem agradaram-me muito, com templos, santuários, memoriais, palácios, monumentos, parques, rios, jardins, praias, ilhas, áreas naturais e outros . Andei de vários tipos de transporte diferentes. As viagens de ônibus e trens demoravam muito, pois a velocidade era muito baixa (entre 30 km/h e 50 km/h). Isso fazia que mesmo distâncias não tão grandes demorassem muito para serem percorridas. A lotação dos meios de transporte também era muito grande, sendo até maior do que as dos horários de pico de São Paulo, por incrível que possa parecer. O trânsito foi um capítulo à parte. Completamente caótico para o meu padrão, com animais (vacas, cabras, cachorros, macacos etc) dividindo as ruas com veículos de todos os tipos (carros, vans, caminhões, ônibus, riquixás motorizados, bicicletas, carroças etc) e com pedestres, que não pareciam se preocupar com sua segurança. Vi muito lixo espalhado pelas ruas, numa quantidade muito maior do que a que estava acostumado. Havia muitos pequenos lixões nas cidades a céu aberto. A viagem teve muitos episódios complicados, que me pareceram ameaçar a segurança em algumas ocasiões. Mas não sofri nenhuma violência. Eu me tornei vegetariano ao longo da viagem e permaneço até hoje. Já tinha sido entre 1986 e 1992. Deixei de ser em 1993 e na viagem voltei a ser. Sofri bastante com o tempero da comida. Várias vezes não consegui comer por causa das especiarias ardidas, mesmo estando com fome. Quando descobri como comer sem especiarias, consegui alimentar-me melhor. Gostei muito dos doces. No momento mais crítico, cheguei a perder 9 kg ou um pouco mais (eu pesava 65 kg e cheguei a perto de 56 kg ou um pouco menos). Os preços na Índia eram bem mais baixos do que no Brasil, mas como houve um problema na chegada, acabei comprando uma excursão, o que fez com que a viagem custasse muito mais do que poderia, o que comprovei nas viagens subsequentes em 2008 e 2015. A Viagem: Fui de SP a Frankfurt no sábado 30/10/1999. Cheguei lá no domingo 31/10/1999. Cheguei bem cedo. Para as atrações de Frankfurt veja https://www.frankfurt-tourismus.de/en/ e https://wikitravel.org/en/Frankfurt. Os pontos de que mais gostei foram as igrejas (especialmente a Catedral que resistiu à 2.a Guerra Mundial), o Rio Main, a Casa de Goethe, a Casa de Ópera, o Römer, a arquitetura típica e moderna e a cidade como um todo. Eu não entrei nos museus porque pareciam enormes e achei que era mais produtivo conhecer a cidade. Assim como havia feito em Amsterdã, um ano antes, resolvi comprar uma passeio pela cidade numa agência de turismo do aeroporto. Estava previsto para sair às 9h. Além de mim, havia uma canadense esperando na sala da agência. Cerca de 1 ou 2 minutos antes das 9h, ela perguntou-me se já não eram 9h e, eu, um pouco surpreso com a pergunta, posto que havia um relógio em frente, respondi que achava que sim. Então, às 9h ou um minuto depois, ela levantou-se e falou rispidamente com a atendente que já eram 9h e o passeio estava atrasado e que queria o dinheiro de volta, o que deixou a atendente embaraçada e a mim surpreso com a atitude. A atendente devolveu o dinheiro para ela e o motorista da excursão chegou cerca de 10 a 15 minutos depois, levando uma bronca da atendente, que lhe disse que havia perdido uma cliente. Inicialmente tivemos um atraso adicional porque a polícia estava fazendo alguma operação que retardava o trânsito. O guia até comentou que a polícia alemã não era a mais rápida. Eu ri durante uma explicação dele, não ri dele, mas da situação, e ele pareceu ficar irritado e pediu para não fazermos para ele o passeio mais difícil do que precisava ser. Depois disso, resolvi ficar distante dele até o fim do passeio. Demos uma volta pela cidade, visitando os principais pontos, mas quase sem entrar. Estava um pouco frio (cerca de 15 C), com vento, o que fazia a sensação térmica ser menor. Conheci um indiano durante o passeio, para quem falei que estava indo a Índia. Ele me disse que iria voltar para a Índia em alguns dias e aí poderia me ajudar durante a viagem. Não o encontrei na Índia. Voltamos ao aeroporto e eu embarquei (se bem me lembro, no fim da tarde) para Nova Déli. Ao entrar no avião vi a manchete de um jornal indiano que dizia que um tufão tinha matado 15 mil (acho que o número era esse) pessoas em Orissa . Fiquei surpreso e um pouco assustado. Cheguei em Nova Déli já na 2.a feira 01/11, no início da madrugada. Os procedimentos de entrada no país pela imigração foram um pouco tumultuados, pois havia muita gente. Os atendentes foram um pouco ríspidos. Acabou demorando razoável tempo. Deu-me um frio na barriga saber que iria começar a viagem por um país tão diferente e com tantas possibilidades de problemas, dado o meu desconhecimento. Após conseguir entrar, fui ao balcão de informações para pedir sugestões sobre onde ficar e outras questões sobre a Índia. A atendente indicou-me um hostel no centro, Janpath Guesthouse, ligou para eles para saber se havia vagas e me deu um papel com o endereço. Depois disso fui procurar por um meio de transporte. Naquele horário, somente táxis. Havia 3 balcões, um era de luxo, com uma limousine, o 2.o era do governo e o 3.o de particulares. Fui ver os preços e para o trecho que eu pedi, a limousine custava o equivalente a US$ 10.00, o do governo custava cerca de US$ 6.00 e o particular custava cerca de US$ 5.00. O atendente do balcão do governo avisou-me “vá conosco, os particulares recebem comissões de hotéis e não vão te levar para onde você pedir, podem ficar dando voltas com você, procurando por comissões e, a esta hora da madrugada, isso pode não ser seguro”. Mesmo assim, optei pelo particular, por ser mais barato (não era ilegal). Foi um grande erro . Após minha decisão, o atendente do balcão do governo repetiu o aviso “não seja bobo, vá conosco”. Eu pensei que isso era conversa mole para conseguir clientes. Mas suas palavras foram proféticas. Fui até o ponto de saída dos táxis com o bilhete pago em mãos. Apresentei e veio um motorista de turbante, com barba e bigode 👳‍♂️ e um rapaz que parecia ser seu assistente (não sei se era seu parente). Sua aparência assustou-me um pouco, mas logo pensei que era preconceito meu. Informei para ele para onde desejava ir e começamos o trajeto. Ele perguntou-me se era a minha primeira vez na Índia. Não entendi, devido ao sotaque. Ele precisou repetir várias vezes, já quase gritando nas últimas. Acho que ficou claro para ele que era minha primeira vez na Índia. Após já estarmos rodando há um bom tempo, comecei a ficar preocupado e achar que o atendente do aeroporto tinha razão. Achei que poderiam não estar levando-me para onde pedi e que poderiam estar querendo fazer algo negativo comigo. Comecei então a tentar conversar com eles, de modo amigável. Eles estavam ocupados, provavelmente procurando hotéis que lhes pagassem comissões e se irritaram um pouco com a minha insistência em conversar. De repente apareceu um riquixá, começou a discutir com o motorista e jreogou o veículo em cima dele. Eu não entendi o que falaram, mas a situação ali era clara. O riquixá provavelmente desejava roubar-me, sequestrar-me ou até cometar alguma violência contra mim e o motorista não estava concordando 🔫. O motorista jogou o carro de volta em cima do riquixá, repetiram isso algumas vezes, o motorista acelerou e conseguiu escapar. Aí eu realmente fiquei preocupado. Após este acontecimento, passou pouco tempo, o motorista entrou num beco, parou o carro, desceu junto com seu assistente, abriu uma portinha e me disse para descer e entrar. Não ficaram claras para mim suas intenções e eu pensei que ele poderia estar querendo me roubar, sequestrar ou cometer alguma outra forma de violência. Olhei para trás, para ver se havia alguma possibilidade de sair e vi que o riquixá, que havia nos fechado, estava bem atrás. Ele olhou fixamente nos meus olhos e fez por 2 vezes um gesto passando o dedo indicador pela garganta que indica que vão cortar sua garganta, ou mais genericamente, que você vai morrer. Olhei novamente para o motorista e ele estava extremamente tenso e gritava para eu descer e entrar na portinha. À minha frente havia um muro de cerca de 5 metros. Eram cerca de 3 horas da manhã. Atrás estavam o riquixá e seu companheiro. Não vi saída. Olhei uma última vez para trás e o riquixá repetiu o gesto com o dedo na garganta. Resolvi descer bem devagar e arriscar ir até a portinha. O motorista acalmou-se um pouco. Eu entrei com a cabeça já inclinada. Para ser sincero, achei que poderia ser decapitado, baseado nos preconceitos e desconhecimento que tinha e nas histórias que ouvia pela TV. Interessante que, neste momento, pensei em Deus e em que nem havia chegado e já iria morrer. Quase pedi para que isso ocorresse no fim da viagem, se tivesse que ocorrer. Quando percebi que não havia mais o que fazer, não senti medo. Senti uma estranha paz. Após entrar, passou por mim um homem, entrou numa sala, passou outro, entrou na mesma sala, depois eu entrei e vi que havia vários reunidos. Eles aparentemente eram de uma agência de turismo ou agentes independentes e propuseram vender-me excursões. Eu fiquei bastante aliviado e respondi educadamente que não queria, pois a situação ainda não me parecia totalmente tranquila. Eles ficaram irritados, mas aceitaram. Porém disseram-me que o hotel em que eu queria ir não tinha vagas. O líder falou-me “Quer ver?”. Ligou para o hotel, que eu nem tinha informado a ele qual era, e me passou o telefone. Eu perguntei sobre minha vaga, que havia sido dito no aeroporto que estava reservada e ele me pediu desculpas e disse que não tinha. Imaginei que isso era armação, mas diante do que tinha sido toda a situação, eu estava mais do que satisfeito, fiz uma expressão aparentando contrariedade para não destoar da situação, agradeci e desliguei. Disseram que iriam indicar-me um outro hotel. Saí e o mesmo motorista estava esperando-me, já sem o riquixá atrás. Levou-me para o Hotel Rudra Castle. Chegando lá, pedi ao atendente o quarto mais barato e ele disse que estavam todos os baratos ocupados e que só tinha disponíveis as suítes de luxo. Imaginei que também não era verdade, mas não estava em condições de discutir àquela hora da madrugada. Ele me falou que o preço eram US$ 40.00. Eu pensei que iria ser bem mais e aceitei prontamente. Acho que ele percebeu e disse então que havia a taxa de serviço e acrescentou mais 10%. O valor do hostel em que eu iria ficar hospedado e com quem tinha combinado do aeroporto era US$ 6.00 (7 vezes menos) . O quarto era realmente de luxo, mas eu não precisava de nada daquilo. Antes de dormir, ouvi provavelmente o chamado das mesquitas próximas para a oração. Embora já conhecesse este costume do Egito, dada a situação que havia ocorrido, fiquei um pouco assustado com a maneira como era feito. Mas mesmo assim dormi um pouco, pois estava com muito sono. Na manhã seguinte, assim que desci, no saguão do hotel estava um agente de turismo, que se apresentou e se colocou à disposição. Eu não pretendia comprar nenhuma excursão (sempre prefiro viajar por conta própria, sem guias), mas depois do que tinha ocorrido, achei melhor, pois considerei que seria difícil transitar pelo país logo de início com o meu desconhecimento e ainda existiam as consequências do tufão, que eu não sabia quais tinham sido. Sentamos, fizemos um planejamento superficial de locais e acabei comprando um pacote por cerca de US$ 1,900.00 para uma semana completa com motorista particular e hospedagem em hotéis padrão e todas as passagens de trem para o resto da viagem de pouco mais de 1 mês. Este valor foi quase 5 vezes maior do que eu gastei nas outras viagens que fiz pela Índia, que duraram cerca de 40 dias, onde fui por conta própria, fiquei em hotéis ou acomodações de muito menor nível, mas aceitáveis para mim, não tive motorista nem nenhum apoio. Foi o preço de chegar de madrugada e não conhecer nada. Saquei o dinheiro do caixa eletrônico diretamente em rúpias, paguei para o agente (acho que seu nome era parecido com Singh) e fomos para a sede da agência esperar pelo motorista que iria me acompanhar. Lá conversamos um pouco, Singh falou que se o governo dizia que tinham morrido cerca de 15 mil no tufão, o número de mortos era pelo menos o dobro. Contou-me que era aposentado do exército (parecia ser oficial), embora fosse jovem (acho que cerca de 40 a 50 anos). Falou-me de possíveis problemas que eu poderia ter na Índia, deu-me sugestões, organizou toda a viagem e me disse que se eu queria conhecer tudo o que tinha dito precisava de 3 ou 6 meses e não apenas 1 mês, mas que tentaria ver o que poderia fazer do melhor modo possível. Saiu e foi comprar as passagens de trem. Enquanto isso alguns outros integrantes da equipe conversaram comigo. O Brasil era um país distante e exótico para eles. Tinham curiosidade. E também queriam me vender outros pacotes turísticos para outras localidades. Apareceu seu sócio, e me convidou para ir a um cabaré ou bordel à noite, mas eu recusei, dizendo que já iria começar a viagem pelo país à noite. Um dos integrantes da equipe ofereceu-me o almoço, eu aceitei e comi. Eu estava com fome, mas estava muito ardido. Disse que estava bom, mas forte. Depois, enquanto esperava, fui dar uma pequena volta nos arredores, o que ajudou a desfazer a impressão do dia anterior. Ali estava a Índia que não era hostil, formada por pessoas simples do povo. Ainda assim, tudo muito diferente do Brasil. E eu estava bem cauteloso devido ao que havia ocorrido. Singh retornou com as passagens compradas. Após tudo combinado, chegou Bilu (ou Bilou), que seria meu motorista. Saímos para visitar alguns pontos de Nova Déli. Para as atrações de Nova Déli veja https://www.delhitourism.gov.in/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/Deli. Os pontos de que mais gostei foram conhecer a Índia real, o Templo Flor de Lótus, o Museu ou Memorial de Gandhi, o Qutab Minar, os vários outros templos, as mesquitas, os Gurudwaras, a Velha Déli, o Portão da Índia, a região central de Connaught Place, as construções, as áreas verdes, uma estátua magnífica de Shiva na área periférica e os itens dos mercados. Vi estes itens em 2 viagens, nesta e em 2008. Se bem me lembro, fomos ao Templo de Laxmi (https://yatradham.org/blog/laxmi-narayan-temple-timings-history/), ao Portão da Índia e alguns outros pontos. Eu estava bem cansado, devido a 2 noites quase sem dormir. Num dos templos (talvez o de Laxmi mesmo), eu comecei a viajar nas ideias e rir sozinho. Um guarda aproximou-se e me disse para ter cuidado com os macacos 🐵, pois eram perigosos, Quando olhei para o lado, um macaco estava mostrando os dentes para mim em sinal de repulsa e mirando meu pescoço com suas mãos. Acho que ele pensou que meu riso era uma forma de agressão ou ataque. No fim do dia fomos viajar para Jaipur, capital do Rajastão. No começo da estrada, Bilu parou no acostamento e me disse que se atravessasse naquele ponto e entrasse no bosque eu veria uma linda estátua de Shiva. Fiz o que ele falou, segui o fluxo e, quando vi a estátua, fiquei maravilhado. De todas as viagens que fiz a Índia, esta foi a estátua que mais me causou impacto . A viagem foi durante a noite. A estrada era de mão dupla e pista simples em cada sentido. Estava lotada, com muitos caminhões e ônibus. Havia ultrapassagens constantes, com os veículos indo para a pista contrária e voltando a sua pista muito perto de bater com os da pista contrária. A velocidade média era por volta de 30 a 40 km/h. Mesmo assim, pareceu-me muito temerário. Eu nunca tinha feito uma viagem assim. Fiquei tenso no início, mas fui ficando acostumado. Bilu percebeu que eu não tinha gostado do percurso. Ao longo do tempo que ficou comigo, Bilu contou muito sobre a Índia, sobre os costumes, sobre os cuidados a ter na viagem, com alimentação, segurança etc. Falou também sobre outras turistas brasileiras que havia conhecido. Na maior parte do tempo, nosso convívio foi muito bom 👍. Quando contei para ele, no fim do nosso convívio, a história que havia ocorrido na chegada, ele pareceu surpreso e, acho que entendeu, porque muitas vezes eu parecia desconfiado. A viagem durou umas 3 horas, Chegamos perto de 9 a 10h da noite. Ficamos hospedados num hotel que já estava previamente escolhido por eles, jantei e fui dormir. Bilu fez uma piada sobre ser muito mau, quando eu disse que ele era uma boa pessoa e eu engoli em seco. O dono do hotel percebeu e posteriormente me perguntou se eu tinha tido problemas na Índia. Eu questionei que tipo de problemas e desconversei. No dia seguinte, 3.a feira 02/11, depois de uma revigorante noite de sono e depois do café da manhã, fomos conhecer Pushkar, conforme planejado. Para as atrações de Pushkar veja https://www.tourism.rajasthan.gov.in/pushkar.html e https://www.india.com/travel/pushkar/. Gostei da cidade como um todo e de sua simplicidade. Assim que chegamos, no meio da manhã, Bilu disse-me que ficaria no carro e eu poderia passear à vontade. Saí e fui em direção ao centro e ao lago. Admirei a cidade e a paisagem. As construções eram quase todas brancas. Um religioso (acho que era um discípulo em formação) aproximou-se e começou a conversar. Eu estava altamente arisco, depois do que havia acontecido na chegada. Eu estava desconfiando de tudo. Mesmo assim, como sua abordagem foi bastante amistosa, aceitei que ele me acompanhasse, porém dizendo que não era necessário. Falei para ele sobre a música Gita, do Raul Seixas, que contém vários trechos com expressões de Krishna no Bhagavad Gita. Conversamos sobre a Índia e o Hinduísmo. Fomos ao lago. Chegou outro religioso (acho que também era um discípulo em formação). Perguntou se poderia fazer um ritual comigo, pintar o 3.o olho na minha testa e fazer uma espécie de benção, com vegetais. Eu disse que não era necessário, mas ele insistiu tanto, que eu aceitei, caso ele fizesse questão, porém dizendo que não pagaria nada por aquilo. Após o ritual e longa conversa, eu me dirigi para voltar. Aí ele me disse que eu precisava dar uma contribuição pela benção recebida. Eu retruquei que havia dito que não pagaria nada, ele me pediu pelo menos o preço de custo, eu reforcei que ele havia pedido para fazer porque queria e ele me disse que, para mim, então, era gratuito. Comecei a voltar e reencontrei o outro discípulo. Como eles tinham me tratado muito bem e não houve tensão quando disse que nada iria pagar, ofereci pagar para ele uma refeição (como uma pizza), que ele poderia compartilhar com os outros. Ele agradeceu, mas não quis. Acho que não gostavam de pizza, uma comida ocidental. E eu ainda não conhecia opções indianas. Voltei para o carro e quando perguntei a Bilu se havia demorado muito, ele me disse que sim e achava que eu tinha me perdido. Perguntou quanto eu havia pago pelo terceiro olho e os vegetais e eu disse que nada. Ele me respondeu que não acreditava em mim. Voltamos para Jaipur, onde ficava o hotel. Num dos deslocamentos que fiz com ele, vimos uma grande quantidade de pessoas em torno de uma vaca 🐄 aparentemente morta ou morrendo estirada em uma estrada. Ela soltava sangue pela boca. Parecia ter sido um acidente (talvez com um caminhão, para ter aquela consequência numa vaca daquele tamanho). Em outro deslocamento, Bilu mostrou-me várias pessoas reunidas em torno de um homem sendo cremado ao ar livre numa aldeia. Nunca tinha visto uma cena daquelas. Na 4.a feira 03/11 fomos para Ajmer, um local de peregrinação muçulmano. Logo chegando lá, o religioso muçulmano perguntou-me quanto eu pagaria de oferta. Eu não esperava e fiquei sem resposta. Mencionei o valor referente a uma refeição e ele me perguntou rispidamente por que não oferecia 10 ou 100 vezes isso. Levei um susto. Mas como chegou outro peregrino, este muçulmano, ele aceitou minha oferta, e foi dar atenção ao peregrino muçulmano. Eu basicamente só conheci o local de peregrinação dos muçulmanos. Achei interessante, cheio de pessoas muito simples. Mas este episódio inicial decepcionou-me. Para as atrações de Ajmer veja https://www.makemytrip.com/travel-guide/ajmer. Voltando para Jaipur, fomos visitar ainda alguns pontos. Houve um ponto a visitar (não me lembro se em Ajmer ou Jaipur) em que Bilu me orientou a pegar um riquixá para ir a uma atração, pois acho que o carro não passava pelas ruas estreitas. Na volta, o riquixá entrou numa viela em que havia um pastor com ovelhas de um lado e uma vaca um pouco ‘a frente. Repentinamente no fim da viela chegou o lixeiro, que se bem me lembro, era puxado por um elefante 🐘. Isso travou completamente o trânsito. A vaca parou e fechou uma parte da viela. O rebanho estava do outro lado, impedindo a passagem. E pelo meio não era possível passar, por causa do elefante e da caçamba que ele puxava. O riquixá e um outro motorista começaram a buzinar, mas a vaca não iria em direção ao elefante. Estava aguardando. E o elefante estava tranquilamente esperando que o lixeiro carregasse o lixo. O riquixá olhou para mim rindo e eu também estava rindo 😃. Chamou-me atenção o trânsito de Jaipur, que era a capital do Rajastão. Possui mais de 3 milhões de pessoas atualmente (na época já era muito grande). Vacas, cabras e outros animais dividiam a rua com carros, ônibus, riquixás, caminhões e outros veículos e com pedestres. Numa avenida de várias pistas, na hora de pico, uma vaca começava a atravessar. E os outros vários envolvidos buzinavam, desviavam e continuavam. Para mim aquilo beirava a ficção científica. Num dos últimos dias com Bilu e hospedado pelo pacote comprado, Singh voltou e me disse que não seria possível conhecer a região leste, pois as ferrovias tinham sido rompidas pelo tufão, a menos que eu quisesse ir de avião de Mumbai a Calcutá, com preço de cerca de US$ 200.00 ou US$ 300.00, o que recusei. Ele iria alterar as passagens para não contemplar mais aquela área. Se o tufão tivesse ocorrido 15 dias depois, pode ser que eu tivesse sido atingido por ele e talvez não tivesse sobrevivido. Falou-me dos perigos que eu poderia encontrar na etapa da viagem que faria sozinho e me disse que o pagamento de Bilu não tinha sido feito (só o básico) e que o adicional era por minha conta (algo como gorjeta de gratificação). Dei US$ 50.00 para ele, mas achei aquilo indevido, pois pensei que tudo estivesse incluído no pacote. Na 5.a feira 04/11 fomos visitar Jaipur. Para as atrações de Jaipur veja https://jaipur.rajasthan.gov.in/content/raj/jaipur/en/about-jaipur/tourist-places.html e https://wikitravel.org/en/Jaipur. Os pontos de que mais gostei foram os palácios, os fortes, os templos e o observatório. Numa visita a um castelo e/ou forte, havia insistentes vendedores oferecendo produtos para um alemão, que dizia que não iria comprar, pois não precisava. Ofereciam também um passeio de elefante. Eu até que não fui muito assediado, perto do