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Vgn Vagner

TRAVESSIA EXPEDICIONÁRIA - VALE DO RIO GUARATUBA

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"O Vale do Rio Guaratuba é uma sucessão de abismo que parece querer tragar a superfície para o centro da terra. Um rio que é sinônimo de mar bravo detentor de maremotos aterrorizantes onde marujos não navegam, pois se navegam morrem. E esse era nosso medo: morrer, ou passar por apuros nas profundezas de um cânion onde o socorro não chega. Tivemos medo porque ali eramos um grupo de marujos teimosos que vivem inventando de peitar tempestades em alto mar sem saber dar uma braçada se quer sem o uso de coletes salva vidas, correndo o risco de sermos tragados pela fúria indomável das águas."

OS BASTIDORES

Muitos pensam que nossas jornadas se dão como tiros no escuro, mas não. Tudo se antecede por meses de buscas e estudos para criar uma rota fiel e, mo mínimo, segura próxima ao rio que pretendemos desbravar. Com o Rio Guaratuba não foi diferente!
Já se passava de um ano que o nome Dele havia sido mencionado, como há uma infinidade de roteiros selvagens para discutirmos, esse acabou por ser arquivado. Mas, como tudo tem sua hora certa, a vontade de viver novas emoções despertou voltada para o extremo do planalto Leste de São Paulo. Pra ser mais Exato, Bairro Rural de Casa Grande -Biritiba Mirim/SP. 
Entre várias conversas com os amigos que demonstravam vontade de encarar o Guaratuba sempre ficamos de ver uma data para fazer uma investigação local para achar o acesso inicial para realizarmos a travessia, mas já estávamos de muita conversa e pouca ação. Deveríamos colocar o plano como meta, e para isso chamei o Tony, que no início de Outubro foi comigo fazer a PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO no local, apenas com à cara e a coragem sob a luz do dia. Chegamos lá por volta das 05h40, carregados de adrenalina e medo, aquele medo que chega a dar dor de barriga. A intenção era de irmos até primeira casinha que é possível ver nas imagens de satélite. Tínhamos que descobrir se era uma espécie de guarita, ou alguma casa de bombeamento para captar água do Rio Claro. Varamos mato para não ter que sair tão próximos da entrada principal da EMPRESA que iríamos invadir território, acessamos a pista principal dentro de suas dependências e fomos somente até esse ponto (4km percorridos), a ponte sobre o Rio Claro. Ao voltarmos, um carro dobrou a esquina silenciosamente e quase nos pega com a boca na botija. Nem deu tempo de avisar o Tony, me joguei no mato e disparei na corrida até enfiar os pés num pântano, onde paramos e esperamos abaixados o carro passar e sumir de vista. O bom foi que meu comparsa entendeu o recado e me acompanhou uns 10 mts mais atrás, caso contrário seríamos pegos pelos funcionários que faziam ronda.
O susto passou, mas a adrenalina só aumentou. Ainda tínhamos 2 km para andar completamente expostos na via. Aceleramos os passos e quase não conversávamos para ouvir melhor qualquer barulho que se aproximasse ao longe. Conseguimos percorrer a distância restante sem apuros, mas quando entramos na mata outro carro da empresa passou no mesmo sentido. Só tomamos o cuidado de nos abaixar para não sermos vistos.
Quando Voltei para casa, animado com as infos que conseguimos, joguei as cartas na mesa de reuniões dos mais retardados/malucos Exploradores da Serra do Mar que conheço. Ainda assim a info coletada não foi suficiente para animar o bando, era apenas 1/3 do caminho até as bordas do Rio Guaratuba, onde há uma enorme "casa" vista por satélite, e ali morava a grande dúvida de podermos partir ou não rumo ao vale . Então me propus a voltar lá na semana seguinte. 
Na SEGUNDA INVESTIGAÇÃO estávamos em quarto: Daniel Trovo, Paulo Potenza, Rafael S Lima e Eu. O plano era chegar até essa "possível casa" para saber do que se tratava. Para termos êxito na busca por infos completas partimos na surdina. Começamos o vara mato inicial às 21h30, e junto veio a chuva acompanhada de frio. Logo pisamos na pista principal, onde nos restava uma caminhada de +ou- 2h30.
A chuva se fez ininterrupta, castigava o psicólogo enquanto o frio judiava a parte física. Foi eu quem menos resistiu à tal pressão. Com duas horas de caminhada eu já tremia o corpo, batia os dentes, e logo comecei a gemer de tanto frio que sentia. Era o início de uma hipotermia. Eu andava com a sensação de estar me rastejando com uma tonelada nas costas, vi que a metade da noite estava próxima, a suposta casa também, mas eu não conseguia assimilar nosso avanço. E quando vimos os fachos de luz iluminando a neblina tive um certo alívio em saber que meu sofrimento estava perto do fim.
Chegamos com cuidado, olhamos o entorno para ver se não havia algum vigilante nas dependências e tratamos de procurar abrigo. Aliás, cuidamos, não! Cuidaram. Eu não tinha condições de pronunciar meu próprio nome, tremia mais que vara verde.
Farejando os cantos da construção que desejamos alcançar, os meninos conseguiram vislumbrar uma possibilidade de entrarmos e passarmos a noite, secos e abrigados do frio que estava pouco acima dos 10°C.
Leve como uma pena e liso feito uma lesma, Potenza conseguiu escorregar entre a única fresta aberta que possui aquela parede, e logo abriu as portas para um mundo novo. Com dez minutos, após trocar as roupas molhadas por roupas secas, eu ja estava renovado com quem acordar para enfrentar o dia. Lá dentro descobrimos que teríamos um horário certo pra sairmos de lá, também um horário certo para transitar pela estrada sem sermos vistos pela fiscalização no dia seguinte. Mas, como era coisa pra ser colocada em prática só após a alvorada, esticamos uma lona no chão, também os sacos de dormir, e apagamos no sono.
Na manhã seguinte tivemos alguns conflitos ideológicos, teve amigo que deu um chilique danado por que fazia questão de irmos até o POÇÃO DO GUARATUBA. Quando tudo se resolveu partimos em direção ao Poção, e pouco além dele montamos acampamento para passar a parte da manhã chuvosa esticados nas redes curtindo uma preguiça.

A TRAVESSIA 
PRIMEIRA NOITE - 17/Nov/2017
O estado de São Paulo estava sendo castigado por uma forte tempestade, e isso acontecia ainda quando a luz do dia se fazia presente. Era um aviso de que as coisas se tornariam mais difíceis naquele lugar escondido nos confins de Biritiba Mirim. A tormenta ainda era bruta quando caiu a luz do Sol, antes mesmo de nosso grupo se reunir e decidir se teríamos a coragem de partir rumo ao novo desafio, selvagem e desconhecido, que tanto nos assustava com seu desnível, o maior de que se tem notícias na Serra do Mar. Muitos acontecimentos vieram à tona para testar nossa resistência psicológica, a lei de Murphy nunca tinha se aplicado tão fiel em minha vida...
"Falecimento de três parentes às vésperas do evento, filha que adoeceu gravemente na mesma semana, metade dos envolvidos desistiram de embarcar nessa aventura, alterações em escalas no trabalho, etc e tal..."
Mas quando as forças conspiram à favor para que tudo aconteça não há nada e nem ninguém que possa impedir aqueles que sonham. Nem mesmo nosso amigo, Paulo Potenza, que carregava toneladas e mais toneladas de argumentos catastróficos para que nosso clã cancelasse a missão. Desde cedo ele me mandava mensagens que previam as mais hediondas tragédias. Quando se encontrou com Divanei, em Itaquera, buzinou o fim dos tempos na orelha do pobre velhinho até a Estação de Suzano (CPTM), onde formamos o quinteto que encararia a Besta de frente.
A chuva fez com que nosso transporte viesse a atrasar mais de duas horas, e com isso tivemos tempo suficiente para discutir se realmente valeria a pena prosseguir com tamanha loucura sob aquelas condições climáticas, que previam 3 dias de chuvas, sendo que só em um desses dias estava previsto para ser despejado sobre nossas cabeças 50 mm de água. É água pra cacete. 
Durante a espera nosso amigo continuava com seus argumentos carregados de maus espíritos, mas como ele mesmo disse:
- estando Divanei, Trovo e Vgn juntos, dificilmente ele conseguiria fazer com que a gente fosse desistir.
E quando se convenceu de que seu poder de persuasão era falho, às 22h18m, decidiu embarcar na Van com a gente. Partimos (Daniel Trovo, Divanei Góes, Paulo Potenza, Tony Eduardo e Eu Vgn Vagner) sob a condução de um motorista chamado Aro, animado e descontraído, que ficou encarregado de levar até os quilômetros finais da Rodovia SP-092. Entre as conversas de assuntos corriqueiros, muita tiração de sarro e risadas, ele também fez o favor de nos avisar sobre o dilúvio que caía em Biritiba Mirim, nos alertando se realmente valeria a pena arriscar nossas vidas na descida até o litoral, ou era melhor escolhermos outra data, e ele nem cobraria pelo valor q foi combinado. Tudo para que não fôssemos. Mas todo aquele bom humor que a gente ja vinha se acostumando se transformou em ira quando viu que quanto mais avançávamos, mais distante parecia estar o local onde deveríamos desembarcar. Por várias vezes vi aquele senhor bufar pelas ventas e coçar a cabeça, impaciente, já nos respondia somente o necessário e com rispidez. A cada 5 min perguntava de estava chegando. E quando passamos pela gigantesca ETA da SABESP (Estação de Tratamento de Água) o veículo foi adentrando pela estrada que se resumiu pela metade do que percorremos nos 20 km anteriores. Com isso a paciência do motorista chegava cada vez mais perto do esgotamento. Falamos para ele nos deixar na próxima bifurcação que aparecesse logo à frente (uns 300 mts), e ele respondeu que "esse logo ali" da gente daria mais uns 10 km. Foi quando ele embicou o carro na mata e iniciou uma manobra para retornar. Como faltava apenas 1 km para o início de nossa jornada não questionamos a ação daquele homem. Até por que não queríamos ver ninguém surtando ou sofrendo um ataque cardíaco na nossa frente. rsrs
Quando acabamos de pagar o serviço, um de nossos integrantes nos pergunta: 
- vocês não vão achar ruim se eu disser que vou voltar daqui?? (adivinha quem, rs, Potenza).O silêncio se fez presente.
Me recordo apenas de ter baixado a cabeça, e quando levantei os olhos mirando nosso amigo, lhe disse:
- isso é algo que só você pode decidir. E se for pra desistir o momento é agora. Depois que a Van for embora não tem mais jeito.

