BONITO, foi uma palavra que sempre soou no meu imaginário nesses últimos 30 anos dedicados ao mundo da aventura. Sempre foi um lugar que eu quis conhecer, mas por se tratar de um dos lugaresmais caros do nosso continente, onde os preços parecem beirar a extorsão, acabei por renega-lo ao final das minhas extensas listas de desejos, porque com tanta coisa para conhecer por esse imenso país, não passava pela minha cabeça me submeter a tamanha exploração cretina. Mas o tempo passou e as informações colhidas por outros aventureiros amigos, foram quebrando a barreira da minha desconfiança, principalmente quando foi me apresentado alternativas mais acessíveis financeiramente, então comecei a amadurecer a minha viagem ao Mato Grosso do Sul, mas era preciso montar uma estratégia, ter um plano para que eu voltasse de lá sem estar falido.
Era preciso reinventar as viagens de férias, que ultimamente estavam sendo resumidas em escolhermos o local, comprar uma passagem aérea com antecedência e alugar um carro popular, mas dessa vez decidimos por optar em sair dirigindo do interior paulista com o nosso carro, economizando o preço do avião e do aluguel do veículo e ainda tendo a possibilidade de levar todo os nossos equipamentos de camping, além de comida, panelas , enfim tudo que precisássemos para nos mantermos o mais independentes possíveis.
A distância da nossa casa até Bonito no Mato Grosso do Sul era de 1200 km, mas como sempre fizemos, como era necessário dirigir tão longe, montei um roteiro para que pudéssemos conhecer outros destinos e fracionar a viagem, já que tínhamos 20 dias disponíveis de férias. Nossa primeira parada foi emTeodoro Sampaio-SP, uma pequena cidade aos pés doPARQUE ESTADUAL DO MORRO DO DIABO, uma enorme reserva florestal em meio a um mundo que se resumia em plantações agrícolas, principalmente a monocultura da cana de açúcar. A estrada cruza o parque ao meio e o terreno extremamente plano é quebrado por uma MONTANHA acanhada, um morrinho coberto de florestas, mas que é a única elevação que existe em centenas de quilômetros e muito provavelmente é o único morro que grande parte daqueles nativos viu durante a vida. Há uma trilha que parte da estrada e sobe o morro, mas não nos animamos a percorre-la, muito porque, não era o nosso objetivo por ali, estávamos de olho em outra atração, essa sim imperdível, nos confins dos extremos do Estado de São Paulo.
A nossa chegada àROSANA-SPfoi com muita surpresa, pois não esperava encontrar uma cidade tão pequena e charmosa. Quase um vilarejo minúsculo, pouco mais de 7 mil habitantes, bem às margens do giganteRIO PARANÁ, exatamente no seu encontro com outra perola paulista, o sensacionalRIO PARANAPANEMA. Essa cidade peculiar sempre me chamou a atenção por ser um dos extremos paulistas, sendo a cidade mais a oeste do Estado e não é só isso, ela ganha também o título de cidade mais distante da capital de São Paulo, estando a mais ou menos 750 km, ou seja, se existe um fim de mundo paulista, esse é o lugar.
Com tempo de sobra, resolvemos ficar e acampar noBALNEÁRIO MUNICIPAL, um lugar pitoresco, com uma prainha de águas limpíssimas e infraestrutura de fazer inveja a qualquer cidade litorânea do pais.
(Balneário de ROSANA)
Ocamping municipaltem um preço irrisório, não custou nem 20 reais por pessoa e fomos atendidos pela própria Secretaria de Turismo da cidade, foram pessoalmente nos visitar no balneário e nos alocaram no camping recém construído. Há várias atrações interessantes para se conhecer, desde praias de ilhas, a mirantes de frente para o rio, mas a gente se aventurou a ir conhecer osencontros dos Rios Paraná com Paranapanema, num bico de terra que marca o extremo oeste paulista, ultimo palmo de terra que separa também nosso Estado, do Estado Paranaense e Sul Mato-grossense, um lugar lindíssimo que fica a poucos quilômetros da cidade. Na volta, aproveitamos para ir até oMIRANTEpara apreciar o pôr do sol às margens do Paranazão, outro espetáculo para guardar na memória.
(Encontro Paranapanema com Rio Paraná)
No outro dia, apesar da vontade de ficar, atravessamos o rio encima da ponte na usina de Porto Primavera, um espetáculo com quase 2 dezenas de extensão e ganhamos o Mato Grosso do Sul e dirigimos atéPONTA PORÃ, mas poderíamos ter pego um caminho mais curto, mas queria dar um pulinho emPedro Juan Caballero, uma das cidades paraguaias que faz divisa com o Brasil.
No dia posterior estávamos decididos a chegar em Bonito e tocamos direto, mas não para Bonito e sim paraBela Vista, porque eu tinha umas dicas de uns rios de aguas azul turquesa perdido num caminho de terra entre as 2 cidades. E a nossa jornada por esse caminho acabou por se tornar numa aventura, porque o caminho tinha mais de 80 km de estradas de terra e quando chegou na sua metade, simplesmente a ponte que cruzava uns dos rios estava interditada, aí caímos num desvio e nos perdemos num mundo sem fim, em meio a quilômetros de milharal, onde a estrada só passava caminhonetes altas.
Fomos avançando, sem saber onde estávamos até que um veículo de uma fazendo cruzou com a gente e nos guiou até o caminho correto, mas aí já era tarde demais, estávamos cobertos de terra, uma poeira vermelha desgraçou as nossas vidas. Até encontramos alguns rios muito bonitos no caminho, mas a mulher já estava destruída psicologicamente, putaça da vida e foi assim que uns 3 ou 4 horas depois, fomos devolvidos ao asfalto que dá acesso a estrada para Bonito.Já era final de tarde e as emas corriam livres pelos campos, enquanto o sol já ia se despedindo, quando desembocamos noCAMPING DO BALNEÁRIO DO RIO FORMOSO,uns 5 km distante do centro da cidade.
(Camping Rio Formoso)
Já sabendo que os preços em Bonito beiram ao ridículo de tão caro, optamos por nos hospedar num camping e mesmo em alta temporada, os custos são obsceno, chegando a custar120 reais por pessoa, mas como estamos em maio, na baixa temporada, pagamos a metade do preço(60,00),mas pelo menos o camping é excelente, com um quiosque disponível, churrasqueira, pias e é possível montar a barraca abrigada, mas o melhor de tudo é que a diária do camping também te dar acesso gratuito ao Rio Formoso, um espetáculo aquático único.