que foram os europeus. Interessante como eles preservavam a história dos marajás e soberanos. Havia um enfoque de heróis no modo como contavam. E uma ênfase nas caçadas de tigres, que me pareceu ser um grande desafio em épocas passadas. Os tigres é que sofreram 😞. Apreciei a visita ao observatório astronômico Jantar Mantar (gosto de astronomia e astrofísica). Quando voltei de uma atração, Bilu disse que eu demorava muito nas visitas. Era importante que fosse mais rápido para poder visitar tudo. Eu me irritei um pouco e disse que gostava de ver os itens com calma e que não tinha importância conhecer menos pontos, desde que mais detalhadamente cada um. E pedi também que fôssemos a locais religiosos não turísticos, que seriam preferidos para mim. Acho que ele fico meio chateado, mas acabou por me levar em um local não turístico. Eu adorei. Na volta, quando disse para ele que tinha gostado, acho que ele ficou surpreso e terminou seu aborrecimento, bem como o meu. No fim do dia fomos para Agra. Ao chegarmos, Bilu falou-me para não ir longe do hotel, pois poderia haver assaltos a cavalo 🐴. O recepcionista do hotel confirmou que poderia haver muitos problemas se me afastasse. Para as atrações de Agra veja https://wikitravel.org/en/Agra e https://agra.nic.in/tourism. Os pontos de que mais gostei foram os palácios, templos, forte e construções típicas. Na 6.a feira 05/11 fui conhecer o Taj Mahal. Era um dia de visitação gratuita, então havia muitas pessoas. Achei o monumento muito belo, mas muito voltado ao turismo, sem a vida real cotidiana. No fim do dia, Bilu deixou-me na estação e me deu sugestões sobre o resto da viagem, que seria só. Para quem fazer perguntas na estação (o homem de jaqueta), cuidados a tomar e outras sugestões. Eu agradeci por tudo que ele fez por mim e pedi desculpas por qualquer mal entendido. Esperei o trem e embarquei para Mughal Sarai, que ficava ao lado de Varanasi. Não sei porque não compraram o bilhete para eu descer em Varanasi, pois o trem passou por lá, mas dado o meu desconhecimento, segui até Mughal Sarai. O trem estava cheio devido à época de festivais. Apesar de ter o bilhete para um banco que permitia dormir sozinho, eu o reparti com várias outras pessoas. Um policial ou soldado militar chegou gritando e pedindo que mostrássemos os bilhetes. Estava com uma espingarda. Eu mostrei e ele pareceu não compreender. Coloquei o bilhete quase na cara dele, aí ele pareceu ver que era válido. Durante a viagem, um dos passageiros me disse para tomar cuidado, caso eu dormisse 😃. Fiquei pensando em como poderia fazer isso. No meio da noite, fui para a cama de cima e dormi um pouco, sentado e com as pernas dobradas, pois estava dividindo a cama com outros que estavam sentados perto do meu pé. Durante a viagem, fiz sinal de positivo para um indiano e percebi que ele não entendeu, ao comentar com outro "O que será que quer dizer este sinal na cultura dele? Deve significar que está tudo bem". Quando chegamos à estação no sábado 06/11, bem cedo, fiquei esperando pelo guia que haviam me dito que haveria. Um dos passageiros do trem com quem tinha viajado ofereceu-se para me levar até onde eu desejasse, mas eu disse que estava esperando pelo guia e não era necessário. Depois de razoável tempo sem o guia chegar, decidi ir por conta própria. Fui procurar então um meio de transporte para ir até Varanasi, que ficava a alguns quilômetros. Achei que o preço que os taxistas me pediram era inflado e sugeri menos. Um deles aceitou. Porém depois de andar um pouco, parou o carro, pediu que um jipe (parecido com os da 2.a Guerra Mundial que se vê na televisão) me levasse, repassando parte do valor e ficando com outra parte como comissão. Eu não tive como recusar, ainda mais depois de tudo que já tinha presenciado. O motorista do jipe usava chapéu e uma espécie de pano para proteger a região traseira do pescoço. Falei algumas palavras que já havia aprendido e ele me perguntou se eu falava Hindi, ao que respondi que não. Ele começou a dizer que o preço que estava cobrando (que ele tinha negociado com o taxista) era baixo para aquele trajeto. Comecei a achar que poderia haver alguma confusão e relembrei para ele que ele tinha aceito o que o taxista tinha proposto. Falei para ele que sairia para dar um passeio pela cidade por volta de 12h. Chegamos, eu me despedi e ingressei no hotel que o pessoal do pacote turístico havia indicado. Após deixar minhas coisas, fui dar uma volta nas proximidades, antes do passeio que estava marcado pelo pessoal do pacote turístico com o guia que eu havia ficado esperando na estação e que não havia chegado. Na saída, um motorista de táxi ofereceu-se para me levar ao passeio, mas eu disse que já havia um guia combinado, mas que se ele falhasse, poderíamos ir. Eu estava meio receoso depois de tudo que já tinha acontecido. Passeei por cerca de 1 hora ou um pouco mais, comprei uma garrafa de água e voltei para me aprontar para o passeio. O guia estava esperando-me e disse que havia acordado muito cedo para esperar outro turista na estação de Varanasi. Eu lhe disse que era eu e que a estação em que me disseram para descer era Mughal Sarai, por isso houve o desencontro Quando íamos sair para o passeio, lá estava o motorista do jipe, dizendo que havíamos combinado de sair às 12h para um passeio turístico 😮. Eu neguei e disse que não. Pedi ao motorista do táxi, que me havia feito a oferta antes, para explicar para ele, pois ele não falava inglês. Mas ele achou que o motorista do táxi estava mentindo e tentando roubar seu cliente. Então, vendo que eu não iria com ele, disse que estava me esperando lá desde que me havia deixado e tinha ficado no prejuízo. Mas eu disse que não era verdade, pois havia saído para passear e comprar água e não o havia visto. Ele irritou-se e foi embora. Embora estivesse gostando muito da viagem, da cultura, da religião, da espiritualidade e de conhecer “um outro mundo”, estava contrariado com tantas confusões e tantas pessoas ligadas ao turismo mentindo para obterem vantagens 😞. Saí com o guia para o passeio, depois de acabar a confusão. O motorista do táxi pediu-me novamente uma chance e eu disse que já tinha guia, mas que se houvesse oportunidade, futuramente poderia ir com ele. Adorei Varanasi. É a antiga Benares, um dos berços do Budismo. Foi um dos meus lugares preferidos na viagem . Para as atrações de Varanasi veja https://varanasi.nic.in/tourist-places e https://wikitravel.org/en/Varanasi#See. Os pontos de que mais gostei foram um templo com inscrições religiosas nas paredes (acho que era o Templo Shree Kashi Vishvanath ou outro semelhante) e o Rio Ganges com todas as estruturas e eventos no seu entorno . No domingo 07/11 fomos de manhã a Sarnath, um dos quatro principais locais de peregrinação budista no mundo, cidade em que Buda proferiu seu primeiro sermão público. Para as atrações de Sarnath veja https://wikitravel.org/en/Sarnath. Eu visitei o sítio histórico preservado, o museu e o templo. Gostei de lá, principalmente da história relacionada a Sidarta Gautama (mais famoso Buda histórico). Na volta o motorista do riquixá queria desviar o caminho para me levar a uma loja onde receberia comissões. Mas como não falava inglês estava com dificuldade em explicar e pediu para o guia fazê-lo. Depois que entendi, agradeci, mas não quis. Anteriormente, quando estávamos sós, o riquixá me disse que o guia não era boa pessoa, porque recebia comissões. Imagino que foi por isso que o guia não havia me falado da loja antes, não devem ter chegado a um acordo sobre as comissões (ou então, pelo que já tinha me conhecido, achou que eu não iria ou não compraria nada mesmo). Após regressar, saí para passear um pouco sozinho por conta própria em Varanasi. Na 2.a feira 08/11 de manhã voltamos a visitar pontos de Varanasi. Ao longo de todos os dias, pude visitar o Crematório (a cremação era dentro de locais específicos, não era igual a que tinha visto na aldeia quando estava na estrada), onde um dos trabalhadores me disse para fazer uma oferenda, caso contrário criaria problemas para meu carma (não fiz), pude visitar vários templos, os Ghats (degraus na margem do rio) e suas casas associadas, as várias áreas de eventos e rituais ao lado do Rio Ganges, as construções antigas e típicas da cidade etc. Num dos dias o guia levou-me a uma guesthouse (que eu estava aprendendo a conhecer), que me disse ter bons preços, onde tomei um chá com limão. Creio que foi nesta ocasião que vimos um casal de europeus ou americanos num barco no meio do rio e o guia comentou que achava que deveriam estar pagando um preço muito alto pelo passeio. Voltamos ao hotel perto da hora do almoço. Despedi-me do guia. Perguntei a ele se tinha sido pago pelo pessoal do pacote de turismo e ele disse que não. Já não sabendo no que confiar, dei a ele uma pequena remuneração, que acho que não o satisfez muito, mas de que ele não reclamou. Estava chegando um turista alemão e acho que ele não quis perder mais tempo comigo. Fui aprontar-me para ir para a estação. Como a passagem saía de Mughal Sarai, achei melhor ir até lá novamente, para não ter nenhum tipo de problema, posto que era depois da Estação de Varanasi no meu itinerário. Procurei pelo motorista do táxi que me havia pedido uma chance, mas ele não estava lá. Fui então procurar algum meio de transporte para a estação. Achei um riquixá. Estava meio ressabiado com riquixás, depois do que havia ocorrido na chegada, mas resolvi arriscar. Combinamos o preço, ele aceitou a corrida e fomos. Tudo ia indo bem até o início da estrada, quando ele parou em frente a uma espécie de altar na beira da via e disse que iríamos fazer uma viagem longa (uns 6 km) e que precisava pedir proteção. Desceu do carro e fez uma oferenda. Eu fiquei preocupado, pois isso poderia significar que a estrada era perigosa. Mas correu tudo tranquilamente. Deixou-me na estação e eu agradeci. Na estação, eu era completamente analfabeto, pois não sabia falar nem ler Hindi, e muitos letreiros escritos ou comunicados verbais eram feitos em Hindi. Não conseguia saber qual trem pegar (as passagens para todos os trechos já me haviam sido dadas por Singh no início). A estação estava lotada devido aos festivais. Comecei a conversar com alguns soldados do exército. Um amigo que estava com eles falava outro dialeto diferente de Hindi, o dialeto Nepali. Eles me disseram que os trens poderiam ser perigosos, poderia haver ladrões e assassinos neles. Fiquei mais preocupado. Mas disseram para eu não me preocupar e que iriam me ajudar a pegar o trem certo. Já tinha passado a hora da saída, mas me disseram que o trem estava atrasado. Conversamos sobre a Índia e eles me deram um pequeno cartão-postal. Em retribuição, eu tirei da mala uma revista Viagem, localizei e dei para eles uma foto de duas páginas da orla da Praia de Copacabana. Eles disseram “Como o Brasil é bonito!”. De repente eles me disseram “Venha”. Eu levei um susto, mas fui atrás deles. Eles me levaram a um trem e disseram que era meu trem. Não havia letreiro em inglês à vista, mas confiei neles e esperei para perguntar para outros passageiros e para o comissário do trem. E realmente era o trem correto. Agradeci muito e, de uma maneira claríssima, entendi o que significa ser analfabeto e todas as dificuldades que um enfrenta. O trem saiu com algumas horas de atraso e ainda parou no meio do caminho, não sei porque. A parada foi numa zona rural, totalmente sem iluminação. Já havia escurecido. Isso permitiu ver o céu estrelado 🌃. Magnífico! Raras vezes vi um céu noturno tão lindo. Meu destino era Gaya, para de lá ir até Bodh Gaya, Estas localidades eram no Bihar, que me disseram ser o estado mais pobre da Índia. Falaram-me da existência no Bihar de máfias (imagino que seriam guerrilhas ou milícias para nós) que lutavam contra o governo. Se bem me lembro, eram de inspiração marxista. Vi no noticiário que pouco antes haviam matado uma família inteira na zona rural como retaliação a uma delação. Mas acho que não exatamente naquelas proximidades, que eram locais de peregrinação budista. Cheguei perto de 22h. Havia inúmeras pessoas deitadas no chão da estação esperando trens. Acho que outras eram pessoas em situação de rua. Fui pedir sugestões a um encarregado da estação sobre onde poderia me hospedar e muitos possíveis fornecedores de transporte me seguiram para oferecer seus serviços. Ele sugeriu chamar um transporte mais sofisticado, mas eu disse que gostava da população. Acabei indo a pé até um hotel perto da estação, em que, se bem me lembro, a diária de 24h custou algo como US$ 2.00 ou US$ 1.00. A pobreza do local saltava aos olhos. Não tinha visto nada parecido no Brasil. No dia seguinte de manhã, 3.a feira 09/11, peguei um ônibus para Bodh Gaya, outro dos quatro locais de peregrinação budista no mundo. É o local em que Sidarta obteve sua iluminação e se tornou Buda (o mais famoso e primeiro relatado da História, até onde eu sei). Para as atrações de Bodh Gaya veja https://wikitravel.org/en/Bodh_Gaya e https://www.lonelyplanet.com/india/bihar-and-jharkhand/bodhgaya. Adorei este local. Os pontos de que mais gostei foram os templos, os monumentos, a área verde em harmonia com eles e a árvore sucessora da original sob a qual Sidarta obteve a iluminação . Chegando em Bodh Gaya, fui analisar o mapa dos templos, monumentos e toda a área destinada ao complexo de templos e similares. Havia um templo para cada grande corrente ou escola budista. Achei muito interessante, que em cada templo, Buda era representado como parecendo habitante da região ou país daquela escola. Assim, no Templo Tailandês ele se parecia com um habitante de lá, no Tibetano parecia-se como habitante de lá e assim por diante, no da China, Coreia, Japão, Nepal, Taiwan, Vietnã etc. A árvore sob a qual ele obteve a iluminação também me pareceu muito bonita, grande e em harmonia com todo o resto. Fiquei muito tempo perto dela. A Grande Estátua de Buda também era impressionante. Como era um local tranquilo, longe da agitação das pessoas pedindo ou vendendo, foi possível aproveitar bem o momento de integração com o Universo. Voltei para Gaya de ônibus no fim do dia (cerca de meia hora a uma hora de ônibus). Fui jantar e aproveitei para comer doces indianos. Uma delícia. Gostei especialmente dos de coco, amendoim e algo parecido com chocolate 👍. Ainda fui para o hotel, pois meu trem para Allahabad partia pouco depois da meia-noite. Fiquei lá até completar a diária de 24h e depois fui para a estação. Tive alguma dificuldade com o banheiro, pois era padrão indiano, que consistia em uma fossa no chão, sem vaso sanitário. Peguei o trem para Allahabad. Desta vez consegui um banco cama para dormir razoavelmente. Pela manhã descobri que estava no vagão ou classe errada. Nova confusão à vista 😃. Pedi para um passageiro que falava inglês ajudar-me a explicar a situação. Ele me disse que falaria pessoalmente com o comissário, quando ele passasse. Mas quando ele passou, já bem mais tarde, o vagão estava vazio e ele nem se importou com a situação. Cheguei em Allahabad no início da tarde da 4.a feira 10/11. Fui procurar um hotel para ficar perto da estação de trem, o que tornava tudo muito mais fácil. Acho que tinha começado a descobrir como me conduzir na Índia. O atendente, já de uma certa idade, recebeu-me muito bem 👍. Deu-me muitas informações sobre a cidade e o que visitar. Saí para dar um passeio e conhecer os arredores e ter as primeiras impressões. Acho que foi neste passeio que vi uma das cenas mais tocantes da viagem. Num lixão, algumas crianças pequenas brigando literalmente com porcos por alimentos 😞. Para as atrações de Allahabad veja https://wikitravel.org/en/Prayagraj e https://prayagraj.nic.in/tourist-places. Acabei de descobrir que seu nome mudou para Prayagraj, seu nome original há mais de 400 anos atrás, segundo o governo que determinou a mudança. Mas na narrativa vou manter o nome de quando estive lá. Os pontos de que mais gostei foram o Sangam , os templos, as construções e monumentos. Ao longo dos dois dias que lá fiquei visitei vários locais e andei com vários transportes, incluindo uma carroça. O encontro dos rios Ganges e Yamuna (e do mítico Saraswati) pareceu-me maravilhoso. Era o Sangam. Havia muitas pessoas lá e muitas vacas também 🐄. Espantou-me ver como as pessoas repeliam as vacas, não querendo que elas se aproximassem de seus alimentos. Afinal de contas a vaca era sagrada. Era possível ir até o encontro das águas de barco, mas eu preferi ver somente da margem, o que já me pareceu magnífico, ainda mais num dia ensolarado. Acho que foi nesta cidade, que fui até o escritório da Companhia de Trens e disse que precisava alterar minhas passagens, pois o itinerário que tinha sido proposto no pacote turístico era inviável. Eu praticamente só viajava e tinha pouco tempo para desfrutar dos locais. Quando o responsável pela estação viu a quantidade de passagens e trechos teve um choque 😃. Mas depois que se recuperou, ajudou-me e encarregou uma funcionária de viabilizar os detalhes. Consegui trocar quase todas as passagens, menos algumas poucas que tinham sido pagas com cartão de crédito (provavelmente tudo havia sido pago com cartão por Singh, mas quando ele teve que fazer alterações devido ao tufão, deve ter precisado pagar em dinheiro – foi a minha sorte). Estas eu só poderia alterar na estação de emissão, que era Nova Déli, o que era inviável. Mesmo assim fiquei muito satisfeito. Agradeci-o muito 🙏. Disse que ele tinha salvo a minha viagem. Ele sorriu e disse “É o meu dever”. Vi como os preços das passagens eram baixos, muito pequenos perto do que eu havia pago pelo pacote todo. Nesta cidade ou em alguma outra nesta altura da viagem, eu vi uma igreja cristã. Interessante como isso despertou em mim uma sensação de felicidade. Aquele era o mundo que eu conhecia, de onde eu vinha, apesar de eu não ser cristão. Um pedinte solicitou ajuda, eu dei uma moeda e ele achou muito pouco, principalmente por eu ser estrangeiro. Acho que foi em Allahabad este episódio, mas não posso garantir. Num dos hotéis em que fiquei ao longo da viagem, fiquei hospedado num quarto próximo a um homem de uns 50 a 60 anos que usava turbante. Num dos primeiros dias em que me viu, cumprimentou-me alegremente e me convidou para tomar um uísque. Até estranhei, mas achei que poderia ser seu costume. Em outra ocasião posterior, quando estava acompanhado por algum amigo, ignorou-me e nem me cumprimentou. Numa outra ocasião posterior, quando estava só, voltou a me cumprimentar alegremente. Mas aí eu comecei a desconfiar de suas intenções e procurei ser cordial, mas distante. O homossexualismo não era bem-aceito em muitos contextos, ainda mais nesta época. Numa das cidades sentei para assistir a um evento em que estavam cantando músicas espirituais e religiosas hindus e tocando instrumentos típicos (acho que havia cítaras e outros). Acho que entrei em estado de extrema felicidade e expansão de consciência . No início pretendia ficar pouco, para não “gastar” muito tempo e ficar sem visitar outros pontos. Mas gostei tanto, que fiquei lá um enorme tempo e não me arrependi. Na 6.a feira 12/11 ainda passeei um pouco pela cidade de manhã e depois retornei ao hotel para me preparar para pegar o trem. Dei uma gorjeta ao atendente do hotel. Ele não pediu, tanto que quando dei perguntou-me para quem era e quando respondi que era para ele, sorriu. Ele me ajudou muito com as informações sem nada pedir em troca. Depois peguei um trem para ir até Satna. Meu objetivo era Khajuraho, local com templos que tinham representações do Kama Sutra. Cheguei à noite em Satna. Conversando com um turista coreano, que também iria para Khajuraho e já conhecia a cidade, ele disse que lá havia hotéis melhores e que era interessante ir à noite mesmo. Só havia disponibilidade de lotações feitas em jipes. Decidi tentar. Estavam esperando lotar os veículos. O coreano me disse que poderia haver problemas, não de segurança, mas de algum outro tipo que eu não entendi. Desisti e decidi ir no dia seguinte. Estava com bastante fome, pois não tinha almoçado. Fui a um aparentemente bom restaurante e pedi um prato do cardápio, com a ajuda do garçom, que me explicou alguns termos. Mesmo assim, boa parte da explicação continha palavras de alimentos que eu não conhecia. Pedi a ele que não tivesse especiarias ardidas. O prato tinha um bom tamanho, compatível com a minha fome. E olha que eu como bastante. Não consegui comer nem 20%. Talvez tenha comido cerca de 10%. Fiquei profundamente decepcionado 😞 por não conseguir comer devido a estar muito ardido. Mesmo o arroz estava misturado com especiarias ardidas. Estava começando a me dar ânsia de vômito, por isso parei. Chamei o garçom para pedir a conta e ele olhou espantado e disse que eu não havia comido quase nada. Eu disse para ele que para o costume dele a comida não era forte, mas que para mim era. No dia seguinte, sábado 13/11, sem ter almoçado nem jantado no dia anterior, tentei comer algo no café da manhã. Algo parecido com pão, que não era ardido. Consegui, pelo menos para não ficar totalmente sem alimentação. Peguei um ônibus para Khajuraho. Uma parada à frente, entrou um grupo de turistas judeus. Eram dois rapazes e uma moça, que sentou do meu lado. Fui conversando com ela sobre Israel, a Índia e a viagem. Quando numa parada entraram viajantes locais e foram lá para trás, onde estávamos, ela preferiu ir para frente e ficar junto com seus amigos. Em algumas paradas eu comi alguns tipos de massa parecidos com pães, mas sem especiarias. Chegamos no início da tarde. Após hospedar-me, fui começar a conhecer a cidade. Para as atrações de Khajuraho veja https://wikitravel.org/en/Khajuraho e https://viagemeturismo.abril.com.br/cidades/khajuraho. O ponto de que mais gostei foram os templos, com as esculturas, dos mais variados tipos, mas principalmente as que representavam o Kama Sutra. Ao longo dos dois dias, visitei os templos com bastante calma. Achei interessantes as várias esculturas. As com posições sexuais pareciam muito criativas (eu nunca li o Kama Sutra). Algumas achei exóticas, pois minha vida sexual é bem padronizada 😃. Numa delas um homem fazia sexo com duas ou quatro mulheres ao mesmo tempo, sendo que duas estavam de ponta cabeça. Se bem me lembro havia alguns templos mais afastados, a que fui andando. Os judeus passaram por mim no caminho no domingo 14/11 de manhã e a moça perguntou-me rindo porque eu não alugava uma bicicleta. Encontrei o coreano nos dois dias no conjunto de templos mais próximos. Ele me cumprimentou sorrindo. Na volta de alguns templos, um riquixá humano perguntou-me se eu não queria transporte. Disse que o preço era US$ 0.40. Resolvi aceitar para tentar ajudá-lo. Mas quando vi que ele é quem puxava o riquixá, arrependi-me, pois achei absurdo ele fazer um esforço físico daqueles para me levar. Depois de uma subida e uma descida, em que pedi para ele não se esforçar tanto, resolvi saltar, antes do meio do caminho, pois considerei inaceitável para ele aquilo. Na hora de pagar, ele me disse que eu tinha entendido errado. Não eram US$ 0.4. Eram US$ 4. Fiquei bem irritado, mas paguei e fui o resto do caminho a pé. Ele ainda me perguntou sobre gorjeta 😃. Acho que foi nesta cidade ou em alguma outra nesta altura da viagem que encontrei um alemão, que me falou em português “Brasileiro na Índia é raro!”