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A travessia da ponta da joatinga
Este roteiro ficou esquecido na minha gaveta durante vários anos.
Nós até tentamos faze – lo em um final de ano , a uns dois anos atrás , mas
por causa do mau tempo e da falta de vontade de um companheiro de trilha
acabámos nem viajando.
Diante do tédio e do marasmo que acomete todo bom aventureiro ávi-
do por trilha, sempre lia e relia o roteiro na esperança de um dia poder
por meus pés naquele que já foi considerado pelos maiores aventureiros
do país um dos lugares mais bonitos do mundo.
A ponta da joatinga é uma península, localizada no sul do estado do
rio de janeiro, divisa com ubatuba, no litoral norte de são paulo. Um litoral
todo recortado e pontilhado de pequenas ilhas . E relevo todo montan-
hoso, coberto de mata atlântica, e com altitudes que ultrapassam os mil
métros de altura . Também é característica da região as pequenas praias e
enseadas, com a água variando do verde para o azul e de transparência
única.
Previsão do tempo checada, mochilas arrumadas, saímos de campinas
no dia vinte sete de fevereiro, ás 17:30 da tarde, eu e um amigo do trabalho ,
o luis . Fomos para s. José dos campos, pois o ônibús que iria direto para
ubatuba, só partiria as 07:30 da noite, e não serviria a nosso propósito.
Imaginamos que seria mais fácil conseguir um ônibus para paratí-rj, na rodo
viária de s. José. Puro engano, pois todos já estavam lotados. O jeito foi fa-
zer uma conexão até caraguatatuba e de lá pegar um ônibus para Paratí.
O ônibus leva uma eternidade para chegar a paratí , no caminho deu
até para tirar um cochilo . Não sei como consegui acordar minutos antes
de avisar o motorista que iríamos descer. Na verdade nosso trajeto não
iria até a paratí, mas sim uns 15 quilometros antes. Então teríamos que des-
cer na rio-santos , pegar uma estradinha, e caminhar quase 10 quilômetros
até uma vila caiçara , chamada Paratí-mirim.
O ônibus chegou ao nosso destino a uma da madrugada, jogamos as
mochilas nas costas e nos pomos a caminhar, já que uma tempestade anunci
ava despencar sobre nossas cabeças. Caminhamos durante alguns minutos,
mas logo fomos obrigados a sacar nossas lanternas da mochila, pois a es-
curidão e a irregularidade da estradinha , teimavam em nos roubar preció-
sos minutos de caminhada. Ao nosso lado corria um grande rio, largo e ba-
rulhento, que dava ao local um ar de mistério. Vimos cruzando sobre o rio
várias pontes pênceis, denunciando ser um lugar pouco abitado e de difícil
locomoção. Foi muito legal nos balançarmos a noite naquelas pontes que
mais pareciam ter saido de um filme do indiana jones. Mas não podíamos fi-
carmos ali parados, pois os trovões e as centelhas dos relâmpagos come-
çavam a aparecer com mais intensidade. Antes que ficássemos todos molha-
dos tratamos logo de arrumar um lugar para acampar, já que parecia im-
possível chegarmos na praia antes da chuva . O primeiro bom local que en-
contramos foi a marquise de uma igreja evangélica . Claro que aquela ho-
ra da noite não havia ninguém para pedir autorização, mas mesmo assim abri-
mos a cerca e montamos nossa barraca, afinal tratava-se da casa de deus e
não acredito que o dono fosse se encomodar com nossa silênciosa pre-
sença . Já passavam das 3 horas da manhã, foi acabar de montar a barraca e
ver a tempestade desabar, para nossa sorte já estávamos envoltos em nos-
sos casulos de proteção . E então dormimos, tínhamos 3 dias duros e pra-
zeros pela frente, descançar agora era a palavra de ordem, nem que fos-
se por meras três horas de sono.
Acordamos pouco antes das sete da manhã, o tempo estava perfeito ,
não havia mais nem um sinal de chuva, aliás , como preveu a metereologia,
foram três dias de sol intenso, para nossa sorte. Desmontamos a barraca e
caminhamos mais uns vinte minutos até a praia .