Ele justificava sua desistência quando Tony o interrompeu imitando um frango...
Pó, Pó, Pó, Pó... 
As gargalhadas ecoaram por toda escuridão daquele lugar. E como quem ameaça, ou roga praga, Potenza retrucou:
- É... quero ver você chorar lá no meio do Vale por que não tá aguentando o rolê. 
Depois de muita zoação, com um forte abraço ele se despediu de nós, deixando algum lanche e uma corda de 15 mts para usarmos a favor de nossa segurança.
À meia noite começamos nossa caminhada no último quilômetro antecedente ao trecho de vara mato noturno que iríamos enfrentar. Depois usaríamos como via uma estrada que corta a Mata Atlântica por 12 quilômetros. Um caminho longo, porém, agradável.
Da mesma forma q da vez anterior adentramos sorrateiramente ao "acampamento base" por frestas que há nas janelas do alojamento. Às 03h00 a.m, depois de comer alguns pedaços de torta que a sogra do Trovo fez, cada qual já pegava no sono como podia, largados ao chão, usando saco de dormir ou não, porém, bem abrigados. Mesmo que ilegalmente. rs
PRIMEIRO DIA DE CAMINHADA - 18/Nov/2017
Todos os dias, independente se é sábado, domingo ou feriado, há uma patrulha que se repete três vezes ao dia para manutenção do lugar que passamos a noite, começando às 08h00. Por isso tratamos de acordar cedo e picar a mula dali o quanto antes. Ser pego com as calças nas mãos nunca foi coisa legal. Às 07h00 já estávamos guiando nossos pés e levando a tropa de encontro ao monstro que tanta nos assustava. No descampado mais próximo da Estação de Bombeamento parte uma trilha, e por ela seguimos, passamos pelo POÇÃO GUARATUBA, chegamos até a área que usamos como acampamento de preguiçoso na segunda investigação, e seguimos. A partir daquele momento estávamos entrando num mundo totalmente novo aos nossos olhos, um mundo completamente agressivo e selvagem. A cachoeira que fazia estrondo da vez anterior já não era tão voraz desta vez. Passar por ela sem medo foi algo fácil de se fazer.
Na margem direita do rio, ainda plana, há rochas de tamanhos parecidos e a vegetação é baixa. Terreno ideal para caminhar sem grandes riscos. Com 40 min após a saída de nosso abrigo chegávamos ao ombro da Serra do Mar. Divanei seguia puxando em um ritmo tranquilo, mas estava a uns 30 metros à minha frente enquanto o Trovo e o Tony vinham numa distância parecida depois de mim. 
Me lembro que o rio fez uma leve curva para direita, foi quando vi nosso amigo parado em cima de uma grande pedra analisando o que teríamos de vencer. Rapidamente desviei meus olhos dele e fixei minha atenção na cabeceira da cachoeira. Me arrepiei da cabeça aos pés com o cenário se abriu à nossa frente, lindo e fantasmagórico ao mesmo tempo. Era a beira de um abismo que ruge ferozmente enquanto traga aquele terreno acidentado, e chega a assustar por parecer não ter fim. Ali estava certo o início de nossa odisseia, e se fosse para batermos em retirada aquele era o melhor lugar, mas como a equipe "só tinha carne de pescoço" estufamos o peito, respiramos fundo e nos jogamos pra dentro da mata borrando as calças com medo do que estava por vir. O desafio inicial já era de patente alta, de respeito, certo de que seria um sofrimento galgar cada curva de nível que se aprofundava cânion adentro. Iniciamos tudo na cota dos 820 mts de altitude, e com menos de 4 km toda a elevação já vai se acabando. Ou seja, uma pirambeira descomunal. 
Antes da cabeceira não foi possível atravessar o rio, já em declive fortíssimo não devíamos nem pensar em tal hipótese. Fomos tocando nosso bando e e beirando as encostas para manter proximidade com o rio, por que na menor das possibilidades nós iríamos arriscar um acesso à base da cachoeira. Escutávamos o barulho de um turbilhão vindo do fundo do Vale, mas não conseguíamos ver nada além de paredões de rochas expostas guardando as águas. Estávamos ansiosos e curiosos para ver qualquer filete que fosse, pois era certo de que seria formidável, já que o satélite mostra um cacheira incrivelmente grande naquele altimetria, avistar uma queda partindo daquela altura seria maravilhoso. Perambulávamos sobre a crista, e de vez enquanto metíamos o cabeção fora da mata, beirando o penhasco, na esperança de ver algo, mas a altura era tanta e o vale tão profundo que não víamos nada, além da possibilidade de morrer. O jeito foi permanecemos firmes no vara mato até a chegada do platô principal. A cada cinco passos descíamos três metros de altitude, a cada metro de desnível vencido muita vegetação mediana e árvores de grande porte que serviram de apoio eram deixadas para trás. Dessa maneira seguimos avançando rápido, mas carregando o receio de perder de vista a principal cachoeira que corria ao nosso lado, tão perto e tão distante. Mas o receio se dissolveu quando o enorme platô rochoso pode ser visto entre as árvore vale abaixo. Nós o miramos como objetivo e saímos gastando faro em busca de alguma via que nos levasse até lá. O sentimento que nos dominava já dava lugar à ansiedade mista com a alegria de poder ver algo tão lindo, tão grandioso e tão selvagem, pois já tínhamos achado a artéria certa q nos levaria ao coração do Rio Guaratuba. Ao pisarmos nas primeiras rochas nuas do platô a alegria transbordou euforicamente diante do espetáculo que se abriu aos nossos. Era como se estivéssemos vendo tudo sobre as nuvens, utilizando as janelas do céu. O mirante natural nos permitiu ver uma boa parte da Praia de Boraceia - extremo norte de Bertioga. Ver o Rio Guaratuba, largo e sinuoso, se juntando ao mar enquanto uma revoada de Andorinhas bailava ao nosso redor foi um momento raro e precioso, imensurável. Recompensas que faziam valer cada minuto em que arriscávamos nossas vidas em busca de aventura. Às nossas costas estava uma Queda d'água bruta, gigante, que a batizamos como SALTO DO CACAREJO. Já estávamos felizes por recebermos aquele presente logo nas primeiras horas do dia, às 09h10m a.m. O mirante serviu como palco contemplativo, área de descanso e piquenique, e depois da sessão de registros voltamos pra mata.
Montão de Trigo e Alcatrazes (ilhas em alto mar), formosas e imponentes, foram vistas de longe em meio ao vara mato parecendo flutuarem sobre o azul marinho que se estende pelo horizonte e se mescla com o azul cerúleo. Penhascos e desfiladeiros eram nossos obstáculos e companhias inseparáveis por qualquer lugar que fossemos, direta ou esquerda. E mesmo com tamanha adversidade nos cercando, Trovo parecia uma criança em um parque de diversões, transbordando felicidade através de gritos e gargalhadas somadas aos bordões de alto teor cômico. Coisas que se aprende no gueto, rs. Mas não era pecado nenhum sentir-se feliz dentro daquele inferno verde e deixar tal sentimento extravasar. Até por que o pacote estava saindo melhor do que a encomenda.
Vez ou outra a gente parava para aferir o GPS, analisar o quando a gente perdia em altimetria e o quanto avançávamos em quilometragem. Era satisfatório pregar os olhos na telinha e ver que estávamos despencando como a água do rio, e deixando para trás várias curvas de nível que não arrefeceram por horas. O plano de seguir o mais próximo possível das fendas deveria de ser mantido, mas, presos no ombro de uma rocha lisa, sem agarras, nem vegetação firme para servir de apoio, Divanei chegou a lançar a corda mas não foi o suficiente para deixar nossos pés em segurança no patamar abaixo. Recolhemos a corda e fomos caçar um caminho melhor pra dentro da floresta, que estava muito quente e abafada devido aos 30°C previstos para o dia. Quando retomávamos a direção das águas o pensamento coletivo não era outro, senão, TOMAR BANHO DE CACHOEIRA. Mas para isso, Divanei e Eu tivemos que vencer um jardim de bromélias e grudar nossos esqueletos numa árvore e executar as técnicas mais apuradas de "Poli Dance Selvagem," para ter acesso ao rio. Tony e Trovo escolheram uma via melhor para chegar na ducha gelada da CACHOEIRA GRUTA DA BELA VISTA. Eu já fui largando a mochila nas rochas, tirando a camiseta e me enfiando debaixo da queda. Tony e Trovo também foram. Precisávamos daquilo.
Depois das de longas costumeiras tratamos de deixar o leito à nossa esquerda e tirar mais algumas horas de vara mato até o ponto crucial da Travessia, onde o principal afluente deságua no Guaratuba, e essa confluência faz um forte vinco em forma de V, e essa junção aponta tarefa árdua, carrasqueira. Conversamos à respeito de tal ponto, e deduzimos que passando dessa parte estaríamos com passe livre para concluir a descida até o litoral. Mas, se tudo aquilo se transformasse em um pesadelo de barreiras intransponíveis iríamos engolir nosso orgulho, enfiar o rabinho entre as pernas, voltar tudo o que deixamos para trás e afogar nossas mágoas no aconchego de casa. Seria frustrante, mas não haveria outra opção. 
Às 11h40, quando o sol estava de rachar o coco, colocamos as pontas dos pés em mais um precipício, olhamos para baixo para ver a enorme cachoeira caindo e voltamos pro mato. Começamos por um vara mato horrível, espesso, sobre um afluente seco onde tentei descer e voltar pro rio o quanto antes. Mas a via acabava numa altura nada convidativa, e prosseguir por ela também não era nada fácil. Tudo muito escorregadio e cheio de galhos tombados atravessando o caminho. Então voltamos e subimos mais um pouco para darmos a volta, o Trovo assumiu a dianteira e começou a rasgar um emaranhado de samambaias que parecia não ter fim. Uma mata densa e entrelaçada que não dava espaço para abrirmos espaços. O Tony xingou os diabos por conta daquele pedaço horrendo e tortuoso. Mas como nenhum sofrimento é eterno, às 11h50, saímos em um afluente de águas claras, um lugar simples, de encher os olhos. Era "o nosso afluente." Verificando seu curso vimos ele se transformar em uma cachoeira ímpar, linda (CACHOEIRA DA PROA), que despenca com pouco volume há pouco mais de 12 mts de altura. Sua cabeceira também é um mirante especular, permite avistar o restante do Vale, a imensidão do mar sustentando as duas ilhas, e o condomínio que tínhamos como alvo final. O lugar se apresentou tão agradável que gastamos um bom tempo por lá. E como não poderia faltar recreação, descemos até sua base para revigorar as energias de nossos corpos cansados.
Não poderíamos contar vitória antes da hora, mas acabávamos de deixar para trás o Cão Cérbero que nossa mente havia criado. A cota 470 foi ficando cada vez mais acima de nossas cabeças, e já dentro do leito do rio paramos de fronte ao Poção que recebe a força de uma enorme cachoeira que corre na diagonal - CACHOEIRA DA JUNÇÃO - sendo abastecida pelo "nosso afluente." Beliscamos alguns pedaços da iguaria trazida pelo Trovo (+ torta), admirando mais um espetáculo que aquele lugar apresentava.
Até então tínhamos andado apenas pelo lado direito do rio, coisa que causava estranheza, pois achávamos que seríamos obrigados a ficar saltando de lado à lado por conta das dificuldades do caminho, mas o rendimento vinha sendo satisfatório em meio a tudo aquilo. Às 13h50, dentre a cota que arrefece por alguns minutos, forçados por uma garganta que nos barrava prosseguir por onde estávamos, fizemos a primeira travessia de margem à margem saltando sobre as rochas e sendo desequilibrados pela força da água. A margem esquerda "estava uma uva" de tão prazerosa que estava, já estava mais do que na hora de todo aquele declive acentuado dar um trégua e nos deixar um pouco mais seguros sem ter que ficarmos pendurados em paredes. Seguimos um longo trecho pelo próprio leito, pulando de pedra em pedra e contornando poções. E como ja diz o velho ditado: em time que está ganhando não se mexe, fomos fiéis à mesma tática que vinha sendo aplicada até então: hora eu puxava o ritmo da tropa, hora Divanei assumia a frente, enquanto Trovo vinha sempre como o terceiro homem dando sugestões de caminho, e o Tony era o mudinho do grupo, vinha aguentando a pressão quietinho como um líbero de time da várzea - o último zagueiro. Assim seguiríamos até o fim daquela batalha de sobrevivência do homem vs a força da natureza.
Não muito diferente do lado oposto na esquerda também tivemos penhascos para andar sobre suas beiradas correndo riscos de cair pra nunca mais voltar. Mas as árvores continuavam sendo nossas melhores aliadas naquela luta pela sobrevivência, e quando não as tínhamos éramos obrigados a subir morro acima, ganhar altitude novamente, contornar algum obstáculo e voltar sem demora. Assim fomos vencendo mais curvas de nível, tudo tão agressivo quanto antes, e às 14h40, já na cota 470 encontramos uma sequência de 3 cachoeiras lindas (CACHOEIRA DOS TRÊS POUSOS). Entre cada uma delas há um poção, ideal para banho, e as rochas que cercam o lugar serviram como ponto descanso para o Tony - que já demonstrava muito cansaço em seu semblante, e o mesmo lugar serviu como área de TOP LESS para o Divanei, que arrancou a camiseta e se estirou no chão queimando a barriguinha e as peitcholas rsrsrs, enquanto Isso Trovo e EU fomos explorar as quedas mais acima e dar aquele merecido tibum. Às 15h20 partimos de lá devido a ameaça que São Pedro enviou. Em menos de 10 minutos o céu que estava dava lugar ao sol de rachar pedra tomou todo espaço azul e nos cobriu com nuvens carregadas. Corremos pra mata querendo acha algum lugar decente para nos abrigar do temporal que "Pedrão" prometia. Enquanto a gente seguia varando mato os trovões estalavam no céu acusando que logo cairia chuva forte sobre nossas cabeças, e justo naquela hora topamos com uma cabeceira que parecia ser de uma cachoeira com mais de 120 mts de altura. Contornar tal obstáculo iria tomar muito tempo, mas, como não tínhamos outra opção, e estávamos à beira de um precipício guardado por fortes inclinações nas escarpas laterais, com o pensamento de: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come, tentamos não parar enquanto a chuva Não caía, pois não sabíamos quanto ainda faltava para aparecer algum canto para jogarmos as tralhas e descansar sossegados e distante das enxurradas do rio. Às 16h20, quando gritei: AFLUEEENTE, começou a cair chuva. Colocamos os pés no pequeno tributário e já falávamos que seria por ali mesmo que iríamos montar acampamento para passarmos a noite. Meio que desesperado, com medo de a chuva trazer água barrenta para o afluente, algo comum em dias de chuva, comecei a pedir para os meninos encherem suas garrafas e armazenarem água limpa para prepararem a janta e consumir até o dia seguinte. Olhamos com atenção, analisamos onde poderíamos nos acomodar, e vimos que o lugar era o pior local para acampamento no momento, cheio de pedras, galhos e buracos, numa pirambeira chata de andar, mas seria ali mesmo a parada final daquele dia, pois, além de estarmos extremamente cansados havia uma barreira surreal à nossa frente que preferimos deixar para confrontá-la na manhã seguinte, quando já estaríamos revigorados e prontos para uma nova batalha.

