Dando sequência no projeto de exploração das montanhas, cavernas e cachoeiras da região, parti pro trekking mais pesado até aqui, na Serra da Bocaina, no município de Niquelândia. Essa serra fica a uns 45km de Uruaçu, de onde temos uma ótima visão de sua “silhueta”, na qual se destaca um pico bem mais alto que os demais e bem mais agudo também. Ela se estende no sentido sul – nordeste e é cortada pela GO-237, rodovia que liga as cidades de Uruaçu e Niquelândia. A rodovia passa a uns 4 km do início da serra, depois segue pro norte e 20km adiante faz uma curva à leste atravessa a serra e segue sentido Niquelândia. É um local bem preservado, mesmo tendo todo seu entorno ocupado pela agropecuária, e com vários relatos de observação de onças nas redondezas, o que torna a serra pouco visitada.
Como ando sem tempo durante a semana e tenho folga somente a cada 15 dias, só pude estudar o roteiro pelo Google Earth. A dificuldade de encontrar água seria grande, pois pelas imagens, identifiquei apenas um curso d’água e algo que parecia ser uma pequena lagoa.
O plano era deixar o carro em uma lanchonete à beira da rodovia e caminhar cerca de 5km até o início da serra, que tem uma subida bem suave e, de lá ir pela crista da serra, pernoitando no pico mais alto, até a intersecção da GO-237, onde há um restaurante e área de camping e de lá, pegar uma carona de volta à lanchonete.
A primeira investida foi no dia 13 de agosto de 2011.
Depois de arrumar a mochila após um cansativo dia de trabalho, fui dormir por volta das 23:30, acordei às 05:00 da madruga bem animado. Como planejado, deixei o carro na lanchonete e parti ainda escuro rumo à Bocaina. O caminho é por uma pastagem baixa e terreno plano, onde a caminhada rende bastante. O sol nasceu forte atrás da serra e pude ter uma ótima visão da região. O início da subida é bem suave e logo alcancei o topo do primeiro monte.
Sem dúvida alguma essa é a serra de relevo mais acidentado que andei por aqui. Não sei se pela forma física ruim, ou pela caminhada pesada e ritmo acelerado, logo nas primeiras horas já demonstrava um certo cansaço. Após 4 horas de muito sobe e desce, resolvi parar um pouco pra comer e descansar. O sol estava escaldante e o calor castigava, não tinha termômetro, mas acho que estava na faixa dos 35ºC. Dois dos três litros de água que levei, já estavam perto de acabar. Comi os 3 sanduiches, pois fiquei receoso que estragassem. Mais duas horas de caminhada e cruzei uma pequena estrada vicinal que corta a região. Foi o primeiro local que encontrei sinais de animais domésticos. Dali até a pequena lagoa era um pulo. Pra minha surpresa, a lagoa literalmente virou pó.
Exitei um pouco antes de continuar, afinal não estava nem na metade do caminho e minhas reservas de água estavam no limite, mas resolvi ir até o que acreditava ser o próximo ponto de água. Após a lagoa, há uma subida bastante íngreme e meio suja, a vegetação é mais alta e tem que seguir no vara mato. No outro monte a vegetação rasteira novamente toma conta da paisagem e fui presenteado com inúmeros paepalanthus, flores conhecidas como sempre vivas, além de vários pés de caju da serra repletos de frutas. Aproveitei pra comer alguns.
Dali até o topo foi rápido e tive uma bonita visão da redondeza, o pico mais alto da serra estava próximo. Tinha caminhado quase duas horas desde a lagoa e a hora já estava adiantada. Ali encontrei vários sinais de animais silvestres, primeiro o rastro de uma anta, mais adiante o “banheiro” delas, parece que todas defecam no mesmo lugar, pois havia muitas fezes frescas. Também havia fezes de veado e um local onde haviam dormido alguns animais e, bem próximo dali, um rastro antigo do grande predador da região, a onça. Pelo tamanho devia ser de onça parda. Estava louco pra encontrar algum desses animais, mas foi em vão.
