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[align=justify][t3]Travessia do Vale do Pati[/t3]
Felizmente após longa espera, apliquei freio à rotina estafante e concretizei o tão sonhado trekking à grandiosa Chapada Diamantina, na excelente companhia de meu grande amigo Peter Tofte. Acertamos os detalhes por e-mail e telefone e planejamos um destino diferenciado para cinco dias, desde o Vale do Capão à Andaraí.
O Vale do Pati, esculpido em quartzito rosa e com encostas cobertas pela mata atlântica, foi um dos maiores produtores de café no século XX, juntamente com o Vale do Capão. Chegou a comportar mais de dois mil habitantes, centro comunitário, comércio, igreja, etc. O café que trouxe o apogeu ao vale, também foi o responsável pela decadência do mesmo, quando a política republicana da época resolveu erradicar a cultura para majorar os preços no mercado externo. Esse fato trouxe o êxodo à maioria de seus habitantes e por consequência, o vale recuperou suas matas ao longo do tempo, subtraídas na época para dar lugar ao café. Hoje é um dos destinos mais procurados no Brasil, em virtude dos inúmeros atrativos naturais; o trekking em especial!
[t3]A programação e a ida até o Bomba[/t3]
Minha chegada em Salvador estava programada para o dia 21 de junho e, junto com Peter, embarcaríamos para Palmeiras na noite da quarta-feira (dia 22), para darmos início ao trekking na quinta-feira (dia 23) pela manhã, feriado de Corpus Christi.
A idéia parecia boa, porém dias antes da partida, Peter alertou-me sobre os festejos de São João coincidentes com o feriado da quinta-feira. O fato poderia gerar algum desconforto, pois grande parte da população e turistas estaria em deslocamento para o interior, fazendo com que o movimento nas estradas aumentasse consideravelmente, podendo atrasar nosso ônibus e dificultar o transporte até o início da travessia. Particularmente, não tinha conhecimento da grandiosidade dos festejos de São João nas regiões Norte e Nordeste do país, pois aqui no Sul o mesmo não é tão difundido e comemorado e relutei em acreditar que nossa programação poderia ser afetada. Por via das dúvidas, mudamos nossa ida para a noite do dia 21, terça-feira e mantivemos a volta para a madrugada de segunda-feira, 27 de junho.
Após ser muito bem recebido por Peter e seus familiares e participar de uma saborosa janta de frios, Thaís – sua esposa – nos deixou na rodoviária por volta das 22h, afinal nosso ônibus partia às 22h45 para Palmeiras. A viagem foi longa, poucas paradas, porém cansativa. O cochilo era frequentemente interrompido por buracos na estrada, freadas bruscas e algumas vezes pela conversa de alguns passageiros inoportunos. O ar-condicionado soprava leve na tentativa de diminuir o abafamento no interior do veículo, mas piorava pouco a pouco meu estado físico. Ainda no Sul, passei algumas noites na barraca em temperaturas baixas para testar o desempenho de alguns equipamentos no frio e um surto de rinite alérgica atacou-me fortemente. Nariz entupido, garganta seca e irritada e forte dor de cabeça, foram alguns dos sintomas chatos que debilitaram um pouco minha saúde.
Aos poucos, a noite dava espaço à aurora e por volta de 7h chegamos em Palmeiras, cidade simples e pouco organizada, onde a maioria de seus moradores sobrevive com o turismo e o transporte aos mais variados destinos da Chapada Diamantina. Logo na descida do ônibus, fomos inquiridos por um morador, sobre a necessidade de carona. Confirmamos nossa ida para Capão e, logo após colocarmos as mochilas no bagageiro, nos instalamos no banco de trás de uma Volkswagen Kombi com outro casal. Estávamos em quatro espremidos no banco traseiro, quatro no banco dianteiro e um casal com o motorista, totalizando 10 pessoas a um custo de R$10,00 por passageiro. Aquele veículo precário e barulhento ia ganhando chão, subindo e descendo as ladeiras até o momento em que parou bruscamente no meio de uma subida. O motorista logo resolveu o defeito com umas pancadas na rebimbeta da parafusoca e em 40min chegávamos ao pacato vilarejo de Capão. Confesso que aquela pequena viagem foi engraçada; emocionante também, pois talhou passagem por entre belas paisagens.