O ACAMPAMENTO 
Limpamos o espaço que ocuparíamos esticando nossas redes, escolhemos a árvores que pareciam as certas e colocamos a mão na massa ainda sob a chuva. Tony nunca havia feito um acampamento selvagem utilizando redes, não sabia nem por onde começar suas arrumações, e para ajudar, o lugar que lhe restou foi o pior lugar que um corpo cansado poderia merecer em todo o planeta. Divanei armou seu abrigo rápido demais e desfaleceu sem querer saber de jantar, Trovo deu um jeito de erguer sua "casa amarela" na encosta superior do local, estiquei minha cobertura de lona sobre minha rede, depois fui ajudar o pobre coitado do Tony a conseguir algo que lhe permitisse ao menos esticar o esqueleto. Foram apenas dois passos para que ele tivesse um abrigo, primeiro a lona, segundo a rede, mas a dificuldade que tivemos para concluir a tarefa foi duradoura. Ele acabava puxando mais um lado da lona deixando o outro lado quase todo descoberto, tinha que desamarrar e arrumar novamente. Como a rede seria usada pela primeira vez ele teve medo de deitar e cair, ou ela não aguentar o peso do mamute e rasgar rs. Pediu pra que eu a deixasse baixa e depois testá-la. Quando ele deitou a rede encostou no chão, tivemos que subi-la, e isso se repetiu algumas vezes. Foram tantos empecilhos que se fosse relatar com detalhes esse arquivo/texto ocuparia 1 TB do meu HD Externo, rs. Dava pra ver no rosto do garoto o quanto ele estava nervoso com aquela situação que perdurou por duas horas de luta sofrida, mas acabamos. Depois fui preparar meu jantar, Tony fez o mesmo, enquanto Divanei roncava, e Trovo não dava as caras - deveria estar comendo torta, rs. Antes das 20h todos já estavam recolhidos, Tony ainda me chamou mais duas vezes para ajeitar a rede dele, que, de quando em quando tocava no chão.
Não se ouvia nossas vozes, apenas flashes, muitos flashes de luz que piscavam naquela noite extremamente quente. Imaginei q fossem relâmpagos antecedendo a tempestade, mas era o Tony, inquieto com as intempéries que o torturavam no momento. Devido ao calor calor da noite e a proximidade com a água nosso alojamento estava dominado pelos pequenos "demônios alados." De repente, no breu da escuridão, escutei o Divanei me chamar perguntando se eu estava com a lanterna, de imediato iluminei em direção àquele senhor de idade avançada e vi uma infinidade de borrachudos rodeando seu corpo franzino. Era uma quantidade que eu nunca tinha visto antes nas vezes que fiz pernoite na Serra do Mar. Ainda mais perto das 22h, horário que eles não costumam aparecer. Divanei pegou algo em sua mochila e retornou para rede.
Os flashes continuavam frenéticos às 23h, toda hora em que colocava a cara para fora da rede eu via o Tony se estapeando ou rasgando a cara de tanto coçar por conta de uma luta desleal com centenas de mosquitos. Teve um momento em que ele viu que eu o observava, não se conteve e veio em minha direção desabafar...
... ele se dizia agoniado demaaais sem saber o motivo, e não conseguia dormir desde quando deitamos. Tinha vontade de gritar, sumir dali. Tentei acalmá-lo dizendo q também não havia pregado os olhos até então. Depois de alguns minutos de conversa ele voltou a deitar.

Não demorou muito para os flashes voltarem, mas voltaram com barulhos estrondosos que davam medo. Quando a chuva caiu fez jus à barulheira que veio antes. Foi um temporal impactante que rasgou horas madrugada à dentro, me deixando receoso, mesmo estando todos bem instalados, eu estava muito próximo ao afluente e temia que viesse alguma enxurrada e levasse meus pertences que estavam no chão. A todo momento eu conferia o nível da água. Mas tive um certo alívio quando se passava de uma hora de chuva forte e nada mudara perto do nosso acampamento. Mas, como "todo sofrimento pra corno é pouco" toda água que escorria pela árvore era absorvida pela corda que prendia a rede do Tony, e como ele não havia levado mosquetões ou argolas de metal para mudar o curso da água, ela fez seu caminho pela rede do amigo, ou seja, ele estava deitado tentando dormir e a água da chuva escorrendo pela suas costas. Que Maravilha, não? Enquanto eu estava acordado meu pensamento estava fixo no volume da chuva, e eu só rezava pra que todo aquele dilúvio da madrugada fosse toda a chuva (50mm) prometida para o domingo.

A noite deu lugar a luz do dia, e o rosto do Divanei demonstrava que a luta contra os pequenos demônios havia sido de desvantagem para nós, meros mortais. O senhorzinho que costuma se apresentar com seu rosto fino e chupado de tão magro que é, desta vez amanheceu com uma cara que parecia com a cara de um obeso mórbido em fase avançada. Estava todo inchado, desconfigurado. Ele ainda se queixou de algum infeliz ter mudado a posição de sua lona ao esticar um cordinha sob seu teto. Isso fez um acúmulo de água sobre seu teto que mais tarde veio a molhar sua rede.
Retirando as remelas dos olhos deu pra perceber melhor o que aquela manhã cinzenta tentava nos dizer. Estávamos na cota 350, na média altura da terceira queda da CACHOEIRA NEBLINA DO GUARATUBA - uma formação brutal de três grandes quedas d'água de por medo em qualquer marmanjo barbado. O bom era que já havíamos vencido a grande parte de seu desnível, mas ainda tínhamos resquícios de sua dificuldade a transpor. Então recolhemos acampamento depois de tomar um "cafézin da manha" e voltamos para mais um dia de batalha. Estávamos emparedados por uma muralha que segue paralela ao lado oposto do afluente até sumir de vista mata à dentro, escalar era impossível, além de ser completamente vertical não se via nada de tão seguro onde nos agarrar. A solução foi encarar o contra fluxo do afluente até acharmos um escape. Subimos bastante, pulando de rocha em rocha, até esbarrarmos em uma cachoeira de uns 10 mts, onde tivemos que encontrar alguma via pela esquerda, já que na direita ainda se estendia a "muralha da China". Aparentemente seria algo tranquilo a ser feito, mas ao tentar ascender às primeiras rochas vimos q se tratava de encostas tomadas por pedras escorregadias, cheias de limo e vegetação rasteira solta, onde o avanço era de 2 mts com um retrocesso de 3 mts, ou seja, sobe três passos, volta cinco ainda tendo de enfrentar um vara mato dos infernos, quase impossível de prosseguir. Mas ao chegarmos no topo da cachoeira vimos que o paredão estava se igualando com a altitude do afluente, e que teríamos um pouco a mais pra subir em uma piramba que nos levaria à crista. Ganhamos uma altitude considerável, mas fomos de passo após passo caminhando sobre a crista que nos barrava a passagem, e essa mesma crista foi embicando em direção às profundezas do Vale (aos pés da Cach Neblina do Guaratuba), mas seria algo para nos liquidar, então paramos na borda do precipício para registrar com fotos e vídeos a potência devastadora daquelas três quedas gigantes. Toda inclinação era forte e pendente à graves acidente se houvesse qualquer descuido, mas éramos obrigados dar os passos na perpendicular até sairmos da linha dos desfiladeiros entre as cotas 350 e 280, onde o rio começava a ficar menos caudaloso e tendo sua perda de altitude mais branda. 
A fera começava a recolher garras, e isso nos motivava a querer andar no leito. O pula pedra começou a ser frequente, pra variar um pouco tentamos atravessar para a outra margem do rio mas sem resultado duradouro. Em menos de 10 min os paredões da direita nos forçaram a manter nossa caminhada pela margem esquerda, onde tudo fluía bem. Exceto vez ou outra que surgia pelo caminho alguma rocha enorme, as quais tínhamos que contornar entrando na mata. E foi nesse entre e sai pelas árvores que tivemos o privilégio de encontrar "duas cavernas" que serviriam de abrigos naturais para qualquer situação emergencial, ou não. Na cota 200 encontramos o único lugar decente para montar acampamento em todo aquele Vale, era um terreno incrivelmente plano, repleto de árvores fortes e com um belo espaço para fazer as amarrações necessárias. Uma pena não termos chegado até ali no dia anterior, há 2 hrs de onde repousamos, seria o cenário prefeito para ver ao acordar pela manhã. Divanei não pensou duas vezes, logo se encarregou de instalar A CÁPSULA DO TEMPO, mesmo sob a leve chuva que começava a cair, não poderia deixar em outro lugar.
Eu mencionei estar aliviado quanto aos grandes desafios, mas o Trovo refrescou minha memória ao lembrar que em outro rios há obstáculos de respeito já na cota 200. Mesmo assim seguimos em paz saltando de pedra em pedra sobre aquele rio manso que até pouco tempo o tínhamos visto furioso. Ele ganhara uma cor caramelo e seu leito a partir dali era raso e largo, o que o tornou mais bonito. Ainda teríamos muito por caminhar naquelas condições e isso demoraria muito, mas, vez ou outra, quando a gente contornava alguma rocha e entrava na Mata encontrávamos algum leito de rio seco, plano, largo e sem intempéries pelo caminho. Era o vento soprando à nosso favor, toda vez que isso acontecia nos rendia uma jornada, um longo tempo sem ter que voltar pra água. Assim seguimos até o ponto em que o Guaratuba faz um curva brusca para esquerda e se volta para direção contrária (subindo), para o planalto, mas logo volta a correr na direção do mar. Ali encontramos uma trilha descendo, deduzimos que seria para cortar aquele ziguezague - fomos por ela, e quando surgiu uma bifurcação tocamos para o sentido óbvio. Logo a trilha encontra o rio, parecendo outro, raso e arenoso sem qualquer vestígio de pedras que tanto haviam dentro dele. A trilha continuava no lado oposto, atravessamos e andamos um pouco pelas belas prainhas formadas por grandes bancos de areia, mas seguir por elas, ou chapinhar pela água iria demorar demais. Decidimos continuar pela trilha, que nos levaria por quilômetros sem parar. Lembro de o Divanei mencionar que não adiantaria a gente "correr" pois não teríamos ônibus para voltar para São Paulo se chegássemos em Bertioga tarde da noite. Fazia sentido toda aquela preocupação, então seguimos preparados para fixar abrigo assim que encontrássemos alguma clareira apropriada para descansarmos por mais uma noite e irmos embora no primeiro horário com luz na manhã seguinte. O que causou estranheza foi o fato de não haver nenhum descampado em uma trilha tão aberta e próxima da civilização, cota 20.
Como não haveria mais nada de tão grandioso até o final da trilha trarei de guardar meu celular na mochila estanque por a chuva havia voltara a cair, por isso imprimimos um ritmo forte e constante, sem pausas. A gente via o rio correr ao nosso lado esquerdo, horas por entre as árvores, hora bastante exposto, e quando o cenário de abriu em um enorme descampado pude imaginar que já teríamos avançado além do poderíamos estar pensando. Pena que era um descampado impróprio para nosso repouso, era apenas um ponto de referência marcado no tracklog.
Ao completarmos pouco mais de duas horas ininterruptas de pernada pisei o pé no freio do bonde e pedi a parada de cinco minutos. Já estava ficando cansado física e psicologicamente. Larguei a mochila no chão enquanto dois dos amigos jogaram seus próprios corpos ao chão, estávamos destruídos. Ao conferir nossa localização no GPS fiquei pasmo, apenas pedi que meus amigos olhassem onde estávamos. Questionaram com ansiedade, mas pedi-lhes que vissem com os próprios olhos. Inacreditavelmente, estávamos à 200 mts da picada final que nos levaria ao Condomínio Morada da Praia - nossa porta de saída do submundo selvagem, bastava encontrá-la na outra margem. 
Quando pulamos novamente pra dentro do rio tivemos um pouquinho de dificuldade para seguir no caminho correto, já que a trilha se manter à vista por um curto trecho, depois nos vimos obrigados a voltar ao rio. Mas algo parecia errado, obviamente a trilha deveria continuar visível naquele ponto. Voltamos e, vasculhando o caminho, achamos a continuação da danada, porém no sentido contrário, subindo o rio. Seguimos em frente, mesmo com dúvidas, na pior das hipóteses teríamos que varar mato até encontrar alguma rota viável. Por um longo momento o Rio se fez visível à nossa esquerda, o que nos deixava mais duvidosos sobre aquele caminho, mas ao observar direito estávamos acompanhando o fluxo da água, e isso nos aliviou um tanto. Voltei a andar com o aparelho na mão para poder conferir nossa localização. 
Depois de quase 2 km caminhando de mãos dadas com a ansiedade começamos a ouvir vozes. Na mente já vinha a cena de quatro pais de família farejando um muro alto procurando a melhor maneira de pular sobre os arames fardados e/ou cercas elétricas, mas, pela graça daquele que nos protege não há muro algum, a muralha que rodeia o condomínio é natural, composto apenas pela mata atlântica. 
Respiramos fundo e enfiamos nossas caras, sujas e inchadas, para dentro de um mundo onde meia dúzia de pessoas nos viam com olhares carregados de expressões que não dá para descrever. A nossa sorte foi que se tratava de um domingo "frio" e chuvoso, o que deixou o conjunto habitacional luxuoso com poucas pessoas pelas ruas, e mesmo assim tivemos medo de sermos pegos por algum guardinha que faz ronda local. Um deles passou por nós de moto e nos cumprimentou, moradores e seus convidados talvez se assustaram com o que viam: quatro homens usando perneiras, mochilas sujas e molhadas, um deles usando capacete e colete salva vidas. Meu Deus, o quê aqueles almofadinhas deveriam estar pensando da gente? Talvez se sentissem ameaçados, mas não sabiam que mesmo sendo invasores nós éramos a caça, vigiados a cada quarteirão por câmeras instaladas no alto de cada poste. Parecia um Big Brother. Essa tensão seria eterna por 5 km, mas ao vermos outro ônibus na lista oposta tínhamos a certeza de que ele voltaria passando onde estávamos. Decidimos para e esperar, ajeitar as roupas e mastigar alguma coisa que não fosse torta, rs. Quando veio o coletivo fiz sinal de parada para perguntar ao motorista se o destino era Bertioga, ele disse que não, pois o ônibus é de circulação interna nas dependências do condomínio. Abriu a porta de trás de nos deu aquela carona que todo aventureiro sonha em conseguir ao término de sua aventura.
Passamos pela portaria principal ainda com receio de termos daquela dor de cabeça que tem os INVASORES DE PROPRIEDADES quando são pegos, mas saímos lisos, sãos e salvos, vitoriosos e felizes por poder olhar para trás e ver que enfrentamos um monstro feroz, e que o vencemos sem precisar matar, ou o ferir aquela fera. Apenas dominá-lo.