(Rio Formoso)
Antes de tudo, é preciso deixar bem claro que a REGIÃO DE BONITO, tem pelo menos uma meia centena de lugares exuberantes, que com certeza poderia ser incluídos na lista dos lugares mais bonitos do planeta, mas os preços são realmente absurdos e depois de viajar por quase todo o Brasil e a maioria dos países da América do Sul, é fácil afirmar que os preços praticas aqui, estão entre os mais caros do nosso continente, ou seja, Bonito não é para a maioria dos brasileiros e até mesmo os gringos endinheirados reclamam dos custos, então já sabíamos que ali não era lugar para a gente, mas tínhamos em mente de fazer algum passeios e havíamos nos preparados financeiramente para isso.
Os 2 primeiros dias optamos por descansar no Balneário do Rio Formoso, curtir o camping e obviamente o espetacular Rio Formoso, um verdadeiro aquário, onde os peixes vem comer na mão. Ao lado desse balneário também tem o Balneário Municipal, com preço parecido para passar o dia, mas como era o mesmo rio, não achamos vantagem ter que pagar novamente para usufruir do rio que já tínhamos acesso gratuito usando ainda o camping. No terceiro dia, fomos até a cidade para agendarmos um dos passeios que havíamos planejado, que era a descida flutuando peloRIO SUCURI. E poderíamos escolher quaisquer outros rios, que muito provavelmente não iríamos nos arrepender, mas o título deRIO MAIS CRISTALINO DO BRASIL, realmente pesou muito a favor do SUCURI. Quanto ao valor, por estarmos na baixa temporada e temos escolhidos uma versão mais barata, acabamos tendo que morrer com269 reais por pessoa, mas na alta temporada, esse preço beira os 400 reais, é muita grana para um país onde o trabalhador comum tem um salário de merda.
Tendo pago o ingresso no dia anterior e recebido o voucher via WhatsApp, nos dirigimos para a fazenda onde fica a foz do Rio Sucuri, que desagua no Rio Formoso. O passeio consiste em subir o rio num barco elétrico por quase 2 km e descer flutuando com roupa de neopreme e equipamentos de mergulho livre (máscara e snorkel), que são fornecidos. É um impacto gigante ver o contraste do translúcido Rio Sucuri se encontrando com o Formoso, que tem um aspecto mais leitoso. Dentro do rio, as piraputangas desfilam mansas e calmas, um verdadeiro aquário natural. O barquinho elétrico desfila silenciosamente corredeira acima, enquanto vamos passando por outros mergulhadores que passar ao largo. Chegando quase próximo das nascentes, saltamos para dentro do rio e deixamos que a correnteza nos carregue, enquanto nossa vida se resume a um mundo novo, sem sabermos se somos gente ou peixe. Mergulhar nesse rio é um privilégio, mas a água, mesmo com a roupa de borracha está extremamente fria. Não dá nem 10 minutos e absolutamente todos os mergulhadores, se agarram ao barco de apoio, mas eu me mantenho firme à frente de todos, quero aproveitar cada minuto naquele rio, mas isso vai me custando caro, porque já me sinto uma foca nadando no Ártico.
(Rio Sucurí)
A chegada é justamente o local da partida. Alguns estão extasiados com o passeio, mas outros parecem aliviados, porque sentiram medo do mergulho, mas são meros turistas desacostumados com natureza bruta e só se meteram ali, no impulso para colocar o rio nos seus currículos de meia página. Eu, por outro lado, me adianto para sair da água o mais rápido possível, o corpo já pouco responde aos movimentos, estou enfiado numa semi-hipotermia de dar dó, quase me arrasto até a sede da fazenda a fim de tirar a roupa e me jogar para debaixo de um chuveiro quente, antes que alguém tenha que chamar o SAMU, mas valeu a experiência, não é todo dia que se tem o privilégio de poder mergulhar no terceiro rio mais cristalino do mundo e no mais translúcido do Brasil.
Como eu disse, há algumas dezenas de lugares incríveis para conhecer em Bonito, mas praticamente todos custam uma fortuna para os padrões de um trabalhador comum, então é necessário escolher a dedo o que vai se fazer na região. Existem flutuações em todas as direções, com rios sensacionais, mas para quem está em economia de guerra, é necessário ponderar e experimentar coisas diferentes para ter um apanhado do geral. Então optamos por escolher uma das grutas e não era uma gruta qualquer, era simplesmente o CARTÃO POSTAL de Bonito, aquela imagem que me fez voltar meus olhos para esse lugar desde a minha adolescência, quando via fotos nas revistas de viagens.A GRUTA DO LAGO AZULsempre esteve na minha memória e se tinha um lugar na minha lista para conhecer em Bonito, essa gruta figurava no topo da lista.
Ainda hospedado no Camping do Rio Formoso, compramos os ingressos para visitar a caverna e é preciso deixar claro que, não interessa a agencia que você compre o ingresso, o preço é tabelado e não tem para onde correr, vai ter que desembolsar110 reais, lembrando que todos esses preços são fora de temporada, ainda que me pareça que a entrada nessa gruta, que é municipal, o preço permanece o mesmo em qualquer época do ano.
Chegamos na gruta pela manhã, com o horário agendado, primeiro você tem que assistir um vídeo explicando como deverá ser o comportamento para a visitação, que no fim, não passa de pura cagação de regras para turista, do tipo que você não pode tirar nem as mãos do corrimão para fazer uma foto e o uso obrigatório de máscara, um excesso que é claro, ninguém vai cumprir mesmo. Ao adentrar na grande boca da gruta, uma escadaria vai nos conduzindo até o centro da terra e certamente, para aqueles que jamais entraram numa caverna antes, a experiência será simplesmente avassaladora. É um mundo novo de estalagmites e estalactites, formações rochosas que pendem do teto e saltam do chão, num espetáculo único. Mas a chegado ao LAGO AZUL, é o gran finale, é aquilo que todos esperavam e realmente não decepciona, hipnotiza, desconcerta a nossa capacidade de acreditar que aquilo seja real.