Capão, pequeno arraial preparado para as festividades de São João com seu clima agradável para a época e cercado de montanhas escarpadas, é o ponto inicial de muitos destinos para trekking na Chapada e de lá, acertamos carona em moto-táxi, também ao custo de R$10,00 por pessoa, por uma estrada tortuosa e esburacada de aproximados 6km até o Bomba, local de início de nossa travessia. Pensamos em percorrer o trecho a pé, porém achamos que nos atrasaríamos em virtude da grande distância que almejávamos cobrir no primeiro dia. Gatinha, piloto da minha moto, dirigia vagarosamente e com habilidade, desviando das protuberâncias e buracos do caminho, enquanto me contava sobre sua vida e sua família.
[t3]O Trekking
Ladeira do Bomba - Casa de Seu Wilson[/t3]
Chegamos ao Bomba por volta de 8h15 – 30min de carona com a moto-táxi – e demos início ao trekking com uma sessão de fotos. A ladeira inicial foi vencida facilmente. Caminhávamos alternando mata, córregos e vegetação baixa e a cada metro galgado, mais descortinava-se a paisagem do Vale do Capão, com incríveis vistas do Morrão e de partes do Morro do Pai Inácio. O sol já conseguia transpor a densa camada das nuvens que pareciam trazer chuva e logo pudemos sentir o calor de seu banho dourado. Saboreamos um delicioso café às margens do Córrego da Galinha, reforçamos a proteção solar com fator 50, enchemos os cantis e demos continuidade à longa jornada entre vastos e suntuosos campos de altitude dos Gerais dos Vieira. O Morro Manoel Vitor, o Morro Branco e o Morro da Lapinha nos acompanham em boa parte do tempo, à esquerda de quem se dirige ao Pati e à direita, os morros dos Gerais do Rio Preto; a Serra do Esbarrancado. Paisagem exuberante! A idéia era subirmos o Quebra Bunda e a passos largos, pernoitar na Toca do Gavião para contemplarmos as belezas do Cachoeirão por cima e a imponência do Vale do Pati.
Ao chegarmos no Córrego Açucena combinamos em almoçar no Rancho e em seguida, procuraríamos o caminho que transpunha metros ladeira acima em direção aos Gerais do Rio Preto. O almoço foi nutritivo e saboroso: pão sírio, queijos, salames, chocolates e cereais acompanhados por um delicioso suco de laranja. Geralmente quando conciliamos um trekking, optamos por reforçar as calorias com uma refeição principal à noite, para repor as energias gastas no dia. Durante a travessia, o lanche é mais prático: elimina o uso de panelas e fogareiro, poupa combustível, trabalho e satisfaz todas as nossas necessidades. Lembrando também que, pequenas refeições divididas antes do jantar são mais indicadas, pois o metabolismo não fica tão acelerado a ponto de interferir no seu desempenho e o tempo de parada é menor.
O mapa que Peter usava, trazia informações um pouco confusas. Para acessarmos a subida do Quebra Bunda, deveríamos atravessar o Córrego Açucena seguir em direção ao pé da montanha e subir pelos seus tortuosos e acentuados ziguezagues. Seguimos a indicação do mapa já que fazia oito anos que Peter não percorria o mesmo caminho e não conseguimos encontrar o início da trilha. Somente após retornarmos alguns metros, percebemos que não era necessário atravessar o córrego e sim, somente seguir à direita do mesmo para a continuidade do trekking. Enquanto vínhamos dos Gerais do Vieira, tentamos avistar a então subida, porém a mesma estava um pouco coberta pela vegetação; talvez em virtude do pouco movimento.
A ascensão foi pesada, minha rinite piorava e já andava com o auxílio de antibióticos para tentar amenizar os sintomas. Não conseguia controlar a respiração pelo nariz e a boca ficava cada passo mais seca, obrigando-me a saciar a secura com o líquido refrescante e límpido que portava no cantil. Durante as paradas, fotos para recordações daquele panorama deslumbrante e digno de horas de contemplação. Caminhar pelos Gerais do Rio Preto, igualmente ao dos Vieira, é uma atividade deliciosa; as montanhas perdem-se em meio a belíssimos campos rupestres, a trilha segue beirando as sinuosas bordas dos cânions e é visível a quilômetros de distância. Até então, nossos olhos alcançavam o início do Vale do Calixto, outro destino que pretendemos percorrer e só pudemos observar a magnitude do Vale do Pati, quando estávamos próximos do Muro de Pedras e da Rampa, que dá acesso à Ruinha. Na trilha encontramos dois mountain bikers que estavam fazendo a travessia desde a subida do Aleixo e iam até Capão. Imaginava com fariam para vencer a íngreme descida do Quebra Bunda. Deve ter sido emocionante!