Fim.

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    • Por Jorge Soto
      http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/283/283
       
      O OVNI DE BIRITIBA-MIRIM
      Situado no longicuo bairro da Terceira, em Biritiba-Mirim, uma gruta com salão de 50mts quadrados
      desperta a atenção não apenas por suas características intrínsecas como tb pelo seu nome pitoresco.
      É a “Gruta do Disco Voador”, uma enorme lapa situada ao sopé duma gigantesca rocha - supostamente
      com formato de “disco-voador” - q além de possibilitar atividades supostamente “espeleológicas”
      favorece tb a prática dum rapel negativo de 20m de altura. Lugar desconhecido porém de facílimo
      acesso, este fds fomos conferir esse curioso atrativo situado no miolo do planalto de Mogi das
      Cruzes, emendando à esta breve empreitada a travessia “BR 98 - Terceira”.
       

       
      Desembarcamos eu e o sempre pau-pra-td-obra Ricardo pontualmente na Balança as 9hrs naquele q quiçá
      fosse o primeiro latão a circular naquela manhã fria e cinzenta pela BR-98, tradicionalmente
      conhecida como Rod. Mogi-Bertioga. A incerteza das condições da vereda e, consequentemente, do tempo
      de duração da travessia proposta até a gruta nos calçou de q qto mais cedo partíssemos de Mogi das
      Cruzes, melhor. Em tempo, o passeio em questão á Gruta é breve e curto (algo de menos de 10
      minutos!), porém o acesso ao bairro da Terceira sim q é difícil de logística, com escasso transporte
      coletivo e de horários irregulares. Por este motivo decidimos alcançar este bairro distante por meio
      de uma forma nada convencional: emendando sucessivas picadas a partir da BR-98 (Rod.Mogi-Bertioga),
      visitar a Gruta e depois retornar pelo meio “oficial”, ou seja, de bus. Portanto ficam aqui os
      agradecimentos ao Vagner Barbosa (http://exploracaoecotur.blogspot.com/) e Albino Cesar
      (http://rumoselvagem.blogspot.com.br/) pelas dicas valiosas de acesso ao lugar, q auxiliaram (e
      muito) na logística pra empreitada de uma forma geral.
      Pois bem, após ajeitar mochila nas costas e trocar algumas palavras com uma galerinha mochilada no
      posto da Balança q retornava frustrada da Cachu Elefante - o mau tempo impossibilitara o rapel por
      eles planejado – nos lançamos ao asfalto naquele manhã bem borocoxô q certamente seria o q salvaria
      o feriado! Sim, a súbita frente fria q surpreendera td região sudeste trouxe a tiracolo excesso de
      nebulosidade mas - principalmente - muita chuva, frustrando os planos “montanheiros” de quase td
      mundo, inclusive os meus. Mas como nem td tava perdido, resolvi ao menos honrar minha necessidade
      habitual de “cheiro de mato” apelando pros meus “planos C, D e E”, cartas na manga q geralmente
      consistem em bate-voltas pela Serra do Mar q podem ser realizados independente das condições
      climáticas. Afinal, o único visu recorrente nesta frondosa serra é o verde onipresente da Mata
      Atlântica! E foi aí q entrou a Gruta e a travessia, programas q estavam engavetados já a algum
      tempo.
       

       
      Voltando então à trip q encabeça este relato, iniciamos nossa pernada mergulhando no asfalto com
      determinação, enqto os finos respingos de chuva fustigavam nosso rosto. Deixamos então rapidamente o
      km 77 q caracteriza o tradicional posto da Balança, pto tradicional de partida de muitas aventuras
      pela região. O céu acizentado envolto em brumas úmidas q cobriam a cumieira dos picos ao redor
      realmente não era a mais convidativa das paisagens, e isso se refletia no pouco trafego de veículos
      pela rodovia. Das onipresentes, possantes e barulhentas motos indo e vindo, nem sinal. Realmente,
      são poucas as pessoas q conheço q saem de casa nessas condições, q fogem da zona de conforto pra se
      embrenhar num rolê incerto na mata mas com garantia de muita água pelo corpo. Felizmente o Ricardo é
      uma dessas pessoas e nada melhor do q o retado rapaz pra me fazer cia nesta aventurinha dominical.
      Abandonamos o asfalto após quase 2 ou 3km percorridos pra então tomar uma antiga via pela esquerda,
      assinalada por uma decrépita cancela e uma enferrujada guarita metálica. Por ela seguimos
      desimpedidamente sem maiores dificuldades, uma vez q consiste num velho estradão desativado q tanto
      serviu pruma empresa de reflorestamento como pra construção de antigas tubulações. E q inclusive
      ouvi boatos q servira últimamente pra desmanche de veículos. Daqui em diante nossa rota será
      indefinidamente pra nordeste, e a bussola ficou então azimutada nesta direção. Surgem saídas o tempo
      td de ambos lados, mas basta sempre se manter na principal. A principio, analisando a carta de Mogi
      e Salesópolis, basta simplesmente se manter por esta via ate o fim q invariavelmente desembocaríamos
      nos arredores de Casa Grande, nosso destino. E lá fomos nós.
       

       
      A esperança em manter os pés secos se diluiram assim q saltei as pedras afim de cruzar o Córrego do
      Lobisomem, simpático curso dagua ao lado da antiga residência do Seu Geraldo. Um escorregão me fez
      enfiar td canela na água, inutilizando por completo as supostas propriedades impermeabilizantes da
      minha robusta Snake. Dane-se. Como dizem mesmo por ai mesmo? “Quem ta na chuva é pra se molhar!”,
      né? Logo adiante, conforme adentrávamos mais no planalto, a estrada se estreitou de tal modo até
      tornar-se uma larga vereda de terra cercada de mata, onde as vezes apresentava vestígios de seu
      antigo calçamento de pedras. Nas baixadas, como era de se supôr, verdadeiros pântanos tomavam conta
      do caminho, e a trilha sonora de td travessia se resumiu ao chapinhar das botas na água.
      As 9hrs tivemos uma breve pausa sob os enormes rochedos formando uma toca a beira da trilha,
      providenciando proteção da chuva. Ali arrumei algumas coisas q estavam expostas e não desejava q
      ficassem umedecidas naqauele tempo maledito. Dando continuidade a pernada, cruzamos cuidadosamente
      as toras de madeira (lisas feito sabão!) sobre o Córrego da Paca pra então emergir por um breve
      momento nos campos abertos. Uma picada sai perpendicularmente pela esquerda e q imediatamente
      reconheço como a vereda q leva á Pedra do Sapo, cujo respeitável serrote encontra-se totalmente
      encoberto por espessa serração, assim como o imponente Pico do Gavião, cujo acesso cruzamos mais
      adiante.
       

       
      Após mergulhar na mata e cruzar novamente o Rio do Lobisomem (q segundo Seu Geraldo tangencia a
      vereda em mais de uma ocasião, mas esta info precisa ser confirmada na carta mesmo), as 9:45hrs
      nossa rota cai numa bifurcação importantíssima com formato de “Y”. Aqui tomamos o ramo da esquerda,
      q é o q nos interessa e vai na direção desejada, uma vez q o da direita já conheço doutras ocasiões
      e leva a recantos interessantes como o Rio Sertãozinho, Represa Andes e, indo além, até as nascentes
      planálticas do Rio Guacá! Esta picada sempre tive vontade de palmilhar e pra mim estar aqui tinha
      gosto de novidade. E vamo q vamo, ne?
      Pois bem, foi aqui q a vereda estreitou-se mais ainda e o mato começou a tomar conta do caminho. Na
      verdade a picada ta bem batida embaixo, mas a vegetação tende a cair por cima dela. Por este motivo
      fomos quase o tempo td enxugando a mata úmida a nossa frente, andando meio q inclinados com a cabeça
      pra baixo e utilizando constantemente as mãos pra afastar galhos mais robustos q se interpunham
      diante da gente! Alguns gigantes da floresta tb surgem tombados no caminho, mas nada q um
      desviozinho básico não resolva, pois a trilha ta bem evidente, pisada e com vestígios de passagem
      recente sob a forma de embalagens de gel energético! Não tem como errar! Foram poucas as ocasiões em
      q o Ricardo teve q fazer uso de seu facão pro avanço prosseguir de forma satisfatória, portanto fica
      a dica de q esta via está (no meu humilde entendendimento) em boas condições!
       

       
      E assim nosso avanço teve continuidade de forma inipterrupta e constante, sempre sentido nordeste!
      As vezes a rota tendia pra leste ou oeste ao bordejar os morrotes no caminho, mas logo retomava
      naturalmente a direção desejada, sinal q estavamos no caminho certo! A pouco (ou nenhum) desnível
      torna a pernada agradavel, a sua maneira, claro! No caminho cruzamos pequenos córregos cristalinos
      (inclusive acompanhamos um deles durante um tempo), um simpático laguinho a nossa direita e alguns
      poucos (e pequenos) descampados. As 10:40hrs a trilha emergiu num enorme lajedão onde pensamos já
      estar numa via asfaltada. Q nada, a picada apenas passava por cima de um enorme monólito de granito
      enterrado pra depois se embrenhar novamente pela mata molhada, e isto ocorreu em mais outra ocaisão
      mais adiante.
      As 11hrs o canto metálico das arapongas avisava q havíamos alcançado as margens mansas do Rio
      Sertãozinho, curso dágua q mais adiante despeja suas águas na Cachu Light e Cachu Furada, e q após o
      asfalto da Mogi-Bertioga se junta ao Ribeirão Guacá pra então formar o majestuoso Rio Itapanhaú. Uma
      ponte de madeira caindo aos pedaços e de integridade duvidosa nos separa da continuidade da picada,
      e é a partir daí q avaliamos um lugar seguro pra cruzar o rio pela água pois pelo velho e decrépito
      pontilhão, sem chance! Felizmente entrando na mata pela direita há um desnível baixo no barranco q
      dá acesso a um banco de areia relativamente raso, mas q mesmo assim não impede de adentrar no rio
      com água ate um pouco abaixo da cintura! Avancando devagar e tateando o chão com cuidado, ali
      realmente era o local mais “raso” pra atravessar o Sertãozinho!
       

       
      Uma vez na outra margem, a pernada tem continuidade sem maiores problemas e aparentemte as condições
      melhoram! A picada se alarga e vira um estradão coberto de grama q desemboca noutro com as mesmas
      características! Aqui tomamos o ramo q toca pra esquerda, acompanhando o Rio Sertãozinho pela
      direita, as vezes próximo as vezes mais afastado, mas sempre com o som audivel de suas águas
      marulhando próximo da gente. A outra ramificação fica pra explorar numa outra ocasião, mas nossas
      suspeitas sejam de q acompanhe o curso do rio, so q na outra direção.
      Finalmente o estradão desemboca num lajedão por onde corre um pequeno corrego munido de uma captação
      de borracha, sinal de civilização próximo. De fato, mais adiante há as ruínas de uma casa e, mais
      adiante, outro casebre em construção onde uma placa no sentido contrario nos diz estarmos saindo de
      propriedade particular. Eram ate então 11:15hrs e praticametne a travessia por trilha chegava ao
      fim. Bastava agora dar continuidade a mesma atraves de estrada de chão ate o bairro da Terceira.
      Tomamos então a maior estrada q surgiu na nossa frente e fomos indo, cruzando pela entrada de vários
      sítios e chácaras no caminho. Interesante reparar q tds eles ostentavam um gde monólito de granito
      no quintal. E pelo emplacamento, estavamos numa tal Estrada Municipal do Sertãozinho.
       