Desci até o local que parecia ter um curso d’água e para minha decepção, somente um rio de areia. Tive que tomar a difícil decisão de voltar, pois não havia nem sinal de água e já eram quase 16:00 horas. Tomei o caminho de volta até a estrada vicinal e de lá até a rodovia, no caminho, peguei um lindo por do sol. Já na rodovia, peguei carona até a lanchonete e de lá o carro até minha casa. No caminho já planejava o retorno à Bocaina.
Seis meses se passaram até o esperado retorno. A estação das chuvas tinha chegado e a serra estava ainda mais exuberante. Fui um pouco mais preparado também, com 8 litros de água na mochila e já conhecendo boa parte do caminho. Fiz o mesmo trajeto e apesar de ter engordado uns quilos, estava melhor fisicamente, pois vinha fazendo trilhas com certa freqüência. O sol também estava castigando menos e acabei fazendo o trajeto com quase 3 horas a menos. Mesmo na estação das chuvas, tanto a lagoa quanto o córrego estavam completamente secos. Infelizmente os paepalanthus e os cajus haviam acabado.
Rumei rumo ao topo do que fui descobrir adiante se tratar do “Morro do Machado”, a subida é difícil, bastante íngreme e com trechos de escalaminhada. A vista é fantástica, via a cidade de Uruaçu, a uns 50km e boa parte da extensão do Lago de Serra da Mesa. Pra minha surpresa, encontrei um vértice de triangulação do Conselho Nacional de Geografia, com o nome do morro, Machado, datado de 1938. O vento estava muito forte, mas não havia sinal de chuva. Acampar com chuva em picos mais altos torna-se perigoso devido a ocorrência de raios. Apesar de ter um pequeno colo mais protegido, procurei o local mais exposto ao vento para testar minha barraquinha numa condição um pouco mais extrema. Tive certo trabalho pra montar a barraca, pois o vento estava implacável. Fui acompanhado nesse trabalho por um majestoso urubu-rei que plainava sobre mim, fazendo rasantes a todo momento, acho que o vento estava atrapalhando seu vôo também.
Depois de montá-la, tirei umas fotos lá do alto e resolvi descer até um monte adjacente pra dar uma olhada numa mata um pouco mais alta em sua encosta em busca de água. Mesmo na época das chuvas é incrível como não encontrei nenhum ponto de água, acho que somente os animais dali sabem encontrar a fonte do precioso líquido. Voltei pra barraca, tomei um banho de lenço, preparei um macarrão com sardinhas, jantei e fui me recolher. Levantei mais tarde e fui dar uma olhada no céu, que apesar de ter algumas nuvens, estava lindo. Fiquei algumas horas apreciando o silêncio, a paz e a beleza daquele lugar. Ventava forte e o tempo estava perfeito pro sono. Dormi tanto que perdi o nascer do sol. Acordei após às 07:00 horas com o sol já alto. Levantei preguiçoso, preparei meu leite em pó com achocolatado, pão com salame e comi bastante. Tinha um pouco de dores na perna, mas nada demais. Desarmei a barraca e pernas pra que te quero. A descida foi meio sinistra, tendo que arrastar a bunda em alguns trechos. O caminho a partir dali era mais suave e a caminhada rendeu bem. Passei bem próximo a uma plantação de eucaliptos e presenciai quantas agressões a serra está sofrendo, todo seu entorno está tomado por soja. Do pico do Morro do Machado até a rodovia foram 4:30 horas de caminhada, passando por várias grotas e montes menores, uma caminhada agradável, mesmo com o sol mais forte que no dia anterior. Infelizmente, vi algo que me cortou o coração. Um local ainda selvagem, que sofreu tantas agressões e ainda continua exuberante, agora está sob a maior ameaça, a mineração, que praticamente, destruiu um monte da Serra da Bocaina.