Paratí-mirim é distrito de paratí, uma pequena vila de pescadores, que
moram surpreendentemente longe da praia . Na praia só uma igreja e algu-
mas ruinas. Eu imaginava o lugar cheio de pequenos comércios, alguns ba-
res, enfim um lugar turístico. Mas para minha surpresa encontrei um lugar
extremamente belo, cheio de paz e sossego , uma baia cheia de ilhas com
uma praia limpa, onde se podia avistar no horizonte toda a serra do mar,
com destaque para o imenso rochedo que parecia tocar o céu, a pedra do
frade, que claro nos agussou para uma possível escalada no futuro .
Tinhamos que conseguir uma canoa para atravessar o saco do maman-
guá, onde realmente começaria nossa caminhada. Tentamos conseguir uma
carona com um barco que estava carregando material de construção e que
ia para aquele destino, mas não obtivemos sucesso . Tentamos negociar a vi-
agem com outro caiçara, mas como ele queria nos explorar, mandamos tam-
bem ele a merda . Descobrimos conversando com outro caiçara que havia uma
trilha, de uma hora de caminhada que podia n0s levar a parte mais estreita do
canal onde a travessia era mais curta, e consequentemente mais barata .
Antes de pegar a tal trilha, aproveitamos para tomar um café . Foi ali na
praia que conhecemos nosso amigo scub . Não sei porque o luis colocou este
nome nele, pois o cachorro não se parecia em nada com o cão do famoso de-
senho, e ainda por cima era preto. O animal nos seguiu na trilha montanha aci-
ma, a trilha alias era de matar mula, com uma subida interminável, mas com
uma vegetação fantástica . Depois de uma hora chegamos a casa de um pesca-
dor, que por uma pequena quantia em dinheiro, se prontificou a fazer a tra-
vessia do saco do mamanguá.
O saco é o único fiorde do brasil, um grande canal com mais de 10 km de
comprimento e uns 2 km de largura . Um lugar muito piscoso e com algumas
casas de pescadores. Lá tem também pequenas prais de águas calmas e trans-
parentes.
A travessia não levou mais que quinze minutos , no barquinho a motor.
Infelismente nossa amigo scub teve que ficar para trás, nossas provisões só
davam para dois.
Desembarcamos na praia do engenho, uma pequena praia com uma gran-
de árvore no centro e uma pequena cachoeira no seu lado esquerdo. Quando
vimos a cor da água não resistimos, e tomamos um belo banho de mar, o primei-
ro , de uma série deles. Encontramos também uma bela estrela do mar. Para
tirar a o sal do corpo , apelamos para gélida cachoeira .
Já passava do meio dia quando começamos a caminhada para cruzar a
a ponta da cajaíba em direção a praia grande . Em meia hora de caminhada já
havíamos atingido uns 200 métros de altura, e dava para avistar o vai e vem de
alguns barquinhos no canal, mas foi realmente depois de mais de uma hora de
subida que o horizonte se descortinou na nossa frente, e pudemos avistar
uma imensidão de mar e céu, um cenário que nos fez esquecer o quanto foi
dura a subida . Em mais uns 15 minutos a subida acabou e pudemos avistar toda
a extenção da ponta da cajaíba . Passamos por uma queda de água, onde pude-
mos nos refrescar , antes da decida final até a praia .
Depois de mais de 2 horas de trilha, finalmente desembocamos na praia
grande da cajaíba.Antes mesmo de nossos pés tocarem a areia fomos surpre-
endidos com a presença de três boçais, que lembravam vagamente seres hu-
manos. Eram três emergúmenos bêbados e drogados, que assavam em um es-
peto um pobre gambá, e por cima ainda tiveram a petulância de nos convidar
para macabra refeição . Infelismente aconte de vez enquando de se cruzar
com algumas destas amébas no início das trilhas . Mas basta se distânciar da
civilização , e a paz volta a reinar soberana.