. Perguntei se ele era brasileiro e ele disse que não, que era alemão, mas que havia trabalhado na Volkswagen do Brasil, se bem me lembro. Fiquei feliz por ouvir alguém falar português. No sábado à noite encontrei restaurantes com comida ocidental. Como estava morto de fome, comi uma pizza grande e depois ainda um espaguete. E olha que depois, ainda dei uma olhada no cardápio e pensei em pedir a lasanha 😃, mas resolvi deixar para o dia posterior. Mas acabei indo embora no domingo à tarde e fiquei sem a lasanha. O rapaz que cuidava do restaurante falava inglês e conversamos sobre assuntos gerais. Perguntei a ele se pretendia ser empregado em algum local e ele disse que preferia trabalhar com turistas, que era mais lucrativo. No domingo 14/11 à tarde, peguei um ônibus de volta para Satna. Sentei no último banco e o motorista me disse que lá pulava, mas eu resolvi ficar. Depois de bater a cabeça no teto por algumas vezes 😃, resolvi ir para os bancos mais à frente. Cheguei em Satna à noite, e fui hospedar-me. Se bem me lembro, fui a outro restaurante e encomendei arroz puro, chapati (espécie de pão achatado) e uma salada de pepinos, tomate e cebola, tudo sem especiarias. Enquanto preparavam, falei ao garçom que iria sair um pouco e já voltava. Ele ficou nervoso e disse que o pedido já tinha sido feito. Acho que pensou que eu não voltaria. Pediu que eu pagasse parte como garantia. Deixei o equivalente a mais de 95% do preço do jantar. Saí e fui até algumas bancas de frutas, comprar bananas e maças. Voltei, ele me devolveu o dinheiro sorrindo, algo que não esperava, pois achei que já ficaria com ele como pagamento. Quando chegou o prato, misturei o arroz com a salada e as maças e bananas. E acompanhei com o pão. Tinha descoberto como fazer refeições sem especiarias 😃. Aqui ou em alguma outra cidade nesta altura da viagem, depois de muito tentar, em vários locais sem sucesso, eu consegui fazer câmbio (não me lembro se foi com dólares ou com o cartão como garantia) 💲. Um chileno disse-me que também estava com dificuldades e havia conseguido no Banco de Baroda. Não me recordo se realmente foi este o banco ou algum outro em que consegui. O representante ou gerente do banco chamou-me para me conhecer pessoalmente antes de aceitar fazer o câmbio. Não consegui sucesso sacando dinheiro em máquinas automáticas. Hoje o mundo está bastante mudado. Na 2.a feira 15/11 fui pegar o trem para ir para algum lugar em direção a Mumbai (na época Bombaim). No caminho passei por uma casa com um jardim com ornamentos típicos indianos. Perguntei ao dono se poderia entrar para conhecer e ele disse que sim. Achei interessante 👍. Pretendia ir até Shirdi, local central do culto a Sai Baba. Mas achei que a viagem seria um pouco longa. Então decidi parar em algum local no meio. Fechei os olhos e apontei para um lugar no meio do caminho. Meu dedo parou numa cidade chamada Pipariya. Parecia ser uma pequena cidade, sem nenhuma atração especial. Achei que poderia ser interessante conhecer uma cidade comum pequena e comprei passagem para lá. O trem atrasou um pouco e neste dia (ou em alguma outra viagem próxima) eu fiquei conversando com um jovem passageiro indiano, que riu amistosamente da minha pronúncia quando tentava falar algumas palavras em Hindi. Numa das paradas do trem durante a viagem, vi uma placa falando da cidade de Pachmari, uma espécie de instância turística. Parecia ser próxima e decidi avaliar se era possível ir até lá a partir de Pipariya. Chegando lá hospedei-me e fui dar um passeio. Realmente era uma cidade bem pequena, com população simples. Gostei muito de conhecê-la. Sem grandes atrativos feitos para turismo, ela em si foi para mim um evento turístico 👍. Na 3.a feira 16/11 fui até Pachmari. Descobri que era a cerca de 50 km e havia um ônibus para lá. Fiquei lá o dia todo e voltei no final de ônibus. Para as atrações de Pachmari veja https://www.holidify.com/places/pachmarhi/sightseeing-and-things-to-do.html e https://wikitravel.org/en/Pachmarhi. Os pontos de que mais gostei foram os jardins floridos com vários tipos de atrativos naturais e pontos históricos ou mitológicos dos Pandavas (personagens do Bhagavad Gita). Adorei os jardins . Fiquei admirando as flores, de todos os tipos, muitas parecidas com as que vemos no Brasil, outras diferentes. As vistas do alto de colinas também eram espetaculares. Locais onde os Pandavas haviam estado também se destacavam no meio do bosque florido. Quase no fim da visita encontrei uma turista europeia, na garupa da moto de uma guia indiana. Perguntei o que ela estava indo ver e ela disse que iria para onde a guia a levasse. Sugeri os jardins, a guia sorriu e repetiu “os jardins com rosas” e se foram. Na 4.a feira 17/11 fui passear novamente pela cidade de Pipariya. Encontrei um adolescente indiano que começou a conversar comigo em inglês. Acho que desejava conhecer estrangeiros. Conversamos bastante e ele me pediu para ligar para ele depois. Eu disse que não conseguiria, nem teria sentido, pois tínhamos acabado de conversar. Acho que ele queria mostrar que tinha conhecido um estrangeiro e praticar inglês. Um pouco mais à frente, um outro jovem indiano disse-me rispidamente para não passar daquele ponto. Aparentemente era uma via pública. Não sei se entendi bem, pois ele falou em Hindi. Mas, na dúvida, resolvi voltar. À tarde peguei o trem para Manmad. Fiquei num banco junto com uma família grande (típica para padrões indianos). Pai e vários filhos. Trataram-me muito bem 👍. Ofereceram-me seu melhor biscoito. Por mais que eu recusasse, acabei comendo um para não ofendê-los. Estava muito bom. Deram informações sobre Mumbai, para onde eu iria depois. Falaram que na média era um lugar seguro. Perguntaram-me se eu era casado e ficaram surpresos quando disse que no Ocidente não era necessário ser casado para se fazer sexo ou ter filhos. O pai fez os filhos desocuparem um dos bancos para eu deitar. Eu protestei muito, mas não houve jeito de voltarem. E acabei deitando realmente. Cheguei em Manmad perto de meia-noite. Despedi-me. Agradeci muito e fui procurar um hotel. Nesta hora tudo é mais difícil, principalmente em termos de segurança num local desconhecido. Quando estava descendo do trem perguntaram se eu não tinha medo de fantasmas. Eu ri e disse que não. Mas quando fui cruzar um túnel subterrâneo, bem que fiquei pensando, quando vi uma sombra passar rapidamente 😃. Consegui encontrar um hotel perto da estação. Na 5.a feira dia 18/11 fui para Shirdi, onde fica a sede dos ensinamentos de Sai Baba. São cerca de 60 km. Peguei um ônibus de manhã e voltei à noite. Para as atrações de Shirdi veja https://wikitravel.org/en/Shirdi e https://shirdi.tourismindia.co.in/. Gostei bastante daqui . Fiquei somente nos itens envolvidos com os locais ligados a Sai Baba, que muito me agradaram. Achei bastante interessante a história de espiritualidade e busca da paz e amor de Sai Baba. Sua relação com a Natureza também me pareceu bastante íntima, como na história da passagem (morte) do tigre. Fiquei uma parte do tempo meditando 🧘‍♂️. Havia salas com ambientes bem confortáveis. Forneciam bebida (acho que era chá) gratuitamente. Gostei bastante desta meditação. Ninguém cobrou ou pediu nada. Mas para quem desejasse, era possível fazer doações. Não quis fazer na hora para não me deixar levar pelo impulso. Quando voltei ao Brasil, entrei no site para fazer uma pequena. Só achei um espaço para contato, que era de atendimento espiritual, que tinha uma advertência, dizendo que era só para aquele propósito e que assuntos mundanos não seriam respondidos. Mesmo assim escrevi (acho que 2 vezes) perguntando como poderia fazer a doação. Nunca me responderam. Na 6.a feira 19/11 fui conhecer Manmad. Não estava no meu roteiro original de pontos com atrativos ligados à espiritualidade, mas andando pela Índia pode-se encontrar itens ligados à espiritualidade em muitos lugares. E não sendo turístico, além de não haver possíveis aproveitadores querendo tirar vantagem, entrava-se em contato com a realidade pura da população. No passeio conheci meu primeiro templo Sikh da viagem. Interessante como foram atenciosos comigo. A espada que eles usavam, seus turbantes 👳‍♂️ e sua longa barba podiam assustar num primeiro momento. Remetiam-me, ainda que inconscientemente, aos estereótipos do cinema. Principalmente considerando o que havia ocorrido na chegada. Mas esta impressão logo se desfez pela maneira gentil com que me receberam e me deixaram conhecer seu templo. Fizeram questão que eu comece seu alimento típico do templo (uma espécie de doce) antes de eu ir embora. Fui também andar por áreas rurais e campos, num dado momento, acho que cruzei uma propriedade privada em direção a uma colina. Um pastor interceptou-me e abriu os braços, como que perguntando porque eu estava passando pelas terras dele. Mas seu olhar era amistoso. Eu respondi “namastê”. Ele riu e repetiu a expressão de braços abertos, como quem pergunta “que namastê?”. Repetimos umas 2 ou 3 vezes as mesmas palavras e ele riu do fato de eu só conseguir falar aquela palavra. Mas concordou que eu continuasse cruzando suas terras para ir até a colina, conforme meus gestos tentavam pedir. Acho que foi nesta cidade ou em alguma outra nesta altura da viagem que peguei uma lotação num riquixá. Num veículo em que cabem 2 pessoas, fomos em 8, além do motorista, sendo algumas (acho que eram 2) na frente, onde nem banco para passageiros havia. Acho que foi aqui também que comprei uma toalha com um bordado de Ganesha para um colega de trabalho. Ele havia pedido algo parecido, típico da Índia. Tinha pequenas estruturas metálicas douradas que compunham o desenho. Paguei US$ 10.00. Imagino que as mulheres que me viram comprar acharam o preço absurdamente alto, tanto que se esforçaram para não rir muito. No Brasil, acho que custaria de 5 a 10 vezes mais naquela época. Comprei também duas réguas de madeira com deuses para dar de presente a pessoas que pediram, no valor de US$ 1.00 cada. No sábado 20/11 tomei um trem para Mumbai. Foi uma viagem curta. Cheguei no meio da tarde. Fui procurar onde me hospedar. Acabei passando por um local com quartos compartilhados (o que chamamos de hostel ou guesthouse atualmente), que eu não conhecia. Naquele momento fiquei com receio e não quis. Como eu sou ignorante 😃! Depois que fiquei em um hostel em quarto compartilhado pela primeira vez em 2001, passei a optar por eles em muitas ocasiões. Num dos locais, quando disse que estava procurando por algo mais barato, citei que havia ouvido falar de Doki (ou um nome semelhante) e o dono me disse que não era uma área segura, que era muçulmana. Senti uma certa discriminação em relação aos muçulmanos. Acabei ficando num hotel na zona central, perto da Praça da CST (estação terminal de trens). Alguns funcionários pediram-me caixinhas no fim da hospedagem, que não dei (eles não prestaram nenhum serviço extra para mim). Para as atrações de Mumbai veja https://wikitravel.org/en/Mumbai e https://www.tripadvisor.com.br/Attractions-g304554-Activities-Mumbai_Maharashtra.html. Gostei bastante daqui . Os pontos de que mais gostei foram as construções arquitetônicas e históricas típicas, os templos, a Trimúrti em Elephanta, o Portão da Índia, a orla, e toda a cidade. Voltei para lá em 2015 e pude conhecer alguns locais diferentes. Em Mumbai havia bem menos vacas soltas pela cidade. Ao longo dos 3 dias, visitei o Portão da Índia, por onde chegaram e regressaram as forças britânicas, toda a orla no seu entorno, a área central, os prédios históricos e artísticos, como o Príncipe de Gales, galerias de arte, templos, mercados (principalmente de incensos) e muitos outros pontos num city tour. Fiz uma excursão de barco à Ilha de Elefanta, onde havia estruturas históricas e até arqueológicas preservadas. Havia uma cabeça trimúrti esculpida numa enorme pedra, com uma face de Brahma, uma de Vishnu e outra de Shiva. Um guarda chamou minha atenção quando visitava a área arqueológica, achando que eu poderia não ter o ingresso ou que estava em área inadequada. Depois que viu o ingresso indicou-me para conhecer a área em que estavam as demais pessoas. A vista de Mumbai a partir de mar também pareceu-me muito bela 👍. Também passei um tempo procurando por um incenso que minha prima Bernadeth havia pedido, chamado Green Champa. Não encontrei em nenhum lugar um com o mesmo nome ou marca. Deixei para comprar na volta. No primeiro dia, quando saí para passear sem objetivo definido, só para conhecer a cidade em estado puro, vi uma agência do Citibank com caixa automático. Meu cartão pré-carregado era do Banco de Boston. Mesmo assim, resolvi tentar sacar. Era sábado, mas o vigia estava lá atento e me perguntou em inglês se poderia me ajudar. Expliquei a situação e ele me respondeu que eu poderia tentar na última máquina. Fui lá descrente. Logo de início a máquina perguntou-me o mesmo que o vigia “May I help you?”. Prossegui. Em menos de 5 minutos, consegui sacar tudo o que queria e que vinha tentando fazer havia mais de 10 dias sem sucesso 👏. Isso não é uma propaganda. É apenas a descrição do que ocorreu. Acho que foi aqui também que conheci o sanduíche vegetariano do McDonald’s, que na época acho que não existia em outros lugares do Ocidente. O BigMac lá não era com carne de vaca e se chamava Maharaja Mac. Eu não experimentei, mas ouvi falar que era com carne de carneiro. Parece que atualmente é com carne de frango. Também aqui, acho que foi que me pesei. Tinha emagrecido cerca de 9 kg. Eu só pesava 65 kg antes da viagem. Estava com 56 kg. E olha que eu já tinha começado a me alimentar melhor desde de Satna, quando descobri como fazê-lo. Nem imagino quantos quilos perdi no momento em que estava com maior deficit alimentar. Mumbai era uma cidade enorme, com população semelhante à de São Paulo naquela época. Achei inviável conhecê-la completamente em 2 ou 3 dias. No domingo à noite resolvi comprar um city tour, que embora no geral não me agradasse, neste caso foi um dos poucos que me pareceu compensar. No city tour da 2.a feira 22/11 acho que eu era o único estrangeiro. Fui numa excursão bem popular, então a maioria das pessoas parecia ser do interior do país. Eram pessoas aparentemente bem simples. O guia colocou-me no banco do motorista, junto com ele, acho que para facilitar a comunicação e talvez por achar que eu não me sentiria bem junto com os outros. Até onde me lembro, passamos em construções históricas no centro (algumas eu já havia visitado), no templo jainista (que ficava bem distante), em um parque com área verde, num shopping center (o guia ajudou vários a subir na escada rolante – talvez alguns nunca tivessem andado em uma), num parque científico e de diversões educativas, no templo Hare Krishna (que tinha um enorme lustre, aparentemente luxuosíssimo e pesadíssimo), em Bollywood e em uma enorme praia no seu entorno. Durante o almoço eu preferi não acompanhar o grupo e aproveitar o tempo para conhecer um templo e a área nas redondezas, algo com que o guia concordou. Numa das paradas, se me recordo foi no parque científico e de diversões, algumas pessoas atrasaram e o motorista ficou muito bravo 😠. Eu não entendi as palavras que ele falava, mas ele estava gritando com os que chegaram atrasados e alguns retrucaram. O guia também pareceu repreender os passageiros pelo atraso, mas depois gritou um pouco com o motorista, imagino que por achar que ele estava extrapolando nas reclamações. Depois da última parada, acho que o motorista jantou e deve ter bebido um pouco, visto que no retorno estava bem alegre, rindo e parecendo num estado de consciência um pouco alterado. Furou o pneu do ônibus 🚍. Era para retornarmos por volta de 18h ou 19h, mas atrasamos e iríamos chegar perto de 20h. Com o furo do pneu ficou imprevisível. Eu tinha uma passagem de trem com saída prevista para as 22h com destino a Goa. O pessoal, vendo a situação, pensou em conseguir um táxi para mim. Mas eles viabilizaram a troca do pneu e eu voltei com eles no ônibus mesmo, chegando ainda, se bem me lembro, com cerca de 1 hora de antecedência na estação. Peguei o trem conforme previsto e a viagem foi durante a noite. Sentei num banco ao lado do qual havia várias pessoas jovens de uma excursão. Sentei do lado de suecas, mas um tempo depois chegaram algumas brasileiras, que estavam num programa de estadia de 1 ano na Índia. Elas se surpreenderam em ver outro brasileiro e demonstraram felicidade 😊. Começamos a conversar sobre a viagem, a Índia e o Brasil. A moça com que mais falei era carioca. Naquele deslocamento, estavam passeando pelo sul e pretendiam ir até o extremo, em Kanyakumari. Conheci também um mexicano da excursão, que tentou falar algumas palavras em português. Palavrões ele sabia 😃. Parecia ser grande amigo delas. Se bem me lembro, eles desceram em uma ou mais paradas antes de mim. Eu desci em Margão, mais ao sul. Era 3.a feira, 23/11, meio da tarde. Fui procurar onde me hospedar e encontrei um homem que falava algumas palavras em português. Ele alugava uma espécie de kitnet na Praia de Colva. Achei a ideia interessante. Falou que sua mãe falava português. Convidou-me para ir até a sua casa. Aceitei. Lá, sua mulher preparou uma bebida chamada lassi, que achei deliciosa 👍. Parecia leite doce com iogurte de frutas. Resolvi ficar na kitnet que ele propôs. Ele me levou até lá e me deixou com as chaves, combinando de me reencontrar 2 dias depois, quando eu devolveria e entregaria o apto. Adorei a Praia de Colva, linda, tranquila, mar calmo com água quente. Para as atrações de Panaji e Margão veja https://wikitravel.org/en/Panaji, https://www.tripadvisor.com.br/Attractions-g303877-Activities-Panjim_North_Goa_District_Goa.html, https://wikitravel.org/en/Margao e https://www.expedia.com.br/Margao.dx6053392. Adorei Goa . Parecia o mundo que eu conhecia. Os pontos de que mais gostei foram as igrejas, os monumentos e estruturas de origem portuguesa, a praia e as cidades como um todo. Na 4.a feira 24/11 fui visitar Margão e Panaji. Fui visitar uma mesquita. Lá houve um pequeno incidente e eu, acostumado com os templos hindus, sentei em posição de meditação. Quando um ancião cumprimentou-me sorrindo, eu o cumprimentei rapidamente, sem a devida atenção . Acho que consideraram desrespeito e que eu estava me portando como hindu. Expulsaram-me. Havia igrejas cristãs enormes aqui, acho que por herança do período de ocupação portuguesa. Achei muito belas 👍. Encontrei as brasileiras da excursão fazendo um passeio pela cidade. Cumprimentamo-nos e elas me disseram que eu era feliz por poder gastar o tempo que quisesse na visita de algum ponto específico, posto que o grupo delas tinha horários, pelo que entendi. O trânsito aqui era bem mais tranquilo do que em outras partes da Índia. Mesmo assim, numa avenida, vi um cachorro quase ser atropelado 🐕. Mas ele saiu ileso. Fiquei sensibilizado pela cena. Achei interessante haver vários nomes em português, como descrições de monumentos ou locais. Gostei de Velha Goa, parecida com algumas cidades coloniais brasileiras. Na 5.a feira 25/11, tirei o dia para passear por Colva e arredores e ir à praia 🏖️. Que praia deliciosa. Foram férias dentro das férias. Sol, calor moderado, mar calmo, pouca gente. Eu adoro praias e desta gostei muito. No meio da tarde voltei para o apto para arrumar minhas coisas para partir. Pretendia limpar o apto, mas o dono chegou logo após eu ter tomado banho e acabado de arrumar minhas coisas. Tentei ainda varrer um pouco o chão, mas ele disse que não havia problemas e insistiu para eu deixar daquele modo mesmo. Disse que me levaria à estação e eu disse que não precisava, para não o incomodar. Ele disse que não havia problema, mas eu achei que seria abuso da minha parte. Então ele me deixou num ponto de ônibus. Peguei o trem no fim da tarde e cheguei em Mumbai no dia seguinte de manhã, 6.a feira, 26/11. Na estação um casal de britânicos (eu imagino), que tinha ido por conta própria para Goa (eu imagino), comentou comigo, com voz emocionada, que tinha sido uma grande experiência. Eu pensei “Eles não viram nada, Goa é extremamente ocidentalizada, imagina se tivessem passado por onde eu passei”. Tinha uma passagem para Ahmedabad no fim do dia. Então resolvi aproveitar o dia para dar um passeio em Mumbai. Mas primeiramente tinha que comprar os incensos que a Bernadeth havia pedido. Estava ocorrendo uma enorme feira ali perto. Havia um setor de barracas que vendia grande variedade de incensos. Um indiano de uns 50 a 60 anos, vendo minha dificuldade com a língua, ajudou-me a falar com os vendedores em uma feira local. Mas ninguém tinha aquele incenso, em nenhuma daquelas barracas. Quando consultei pela 2.a vez o dono de uma barraca, ele irritou-se. Resolvi comprar então alguns com nomes parecidos. Dei uma passeio pela área central, revisitei o Príncipe de Gales, só por fora. Se bem me lembro fui até o Portão da Índia novamente também e apreciei a orla. Neste dia ou nos dias anteriores em que estive na cidade, visitei uma galeria, onde um rapaz explicava aos donos ou autores da obra, que não tinha dinheiro disponível para gastar com pinturas. A visita para mim foi gratuita. Numa das cidades, entrei num templo hindu e me sentei para contemplar e meditar. Uma mulher com trajes indianos apareceu na porta e veio diretamente até onde eu estava e sentou do meu lado. Começou a cantar mantras. Achei-os maravilhosos e envolventes 👍. Após alguns minutos, um homem, talvez responsável pelo templo, falou rispidamente com ela (não sei se tinha alguma relação com ter sentado perto de mim, um estrangeiro, ou com sua casta), ela aparentemente respondeu fragilizada e se levantou para sair. Foi só então que percebi que ela era cega ou com baixíssima visão, pois saiu tateando e quase tropeçando. Este evento pode ter acontecido na viagem que fiz ao Nepal, 4 anos depois. Como não citei lá, escrevi aqui. No fim do dia peguei o trem para Ahmedabad e lá cheguei no sábado 27/11 pela manhã. Assim que cheguei, dirige-me a um aparente habitante local em inglês e ele me respondeu “No English in Gujarat”, numa mostra que eu teria dificuldades com a comunicação verbal. Fiquei hospedado perto da estação. Para as atrações de Ahmedabad veja