       
      Ao meio-dia caímos noutra estrada maior e, equivocadamente, tocamos pra direita. Mas como as
      características da carta não conferiam com o q víamos (leste) a nossa frente, deduzimos q estavamos
      no caminho errado. Sanado rapidamente o deslize voltamos e tocamos pra esquerda, ou seja, pro norte!
      O mau tempo havia dado uma trégua e lentamente dava sinais de melhorar, embora o firmamento ainda
      permanecesse envolto naquela nebulosidade opaca. Se estivesse limpo, de onde estavamos poderíamos
      avistar as respeitáveis elevações do Pico do Garrafão e da Pedra da Esplanada, a oeste.
      Pois bem, a pernada pelo estradão de chão pro norte transcorreu sem intercedencias. E assim, após
      cruzar com as enormes tubulações da adutora q vem da Moóca com destino a Estação Casa Grande da
      Sabesp (oeste), serpentear morrotes forrados de eucaliptos q abastecem a cia de celulose Suzano e
      bordejar os remansos do córrego Gracianópolis pela direita, as 13:20hrs finalmente caímos na SP-92,
      estradão de terra bem mais largo e batido q atende pelo nome de Estrada de Casa Grande! A partir
      dali basta tocar pra direita algo de 3km, sentido o bairro da Terceira. Mas é preciso prestar
      atenção as referências pra não perder a entrada da picada á Gruta! Ao nos deparar no km 86 com um
      portão amarelo saindo pela direita com o emplacamento de “Sitio São João” e “Rancho Chico Tripa” é
      preciso parar! Logo na frente desta estrada está a entrada da trilha, isto é, escancarada à nossa
      esquerda. Obvia e bem batida, agora não tem mais erro chegar a Gruta do Disco-Voador!
       

       
      Mergulhamos então novamente por agradavel e simpática mata secundaria, primeiro em nível e sempre
      pro norte. Após cruzar um córrego cristalino atraves de uma pinguelina improvisada artesanalmente, a
      vereda desvia pra leste e começa a subir a encosta de um morro, primeiro suave mas depois com
      ascenção forte! Em dias secos esta piramba deve ser facílima de subir, mas não é o caso hj; as
      chuvas deixaram td liso e escorregadio, razão q basta dar um paso q se retrocede dois. Mas nos
      firmando bravamente na farta mata em volta este desnível é logo vencido.
      E finalmente, as 14:20hrs, nos deparamos com um gigantesco rochedo cravado no meio da floresta bem
      na nossa frente! Não deu menos de 10min de trilha a partir da estrada e enfim estavamos diante da
      Pedra do Disco Voador!!! E olhando bem praquele majestuoso monólito de granito podemos perceber
      realmetne o motivo desse nome um tanto esdrúxulo. A pedra de fato parece um enorme “disco voador”
      enfiado no morro após, digamos, um pouso forçado!! Me senti o Fox Mulder (acompanhado de uma Scully
      trajada de Rambo!) diante daquele vestígio natureba-ufológico q desandei a clicá-lo de tds formas
      possíveis, mas infelizmente nenhuma foto dá conta pra mensurar a grandiosidade dessa pedra q tb
      guarda semelhanças com algum templo inca enfiado no meio da mata.
       

       
      Aparentente o conjunto “Pedra e Gruta do Disco-Voador” é composto por 3 gigantescas rochas: a
      primeira é a maior de tds e coresponde ao “disco”, e esta acomodada sobre td conjunto. Com formato
      arredondado na parte visível (o resto ta enfiado no morro) e altura de mais de 20m, seu topo esta
      recoberto de td sorte de bromélias. A segunda rocha é a q dá suporte e base à primeira, com um
      trecho plano onde é possível bivacar tranquilamente com certo conforto. E uma terceira rocha, a
      menor de tds e abaixo de tds estas, q parece meio q mocada no morro, ao lado da trilha pirambeira
      percorrida e de onde há uma fissura da qual volto a falar em breve.
      Pois bem, após os cliques nos munimos de lanternas e headlamps e fomos “explorar” a tal Gruta do
      Disco-Voador! É preciso deixar claro q de gruta não tem nada (acho) pois a “caverna” em questão nada
      mais é q o vão (ou fissura) entre a parte baixa da primeira gde pedra, acomodada entre o chão de
      terra do morro, e a segunda e terceira rochas!!! Não sei se, espeleologicamente falando, isso
      configura como caverna ou gruta, mas tai uma resposta pralguem entendido dizer. Pois bem,
      contornando a boca maior da gruta pela esquerda temos acesso, mediante escalaminhada, a parte baixa
      da primeira pedra. A partir dali é preciso rastejar feito calango profissa e se espremer um tanto
      entre o chão de terra (molhada e, portanto, enlameada) e a porosidade do granito acima da gente!
      Mas num piscar de olhos caímos no tal “salão” ou”galeria”, q não deve ter mais de 50m quadrados e
      além de td é baixo, tanto q uma pancada na cabeça me lembrou dolorosamente pra andar inclinado o
      tempo td. De resto, não tive o privilegio de me sentir abduzido por estar ali no interior de um
      “OVNI”, mas o lugar não deixa de ter um charme do outro mundo.
       

       
      Fachos de luz rasgaram a escuridão aqui e ali e acabaram focando um “alienígena” no pedaço, sob a
      forma de uma minúscula pererequinha no maior sono. Bem q tentamos fazer contato imediato de 3º grau
      com aquele pequeno ser, mas a danada não quis nem saber da gente. Vai ver achou a raça
      humana-trilheira indigna de sua atenção, diante daqueles inusitados “homens-de-preto-com-botas-e-mochilas” .
      Ou vai ver ainda não atingimos um estado evolutivo decente pra comunicação. Vai saber. O minúsculo
      anfíbio nos ignorou mas depois nosso interesse se voltou prum estreito caminho por onde vinha luz
      natural e corria um pequeno córrego “subterrâneo”. Avaliando bem foi ai q percebemos q ali era a
      fissura q tinhamos visto antes de chegar ate ali, resultante da junção da terceira pedra com o
      trecho de morro q guarda a trilha. Bem q quissemos sair por ali, mas so de ver o quão enlameado
      emergiríamos da rocha nos dissuadiu a retornar pelo mesmo caminho da ida.
       

       
      Voltamos então a entrada da caverna e ali, no lajedão plano (com sinais de fogueira recente) nos
      brindamos com um bom descanso, um lanche e td isso embalado com a gratificante sensação do dever
      cumprido! Na sequencia retornamos pela trilha, dando adeus aquele belo monumento de rocha pura e,
      num piscar de olhos, caímos na Estrada de Casa Grande. Caminhamos então mais uns 3km e estacionamos
      no único boteco q devia ter ali, q parecia ser o “centro” do bairro da Terceira, q tem algumas casas
      esparsas e uma igrejinha. Eram exatamente 15:30hrs e fomos informados q o latão so passaria as
      18:30hrs!!! Putz! Como não estavamos nem um pouco afim de andar quase 15km ate Biritiba-Mirim nos
      conformamos em esperar td esse tempo, so precisávamos nos manter ocupados ate lá. O Ricardo resolveu
      dar uma de ornitólogo profissa clicando os passarinhos locais, enqto eu fiquei ali, prostrado no
      boteco, bebericando umas brejas e secando td material umedecido no inicio do dia. Alem do mais,
      tratei de interagir com os bebuns locais q me diseram q o bairro ganha esse nome por corresponder á
      “terceira” região coberta pela adutora da Sabesp. Entre outras particularidades, um folheto
      escancarado na porta anunciava a candidatura dum tal Vagner Bodão prometendo transformar a Gruta do
      Disco-Voador em atração turística oficial do bairro!
       

       
      O tempo, infelizmente, parecia não passar naquele fim de mundo! A td hora olhava o celular e via q
      estavamos ali parados naquele limbo mogiano, padecendo de algum tipo de penitência numa espécie de
      purgatório atemporal. Olha, da trip daquele domingo o perrengue não foi nem a chuva, nem o frio, nem
      o mato e nem os carrapatos... foi a espera daquele maledito buso pra nos tirar dali! Portanto fica a
      dica de vir com tempo e paciência pra encarar este longo chá-de-cadeira! Mas eis q finalmente o
      bendito passou pontualmente, e assim embarcamos numa sacolejante viagem feita sob os braços
      acolhedores de Morpheus!
       
      Uma hora depois saltávamos em Biritiba-Mirim, onde nos prostramos no asfalto afim de tomar condução
      pra Mogi das Cruzes, trip feita num intermunicipal lotado, mas de freqüência bem maior q o anterior.
      Desembarcamos do latão por volta das 21hrs na capital mogiana, onde ainda tivemos q amargar a
      tediosa dobradinha trem e bus, dando sequencia aquela desgastante camelação q parecia não ter fim.
      Mas e daí? Prum feriado prolongado aparentemente desperdiçado até q havíamos saido no lucro. Emendar
      uma travessia serrana pelo planalto mogiano a um atrativo de ordem “ufológica” é coisa pra poucos,
      quem sabe escolhidos a dedo até por seres do outro mundo. E pensando bem, tem coisas q a gente só
      acredita vendo. Mesmo q sejam atrativos naturebas e pitorescos como a Pedra e Gruta do
      Disco-Voador. I want to believe!
       

    • Por Jorge Soto
      http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/313/Corredeiras-do-Rio-Claro
       
      UM DOMINGO QUALQUER EM CASA GRANDE
      Cerca de dois anos atrás, qdo dei minhas primeiras xeretadas na região de Casa Grande (extremo leste de Biritiba-Mirim), percebi o gde potencial da região no quesito pernadas e banhos refrescantes. Mas como nem td são rosas, havia necessidade de acerto duma logística mais apropriada pra visitações mais freqüentes. Longe de tudo e lugar nenhum conforme a carta de Salesópolis confirma, o região é servida de apenas duma única linha de transporte público. E mesmo assim, de horário irregulares e esdrúxulos durante os fds. Pois bem, este é o relato duma nova investida descompromissada a Casa Grande, desta vez no conforto e praticidade dum veiculo particular. Um breve bate-volta sussa dominical com trilha, perdidos e tchibum nas corredeiras do borbulhante Rio Claro. E q contou, inclusive, com cia mirim e canina.
       

       
      A manhã comecara quente e abafada, porém permeada de céu azul, qdo pegamos o Ricardo em Mogi depois das 9hrs, na frente da Estação Estudantes. Imediatamente tomamos a SP-88 sentido Biritiba-Mirim, afim de otimizar ao máximo aquele domingo calorento, pois a meteorologia previa pancadas a partir de meados da tarde. A idéia era fazer alguma breve exploração (com o mínimo de esforço possivel, diga-se de passagem) e depois emendar um tchibum nalguma cachu, poço ou rio das redondezas. Em tempo, no veiculo estavam além deste q vos escreve e do Ricardo, a Renata e a Carol, q por sua vez trouxe a tiracolo sua cria, a rebenta espoleta Sophia (Sossô, para os mais chegados) e a Chiara, q integrou a trupe como único componente canino da vez, por sinal, mais espoleta e espivetada ainda.
      Muita conversa furada embalou a viagem, onde as janelas do veiculo emolduravam plantações e baixos morros, paisagens recorrentes do “Cinturão Verde” mogiano. Mas foi qdo o asfalto deu lugar a uma estrada de chão q a aventura dava sinais de, enfim, ter começado. Cercada de verdejante mata de ambos os lados, a SP-92, a “Estrada de Casa Grande” (tb chamada de “Estrada do Carapicó” pelos locais) não prima muito pelas boas condições, de onde deduzimos a pouca freqüência de transporte publico. Larga, esburacada e irregular, a Carol pos em prática sua habilidade no volante o suficiente pra ser aprovada no “Paris-Dakar”, dadas as enormes poças cobrindo boa parte da via durante o trajeto, levantando ondas de barro altas o suficiente não somente a possibilitar aos sapos e pererecas do trajeto a pratica de surfe de qualidade, como tb refrescar o braço e rosto deste q vos agora fala. Mas entre uma chacoalhada e outra, havia raros momentos em q a via parecia amansar em trechos largos e planos, nos quais era possivel apreciar a paisagem q se descortinava a cada curva da viagem.
       

       
      Passamos pelo pacato Bairro da Terceira, q se resume a um punhado de casas e chácaras ao largo da estrada, e continuamos estrada acima. Serpenteando a morraria sgte percebemos começar a adentrar nos domínios de fazendas de reflorestamento da Suzano, salpicado de alguns trechos forrados de mata secundaria. Aqui a estrada deu uma trégua no quesito precariedade e ficou ate boazinha, e desse jeito seguimos ate chegar na Estação Casa Grande da Sabesp, na verdade a Estação de Tratamento Rio Claro, um curso dagua q já nos acompanhava a algum tempo com o som borbulhante de corredeiras encachoeiradas pela esquerda.
      Ignorando a entrada em propriedade particular da Sabesp, tocamos ainda pela estrada principal, q pelo emplacamento termina em Salesópolis, alguns bons kms ao norte. Aqui novamente a estrada piorou demandando novamente as habilidades inatas da motorista, e q animou a Chiara q - como qq cadelinha curiosa - apoiou suas curtas patinhas na janela afim de sentir melhor aquela miscelânea enorme de cheiros naturebas q somente o seu olfato mais apurado consegue perceber. As vezes o veiculo parecia mergulhar de cabeça nas poças escuras ou ser engolido por voçorocas de lírios-do-brejo no caminho, mas aqui essa emoção era recorrente e ate normal de quem resolve tomar estes atalhos pra Salesopolis. De preferência de moto ou bike, claro.
      Mas após cruzar uma ponte de concreto sobre o Ribeirão do Campo (q depois a carta confirmou ser o Rio Grande) , passar por um improvável povoado no meio de nada e lugar nenhum, e de ignorar a Estrada do Repiado, nos enfiamos num emaranhado de estradas secundarias de reflorestamento (de eucaliptos) q se não tiver conhecimento prévio do lugar é pedir decerto pra se perder na certa. Por sorte o Ricardo já perambulara aqui na semana anterior e sabia aproximadamente onde parar o veiculo pra começar a andar por trilha propriamente dito.
       

