Iniciamos nossa viagem com destino pré programado à Salinas, em Nova Friburgo, RJ, com a intenção de escalamos primeiramente a CERJ, na Pedra do Capacete, no PETP (Parque Estadual dos Três Picos). Mas como a previsão começou a mudar, trazendo chuva para a região, decidimos tocar direto para Cachoeiro do Itapemirim, que seria nosso próximo destino de nossa Rock Trip pelo ES e RJ.
Nossa aventura já começou com a saga de caçar um pernoite descente após 1.000 km percorridos de carro entre SP/ES.
Enquanto eu dirigia, Takashi negociava nosso descanso na Pousada Regina. Como chegamos lá após o horário limite do check in, demos com a cara na porta. Estava tudo fechado e com as luzes apagadas. Insistimos em ligações e infinitos apertos no botão do interfone. Mas foi em vão. Saímos a procurar pela web pousadas locais. Cheguei até pedir recomendação para um motoca parado perto de nós. Fomos em busca da 2ª tentativa. Encontramos uma pousada com os portões abertos, luzes apagadas, recepção vazia, e sem sinal de vida humana naquele recinto (apelidamos de Pousada Fantasma, rs). Batemos em retirada. Na 3ª tentativa, por ligação, um homem nos atendeu e disse que nos receberia naquele horário, que já beirava às 22h. Nos acomodamos, tomamos banho, chamamos um bom rango no ifood e, depois de encher nossos buchos, capotamos no sono.
Manhã de 31 de maio, de 2026...
O café da manhã que a pousada oferecia era: café adoçado e pão com manteiga. Nada mais! Como sou comilão, devorei 3 deles (ciente de que gastaria energia naquele dia), Takashi comeu 2 , e a Su comeu 1, talvez. Mas torceu o bico para o café que já vinha bem adoçado, e não o tomou. Incluí dois lanches que eu tinha pronto (pão de forma com omelete de ovo + frango) meu padrão)). Eles também colocaram dentro da mochila algumas coisas, incluindo frutas, para comermos durante o dia. E saímos do Hotel Podrão Real para um dia de passeio leve, para aclimatarmos no território Capixaba. Mas, lembrando aqui, que um trio que sai com duas cordas de 70 metros sai pra apimentar sua aventura. Não? rs. E, junto a somatória de anos de experiência em escaladas de cada um, no final totaliza quase 30 anos de subidas em montanhas. Não se imagina que algo pode dar ruim como deu.
No carro, com o croqui de conquista em mãos, o Livro de Escaladas Capixaba e algumas informações escassas que se vê pela web, colocamos a escalada na Freira como complemento para o dia. Uma escalada de pouquíssimas repetições, com sua conquista realizada pela UNICERJ, datada no ano de 1.948.
Seguimos pela longa e ingrime estrada calçada com blocos de cimento, que acaba em terra batida em direção ao Frade, que tem seu acesso por uma trilha curtinha na face sul. Faltando uns 100 metros para chegar onde iríamos parar o carro avistamos uma numerosa fila de carros estacionados ao canto direito da ingrime estrada que leva ao Monumento Natural: O Frade e a Freira. Estacionamos.
O grupo saiu adiantado, e minutos depois também começamos a caminhar. Ao terminar a trilha, logo se vê uma das imagens mais famosas que se tem do lugar.
Sabíamos do vara mato espinhento que existe no col entre as duas pedras. No relato do Naoki Arima ele recomenda o uso de luvas e facão para abrir o caminho até a Freira. Mas como varar mato já é algo que eu estava acostumado a fazer, após passar por longos anos explorando na Serra do Mar Paulista em expedições que normalmente duravam 4 dias na selva. E nessas expedições não usamos facão para minimizar acidentes. Então puxei pra mim a responsa de abrir a mata no peito. O Takashi voltou ao carro apenas para buscar os 3 pares de luvas. Enquanto isso, Su + VG = fotos, fotos e mais fotos rs.
Quando ele retornou, seguimos assistindo a fila indiana que subia o rampão nas costas do Frade, lembrando muito como se faz a subida ao Escalavrado, em Guapimirim/RJ.O Sr que conduzia o grupo se chama Dori, e foi de uma gentileza sem igual ao nos oferecer sua corda já instalada para que subissemos sem precisar usar a nossa. Serviu como um belo corrimão/linha de vida em uma linha que segue graduada em I, II e um crux de 3°, talvez. Um verdadeiro passeio sobre a crista da montanha.
No cume...
Às bordas do precipício tiramos algumas fotos e fomos ao ponto de ancoragem admirar um pouco mais a vista. Parecia que os P's instalados no chão clamavam para serem usados. Foi aí que começou:
_ bora descer? Eu e a Su.
_ vou nada. - respondia o Takashi.
_ bora, Taka. - Insistia fervorosamente a garota;
_ não vou não. Isso não vai dar certo. Tô com um pressentimento estranho; - mas foi convencido, rs
E, mesmo sabendo que aquele rapel era caminho de mão única, sem a possibilidade de retorno por ali, nem escalando (pois não tem vias de escalada), resolvemos continuar com a aposta de seguir pra baixo. Sempre pra baixo.