https://wikitravel.org/en/Ahmedabad e https://www.tripadvisor.in/Attractions-g297608-Activities-Ahmedabad_Ahmedabad_District_Gujarat.html. Gostei daqui, principalmente dos pontos relacionados a Gandhi, à religião hindu e à cordialidade com que me trataram os muçulmanos. Em Ahmedabad havia bastante poeira e as vacas voltaram a aparecer em grande número. Fui visitar o Ashram de Gandhi, de que muito gostei 👍. A simplicidade e autenticidade de Gandhi sempre me encantaram. As áreas naturais da cidade também muito me agradaram. Os aspectos típicos da Índia, bem como a proporção maior de muçulmanos pareceram-me bastante interessantes. Visitei templos e mesquitas 🕌, com cautela com as lições aprendidas anteriormente na viagem. No domingo 28/11 fiz uma excursão a Gandhinagar, Era um local com bela área natural e o templo de Swaminarayan. Lá, um indiano, ao me perguntar sobre meus interesses, sugeriu que eu visitasse Akshardam, um complexo com exibições da cultura e religião hindu, citando Upanishads, Mahabarata, Ramayana etc. Disse que vinha gente de todos os locais para visitá-lo e eu não poderia perdê-lo. Vendo que ele estava gastando bastante tempo comigo, agradeci, mas disse que não queria tomar seu tempo. Ele disse que era para pessoas com interesses espirituais como os meus que ele estava ali e que não era gasto de tempo nenhum. Gostei muito, mas como as exibições eram na língua local (não sei se era Hindi ou Gujarati), não compreendi o que era falado. Mas mesmo assim pude aproveitar bem. No fim voltei ao homem que me havia indicado e disse que havia gostado, mas muitas falas não havia entendido. Ele pacientemente explicou-me todos os momentos da exibição. Retornei de ônibus já à noite para pegar o trem para Udaipur. O ônibus estava cheio e havia muitas moças muçulmanas 👧. Cedi meu lugar para elas e não me sentei. Mas elas insistiram que eu sentasse. Eu não quis. Depois de muito insistirem eu sentei. Várias delas bateram palmas. Pedi a uma delas que falava inglês para me avisar em que ponto descer, dando como referência a estação. Não podia errar, pois o horário estava um pouco apertado. Mas ela me informou corretamente. Agradeci, desci e agradeci novamente. Elas acenaram despedindo-se. Pareceram ter gostado do contato com um ocidental, que deveria ser raro por ali. Nas viagens finais de trem eu já estava bem esperto em relação às especiarias que se colocava nos alimentos pedidos. Assim, quando comprava um pão, biscoito ou salgado, ficava bem atento ao vendedor e, quando ele ameaçava pegar algum pote para despejar especiarias no alimento, eu rapidamente pedia que não, fazendo gestos. Peguei o trem para Udaipur à noite e cheguei lá na 2.a feira 29/11 de manhã. Não gosto de viajar durante ‘a noite, mas infelizmente devido a toda confusão com a troca de passagens, ao prazo apertado da viagem, à lotação dos trens e aos horários específicos, acabei viajando à noite em vários trechos. Hospedei-me perto da estação. O atendente de um hotel foi tão insistente, que eu acabei não ficando hospedado em seu hotel. Para as atrações de Udaipur veja https://www.tourism.rajasthan.gov.in/udaipur.html e https://wikitravel.org/en/Udaipur. Os pontos de que mais gostei foram o ambiente natural, o lago, o ponto do pôr do sol e os palácios 👍. Durante os 2 dias em que lá estive visitei várias áreas naturais e palácios. Lá foi filmado 007 contra Octopussy. Gostei muito do lago. E o pôr do sol visto a partir do Ponto do Pôr do Sol, um local elevado na beira do lago, foi uma das vistas mais belas de que já desfrutei . Enquanto apreciava o sol em seu movimento descendente, encontrei 2 americanas, que também tinham ido lá para isso. Quando falei que era brasileiro elas suspiraram e perguntaram se eu morava perto da costa. Pareciam gostar de praias. Se bem me lembro, foi aqui que num dos dias, o atendente de um dos hotéis em que eu não havia ficado veio até mim de modo incisivo dizendo que estava se sentindo aborrecido e que por isso precisava que eu conversasse um pouco com ele. Eu já tinha meu itinerário previsto, achei a forma da abordagem inadequada, mas, mesmo assim, parei um pouco para falar com ele. Ele logo desinteressou-se. Achei na hora que tinha sido uma boa escolha não ter ficado no hotel dele. Acho que foi daqui que falei com Singh por telefone e expliquei que tinha trocado algumas passagens. Ele pareceu surpreso e me perguntou porque. Combinamos o reencontro quando eu chegasse na volta. Confirmei para ele o horário e o local. Na 4.a feira 01/12 de manhã bem cedo peguei o trem para Nova Déli. Cheguei no meio da tarde. Durante a viagem estava meio emocionado. Pude sentar na janela, pois o trem estava relativamente vazio, comparado aos outros. Era minha última viagem de trem na Índia, antes do regresso ao Brasil. Fui apreciando a paisagem e relembrando todas as dificuldades que tinha tido na viagem. Incrível eu ter chegado ao fim sem nenhuma consequência mais grave, dado tudo que ocorreu. Quando cheguei à estação estavam lá Singh e seu sócio esperando-me. Este último trecho eu não mudei em relação ao que haviam comprado originalmente. Eu, sinceramente, nem mais contava com nosso reencontro, no meio de toda quela gente, apesar do fim do city tour em Nova Déli ainda ter ficado pendente. O sócio dele me reconheceu e nos reencontramos. Singh me disse que, por sua experiência, imaginava que eu não conseguiria fazer a viagem prevista originalmente. Fomos para seu escritório e me ofereceram um passeio a Haridwar e Rishikesh, que recusei. Combinei com eles de fazer o city tour no dia seguinte e finalmente consegui hospedar-me na Janpath Guesthouse, perto de Connaught Place. Se bem me lembro, ainda deu tempo de passear um pouco antes do escurecer e achei o entorno interessante 👍. O responsável pela guesthouse disse-me que eu parecia 45% indiano e 55% estrangeiro. Na 5.a feira 02/12 fui de ônibus ao escritório da companhia de turismo para fazer a parte final do city tour. Acharam engraçado e talvez despropositado quando disse que tinha ido de ônibus e me perguntaram se estava lotado. Perguntaram se eu daria alguma gratificação. Achei que tinha pago muito mais do que teria sido adequado, ainda mais com o desencontro havido em Varanasi, a necessidade de pagamento extra aos guias e a Bilu e as passagens de trem em sequências inviáveis. Mas, para não fugir do protocolo, dei US$ 5.00 ou US$ 10.00 num envelope. Como já tinha dado bem mais para Bilu, achei que estava razoável. O sócio de Singh, quando declarei o valor da gorjeta no envelope, falou algo de desagrado em Hindi. Mas Singh disse em voz calma, talvez um pouco decepcionada, que eu havia pago tudo como combinado. Disseram-me que Bilu estava em outra excursão e outro motorista iria acompanhar-me. Aceitei e fui com ele. Quando Singh me falava sobre cuidados, o motorista disse que sabia que a criminalidade no Brasil era pior do que na Índia, algo com que concordei, depois de ter viajado pela Índia. Visitamos vários pontos, entre eles o Templo Flor de Lótus, o Qutab Minar, uma espécie de Museu ou Memorial de Gandhi . Neste último, quando entrei estava voando em pensamentos e talvez com a fisionomia um pouco fechada. Um rapaz fez para mim sinal de calma e paz. Eu sorri docemente, para mostrar que eram somente pensamentos irreais. No Templo Flor de Lótus, uma moça da comunidade Baha’i recebeu-me muito bem e sorriu quando deixei bater a porta, pois reinava o silêncio e as pessoas tentavam meditar ou estavam em contemplação. Achei este templo magnífico , tanto do ponto de vista da arquitetura, quanto da atmosfera espiritual reinante. No fim do dia, perguntei ao motorista se era devido pagamento pelos seus serviços e ele me disse que era costume, mas que não precisava me preocupar, para só fazer se achasse que deveria. Achei sua postura tão correta, que acabei dando a ele por somente um dia tanto ou um pouco mais do que havia deixado no envelope, se bem me lembro. Singh deu-me cartões de visita para eu trazer ao Brasil. Acabei não recusando, mas pensei melhor e decidi descartá-los, pois não achei adequada a abordagem inicial, nem o preço, nem a confusão com as passagens, nem os pagamentos extras, embora não possa negar que para o que recebi, o preço foi aceitável em padrões internacionais, embora inflado em padrões indianos. Talvez o que mais tenha me contrariado, foi que eu não pretendia fazer uma viagem com guias nem hotéis de razoável nível. Só optei pelo pacote devido ao evento da chegada no aeroporto. E quando comecei a viajar por conta própria, a partir da 2.a semana, ficou ainda mais claro que aquele era o tipo de viagem que eu desejava, desde o início. Enfim, tanto tempo depois, concluo que foi um gasto útil (embora pudesse ter sido muito menor) para aprender a me virar sozinho em um país em que não conhecia a língua, nem o alfabeto, nem os costumes, nem as tradições e nem quase nada. Depois disso, nas outras viagens que fiz a países assim, já sabia como me virar. E aprendi a lição principal. Nunca chegar num local desconhecido de madrugada. Se chegar, ficar no local onde cheguei (aeroporto, rodoviária, porto, posto de gasolina etc) até amanhecer. Isso aconteceu algumas outras vezes depois desta viagem. Na 6.a feira 03/12, meu último dia, estando novamente por conta própria, fui conhecer Velha Déli. Na saída da guesthouse encontrei um rapaz que depois de eu dizer meu destino e falar que iria a pé, disse que não era possível ir a pé. Eu ri levemente, dizendo que iria mesmo assim e ele, vendo que seu argumento não tinha me convencido, irritou-se. Gostei da área de Velha Déli, mas achei muito empoeirada e com muita gente para as suas ruas estreitas. Visitei Jama Mashid, famosa mesquita muçulmana. Pedi para subir no minarete e, para minha surpresa, autorizaram-me. Visitei também um Gurudwara Sikh, de que também gostei. Minha impressão geral sobre os Sikhs nesta viagem (e nas posteriores também) foi bastante positiva. Fiquei surpreso de conhecer um hospital de passarinhos 😮 mantido pelos jainistas (uma religião parecida com o Hinduísmo – para mais detalhes veja https://pt.wikipedia.org/wiki/Jainismo). Eles respeitavam todas as formas de vida. À noite voltei ao hostel, jantei uma pizza grande deliciosa (se bem me lembro, era da Pizza Hut), com um pouco de especiarias, o que se mostrou um grande erro. Conversei um pouco com uma hóspede (se bem me lembro da Escandinávia) e fui deitar um pouco, antes de pegar o táxi para o aeroporto, pois o voo saía no início da madrugada. Ao deitar, com o estômago cheio, creio que não fiz bem a digestão. Peguei um táxi confiável desta vez, credenciado e chamado pela guesthouse e a corrida transcorreu bem, sem nenhum problema. No avião, comi as refeições, com um pouco de especiarias também. Cheguei em Frankfurt na manhã do sábado 04/12. Estava bem mais frio do que na vinda. Perto de 5 C, quando vi o termômetro bem mais tarde (perto de 10h ou 12h). Fui tentar descobrir como ir por conta própria para o centro da cidade. Fiquei tentando ler as instruções na máquina automática de bilhetes. Um casal, a quem perguntei, ajudou-me a escolher o bilhete correto e me orientou a comprar um bilhete para o dia, que era mais barato do que a ida e volta. Peguei o trem, admirei a paisagem europeia de outono, quase inverno, que só tinha visto em filmes, e desci na área central. O Römer esteva decorado para o Natal e estava havendo a exibição de uma orquestra com crianças tocando os instrumentos e cantando (o maestro era adulto). Havia vários enfeites de Natal. Achei a Casa de Goethe muito grande. Pelo que entendi moravam lá 4 pessoas e, se me lembro, a casa tinha 3 ou 4 andares. Havia também empregados, mas mesmo assim, para os padrões atuais, pareceu-me uma casa enorme. Uma alemã, que também fazia a visita, deu-me algumas explicações. Fui passear pelo Rio Main e ver os museus por fora. Até pensei em entrar em algum, mas desisti por achar seu tamanho muito grande, o que me impediria de conhecê-lo completamente e também me faria não visitar mais nada. Visitei a catedral e uma exposição associada, que mostrava sua imagem durante a 2.a Guerra Mundial e, quase toda a cidade destruída, e somente ela parcialmente preservada dos bombardeios. Depois fui a uma outra igreja protestante, em que uma moça ensaiava piano 🎹. Gostei muito, Aplaudi depois que ela acabou. Ela, que estava numa espécie de mezanino, num andar superior, veio até a grade, sorriu e me agradeceu. Ouvi mais um pouco e depois fui embora, aplaudindo enquanto saía. Interessante que, certa vez, eu fiz isso no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, no Sumaré, em São Paulo, e a moça que tocava piano também parou, mas veio me perguntar se eu estava procurando alguém, se havia algum problema. Este evento chamou-me a atenção para a diferença de percepção existente para a arte nos dois locais. Estava começando a escurecer e ainda eram 16h. Fui apreciar o pôr do sol a partir de uma ponte no Rio Main. Espetacular , apesar do frio. Eu já estava sentindo um certo desconforto estomacal e a partir deste ponto começou a me dar vontade de ir ao banheiro. Depois disso fui conhecer um mercado e paguei $ 1 marco para ir a um banheiro público. Creio que fui umas 3 vezes. Não me entendi bem com a porta e acabei achando que estava preso no banheiro. Bati muito para alguém escutar e vir me soltar, até que descobri o jeito do trinco. Estava saindo, quando chegou a responsável assustada. Eu pedi desculpas com um sorriso envergonhado 😃. Passeei ainda um pouco pelo mercado e fui dar mais uma volta no Römer, que estava muito bonito à noite. Cruzei com jovens e uma moça olhou-me com aparente raiva, dizendo "Ele é americano". Eu estava com uma blusa que minha tia havia me dado do Departamento Florestal dos Estados Unidos, com as cores do país. Foi a única blusa de frio que levei para a viagem, especificamente para esta passada na volta pela Alemanha. Depois deste episódio, resolvi cruzar os braços sobre a inscrição "US Forest" da frente. Alguns alemães disseram-me que não falavam inglês, quando me dirigi a eles pedindo informações, principalmente os mais velhos. Não sei se de fato não falavam, ou não gostavam muito de falar inglês. Já estava bem mais frio, acho que -1 C , e eu não tinha roupas para isso, Começou uma leve chuva ou neve. Isso acabou fazendo um estrago, que ficou limitado, pelo pouco tempo a que fiquei exposto. Já à noite, peguei o trem para o aeroporto e embarquei para o Brasil. Não desfrutei deste voo 😞. Não comi em nenhuma das refeições. Aborreci meu companheiro de poltrona várias vezes para ir ao banheiro. Dormi durante boa parte do trecho, o que é raríssimo de acontecer, posto que não consigo dormir em aviões. Uma moça (acho que era brasileira e deve ter pensado que eu era estrangeiro), fez sinal com a mão para eu comer, quando a aeromoça passou, e com cara de decepção, ouviu minha recusa para uma das suas últimas ofertas de alimentação e bebida. Chegamos no domingo 05/12 de manhã. Meu companheiro alemão de poltrona olhou pela janela e me disse “Marginal Tiéte”, desta maneira. Eu respondi “Não, Marginal Pinheiros”, mas logo olhei melhor e disse “Marginal Tietê”, acenando a cabeça para ele, dizendo que ele estava certo. Estava com tosse de cachorro (é uma tosse profunda e meio rouca). Falei com a minha prima Bernadeth e no dia seguinte ela me ligou novamente para ver se a tosse continuava. A tosse tinha sumido. Ela me disse que pensou que eu poderia estar com pneumonia. Mas acabou ficando tudo bem com minha saúde. Hoje, mais de 20 anos depois, considero que esta foi uma das melhores viagens da minha vida. Porém talvez a mais complicada, em que passei por muitas situações difíceis. Mas acho que valeu a pena. 🙂
  2. Resumo: Itinerário: Joanesburgo (África do Sul) – Katmandu (Nepal) – Bhaktapur - Pokhara – Zhangmu (Tibet) – Tingri – Xigatse – Lhasa - Zhangmu – Katmandu (Nepal) - Janakpur - Lumbini – Katmandu - Caminhada até o Lago Gosaikund (Chisapani – Kutumsang - Ghopte - Gosaikund – Thulo Syabru - Syapru Besi - Dhunche) - Katmandu Período: 08/09/2003 a 09/11/2003 Ida: Voo de São Paulo (Guarulhos) a Joanesburgo na África do Sul pela South Africa Airways. Após parada de 4 dias, voo para Mumbai na Índia pela South Africa Airways. De lá voo para Nova Déli pela Air India. De lá voo para Katmandu no Nepal pela Indian Airlines. Volta: Era para ser voo da Royal Nepal Airlines até Nova Déli na ïndia e depois pela Jet Airways até Mumbai. Porém o avião teve problemas antes da decolagem, o que me fez permanecer por 6 dias em Katmandu até conseguir um voo direto pela Royal Nepal Airlines até Mumbai na Índia. De lá voo pela South Africa Airways até Joanesburgo na África do Sul e depois até São Paulo. Considerações Gerais: Depois de tanto tempo não pretendo nem consigo fazer um relato detalhado, pois nesta época eu ainda não registrava detalhadamente as informações, mas vou tentar descrever a viagem com as informações de que lembrar e que considerar mais relevantes para quem pretende fazer um roteiro semelhante ou ter uma base para pesquisar detalhes, principalmente o trajeto, tipos de acomodações, meios de transporte e informações adicionais que eu achar relevantes. Os preços que eu citar serão somente para referência e análise da relação entre eles, pois já devem ter mudado muito. Acho que o relato principalmente serve para ideias de roteiros a quem se interessar e também como um relato das experiências vividas. Sobre os locais a visitar, só vou citar os de que mais gostei ou que estiverem fora dos roteiros tradicionais. Os outros pode-se ver facilmente nos roteiros disponíveis na internet. Os meus itens preferidos geralmente relacionam-se à Natureza e à Espiritualidade. Informações Gerais: Em toda a viagem houve todo tipo de clima. Em Joanesburgo fez sol quase todo tempo, com temperaturas amenas, levemente frias de manhã e à noite e esquentando ao longo do dia. No Nepal houve bastante sol, mas também alguma chuva, principalmente em Pokhara. Houve neve no Lago Gosaikund. No Tibet fez sol quase sempre, porém as temperaturas foram um pouco frias ao amanhecer a anoitecer, às vezes esquentando ao longo do dia, mas não muito. A população de uma maneira geral foi muito cordial e gentil 👍. Houve vários mal-entendidos devido à língua, ao alfabeto e aos costumes no Nepal e no Tibet, onde quase ninguém falava inglês. Em Joanesburgo houve um episódio em que senti olharem-me com ódio, talvez por minha pele ser branca. Muitos disseram-me para não ir por conta própria para vários lugares, pois poderia ser morto. As paisagens ao longo da viagem agradaram-me muito, passando por áreas de florestas, rios, cachoeiras, montanhas e outros . Achei deslumbrantes especialmente as montanhas nevadas, em particular os Himalaias. Alguns trajetos de ônibus no Nepal e no Tibet passaram na beira de precipícios bem altos, o que foi um teste para os nervos 😟. Houve muitos problemas com pneus furados. Houve pontos em que os veículos atolaram e vários congestionamentos devido a deslizamentos de terra. Como havia uma guerrilha tentando tomar o poder no Nepal, houve muitas paradas para checagem pelo exército. As viagens foram muito lentas devido a tudo isso. Para entrar no Tibet foi necessário ir em uma excursão até Lhasa, por exigência do governo chinês. Em Joanesburgo recomendaram-me não usar transporte público, sob pena de sofrer violência. A viagem no geral foi tranquila. Não tive nenhum problema direto de segurança, mas houve uma decretação de paralisação geral pela guerrilha no Nepal que o exército respondeu decretando toque de recolher. Em Joanesburgo contaram-me a respeito de muitos episódios de violência. Quase ninguém aceitou cartão de crédito. Mas consegui fazer saques nas moedas locais usando o cartão de débito Visa Electron. Levei cerca de US$ 1,300.00 em espécie, mas gastei bem menos. Na África do Sul saquei R$ 511,75 e paguei R$ 24,81 de tarifas. Gastei mais R$ 28,05 com cartão de crédito. No Nepal saquei R$ 178,97 e paguei R$ 10,86 de tarifas. Troquei mais uns poucos dólares também. No Tibet saquei R$ 431,68 e paguei R$ 15,97 de tarifas. Acho que troquei alguns poucos dólares lá também. Paguei US$ 129.00 pela excursão para ir ao Tibet. Acho que ao todo gastei cerca de US$ 530.00 a US$ 630.00 na viagem sem contar a passagem aérea. A passagem aérea custou pouco menos de US$ 1,500.00 obtida através da agência Via Aérea (http://viaaerea.tur.br). No Nepal achei a comida com muitas especiarias, ardida como pimenta. Como não gosto, tive alguma dificuldade. A Viagem: Fui de SP (Guarulhos) a Joanesburgo na 2.a feira 08/09/2003 pela South Africa Airways (https://www.flysaa.com). A saída estava prevista para as 18:15. Cheguei em Joanesburgo pela manhã na 3.a feira 09/09. Tive alguma dificuldade de comunicação com alguns atendentes do aeroporto provavelmente devido ao sotaque e ao meu nível de inglês precário. Obtive informações no balcão correspondente do aeroporto e confirmei as informações que tinha lido de que a cidade poderia ser perigosa. No próprio aeroporto encontrei um rapaz e uma moça do hostel Africa Centre (http://www.cheaphotelsandhostels.com/hostel/h-3170/Africa-Center-Airport-Hostel) fazendo propaganda e, analisando as outras opções, resolvi aceitar a oferta deles. Disseram que o hostel ficava numa área muito segura perto do aeroporto. O rapaz comentou que seria perigoso visitar os pontos de interesse por conta própria. Contou relatos de pessoas que haviam sido mortas. Achei que poderia ser exagero para me levar à compra de pacotes. Chegando ao hostel, após acomodar-me, fui dar uma volta pelos arredores. Foi possível perceber que havia preocupação com segurança nas várias residências, com placas de resposta armada de empresas de segurança. Um pouco cansado, com um pouco de sono após uma noite no avião e sem ter almoçado, não fui muito longe e depois de andar um pouco, parei numa praça para descansar. Lá um homem pediu-me dinheiro, dizendo que estava com fome, pois não havia almoçado. Como ele me pareceu em bom estado, como não havia nenhum local que eu conhecesse para comprar alimentos por perto e como tenho certa reserva em dar dinheiro, pois nunca se sabe para onde vai, acabei desejando-lhe boa sorte, mas não lhe dei nada. Notei que várias vezes pessoas negras mudavam de calçada quando iriam cruzar comigo. Achei coincidência num primeiro momento. À noite no hostel conheci a dinamarquesa Liz, recém-formada ou acabando a formação na área de negócios, e a inglesa Emma e seu namorado, que pretendiam ir ao Parque Kruger. Consultei também os preços para visitar alguns pontos que desejava. Para as atrações de Joanesburgo veja https://guia.melhoresdestinos.com.br/pontos-turisticos-de-joanesburgo-141-1467-p.html, https://www.planetware.com/tourist-attractions-/johannesburg-saf-gp-jo.htm e