       
      E assim após muito remelexo, encostamos o carro numa clareira nos cafundós de Casa Grande as 10:45hrs. Finalmente pudemos esticar o corpo, q ate então estava relativamente moído e recém saido duma maquina de lavar de quatro rodas. A Chiara nem esperou abrir a porta q já se pirulitou pra fora afim de demarcar seu território com o q fosse, “numero um” ou “numero dois”. Arrumamos as coisas, estica aqui e ali, e pronto. Pé na trilha! Aqui o Ricardo coletara previamente c/ locais algumas infos (imprecisas, diga-se de passagem) dum belo poção perdido no meio da morraria, cujo acesso se dava por uma picada relativametne curta. E la nos estavamos pra verificar se essa info procedia ou não. Isso levando em conta q os arredores estavam repletos de picadas entrando aqui e ali.
      Mergulhamos enton numa picada de reflorestamento em desuso na sequencia, subindo suavemente a encosta dum morro. O comecinho estava relativamente batido, com sinais óbvios de mato pisado, mas não demorou pra tal vereda mostrar mais mato alto cobrindo ela. Mas ainda assim, seguimos em frente, firmes e fortes, crentes q estavamos no rumo certo. A Chiara não demorou a tomar a dianteira, mas com o mato alto so percebíamos a presença dela qdo assomava seu alongado focinho capinzal acima, feito periscópio, ou qdo saltava feito cabrita os obstáculos do caminho. “Cuidado ai, Chiara! Não chega perto senão te corto ao meio e vc vira um chihuahua!”, falou o Ricardo, q abria caminho com um possante facão.
      Mas enqto avançávamos mais e mais, subindo em largos ziguezagues a encosta do morro, foram surgindo duvidas com relação a se aquela la era ou não a picada correta. As infos começaram a não bater com aquilo q estava se apresentando a nossa frente. Pra complicar mais a situação, a Sossô, q inicialmente comecara animada na pernada, não escondia em seu pequeno semblante o fato de não estar gostando de estar ali, varando mato. Explico: mesmo com o Ricardo abrindo caminho no facão, o chão ainda permanecia forrado de mata até as canelas, o q alem de cobrir a desajeitada guria de espinhos e carrapichos, causou-lhe tombos em mais duma ocasião. Como não bastasse, a pequena infante já tivera uma experiência “traumática” de vara-mato com este q vos escreve , em Paranapiacaba, e prometera a si mesma nunca mais repetir a dose. “Você disse q tinha trilha!”, resmungou ela, com cara de choro.
       

       
      Como era mais q obvio q aquela la não era a picada certa, conversei com o Ricardo a respeito pra deixar a exploração pruma outra ocasião. Afinal, não estavamos em condições de vara-mato a esmo. Não com aquela miúda cia e nao sem q eu pulasse no pescoço dela diante nova queixa, claro! E tb não poderíamos dar uma de Capitão Nascimento, já q a proposta não era nada tão assim..dificil. E pensando melhor, a gente tb não tava muito afim de nada muito desgastante e incerto, pois o calor naquele horário já tava começando a pegar forte e um banho certo e garantido era a melhor pedida naquele momento.
      Dessa forma, em comum acordo, abandonamos a idéia da tal picada e retornamos pelo mesmo caminho ao veiculo, quase ao meio-dia, onde fizemos um lanchinho rápido. Logicamente q nossa boquinha foi acompanhada pelo olhar fulminante da pequena e esfomeada basset, q parecia ter um saco-sem-fundo no estômago, pois a cada naco de lanche oferecido a bichinha pedia mais e mais! Na sequencia, pegamos estrada e retornamos td trajeto feito ate ali, com algumas breves paradas pra clicar o espelho dágua da Represa Ponte Nova, as saracuras (frango-da-agua) assustadas na estrada, a Barragem do Rio Claro e os remansos fluviais do Rio Grande.
      Enfim, por volta das 13:30hrs paramos á beira da estrada, onde outros veículos tb estavam estacionados. O som dum rio encachoeirado era parcialmente visível pelas brechas da mata, mas perfeitametne audível de onde fosse, soava feito musica aos ouvidos naquele horário calorento. Descemos um barranco atraves duma trilha ingreme ate desembocar nas margens do cristalino Rio Claro, q derramava-se por sucessivos lajedos encachoeirados por td trajeto. Aqui é necessário passar por outro lado, processo q é feito atraves de duas pinguelas decrépitas consecutivas, dignas de filme do Indiana Jones, q tornam a travessia adrenante, tanto é q tivemos q colocar uma assustada Chiara dentro da mochila por precaução.
       

       
      Do outro lado do rio, uma lacônica placa da prefeitura de Salesópolis alerta pra não jogar lixo nos arredores e preservar a natureza. Mas esperar q um lugar paradisíaco como este e de facílimo acesso, bem do lado da estrada, fique isento de “farofa” e muvuca seria pedir demais. Nos lajedos e pedras próximos ás pontes, qq semelhança com o balneário do Hopi Hari será mera coincidência: famílias inteiras banhava-se e emporcalhava as margens com garrafas pets, embalagems de salgadinhos, latas de cerveja e td sorte de lixo imaginável. Foi qdo minhas narinas sentiram o odor de churrasco q vi um casal de jovens, assando numa pequena grelha do lado do rio, um suculento par de bifes, q tive a real noção da falta de consciencia ambiental das pessoas. Mas q o cheiro do churras tava bom, isso tava.
      Logicamente q não íamos ficar no meio daquela farofa, e nos pirulitamos rio acima, onde teríamos mais privacidade e um contato com a natureza mais reservado, isento de td e qq sujeira humana. Inicialmente fomos pelas pedras mesmo, saltando lajedos e chapinhando brejos, mas depois mergulhamos numa precária trilha q tocava pela margem esquerda do rio, subindo o dito cujo em meio a muita mata. Aqui novamente a Chiara se impôs e deu uma de “guia”, mostrando o caminho pra gente. Alguns obstáculos e matinha alta surgem como obstáculos, sem falar nas bifurcações q surgem a td hora embora o sentido seja meio intuitivo, daí é natural deduzir o motivo da muvuca não se estender pra cá: esforço e medo de se perder. Em tempo, este trecho pra mim era novidade, já q so conhecia anteriormente ate as pinguelas.
      Dessa forma, em menos de meia hora após estacionar o veiculo, a picada desemboca as margens lajotadas do Rio Claro. Vestígios da base de sustentação do q foi outrora uma ponte de concreto dominam a paisagem, assim como as corredeiras furiosas do ribeirão q, afuniladas, cavam um pequeno e estreito cânion q por sua vez despeja suas águas em vários piscinões sucessivos, mais embaixo. Aqui em cima podemos observar o manso Rio Claro reunir dois braços após separar uma simpática ilhota de mato e pedra, pra dali descer pelas pedras de forma mais furiosa.
       

       
      Mas a gente não iria permanecer ali não, e começa a descer pelas pedras cautelosamente afim de ficar do lado daquelas convidativas piscinas naturebas. E td cuidado é pouco pq algumas rochas tavam lisas feito sabão e qq descuido era tombo na certa. Exceto pra Chiara, claro, cujas patinhas tinham oportunas agarras naturebas sob a forma de enormes unhas q deixariam o José Mojica Marins ruborizado de vergonha. Teve apenas um trecho em q a danada caiu e ficou entalada, mas q teve por sorte a “assistência técnica” da Carol pra sair do buraco onde ela havia se metido.
      Uma vez nelas, jogamos as mochilas nas enormes lajotas inclinadas e nos presenteamos com um merecido e refrescante tchibum, banho do qual nem a integrante canina escapou. Tanto q bem antes de entrar na água (á força, claro) a elétrica pulguenta já “acionava” suas patinhas instantaneamente, já prevendo q teria q “nadar de cachorrinho” pra sair dali! E não é q a bichinha era um torpedo espichado e amarronazado na água?? Te cuida, comissão olímpica de natação! E assim permanecemos um tantão naquele nosso paraíso particular, longe da farofa, curtindo o restante daquele domingo ensolarado. A Sossô, q na primeira etapa da trip resmungava, agora irradiava alegria a cada mergulho naquela piscina olímpica praticametne nossa.
      Após nadar, fazer uma nova boquinha e ate tirar um cochilo nas pedras (q o diga a Renata, q mal dormira devido á gandaia!) percebemos o horario avançado q era, quase16:30hrs! Vendo q o tempo já comecava a se cobrir com nuvens mais carregadas, pegamos nossas tralhas e refizemos o caminho de volta na trilha. Olhando por sobre o ombro, damos nosso adeus àquelas refescantes e bem-vindas corredeiras, pra num piscar de olhos transpor a sequencia de pinguelas-balança-mas-não-cai e, enfim, chegar no veiculo. É, já quase não havia mais ninguém ali, somente o nosso carro estacionado. A muvuca deixara finalmente o Rio Claro.
       

       
      Antes de tomar o asfalto definitivo de volta, tivemos uma breve parada no Bairro da Terceira, onde bebemoramos (e beliscamos) aquele domingo atipico de calor naqueles cafundós naturebas de Biritiba-Mirim. Desnecessario dizer q durante o resto da viagem td mundo, exceto a motorista, desabou invariavelmetne nos braços de Morpheus, principalmente no banco traseiro. E a chuva prevista? Bem, ela veio com força pela noite, mas ate la já estavamos em casa.
       
      Se perguntar por ai, nove entre dez pessoas lhe dirão jamais ter ouvido falar de Casa Grande. Desconhecida do gde público – exceto, quiçá, em Biritiba-Mirim e Salesópolis – a região fica a pouco mais de duas horas da maior Metrópole do pais e é repleta de serras verdejantes, um emaranhado de estradas e trilhas a serem percorridas (a pé ou bike) e, o melhor, muitos rios encachoeirados pra mergulhar num dia de sol. Uma região promissora sem as restrições estúpidas dos parques e inteiramente desconhecida da mídia esperando pra ser explorada. Uma oportunidade perfeita pra levar crianças a um lugar ainda selvagem. E se preferir tb, uma chance rara pra levar o “melhor amigo do homem”.
       

    • Por Jorge Soto
      http://www.ipernity.com/doc/275479/album/312279
       
      TRAVESSIA SAPO – GAVIÃO
      A Pedra do Sapo é um dos gdes maciços de rocha pura q apontam pro céu do sertão de Biritiba-Mirim, assim como a Pedra Esplanada, Garrafão, Itapanhaú e o Pico do Gavião, tb conhecido como Peito de Moça ou Mulher Grávida. Interligar o Sapo a outros picos através de sua discreta crista, q se espicha sinuosamente sentido nordeste, era sonho antigo. Esplanada e Garrafão foram descartados por não integrarem a tal crista, mas a travessia rumo o Itapanhaú foi realizada recentemente c/ sucesso. Restou apenas o Gavião, cuja ausência tanto de trilha como de infos demandava estudo prévio do trajeto. Já pisara no Gavião antes, mas como meu acesso se dera pela face sul seu contraforte oposto era uma incógnita p/ mim. Contudo, neste domingo realizamos enfim esta travessia curta, porém legitimamente selvagem. Vara-mato, escalada, carrapatos e muito suor, recompensados com visu panorâmico desta privilegiada região ainda pouco conhecida.
       

       
      Desembarcamos do buso por volta das 9hrs, nos 750m da horizontalidade do cinturão verde q circunda o bairro rural de Manoel Ferreira. Imediatamente eu e o Ricardo pusemo-nos em marcha pela Estrada da Adutora num trajeto já feito vezes sem conta noutras tantas aventuras pela região. A manhã exibia um lindo céu azul, pontilhado por uma ou outra nuvem, mas repleto de promessas pro resto do dia. A subida da Pedra do Sapo já foi descrita noutras ocasiões, portanto irei direto ao q interessa. No caminho já fiquei de olho numas hortas bem saradas a beira de estrada, pra na volta literalmente “fazer a feira” despudoradamente, dada a alta de preços de alguns produtos horti-fruti no mercado.
      Após meia hora ter saltado do latão deixamos a estrada e mergulhamos no frescor da mata fechada, na evidente trilha ao lado do casebre do finado e saudoso Seu Oswaldo, tiozinho das antigas q se deliciava com as estórias da galera q perambulava por aquelas serras. Impondo um ritmo forte á suave ascenção, num piscar de olhos ganhamos a crista com rosto suando em bicas e, consequentemente um ombro serrano q foi tranquilamente vencido. Ignorando as bifurcações significativas deste trecho, nossa única (e breve) parada foi pra molhar a goela e abastecer o cantil num refrescante correguinho q corre mansamente encosta abaixo, numa curva ao lado da picada.
       