Ali, fui obrigado a parar para cuidar da distensão sofrida na virilha esquerda, quando subia o Quebra Bunda. A falta de alongamentos em virtude da cansativa rotina me proporcionaria dores e definiria um ritmo fraco de progresso nos dias vindouros. Essa distensão aliada à alergia obrigou-nos a mudar completamente os planos e a Toca do Gavião foi substituída pelo pernoite na casa de Seu Wilson. Em termos de distância, seria mais sensato andarmos até a Toca, mas se minha situação não melhorasse estaria um dia em atraso em relação à Andaraí, ponto final da nossa travessia. Logo à frente, encontramos dois fotógrafos carregados de equipamentos para captar as mais belas nuances dos vales ao pôr do sol. Quase chegando na bifurcação que leva à casa de Seu Wilson, encontramos pelo caminho três burros carregados de mantimentos que iam sendo tocados por dois nativos no lombo de suas mulas. Eles troteavam a passos largos ouvindo um rádio a pilhas e quando indagamos sobre o destino das provisões, nos informaram que desceriam para Ruinha e que a carga seria para a passagem do São João. Logo mais começamos a descer a íngreme trilha e outra equipe de carregadores passou por nós, dessa vez com destino à casa de Dona Raquel – mãe de Jaílson, caseiro da Prefeitura – muito mais carregada, com cinco burros e três nativos em suas mulas. É impressionante o trabalho que os moradores locais têm para dar um pouco de conforto e alimento aos visitantes que tanto esperam!
O sol nos brindava com luxuosas imagens, pintando toda aquela paisagem, aqueles cumes de um ofuscante e reluzente dourado. Infelizmente, logo sumiu pelos vales escarpados, dando lugar a parcas estrelas no céu. Com toda aquela exuberância da natureza, percebi que minha alergia e a distensão da virilha eram insignificantes perante o espetáculo de cores. A descida até Seu Wilson foi grande e assim que chegamos fomos muito bem recebidos pela sua esposa Maria, sua filha Nara e sua prima de Guiné que estava de férias auxiliando a família. Logo perguntei se poderia saborear algumas laranjas, pois sentia a falta da vitamina C. Nara colheu uma bacia cheia e lavou-as em água fria. Montamos o acampamento em um patamar superior e em frente à casa, organizamos e separamos o jantar e enquanto Peter se encarregou de prepará-lo, aproveitei para tomar um agradável banho gelado. Confesso que naquela hora preferia um banho quente, mas as condições não permitiam. De qualquer forma, me senti melhor depois da ducha e voltei para a pequena cozinha de pau-a-pique para ajudar no preparo da janta, enquanto Peter tomava seu banho. Tínhamos chá e chocolate de entrada, carne sol com batatas e cebolas como refeição principal, acompanhada por um gostoso suco de laranja. Para o cozimento, utilizamos o fogareiro à benzina de Peter, pois tem um maior rendimento e poder calorífico em relação ao gás. Por segurança e para usar paralelamente quando necessário, trouxe meu fogareiro de titânio de 48g. Peter que me desculpe, mas a carne sol estava intragável! Não que a culpa fosse dele, mas tentamos remover a quantidade de sal e não obtivemos tanto sucesso. Em compensação, as batatas com cebola estavam deliciosas e após o jantar e a limpeza das louças, fomos descansar.
Na ida para a barraca, avistei em meio a troncos próximos de minha tenda, uma enorme aranha-armadeira. A espécie do gênero Phoneutria e da família dos Ctenídeos é também conhecida como aranha-macaco ou aranha-de-bananeira e o nome "armadeira" vem da sua atitude invariável de ataque, apoiando-se nos dois pares de pernas traseiras, erguendo os dois dianteiros e os pedipalpos, abrindo as quelíceras e eriçando os espinhos. Acompanham o movimento do agressor e, procurando a defesa no ataque, são muito rápidas. São altamente agressivas e peçonhentas; produzem um veneno cujo componente neurotóxico é tão potente que apenas 0,006mg é suficiente para matar um rato e é considerada a aranha mais venenosa do mundo, devido à potência do seu veneno de ação neurotóxico e cardiotóxico.