(Gruta do Lago Azul)
Nós poderíamos ficar um mês hospedados em Bonito, poderíamos aproveitar mais meia centena de passeios incríveis, mas com certeza isso nos custaria a nossa falência financeira pelos próximos anos, então foi hora de abandonarmos a cidade e nos lançarmos à novas aventuras, ir atrás de uma dica valiosa que haviam nos dado ainda em São Paulo e que me fez resolver escrever esse relato, então partimos para o norte, uma hora de viagem até a minúscula cidade de BODOQUENA, ainda no mato Grosso do Sul.
Bodoquena é uma cidade minúscula, mas que acabou por se contaminar com os preços abusivos de Bonito. A hospedagens mais baratas, num muquifo qualquer, custava 200 reais e a gente se recusou a pagar tudo isso numa espelunca fedorenta, então, mesmo sendo já num final de tarde, resolvemos encarar mais de 30 km de terra e irmos tentar nos hospedar num camping bem as portas do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Uns 20 km de estrada e a paisagem se transforma, parece que estamos adentrando num fundo de vale, onde o mundo parece que vai acabar a qualquer momento e é exatamente isso que acontece, quando chegamos num final de estrada e percebemos que oCAMPING 3 IRMÃO,que procurávamos, já havia ficado para trás. Então retornamos e adentramos num sítio, onde havia uma placa, mas o tal camping parecia mesmo apenas um espaço espalhado pelo pasto das vacas.
(Camping 3 Irmãos)
Já sabíamos do preço, que também beirava o ridículo, mas diante das instalações medíocres, os 70 reais cobrados pelo camping, beirou a extorsão, mas não havia como voltar atrás, a noite caiu sobre o vale e o jeito foi nos ajeitarmos com as vaquinhas, num pasto cravado de bostas, mas pelo menos já estávamos na entrada do Parque Nacional, o que nos ajudaria muito em questão de logística.
Aqui eu preciso fazer um parêntese para explicar porque viemos parar nesse lugar: Dentro do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, está o magníficoRIO SALOBRA, mas apesar de ser um parque que deveria pertencer ao cidadão, ele foi entregue quase que totalmente a iniciativa privada, então para fazer algo lá, você precisa contratar os serviços daECO SERRANA PARQUE, que tem vários roteiros e para fazer o aquatreking , que é a caminhada pelo cânion , você vai ter que desembolsar entre350 e 450 reaispor meio dia de atividade, um valor tão surreal que a gente não iria pagar nem fudendo . Mas aí que está o pulo do gato desse roteiro, os moradores locais foram autorizados a guiar dentro do parque e o próprio dono do camping onde estávamos acampados é um desses guias e nos ofereceu um valor quase 4 vezes mais baratos que o da agencia, claro, sem as mordomias que eles ofereciam, mas o que nos interessava mesmo era o rio e o cânion, então fechamos o passeio para o outro dia pela manhã.
Do camping até o Rio Salobra, a distância não era maior que 1.500 metros, mesmo assim seguimos de carro até uma porteira fechada com cadeado e aberta pelo guia. Na verdade, a porteira demarca a propriedade da ECO SERRANA, mas deve haver um acordo de liberação aos guias locais. Estacionamos o veículo à sombra e nos pomos a caminhar, interceptamos a sede da empresa, contornamos pela esquerda e ganhamos a trilha que logo nos levou direto, não para o rio Salobra, mas para o seu afluente, oRIO LIMOEIRO.
O RIO LIMOEIRO é um rio muito transparente e de águas frias, mas a gente só se dá conta do espetáculo que estamos prestes a presenciar nessa jornada, quando, depois de descê-lo por alguns minutos, ele se encontra finalmente com oSALOBRA, que além de ser imensamente mais transparente que o Limoeiro, ainda tem uma água quente, talvez uma das poucas da região. Menos de 20 minutos de caminhada, subindo por dentro do rio, nossa jornada nos leva até o primeiro grande poço do rio Salobra e não é qualquer poço, é simplesmente um dos cartões de visita dessa linda caminhada, e é difícil até de acreditar que estamos diante de uma beleza absurda. A cor dá água doPOÇO DAS BORBOLETAS, beira o surreal, o verde contrasta com as pedras claras do fundo do poço, onde as piraputangas passeiam de um lado para o outro, é hora de parar e esquecer da vida, aproveitar cada segundo naquele que me pareceu ser um dos rios mais belos do país, mas ainda sem saber que o melhor ainda estava por vir.
Abandonando o Poço das Borboletas, subimos o barranco e ganhamos a trilha sombreada. Aliás, é uma trilha toda demarcada, aberta e por vezes dotada de proteções de madeiras, tanto em algumas laterais como para conter possíveis erosões, até que uns 20 minutos depois interceptamos aCACHOIERINHA DAS PEDRAS, com poços verdes, permeados por uma água leitosa junto a pequena queda. Nos jogar para debaixo dela foi questão de tempo, ainda mais porque a temperatura se elevou bastante por estarmos perto do meio dia. Mas aqui ainda preciso fazer outro parêntese sobre os nomes dos lugares, porque me pareceu que cada nativo chama por um nome, já que faltou placas para identificar cada ponto daquele paraíso.
Voltando a trilha, alguns minutos nos levam a travessia do rio para sua margem direita de quem sobe e a travessia é feita sob a proteção de um CORDA que dá sustentação em dias de rio mais cheio, bem ao lado oPOÇO CANA DOS MACACOS, onde já é possível notar que estamos adentrando para dentro do cânion pelo surgimento de alguns paredões rochosos, onde começamos a avançar por dentro da água, curtindo cada passo dado.
A caminhada segue sempre paralela ao rio e nossa próxima atração é um amontoado de grandesPEDRASCALCÁRIAS, que acabam por contrastar com o verde intenso do poço que as cercam, onde mais uma cachoeirinha é um ótimo pretexto para uma nova parada. Aliás, nessa parte do rio Salobra, não encontraremos grandes quedas, mas nem precisa porque o cenário vai simplesmente nos empurrando cada vez mais para um mundo surpreendente.
Mais uns 10 minutos de caminhada e os olhos começam a enxergar um verde meio azulado, o cérebro começa a dar uma bugada com a mudança das cores do rio, até que no meio da trilha, ummarco divisóriomarca definitivamente nossa entrada na área doPARQUE NACIONAL DA SERRA DA BODOQUENA.Logo em seguida, voltamos a cruzar o rio para margem direita, para pegarmos aCURVA DO JERICÓ, onde paredões rochosos represam um poço qualhado de peixes.