       
      Emergimos no alto da Pedra do Sapo em torno das 10:30hrs, onde tivemos nossa segunda breve parada pra retomada de fôlego e rápido lanche. O dia estava perfeito e ali, do alto dos 1010m daquele maciço, os horizontes se ampliaram com uma quase panorâmica de Biritiba-Mirim, boa parte dos seus picos e ate um pequeno vislumbre de areia dourada reluzindo no litoral de Bertioga. Daqui o vislumbre do Gavião (ou Peito de Moça, como preferir) se resume a um proeminente cocoruto elevando-se do maciço q o sustenta, parcialmente oculto pela crista principal. Da mesma forma tivemos a chance de avaliar bem o trajeto q tínhamos inicialmente em mente pra pernada proposta: nossa rota seria basicamente a mesma efetuada pro Pico do Itapanhaú, sempre sentido nordeste, mas lá pela metade teríamos q abandonar a crista principal e azimutar rumo o Gavião, sentido leste. Resumidamente era isso. Só tínhamos q acertar esse desvio pra não cair noutro cafundó qualquer.
      Descansados, retomamos nossa jornada tocando pela abaulada crista principal, mas não sem antes desescalar um trecho verticalizado quase ao pé da pedra. Aqui ambos reparamos q antes há um desvio q evita este trecho inclinado, onde uma corda recentemente disposta dá o suporte necessário. Mas logicamente q eu e o Ricardo optamos pelo trecho adrenado e radical, ou seja, descendo pela corda. Na sequencia mergulhamos pela crista florestada principal, apenas saindo da trilha uma única vez, no caso, prum discreto mirante rochoso onde se aprecia o maciço do Sapo sob outra perspectiva, ou seja, pela frente. Deste ângulo o Sapo não lembra em nada o um “anfíbio prostrado” e se resume a um simplório bloco retangular qq.
       

       
      A pernada pela crista inicialmente não tem gdes dificuldades pois a picada é batida e obvia. Alem do mais, marcos topográficos de concreto dispostos ao largo dela servem como totens demarcando a picada. Os únicos obstáculos consideráveis não tardam em aparecer, quase q sequencialmente: primeiro sob a forma dum abrupto desnível, rumo um selado de conexão, q deve ser vencido com cautela, pra depois enfrentar uma piramba com desnível vertical de 50m, onde é necessário se agarrar no q tiver á mão (mato, rocha ou tronco) e impulsionar o corpo pra cima. Eventualmente se dá um passo e retrocedem-se dois, mas este trecho nos toma um tempinho considerável ate ganhar o alto novamente. Se serve de consolo, frestas na mata novamente nos brindam com vista privilegiada do Sapo e arredores.
      Novamente na crista principal a pernada aparenta nivelar em meio a uma agradável florestinha baixa, sem problema algum. Mas td q é bom dura pouco pois logo vem a segunda provação deste trecho: voçorocas de finos bambuzinhos obstruindo o caminho! Ricardão foi na frente faconando vigorosamente a macega, mas havia alguns momentos em q rendia bem mais agachar e engatinhar sob túneis e túneis de bambus! E assim avançamos lentamente, alternando trechos tranqüilos com outros repletos daquele maledito matinho fino! A abundãncia destas voçorocas pode desorientar e gerar confusão nalguns momentos, mas basta não perder os marcos de concreto q eles indicam a rota a ser tomada.
       

       
      Finalmente as 11:35hrs pisamos no lugar visado do Sapo, no alto dos 1010m, onde um belo rasgo na mata permitia tanto um belo visual das montanhas adiante como permitia uma brisa suave soprar nos nossos rostos suados e, principalmente, sujos de mato. Daqui a picada toma ruma norte, descendo abruptamente sentido um selado de conexão á outra montanha. O lugar tb é assinalado por um marco concretado junto doutra marcação de metal arredondada, logo ao lado. No entanto é aqui q a gente abandona o caminho principal em favor dum ombro serrano q deriva pro leste, rumo o maciço do Gavião.
      Mergulhamos então na mata no q aparenta ser uma estreita vereda cercada de fina vegetação, subindo suavemente. As dimensões tanto de largura qto altura da tal picada entregam q não foi feita por nada humano: era um óbvio caminho de anta, e consequentemente era questão de tempo encontrar maleditos carrapatos agarrados ao corpo! Mas logo o q era relativamente facil de avançar tornou-se um sufoco, com o surgimento de voçorocas e voçorocas de bambuzinhos no caminho. Algumas era facil de rasgar no peito, enqto outras havia simplesmente q desviar pelas laterais.
       

       
      Não tinha passado nem meia hora de lento avanço, q resolvemos parar num elevado cocoruto coberto de bambus, onde julgamos equivocadamente ter alcançado o tal “Peito da Moça”, o topo propriamente dito. Mas percebemos nosso erro ao observar por frestas na mata q o mesmo estava bem mais adiante. É, tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Dessa forma avançamos vagarosamente nesse primeiro trecho da cumieira serrana, evitando desviar demasiado da crista e atentando bem pro mato caindo de ambos os lados. E sempre atentando pra direção apontada pela bússola, já q pedir referência visual naquele labirinto de bambus é pedir demasiado.
      Respiramos aliviados qdo o inferno dos bambuzinhos terminou e a caminhada tornou-se não apenas nivelada, como tb agradável num agora largo topo forrado de frondosa vegetação espaçada entre si, ornada de reluzentes bromélias. Majestuoso arvoredo cujas raizes agarravam-se aos enormes matacões de rocha pura q coroavam o caminho. Foi ai q encontramos vestígio de uma trilha q percorria td aquele cume e nos apegamos a ela assim como os carrapatos na gente. Foram-se os bambuzinhos e apareceram bambuzões secos, fáceis de transpôr e q craquejavam diante nossa passagem em determinado trecho. A presença humana neste setor foi logo confirmada ao encontrar uma antiga garrafa embolorada de trocentos anos, colocada num pau ao lado da trilha, provavelmente servindo de marcação. A presença de antas tb foi finalmente confirmada, com enorme qtidade de dejetos empilhado bem no meio do caminho.
       

       
      Foi ai q no meio da vegetação tropeçamos com uma bela e enorme rampa rochosa reluzindo a nossa frente, forrada de pequenas bromélias. Enfim, agora sim havíamos chegado ao “Peito da Moça” (ou cabeça do tal Gavião), q elevava-se parcialmente desnuda e soberana da crista do maciço percorrido. Só havia q bolar um jeito de galgar o paredão, relativamente bastante íngreme e exposto. Ao invés de contornar a base, decidimos escalá-lo na unha mesmo. Na dianteira, fui então pisando cuidadosamente na base das bromélias coladas na rocha e ganhando altitude, q dependendo da superfície tinha até boa aderência á bota nas partes mais ásperas.
      E assim, finalmente por volta das 12:40hrs ganhamos os 1030m do topo do Gavião, (ou Peito de Moça ou Mulher Gravida). O cume, 20m maior q o Sapo, é coberto de vegetação baixa e permite visibilidade parcial do litoral pelas janelas da mata. Mas a paisagem pro quadrante norte é soberba e possibilita observar td trajeto feito naquela manhã: desde o maciço do Sapo, a crista principal, a crista secundaria de bambus, o Itapanhaú coroado por sua inseparável torre de retransmissão, um pequeno vislumbre do domo da Pedra Esplanada e a pirâmide do Pico do Garrafão. Mas o tempo de contemplação foi o curto pois logo brumas espessas vindas do oceano cobriram a cumieira daquela sequência de montanhas duma vez só.
       

       
      Enqto descasávamos no alto da piramba rochosa q havíamos escalado, entre goles de água e mordidas no lanche a tiracolo, reparei uma sujeirinha de terra lentamente se movimentando na coxa. “Caralho, q porra é esta? Sujeira não se mexe!”, pensei. Mas daí olhei atentamente e percebi q eram dezenas de minúsculos carrapatinhos q mais pareciam pequenas sardas em movimento! “Merda! É carrapato-pólvora!”, exclamou o Ricardo. “Na rasgação de mato provavelmente esbarramos numa `nuvem´ (ninhada) depositada sob alguma folha”, concluiu. Imediatamente começamos a revirar o corpo td e esfregar as regiões onde os minúsculos bichos estavam alojados, aos montes! Fiquei seriamente preocupado na possibilidade dos maleditos escalarem minha coxa afim de fixar residência nas partes baixas. Francamente, prefiro ter carrapatões grandes comigo do q aquela versão miniaturizada, difícil de enxergar e até pegar! E assim transcorreu o resto de permanecia no cume, removendo aqueles bichinhos infernais!
      Deixamos o topo exata uma hora após te-lo conquistado, ou seja, as 13:45hrs. Após a desescalada do paredão retornamos pelo mesmo caminho com alguns pequenos perdidos no bambuzal, sanados a tempo pelo Ricardo, q plotara o trajeto no GPS. E assim as 14:30hrs deixávamos aquela crista desgarrada pra cair novamente na trilha principal. Daí resolvemos não voltar pelo mesmo caminho (o Sapo) e sim continuar pela picada, descer ate o selado de ligação com o Itapanhaú e retornar pela “Trilha do Yogurte”. E assim foi, perdemos então altitude num piscar de olhos naquela piramba íngreme de quase 170m de desnível e repleta de samambaias, até finalmente cair na encruzilhada evidente q domina o selado de conexão com o Itapanhaú.
       

       
      Tomamos então a vereda da esquerda as 14:40hrs, conhecida como “Trilha do Yogurte” por conta da enorme qtidade de embalagens do mesmo no chão, mas q pela atual condição deveria se chamar “Trilha da Paçoca”. E partindo da cota dos 860m fomos descendo pro outro lado dos contrafortes serranos sem gde dificuldade, numa pernada tranqüila e desimpedida já percorrida noutras 3 ocasiões. Desembocamos numa das tantas estradas de reflorestamento da Faz. da Forquilha por volta das 15hrs. Aqui o Ricardo queria tomar sentido direita, mas eu o convenci pra seguir pela esquerda pois sairíamos bem mais próximos de Manoel Ferreira, abreviando gde parte do trajeto entediante pela Estrada da Adutora, novamente na cota dos 770m.
      E assim, bem antes das 17hrs, nos vimos bebemorando a empreitada totalizando 15kms percorridos naquele dia, porém terrivelmente acidentados, no pequeno boteco de Manoel Ferreira enqto aguardávamos a conduça de volta. Desnecessario mencionar q “fiz a feira”, ao passar novamente pela horta na beira da estrada. Bem, pelo menos entupi a mochila de ataque com o q dava pra carregar, lamentando não ter feito o role com minha cargueira de 70L.
       

       
      Resumindo, é de se estranhar q este conjunto de maciços de Biritiba-Mirim, tão próximos da maior Metrópole da America do Sul, ainda permaneçam no total e profundo desconhecimento da galera montanhista. Detentores de belos visuais, dificuldades inerentes e singulares a quem pratica a modalidade nos trópicos e q não fazem feio diante sua vizinha (e mais ilustre) Mantiqueira, estas montanhas não precisam de época nem temporada especifica pra serem percorridas. Basta apenas boa previsão meteorológica. Ou quem sabe seja melhor assim mesmo, q ainda continuem no profundo ostracismo. Pois somente dessa forma o “Sertãozinho do Tietê” se mantêm preservado, domínio apenas de caçadores, antas e meia dúzia de andarilhos mais ousados. Somente assim q suor, ralados, sujeira e carrapatos pelo corpo ganham o status de legitimas marcas de mais uma batalha de final-de-semana vencida.
    • Por Jorge Soto
      http://www.ipernity.com/doc/275479/album/319467?view=1
       
      Travessia da Pedra Esplanada
      A Pedra da Esplanada é um dos gdes maciços graníticos q destoam do sertão de Biritiba-Mirim, e seu principal mirante, situado na cota dos 1047m, é acessivel por trilha conhecida q não tarda nem 40min em vencer o desnível de 350m ao alto da pedra. No entanto, o verdadeiro pto culminante desta largo e pitoresco maciço é acessível por outra picada menos visada q, discretamente, nasce da vereda principal e atinge o alto dos 1066m da montanha. Dessa forma, neste domingo realizamos a travessia completa pelo rochoso conhecido como Pedra da Esplanada, partindo de seu contraforte oeste, rasgando td sua estreita e espichada crista, p/ depois descer pela íngreme face leste da montanha. Uma breve e perrengosa travessia envolvendo trilha, escalaminhada e vara-mato, mas recompensada com vista exclusiva e privilegiada dos maciços vizinhos, como o Garrafão e o Itapanhaú.
       