https://www.lonelyplanet.com/south-africa/johannesburg/attractions/a/poi-sig/355617 . Os pontos de que mais gostei foram os itens históricos, os típicos da África, a mina de ouro e o Museu do Apartheid . No dia seguinte, 4.a feira 10/09, bem mais descansado, fui dar uma grande volta pelos arredores para tentar descobrir se seria possível ir por conta própria para o centro e os demais pontos de interesse. Perguntei a cerca de 20 pessoas brancas se seria seguro e unanimemente elas me disseram que não, sendo que boa parte delas disse-me que eu poderia morrer. Achei que poderia ser algum tipo de discriminação e ideia deformada por parte dos brancos. Tentei então procurar pessoas negras para ver a sua opinião. Falei também com cerca de 20 e, para minha surpresa, a opinião deles foi a mesma dos brancos, porém não me lembro de terem me falado que eu poderia morrer. Só disseram para eu não ir, pois não seria seguro. Só houve uma exceção, que foi o vendedor de bilhetes da estação de trem, que disse que eu poderia ir sem problemas. Mas eu resolvi não ir e, apesar dos valores bem mais altos, resolvi ir em excursões coletivas privadas nos dias seguintes. No meio da tarde, quando pedia informações às pessoas sobre caminhos, conversei com uma mulher branca de uns 50 ou 60 anos em sua oficina e ela me disse que não dava para ir a pé ao centro, porque havia muitas pistas só para carros e porque passaria por áreas perigosas. Acho que o marido dela ficou com ciúmes da atenção que ela me deu (pareceu com um enfoque maternal). Falei também com um vigilante negro, que num primeiro momento mostrou-se na defensiva, mas conforme que a conversa foi evoluindo informalmente, tornou-se bastante amistoso e, no fim, estendeu a mão num cumprimento típico. Paralelamente um outro vigia atravessou a rua e veio cumprimentar-me. Desejaram-me longa vida sorrindo. Fiquei bestificado 😲. Este episódio de um branco conversar com um negro sem ser por alguma questão de serviço pareceu-me ser algo raro por ali, um evento. Isso me fez achar aquele estado de coisas infeliz ☹️. Lembrei-me do Brasil, que apesar de toda a questão do preconceito, é um lugar em que sempre tinha convivido com muitos negros e mestiços de maneira amigável, em ambiente de trabalho, escola, esportes, cultura, família etc. Neste dia nadei na piscina do hostel, apesar da água um pouco fria do fim de inverno. Um dos atendentes até me perguntou sobre a temperatura da água. À noite ainda conversei com um dinamarquês amigo de Liz, que me recomendou cautela se fosse tentar ir a algum local por conta própria. Na 5.a feira 11/09 fui numa excursão pela manhã, junto com outros estrangeiros, conhecer o centro da cidade, incluindo museu, lojas típicas, praças, prisão em que ativistas anti-apartheid estiveram (incluindo Nelson Mandela) e outros itens. Lembro-me de um alemão, um australiano e talvez algumas alemãs. As pessoas estavam muito temerosas de sair para andar em áreas públicas, especialmente o alemão. Quando fomos ao Parque Joubert (https://en.wikipedia.org/wiki/Joubert_Park), perguntei se poderia dar uma volta, o guia autorizou e eu fui. Só havia negros. Pelos olhos achei que cerca de 20% pareceram muito surpresos e felizes com minha presença, como que a me convidar a ficar à vontade e desfrutar do ambiente. Cerca de 40% pareciam indiferentes e evitavam o contato visual. Outros 20% pareciam não gostar e alguns até pareciam esperar alguma oportunidade de algum delito (até aí nada diferente do que em alguns locais de SP). Porém, o que me assustou foi que havia cerca de 20% que pareciam fazer questão de me olhar fixamente com aparente ódio, sem nunca me terem visto antes. Seu olhar parecia exprimir raiva e, se tivessem oportunidade, acho que cometeriam violência contra mim. Nunca tinha passado por isso. Mesmo em locais onde há crime ou algum tipo de rivalidade no Brasil, nunca tinha sentido alguém olhar-me assim. Fiquei tristemente espantado ☹️. Não entramos na Galeria de Arte porque o tempo era curto e a galeria muito grande. Apenas vi as obras da sala de recepção. Fomos para lojas típicas e para áreas centrais. Andamos um pouco por lá e depois fomos para outra excursão à tarde, com destino ao Soweto. No caminho o alemão, que parecia não querer se aventurar a andar muito longe do guia e em locais públicos, contou a seguinte história, que foi narrada por jornais alemães, alguns dos quais sensacionalistas. Um casal de alemães saiu para assistir um espetáculo de música no centro da cidade à noite. Beberam e depois saíram andando pelas ruas, dispensando o táxi. O homem tinha um relógio no pulso, a mulher tinha anéis nos dedos e um colar. Ele deu uma pausa na história, olhou pela janela, tomou fôlego e continuou. Quando acharam o homem ele não tinha a mão. Quando acharam a mulher ela não tinha nenhum dos dedos e nem a cabeça. Ambos morreram e alguns jornais sensacionalistas publicaram fotos na primeira página. Aí eu entendi porque ele estava tão cauteloso. Juntaram-se a nós mais algumas pessoas para o passeio, incluindo um belga e talvez mais uma ou duas alemãs. Começamos o passeio pelo Soweto parando no início do bairro e entrando numa espécie de tenda ou bar de madeira onde se vendia comida típica, um tipo de churrasco, e cerveja. O australiano comprou uma e gostou. Depois fomos conhecer locais históricos, casa de Desmond Tutu, de Mandela, Steve Biko, locais de manifestações, uma ocupação (o que chamaríamos aqui de uma favela em área não autorizada) e uma favela. Na ocupação chamou-nos atenção uma placa do KFC que eles penduraram em uma das casas. Chamou a atenção do belga o fato deles conhecerem David Beckham. Na favela eu perguntei se seria perigoso entrarmos nas vielas e o guia disse que dependia de até onde eu quisesse ir. Achei melhor não ir para não expor o grupo e porque não sabia se havia algo relacionado a algum tipo de crime ali, como narcotráfico. Quando estávamos indo embora, um homem da favela com que eu havia conversado pediu-me comida. Eu não tinha nada na mão e fui ao grupo perguntar se alguém tinha algo. Mas o guia não gostou e falou para irmos embora. Disse: “Não podemos (temos capacidade para) alimentar todos”. Chegamos de volta ao hostel à noite. Na 6.a feira 12/09 fui com o transporte da excursão a Golden Reef (https://en.wikipedia.org/wiki/Gold_Reef_City), onde havia uma enorme e típica mina de ouro. Mas fui fazer o passeio só, pois os outros iriam para outros passeios. Havia uma espécie de parque de diversões no mesmo local e, achando que teria bastante tempo, decidi conhecer um pouco dele antes e depois da visita à mina. Foi um grande erro, pois perdi tempo precioso, que poderia ter usado na visita ao Museu do Apartheid. Achei as atrações do parque interessantes, mas parecidas com os parques de diversão que conhecia em São Paulo. Achei a visita à mina espetacular . Nunca tinha visitado uma mina de ouro subterrânea. Achei impressionantes as estruturas, o modo de trabalho, todo o local e o processo. Por não ver, liguei a lanterna na cara de um trabalhador da mina de apoio à excursão enquanto a guia dava explicações e ela logo me chamou a atenção, mostrando o trabalhador, que eu não havia visto porque estava numa área escura dentro de uma estrutura da mina. Após a visita à mina, enquanto passeava pelo parque, vi um prédio grande não muito distante e descobri tratar-se do Museu do Apartheid (https://www.apartheidmuseum.org). Apesar de já ser tarde, apenas 1 hora a 1 hora e meia antes do que havia combinado com o motorista da excursão para me pegar de volta, decidi ir visitá-lo. Gostei muito. Havia muitos ambientes, contando a história da segregação racial no país, desde as guerras entre holandeses Boer e ingleses, do convívio com os zulus, da passagem de Gandhi por lá, até os dias mais recentes (não consegui ver o fim, então não sei exatamente até onde ia). Havia um trecho em que brancos passavam por uma área e negros por outra, de modo que os brancos vissem como eram tratados os negros e como eram os ambientes em que viviam e os negros vissem como eram tratados os brancos e como eram os ambientes em que viviam. Na área dos atentados, torturas e assassinatos promovidos pelo governo, chamou-me a atenção o número de explicações claramente (parecia que até propositalmente, com intuito de intimidar) falsas a respeito de prisioneiros mortos, a maioria enquanto tomava banho (tomava banho, escorregou, bateu a cabeça e morreu, caiu no banheiro e morreu etc). Lembrou-me algumas das explicações da ditadura militar no Brasil referentes a atropelamentos por caminhões, além da dada no caso de Vladimir Herzog. Infelizmente o horário que havia combinado com o motorista da excursão estava chegando e parei na seção de atentados, nos anos 1980. Até tentei propor ao motorista que me pegasse no fim da tarde, mas ele estava levando o pessoal da excursão de volta e não tinha previsão de nova excursão à tarde. Aí disse que não seria possível, a menos que eu pagasse pela gasolina como táxi individual. Eu acabei não querendo e voltei com eles. De volta ao hostel conversei com um espanhol e outro viajante (acho que também era espanhol). Perguntaram-me como ia indo o Lula em seu primeiro ano de governo, conversamos sobre o mundo e sobre os perigos da viagem ao Nepal, que tinha uma guerrilha maoísta. No sábado 13/09, perto da hora do almoço, peguei uma transferência, junto com um dos dois espanhóis. Eu estava indo para o aeroporto e ele, se bem me lembro, para o shopping. Na sala de espera para o embarque, vi que havia um grupo de brasileiros indo para a Índia, que perceberam que eu era brasileiro. Eram Fábio, dono de uma empresa de aço e seu irmão ou cunhado. Fomos conversando uma parte do voo e eles, principalmente o Fábio, tinha interesse em esoterismo. Falou-me de sua experiência com vários locais de estudos de filosofia e esoterismo que eu também conhecia. Por coincidência ele era formado na mesma escola que eu, só que em engenharia metalúrgica. Ele me falou que eu era a primeira pessoa que ele conhecia que de fato fazia uma viagem ao Tibet, pois muitos falavam, sonhavam, mas não faziam. Falou-me ainda que era só assistir televisão e ver como era o mundo para se esquecer tudo de que se falava sobre esoterismo nos locais de estudo ou encontro. Achou um pouco forte o tempero da comida e eu lhe disse sorrindo que ele não tinha visto nada ainda 😀. Depois de ter voltado ao Brasil fui jantar na casa dele, conheci sua mulher e filhos e conversamos sobre minha viagem a passeio e a dele de negócios. Chegamos a Mumbai de madrugada, ele lá ficou e eu fui pegar conexão para Nova Déli pela Air India (http://www.airindia.in), morto de sono. Cheguei em Nova Déli no amanhecer. Tive que ficar numa área restrita, pois precisava de um atendente da Indian Airlines (https://en.wikipedia.org/wiki/Indian_Airlines) para me liberar para o novo embarque. Foi uma espera de algumas horas (cerca de 3) não muito agradável. Ainda tive que pagar uma taxa de US$ 5.00, se bem me lembro. Após a liberação fui para a sala de embarque para Katmandu. Conheci uma médica de Médicos Sem Fronteiras, que me deu 3 sugestões de ouro, apesar de algumas óbvias, sobre como enfrentar a altitude. Primeiramente, respirar fundo (inspirando e expirando longamente), depois dormir com a cabeça bem elevada do corpo, não em linha reta e por fim, beber muita água. Estes 3 procedimentos simples ajudaram-me muito e tive muito menos problemas do que em uma ida anterior a regiões altas. Embarquei no domingo no fim da manhã, morto de sono. Havia 3 lugares na fileira em que eu estava, comigo, um russo e um indiano. Eu ri e comentei com eles que era um retrato do mundo. Fomos conversando sobre Moscou, a questão dos atritos entre Islamismo e Ocidente, a Índia e a situação política no Nepal. O indiano disse-me que as montanhas eram seguras, mas para eu não ir ao Terai (https://pt.wikipedia.org/wiki/Terai). Ao longo da viagem perguntei a várias pessoas sobre a situação política e todos disseram-me que a situação estava sobre controle. Chegando em Katmandu, no domingo 14/09 no meio da tarde, tirei o visto de entrada no aeroporto. Precisava de uma foto, que a atendente da embaixada da Índia no Brasil (que representava o Nepal) havia me dito. Levei comigo e poupei o preço de tirar a foto no aeroporto. Paguei uma taxa pelo visto (algo como US$ 50.00). Peguei um táxi e fui para a área conhecida como Thamel (https://en.wikipedia.org/wiki/Thamel), onde ficavam os estrangeiros geralmente. Dadas as notícias que havia ouvido, achei a situação até bem tranquila. Um guia recomendou-me um hotel por US$ 6.00 a diária, em que acabei ficando nos primeiros dias, até descobrir que havia outros muito mais baratos. Após instalar-me, resolvi deitar um pouco para depois ir jantar, pois não consigo dormir em aviões e estava bem cansado. Fui acordar de madrugada e acabei decidindo dormir até o dia seguinte 😴. Para as atrações de Katmandu veja https://wikitravel.org/en/Kathmandu, https://www.lonelyplanet.com/nepal/kathmandu e https://thingstodoeverywhere.com/visit-kathmandu-attractions.html. Os pontos de que mais gostei foram as stupas, os templos, os prédios e monumentos históricos, as vistas a partir de locais altos e a população local . Conversei com um agente de turismo local e ele me deu informações sobre os locais a conhecer no Nepal, os preços, as formas de transporte e as condições gerais do país. Disse-me para não ir para a região de Lumbini, pois havia muitos pontos de checagem do exército nas estradas, o que tornaria a viagem cansativa, além de ser área com muitos guerrilheiros, que não costumavam atacar os turistas, mas pediam dinheiro para que pudessem prosseguir. E tudo poderia acontecer, nada era garantido. Na 2.a, 3.a e 4.a feira fui visitar as 3 principais stupas de Katmandu, que eram Swayambhunath (https://www.swayambhunathstupa.org/), Boudha (https://boudhanathstupa.org) e acho que a última era em Patan. Achei as estupas espetaculares , principalmente as 2 primeiras. Gostei mais de Swayambhunath, mas Boudha também pareceu-me muito boa. Além de todo o clima espiritual, a vista lá de cima também era muito boa e ampla. Passei também por templos, monumentos, parques e palácios nas áreas centrais e no caminho para as estupas. Achei que havia um certo clima de tensão devido à guerrilha e à possibilidade de atentados ou talvez eu estivesse precondicionado. A cidade em si parecia-me com trânsito um pouco caótico e com estrutura simples, mas sem extremos de pobreza, apesar de haver mendigos. Acho que uma visão ocidental materialista diria que era bem pobre. Aproveitei também estes dias para obter informações detalhadas sobre a ida ao Tibet, algo que não tinha conseguido no Brasil. Fui ao consulado chinês e obtive as informações necessárias. Se bem me lembro obtive um visto de 15 dias, que era o que o governo chinês oferecia para quem entrava por ali. Fui também a agências de turismo obter informações sobre excursões ao Tibet, posto que o governo chinês não permitia viagens de estrangeiros sem ser vinculadas a excursões. Na 4.a feira à tarde correu um boato de que a guerrilha decretaria uma paralisação geral. Quando cheguei ao hotel informaram-me que o rei havia decretado toque de recolher naquele dia e provavelmente nos outros também. Fui jantar e quase me perdi na volta ao hotel. O toque de recolher era as 23 horas e já eram 22 horas e as pessoas andavam rapidamente, num clima de desespero. A atendente de uma agência de turismo em que eu havia ido disse-me que se estivesse na rua após o horário as forças armadas tinham ordem de atirar. Enquanto procurava pelo caminho para o hotel, que era meio escondido, em meio às pessoas correndo, dei de cara com um carro de combate com soldados . Levei um susto, cruzei com eles, mas nada aconteceu. Tentei perguntar para os habitantes locais, mas naquele clima tudo era difícil, além da língua, que eu não sabia falar. Mas achei o caminho e voltei para o hotel aliviado. Esta situação lembrou-me a cena com o desespero da população na invasão da China no filme “O Império do Sol”. Na 5.a feira 18/09 perguntei aos atendentes do hotel se poderia visitar pontos de interesse e eles me disseram para não ir longe. Acabei não atendendo o que disseram. Primeiramente fui até a parte antiga da cidade, que achei espetacular . Não tinha ideia da existência daquele conjunto histórico razoavelmente preservado. Depois fui a Bhaktapur (https://en.wikipedia.org/wiki/Bhaktapur) andando. Fui conhecendo os vários pontos de interesse pelo caminho. Gostei também bastante de lá. Novamente achei grandioso o conjunto histórico e arquitetônico . Parecia mais calmo, pois era uma área turística, mas novamente pareceu-me tenso o clima. Um nepalês, que veio conversar comigo, perguntou-me como eu havia chegado lá e quando disse que tinha vindo só e andando, ele ficou admirado e disse que eu devia ser muito inteligente para conseguir chegar (talvez ele devesse ter dito muito louco). Na 6.a feira 19/09 fui à última grande stupa que haviam recomendado em Katmandu. Cada uma delas era em direção a um ponto cardeal em relação ao Thamel e esta, se bem me lembro, era para Norte ou Nordeste (talvez fosse Budhanilkantha - https://en.wikipedia.org/wiki/Budhanilkantha). Fui andando. Gostei. Achei-a menor e mais simples que as outras, mas ainda assim achei-a interessante. Passei por templos próximos e fui visitando os pontos de interesse no caminho. No sábado e domingo mudei para um hotel mais barato, cerca de US$ 2.00 a diária e fui tentar visitar os templos de Pashupatinath (http://pashupatinathtemple.org) e Guhyeshwari (https://en.wikipedia.org/wiki/Guhyeshwari_Temple). Mas não eram permitidos para não hindus. Na porta de Pashupatinath havia estátuas de deuses e uma placa enorme dizendo que só era permitido para hindus. Mas como eu estava apreciando as estátuas não vi a placa. Olhei para os guardas e eles não falaram nada. Acho que imaginaram que eu era hindu. Alguns minutos após entrar, quando observava uma estátua de Ganesha, um sacerdote brâmane veio até mim e rispidamente perguntou o que eu estava fazendo ali, pois não era permitido para não hindus. Eu fiquei surpreso e disse que não sabia. Ele me conduziu parte do caminho até a porta. Lá, vi a enorme placa e fiquei constrangido 😳. Um outro brâmane passou indo embora e eu lhe falei que era leitor do Bhagavad Gita e gostava do hinduísmo. Ele me disse que isso era bom, mas que eu não poderia entrar. Aparentemente esta norma mudou nos dias atuais. Nos outros templos fiquei mais atento antes de entrar. Em vários pude entrar, sem problemas. Apreciei o Dal Bhat, que era um prato típico do Nepal, com arroz, lentilha e legumes (poderia ser também com carne, mas eu sou vegetariano). Parecia nosso arroz com feijão, porém alguns vinham com muitas especiarias, o que os fazia ardidos. Descobri também uma doceria que tinha uma promoção de 50% de desconto no fim da noite, o que me pareceu tornar atraente os preços dos bolos e tortas . Perguntei a um judeu onde poderia encontrar um mapa gratuito da região e ele me disse sorrindo “em seus sonhos”, mas completou dizendo que os mapas não eram caros. Conheci um outro judeu que também procurava ir ao Tibet. Procuramos juntos por agências de turismo e conseguimos fechar com a mais barata por US$ 129.00 uma excursão de 4 dias, saindo de Katmandu e chegando a Lhasa, com transporte, hospedagem e café da manhã do primeiro dia incluídos. A excursão mais próxima sairia dia 28/09. Ele pareceu um pouco incomodado com o fato de eu pedir informações a qualquer pessoa. Provavelmente em Israel esta prática era perigosa. Ele era agricultor e conversamos sobre a situação de guerra existente em Israel. Conheci um outro turista (acho que era europeu) que comentou sobre sua viagem e disse que estava agendado para ir ao Tibet também e me disse que sua chegada estava prevista para 01/10. Comentei com ele que minha previsão era a mesma e imaginei que iríamos na mesma excursão. Dada a data da excursão, decidi ir conhecer Pokhara enquanto esperava. Peguei um ônibus na manhã da 2.a feira 22/09 e cheguei no fim da tarde. As viagens costumavam demorar muito porque as estradas eram precárias, havia deslizamentos de terra e havia checagens de segurança feita pelas forças armadas. Nesta primeira, se bem me lembro, não houve muitos incômodos. Fiquei numa espécie de casa de família que tinha alguns cômodos para hóspedes. Alguns turistas estrangeiros que estavam na cidade disseram-me que nem se notava o toque de recolher por ali e que a situação era muito mais calma do que em Katmandu. Para as atrações de Pokhara veja https://myownwaytotravel.com/tourist-destination-pokhara-tour-guide/, https://www.lonelyplanet.com/nepal/pokhara e https://wikitravel.org/en/Pokhara. Os pontos de que mais gostei foram as montanhas, os templos, o lago, a vegetação e as vistas a partir de locais altos . Fiquei lá até 6.a feira 26/09. Foi difícil ter uma vista limpa das montanhas, pois lá chovia muito e havia muita nebulosidade. Se bem me lembro as informações diziam que o tempo ficava chuvoso mais de 200 dias por ano. Mas em alguns dias houve algumas aberturas das nuvens e no último, principalmente, foi possível uma razoável vista dos picos e das montanhas. Num dos dias fui até um templo que ficava no topo de uma montanha e que havia visto lá de baixo. Fui intuitivamente por uma trilha na montanha no meio do mato . Fui perguntando para as pessoas que encontrava pelo caminho, muitas coletando algum tipo de produto agrícola ou fazendo extrativismo vegetal ou mineral. Perguntava por “Buda” e eles (em boa parte mulheres) apontavam-me o caminho. Cheguei a fazer uma marca no chão numa encruzilhada para não me perder na volta. Chegando lá um vendedor ambulante perguntou-me se eu havia vindo pela floresta e me disse que poderia ser perigoso, narrando o caso de um japonês que havia sido morto por estrangulamento ou enforcamento há um tempo atrás. Disse que sozinho era problemático, mas em dois ou mais não havia problemas. Gostei muito deste templo que era a World Peace Pagoda (https://en.wikipedia.org/wiki/Shanti_Stupa,_Pokhara). Gostei muito também da paisagem vista lá de cima e da vegetação ao longo da trilha. Depois de ficar um bom tempo lá, desci por um outro caminho, que passava no meio de uma comunidade local. Um habitante local acompanhou-me parte do caminho, até pegar um atalho para sua casa. Não havia a vegetação espetacular da mata, mas a vista era bela. Nem precisei usar a marca que havia feito no chão. Num outro dia fui até um templo que havia no meio do lago. Acho que era o Templo Tal Barahi (https://en.wikipedia.org/wiki/Tal_Barahi_Temple). Fui nadando, o que surpreendeu alguns habitantes locais, pois havia barcos pagos. Deixei minha carteira e passaporte no local em que estava hospedado e fui com calção de banho e camisa. Era