Suemi assumiu a frente do rapel e desceu pedindo para que eu não deixasse nosso amigo descer de 3°. Pois havia a chance de ele desistir. Mas alguma coisa naquele lugar fez com quem ele mudasse repentinamente de ideia, e mesmo aguardando para descer em terceiro deu sua palavra que iria junto.
Conversávamos com a Su por rádio, já que a mesma sumiu de nossas vistas em um rapel vertiginoso. Ela parou em uma parada dupla (em P), em um platô e pediu para descer o próximo (eu). Logo em seguida veio o mestre, girando levemente naquele rapel. Unimos nossas cordas de 70 metros na próxima parada dupla (em P), e descemos por toda a extensão. Cordas recolhidas e passadas sobre os ombros, era hora de conhecer o vara mato em território Capixaba.
Começou leve, mas apenas o suficiente para que os três estivem inseridos, embrenhado dentre o verde (nem 10 metros, rs). Logo a inclinação do COL foi ganhando uma vegetação cada vez mais densa, um solo acidentado recheado de pedras soltas e terra seca que nos faziam escorregar com facilidade. Alguns tombos foram inevitáveis. Quando a mata se apresentou intransponível era hora de enfrentarmos os espinhos que grudavam na roupa, arranhavam braços e pescoço (mesmos cobertos), e nos faziam soltar alguns palavrões de vez em quando. Foi um bom trecho se enroscando nos cipós espinhentos, hora rastejando no chão para passar por baixo deles, hora lutando com força, afastando-os com as mãos, andando sobre tufos suspensos. E assim os vencemos.
Chegando na base da via Graciliano Ramos, sem perder mais tempo, nos equipamos. Takashi disse que ficaria por ali mesmo, assistindo e fazendo registros. Peguei a seg da Su enquanto ela costurava estribo após estribo, desenvolvendo em meio a zela de agarras quebrando daquele A1. Parcelamos tamanha dificuldade entre nós. Quando assumi a dianteira entendi o que ela estava passando. Pouco antes do meio da escalada o Takashi bateu um rádio:
- Gente, vou voltar no vara mato e procurar a linha de rapel, pra adiantar nossa descida.
Lá do alto não dava para vê-lo. Via rádio eu pedia para balançar os braços, só assim eu o localizava. Vez ou outra ele avisava que não estava encontrando. Até que veio o alerta:
- Gente, só temos ±1h30 de luz do dia. Seria bom vocês descerem para ajudar a procurar.
Sem titubear, iniciamos nossa descida enquanto ouvíamos alguns palavrões em alto é bom tom vindo da mata, rs.
Já em solo firme também fomos a procura da suposta rota de rapel que nos tiraria daquele lugar.
Para nossa sorte, o sinal de telefonia tradicional chegava muito bem, e com ela a internet com qualidade 5G. Takashi fez contato com o Naoki Arima - escalador conceituado e respeitado no Espírito Santo e a nível nacional no mundo da escalada. E ele respondeu de imediato nos dando uma atenção admirável. Dentro de uma longa conversa por mensagens no whatsapp, incluindo um bom suporte, ele se dedicava a atender às nossas dificuldades de encontrarmos a saída dali, mas achou sensato nossa decisão de encerrarmos as atividades ao final do dia e nos abrigarmos.
Já era pré inverno. Os dias são mais curtos, e o crepúsculo chegou rápido. Depois de bater muita cabeça farejando a ancoragem tivemos que acender nossas lanternas e varar a vegetação no escuro de um lado para outro. No col, nosso amigo Taka já começava a entregar os pontos, se conformando que teríamos que passar o veneno de passar a noite ali, ao relento da montanha. O que já imaginávamos que não seria nada agradável. Pois não tínhamos barracas, sacos de dormir, nem saco aluminizado de emergência.
Ainda insisti mais um tanto, me pendurei em árvores, desci um pouco da pirambeira oeste para tentar encontrar ao menos uma linha segura de árvores para fazer incontáveis rapéis até a base da Freira, e lá varar um longo trecho de mata até a estradinha de terra mais próxima, que avistamos lá do cume do Frade, e confirmando sua localização pelas fotos que tiramos lá do alto. Logo também me conformei que não teria um jeito seguro para sair dali no escuro. Me juntei aos dois, e por ali mesmo, largamos nossas tralhas ao chão sabendo que teríamos uma noite de cão, pois não tínhamos nada para nos aquecer, apenas a roupa do corpo: calças finas, segunda pele e corta vento furreca. Alimento e água já havia acabados ainda no final da tarde.
Começamos a cortar folhas grandes de uma espécie de palmeira que é abundante naquele Col, e com elas cobrimos uma grande pedra fazendo um abrigo em forma de caverna para nos protegermos do sereno que viria madrugada a dentro. Forrramos o chão também, mas o solo não tinha 1 metro quadrado se quer de parte plana. Com isso a inclinação nos fazia escorregar quando deitávamos, levando a zero as chances de conseguirmos dormir razoavelmente péssimos com pernilongos zunindo em nossos ouvidos.
Manhã de 01 de junho, de 2026...