       
      O domingo amanhecera pouco promissor, e o firmamento apresentava não apenas uma tonalidade opaca nada animadora como tb brumas alvas q traziam a sensação de frio e umidade. Mas isso não bastou pra nos demover da ideia de cair no mato naquele dia, e assim eu, Ricardão e Simone saltamos as 9:20hr na pequena e pacata Manoel Ferreira, vilarejo rural de Biritiba-Mirim q nasceu em virtude da construção da adutora q o corta de cabo a rabo. A persistência e confiança trilheira é assim mesmo; tem q perseverar pois não raramente somos recompensados com gratas surpresas. Dito e feito, enqto a Metrópole se esbaldava na “Virada Cultural” e td tipo de elemento saindo das catacumbas em meio a um tempo ruim de doer, Manoel Ferreira apresentava um panorama muito melhor, inclusive com gdes frestas de céu azul ameaçando irradiar os braços do Astro-Rei. Panorama este q só melhoraria no decorrer do período.
       
      Após beliscar alguma coisa no vilarejo, arrumamos as mochilas e pusemo-nos em longa marcha até o nosso destino, distante ainda quase 8kms dali. Q fosse, pois a conversa animada e colocação dos babados em dia pontuou gde parte do trajeto, por sua vez sempre ao largo do chão da SP-43, tb conhecida como Estrada da Adutora ou Estrada Municipal do Itapanhaú, tendo o maciço da Pedra do Sapo como sentinela a nos observar durante boa parte do trajeto. Dessa forma, sempre tocando pra nordeste e acompanhando os enormes dutos q emprestam o nome á precária via, o tempo passou voando e qdo demos por nós 1hora após iniciada a pernada a profusão de sítios e chácaras já havia ficado pra trás, dando lugar a uma paisagem composta basicamente por uma morraria forrada de reflorestamentos.
       
      Ignorando a entrada da Faz. da Forquilha e da Faz. Marilena, as 10:45hrs passamos por uma oportuna e bem-vinda bica encravada na encosta, a margem da estrada, q refresca nossa goela e abastece os cantis menos favorecidos. Na curva sgte já será possivel avistar a Pedra da Esplanada, quase escondida atrás da morraria, sob uma perspectiva pouco privilegiada q não faz jus as verdadeiras dimensões da montanha. Logo adiante e após tomar um atalho por cima dos dutos q nos pouparam duma enorme volta pela morraria, passamos pelo sitio “A Gde Familia” e por uma chácara menor, onde um belo e bucólico laguinho quebra a monotonia do panorama ate então. Aqui já é preciso prestar atenção. Num piscar de olhos tropeçamos com uma picada ao lado duma placa da Faz Casa Verde, de propriedade da Suzano Celulose, as 11hrs. É aqui q abandonamos a estrada em favor dessa picada, q não demora a nos deixar noutra estrada menor de reflorestamento. Daqui nossa rota toca pro sul, sempre pela via principal e ignorando bifurcações, indo de encontro ao sopé do maciço, q agora exibe seu tradicional e característico contraforte norte como uma imponente lâmina rochosa, delgada e espichada, emergindo da profusão de bosques de eucaliptos. A vista impressiona e se assemelha perfeitamente á do casco de um navio invertido á deriva num mar esmeralda de vegetação.
       
      Subindo suavemente pela estrada, não demora pra pernada embicar de vez ao tropeçar com o primeiro ombro serrano da montanha. Mas as 11:10hr, já logo na curva fechada sgte é preciso abandonar a via principal. Diante duma evidente trifurcação q pode gerar duvidas diante do sentido a seguir, vamos pela opção menos batida e q pouco aparenta ser a picada oficial de acesso á pedra, já descrita em minúcias noutras ocasiões. Uma vez nela basta apenas tocar pra cima, ziguezagueando forte a encosta de reflorestamento e ganhando altitude num piscar de olhos. Mas uma vez q mergulhamos no frescor úmido da floresta a vereda aparenta nivelar, onde enormes matacões empilhados na encosta desviam provisoriamente nossa atenção pras enormes e fundas grutas formadas entre as junções das pedras desmoronadas, onde o som de agua correndo timidamente nalgum canto rompe o silencio reinante ate então. Mata
      caída? Pouca e fácil de transpôr.
       

       
      Mas após cruzar um correguinho q ostenta um único filete dágua é preciso atentar pra direita, na encosta. Não tarda a surgir um discreta picada q mergulha morro acima. Abandonamos então a vereda principal (q leva em questão de 10min ao mirante principal da Esplanada) em favor desta trilha lateral e por ela tocamos montanha acima com suave declividade, desviando da pouca mata tombada no caminho. A caminhada é tranqüila e em sua maior parte desimpedida, embora a picada eventualmente desapareça e logo mais adiante seja reencontrada. Mas eis q nos deparamos com o q parece ser um “portal”, onde a trilha passa pelo meio de duas enormes pedras com raizes e bromélias envolvendo sua superfície rochosa. Aqui existe uma discreta bifurcação onde se tocar reto em pouco tempo damos no topo florestado e sem visu do cocoruto extremo do maciço da Esplanada. Mas como nosso destino não é esse vamos pela picada q segue pela esquerda, contornando uma das pedras do tal “portal” e subindo o restante da montanha. Se a trilha ate então era discreta aqui então ela aparenta sumir de vez. Mas não há problema algum pois o sentido é obvio e intuitivo, sem falar q o mato é baixo e aparenta estar pisado por antas.
       
      Logo adiante nos deparamos com a base duma laje coberta de musgo e bromélias, indicando q já estamos no alto. Escalaminhando facilmente o restante logo pisamos no largo e levemente inclinado lajedo q domina oo setor oeste do maciço, com visu privilegiado do quadrante norte da região. Pausa pra fotos e pra observar curiosamente um enorme cupinzeiro próximo. Sem ir pro sul e com vista bacana do Pico do Itapanhaú, decidimos então tocar pela crista florestada sentido noroeste, ainda sem visual do mirante principal da Esplanada nem do Garrafão. Apesar da vegetação composta de arbustos e pequenas arvores, é fácil circular por esta crista, embora não exista trilha alguma.
       
      Mas mal começamos a andar e nos deparamos com um cocoruto granitico facilmente escalaminhavel q revela-se o topo legitimo do maciço da Esplanada, as 11:45hrs. Pq? Pelo simples fato da vista dali ser espetacular e nos situar nos 1066m dum patamar superior ao Garrafão e do mirante principal da Esplanada, ambos elevando-se a nordeste, porém ainda inferior ao majestoso Pico Itapanhau, cuja torre espetava o firmamento logo atrás de nós, a sudoeste! O lugar é um achado não apenas pelo visual mas pela frequência nula de visitantes, corroborada pela ausência de lixo, de trilha e até pegadas. Pausa pra fotos, breve reconhecimento e estudada de rota a tomar. Visivelmente tínhamos q seguir pela crista florestada principal, sentido nordeste, descendo até interceptar a picada q havíamos deixado. So não sabíamos se havia abismo ou mato intransponível no caminho, mas a principio a carta acusava q não, mas o trecho em questão a principio era breve e curto.
       
      Azimutamos então a bússola pra nordeste/leste e la fomos nós, descendo suavemente a estreita crista florestada sem maior dificuldade. O mato espesso era facilmente contornável, ora dum lado ora doutro, mas sem desviar demasiado da rota mentalmente traçada. No caso de dúvidas a encosta ficaria vertical e nos traria de volta á crista. E la fomos nós, perdendo altitude mas não muita. Trechos mais pirambeiros foram vencidos se firmando no arvoredo em volta, assim como as poucas voçorocas de bambuzinhos e capim navalha foram rasgados no peito, deixando as poucas marcas q ganhamos até então.
       

       
      Qdo ganhamos o selado de ligação dos cumes e começou novamente a suave subida, num trecho q surpreendentemente foi muito mais fácil q o previsto, reparamos q já estávamos outra vez na picada principal! Alegria total pq dali bastou apenas singrar o resto de trilha pelo estreito cume da pedra, em meio a vegetação q gradativamente reduzia de tamanho até se resumir a arbustos baixos e muitos liquens forrando o chão. E após uma breve parada na beira do precipício vertical a noroeste pra ter uma vista fabulosa de td trecho ate então, forrado por “um tapete de couves-flores”, na concepção de quem avista reflorestamentos do alto, avistávamos tb o espelho d’água da Represa de Biritiba-Mirim, reluzindo a nebulosidade clara daquele inicio de tarde. Desembocamos enfim nos 1044m do mirante principal da Esplanada, pontualmente as 12:30hrs, onde encostamos o esqueleto no chão aderente e granítico da pedra. Lanche, descanso, fotos e até cochilo deram o tom do pit-stop. Com algum esforço, podia-se observar ao longe, a noroeste, a geometria de Mogi das Cruzes ao sopé da silhueta escarpada da Serra do Itapey. Lixo aqui? Nenhum.
       
      Por volta das 13:40hrs retomamos a pernada, mas desta vez não voltaríamos pela picada principal e sim buscaríamos uma forma de descer pela face semi- verticalizada a nossa frente, o paredão leste da Esplanada. Estudamos a rota a tomar, azimutamos novamente a bussola e lá fomos nós, ao mesmo tempo em q brumas esparsas ameaçavam cobrir o topo das montanhas. Inicialmente a descida foi tranquila, onde o chão da pedra fornecia aderência suficiente pra q não rolássemos morro abaixo, dada a acentuada declividade apresentada. Sempre no aberto e com o visu a nosso redor parcialmente coberto de nuvens, perdíamos altura rapidamente, enqto nos firmávamos nas bromélias, arbustos e pedras q houvesse no caminho apenas pra garantir nossa segurança. No caminho topamos ate com restos de balão presos num matagal.
       
      Pois bem, descendo em meio ao mato baixo e ralo tropeçamos com um enorme precipício rochoso vertical, q nos obrigou a desviar pela esquerda, decisão q mostrou-se acertada pois nos levou a uma aparente crista descendente não tão inclinada. O porém foi q pra acedê-la tivemos q varar um matinho considerável e escalaminhar (sem corda) pela vegetação da encosta pra não descer ao fundo do vale sem necessidade. Mas uma vez com os pés fincados na encosta firme chegamos na crista visada e, agora no frescor da mata fechada, o Ricardo tomou a dianteira e foi abrindo passagem com seu possante facão em meio ao bosque de eucaliptos!
       

       
      Qdo finalmente a declividade abrandou desembocamos numa precária estrada de reflorestamento, parcialmente coberta de mato espinhento, q bastou acompanhar pra leste (direita) pois fatalmente cairia noutra maior e principal, q já era nosso objetivo visado desde o alto da pedra. E após o mato cada vez mais abrandar no caminho, a estrada se tornar mais limpa e até passar por um enorme e convidativo poção q seria de muita utilidade se o dia estivesse quente e ensolarado, finalmente desembocamos no estradão situado entre a Esplanada e o Garrafão! Eram pontualmente 14:40hrs e ao olhar pra trás, por sobre o ombro, q tivemos a real noção do tanto q havíamos descido desde o topo da pedra. “Caralho! Ainda bem q fomos pela esquerda pq olha só o abismo q tinha pro outro lado!”, exclamava um Ricardo td esbaforido. “Menos mal q deu td certo e não tivemos q retornar, subindo td novamente!”, emendou Simone.
       
      Pois bem, fim de travessia mas não de jornada. Isto pq ainda tínhamos uma interminável caminhada pelo estradão ate Manoel Ferreira, pernada esta q nos tomou quase 3 longas horas q foram devidamente preenchidas com muita conversa em dia. E tome chão, claro! Logico q nesta modorrenta volta tds sentiram o cansaço bater nas pernas, e assim damos adeus á Pedra da Esplanada, q foi lentamente sendo ocultada pela morraria de reflorestamentos q serpenteávamos pra oeste. E após parar estrategicamente numa horta de beira de estrada e encher as mochilas com beringelas e pimentões, eis q finalmente chegamos no vilarejo de Manoel Ferreira em torno das 17:30hrs, bem no horário em q a temperatura comecava a cair e o sol havia se debruçado atrás da serra. Logicamente q encostamos no tradicional boteco do lugar, onde mandamos ver salgados, refris e, principalmente, cerveja gelada pra molhar a goela. Dureza foi aturar um bebum local q só permaneceu na nossa roda pq bancou nosso “Gatorade”.
       
      E assim terminamos mais um domingão diferenciado pelas bandas do sertão de Biritiba-Mirim. Outra opção ou alternativa de roteiro é sair mais cedo ainda e emendar o Pico do Garrafão junto, resultando num circuito de responsa pela região. Ou até pernoitar na aprazível e simpatica clareira q tem no alto da Pedra da Esplanada. Vale frisar q pelo fato de seu acesso ser pouco conhecido o lixo no topo da pedra inexiste, e portanto é bom q continue se mantendo assim caso pretenda visita-la. Dessa maneira a regiao conhecida como “Sertãozinho do Tietê” continuará se mantendo preservada e servindo de “playground montanheiro” de final de semana pra andarilho q se preze. Privilegiada com visus e aventuras singulares, a região ainda se beneficia da ausência de algo bastante comum do points mais badalados da Mantiqueira & afins: muvuca, lixo e farofa. E isso é algo q não tem preço,
      montanhisticamente falando.
       

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