próximo, talvez cerca de 100 a 200 metros. Achei bem interessante, simples, mas típico. Ocupava a ilha toda. Numa ocasião, perguntando a um rapaz por informações, ele alertou-me sobre ficar andando por lugares desertos, dizendo que havia uma “discussão”, referindo-se à disputa entre o governo e a guerrilha maoísta. Num dos dias à noite, fui visitar uma loja de tapetes. Era de muçulmanos e, pelo meu interesse em questões religiosas, para começar uma conversa amistosa, perguntei referente à questão da Guerra Santa não ter sido criada por Maomé. Acho que não foi uma boa ideia, pois eles se empolgaram com a conversa e começaram a falar sobre os muçulmanos, sobre a discriminação que estavam sofrendo após o 11 de Setembro (que estava fazendo 2 anos), chegando a me perguntar se eu achava que tinham 6 dedos por serem muçulmanos. Como eu disse que não era cristão, apesar de ter sido criado numa cultura cristã, creio que quiseram converter-me. Tanto que disseram que iriam chamar um estudioso que teria muito mais argumentos. Mas aí entraram algumas pessoas interessadas nos tapetes e desviaram sua atenção. Eu aproveitei a ocasião, agradeci pela conversa, despedi-me e fui embora. Numa noite conheci um japonês num restaurante enquanto jantávamos e conversamos sobre nossas viagens. Comentamos como eram baratos os produtos e serviços no Nepal. Interessante como havia reposição gratuita de alimentos (arroz, lentilhas, vegetais). Por várias vezes caminhei por trilhas e estradas com vegetação natural. A vista do lagos, dos cursos de água, das montanhas e da vegetação agradou-me muito. Se bem me recordo foi nesta região que atravessei uma ponte parecida com aquelas que se vê em filmes de aventura, geralmente na África, sobre um desfiladeiro ou uma garganta, feita de cordas e com piso vegetal. Imaginei como seria aquela ponte num dia com ventania. Na 6.a feira, quando disse ao dono da casa em que estava hospedado que iria embora no dia seguinte para o Tibet, ele disse que ali era a minha casa e que o Tibet seria caro. Eu sorri, mas prossegui com meus planos. No sábado 27/09 voltei para Katmandu para poder pegar a excursão no domingo. A viagem foi lenta e cheguei já de noite. Mesmo assim fui ao local da agência de turismo para confirmar o local e horário de embarque e combinamos que um dos atendentes fosse ao hotel e me acordasse caso eu não aparecesse, pois a saída era cerca de 5h da manhã. Fiquei num outro hotel, com preço semelhante ao anterior ou um pouco mais baixo, se bem me lembro. A viagem de ida ao Tibet de 28/09 a 01/10 teve a paisagem que achei mais espetacular em toda a viagem e talvez a mais espetacular que vi na vida , talvez por não estar acostumado a este tipo de vista. No domingo 28/09, eu acordei na hora, pois tinha ficado com o horário na cabeça, o guarda do hotel ajudou-me a acordar para não haver perigo de eu voltar a dormir e logo em seguida chegou o atendente da agência de turismo, para não haver nenhum perigo de perder a hora mesmo. Ele esperou por mim e fomos até o ponto onde estavam os veículos. Os agentes de turismo disseram que todos eram geralmente muito gentis, menos o exército chinês. Creio que esperamos ali por cerca de 1 hora ou mais até todos chegarem e podermos partir. Fomos em comboio, creio que também por questões de segurança. Paramos num hotel restaurante cerca de 1 hora depois da partida para tomar café da manhã. O café estava muito bom, pareciam produtos rurais da própria área. A paisagem durante a viagem pareceu-me bonita, com vistas rurais e montanhas. Katmandu tinha cerca de 1.300 metros de altitude e estávamos subindo. Após andar mais um pouco chegamos em Kodari, na fronteira com a China. Fomos fazer os procedimentos de entrada. Havia uma diferença horária de 02h15, com a China tendo o horário à frente. Aí entendi porque tínhamos saído tão cedo. Naquele ponto havia uma usina hidrelétrica do lado nepalês e a Ponte da Amizade, que separava os dois países, sobre uma enorme garganta de rio, o que tornava a vista grandiosa. Ficamos algum tempo esperando e depois fomos para uma fila no sol para passar pela ponte. Conheci uma guia turística húngara que sabia falar “Bom dia”, pois já havia estado no Brasil. Quando algumas mulheres mais idosas foram tirar fotos a partir da ponte, um soldado chinês saiu da cabine em que estava e veio dizer que era proibido. Ao passar para o outro lado, havia um micro-ônibus e vários outros veículos Land Rover antigos. Eu fui no micro-ônibus com o guia (acho que o nome era Tashi ou semelhante), um casal de amigos canadenses (acha que a moça chamava Hanna), um outro canadense chamado Greg, duas amigas francesas, uma americana chamada Shirley e uma holandesa. Pensei que os procedimentos de imigração haviam acabado, mas estava totalmente enganado. Ficamos esperando em pé ou sentados no chão numa fila para passar por alguns funcionários, que iriam verificar os papéis e provavelmente nos autorizar a entrada. Demorou bastante e o atendimento de alguns não era muito cortês. Numa situação, um deles esmurrou a mesa e gritou com uma turista (acho que europeia) perguntando porque não tinha um determinado papel. Ela respondeu que um funcionário anterior havia provavelmente pego por engano, localizaram o papel e tudo prosseguiu bem. Vi alguns soldados baterem nas costas com uma vara (e acho que era batida de fato, não era brincadeira cordial) em prováveis nepaleses que estavam atravessando a fronteira de volta carregando madeiras ou algo semelhante nas costas, provavelmente por terem descumprido alguma norma, como horário etc. Bateram neles na frente de todos, sem o mínimo constrangimento. Após o demorado procedimento e passar por todos os funcionários, fomos liberados. O guia encaminhou-nos para o hotel. Estávamos em Zhangmu, a cerca de 2.300 metros de altitude. Fomos separados em 2 ou mais quartos, sendo que um tinha vários homens e outro várias mulheres. No nosso quarto havia inúmeros insetos do lado de dentro tentando sair e estava um pouco quente. Mas quando entrei 2 alemães que já estavam lá alertaram-me que não poderíamos abrir a janela, apontando para a quantidade muito maior de insetos do lado de fora, tentando entrar 🦟. Jantei e dormi, morto de sono 😴. Na 2.a feira 29/09 tomamos café e partimos para Xigatse. Achei a subida deste dia espetacular , com sua vista das montanhas do Himalaia, várias cachoeiras de degelo, a paisagem dos vales profundos ao longe etc. No meio do caminho houve um deslizamento de terra e a estrada estava interrompida. Tivemos que parar e esperar por algumas horas. Aproveitei para dar uma volta na área. Quando conseguimos prosseguir estávamos bastante atrasados. Passamos por um ponto que permitia ver o Everest, mas o tempo estava encoberto e não pudemos vê-lo. Devido ao horário tivemos que ficar num pequeno povoado chamado Tingri, perto do campo base do Everest. O hotel talvez estivesse em construção, pois não tinha energia elétrica nem água potável. E não tinha quartos cobertos para todos. Os alemães se dispuseram a dormir nos quartos em construção, pois tinham sacos de dormir e disseram que gostavam de acampar. Disseram não falar bem inglês por serem da parte Oriental. Pelo menos jantar tinha. Pedi comida sem carne (sou vegetariano), mas não me entenderam e comi o que veio, que foi sopa com carne. Conheci um casal de brasileiros (acho que eram Marcelo e sua namorada, que acho que se chamava Vanessa). Ele me reconheceu como brasileiro pelo sotaque e pela camisa do Santos que viu quando tirei o agasalho. Falou que tinham feito uma extensão extraoficial para o campo base do Everest, de que tinham gostado, mas que tinha deixado Vanessa indisposta pela altitude (ele ou ela tinham posto o pé num curso de água gelado). Tinha havido algum atrito com um outro turista alemão que estava no mesmo Land Rover, pois aparentemente aquela extensão não era totalmente legal, mas o voto dos 2 e de mais um guatemalteco venceu a disputa para irem. Antes de dormir fui ao banheiro, que era uma casa de madeira fora da construção principal, com uma fossa. Não tinha luz e eu não tinha lanterna. Foi um pouco problemático, mas consegui fazer xixi. Eu segui as recomendações preciosas da médica do aeroporto e senti muito pouco impacto com a altitude, mas percebi que vários outros, incluindo Greg, sofreram bastante 😒. O rapaz canadense passou mal e Hanna parecia aflita procurando pelo guia. Fui tentar ajudá-la a encontrá-lo e conseguimos. No dia seguinte ele parecia bem melhor. Havíamos cruzado uma passagem de montanha de cerca de 5.250 metros e estávamos dormindo a cerca de 4.400 metros. Devido ao atraso, chegaram a considerar a hipótese de viajar à noite, mas foi logo descartada pelos riscos. Marcelo comentou comigo também que estava achando aquela paisagem a mais bonita que já tinha visto e que não desejava viajar à noite e perdê-la. Na 3.a feira 29/09, com várias pessoas tendo passado dificuldades durante a noite, mas já bem melhores, partimos rumo a Xigatse. Hanna parecia agradecida por tê-la ajudado a encontrar o guia na noite anterior. Ela passava boa parte dos deslocamentos lendo um livro. Posteriormente o rapaz canadense agradeceu muito ao guia por tê-lo ajudado. Passamos por alguns templos, visitamos seu interior, visitamos vilas, pontos típicos, houve até uma praça em que estavam tocando “Lambada”, que me lembrou do Brasil, depois de quase 1 mês distante. Cantei alegremente, embora não fosse meu gênero preferido. Eu continuava deslumbrado pela paisagem, embora agora houvesse mais trechos urbanos. No fim da tarde chegamos a Xigatse. Porém o hotel parecia não ter energia elétrica. Eu e Shirley ficamos conversando com o motorista enquanto esperávamos a definição do hotel, perguntando sobre como se dizia algumas expressões em tibetano. Acho que conseguiram trocar de hotel e tudo ficou bem. Dividi o quarto com um israelense que tinha conhecido no primeiro dia da excursão. Ele estava indo num Land Rover, com um casal de sulafricanos. Um casal de ingleses que tinha ficado muito irritado com as condições de habitação do dia anterior, ficou satisfeito com o novo hotel. Acho que os agentes de turismo não tinham muito controle da situação e não sabiam quem tinha pago por que tipo de hospedagem e serviços. Saí para dar uma volta e quase fui atropelado por uma bicicleta . A ciclovia era enorme e bem larga e havia nas 2 laterais da pista de carros. Eu achei que elas eram mão única e seguiam o sentido dos carros, mas estava enganado e elas eram mão dupla. Não vi que vinha vindo uma bicicleta e o condutor desviou bem em cima de mim 🚲. Depois acho que me xingou em chinês, mesmo comigo pedindo desculpas várias vezes. Fui jantar com o israelense e tivemos alguma dificuldade para pedir, pois as atendentes falavam pouco inglês e os cardápios não tinham descrições detalhadas em inglês. Mas conseguimos comer dumplings momos (bolos de massa recheados). Na volta, quando comentávamos sobre a melhor organização da China em relação ao Nepal e a não existência de pedintes, apareceram várias garotas dizendo repetidamente “I love you” e rimos da ironia do que tínhamos acabado de dizer. Ele me contou dos seus planos de viajar pela China, mas com um guia, pois seria mais confortável, visto a experiência de dificuldade de comunicação que tínhamos acabado de ter no restaurante. Falou-me também de achar as viagens pela Europa interessantes, porém caras. Na 4.a feira 01/10 partimos para Gyantse. O motorista, que havíamos visto entrar num hospital, pediu-me comida antes da partida. Eu não tinha nada no momento, mas perguntei aos outros e conseguimos vários biscoitos e outros itens para ele. Não sei se ele gostou, pois acho que não estava acostumado àquele tipo de comida ocidental. Achei estranho, pois imaginei que suas refeições fossem pagas pelos agentes de turismo da excursão. Seguimos e passamos por templos e locais típicos. Eu continuava apreciando muito a paisagem. Chegamos no fim do dia em Lhasa. Lá todos se reencontraram. Foi uma festa. Cada qual seguiu para um hotel. Eu procurei por um barato e paguei cerca de 25 yuans (acho que eram uns US$ 3.00). Reencontrei o judeu com que havia procurado por excursões em Katmandu. Ele acabou ficando em um hotel com o outro judeu que eu havia conhecido na viagem. Marcelo e Vanessa ficaram no mesmo hotel que eu, só que em quarto privativo, enquanto eu fiquei em quarto compartilhado. O casal de canadenses ficou assustado com a possibilidade dos hotéis estarem cheios e rapidamente encontraram um hotel para ficar. Shirley pediu par tirarmos uma foto do grupo. Despedi-me deles e fui para o hotel. Excetuando Marcelo e Vanessa, não voltei a ver os outros mais ao longo da viagem. Ao longo da estadia pessoas de várias nacionalidades compartilharam o quarto comigo, incluindo uma francesa, uma ou mais japonesas e outros europeus. Numa ocasião, logo nos primeiros quilômetros em território chinês, um funcionário do governo estava colocando uma espécie de leitor de código de barras na testa das pessoas que passavam, imagino que para medir a temperatura, pois pouco tempo antes havia ocorrido a crise de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Ele apontou para o meu boné, eu não entendi bem, ele deu um tapa no boné, mediu e me mandou seguir rispidamente. Eu fui pegar o boné que tinha caído. Num dos dias, durante uma parada saí para comprar pães e vi algo parecido com queijo sendo vendido. Perguntei para a vendedora, que parecia ser chinesa, se era queijo (cheese), mas acho que ela não entendeu, pensou que eu estava rindo e repetiu a palavra cheese. Falei várias vezes e ela repetiu. Resolvi comprar para misturar com o pão. Quando dei uma mordida para experimentar o suposto queijo descobri que era manteiga. Acabei dando para uma pessoa, pois se comece toda aquela manteiga provavelmente teria problemas intestinais. Passamos pelo Monte Kailash (https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Kailash - uma montanha que ficava sempre coberta de gelo – não sei agora com o aquecimento global como está). Paramos e Shirley pediu-me para ficar junto a um iaque para tirar fotos, mas apareceu um menino e pediu dinheiro para ela fotografar e então ela desistiu. Houve muitas paisagens de montanhas, cruzamos com um grande rio perto de sua nascente (já estava bem largo), acho que era o Rio Brahmaputra. Passamos também por muitas áreas com as bandeiras típicas do Tibet e os totens xamânicos feitos de pedras empilhadas. Houve alguns trechos em que havia camponeses e iaques, mas o número de pessoas fora dos núcleos urbanos era muito pequeno. Houve pontos de passagens bem altos, com belas vistas. Passamos também pelo grande lago Yamdrok, cuja vista foi espetacular . Conversando com Shirley durante a viagem descobri que ela estava se formando em engenharia de computação, mesma formação minha 10 anos antes, e conversamos sobre o assunto e plataformas usadas no trabalho. Ela disse que desejava entrar para a Marinha. Eu perguntei se não achava perigoso, se não teria melhores oportunidades na iniciativa privada (se bem me lembro ela era da Califórnia, perto do Vale do Silício). Mas ela estava decidida. As francesas conheciam bem a América do Sul, falaram sobre a semelhança de alguns locais com Cochabamba e se dispuseram a me ajudar a aprender francês. Caçoaram de mim porque eu sempre conseguia achar lugares onde se vendia pães frescos. A holandesa teve algum tipo de desarranjo intestinal e precisou pedir para o ônibus parar várias vezes para ir ao banheiro. Sempre pedia desculpas e algumas vezes criticava a sujeira dos banheiros. Conversando com o casal de sulafricanos sobre os problemas das caminhadas referentes à guerrilha, disseram-me que haviam pedido dinheiro a eles para que pudessem prosseguir em uma caminhada que tinham feito nas montanhas. O homem disse-me rindo que não sabia se eles poderiam matar quem não desse dinheiro, pois ele havia pago. A mulher disse que basicamente era uma extorsão. Depois que entendi que o guia não sabia exatamente quem tinha pago o que, como eu me lembrava de ter comprado o pacote mais barato, sem guia, passei a não acompanhá-lo mais nas explicações e fazer as visitas por conta própria. O israelense até comentou comigo numa das ocasiões que eu estava circundando um monumento no sentido errado, e que isso não era educado. Marcelo contou-me que perto da chegada à Lhasa, as pessoas do Land Rover em que estavam desentenderam-se. Disse que o alemão o havia ofendido. Disse que ele era radical e que o guatemalteco era folgado e isso tornava a situação difícil. Ele e Vanessa tinham levado um filtro para a viagem o que os fez economizar bastante dinheiro com água. Para as atrações do Tibet e Lhasa veja https://www.tibettravel.org/top-attractions/, https://www.greattibettour.com/tibet-attractions, https://www.tibetdiscovery.com/lhasa-travel/things-to-do-in-lhasa/ e https://www.lonelyplanet.com/china/lhasa/attractions/a/poi-sig/356124. Os itens de que mais gostei foram os mosteiros não turísticos, a arte religiosa, os locais originais da cidade e a Natureza . Na 5.a feira 02/10 comecei a explorar Lhasa. Tinha acabado a vinculação à excursão exigida pelo governo chinês e eu estava livre para conhecer a área. Pontos fora da área de Lhasa precisavam de autorizações especiais do governo e excursões específicas com guias credenciados pelo governo. Fiquei hospedado lá até aproximadamente dia 13/10. Inicialmente fui aos guias de turismo (um chinês e um tibetano) que trabalhavam no hotel perguntar por sugestões de pontos a conhecer. Deram-me várias, indicando quais eram livres e quais precisavam de motoristas, guias e excursões. Alertaram-me que se fosse pego pelo exército em áreas não permitidas teria grandes problemas. O guia chinês até me disse que se realmente quisesse ir numa área não permitida era só pagar uma determinada quantia, algo que o tibetano imediatamente desaconselhou e disse que não era possível. Como eu não suborno ninguém, nem considerei esta proposta. Fui ao Palácio de Potala (100 yuans, aproximadamente US$ 12.50 de entrada), ao Templo Jokhang, ao Museu Tibetano, a vários outros templos e áreas naturais da cidade. Depois e paralelamente também, fui a templos e locais próximos, como Tsurpu, o Mosteiro de Tar e vários outros mosteiros. Tentei ir a um lago com um casal de europeus, mas não deu certo. Achei vários dos mosteiros indicados muito orientados ao turismo e, por isso, tentei conhecer outros não tão famosos, porém mais autênticos no tocante à vida espiritual. Na maioria destes fui junto com peregrinos. No dia em que fui ao Mosteiro de Tar em Dolma Lhakang, pedi informações para vários chineses e não consegui. Um tibetano ouviu-me e disse que sabia onde era e poderia dar-me uma carona até lá. E realmente, deixou-me na porta. Não sei se ele estava indo até lá ou fez aquilo por cortesia. Passei o dia inteiro lá cantando mantras. Fui muito bem recebido pelos monges. Acostumado ao ambiente mercantil dos mosteiros turísticos, gostei muito da diferença. Ajudaram-me na pronúncia dos mantras. Recusei educadamente a refeição e os adornos que me ofereceram, agradeci por toda a hospitalidade. Quando já havia atravessado a rodovia para tentar pedir carona, um monge mais jovem perguntou-me se não daria dinheiro. Achei que destoou de todo o ambiente, mas resolvi ignorar. Depois de tentar algum tempo, um caminhoneiro parou e me ofereceu carona. Fui na cabine com ele e seu ajudante. No meio do caminho furou um pneu, mas ele não quis que eu ajudasse na troca. No fim, ofereci-lhe pagar pela carona, mais de uma vez, mas ele não quis de jeito nenhum, repetindo na última oferta, já com a voz um pouco mais alta “No money”. Perto do fim da minha estadia, conversando com uma alemã que havia conhecido dias antes, sabendo que ela poderia ir ao Mosteiro de Tar, pedi que ela fizesse uma doação, pois havia gostado muito da espontaneidade espiritual de lá. Ela pegou o dinheiro, mas devolveu-me um ou mais dias depois por ter decidido não ir. Em alguns deslocamentos para mosteiros ou atrações passamos por subidas e descidas íngremes na beira de precipícios em ônibus algumas vezes superlotados. Lembro-me de um em que o ônibus estava lotado e eu fiquei ao lado (quase em cima) do câmbio. Havia uma mulher com um nenê de colo perto. Achei a situação bem delicada 😟. Mas chegamos lá embaixo de volta sem problemas. Abstraindo-se a preocupação, a paisagem pareceu-me espetacular . As visitas quando eram com peregrinos precisavam acompanhar o ritmo deles. Eu geralmente gosto de ficar lendo e observando tudo, mas os peregrinos geralmente iam fazer oferendas num altar e depois seguiam para outros. Perdi a visita a um templo numa das primeiras vezes, mas depois adaptei-me ao ritmo. Muitas vezes os guias dos mosteiros não pareciam muito corteses, talvez por não estarem acostumados a estrangeiros na visita ou não gostarem da ideia de visita de pessoas que não fossem peregrinas associadas à religião. Num mosteiro de monjas lembro-me de ter conversado com uma delas, que me ofereceu uma laranja, dizendo que aquele dia era feriado (ou domingo) Achei as paisagens espetaculares nos vários deslocamentos de ônibus e mesmo quando andei a pé por Lhasa. As montanhas nevadas, os vales e as vistas encantaram-me . Achei um pouco frio, principalmente à noite, de manhã e nos lugares mais altos, onde às vezes chegávamos cedo. Mas geralmente à tarde, quando abria o sol, a temperatura ficava bem mais razoável (em torno de 20 C). Na visita ao Templo Jokhang, uma oriental (acho que era coreana) fez um gesto que me pareceu querer espaço livre para tirar a foto de um dos monges. Mas quando eu saí de cena, ela pediu para eu voltar, pois queria tirar a foto de um ocidental também. Talvez nunca tivesse visto um 😀. Numa das noites Marcelo foi conhecer o quarto compartilhado em que eu estava (acho que ele não estava acostumado a hostels) e achou interessante. Falou-me num dos dias que ele e Vanessa tinham ido ao Mosteiro de Samye sem ser numa excursão e que na volta ninguém lhes dava transporte. Passaram ônibus que não os aceitaram. Ele ficou apreensivo com a situação. Aí apareceu uma excursão de europeus (acho que eram alemães) e eles conseguiram integrar-se a ela para voltar. Ele me alertou para o caso de eu ir visitar Samye. Falou-me também que tinham pedido para tirar uma foto dele e, quando comentei sobre o ocorrido com a coreana comigo, ele comentou “Será que somos tão feios assim?!” 