Deixamos estas escórias da humanidade para trás e começamos a camin-
har pela areia da praia . Grande e bela praia com quase um quilômetro de are-
ia . Semi selvagem, com umas quatro ou cinco casas de pescadores. Turistas
quase não há por aqui, talvez nos feriados prolongados apareça alguém por
aqui. O lugar é de difícil acesso , e como em toda a ponta da joatinga não há
estradas e nem enêrgia elétrica. Para se chegar até aqui só de barco ou a pé ,
por pesadas trilhas, como já descrevemos.
Como já estava tarde, resolvemos fazer nosso almoço aos pés de uma
cachoeira , que foi alcançada em meros 15 minutos de trilha, apartir do canto
esquedo da praia . A cachoeira em si não era muito grande, mas em compensa-
ção, tinha um gigantesco poço de águas cristalinas . E enquanto nosso almo-
ço cozinhava, aproveitamos o tempo para um refrescante mergulho.
Barriga cheia e corpo descançado voltamos a trilha , que nesta parte
é bem menos íngreme, pois corre quase rente ao mar. Levamos uma meia hora
para atingirmos a próxima praia, a pequena itaóca, com uma ilhota de mesmo
nome a frente. Praia semi-selvagem com algumas casinhas de pescadores, que
possivelmente estavam no mar pois não encontramos ninguém.
A próxima praia, calhéus ,até era bem habitada, de pescadores claro.Uma
grande pedra dava um charme todo especial a esta praia, excelente para um
bom mergulho livre, pena eu ter esquecido de trazer o meu snorkel..
Antes de se chegar a praia de ipanema, uma pequena cachoeira, com um
belo poço, é uma boa opção para outro banho . E o que dizer da praia de ipane-
ma ? Tem o nome igual a daquela famosa praia do rio de janeiro, com a diferen-
ça de ser praticamente selvagem, com apenas duas casas de caiçaras . Nós ví-
mos apenas duas crianças brincando na água e mais nada . A vontade era de fi-
car ali sentado durante horas, olhando para aquelas crianças e vendo como
a vida pode ser extremamente simples .
Nossa última praia do dia, ainda estava a uma hora de caminhada, talvez
menos, mas como já passava das 3 da tarde, não pudemos nos demorar muito
do alto avistávamos os pequenos barcos ancorados na pequena enseada da
praia do pouso, denunciando ser ali uma autêntica vila de pescadores. Alias
quando chegamos a praia pudemos constatar ser ali o lugar mais habitado
deste lado da joatinga. Existe na vila até uma pequena escola, e algumas ca-
sas contam com energia solar . Uma igrejinha e um pequeno campo de futebol
na areia da praia, fazem lembrar a nossa “civilização”, mas é só apenas isso,
vaga lembrança. Vale a pena lembrar que esta é uma região de difícil acesso ,
onde o mar é a única estrada e o barco o meio de locomoção.
Minha intenção era apartir daqui ,da praia do pouso, tentar atingir o
farol da joatinga . Pedimos informações para alguns caiçaras, que nos dis-
seram que levaríamos mais de três horas, caso não nos perdessemos na tri-
lha, para chegar até lá , e como já eram quase cinco horas da tarde, seria im-
possível chegarmos lá com sol.