Lembro de ver o celular às 04h30 da manhã. Até então não tinha pregado os olhos. Mas a partir dalí, vencido pelo cansaço, dormir por um curto período. Acordei encolhido e tremendo de frio. Levantei com um olho cerrado e outro meio aberto. Fui cambaleando em direção ao amigo Takashi:
_ sei que não é a melhor das situações, mas: feliz aniversário, meu amigo. A gente vai sair daqui!- sim, era aniversário dele!
O sol nasceu incrivelmente lindo, e nos enchendo ânimo, luz e direcionamento para sairmos dali por nossa conta. Essa era a intenção.
Rapidamente recolhemos nossas poucas coisas, estudamos um pouco mais o mapa e fotos para avaliarmos os abismos dos dois lados e partimos varando mato na direção a face leste da montanha, onde o Naoki dizia estar a rota de fuga. Procura daqui, procura dali, e nada.
Decidimos apostar em uma linha natural de vegetação com árvores grandes e estáveis mais coladas à Freira.
Takashi meiou a corda de 70m e abriu o 1° rapel (descemos em seguida). Repetimos o processo até a ancoragem natural seguinte (2° rapel) . Eu abri o terceiro rapel. E quando cheguei ao final da corda, e suspeitando do caminho a seguir, avisei:
_ não desçam. A vegetação acaba aqui.
E logo abaixo de onde parei se abria um abismo vertical beirando seus 300 metros de parede totalmente lisa.
Eu estava em um platô, seguro. Saí do sistema de rapel e andei para esquerda, onde pude confirmar a impossibilidade de prosseguirmos por ali.
Para voltar, iniciei uma escalada sem corda em linha reta para alcançar meus amigos (doce ilusão). Depois de subir em direção a uma laca que oferecia uma ótima oposição, tive que subir nela para continuar. Foi quando ela se mexeu e começou a descer devagar (meu coração veio na boca). Agarrei numa bromélia com a mão esquerda, subi o pé esquerdo "na cabeça" e montei num reglete. Fiz pouca força com o pé direito e o bloco que media aproximadamente 50x90cm desceu quicando penhasco abaixo.Tive que parar em um pequeno buraco/platô que cabiam meus pés com conforto, e tive que aguardar eles escalarem em travessia até uma outra árvore meio seca, fazer nova ancoragem e jogar a segunda ponta da corda para eu continuar a subir.
Juntos novamente, não podíamos parar de lutar. Peguei a ponta da corda e sai em uma escalada em livre diagonal muito exposta (E5/6?) podendo ser fatal)), à esquerda com o Taka me dando seg. Era a direção que avistamos ter a próxima linha de árvores/arbustos para iniciarmos uma suposta nova cordada. Mas o caminho era em meio a um "Slab" incerto, sem agarras ou regletes, apenas trabalho de pés em aderências duvidosas com uma espécie de "farofa" preta sobre o rampão que levava ao abismo. Algumas bromélias eram o sustento psicológico, ora sendo agarradas levemente para não serem arrancadas durante a escalada, ora "servia como proteção", pois eu passava a corda por cima delas "confiando" que se eu caísse elas me segurariam. Cheguei a passar o meio da corda, em uma esticada de 40 metros sem proteção alguma. De repente me deparo com um crux que não admitia erro. Se passasse não seria possível retornar caso fosse preciso. Foi quando o Taka percebeu minha dificuldade de ir além e alertou:
_ volta, VG. Não sabemos se as árvores/arbustos são confiáveis para ancoragem. Se você passar vai ser muito arriscado pra voltar, e se você cair, é uma queda gigantesca em pêndulo. Já passou a metade da corda. - disse aflito.
Nessa hora ele já economizava palavras, pois o sol que nasceu lindamente já nos castigava há tempos, e não tínhamos água desde o dia anterior. A boca colava ao falar.
Me juntei a eles. Cansado físico e psicologicamente passei a vez da guiada. A Su seguiu para oeste, guiando entre rocha e vegetação até retornarmos novamente ao col. Era hora de abandonar a face leste. Já se passavam 5h horas que estávamos ali, na busca por uma saída. A face oeste da montanha era a nova aposta. Chegando no selado, exaustos, mas seguros de si, cogitamos acionar os bombeiros. Via WhatsApp o Naoki concordava que já cabia sim um resgate. Pois nem ele acharia tal rota de fuga se ele estivesse lá naquela ocorrência, mesmo sendo ele quem criou em chapeleta simples, 9 anos antes, sua saída por conta própria daquela montanha. Alegava que supostamente o mato, terra e pedras já deveriam ter coberto o primeiro ponto.
Entre nós três, conversávamos coisas como:
_ esse é o momento decisivo. Se a gente arrisca descer à oeste, sem saber o que viria pela frente, gastaríamos mais 5h (total de 10h no dia), de tentativas em vão, e se fossemos obrigados a subir ao col novamente para chamar o resgate, eles não teriam mais tempo hábil, nem luz do sol para nos resgatar naquele mesmo dia. Passaríamos mais uma noite na montanha (e a previsão era de chuva sereva).
Frade 👆🏽 visto da Freira, com seus abismos laterais.