A partir daí , as MURALHAS DO CÂNION se tornam cada vez mais imponente, vão se erguendo majestosas e talvez sejam essas que alguns também deram o nome de MURALHAS DE JERICÓ, mas o certo é que o cenário se transforma e assim que as muralhas vão ficando para trás, o rio simplesmente se torna AZUL, que contrasta com o verde da floresta, logo depois de atravessarmos novamente o rio para a margem direita nos valendo de mais uma corda e tropeçarmos com a galera que desce o rio de caiaque, aí foi hora de parar novamente, para mais um banho e comer alguma coisa.
A caminha vai seguindo e incontáveis poços vão surgindo, cada um mais deslumbrante que o outro, alguns de um verde claro, mas outros tão azuis que chega doer os olhos , mas um em especial nos desconserta de uma tal maneira, que somos obrigados a nos deter e prestar reverencia , saltando para dentro dele de cima de uma grande pedra. É um poço profundo e ficamos por mais de meia hora nadando até cansar e mesmo que os nativos o chamem de POÇO DO JACARÉ, não conseguir saber de que jacaré estavam falando. Assim que voltamos para a trilha, cruzamos o rio novamente e o guia nos diz que agora estávamos cruzando peloPOÇO DO JERICÓ, aí entendi que tríade estava formada , curva, muralha e poço acabara de ficar para trás.
A nossa jornada vai encaminhado para o final do roteiro, vamos cruzando o rio com a água pela cintura, passando por outros poços surreais, até que o terreno nos empurra para a margem esquerda, onde um grande paredão parece nos fechar a passagem, mas que na verdade é só uma curva do rio e do outro lado um paredão que o guia nos disse haver uma grande caverna suspensa, que o parque está se preparando para abrir ao turismo. Há uma pequena queda d’água que nos sopraram comoCACHOIERA DA GRUTA, mas desconfio desses nomes, como falei, parece que cada local resolveu dar um nome diferente para os lugares.
O nosso passeio pelos cânions do Rio Salobra só vai até aqui, foram três horas subindo o rio lentamente e agora vamos retornar, aproveitando tudo novamente, nadando, boiando, nos jogando em cada poço colorido e certamente dá para afirmar que esse rio figura entre os mais belos cursos d’água do país e sem não for muito exagero, estará entro os mais bonitos do mundo, um paraíso ainda a ser desconhecido no coração do centro-oeste do Brasil.
Quando abandonamoso Parque Nacional da Serra da Bodoquena, naquela mesma tarde e voltamos para cidade, eu não conseguia tirar aquele lugar da minha cabeça, tal foi o impacto que ele causou na gente. Mas a viagem precisava seguir, então rumamos paraCorumbáporque eu ainda sonhava em atravessar aESTRADA PARQUE DO PANTANAL SUL MATOGROSSENSE, o que acabamos fazendo nos próximos dois dias, mas infelizmente tudo estava muito seco e acabamos não aproveitando muito o passeio, apesar de termos cruzado oRio Paraguaie oRio Mirandae até parei para pescar em um deles, mas quando retornamos, o nosso carro quebrou perto da cidade de Miranda e tivemos que ficar mais um dia para os reparos. Foi aí que a minha esposa resolveu fazer uma proposta, quando eu já pensava em bater em retirada para minha casa, ela queria voltar ao Rio Salobra, mas não para refazer a trilha, mas para ficar hospedada em uns refúgios-camping que fica mais abaixo, fora do Parque Nacional.
E lá fomos nós, enfrentar novamente aquela estradinha empoeirada, mesmo assim, felizes e ansiosos para novamente podermos voltar ao Rio Salobra. Quando chegamos à bifurcação que nos levaria novamente ao camping 3 Irmãos, pegamos para a esquerda e em mais meia dúzia de quilômetros, interceptamos oREFÚGIO CANAÃ, uma propriedade a beira do Salobra, que além de camping, também oferece hospedagens. Não posso negar, tudo era bem organizado, o camping impecável, que além disso, oferecia várias vantagens, como tirolesa, boias e coletes salva-vidas, além de quadra de areia, tudo incluído no valor da diária do camping, que obviamente, era muito cara, mas os caras têm o privilégio de abrigar um dos rios mais bonitos do país, então pagar90 reaispela diária com tudo incluído, até que me pareceu justo, pelo menos na baixa temporada.
E essa parte doRIO SALOBRA, não nos decepcionou, porque o rio era tão bonito quanto o cânion, e o poço principal, onde despenca quem resolve saltar na tirolesa, era simplesmente um encanto, onde vários peixes enormes desfilavam o dia todo. Passamos 2 dias acampados no refúgio, agraciados com a companhia de dezenas de araras selvagens e outros bichos do Pantanal, descendo o rio de boia e nadando até descolar a pele do corpo.
( Refúgio CANAÃ)
Depois disso, retornamos para São Paulo, mas antes, ainda passamos mais um dia num camping à beira do Rio Paraná, na cidade dePresidente Epitácio, outra joia paulista, mais um dos lugares que nos conquistou pela simplicidade e pela grandiosidade de sua paisagem, à beira de um rio que mais parecia um mar, inclusive com praia e tudo.
(Rio Paraná, Pres. Epitácio)
Claro que a região deBONITO, tinha muito mais a oferecer, mas é uma pena que num país onde seus cidadãos precisam se superar a cada dia para continuar sobrevivendo dignamente, tenhamos um lugar tão espetacular, mas que está renegado apenas aos mais abastados, uma discriminação absurda contra o nosso próprio povo, inclusive, conhecemos vários nativos que jamais puderam conhecer seu próprio quintal. Na minha modesta opinião, nenhuma atração natural no pais deveria custar mais que uma entrada num Parque Nacional, mesmo sendo em área particular. Em visita ao Equador esse ano, frequentamos os Parques Nacionais daquele país, sem pagar um mísero centavo, mesmo sendo estrangeiros, porque lá, as áreas naturais pertencem ao povo e mesmo as atrações em areais particulares, os custos são muito acessíveis à todos. Enfim, levaram-se 30 anos para que eu pudesse finalmente botar meus olhos nessa região, mas de todos os lugares, oCÃNION DO RIO SALOBRAfoi o lugar que vou guardar na memória e fico aqui, torcendo para que um dia lugares como esse, seja acessível para cada cidadão desse país.