😀. Muitas vezes o preço das passagens de ônibus não era claro (uma chinesa ou oriental comentou isso comigo), ainda mais para mim que não entendia a língua. Creio que paguei a mais numa das vezes. Neste dia, enquanto esperava a partida do ônibus, reencontrei uma mocinha francesa que havia conhecido no hostel. Ela ficou surpresa por eu estar pegando o mesmo ônibus que ela. Mas quando chegamos ela foi com seu grupo fazer uma caminhada pelas montanhas e eu fui visitar os mosteiros e locais de peregrinação. Eu tive vários problemas de comunicação. Numa das primeiras noites, entrei num restaurante chinês, fui até uma samambaia e peguei em uma de suas folhas para explicar que não comia carne. Pelo menos desta vez entenderam e me trouxeram macarrão com legumes. Porém trouxeram palitos, que eu não sei usar. Não tinham garfo e faca e me trouxeram uma colher. Depois de muito tentar eu usei a colher como um bastão e enrolei o macarrão nela. Quando levantei a cabeça para levá-lo a boca, percebi que havia várias pessoas ao meu redor, rindo da minha falta de habilidade com o assunto 😀. Num fim de tarde em Lhasa, quando eu procurava por algo para jantar, houve um mal-entendido com uma ambulante vendedora de comida. Eu perguntei se ela tinha pizza e ela não sabia o que era pizza. Pensei que pizza fosse um nome universal. Tentei explicar fazendo gestos, mas ela não entendeu. Aí procurei ser mais enfático e fazer um círculo pequeno com as mãos no formato de uma pizza. Eu acho que ela entendeu que eu estava interessado em alguma experiência sexual. Pegou a espumadeira ou algo semelhante que estava usando para cozinhar e fez gestos ríspidos para mim, falando palavras em voz alta. Eu me retirei e fui comprar outra coisa 😀. Numa visita a um mosteiro, os monges estavam meditando e eu estava de tênis. Para participar da meditação precisei tirar o tênis, mas depois de andar por vários dias em locais com terra e neve, acho que estava com enorme chulé . Um dos monges fez um gesto com a mão no nariz, típico de mau cheiro. Eu me retirei meio constrangido e recoloquei o tênis 😳. Os viajantes e comerciantes chineses pareceram-me muito gentis, diferentes do exército. Alguns turistas sabiam falar inglês e tinham curiosidade sobre o Ocidente. Porém não conheciam atrações religiosas nem históricas do Tibet. Numa ocasião eu não pude conhecer uma determinada atração (acho que era um templo ou mosteiro) devido ao horário. Voltei no outro dia e falei com o atendente, que depois de me perguntar se eu estava falando a verdade, ainda que meio desconfiado, permitiu-me entrar sem pagar novamente. Eu paguei por uma pequena extensão de 3 ou 5 dias para poder ficar um pouco mais, pois o Tibet era meu principal destino nesta viagem. Mas acabei não aproveitando muito devido às dificuldades de conseguir transporte de volta. Acho que foi devido a isto que fui ao banco fazer um pagamento de taxa e o atendente chinês caçoou da minha foto risonha no passaporte. O ônibus da agência de turismo que nos havia trazido estava previsto para sair dia 3 e acho que havia outro no dia 10 (não me lembro exatamente, acho que os ônibus saíam às 6.as feiras). Porém eu queria ver mais atrações e não quis pegá-lo. Com isso precisei procurar um outro transporte, o que não foi nada fácil. Como não havia ônibus disponíveis, tentei pegar carona com caminhoneiros provavelmente no domingo 12/10. Fiquei mais de 1 hora tentando, mas nenhum aceitou. Eu não sabia que era proibido levar estrangeiros. Alguns guias haviam dito que era possível. Tentei então falar com pessoas com Land Rover, mas não obtive sucesso. Procurei por vários agentes de turismo para ver se havia algum transporte saindo naqueles dias. Num hotel uma recepcionista indicou-me para um que disse saber de transporte para voltar, ligou para ele e me colocou na linha. Ele disse que seria possível eu ir. Eu não entendia direito o que ele falava, as informações pareciam desconexas e eu me irritei e até elevei um pouco a voz. Ele disse que viria falar comigo e em poucos instantes chegou. Aparentava estar alcoolizado. Começou a me explicar sobre a viagem e a certa altura explicou que seria à noite. Achei muito estranho e perguntei porque. Aí ele disse que era porque era ilegal e teríamos que sair do veículo perto dos pontos de checagem do exército, ir pela montanha até o outro lado e depois voltar ao veículo. Aí eu entendi o que ele estava propondo. Disse-lhe então que não tinha nenhum interesse. Antes de ir embora fui pedir desculpas para recepcionista do hotel por ter elevado a voz na recepção do hotel. Descobri então que precisava de uma permissão de viagem para poder fazer aquele trajeto. Agora entendi porque os caminhoneiros não tinham parado nem os veículos Land Rover aceitavam-me como passageiro. No dia seguinte fui até o escritório do governo obter a permissão de viagem, através do pagamento de uma taxa. E quem era o sub-encarregado que chegou durante a emissão da permissão de viagem? O mesmo agente que no dia anterior havia proposto para mim a viagem ilegal. Aí eu entendi como ele sabia todos os procedimentos para escapar dos pontos de controle ao longo do trajeto. Ele ainda riu e me cumprimentou. Eu lembrei da corrupção existente no Brasil ☹️. De posse da permissão de viagem, acho que na 2.a feira 13/10 fui até a rodoviária ver se encontrava algum transporte e havia uma van 🚐 que me indicaram. Mas na frente da van só havia letreiro em chinês. Eu estava sem caneta nem papel. Fui até o painel central da rodoviária e decorei cada caractere escrito e fui confirmar no letreiro da van. Fui do painel da rodoviária até a plataforma de embarque da van tantas vezes quanto o número de caracteres da palavra, uma ida para cada caractere, de modo a não ocorrer nenhum erro. Ainda fui mais algumas para confirmar e garantir. Com grande dificuldade, consegui comunicar-me com o motorista chinês e entender destino, preço, horário e condições de viagem. Ele chegou a tirar minha mala da van por achar que eu estava pedindo algo incompatível com a viagem. Fomos apertados por boa parte da viagem, até algumas pessoas desembarcarem. Devido aos mal-entendidos de comunicação o motorista e sua mulher estavam irritados comigo no início, mas ao longo da viagem, depois que ofereci biscoitos a todos e convivemos um pouco, a irritação passou. Consegui ver o Everest 🏔️, pois desta vez o céu estava limpo. Eles não pararam, pois a viagem não era turística, mas deu para ter uma boa ideia da montanha, embora meio apertado e sem jeito na van. Em um posto de controle, um guarda parou o carro, fez um monte de perguntas a todos, olhou suas bagagens e quando chegou a minha vez e lhe perguntei mansamente em inglês em que poderia ajudá-lo, ele se assustou por eu ser estrangeiro e não me revistou. Os outros pareceram falar rindo que o melhor seria dar para mim suas bagagens, pois os guardas tinham receio de fazer qualquer procedimento. Já perto do anoitecer furou um pneu e o motorista trocou. Até me ofereci para ajudar, mas ele não quis. A parte final do percurso foi à noite, justamente a descida mais íngreme, o que me pareceu um pouco assustador em meio àqueles precipícios. Deixaram-me em hotel de uma conhecida ou parente, que custava 100 yuans. Ela fez o sinal de 1 e eu pensei que fosse 1 yuan, mas estava enganado. Mesmo com ela aceitando negociar, fui procurar outro e acho que paguei 25 yuans. Um guarda pediu-me a permissão de viagem no fim do trajeto. Foi a única vez que foi pedido. Dormi em Zhangmu. Acho que na 3.a feira 14/10, fora do prazo do visto inicial, mas dentro da extensão que havia conseguido, fiz a viagem de volta para o Nepal. Saí de manhã e fui a pé. Os taxistas passavam por mim caçoando por eu estar indo a pé. No meio do trajeto parei para descansar um pouco e admirar a paisagem e esqueci o boné. Depois de já ter andando bastante (cerca de meia hora) sentia a falta do boné e voltei para pegar. Cheguei em Kodari, no Nepal, perto do meio dia (agora o fuso horário estava a meu favor). Peguei um ônibus que acho que iria até um ponto intermediário para pegar outro ônibus para Katmandu. Estava havendo uma discussão entre os passageiros e os donos do ônibus sobre o preço da passagem. Fiquei feliz que riram e pareceram entender-se e perguntei a um dos passageiros a meu lado o que tinha ocorrido. Aí ele me explicou que haviam concordado no preço da passagem e que de mim (o estrangeiro) seria cobrado bem mais 😠. Não gostei muito da ideia, levantei-me e disse que pegaria outro ônibus para outro lugar. Num primeiro momento não concordaram em que eu pagasse o mesmo dos outros, mas quando levantei em direção à porta mudaram de ideia e paguei o preço regular da passagem. Viajamos a tarde toda. Furou o pneu uma ou mais vezes (acho que foram 3 vezes, uma vez cada pneu). Cheguei em Katmandu à noite. Na 4.a feira 15/10 acho que fui para Janakpur. Havia deslizamento de terra e ficamos parados por muito tempo. Num dos locais de parada, quando desci, o motorista do ônibus pediu-me para voltar para o ônibus e partimos. Pareceu estar com medo de um estrangeiro chamar a atenção de pessoas que faziam parte da disputa política. Lembrei-me da frase do indiano, quando conversávamos sobre a situação política, dizendo para eu não ir ao Terai, e do agente de turismo dizendo para eu não ir à região de Lumbini. Mas eu queria conhecer Lumbini, cidade natal de Sidarta (Buda) e resolvi arriscar. Acabei não conseguindo chegar ao destino, devido ao enorme atraso e precisei pernoitar numa cidade no meio do caminho. Conheci um oficial do exército israelense de férias, após terminar o serviço militar obrigatório. Acabamos dividindo o quarto para pagarmos menos. Eu ainda fui tentar sair para jantar, mas naquela área havia toque de recolher às 20h. Perguntei até a um soldado como faria para jantar se o toque de recolher era tão cedo e ele me disse, com um certo tom de deboche, mostrando-me um pacote de biscoitos, que eu poderia comer biscoitos. Voltei ao hotel e resolvi jantar lá mesmo. Depois fiquei conversando com o israelense. Ficamos olhando da sacada do quarto e ele comentou que estava ouvindo tiros ao longe, que eu não ouvi. Ele disse que talvez fosse só impressão, mas que ele conseguia distingui-los por estar acostumado. Disse que era estranha para ele aquela experiência, pois várias vezes já tinha tido que comandar toques de recolher e agora ele tinha que obedecer um. Eu nada disse, mas pensei “Está vendo como os palestinos sofrem!”. Ele me falou de uma caminhada que havia feito pelas montanhas, até o Lago Gosaikund. Ao perguntar sobre problemas com guerrilheiros, ele me disse que algumas pessoas disseram que eles cobrariam dinheiro em vários pontos, mas que não havia aparecido ninguém durante sua caminhada. Disse que a trilha era tão clara no chão que nem era necessário mapa. Eu achei muito interessante, e como ainda teria tempo, considerei a possibilidade de fazê-la. Ele me ofereceu o mapa, eu educadamente recusei, mas ele disse que não usaria mais e não haveria problema em me dar. Disse que havia sido muito bem tratado em vários locais por brasileiros e argentinos e esperava pela oportunidade de retribuir. No dia seguinte, quando acordei ele já tinha partido e tinha deixado o mapa para mim. Fui então para Janakpur. A cidade em si parecia tranquila, longe daquele clima tenso do trajeto e de Katmandu. Havia muitos templos e edificações religiosas. Gostei bastante de lá . Mostrava uma outra face do Nepal, hindu, simples, como um povoado interiorano. Numa tarde fiquei contemplando a paisagem sentado numa praça, após ter visitado vários locais. Para as atrações de Janakpur veja https://www.holidify.com/places/janakpur/sightseeing-and-things-to-do.html e https://www.lonelyplanet.com/nepal/the-terai-and-mahabharat-range/janakpur. Os itens de que mais gostei foram os templos, alguns integrados com atrativos naturais . Acho que foi no sábado 18/10 que fui para Lumbini. Viajei durante todo o dia e cheguei lá no fim da tarde. Desta vez o tempo gasto com deslizamentos foi um pouco menor e a viagem pode ser concluída no mesmo dia. Procurei um hotel para ficar e um dos recepcionistas de um deles foi muito afoito, querendo que eu ficasse a qualquer custo. Resolvi então ficar em outro. Saí para dar uma volta e quando voltei o recepcionista havia me mudado de quarto sem me consultar, pois tinha chegado uma família (acho que era de judeus) e ele cedeu meu quarto para eles. Apesar de não ter gostado de não ter sido consultado, eu aceitei sem problemas. Fiquei no mesmo quarto com o motorista da família. Ele era indiano e conversamos bastante sobre a Índia e a situação geopolítica na região. Para as atrações de Lumbini veja https://nepalecoadventure.com/lumbini-attractions-in-lubmini/, https://www.lonelyplanet.com/nepal/lumbini/attractions/a/poi-sig/357154 e https://www.welcomenepal.com/places-to-see/lumbini-nepal-birthplace-of-buddha.html. Os itens de que mais gostei foram os templos budistas reunidos, cada qual de uma origem ou linha . Havia uma espécie de parque onde cada linha do budismo tinha um templo. Achei maravilhosa a ideia. Foi bastante interessante notar como as imagens de Buda eram diferentes e parecidas com as características da população de onde era o templo. No templo chinês Buda parecia um chinês, no templo japonês Buda parecia um japonês, o mesmo no tailandês, no indiano, no tibetano e assim por diante. As pessoas projetavam-se fisicamente no seu líder (ou na sua divindade para alguns). Gostei também de conhecer o sítio histórico onde Sidarta nasceu e cresceu. Havia também um templo que achei maravilhoso, a World Peace Pagoda. O motorista da família pareceu ter ficado deslumbrado com este templo. No dia de vir embora, o recepcionista do hotel falou-me que eu tinha que pagar uma taxa adicional de serviço que ele não havia dito. Queixei-me por ele não ter falado no início, paguei e me arrependi de não ter ficado no outro hotel. Acho que na 3.a feira 21/10 peguei o ônibus de volta para Katmandu. Novamente a viagem foi longa e com várias checagens de segurança por parte do exército. Cheguei em Katmandu no fim do dia. Numa das viagens paramos num local na estrada para comer, eu pedi uma espécie de salgado bem pequeno, pois não me dava bem com toda aquelas especiarias e pimenta. O atendente vendo que eu era estrangeiro e querendo agradar-me colocou por conta própria um pouco de recheio apimentado. Eu sorri e agradeci 😀. Numa outra ocasião um jovem soldado (quase um menino) que entrou no ônibus para fazer uma inspeção perguntou-me algo em nepalês. Eu respondi em inglês que não falava a língua dele, ele não entendeu, os outros passageiros explicaram e ele se foi. Em outro trecho veio um camponês bem simples a meu lado. Acabou dormindo no meu ombro. Numa das paradas bebeu a água oferecida no restaurante na própria jarra. Parecia não estar acostumado a áreas urbanas. Fiquei no mesmo hotel em Katmandu. Quiseram até me cobrar mais, mas quando disse que então daria uma volta para procurar por outras opções, voltaram ao preço anterior. Numa das minhas passagens por lá um menino que lá trabalhava perguntou se eu não queria que lavassem minhas roupas, pois estavam sujas. Como ainda tinha uma semana e meia antes da volta, decidi fazer a caminhada pelas montanhas. Pedi ao gerente ou dono que guardasse o dinheiro em espécie que tinha comigo, pois muitos haviam relatado que nas montanhas poderiam haver guerrilheiros que iriam pedir dinheiro. E como eu tinha errado na conta, estava com bem mais dinheiro do que precisava. Ele guardou US$ 800.00 em seu cofre, sem cobrar taxa nenhuma e me deu um recibo. Um dos atendentes ofereceu-me um gorro, pois achou que eu não estava adequadamente preparado para ir às montanhas. Para informações sobre a caminhada para o Lago Gosaikund veja https://en.wikipedia.org/wiki/Gosaikunda e https://www.nepalsanctuarytreks.com/gosaikunda-best-time-to-visit-cost-and-weather. Na 4.a feira 22/10 peguei um ônibus para perto do Parque Chisapani para começar a caminhada. Eu estava começando pelo lado contrário ao da maioria, mas optei por fazê-lo porque o ponto de início era bem mais próximo de Katmandu. Paguei a entrada e comecei a caminhada. Parei no povoado de Chisapani (acho que o nome era o mesmo do parque) antes do anoitecer. O mapa que o israelense havia me dado estava sendo bem útil. Lá conheci vários outros caminhantes, mas acho que todos pretendiam ir para outros destinos, a maioria para Langtang. Conversei bastante com um irlandês, que trabalhava nos Emirados Árabes. Falamos sobre a caminhada e temas gerais. Ao falar da minha preocupação com possíveis problemas com a guerrilha ele me disse para ter cuidado, posto que eu estava indo só e sem guia. Falou que não queria ver-me nos noticiários 😀. Se bem me lembro foi aqui que conheci um grupo de alemães (acho que eram 2 mulheres e 2 homens, provavelmente 2 casais), que iriam fazer parte da caminhada comigo. Um dos alemães caçoou de mim ao longo da caminhada, dizendo que eu era um viajante profissional, pois minha mala era muito menor do que a deles e eu ia mais rápido. Falaram até em viajarmos juntos, mas eu lhes disse que nos encontraríamos ao longo do caminho. O dono do hotel em que eu tinha ficado falou que naquelas áreas era costume comer onde se dormia, mas eu acabei saindo para comer em outro restaurante. Acho que a altitude era por volta de 2.215 metros. Na 5.a feira 23/10 não sabia bem onde deveria planejar chegar. Logo na saída de Chisapani perguntei a alguns viajantes que chegavam e eles disseram que haviam dormido em Kutumsang, que era um povoado maoísta e que não tinham tido nenhum problema e ninguém lhes havia pedido dinheiro como pedágio. Encontrei alguns outros grupos com guias no princípio da caminhada. Um pouco a frente havia um homem, com cerca de 60 anos, e seu ajudante, bem mais jovem, ao lado de uma mesa, bem no meio do caminho. Ao me aproximar ele cordialmente falou para eu sentar. Se bem me lembro fiquei em pé e começamos a conversar. Ele tentava explicar quem era e eu, imaginando do que se tratava, tentava desconversar, até falando às vezes em português, que ele não entendia. Até que, percebendo que não sairíamos daquela situação e que era importante continuar a caminhada logo para não ter problemas com o anoitecer mais adiante, resolvi ir direto ao assunto. Perguntei então “Quanto?”. Aí ele abriu um largo sorriso e disse que semelhantemente ao que havia pago na entrada do parque para o governo, deveria pagar para eles a mesma tarifa. Eu disse para ele esperar e voltei para trás para reencontrar o grupo com os guias. Expliquei a eles o que havia ocorrido e eles se mostraram preocupados. Falei com um deles para conversar com o homem e explicar que eu era de um país pobre, não era americano nem europeu. O guia foi lá, eles conversaram, não sei se pagou algo a ele para seu grupo, mas o homem disse que eu podia passar sem nada pagar. Fiquei meio desconfiado, mas segui em frente. Comecei a subida de uma colina e lá no alto havia um homem de uns 30 anos, com traços orientais e com fisionomia séria e fechada. Achei que poderia estar associado aos que pediram dinheiro lá embaixo. Achei que não era uma boa ideia cruzar com ele olhando para o chão, pois era interessante saber se desejava algo. Quando se fecha o diálogo resta a violência. Ele me olhou sério, com a testa franzida, eu fiz um levíssimo aceno de cumprimento, quase imperceptível, e prossegui. Ele nada disse. Mais para frente reencontrei os alemães, que haviam saído antes. Perguntei-lhes se não haviam encontrado o homem na mesa e uma das mulheres me disse que havia visto um homem que havia lhe dito para sentar e ela o ignorou, pois não iria sentar com um desconhecido num lugar deserto 😀. Quando lhes disse que provavelmente era um representante da guerrilha, surpreendeu-se e ficou um pouco assustada. Um dos homens então me disse para viajarmos juntos, pois esta era uma razão ainda mais forte. Eu até que concordei, mas deixei-os fazendo sua refeição e prossegui só. Estava meio preocupado com o ocorrido e como à frente havia uma zona maoista, não sabia bem pelo que esperar. Não sabia o quanto o não pagamento poderia gerar de repercussões. Já depois do meio da tarde, perto de 16h30, avistei o povoado de Kutumsang e vi a bandeira maoísta tremulando 😱. Aquilo trouxe-me receio do que poderia vir. Havia também mensagens escritas em paredes dizendo “Abaixo ao exército real americano”, numa alusão ao possível apoio dos EUA ao rei do Nepal contra os maoístas. Cruzei boa parte do povoado e decidi tentar ficar ali mesmo. Procurei por uma hospedagem e um rapaz do povoado, provavelmente algum tipo de sentinela informal, ajudou-me. Levou-me a um tipo de hotel simples. Fiquei hospedado lá, sem ir procurar por outros para não gerar nenhum tipo de problema. Pedi para a dona cobertor e lençol e ela pareceu surpresa, esperando que eu tivesse comigo. Quando pedi ainda uma toalha ela falou irritada “Você não tem nada!?” 😀. Enquanto me organizava no quarto ouvi ao fundo o rapaz que me havia trazido àquele hotel conversando com alguém, talvez o responsável da guerrilha na área, sobre quem eram os hóspedes que haviam chegado, europeus, israelenses e quando o responsável perguntou quem era eu, ao me ver de costas de longe, sua voz ficou bem mais descontraída e ele disse “Ah, esse rapaz é do Brasil!”, num tom que me pareceu bem amistoso. A noite conheci pai e filho de Israel que estavam fazendo a caminhada. Logo de início perguntei ao filho de onde eles eram e ele pareceu desconfortável com isso, dizendo “Esta a primeira pergunta que você me faz?!”