O consenso geral veio rapido, sem muito debate. Às 10h30, liguei 193, explicando a situação, enviando prints e localização para facilitar um socorro com aeronave, já que por terra seria quase impossível. Aguardamos contando histórias de outros resgates de helicóptero de outros amigos anos atrás em outras atividades. A base do corpo de bombeiros de Cachoeiro de Itapemirim ligava com uma certa frequência adicionando informações sobre a operação que já havia sido iniciada. Passadas 2h30 após o chamado escutamos o barulho das hélices aumentando lentamente. Eram nossos salvadores se aproximando da montanha em um "mosquito de ferro." ajeitamos rapidamente nossos mochilas nas costas e iniciamos um pequeno vara mato para acessar uma área razoável, mas aberta e segura, para nós e para eles.
Ligação:
_ Vagner, eles estão se aproximando. Se puder, acenem, balancem algo para facilitar a visualização de vocês. Falou a voz que telefonava do Copom.
Estávamos com corta-vento bastante coloridas., então começamos a chacoalhar vigorosamente enquanto a aeronave chegava cada vez mais perto de nós, que logo sobre nossas cabeças, passando direto, em um lindo e rápido rasante entre as duas pedras. Foi quando a emoção explodiu e tomou o rosto do nosso querido mestre em lágrimas. Logo o abraçamos, o confortando, dizendo que tinha acabado. Iríamos sair logo Dali.
" Mas, na verdade, a emoção era porque ele já ia ganhado um vôo de helicóptero no dia de seu aniversário. Inesquecível, rsrs."
Nova ligação:
_ Vagner, eles já viram vocês. Agora vão pousar a aeronave para ajeitar o cesto e subir novamente para remover vocês.
Passados ±20 minutos, visto de uma distância consideravelmente longe, víamos o helicóptero minúsculo com suas hélices começarando a girar e alçando vôo , erguendo o cesto em nossa direção.
Com a incrível perícia do comandante, o mosquito de ferro se agiganta a cada vez mais sobre nós, fazendo um barulho absurdo e levantando tudo que havia de terra e vegetação solta naquele pedaço do col.
Mesmo sendo indiscutivelmente hábil e capacitado para aquela situação, não foi fácil acertar o cesto numa proximidade segura para todos ali presente. O cesto enganchada em árvores e tombava com os dois socorristas que estavam lá dentro. Passadas algumas tentativas, amassando a vegetação, pulando sobre elas estando no cesto, os socorristas fizeram sinal de 2 com as mãos.
Taka e Su foram na primeira viagem enquanto eu e um dos bombeiros ficamos ancorados nas raízes mais fortes e sólidas que encontramos.
Conversei bastante com ele (Cândido). Que contou muitos casos de resgates vividos ali, incluindo dois deles trágicos.
Dois escaladores tentaram o mesmo feito que nós. Um deles vazou do rapel e caiu no abismo após emendar duas cordas de 70 metros e arriscar a descida de 140 metros.
O outro caso foi com outros dois que voavam de Paraglider e se chocaram com a Freira. Um deles (que veio a óbito) ficou grudado lá mesmo. Foi horrível fazer a remoção do corpo. Contou Cândido.
No segundo sobrevoo, com uma remoção mais rápida, subi no cesto junto com os dois heróis.
A vista das duas montanhas lá do alto era incrível. Eu fiquei boquiaberto com a magnitude da freira, e pude entender o tamanho da encrenca e perigo que seria sair de lá por conta própria.
Em terra firme uma equipe dividida em dois carros também estava a postos para uma investida terrestre se fosse preciso.
Eles nos recepcionaram com dois galões de 5L cada, com água gelada, e barrinhas de cereais.
Depois de muitos agradecimentos aos nossos heróis, contos explicativos sobre nosso perrengue e várias afirmações de que tomamos a decisão correta ao aciona-los. Sem a necessidade de irmos ao PS, fomos conduzidos gentilmente ao nosso ponto de partida, encerrando um episódio que poderia findar tragicamente. Mas, graças a Deus e aos bombeiros, terminou bem após o ato heróico da equipe NOTAER 08 e aos que vieram por terra.
Na manhã, nos deslocando para outra cidade, passamos em frente as montanhas, que estavam 90% cobertas por nuvens, pela BR-101 molhada. Choveu forte durante a noite, e caiu até granizo de uma tempestade com raios e trovões próximos dali.
Se tivéssemos que passar aquele noite lá, ao relento, poderia ser trágico!
O caso repercutiu rapidamente, e com isso, claro, o julgamento inflamou nas redes sociais. Mas, algumas coisas, incluindo acolhimentos, vieram apenas para somar. exemplo: escaladores locais nos procuram para informar que, no ano de 2020, houve um deslizamento de pedra ali no col que desconfigurou a linha de saída criando uma verdadeira arapuca para quem se arrisca descer até lá.
Após toda essa aventura, estando todos a salvo, agradecemos imensamente ao Naoki Arima - por toda atenção e suporte, na tentativa de nos ajudar. E aos nossos heróis do NOTAER 08, que nossos resgatou com a aeronave, e toda a equipe dos bombeiros, que vieram com suporte por terra.