Pelo tamanho deveria ser uma fêmea. Afugentamos o aracnídeo e fomos deitar. A noite estava boa para o descanso, com temperatura bem agradável e o céu coberto de estrelas. Infelizmente deixamos de conhecer a Toca do Gavião, onde pretendíamos pernoitar e o Cachoeirão por cima. Enchi meu inflável NeoAir, me enfiei no saco de dormir e caí no sono, na esperança de um amanhecer melhor e de preferência sem alergias. Uma leve chuva amenizou a temperatura da madrugada e transformou profundamente meu descanso.
[t3]Casa de Seu Wilson - Prefeitura[/t3]
Ledo engano, quando acordei estava na mesma situação ou até pior do que o dia anterior, porém após a medicação comecei a sentir relativa melhora. Saboreamos um forte café com sopas, leite e ovomaltine, muslix, cereais e chá de maçã com bolo, chocolates e biscoitos. A programação do dia? Subir a Gruta do Morro da Lapinha e progredir com o trekking até a casa de Seu Eduardo para fazermos o Cachoeirão por baixo. Isso se minhas condições fossem favoráveis à empreitada.
No caminho para a subida, logo que deixamos a casa de Seu Wilson, encontramos um casal que vinha da Prefeitura, Paulo e Juliana que imediatamente nos alcançariam na subida para a gruta. A trilha foi relativamente fácil, puxada em virtude de meu estado físico e em 1h já estávamos contemplando o maravilhoso visual que se tem do topo. Após algumas fotos, Peter nos mostrou uma sala pequena que fica à esquerda da entrada principal da caverna e que utilizam para banho os que acampam lá no alto. Na ida Paulo quase pisou em uma peçonhenta jararaca! O cuidado nessas regiões de mata fechada e úmida deve ser redobrado, pois é habitat preferido de cobras, mas após o susto tiramos algumas fotos e ao mencionarmos da aranha que havia encontrado, Juliana confirmou que acordara no meio da noite com uma de mesma espécie entre o teto e o sobreteto de sua barraca.
Adentramos nas profundezas daquele covil e aos poucos o breu nos envolvia; a cada passo dado o eco quebrava o silêncio e a calmaria daquela atmosfera sombria. Após cruzarmos o salão principal, passamos acocados por uma fenda de uns 60cm de altura e descemos a ladeira de pedras até o salão secundário, de onde atingiríamos a outra extremidade da gruta. Lugar aprazível de onde se tem uma infinita visão do Vale do Calixto, Gerais dos Vieira e do Rio Preto. Após algumas fotos, retornamos ao salão principal e em sentido contrário ao secundário, escalamos por algumas pedras em direção ao mirante. De lá do alto, uma exuberante visão em 360º de algumas das mais esplêndidas vistas da Chapada Diamantina, dignas de horas de enlevo em contemplação. Sentei na pedra e lá fiquei quase que em transe, por um bom tempo admirando aquela beleza da criação divina. Após saborear algumas barras de cereal, demos início ao retorno para a casa de Seu Wilson e em 40min já estávamos refrescando os pés no Rio Pati. Durante a descida, encontramos três pessoas que também contemplariam os altos do Morro da Lapinha.
Já nas barracas, fizemos um rápido lanche, comi mais algumas laranjas colhidas por Nara, organizamos as tralhas e partimos daquele aprazível terreno. Nara nos cobrou somente os R$10,00 referentes ao pernoite do acampamento e as dúzias de laranjas nos foram presenteadas. Alguns passos após, outra cobra também jararaca, cruzou nosso caminho e ficou à beira da estrada chacoalhando o rabo e alertando sobre seu incômodo com nossa presença. A rinite já estava em complicação maior e mesmo com o auxílio de comprimidos, não conseguia progredir como gostaria. Conclusão: optamos por um pernoite na Prefeitura e chegando lá, igualmente à casa de Seu Wilson, fomos muito bem recebidos por Jaílson. Enquanto montávamos novo acampamento com uma incrível vista de toda a imponência do Morro da Lapinha que mais parecia um castelo com suas enormes torres, tomamos duas cocas não tão geladas, mas que desceram muito bem. Separamos a janta e Jaílson nos direcionou à cozinha com fogão à lenha, mesa, pia, enfim, um conforto merecido. Acendemos o fogo para o feijão, enquanto o fogareiro se concentrava em cozer o arroz. Durante o preparo da janta, Jaílson e seus filhos ficaram conosco, sentados ao redor do fogão e contando as histórias que fizeram parte de suas vidas e que cercavam seu cotidiano. Gente humilde, de grande coração e que deveriam servir de exemplo a muitos!