Contrariando todos os avisos de “vocês não vào conseguir chegar lá”
e “ vocês vão se perder no escuro” , e mesmo contra vontade aparente do
meu conpanheiro de trilha, que já estava louco para acampar, seguimos en-
frente na trilha . Caminhávamos a uns 100 métros do nível do mar, enquanto o
sol já começava a se despedir do dia, indo se deitar a oeste. Andamos quase
uma hora seguindo a trilha com olhos de gato, buscando a trilha na escuri-
dão. E realmente estávamos tendo sucesso, quando derrepente a trilha, que
nós imaginávamos que seguiria sempre no rumo leste, virou-se para o norte,
nos empurrando para os penhascos do litoral. Como não tínhamos qualquer
informação deste desvio, resolvemos abortar a tentativa de chegar ao fa-
rol. A minha teimosia nos fez perder 3 horas de caminhada, que não nos levou
a lugar nenhum . Fiquei imaginando onde eu teria errado ? Em que lugar eu te-
ria perdido a trilha? Será que depois de tantos anos de caminhada, eu perde-
rá o faro de trilheiro? O certo é que tivemos que voltar na quase total es-
curidão, pois as pilhas das lanternas acabaram . Sem luz,perdemos temporari-
amente a trilha e tivemos que rasgar o mato no peito . Resumindo, só as nove
da noite é que chegamos a praia do pouso . Exaustos e com os músculos arre-
bentados, acampamos enfrente a igrejinha . O luis ficou tão cansado que co-
meçou a passar mau, vomitou muito e teve câimbras até na lingua . Já havia
acontecido isso uma vez com um outro amigo meu, quando escalamos o pico do corcovado de ubatuba. Na ocasião o indivíduo em questão foi obrigado a
desistir da escalada. Fiquei sabendo depois que isto se dá pelo ecesso de
algumas substâncias que o organismo acaba consumindo, sem termos tempo
de repó-las. Depois de tomar um providencial soro, ele melhorou e dormiu.
Acho realmente que exageramos neste primenro dia, mais de dez horas de
camiinhada , não é para qualquer um . Fui dormir antes que eu mesmo sucum-
bisse ao cansaço, já bastava um doente por hoje .
Acordamos no dia seguinte com a algazarra dos pescadores saindo ao
mar . Mais descansados e ainda doloridos, tratamos logo de fazer o café. Al-
gumas bolachas nos ajudaram a recompor as energias perdidas no dia ante-
rior . Conversando com um caiçara, descobri, que a trilha que nós pegamos
para o farol e desistimos por achar que ela estava seguindo na direção er-
rada, era realmente a trilha correta, e que depois que ela descesse até o
mar, voltaria na direção óbvia, o leste . Mas agora isso não importava mais,
definitivamente o nosso caminho agora seria para o sul, atravessaríamos pa-
ra o outro lado da joatinga , sem dúvida a parte mais selvagem e também a ma-
is bonita da travessia .
Com a barriga cheia , passamos por trás da igreja, cruzamos pela esco-
la e depois de atravessármos um riacho, sobre uma ponte rústica, pegamos
uma trilha que em pouco menos de uma hora de caminhada nos levou ao topo
da montanha . No caminho fizemos algumas paradas para apreciar pela última
vez, toda a baia da ilha grande . Adentrando agora na exuberante floresta ,
em meia hora de caminhada desembocamos na praia de martim de sá .
Com certeza, martim de sá é uma das mais belas praias do brasil, até su-
as ondas são de águas transparentes . Uns 500 métros de praia cercada pela
floresta praticamente intocada . A oste da praia o destaque fica por conta
do pico do cairuçu, uma imponente montanha com seu topo rochoso a 1070 mé-
tros de altura alias o pico empresta seu nome para a reserva, que é de pre-
servação ambiental . Uns 200 métros da praia moram apenas um velho caiçara
e sua esposa . Seu manoel nasceu aqui e erdou estas terras do seus pais e se-
us avós . Seu filhos moram em algumas praias e sacos, a algumas hora de ca-
minhada daqui . Aproveitamos para dar um belo mergulho, apesar de ainda ser
nove horas da manhã, o sol e o calor já eram intenso .Para tirar o sal do cor-
po, um rio de agua doce, que corre paralelo a praia é uma boa pedida .
Nos despedimos do seu manoel e seguimos viagem . Cruzamos mais um ria-
cho e adentramos novamente na mata , que aqui é bem úmida e gostosa de ca-
minhar . Não demoramos mais que meia hora para encontrar mais um riacho de
águas cristalinas e poços translúcidos . Não deu para resistir , jogamos as
mochilas no chão e “tbum” . Em mais trinta minutos descemos ao saco das
anchovas .
Aqui não há praia , apenas um pequeno porto feito com toras de madei-
ra por alguns pescadores que habitam este local selvagem e longe de tudo .