Iniciamos nossa viagem com destino pré programado à Salinas, em Nova Friburgo, RJ, com a intenção de escalamos primeiramente a CERJ, na Pedra do Capacete, no PETP (Parque Estadual dos Três Picos). Mas como a previsão começou a mudar, trazendo chuva para a região, decidimos tocar direto para Cachoeiro do Itapemirim, que seria nosso próximo destino de nossa Rock Trip pelo ES e RJ.
Nossa aventura já começou com a saga de caçar um pernoite descente após 1.000 km percorridos de carro entre SP/ES.
Enquanto eu dirigia, Takashi negociava nosso descanso na Pousada Regina. Como chegamos lá após o horário limite do check in, demos com a cara na porta. Estava tudo fechado e com as luzes apagadas. Insistimos em ligações e infinitos apertos no botão do interfone. Mas foi em vão. Saímos a procurar pela web pousadas locais. Cheguei até pedir recomendação para um motoca parado perto de nós. Fomos em busca da 2ª tentativa. Encontramos uma pousada com os portões abertos, luzes apagadas, recepção vazia, e sem sinal de vida humana naquele recinto (apelidamos de Pousada Fantasma, rs). Batemos em retirada. Na 3ª tentativa, por ligação, um homem nos atendeu e disse que nos receberia naquele horário, que já beirava às 22h. Nos acomodamos, tomamos banho, chamamos um bom rango no ifood e, depois de encher nossos buchos, capotamos no sono.
Manhã de 31 de maio, de 2026...
O café da manhã que a pousada oferecia era: café adoçado e pão com manteiga. Nada mais! Como sou comilão, devorei 3 deles (ciente de que gastaria energia naquele dia), Takashi comeu 2 , e a Su comeu 1, talvez. Mas torceu o bico para o café que já vinha bem adoçado, e não o tomou. Incluí dois lanches que eu tinha pronto (pão de forma com omelete de ovo + frango) meu padrão)). Eles também colocaram dentro da mochila algumas coisas, incluindo frutas, para comermos durante o dia. E saímos do Hotel Podrão Real para um dia de passeio leve, para aclimatarmos no território Capixaba. Mas, lembrando aqui, que um trio que sai com duas cordas de 70 metros sai pra apimentar sua aventura. Não? rs. E, junto a somatória de anos de experiência em escaladas de cada um, no final totaliza quase 30 anos de subidas em montanhas. Não se imagina que algo pode dar ruim como deu.
No carro, com o croqui de conquista em mãos, o Livro de Escaladas Capixaba e algumas informações escassas que se vê pela web, colocamos a escalada na Freira como complemento para o dia. Uma escalada de pouquíssimas repetições, com sua conquista realizada pela UNICERJ, datada no ano de 1.948.
Seguimos pela longa e ingrime estrada calçada com blocos de cimento, que acaba em terra batida em direção ao Frade, que tem seu acesso por uma trilha curtinha na face sul. Faltando uns 100 metros para chegar onde iríamos parar o carro avistamos uma numerosa fila de carros estacionados ao canto direito da ingrime estrada que leva ao Monumento Natural: O Frade e a Freira. Estacionamos.
O grupo saiu adiantado, e minutos depois também começamos a caminhar. Ao terminar a trilha, logo se vê uma das imagens mais famosas que se tem do lugar.
Sabíamos do vara mato espinhento que existe no col entre as duas pedras. No relato do Naoki Arima ele recomenda o uso de luvas e facão para abrir o caminho até a Freira. Mas como varar mato já é algo que eu estava acostumado a fazer, após passar por longos anos explorando na Serra do Mar Paulista em expedições que normalmente duravam 4 dias na selva. E nessas expedições não usamos facão para minimizar acidentes. Então puxei pra mim a responsa de abrir a mata no peito. O Takashi voltou ao carro apenas para buscar os 3 pares de luvas. Enquanto isso, Su + VG = fotos, fotos e mais fotos rs.
Quando ele retornou, seguimos assistindo a fila indiana que subia o rampão nas costas do Frade, lembrando muito como se faz a subida ao Escalavrado, em Guapimirim/RJ.O Sr que conduzia o grupo se chama Dori, e foi de uma gentileza sem igual ao nos oferecer sua corda já instalada para que subissemos sem precisar usar a nossa. Serviu como um belo corrimão/linha de vida em uma linha que segue graduada em I, II e um crux de 3°, talvez. Um verdadeiro passeio sobre a crista da montanha.
No cume...
Às bordas do precipício tiramos algumas fotos e fomos ao ponto de ancoragem admirar um pouco mais a vista. Parecia que os P's instalados no chão clamavam para serem usados. Foi aí que começou:
_ bora descer? Eu e a Su.
_ vou nada. - respondia o Takashi.
_ bora, Taka. - Insistia fervorosamente a garota;
_ não vou não. Isso não vai dar certo. Tô com um pressentimento estranho; - mas foi convencido, rs
E, mesmo sabendo que aquele rapel era caminho de mão única, sem a possibilidade de retorno por ali, nem escalando (pois não tem vias de escalada), resolvemos continuar com a aposta de seguir pra baixo. Sempre pra baixo.
Suemi assumiu a frente do rapel e desceu pedindo para que eu não deixasse nosso amigo descer de 3°. Pois havia a chance de ele desistir. Mas alguma coisa naquele lugar fez com quem ele mudasse repentinamente de ideia, e mesmo aguardando para descer em terceiro deu sua palavra que iria junto.