Após outro banho frio e revigorante e uma deliciosa janta de arroz, feijão, salame e suco, deitei novamente com a esperança de melhoras no dia seguinte, afinal já havia atrapalhado os planos. Peter ficou um bom tempo na casa de Jaílson, curtindo a fogueira de São João, tomando algumas cervejas, ouvindo algumas histórias e na volta me acordou para ver como estava. Os comprimidos haviam me deixado um pouco zonzo e sonolento, por isso não lembro ao certo o que conversamos e acabei dormindo com a lanterna ligada. Passei uma boa noite de sono (não tão boa quanto a primeira) e me lembro de ter acordado com o movimento de Peter fora da barraca, enquanto urinava em virtude das cervejas que havia tomado. Nesse dia, não conseguimos atingir a casa de Seu Eduardo para pernoite e percorrer o Cachoeirão por baixo.
[t3]Prefeitura - Andaraí[/t3]
Outro café bem reforçado; outra manhã com sintomas de alergia bem pronunciados; novo destino para Andaraí fora pensado. Infelizmente meu progresso não era o desejado, meus aliados à alergia estavam acabando e sentia que precisava de um bom chuveiro quente e uma boa cama para repouso. Demos início então à trilha que leva ao cimo da Serra do Ramalho, cruzando a ponte e seguindo à margem esquerda do Rio Pati, passando pela casa de Dona Linda. No caminho encontramos alguns trekkers que iam em direção à casa de Seu Wilson e embora pela época, Peter achou que o movimento não estava tão grande como havia imaginado. Talvez pelo fato de a maioria estar concentrada nas cidades festejando o São João. Caminho fácil, com pouca variação no perfil altimétrico e formosa paisagem até então darmos de cara com a famosa Ladeira do Império.
Aos poucos começamos a galgar as pedras, num esforço de transpor a altitude que separa o Vale do Pati da descida à cidade de Andaraí. Impressionado, talvez seja a palavra que defina meu sentimento inicial à subida, pois todos falavam da dificuldade em se ganhar a ladeira, seja na subida, seja na descida e confesso que, meu desempenho foi muito melhor do que a elevação do Quebra Bunda. A cada passo dado, a cada metro ganho, a paisagem se mostrava mais e mais impressionante. Vistas de todo o Vale do Pati, das casas dos moradores, do rio cortando os imensos vales, do sol banhando a mata, eram paisagens que simplesmente arrebatavam o fôlego e arrancavam os famosos suspiros "Uau". A vontade de ficar sentado em qualquer pedra, admirando tudo aquilo era grande e muito grande, tal qual a de tirar várias fotos para tentar captar aquele momento único, mágico e cheio de vida. Em pouco tempo chegamos ao topo da Ladeira do Império e a parada para o lanche foi inevitável. Andar com Peter é assim, o peso de sua mochila é 60% comida e passa boa parte do tempo beliscando algo, incrível! Meu comportamento em trilhas é semelhante e minha fome também é das grandes, mas creio que em virtude da rinite, não estava lá com todo o apetite. Não bastasse a alergia e a distensão na virilha, senti a presença de bolhas em ambos os pés e estranhei, pois em quase quatro anos com a mesma bota, aquele fato era praticamente isolado e chato também. Gaze e fita silver tape deram jeito nas inquilinas indesejáveis; ao menos amenizaram o atrito, mas chegaria em Andaraí com os dedinhos extremamente doloridos.