As poucas pessoas que moram aqui são filhos e netos de seu manoel , pessoas
simples e humildes, que ainda não se contaminaram com a civilização . O mar
calmo de águas verdes , transformaram esta pequena enseada cheia de pisci-
nas naturais , num paraiso para o mergulho . Nós , claro , não deixamos batido
e demos vários mergulhos . Peixes , ouriços do mar e alguns corais comple-
tão o espetáculo .
Depois de derretermos em mais uma grande subida, chegamos de novo
na trilha mestra , e em mais quarenta minutos atravessamos sobre uma pin-
guela, com dois troncos colocados entre duas grandes rochas . E então saí-
mos em uma roça de mandiocas, viramos a esquerda e descemos até encon-
trarmos algumas casas de pau-a-pique cobertas com sapê . Estávamos em mais
uma pequena praia , a praia do cairuçu . Para mim a mais fascinante de todas
as prais da travessia . A praia tem só uns 50 métros de areia, com grandes pe-
dras dentro e fora da água . No seu canto esquerdo uma bica de água doce ,
mata a sede e refresca o corpo. Mas o que mais impressiona são as piscinas
naturais que se forman no mar, a água é de um verde intenso . As rústicas ca-
noas parecem flutuar . Foi aqui que conhecemos mais um filho de seu manoel,
pescador nativo aqui da região . Moram aqui umas cinco famílias de caiçara,
que vivem da pesca de cerco . Montam a armadilha no mar e duas ou três ve-
zes por dia vão recolher os peixes .
Como já passava de uma hora da tarde, aproveitamos para preparar o
nosso almoço . Enquanto descançavamos, aproveitavamos para observar as
crianças brincando inocentemente no mar . Descobrimos que parte daquelas
crianças, não moravam ali . Vieram em uma canoa , da ponta da joatinga que fi-
cava a mais de cinco quilômetros do cairuçu . Imaginem vocês, crianças com
no máximo doze anos de idade navegando em uma embarcação rústica naquele
marzão, sem nem um adulto por perto . E nós da cidade não confiamos nem em
deixar nossos filhos irem à escola sozinhos .
Depois de um delicioso almoço e de um maravilhoso banho de mar, en-
quanto eu batia um papo com os caiçaras,o luis tentava tirar um merecido co-
chilo . E as três da tarde estávamos de volta a trilha .
Sem dúvida nenhuma esta é a parte mais selvagem da travessia . Monta-
has e florestas a perder de vista . A trila se afasta do litorar e começa a se-
guir no rumo sudoeste, aliás a informação que tínhamos era esta, nunca
abandonar o sudoeste . E foi o que nos fizemos durante quase uma hora ,
quando encontramos uma bifurcaçãona trilha . A trilha mais aberta e mais ba-
tida subtamente tomava o rumo oeste e a outra trilha, mais acanhada seguia
justamente para o sudoeste . Na dúvida resolvemos seguir a indicação que
tínhamos, metemos a cara para sudoeste, mesmo sendo a trilha menos batida .
Andamos por quase quarenta minutos, até descobrirmos que aquela era tão
somente uma trilha feita para retirar uma enorme árvore, que muito prová-
velmente havia sido tranformada em uma canoa . Frustrado e decepcionado
com o erro, resolvi não voltar a trás . Pensei ,se a trilha realmente é em dire-
ção ao sudoeste, muito provávelmente ela estaria correndo paralela a esta
trilha . Apontando minha bússola a oeste não teria como não localiza-la .
Nos enfiamos no meio da mata fechada, abrindo o mato no peito, ganhan-
do terreno aos poucos . A nossa preocupação era que a noite já se anunciava
e nós estávamos sem água, sem contar que não havia um metro de terreno plano no qual nós pudessemos armar nossa barraca . Enquando cruzávamos
mais outro vale, percebi no rosto do luis um ar de desespero, acho que ele ,
como eu , também não estava a fim de passar a noite sentado no meio da mata,
esperando o dia amanhecer . Pare se ter uma noção se continuássemos camin-
hando sempre naquela direção sem achar nemhuma trilha, provavelmente,
gastaríamos mais de uma semana para chegarmos na rio-santos, isto na hipó-
tese de conseguir atravessar os vales profundos e a região de mangue do
mamanguá . Depois de atravessar um morro com vegetação que teimava em
agarrar nas mochilas, encontrei de novo a trilha .