Conversávamos com a Su por rádio, já que a mesma sumiu de nossas vistas em um rapel vertiginoso. Ela parou em uma parada dupla (em P), em um platô e pediu para descer o próximo (eu). Logo em seguida veio o mestre, girando levemente naquele rapel. Unimos nossas cordas de 70 metros na próxima parada dupla (em P), e descemos por toda a extensão. Cordas recolhidas e passadas sobre os ombros, era hora de conhecer o vara mato em território Capixaba.
Começou leve, mas apenas o suficiente para que os três estivem inseridos, embrenhado dentre o verde (nem 10 metros, rs). Logo a inclinação do COL foi ganhando uma vegetação cada vez mais densa, um solo acidentado recheado de pedras soltas e terra seca que nos faziam escorregar com facilidade. Alguns tombos foram inevitáveis. Quando a mata se apresentou intransponível era hora de enfrentarmos os espinhos que grudavam na roupa, arranhavam braços e pescoço (mesmos cobertos), e nos faziam soltar alguns palavrões de vez em quando. Foi um bom trecho se enroscando nos cipós espinhentos, hora rastejando no chão para passar por baixo deles, hora lutando com força, afastando-os com as mãos, andando sobre tufos suspensos. E assim os vencemos.
Chegando na base da via Graciliano Ramos, sem perder mais tempo, nos equipamos. Takashi disse que ficaria por ali mesmo, assistindo e fazendo registros. Peguei a seg da Su enquanto ela costurava estribo após estribo, desenvolvendo em meio a zela de agarras quebrando daquele A1. Parcelamos tamanha dificuldade entre nós. Quando assumi a dianteira entendi o que ela estava passando. Pouco antes do meio da escalada o Takashi bateu um rádio:
- Gente, vou voltar no vara mato e procurar a linha de rapel, pra adiantar nossa descida.
Lá do alto não dava para vê-lo. Via rádio eu pedia para balançar os braços, só assim eu o localizava. Vez ou outra ele avisava que não estava encontrando. Até que veio o alerta:
- Gente, só temos ±1h30 de luz do dia. Seria bom vocês descerem para ajudar a procurar.
Sem titubear, iniciamos nossa descida enquanto ouvíamos alguns palavrões em alto é bom tom vindo da mata, rs.
Já em solo firme também fomos a procura da suposta rota de rapel que nos tiraria daquele lugar.
Para nossa sorte, o sinal de telefonia tradicional chegava muito bem, e com ela a internet com qualidade 5G. Takashi fez contato com o Naoki Arima - escalador conceituado e respeitado no Espírito Santo e a nível nacional no mundo da escalada. E ele respondeu de imediato nos dando uma atenção admirável. Dentro de uma longa conversa por mensagens no whatsapp, incluindo um bom suporte, ele se dedicava a atender às nossas dificuldades de encontrarmos a saída dali, mas achou sensato nossa decisão de encerrarmos as atividades ao final do dia e nos abrigarmos.
Já era pré inverno. Os dias são mais curtos, e o crepúsculo chegou rápido. Depois de bater muita cabeça farejando a ancoragem tivemos que acender nossas lanternas e varar a vegetação no escuro de um lado para outro. No col, nosso amigo Taka já começava a entregar os pontos, se conformando que teríamos que passar o veneno de passar a noite ali, ao relento da montanha. O que já imaginávamos que não seria nada agradável. Pois não tínhamos barracas, sacos de dormir, nem saco aluminizado de emergência.
Ainda insisti mais um tanto, me pendurei em árvores, desci um pouco da pirambeira oeste para tentar encontrar ao menos uma linha segura de árvores para fazer incontáveis rapéis até a base da Freira, e lá varar um longo trecho de mata até a estradinha de terra mais próxima, que avistamos lá do cume do Frade, e confirmando sua localização pelas fotos que tiramos lá do alto. Logo também me conformei que não teria um jeito seguro para sair dali no escuro. Me juntei aos dois, e por ali mesmo, largamos nossas tralhas ao chão sabendo que teríamos uma noite de cão, pois não tínhamos nada para nos aquecer, apenas a roupa do corpo: calças finas, segunda pele e corta vento furreca. Alimento e água já havia acabados ainda no final da tarde.
Começamos a cortar folhas grandes de uma espécie de palmeira que é abundante naquele Col, e com elas cobrimos uma grande pedra fazendo um abrigo em forma de caverna para nos protegermos do sereno que viria madrugada a dentro. Forrramos o chão também, mas o solo não tinha 1 metro quadrado se quer de parte plana. Com isso a inclinação nos fazia escorregar quando deitávamos, levando a zero as chances de conseguirmos dormir razoavelmente péssimos com pernilongos zunindo em nossos ouvidos.
Manhã de 01 de junho, de 2026...
Lembro de ver o celular às 04h30 da manhã. Até então não tinha pregado os olhos. Mas a partir dalí, vencido pelo cansaço, dormir por um curto período. Acordei encolhido e tremendo de frio. Levantei com um olho cerrado e outro meio aberto. Fui cambaleando em direção ao amigo Takashi:
_ sei que não é a melhor das situações, mas: feliz aniversário, meu amigo. A gente vai sair daqui!- sim, era aniversário dele!