. Mas depois, conforme conversamos durante o jantar, o tom ficou amistoso e compartilhamos experiências da viagem. Falamos também sobre a situação de Israel e ele me desaconselhou viagens para lá naquele momento, falando também que o custo de vida estava muito caro. Falou que para ele era um feito ir com seu pai que já estava na casa de 50 anos para uma caminhada daquelas nas montanhas. Acho que a altitude era por volta de 2.470 metros. Na 6.a feira 24/10 de manhã fui em direção a Gopte. Inicialmente procurei um local para tomar café da manhã. Vi um homem cozinhando batatas. Propus para ele comprar várias batatas e ele aceitou. Foram meu café da manhã e almoço. Não consegui nada para tomar por perto e resolvi seguir assim mesmo e tentar encontrar ao longo do caminho. Neste trecho a caminhada ficou mais íngreme. Cruzei com um casal que voltava do Langtang eu acho e me disseram que não havia maoístas por lá. Acho que foi neste trecho que vi um menino sentado no alto de uma colina enquanto eu comia pães de forma de um saco. Como é costume no Brasil, ofereci para ele e ele aceitou. Depois de lhe dar prossegui. Haviam algumas possibilidades de trilha e eu estava pegando uma que achei ser a certa. Mas o menino disse-me com gestos para não pegá-la e pegar outra. Acho que ele evitou que eu cometesse um erro. Provavelmente fez aquilo por ter simpatizado com meu gesto de lhe oferecer pão. Cruzei também com uma europeia ou americana com um guia e ela me disse para tomar cuidado, pois haviam visto vários guerrilheiros no meio de mata nas montanhas. Disse-me que nada havia pago mais talvez devesse ter pago. Num determinado ponto havia uma bifurcação possível, por uma floresta de bambus, onde o mapa dizia poderem existir tigres, ou por uma área em que seria mais provável a presença de guerrilheiros. Achei improvável a presença de tigres, ainda mais durante o dia. Acho que o mapa provavelmente se referia a uma época muito anterior ou a animais menores. Fui pela floresta, um pouco preocupado e prestando bastante atenção, mas não tive nenhum problema. Cheguei em Gopte no fim da tarde. Estava com a barriga começando a doer. Pela minha completa ignorância em ciências biológicas não fiz a associação clara da dor com a ausência de hidratação . Como não estava quente não sentia muita sede, mas certamente o rim e outros órgãos estavam reclamando da falta de água. Ali era bem mais alto e a vista dos locais mais baixos e das montanhas pareceu-me espetacular. Conheci um casal de turistas, um judeu e outros peregrinos. A dor piorou bastante 😒. A moça ofereceu-me comprimidos para desarranjo intestinal, mas eu lhe disse que era o oposto disso. Comecei a desconfiar que o problema era falta de água. Pedi uma sopa para o jantar e isso resolveu tudo. Em alguns instantes a dor diminuiu bastante. Aí, percebendo o que tinha ocorrido, resolvi tomar muito líquido. Foi ótimo para o problema, porém fez-me ter que acordar durante a noite para fazer xixi. Ao ver que tinha melhorado, o judeu falou-me que indisposições estomacais ou intestinais aconteciam em viagens o tempo todo. Acho que foi aqui ou em Kutumsang que conversando com um dos guias falei que não sabia se iria a Langtang ou ao Gosaikund. Ele me disse que se pretendia ir a Langtang deveria ter pego outro ramal da trilha bem antes, pois agora o caminho ficaria bem maior. Decidi definitivamente então ir ao Gosaikund. O hotel ficava no alto de uma colina e fui até a ponta observar o céu noturno e a vista. Achei muito belos, apesar da escuridão. Durante a noite, devido à enorme quantidade de líquido ingerido, precisei sair para ir ao banheiro. Mas estava tudo escuro, as luzes apagadas e eu não tinha lanterna. Não consegui achar o banheiro e fui até a ponta da colina, que era arredondada, e fiz xixi lá mesmo. Acho que foi um pouco arriscado, porque eu não enxergava nada e fui tateando o chão, para ver até onde poderia ir 😀. Mas como a colina era arredondada e não com queda abrupta, achei que o risco não era tão grande, apesar da altura. Consegui sem problemas e voltei a dormir. Acho que a altitude era por volta de 3.440 metros. No sábado 25/10 fui para o Lago Gosaikund. Inicialmente tomei café da manhã, agora bem mais atento à questão da água. Depois, conversando com o judeu, ele disse que apesar de ser sábado, talvez fizessem um pequeno deslocamento para outro povoado próximo. Ele havia me dito que não estava muito bem (não me lembro se era por causa da altitude ou algum problema devido à caminhada). Após andar um pouco arrotei, mais alto do que imaginava, devido ao monte de líquido que tinha tomado. Poucos minutos depois cruzei com a mulher do judeu e seu filho pequeno, que acho que estavam vindo encontrar o pai. Percebi sua fisionomia tensa, talvez por eu ser um desconhecido numa área deserta, talvez tivesse ouvido o arroto e pensado que eu poderia ser árabe e contra judeus. Vendo isso, para tranquilizá-la, cumprimentei-a falando “Shalom”. A fisionomia dela mudou completamente, ela sorriu levemente e pareceu ficar tranquila. Caminhei mais um pouco satisfeito pelo terreno ser quase todo plano, com poucas subidas e descidas. Uma das alças da minha mala havia quebrado e eu estava tendo que carregá-la nas mãos, em vez de pendurá-la nos ombros, o que tornava a situação um pouco desconfortável. Um pouco mais à frente vi uma subida, que não imaginava ser tão grande. Era a subida para a Passagem Laurebina. Acho que demorei de 2 a 3 horas nesta subida. A passagem no topo ficava a cerca de 4.610 metros. Aí eu entendi porque a ampla maioria fazia o caminho contrário, começando por Dhunche. Cruzei com amigos belgas descendo, que quiseram me animar e disseram que eu estava quase chegando e que poderia conseguir alguma forma de consertar a mala quando chegasse no hotel. O clima ia mudando conforme eu subia e o vento ia ficando mais frio e mais forte. Começou uma leve neve 🌨️. Quando cheguei lá em cima estava totalmente sem forças 😫. Tanto foi assim que precisei sentar numa pedra para me recuperar. Fiquei uns 5 minutos sem conseguir ver nada. Depois percebi a paisagem magnífica (). Como a subida havia sido íngreme era possível apreciar uma ampla vista sem obstáculos das partes mais baixas. Do outro lado havia a vista das montanhas com mais de 5 ou 6 mil metros de altitude. Havia também a vista do lago principal e de pequenos lagos anexos. Fiquei ali cerca de meia hora deliciando-me com a paisagem . Se bem me lembro cheguei a meditar um pouco também. Depois segui para a sede do povoado, que não era longe. Apesar disso eu estava bem cansado e fui vagarosamente. Fiquei num hotel sem chuveiro quente (acho que só havia um com chuveiro quente naquela época). Não tomei banho nos dias em que lá fiquei. Procurei ficar num hotel não turístico, de habitantes locais ou tibetanos. Depois de me acomodar dei uma pequena volta nas proximidades. Achei linda a vista do lago e das montanhas. Pedi um cobertor adicional para a noite. No meu quarto havia 2 camas e entrava vento pelas frestas da parede. Acho que a altitude era por volta de 4.300 ou 4.400 metros. No domingo 26/10 fui explorar os arredores e apreciar a paisagem. Subi numa das montanhas laterais, a menor delas, que tinha vista para as montanhas de Langtang. Fiquei lá apreciando a paisagem e meditando. Inicialmente o tempo estava coberto, mas depois abriu em boa parte e foi possível admirar o esplendor das altas montanhas cobertas de neve. Achei a vista a partir dali maravilhosa . Fiquei lá mais de uma hora e depois desci e fui tentar subir na montanha do outro lado. Esta era bem maior e subi só até a metade, pois a partir dali pareceu-me que começava a ficar perigoso e exigir equipamentos, experiência e conhecimento, sendo que eu não tinha nenhum deles. A vista também agradou-me bastante. Fiquei lá algum tempo, mas menos do que na montanha anterior. Desci e já estávamos no meio da tarde. Fui então dar uma volta no lago. Até que me deu vontade de nadar, pois abriu um pouco de sol. Mas eu não tinha levado roupa de banho e a água estava com a temperatura muito baixa. Mais tarde o dono do hotel diria que eu poderia ter nadado nu, o que me fez rir. Já perto do fim da tarde voltei para o hotel. Haviam chegado 2 viajantes israelenses e 1 americana chamada Alisson com seu guia local. Um pouco mais tarde começou a nevar 🌨️. Os judeus mostraram-se entusiasmados, pois provavelmente não estavam acostumados à neve. Eu também achei a cena bela. A americana não deu muita importância, provavelmente via neve com frequência. A neve acentuou-se e cobriu parte da paisagem de branco. Eles começaram a jogar cartas e eu preferi ficar apreciando a paisagem e descansando. Conversamos sobre a viagem, jantamos e fomos dormir. Eu mudei de cama durante a noite, pois com o vento que entrava pelas frestas, mesmo com os cobertores e agasalhos, eu estava com frio . No meio da noite acho que o telhado não aguentou e caiu um pouco de neve e gelo na cama em que eu não estava e em que tinha dormido no dia anterior. No meio da noite eu precisei ir ao banheiro. Saí de pijama e com um agasalho para o peito. O banheiro era externo. Fui até ele, que era logo do lado do hotel, fiz xixi e apreciei a paisagem do lago, que tinha ficado ainda mais bela após a neve. Parte das pedras estavam cobertas de neve e o céu estava claro, fazendo uma cena que achei linda. O céu estralado também estava maravilhoso, talvez o mais espetacular que já tenha visto . Voltei rapidamente para o hotel, pois estava muito frio, talvez abaixo de zero. Porém o vento havia batido a porta e ela estava trancada. Acho que de algum modo, quando bateu girou o trinco. Eu estava preso do lado de fora. E o banheiro era num local de difícil acesso sem ser pelo hotel. Havia uma montanha atrás dele, o hotel na outra face, um precipício ao lado e o lago. Ou seja, a saída por qualquer opção não era simples. Resolvi tentar abrir a porta, mas não consegui. Admirei mais um pouco a linda paisagem e depois, já com bastante frio, resolvi bater na porta. Mas ninguém ouvia, provavelmente por causa do vento. Cheguei a pensar em tentar arrombar a porta ou escalar o telhado, mas aí pensei em chamar pela americana. Imaginava que estava dormindo no quarto em frente. Chamei-a pelo nome e ela estava acordada e me ouviu. Foi até a porta e perguntou “Fernando, o que você está fazendo aí?”. Eu respondi que tinha ido ao banheiro e perguntei se ela poderia abrir a porta. Ela pediu para eu esperar e foi chamar o seu guia. Enquanto isso eu aproveitei para apreciar mais um pouco a maravilhosa paisagem noturna e o lindo céu. Poucos instantes depois chegou o gia com uma lanterna e abriu a porta. Eu agradeci bastante e entrei. Ela ficou bestificada (e o guia também, mas um pouco menos) por eu estar de pijama, quase sem agasalho lá fora 😀. Fomos dormir. Na 2.a feira 27/10 quando eu acordei todos já estavam tomando café e já sabiam do ocorrido. Receberam-me rindo e o dono do hotel disse “Se você não tivesse sido escutado certamente teria arrombado a porta”. Eu disse que tinha ficado com medo de arrombar e depois ficar entrando vento e neve na casa. Eles riram um bocado e tomamos café. A dona riu pelo fato de eu ter oferecido o pagamento enquanto eles estavam com as mãos ocupadas fazendo o café pedido pelos outros. Durante a estadia o jovem dono disse-me que a situação era delicada. O exército vinha recrutar os moradores para fazer parte dele. Se a pessoa entrasse os maoístas a matavam. Se a pessoa se unisse aos maoístas o exército a matava. Então não havia saída. Pareceu-me uma triste realidade ☹️. Perguntou-me sobre procedimentos para conseguir viver no Brasil. Eu não sabia exatamente quais eram, mas lhe disse que achava que seria bem complicado para ele, pois era outra língua, outro alfabeto, outra cultura, outra religião da maioria da população e várias outras diferenças para a vida que ele estava acostumado a levar. Além do que estaria sem seus familiares e conhecidos e muito longe da sua terra natal. Achei a situação do país delicada, mas não me pareceu que naquele local ele estivesse em alto risco. Ele me falou também que achava que Buda era o Deus deles, mesmo após eu questionar se de fato era Deus ou um mestre. Após despedir-me de todos saí para descer. Antes apreciei a paisagem do local, principalmente do lago, que com a neve tinha ficado muito bela . Foi bem mais fácil descer do que subir 😀. As paisagens pareceram-me muito belas, embora devido à nevasca do dia anterior, os trechos mais altos estivessem nublados. O chão tinha ficado coberto de neve nos primeiros trechos. Não tive nenhum problema durante a descida e cheguei até Thulo Syabru, a cerca de 2.250 metros de altitude. Foi a parte mais íngreme. Achei que ainda dava para ir adiante e fui até Syapru Besi, a cerca de 1.460 metros de altitude. Já estava perto do fim da tarde e eu decidi ficar ali. Era um povoado bem maior do que os outros das montanhas. Havia muitas opções de hospedagem, eu fui a várias, mas acabei voltando a um dos primeiros (acho que foi o primeiro) em que havia passado. Era a casa de uma família. Todos pareciam muito simpáticos 👍. As crianças eram bem curiosas para conhecer um estrangeiro ocidental. Trataram-me muito bem. Ofereceram-me até um copo de leite ou semelhante no dia seguinte por cortesia, posto que eu não quis comprar o café da manhã, uma vez que em locais comerciais era mais barato. O clima estava muito menos frio. Na 3.a feira 28/09 fui andando até Dhunche e de lá peguei um ônibus para Katmandu. Na saída havia um posto de controle e tive que pagar pelo ingresso de visita, que ninguém tinha cobrado, que achei que não existia naquele sentido da caminhada e do qual imaginava ter escapado. Encontrei com vários franceses que estavam fazendo algum tipo de excursão ou trabalho voluntário. Uma das mulheres comentou comigo que seu marido cirurgião tinha ido fazer uma cirurgia num hospital local e tinha achado as condições deficientes. Ao longo do percurso de ônibus tivemos que parar várias vezes devido a checagens do exército. Os franceses pareciam bastante incomodados. Houve uma ocasião em que entrou um habitante local com uma galinha viva 🐔 e a colocou numa sacola na plataforma de bagagem acima das cabeças. Uma das francesas ficou bastante tocada com a situação, achando que a galinha estava morrendo e o nepalês pareceu não entender muito bem porque ela tinha ficado tocada. Chegamos em Katmandu já à noite. Alguns franceses que tinha conhecido antes conversaram comigo sobre a nevasca, a caminhada, despedimo-nos e voltei para o mesmo hotel. O dono devolveu-me a quantia que tinha guardado e eu devolvi o gorro ao atendente sem tê-lo usado. De 4.a feira 29/10 a 6.a feira 31/10 fui conhecer alguns projetos sociais em Katmandu e alguns pontos da cidade que não tinha visto. Fui conhecer projetos referentes a pessoas tentando livrar-se da dependência química, creches e educação de crianças e apoio a mulheres (https://www.etc-nepal.org). Neste último ofereceram-me uma refeição. Eu comi um pouco para não gerar aborrecimentos, apesar de ter carne (se bem me lembro era frango) e especiarias. Mas conhecendo ocidentais, eles me disseram para não comer se percebesse que meu organismo não assimilaria bem. Nestes dias aproveitei para jantar Dal Bhats, que estavam um pouco apimentados, e algumas comidas locais. Conheci uma inglesa que parecia muito ingênua. Tinha pago preços bem superiores por água mineral e estava prestes a contratar uma excursão também por preços mais altos. Porém percebi que ela não conseguia se virar sozinha com itens básicos. Então achei melhor deixá-la ser tutelada pelo pessoal do hotel, pois nas opções mais baratas a pessoa geralmente precisa fazer muitos procedimentos por conta própria, algo para que talvez ela não estivesse preparada. Aí provavelmente não valeria a pena a economia e faria com que a viagem dela não fosse agradável. No sábado 01/11 fui a Swayambhunath, que havia sido a stupa de que mais tinha gostado. Lembro-me de alemães indo visitá-la enquanto eu descansava no início da escadaria. Uma vendedora começou a acompanhar os alemães e um deles ficou para trás, deu dinheiro para ela e pediu cordialmente que os deixasse fazer a visita sem importunação. Meditei, apreciei a paisagem e me despedi de Katmandu. No domingo 02/11 saí no fim da manhã rumo ao aeroporto. Fui caminhando. Passei por um restaurante simples e comi momos, que estavam muito bons. Comprei também queijo de iaque, que achei maravilhoso 🧀. Cheguei ao aeroporto antes do horário e estava pronto para embarcar. Porém, parecia haver algum problema. Eu precisava sair na hora, pois tinha uma conexão em Nova Déli e outra em Mumbai. O avião deveria sair no fim da tarde e não tinha saído até o início da noite. Minha conexão provavelmente já estava perdida. Então fomos embarcados, porém somente jantamos e voltamos à sala de embarque. Foi bem confuso e houve bastante reclamação no aeroporto por parte dos passageiros. Por volta de 23h foi chamado novo embarque. Porém aí eu já havia perdido a conexão. Falei com o pessoal da Companhia Royal Nepal Airlines e me disseram que se não tinha um visto indiano era melhor não embarcar. Disseram que me dariam hospedagem e tentaríamos outro voo nos dias seguintes. Aceitei e fui para o Hotel Annapurna (https://annapurna-hotel.com) que indicaram. Era um dos mais luxuosos de Katmandu, onde ficavam políticos. Fiquei até com medo de atentados, dada a situação política. Chegamos lá no começo da madrugada e fui dormir. Na semana de 03/11 a 08/11 fiquei tentando pegar um voo de volta. Inicialmente fui ao escritório da companhia aérea para tentar remarcar minha passagem. Disseram que estavam com problemas para fazê-lo, pois minha passagem não era remarcável, provavelmente devido ao baixo preço que havia pago. Fomos ao aeroporto em dois ou três dias durante a semana e ocorreu exatamente o mesmo problema, o avião atrasou e eu não fui. Um gerente disse-me que estavam com problemas no flap de um dos aviões, o que estava acarretando aquela situação. Precisei voltar ao escritório da Cia todas as vezes que perdi o voo. A atendente já parecia bem constrangida e nem sabia mais como me pedir desculpas. Havia também outros passageiros com o mesmo problema, mas acho que depois de algumas vezes eu passei a ser o mais antigo. Ficou clara para mim a precariedade da companhia, apesar da boa vontade das pessoas. Eu fiquei no hotel assistindo televisão, pois não podia me ausentar, posto que poderiam a qualquer momento pedir para eu ir ao aeroporto ou ao escritório. Tinha direito a todas as refeições gratuitamente. Apesar do clima já estar um pouco frio, lembro-me de ter nadado em pelo menos um dos dias. Quando sabia que num determinado horário não tinha possibilidade de voo às vezes saía um pouco para dar uma volta. Cometi o erro de deixar o queijo de iaque fora da geladeira, o que não o estragou, mas fez com que começasse a exalar um forte cheiro. No sábado 08/11 o gerente veio buscar-me para tentarmos novamente um lugar no avião, mas já me avisou que provavelmente teríamos o mesmo problema. Desta vez porém, quando chegamos ao aeroporto, descobri que existia um voo direto para Mumbai, que já deveria ter saído, mas estava atrasado. Isso me deu esperança, pois se me recordo meu voo de Mumbai para Joanesburgo saía por volta de 2 horas da manhã. Conversei com o gerente da Royal Nepal Airlines e ele me disse que precisaria ser verificada a questão financeira, pois um bilhete para Mumbai era mais caro do que para Nova Déli. Ponderei para ele o tempo que já estava esperando, as tentativas infrutíferas que tínhamos tido e o custo da hospedagem que estavam pagando para mim. Novamente houve grande confusão entre os passageiros devido ao atraso. Vários passageiros que já estavam esperando há dias para embarcar fizeram um bloqueio e impediram que houvesse outros embarques antes que o voo para Mumbai fosse autorizado. Chegaram a lutar fisicamente com os funcionários do aeroporto 👊. Eu estava na sala de espera da Cia e não vi, mas um outro turista estrangeiro que havia conhecido contou-me o ocorrido. Quando tudo parecia encaminhado para eu finalmente conseguir voltar para o Brasil, apareceu um russo e sugeriu que fosse invertida a ordem dos voos, indo o avião primeiro para Nova Déli, que era mais perto, e depois regressando e indo para Mumbai. Isso me faria perder a conexão em Mumbai. Porém havia tantas pessoas já esperando há horas no aeroporto e talvez dias na cidade, que a proposta não foi bem recebida pelos passageiros e a ordem dos voos foi mantida. Enquanto esperava na sala da Cia repentinamente desapareceram os funcionários. A seguir chegaram pessoas da segurança e da imprensa. Talvez tivesse havido alguma reclamação mais fundamentada e tivessem vindo para responsabilizar ou até prender algum responsável. Mas não acharam ninguém. Quando eu encontrava alguém mais exaltado no corredor sempre dizia “Eu sou passageiro”. Num dado momento tirei a carteira do bolso para mostrar ao gerente meu cartão de membro da Star Alliance, através da Varig, argumentando com isso que tinha direito a embarque prioritário nas companhias parceiras. Mas acho que da primeira vez ele achou que eu estava tentando suborná-lo e acenou negativamente com a cabeça, antes de eu mostrar o cartão. Mais adiante, depois que percebi a interpretação que ele tinha feito, tirei novamente a carteira do bolso, mostrei-lhe o cartão e expliquei sobre a Star Alliance e embarque em parceiras. Mas ele disse que naquelas circunstâncias não era válido, além do que eles não faziam parte da Star Alliance. Já perto das 8 horas da noite, quando eu já estava ficando preocupado e achando que não chegaria a tempo a Mumbai, chegou o seu auxiliar e me disse afoitamente “Ok, ok, cadê seu passaporte, sua bagagem, vamos embarcar”, como se eu já soubesse que tinham me autorizado a ir. Eu nem acreditei 😀. Será que desta vez conseguiria? Consegui. Embarquei no voo para Mumbai, o voo decolou por volta de 9 horas e chegou antes da meia noite. Realmente a Cia parecia precária. No pouso, pareceu que o comandante socou o avião no chão, tanto que um passageiro francês comentou sarcasticamente, quando ele ia falar aos passageiros pelo alto-falante após o pouso, “Antes de mais nada desculpe pelo pouso”. Mas o comandante não falou isso 😀. Quando disse em Mumbai que tinha vindo pela Royal Nepal Airlines, uma funcionária do aeroporto fez gesto de reprovação com a cabeça como quem diz “Sai dessa amigo!”. Esperei pela conexão, dei meu número de membro da Star Alliance para o atendente, que o marcou erradamente, tentei descansar um pouco e embarquei sem problemas pela South Africa Airways (SAS) para Joanesburgo. No domingo 09/11 pela manhã desembarquei em Joanesburgo. Tudo parecia resolvido e bastava esperar pelo embarque para São Paulo. Quando fui passar pelo balcão para fazer a conexão, o atendente me disse que havia sido feito uma atualização na passagem não permitida e eu teria que pagar aproximadamente US$ 720.00. Isso significava pagar quase a metade do valor da passagem por uma remarcação para um trecho de menos de ¼ (25%) da distância 💲. Eu achei inaceitável. Argumentei com o atendente que a responsabilidade pela remarcação não era minha, pois o avião não tinha decolado por várias vezes. Mas ele me disse que a SAA não era responsável por outras cias aéreas. Eu repliquei que tinha sido a SAA que tinha emitido o bilhete e portanto alguma responsabilidade ela tinha. Como a conversa estava se prolongando e esquentando, ele mudou totalmente de postura e disse que não queria me onerar e eu estava liberado da taxa. Eu agradeci, fui para o embarque e voltei para São Paulo. Após desembarcar decidi passar no controle de itens a declarar devido ao queijo de iaque que havia comprado. O atendente pediu para eu esperar e foi chamar o fiscal, que ao ver o queijo disse que eu não poderia entrar com ele, embora tenha permitido que eu comece um pouco ali. Talvez o cheiro que ele estava exalando tenha ajudado na decisão. Eu fiquei decepcionado e perguntei se iria ser jogado fora mesmo, pensando no desperdício ☹️, O fiscal perguntou se eu estava insinuando algo e me falou rispidamente que era melhor eu ir embora. Eu fui, mas o queijo foi apreendido por razões sanitárias (não era permitido entrar no Brasil com comidas não industrializadas).
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