CANION SALOBRA: Serra da Bodoquena – MS
BONITO, foi uma palavra que sempre soou no meu imaginário nesses últimos 30 anos dedicados ao mundo da aventura. Sempre foi um lugar que eu quis conhecer, mas por se tratar de um dos lugares mais caros do nosso continente, onde os preços parecem beirar a extorsão, acabei por renega-lo ao final das minhas extensas listas de desejos, porque com tanta coisa para conhecer por esse imenso país, não passava pela minha cabeça me submeter a tamanha exploração cretina. Mas o tempo passou e as informações colhidas por outros aventureiros amigos, foram quebrando a barreira da minha desconfiança, principalmente quando foi me apresentado alternativas mais acessíveis financeiramente, então comecei a amadurecer a minha viagem ao Mato Grosso do Sul, mas era preciso montar uma estratégia, ter um plano para que eu voltasse de lá sem estar falido.
Era preciso reinventar as viagens de férias, que ultimamente estavam sendo resumidas em escolhermos o local, comprar uma passagem aérea com antecedência e alugar um carro popular, mas dessa vez decidimos por optar em sair dirigindo do interior paulista com o nosso carro, economizando o preço do avião e do aluguel do veículo e ainda tendo a possibilidade de levar todo os nossos equipamentos de camping, além de comida, panelas , enfim tudo que precisássemos para nos mantermos o mais independentes possíveis.
A distância da nossa casa até Bonito no Mato Grosso do Sul era de 1200 km, mas como sempre fizemos, como era necessário dirigir tão longe, montei um roteiro para que pudéssemos conhecer outros destinos e fracionar a viagem, já que tínhamos 20 dias disponíveis de férias. Nossa primeira parada foi em Teodoro Sampaio-SP, uma pequena cidade aos pés do PARQUE ESTADUAL DO MORRO DO DIABO, uma enorme reserva florestal em meio a um mundo que se resumia em plantações agrícolas, principalmente a monocultura da cana de açúcar. A estrada cruza o parque ao meio e o terreno extremamente plano é quebrado por uma MONTANHA acanhada, um morrinho coberto de florestas, mas que é a única elevação que existe em centenas de quilômetros e muito provavelmente é o único morro que grande parte daqueles nativos viu durante a vida. Há uma trilha que parte da estrada e sobe o morro, mas não nos animamos a percorre-la, muito porque, não era o nosso objetivo por ali, estávamos de olho em outra atração, essa sim imperdível, nos confins dos extremos do Estado de São Paulo.
A nossa chegada à ROSANA-SP foi com muita surpresa, pois não esperava encontrar uma cidade tão pequena e charmosa. Quase um vilarejo minúsculo, pouco mais de 7 mil habitantes, bem às margens do gigante RIO PARANÁ, exatamente no seu encontro com outra perola paulista, o sensacional RIO PARANAPANEMA. Essa cidade peculiar sempre me chamou a atenção por ser um dos extremos paulistas, sendo a cidade mais a oeste do Estado e não é só isso, ela ganha também o título de cidade mais distante da capital de São Paulo, estando a mais ou menos 750 km, ou seja, se existe um fim de mundo paulista, esse é o lugar.
Com tempo de sobra, resolvemos ficar e acampar no BALNEÁRIO MUNICIPAL, um lugar pitoresco, com uma prainha de águas limpíssimas e infraestrutura de fazer inveja a qualquer cidade litorânea do pais.
( Balneário de ROSANA)
O camping municipal tem um preço irrisório, não custou nem 20 reais por pessoa e fomos atendidos pela própria Secretaria de Turismo da cidade, foram pessoalmente nos visitar no balneário e nos alocaram no camping recém construído. Há várias atrações interessantes para se conhecer, desde praias de ilhas, a mirantes de frente para o rio, mas a gente se aventurou a ir conhecer os encontros dos Rios Paraná com Paranapanema, num bico de terra que marca o extremo oeste paulista, ultimo palmo de terra que separa também nosso Estado, do Estado Paranaense e Sul Mato-grossense, um lugar lindíssimo que fica a poucos quilômetros da cidade. Na volta, aproveitamos para ir até o MIRANTE para apreciar o pôr do sol às margens do Paranazão, outro espetáculo para guardar na memória.
( Encontro Paranapanema com Rio Paraná)
No outro dia, apesar da vontade de ficar, atravessamos o rio encima da ponte na usina de Porto Primavera, um espetáculo com quase 2 dezenas de extensão e ganhamos o Mato Grosso do Sul e dirigimos até PONTA PORÃ, mas poderíamos ter pego um caminho mais curto, mas queria dar um pulinho em Pedro Juan Caballero, uma das cidades paraguaias que faz divisa com o Brasil.
No dia posterior estávamos decididos a chegar em Bonito e tocamos direto, mas não para Bonito e sim para Bela Vista, porque eu tinha umas dicas de uns rios de aguas azul turquesa perdido num caminho de terra entre as 2 cidades. E a nossa jornada por esse caminho acabou por se tornar numa aventura, porque o caminho tinha mais de 80 km de estradas de terra e quando chegou na sua metade, simplesmente a ponte que cruzava uns dos rios estava interditada, aí caímos num desvio e nos perdemos num mundo sem fim, em meio a quilômetros de milharal, onde a estrada só passava caminhonetes altas.
Fomos avançando, sem saber onde estávamos até que um veículo de uma fazendo cruzou com a gente e nos guiou até o caminho correto, mas aí já era tarde demais, estávamos cobertos de terra, uma poeira vermelha desgraçou as nossas vidas. Até encontramos alguns rios muito bonitos no caminho, mas a mulher já estava destruída psicologicamente, putaça da vida e foi assim que uns 3 ou 4 horas depois, fomos devolvidos ao asfalto que dá acesso a estrada para Bonito.Já era final de tarde e as emas corriam livres pelos campos, enquanto o sol já ia se despedindo, quando desembocamos no CAMPING DO BALNEÁRIO DO RIO FORMOSO, uns 5 km distante do centro da cidade.
( Camping Rio Formoso)
Já sabendo que os preços em Bonito beiram ao ridículo de tão caro, optamos por nos hospedar num camping e mesmo em alta temporada, os custos são obsceno, chegando a custar 120 reais por pessoa, mas como estamos em maio, na baixa temporada, pagamos a metade do preço (60,00), mas pelo menos o camping é excelente, com um quiosque disponível, churrasqueira, pias e é possível montar a barraca abrigada, mas o melhor de tudo é que a diária do camping também te dar acesso gratuito ao Rio Formoso, um espetáculo aquático único.