O sol nasceu incrivelmente lindo, e nos enchendo ânimo, luz e direcionamento para sairmos dali por nossa conta. Essa era a intenção.
Rapidamente recolhemos nossas poucas coisas, estudamos um pouco mais o mapa e fotos para avaliarmos os abismos dos dois lados e partimos varando mato na direção a face leste da montanha, onde o Naoki dizia estar a rota de fuga. Procura daqui, procura dali, e nada.
Decidimos apostar em uma linha natural de vegetação com árvores grandes e estáveis mais coladas à Freira.
Takashi meiou a corda de 70m e abriu o 1° rapel (descemos em seguida). Repetimos o processo até a ancoragem natural seguinte (2° rapel) . Eu abri o terceiro rapel. E quando cheguei ao final da corda, e suspeitando do caminho a seguir, avisei:
_ não desçam. A vegetação acaba aqui.
E logo abaixo de onde parei se abria um abismo vertical beirando seus 300 metros de parede totalmente lisa.
Eu estava em um platô, seguro. Saí do sistema de rapel e andei para esquerda, onde pude confirmar a impossibilidade de prosseguirmos por ali.
Para voltar, iniciei uma escalada sem corda em linha reta para alcançar meus amigos (doce ilusão). Depois de subir em direção a uma laca que oferecia uma ótima oposição, tive que subir nela para continuar. Foi quando ela se mexeu e começou a descer devagar (meu coração veio na boca). Agarrei numa bromélia com a mão esquerda, subi o pé esquerdo "na cabeça" e montei num reglete. Fiz pouca força com o pé direito e o bloco que media aproximadamente 50x90cm desceu quicando penhasco abaixo.Tive que parar em um pequeno buraco/platô que cabiam meus pés com conforto, e tive que aguardar eles escalarem em travessia até uma outra árvore meio seca, fazer nova ancoragem e jogar a segunda ponta da corda para eu continuar a subir.
Juntos novamente, não podíamos parar de lutar. Peguei a ponta da corda e sai em uma escalada em livre diagonal muito exposta (E5/6?) podendo ser fatal)), à esquerda com o Taka me dando seg. Era a direção que avistamos ter a próxima linha de árvores/arbustos para iniciarmos uma suposta nova cordada. Mas o caminho era em meio a um "Slab" incerto, sem agarras ou regletes, apenas trabalho de pés em aderências duvidosas com uma espécie de "farofa" preta sobre o rampão que levava ao abismo. Algumas bromélias eram o sustento psicológico, ora sendo agarradas levemente para não serem arrancadas durante a escalada, ora "servia como proteção", pois eu passava a corda por cima delas "confiando" que se eu caísse elas me segurariam. Cheguei a passar o meio da corda, em uma esticada de 40 metros sem proteção alguma. De repente me deparo com um crux que não admitia erro. Se passasse não seria possível retornar caso fosse preciso. Foi quando o Taka percebeu minha dificuldade de ir além e alertou:
_ volta, VG. Não sabemos se as árvores/arbustos são confiáveis para ancoragem. Se você passar vai ser muito arriscado pra voltar, e se você cair, é uma queda gigantesca em pêndulo. Já passou a metade da corda. - disse aflito.
Nessa hora ele já economizava palavras, pois o sol que nasceu lindamente já nos castigava há tempos, e não tínhamos água desde o dia anterior. A boca colava ao falar.
Me juntei a eles. Cansado físico e psicologicamente passei a vez da guiada. A Su seguiu para oeste, guiando entre rocha e vegetação até retornarmos novamente ao col. Era hora de abandonar a face leste. Já se passavam 5h horas que estávamos ali, na busca por uma saída. A face oeste da montanha era a nova aposta. Chegando no selado, exaustos, mas seguros de si, cogitamos acionar os bombeiros. Via WhatsApp o Naoki concordava que já cabia sim um resgate. Pois nem ele acharia tal rota de fuga se ele estivesse lá naquela ocorrência, mesmo sendo ele quem criou em chapeleta simples, 9 anos antes, sua saída por conta própria daquela montanha. Alegava que supostamente o mato, terra e pedras já deveriam ter coberto o primeiro ponto.
Entre nós três, conversávamos coisas como:
_ esse é o momento decisivo. Se a gente arrisca descer à oeste, sem saber o que viria pela frente, gastaríamos mais 5h (total de 10h no dia), de tentativas em vão, e se fossemos obrigados a subir ao col novamente para chamar o resgate, eles não teriam mais tempo hábil, nem luz do sol para nos resgatar naquele mesmo dia. Passaríamos mais uma noite na montanha (e a previsão era de chuva sereva).
Frade 👆🏽 visto da Freira, com seus abismos laterais.