Sentado no meio da trilha, encostado em minha mochila , tive tempo de
ver o luis lutando bravamente para se livrar de alguns cipós . Sua cara real-
mente não era das melhores. Mais uma vez eu nos metera em outra enrrasca-
da , e pelo segundo dia consecutivo . Confesso, eu estava ficando bom nisso .
Depois de nos recompor, seguimos enfrente na trilha, o sol já estava
se pondo e a penumbra já estava quase nos atingindo, não podíamos nos demo-
rar , ou então teríamos que caminhar no escuro . Tratamos logo de achar
água, e realmente a encontramos depois de uns trinta e cinco minutos de ca-
minhada . Esta trilha é realmente muito pesada, não tem moleza, é só subida e
das brava . Nosso objetivo era simplesmente achar um local para acampar .
Tínhamos informações que no topo da serra haveria um gruta , no qual seria
possível montar algumas barracas . Mas quanto mais caminhávamos, mais o
terreno se tornava íngrime , estávamos andando em um grande panelão, cer-
cados de montanhas por todos os lados . Mas depois de passarmos por uma
bica e subirmos mais uma ladeira, lá estava ela , com sua enorme boca , a toca
da onça ou berta figueira , acabávamos de achar nosso hotel de selva . Tinha
um piso totalmente plano . Nem o mais otimista dos aventureiro pensaria em
encontrar um lugar tão maravilhoso para acampar quanto este . Jogamos as
mochilas no chão, e armamos logo nossa barraca. Em seguida fomos logo
preparar o nosso jantar . Um litro de água. Quatrocentos gramas de carne
seca que eu já havia tratado de dessalgar no almoço, batatas, pimentão e
dois pacotes de sopa instantânea , alguns minutos de cozimento e estava
pronta a nossa idrantante e energética refeição . Jantamos, apagamos as ve-
las e fomos dormir na mais completa escuridão .
Acordamos as seis e pouco da manhã com a algazarra dos macacos, que
pelo que parece são numerosos nesta regiào . Tomamos café, desmontamos
a barraca e partimos para nosso último dia de caminhada .
Em vinte minutos de trilha descobrimos que realmente estávamos no
topo da montanha, e apartir daí só descemos . Aliás a trilha é linda, cruzamos
com vários riachos e depois de cinquienta minutos saímos de vez da mata e co-
meçamos a andar em vegetação semelhante ao do cerrado e finalmente depo-
is de mais de uma hora e de cruzar mais um rio de águas cristalinas chegamos
a praia da ponta negra .
É aqui na ponta negra que chegam os barcos vindo do saco das ancho-
vas , que são alugados por alguns trilheiros meia boca , que não conseguem
vir pela trilha . Eles acham 4 horas montanha acima uma coisa do outro mun-
do . Azar deles que acabam perdendo a parte mais selvagem da travessia .
A praia da ponta negra é uma típica vila de pescadores . Conta com mais
ou menos uns trezentos metros de areia , com vários ranchos para guardar
suas pequenas embarcações .Andamos por toda a da praia e encontramos
uma pequena trilha ingrime, que em pouco mais de quinze minutos nos levou
ao topo da montanha , e então pudemos avistar lá de cima toda a beleza desta
praia de águas azuis e calmas . A trilha seguiu – se em nível , até avistarmos a
enseada da praia das galhetas , que de praia não tem nada . É apenas um amon-
toado de pedras de vários formatos .Sua maior atração maior é mesmo um
rio de águas transparentes que desce da serra e deságua no mar . . Atraves-
sando exatamente este rio, chegamos ao fim da praia e subimos outra encosta
e por mais meia hora descemos até a praia de antiguinhos . Esta sim pode ser
chamada de praia totalmente selvagem . Não tem casas , ranchos de pescas e
nem qualquer outra coisa que lembre civilização . Sobre sua areia fofa, cor-
re um riacho de água doce . Aproveitamos para nos refrescar no mar e no ria-
cho . Fiquei imaginando como seria maravilhoso acampar aqui neste pequeno
paraiso . Mas infelismente não será desta vez , depois de um breve lanche se-
guimos nosso caminho , e em mais quinze minutos já estávamos em outra
pérola deste litoral, a enorme e também selvagem praia de antigos . Mais uma
praia do sonhos de qualquer aventureiro . Depois de bater um papo com um
carioca que estava acampado nesta praia , voltamos a nossa trilha para em mais quarenta minutos avistarmos de cima de uma montanha .A mais bela vista
de toda a travessia da ponta da joatinga , a praia do sono .