( Rio Formoso)
Antes de tudo, é preciso deixar bem claro que a REGIÃO DE BONITO, tem pelo menos uma meia centena de lugares exuberantes, que com certeza poderia ser incluídos na lista dos lugares mais bonitos do planeta, mas os preços são realmente absurdos e depois de viajar por quase todo o Brasil e a maioria dos países da América do Sul, é fácil afirmar que os preços praticas aqui, estão entre os mais caros do nosso continente, ou seja, Bonito não é para a maioria dos brasileiros e até mesmo os gringos endinheirados reclamam dos custos, então já sabíamos que ali não era lugar para a gente, mas tínhamos em mente de fazer algum passeios e havíamos nos preparados financeiramente para isso.
Os 2 primeiros dias optamos por descansar no Balneário do Rio Formoso, curtir o camping e obviamente o espetacular Rio Formoso, um verdadeiro aquário, onde os peixes vem comer na mão. Ao lado desse balneário também tem o Balneário Municipal, com preço parecido para passar o dia, mas como era o mesmo rio, não achamos vantagem ter que pagar novamente para usufruir do rio que já tínhamos acesso gratuito usando ainda o camping. No terceiro dia, fomos até a cidade para agendarmos um dos passeios que havíamos planejado, que era a descida flutuando pelo RIO SUCURI. E poderíamos escolher quaisquer outros rios, que muito provavelmente não iríamos nos arrepender, mas o título de RIO MAIS CRISTALINO DO BRASIL, realmente pesou muito a favor do SUCURI. Quanto ao valor, por estarmos na baixa temporada e temos escolhidos uma versão mais barata, acabamos tendo que morrer com 269 reais por pessoa, mas na alta temporada, esse preço beira os 400 reais, é muita grana para um país onde o trabalhador comum tem um salário de merda.
Tendo pago o ingresso no dia anterior e recebido o voucher via WhatsApp, nos dirigimos para a fazenda onde fica a foz do Rio Sucuri, que desagua no Rio Formoso. O passeio consiste em subir o rio num barco elétrico por quase 2 km e descer flutuando com roupa de neopreme e equipamentos de mergulho livre (máscara e snorkel), que são fornecidos. É um impacto gigante ver o contraste do translúcido Rio Sucuri se encontrando com o Formoso, que tem um aspecto mais leitoso. Dentro do rio, as piraputangas desfilam mansas e calmas, um verdadeiro aquário natural. O barquinho elétrico desfila silenciosamente corredeira acima, enquanto vamos passando por outros mergulhadores que passar ao largo. Chegando quase próximo das nascentes, saltamos para dentro do rio e deixamos que a correnteza nos carregue, enquanto nossa vida se resume a um mundo novo, sem sabermos se somos gente ou peixe. Mergulhar nesse rio é um privilégio, mas a água, mesmo com a roupa de borracha está extremamente fria. Não dá nem 10 minutos e absolutamente todos os mergulhadores, se agarram ao barco de apoio, mas eu me mantenho firme à frente de todos, quero aproveitar cada minuto naquele rio, mas isso vai me custando caro, porque já me sinto uma foca nadando no Ártico.
( Rio Sucurí)
A chegada é justamente o local da partida. Alguns estão extasiados com o passeio, mas outros parecem aliviados, porque sentiram medo do mergulho, mas são meros turistas desacostumados com natureza bruta e só se meteram ali, no impulso para colocar o rio nos seus currículos de meia página. Eu, por outro lado, me adianto para sair da água o mais rápido possível, o corpo já pouco responde aos movimentos, estou enfiado numa semi-hipotermia de dar dó, quase me arrasto até a sede da fazenda a fim de tirar a roupa e me jogar para debaixo de um chuveiro quente, antes que alguém tenha que chamar o SAMU, mas valeu a experiência, não é todo dia que se tem o privilégio de poder mergulhar no terceiro rio mais cristalino do mundo e no mais translúcido do Brasil.
Como eu disse, há algumas dezenas de lugares incríveis para conhecer em Bonito, mas praticamente todos custam uma fortuna para os padrões de um trabalhador comum, então é necessário escolher a dedo o que vai se fazer na região. Existem flutuações em todas as direções, com rios sensacionais, mas para quem está em economia de guerra, é necessário ponderar e experimentar coisas diferentes para ter um apanhado do geral. Então optamos por escolher uma das grutas e não era uma gruta qualquer, era simplesmente o CARTÃO POSTAL de Bonito, aquela imagem que me fez voltar meus olhos para esse lugar desde a minha adolescência, quando via fotos nas revistas de viagens. A GRUTA DO LAGO AZUL sempre esteve na minha memória e se tinha um lugar na minha lista para conhecer em Bonito, essa gruta figurava no topo da lista.
Ainda hospedado no Camping do Rio Formoso, compramos os ingressos para visitar a caverna e é preciso deixar claro que, não interessa a agencia que você compre o ingresso, o preço é tabelado e não tem para onde correr, vai ter que desembolsar 110 reais, lembrando que todos esses preços são fora de temporada, ainda que me pareça que a entrada nessa gruta, que é municipal, o preço permanece o mesmo em qualquer época do ano.
Chegamos na gruta pela manhã, com o horário agendado, primeiro você tem que assistir um vídeo explicando como deverá ser o comportamento para a visitação, que no fim, não passa de pura cagação de regras para turista, do tipo que você não pode tirar nem as mãos do corrimão para fazer uma foto e o uso obrigatório de máscara, um excesso que é claro, ninguém vai cumprir mesmo. Ao adentrar na grande boca da gruta, uma escadaria vai nos conduzindo até o centro da terra e certamente, para aqueles que jamais entraram numa caverna antes, a experiência será simplesmente avassaladora. É um mundo novo de estalagmites e estalactites, formações rochosas que pendem do teto e saltam do chão, num espetáculo único. Mas a chegado ao LAGO AZUL, é o gran finale, é aquilo que todos esperavam e realmente não decepciona, hipnotiza, desconcerta a nossa capacidade de acreditar que aquilo seja real.