O consenso geral veio rapido, sem muito debate. Às 10h30, liguei 193, explicando a situação, enviando prints e localização para facilitar um socorro com aeronave, já que por terra seria quase impossível. Aguardamos contando histórias de outros resgates de helicóptero de outros amigos anos atrás em outras atividades. A base do corpo de bombeiros de Cachoeiro de Itapemirim ligava com uma certa frequência adicionando informações sobre a operação que já havia sido iniciada. Passadas 2h30 após o chamado escutamos o barulho das hélices aumentando lentamente. Eram nossos salvadores se aproximando da montanha em um "mosquito de ferro." ajeitamos rapidamente nossos mochilas nas costas e iniciamos um pequeno vara mato para acessar uma área razoável, mas aberta e segura, para nós e para eles.
Ligação:
_ Vagner, eles estão se aproximando. Se puder, acenem, balancem algo para facilitar a visualização de vocês. Falou a voz que telefonava do Copom.
Estávamos com corta-vento bastante coloridas., então começamos a chacoalhar vigorosamente enquanto a aeronave chegava cada vez mais perto de nós, que logo sobre nossas cabeças, passando direto, em um lindo e rápido rasante entre as duas pedras. Foi quando a emoção explodiu e tomou o rosto do nosso querido mestre em lágrimas. Logo o abraçamos, o confortando, dizendo que tinha acabado. Iríamos sair logo Dali.
" Mas, na verdade, a emoção era porque ele já ia ganhado um vôo de helicóptero no dia de seu aniversário. Inesquecível, rsrs."
Nova ligação:
_ Vagner, eles já viram vocês. Agora vão pousar a aeronave para ajeitar o cesto e subir novamente para remover vocês.
Passados ±20 minutos, visto de uma distância consideravelmente longe, víamos o helicóptero minúsculo com suas hélices começarando a girar e alçando vôo , erguendo o cesto em nossa direção.
Com a incrível perícia do comandante, o mosquito de ferro se agiganta a cada vez mais sobre nós, fazendo um barulho absurdo e levantando tudo que havia de terra e vegetação solta naquele pedaço do col.
Mesmo sendo indiscutivelmente hábil e capacitado para aquela situação, não foi fácil acertar o cesto numa proximidade segura para todos ali presente. O cesto enganchada em árvores e tombava com os dois socorristas que estavam lá dentro. Passadas algumas tentativas, amassando a vegetação, pulando sobre elas estando no cesto, os socorristas fizeram sinal de 2 com as mãos.
Taka e Su foram na primeira viagem enquanto eu e um dos bombeiros ficamos ancorados nas raízes mais fortes e sólidas que encontramos.
Conversei bastante com ele (Cândido). Que contou muitos casos de resgates vividos ali, incluindo dois deles trágicos.
Dois escaladores tentaram o mesmo feito que nós. Um deles vazou do rapel e caiu no abismo após emendar duas cordas de 70 metros e arriscar a descida de 140 metros.
O outro caso foi com outros dois que voavam de Paraglider e se chocaram com a Freira. Um deles (que veio a óbito) ficou grudado lá mesmo. Foi horrível fazer a remoção do corpo. Contou Cândido.
No segundo sobrevoo, com uma remoção mais rápida, subi no cesto junto com os dois heróis.
A vista das duas montanhas lá do alto era incrível. Eu fiquei boquiaberto com a magnitude da freira, e pude entender o tamanho da encrenca e perigo que seria sair de lá por conta própria.
Em terra firme uma equipe dividida em dois carros também estava a postos para uma investida terrestre se fosse preciso.
Eles nos recepcionaram com dois galões de 5L cada, com água gelada, e barrinhas de cereais.
Depois de muitos agradecimentos aos nossos heróis, contos explicativos sobre nosso perrengue e várias afirmações de que tomamos a decisão correta ao aciona-los. Sem a necessidade de irmos ao PS, fomos conduzidos gentilmente ao nosso ponto de partida, encerrando um episódio que poderia findar tragicamente. Mas, graças a Deus e aos bombeiros, terminou bem após o ato heróico da equipe NOTAER 08 e aos que vieram por terra.
Na manhã, nos deslocando para outra cidade, passamos em frente as montanhas, que estavam 90% cobertas por nuvens, pela BR-101 molhada. Choveu forte durante a noite, e caiu até granizo de uma tempestade com raios e trovões próximos dali.
Se tivéssemos que passar aquele noite lá, ao relento, poderia ser trágico!
O caso repercutiu rapidamente, e com isso, claro, o julgamento inflamou nas redes sociais. Mas, algumas coisas, incluindo acolhimentos, vieram apenas para somar. exemplo: escaladores locais nos procuram para informar que, no ano de 2020, houve um deslizamento de pedra ali no col que desconfigurou a linha de saída criando uma verdadeira arapuca para quem se arrisca descer até lá.
Após toda essa aventura, estando todos a salvo, agradecemos imensamente ao Naoki Arima - por toda atenção e suporte, na tentativa de nos ajudar. E aos nossos heróis do NOTAER 08, que nossos resgatou com a aeronave, e toda a equipe dos bombeiros, que vieram com suporte por terra.
E é isso!
FIM!
Croquis usados como base: CERJ e Naoki Arima:👇🏽
Croqui da conquista (CERJ) 👆🏽
croqui Naoki Arima👇🏽
Dados sobre a fatalidade dentre essas montanhas👇🏽
Editado por Vgn Vagner