Inacreditável , surpreendente , maguinífica , assim pode ser definida a vi-
são desta praia . São coisas assim que fazem valer qualquer caminhada . Uma
grande praia com dois quilômetros de extenção , de areias brancas que se
contrasta com o verde intenso das florestas que a cercam . Depois de ficar-
mos , merecidamente, por algum tempo contemplândo esta praia de cima , des-
cemos até sua areia . Tomamos nosso último banho da viagem no rio de águas
frias que desagua no seu canto esquerdo , e a atravessamos bem devagar , já
sabendo ser esta a derradeira praia da nossa travessia . A praia é bem habita-
da , com vários barzinhos e outros pequenos comércio . É impressionante a
quantidade de bichos grilo que vimos por aqui . Ainda não existem estradas
para chegar até aqui , mas por ser mais próximo da civilização, apenas 1 hora
e meia de trilha, acredito que nos finas de semana esta praia seja bem fre-
quentada, mas como passamos aqui em uma segunda-feira, não encontramos
ninguém, só os próprios moradores , os tais bichos grilos .
Confesso que não foi fácil enfrentar mais uma hora e meia até o final
da trilha , o sol estava de rachar côco , e convenhamos, andar sabendo que
não teremos mais nenhuma água no qual nos refrescarmos é meio desanima-
dor , mas assim mesmo seguimos nosso destino, até sairmos no bairro de la-
ranjeiras , onde um condôminio não deixa ninguem chegar até a praia . Se não
bastasse a exclusão social , agora tambem temos a exclusão de nossas
áreas naturais . Depois de tomarmos um merecido e bem gelado refrigeran-
te e de trocarmos de roupa , pegamos o ônibus até a cidade histórica de pa-
ratí .
Paratí, com seus históricos casarões de mais de trezentos anos, já foi
um importante porto , responsável principalmente pela saída de quase todo
o ouro , vindo principalmente das jazidas de minas gerais . Depois de uma bre-
ve visita, comemos alguma coisa na rodoviária , enquando um “simpático” sor-
veteiro insistia em gritar nos nossos ouvidos (pecolé..! Pecolé..! ) .
Como não havia nenhum ônibus para campinas ou mesmo para são paulo,
resolvemos pegar um até a divisa com ubatuba , que em quarenta minutos nos
deixou na cachoeira da escada, a três quilômetros da praia de camburi . Como
tinhamos algum tempo antes de pegarmos o próximo ônibus até a própria ci-
dade , aproveitamos para visitar a cachoeira , uma bela queda com uns 15 me-
tros de altura e uns 50 de largura . O ônibus que sai daqui da divisa dos dois
estados, percorre mais de 50 km até chegar a ubatuba . No caminho ainda deu
para observar os caiçaras que subiam e desciam do veículo , gente simples
que habitam este maravilhoso litoral , com suas praias e montanhas quase
intocadas , que com justiça foi escolhido um dos lugares mais bonitos do pla-
neta . Um lugar que não se revela para qualquer um , só para os ousados e
determinados que se dispuserem a abandonar este mundo de mesmice e ir ao
encontro de suas origens , do tempo em que o homem só podia contar com si-
go mesmo , do tempo em que o homem precisava apenas da natureza para ser
feliz ..................
Divanei Março de 2004 .