( Gruta do Lago Azul)
Nós poderíamos ficar um mês hospedados em Bonito, poderíamos aproveitar mais meia centena de passeios incríveis, mas com certeza isso nos custaria a nossa falência financeira pelos próximos anos, então foi hora de abandonarmos a cidade e nos lançarmos à novas aventuras, ir atrás de uma dica valiosa que haviam nos dado ainda em São Paulo e que me fez resolver escrever esse relato, então partimos para o norte, uma hora de viagem até a minúscula cidade de BODOQUENA, ainda no mato Grosso do Sul.
Bodoquena é uma cidade minúscula, mas que acabou por se contaminar com os preços abusivos de Bonito. A hospedagens mais baratas, num muquifo qualquer, custava 200 reais e a gente se recusou a pagar tudo isso numa espelunca fedorenta, então, mesmo sendo já num final de tarde, resolvemos encarar mais de 30 km de terra e irmos tentar nos hospedar num camping bem as portas do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Uns 20 km de estrada e a paisagem se transforma, parece que estamos adentrando num fundo de vale, onde o mundo parece que vai acabar a qualquer momento e é exatamente isso que acontece, quando chegamos num final de estrada e percebemos que o CAMPING 3 IRMÃO, que procurávamos, já havia ficado para trás. Então retornamos e adentramos num sítio, onde havia uma placa, mas o tal camping parecia mesmo apenas um espaço espalhado pelo pasto das vacas.
( Camping 3 Irmãos)
Já sabíamos do preço, que também beirava o ridículo, mas diante das instalações medíocres, os 70 reais cobrados pelo camping, beirou a extorsão, mas não havia como voltar atrás, a noite caiu sobre o vale e o jeito foi nos ajeitarmos com as vaquinhas, num pasto cravado de bostas, mas pelo menos já estávamos na entrada do Parque Nacional, o que nos ajudaria muito em questão de logística.
Aqui eu preciso fazer um parêntese para explicar porque viemos parar nesse lugar: Dentro do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, está o magnífico RIO SALOBRA, mas apesar de ser um parque que deveria pertencer ao cidadão, ele foi entregue quase que totalmente a iniciativa privada, então para fazer algo lá, você precisa contratar os serviços da ECO SERRANA PARQUE , que tem vários roteiros e para fazer o aquatreking , que é a caminhada pelo cânion , você vai ter que desembolsar entre 350 e 450 reais por meio dia de atividade, um valor tão surreal que a gente não iria pagar nem fudendo . Mas aí que está o pulo do gato desse roteiro, os moradores locais foram autorizados a guiar dentro do parque e o próprio dono do camping onde estávamos acampados é um desses guias e nos ofereceu um valor quase 4 vezes mais baratos que o da agencia, claro, sem as mordomias que eles ofereciam, mas o que nos interessava mesmo era o rio e o cânion, então fechamos o passeio para o outro dia pela manhã.
Do camping até o Rio Salobra, a distância não era maior que 1.500 metros, mesmo assim seguimos de carro até uma porteira fechada com cadeado e aberta pelo guia. Na verdade, a porteira demarca a propriedade da ECO SERRANA, mas deve haver um acordo de liberação aos guias locais. Estacionamos o veículo à sombra e nos pomos a caminhar, interceptamos a sede da empresa, contornamos pela esquerda e ganhamos a trilha que logo nos levou direto, não para o rio Salobra, mas para o seu afluente, o RIO LIMOEIRO.
O RIO LIMOEIRO é um rio muito transparente e de águas frias, mas a gente só se dá conta do espetáculo que estamos prestes a presenciar nessa jornada, quando, depois de descê-lo por alguns minutos, ele se encontra finalmente com o SALOBRA, que além de ser imensamente mais transparente que o Limoeiro, ainda tem uma água quente, talvez uma das poucas da região. Menos de 20 minutos de caminhada, subindo por dentro do rio, nossa jornada nos leva até o primeiro grande poço do rio Salobra e não é qualquer poço, é simplesmente um dos cartões de visita dessa linda caminhada, e é difícil até de acreditar que estamos diante de uma beleza absurda. A cor dá água do POÇO DAS BORBOLETAS, beira o surreal, o verde contrasta com as pedras claras do fundo do poço, onde as piraputangas passeiam de um lado para o outro, é hora de parar e esquecer da vida, aproveitar cada segundo naquele que me pareceu ser um dos rios mais belos do país, mas ainda sem saber que o melhor ainda estava por vir.
Abandonando o Poço das Borboletas, subimos o barranco e ganhamos a trilha sombreada. Aliás, é uma trilha toda demarcada, aberta e por vezes dotada de proteções de madeiras, tanto em algumas laterais como para conter possíveis erosões, até que uns 20 minutos depois interceptamos a CACHOIERINHA DAS PEDRAS, com poços verdes, permeados por uma água leitosa junto a pequena queda. Nos jogar para debaixo dela foi questão de tempo, ainda mais porque a temperatura se elevou bastante por estarmos perto do meio dia. Mas aqui ainda preciso fazer outro parêntese sobre os nomes dos lugares, porque me pareceu que cada nativo chama por um nome, já que faltou placas para identificar cada ponto daquele paraíso.
Voltando a trilha, alguns minutos nos levam a travessia do rio para sua margem direita de quem sobe e a travessia é feita sob a proteção de um CORDA que dá sustentação em dias de rio mais cheio, bem ao lado o POÇO CANA DOS MACACOS, onde já é possível notar que estamos adentrando para dentro do cânion pelo surgimento de alguns paredões rochosos, onde começamos a avançar por dentro da água, curtindo cada passo dado.
A caminhada segue sempre paralela ao rio e nossa próxima atração é um amontoado de grandes PEDRAS CALCÁRIAS, que acabam por contrastar com o verde intenso do poço que as cercam, onde mais uma cachoeirinha é um ótimo pretexto para uma nova parada. Aliás, nessa parte do rio Salobra, não encontraremos grandes quedas, mas nem precisa porque o cenário vai simplesmente nos empurrando cada vez mais para um mundo surpreendente.
Mais uns 10 minutos de caminhada e os olhos começam a enxergar um verde meio azulado, o cérebro começa a dar uma bugada com a mudança das cores do rio, até que no meio da trilha, um marco divisório marca definitivamente nossa entrada na área do PARQUE NACIONAL DA SERRA DA BODOQUENA. Logo em seguida, voltamos a cruzar o rio para margem direita, para pegarmos a CURVA DO JERICÓ, onde paredões rochosos represam um poço qualhado de peixes.