O astro-rei já estava em todo seu auge e castigava-nos com fortes raios, tornando o ambiente abafado. A descida foi iniciada, uma das mais longas de todo o trecho e talvez um dos trechos mais monótonos, sob meu ponto de vista, porém com sua beleza peculiar. Córregos cortavam a ladeira transversalmente e nos presenteavam com seu refrescante e avermelhado líquido. Durante a declinada, avistávamos ao longe a Cachoeira do Ramalho e alguns pontos alagados do Pantanal dos Marimbus, outra região admirável que pretendo desbravar em canoa. Não demorou muito para que os curativos das bolhas incomodassem e fui obrigado a fazer uma pequena parada para arrumá-los. Peter seguiu na frente à procura de uma sombra e água para refrescar-se um pouco, afinal estávamos submergidos em um ambiente tépido. Logo entramos numa trilha plana em areia que seguia entre vegetação baixa e que ia ladeada por grandes e esburacadas rochas, oferecendo pouca sombra e água. Não contive minha surpresa ao avistarmos lá ao longe, a cidade de Andaraí e mesmo daquela distância conseguíamos ouvir a mistura de músicas e fogos do São João. Fora a hora mais longa da travessia e já não aguentava mais descer tanta ladeira de pedra com forte sol no juízo, o que piorava ainda mais minha condição. Felizmente em boa parte do trekking, os sintomas foram aplacados pelas belas paisagens que havia vislumbrado até então e creio que pelo meu estado, consegui aguentar bem a situação e de certa forma disciplinar um pouco meu organismo em uma circunstância extrema. Novamente não conseguimos manter a programação de percorrer o Rio Pati até seu encontro com o Paraguaçu.
Chegar em Andaraí foi um mistifório de sentimentos, de alegrias por ter findado em segurança uma excelente jornada; de tristezas por ter deixado para trás belezas dignas de imane contemplação; de satisfação por ter conseguido realizar a grande vontade de conhecer parte da majestosa Chapada Diamantina e sua formosura alegórica. Tão logo colocamos o pé na primeira pedra do pavimento do vilarejo, nos dirigimos diretamente para a Sorveteria Apollo, ponto de encontro de alguns trekkers e tragamos um saboroso refrigerante seguido por um álgido e refrescante sorvete caseiro. Conversando com a atendente, ficamos sabendo que ainda naquela noite havia ônibus com destino à Salvador e que partia às 21h. Sem desperdiçar tempo, Peter foi direto para a agência da Águia Branca com a idéia de trocar as passagens, porém o atendimento seria apenas das 20h até as 21h. Com isso, tínhamos um pequeno tempo para organizar algumas coisas e fomos direto para uma pousada no intuito de tomarmos um aprazível banho, assear toda aquela sujeira e antes mesmo das 20h jantaríamos. A idéia era pizza, mas os restaurantes estavam um pouco afastados, fazendo com que consumíssemos algum tempo no deslocamento. Um apetitoso prato feito ao valor de R$9,50 foi saboreado no restaurante Tá Lento: arroz, feijão, bife acebolado, purê de batatas e salada, acompanhado de suco natural de Umbu e refrigerante extremamente gelado.
Comemos bem e saímos em direção ao escritório da viação local. Trocamos a passagem sem maiores problemas, andamos até o ponto de partida do ônibus e aí é que pude perceber a empolgação do povo com os arranjos de São João: fogueiras e mais fogueiras espalhadas pelas ruelas da cidadezinha, iluminavam a escuridão daquele lusco-fusco sem estrelas e, juntamente com a música característica, criava uma atmosfera perfeita de descontração e confraternização; Andaraí estava em polvorosa. Ao chegarmos em Salvador às 5h da manhã de sábado, nossa marcha ao magnífico Vale do Pati findava. Ainda ficaria poucos dias na casa de meu grande amigo Peter, para conhecer um pouco a soberba e histórica Salvador.
Nesses poucos dias, pude desfrutar os mais sublimes cenários de uma pequena fatia da altiva Chapada Diamantina em companhia de um verdadeiro trekker, amigo acima de tudo. Pude dividir e compartilhar excelentes momentos, sentimentos, boas gargalhadas, refrescantes goles d’água; e isso somente foi possível em virtude da humildade que se fez presente. Virtude essa que mostrou o sentimento exato da modéstia, da cordialidade, da prudência, do respeito, da simplicidade e do grande companheirismo de meu colega Peter e das pessoas que, de alguma forma, fizeram parte dessa prodigiosa aventura. Resumindo: trekking é isso, independente de onde for!
Abraço
Edy[/align]