Dando sequência no projeto de exploração das montanhas, cavernas e cachoeiras da região, parti pro trekking mais pesado até aqui, na Serra da Bocaina, no município de Niquelândia. Essa serra fica a uns 45km de Uruaçu, de onde temos uma ótima visão de sua “silhueta”, na qual se destaca um pico bem mais alto que os demais e bem mais agudo também. Ela se estende no sentido sul – nordeste e é cortada pela GO-237, rodovia que liga as cidades de Uruaçu e Niquelândia. A rodovia passa a uns 4 km do início da serra, depois segue pro norte e 20km adiante faz uma curva à leste atravessa a serra e segue sentido Niquelândia. É um local bem preservado, mesmo tendo todo seu entorno ocupado pela agropecuária, e com vários relatos de observação de onças nas redondezas, o que torna a serra pouco visitada.
Como ando sem tempo durante a semana e tenho folga somente a cada 15 dias, só pude estudar o roteiro pelo Google Earth. A dificuldade de encontrar água seria grande, pois pelas imagens, identifiquei apenas um curso d’água e algo que parecia ser uma pequena lagoa.
O plano era deixar o carro em uma lanchonete à beira da rodovia e caminhar cerca de 5km até o início da serra, que tem uma subida bem suave e, de lá ir pela crista da serra, pernoitando no pico mais alto, até a intersecção da GO-237, onde há um restaurante e área de camping e de lá, pegar uma carona de volta à lanchonete.
A primeira investida foi no dia 13 de agosto de 2011.
Depois de arrumar a mochila após um cansativo dia de trabalho, fui dormir por volta das 23:30, acordei às 05:00 da madruga bem animado. Como planejado, deixei o carro na lanchonete e parti ainda escuro rumo à Bocaina. O caminho é por uma pastagem baixa e terreno plano, onde a caminhada rende bastante. O sol nasceu forte atrás da serra e pude ter uma ótima visão da região. O início da subida é bem suave e logo alcancei o topo do primeiro monte.
Sem dúvida alguma essa é a serra de relevo mais acidentado que andei por aqui. Não sei se pela forma física ruim, ou pela caminhada pesada e ritmo acelerado, logo nas primeiras horas já demonstrava um certo cansaço. Após 4 horas de muito sobe e desce, resolvi parar um pouco pra comer e descansar. O sol estava escaldante e o calor castigava, não tinha termômetro, mas acho que estava na faixa dos 35ºC. Dois dos três litros de água que levei, já estavam perto de acabar. Comi os 3 sanduiches, pois fiquei receoso que estragassem. Mais duas horas de caminhada e cruzei uma pequena estrada vicinal que corta a região. Foi o primeiro local que encontrei sinais de animais domésticos. Dali até a pequena lagoa era um pulo. Pra minha surpresa, a lagoa literalmente virou pó.
Exitei um pouco antes de continuar, afinal não estava nem na metade do caminho e minhas reservas de água estavam no limite, mas resolvi ir até o que acreditava ser o próximo ponto de água. Após a lagoa, há uma subida bastante íngreme e meio suja, a vegetação é mais alta e tem que seguir no vara mato. No outro monte a vegetação rasteira novamente toma conta da paisagem e fui presenteado com inúmeros paepalanthus, flores conhecidas como sempre vivas, além de vários pés de caju da serra repletos de frutas. Aproveitei pra comer alguns.
Dali até o topo foi rápido e tive uma bonita visão da redondeza, o pico mais alto da serra estava próximo. Tinha caminhado quase duas horas desde a lagoa e a hora já estava adiantada. Ali encontrei vários sinais de animais silvestres, primeiro o rastro de uma anta, mais adiante o “banheiro” delas, parece que todas defecam no mesmo lugar, pois havia muitas fezes frescas. Também havia fezes de veado e um local onde haviam dormido alguns animais e, bem próximo dali, um rastro antigo do grande predador da região, a onça. Pelo tamanho devia ser de onça parda. Estava louco pra encontrar algum desses animais, mas foi em vão.