A partir daí , as MURALHAS DO CÂNION se tornam cada vez mais imponente, vão se erguendo majestosas e talvez sejam essas que alguns também deram o nome de MURALHAS DE JERICÓ, mas o certo é que o cenário se transforma e assim que as muralhas vão ficando para trás, o rio simplesmente se torna AZUL, que contrasta com o verde da floresta, logo depois de atravessarmos novamente o rio para a margem direita nos valendo de mais uma corda e tropeçarmos com a galera que desce o rio de caiaque, aí foi hora de parar novamente, para mais um banho e comer alguma coisa.
A caminha vai seguindo e incontáveis poços vão surgindo, cada um mais deslumbrante que o outro, alguns de um verde claro, mas outros tão azuis que chega doer os olhos , mas um em especial nos desconserta de uma tal maneira, que somos obrigados a nos deter e prestar reverencia , saltando para dentro dele de cima de uma grande pedra. É um poço profundo e ficamos por mais de meia hora nadando até cansar e mesmo que os nativos o chamem de POÇO DO JACARÉ, não conseguir saber de que jacaré estavam falando. Assim que voltamos para a trilha, cruzamos o rio novamente e o guia nos diz que agora estávamos cruzando pelo POÇO DO JERICÓ , aí entendi que tríade estava formada , curva, muralha e poço acabara de ficar para trás.
A nossa jornada vai encaminhado para o final do roteiro, vamos cruzando o rio com a água pela cintura, passando por outros poços surreais, até que o terreno nos empurra para a margem esquerda, onde um grande paredão parece nos fechar a passagem, mas que na verdade é só uma curva do rio e do outro lado um paredão que o guia nos disse haver uma grande caverna suspensa, que o parque está se preparando para abrir ao turismo. Há uma pequena queda d’água que nos sopraram como CACHOIERA DA GRUTA, mas desconfio desses nomes, como falei, parece que cada local resolveu dar um nome diferente para os lugares.
O nosso passeio pelos cânions do Rio Salobra só vai até aqui, foram três horas subindo o rio lentamente e agora vamos retornar, aproveitando tudo novamente, nadando, boiando, nos jogando em cada poço colorido e certamente dá para afirmar que esse rio figura entre os mais belos cursos d’água do país e sem não for muito exagero, estará entro os mais bonitos do mundo, um paraíso ainda a ser desconhecido no coração do centro-oeste do Brasil.
Quando abandonamos o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, naquela mesma tarde e voltamos para cidade, eu não conseguia tirar aquele lugar da minha cabeça, tal foi o impacto que ele causou na gente. Mas a viagem precisava seguir, então rumamos para Corumbá porque eu ainda sonhava em atravessar a ESTRADA PARQUE DO PANTANAL SUL MATOGROSSENSE, o que acabamos fazendo nos próximos dois dias, mas infelizmente tudo estava muito seco e acabamos não aproveitando muito o passeio, apesar de termos cruzado o Rio Paraguai e o Rio Miranda e até parei para pescar em um deles, mas quando retornamos, o nosso carro quebrou perto da cidade de Miranda e tivemos que ficar mais um dia para os reparos. Foi aí que a minha esposa resolveu fazer uma proposta, quando eu já pensava em bater em retirada para minha casa, ela queria voltar ao Rio Salobra, mas não para refazer a trilha, mas para ficar hospedada em uns refúgios-camping que fica mais abaixo, fora do Parque Nacional.
E lá fomos nós, enfrentar novamente aquela estradinha empoeirada, mesmo assim, felizes e ansiosos para novamente podermos voltar ao Rio Salobra. Quando chegamos à bifurcação que nos levaria novamente ao camping 3 Irmãos, pegamos para a esquerda e em mais meia dúzia de quilômetros, interceptamos o REFÚGIO CANAÃ, uma propriedade a beira do Salobra, que além de camping, também oferece hospedagens. Não posso negar, tudo era bem organizado, o camping impecável, que além disso, oferecia várias vantagens, como tirolesa, boias e coletes salva-vidas, além de quadra de areia, tudo incluído no valor da diária do camping, que obviamente, era muito cara, mas os caras têm o privilégio de abrigar um dos rios mais bonitos do país, então pagar 90 reais pela diária com tudo incluído, até que me pareceu justo, pelo menos na baixa temporada.
E essa parte do RIO SALOBRA, não nos decepcionou, porque o rio era tão bonito quanto o cânion, e o poço principal, onde despenca quem resolve saltar na tirolesa, era simplesmente um encanto, onde vários peixes enormes desfilavam o dia todo. Passamos 2 dias acampados no refúgio, agraciados com a companhia de dezenas de araras selvagens e outros bichos do Pantanal, descendo o rio de boia e nadando até descolar a pele do corpo.
( Refúgio CANAÃ)
Depois disso, retornamos para São Paulo, mas antes, ainda passamos mais um dia num camping à beira do Rio Paraná, na cidade de Presidente Epitácio, outra joia paulista, mais um dos lugares que nos conquistou pela simplicidade e pela grandiosidade de sua paisagem, à beira de um rio que mais parecia um mar, inclusive com praia e tudo.
( Rio Paraná, Pres. Epitácio)
Claro que a região de BONITO, tinha muito mais a oferecer, mas é uma pena que num país onde seus cidadãos precisam se superar a cada dia para continuar sobrevivendo dignamente, tenhamos um lugar tão espetacular, mas que está renegado apenas aos mais abastados, uma discriminação absurda contra o nosso próprio povo, inclusive, conhecemos vários nativos que jamais puderam conhecer seu próprio quintal. Na minha modesta opinião, nenhuma atração natural no pais deveria custar mais que uma entrada num Parque Nacional, mesmo sendo em área particular. Em visita ao Equador esse ano, frequentamos os Parques Nacionais daquele país, sem pagar um mísero centavo, mesmo sendo estrangeiros, porque lá, as áreas naturais pertencem ao povo e mesmo as atrações em areais particulares, os custos são muito acessíveis à todos. Enfim, levaram-se 30 anos para que eu pudesse finalmente botar meus olhos nessa região, mas de todos os lugares, o CÃNION DO RIO SALOBRA foi o lugar que vou guardar na memória e fico aqui, torcendo para que um dia lugares como esse, seja acessível para cada cidadão desse país.
Divanei, Maio - 2025
Publicado em 02/10/2025 14:09
Realizada em 22/05/2025
Editado por DIVANEI