Desci até o local que parecia ter um curso d’água e para minha decepção, somente um rio de areia. Tive que tomar a difícil decisão de voltar, pois não havia nem sinal de água e já eram quase 16:00 horas. Tomei o caminho de volta até a estrada vicinal e de lá até a rodovia, no caminho, peguei um lindo por do sol. Já na rodovia, peguei carona até a lanchonete e de lá o carro até minha casa. No caminho já planejava o retorno à Bocaina.
Seis meses se passaram até o esperado retorno. A estação das chuvas tinha chegado e a serra estava ainda mais exuberante. Fui um pouco mais preparado também, com 8 litros de água na mochila e já conhecendo boa parte do caminho. Fiz o mesmo trajeto e apesar de ter engordado uns quilos, estava melhor fisicamente, pois vinha fazendo trilhas com certa freqüência. O sol também estava castigando menos e acabei fazendo o trajeto com quase 3 horas a menos. Mesmo na estação das chuvas, tanto a lagoa quanto o córrego estavam completamente secos. Infelizmente os paepalanthus e os cajus haviam acabado.
Rumei rumo ao topo do que fui descobrir adiante se tratar do “Morro do Machado”, a subida é difícil, bastante íngreme e com trechos de escalaminhada. A vista é fantástica, via a cidade de Uruaçu, a uns 50km e boa parte da extensão do Lago de Serra da Mesa. Pra minha surpresa, encontrei um vértice de triangulação do Conselho Nacional de Geografia, com o nome do morro, Machado, datado de 1938. O vento estava muito forte, mas não havia sinal de chuva. Acampar com chuva em picos mais altos torna-se perigoso devido a ocorrência de raios. Apesar de ter um pequeno colo mais protegido, procurei o local mais exposto ao vento para testar minha barraquinha numa condição um pouco mais extrema. Tive certo trabalho pra montar a barraca, pois o vento estava implacável. Fui acompanhado nesse trabalho por um majestoso urubu-rei que plainava sobre mim, fazendo rasantes a todo momento, acho que o vento estava atrapalhando seu vôo também.
Depois de montá-la, tirei umas fotos lá do alto e resolvi descer até um monte adjacente pra dar uma olhada numa mata um pouco mais alta em sua encosta em busca de água. Mesmo na época das chuvas é incrível como não encontrei nenhum ponto de água, acho que somente os animais dali sabem encontrar a fonte do precioso líquido. Voltei pra barraca, tomei um banho de lenço, preparei um macarrão com sardinhas, jantei e fui me recolher. Levantei mais tarde e fui dar uma olhada no céu, que apesar de ter algumas nuvens, estava lindo. Fiquei algumas horas apreciando o silêncio, a paz e a beleza daquele lugar. Ventava forte e o tempo estava perfeito pro sono. Dormi tanto que perdi o nascer do sol. Acordei após às 07:00 horas com o sol já alto. Levantei preguiçoso, preparei meu leite em pó com achocolatado, pão com salame e comi bastante. Tinha um pouco de dores na perna, mas nada demais. Desarmei a barraca e pernas pra que te quero. A descida foi meio sinistra, tendo que arrastar a bunda em alguns trechos. O caminho a partir dali era mais suave e a caminhada rendeu bem. Passei bem próximo a uma plantação de eucaliptos e presenciai quantas agressões a serra está sofrendo, todo seu entorno está tomado por soja. Do pico do Morro do Machado até a rodovia foram 4:30 horas de caminhada, passando por várias grotas e montes menores, uma caminhada agradável, mesmo com o sol mais forte que no dia anterior. Infelizmente, vi algo que me cortou o coração. Um local ainda selvagem, que sofreu tantas agressões e ainda continua exuberante, agora está sob a maior ameaça, a mineração, que praticamente, destruiu um monte da Serra da Bocaina.
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