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VALE DO GUARATUBA: TRAVESSIA EXPEDICIONÁRIA - Biritiba Mirim x Praia da Boracéia - SERRA DO MAR PAULISTA

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                                                          TRAVESSIA VALE DO GUARATUBA

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          Nossos olhos se entrelaçaram quando as bordas do abismo se apresentou à nossa frente. Cada qual daqueles exploradores modernos se deu conta de que haviam chegado em um caminho sem volta e uma vez tomada a decisão de descer aquele vale gigantesco, estariam por conta e risco. No fundo mesmo, havia meio que um medo estampado no rosto de cada um por tudo que tinha envolvido toda a organização daquela expedição, onde o grupo se esfacelou, com membros desistindo na última hora e dizendo ser impossível tal empreitada. Mas como a vontade de realizar algo é maior do que o medo, mesmo estando diante do maior desnível que jamais havíamos enfrentado na Serra do Mar Paulista, haveríamos de nos agarrar uns aos outros, botar a faca nos dentes e inserir mais um vale selvagem nos mapas da SERRA DA AVENTURA.

          Quando eu dei o start, dizendo que meus próximos estudos para as travessias selvagens na Serra do Mar estavam direcionados para o VALE DO RIO GUARATUBA, o Vagner e o Potenza já saíram da moita dizendo que já fazia algum tempo que também estavam de olho nesse rio e aí não houve problemas para que resolvêssemos juntar forças para tirarmos esse projeto do papel. Acontece que eu e eles sabíamos que acessar aquele rio no planalto de Biritiba Mirim-SP, não era nem de longe coisa fácil por ele estar inserido dentro da área da SABESP (Companhia de Águas de São Paulo) e que conseguir uma autorização era tempo perdido.

          As conversas nos levaram a que seria preciso alguém ou algum grupo ir até o local e achar um caminho alternativo que pudesse nos levar até o rio, ou seja, uma entrada clandestina até a Estação de Bombeamento Guaratuba, uma operação de guerra que poderia nos custar o fim do projeto caso alguém fosse pego pela fiscalização. Como eu moro no interior, coube ao Vagner e ao Tony a missão inicial de tentar achar o caminho, coisas que eles fizeram como uma competência ímpar, mas infelizmente não conseguiram chegar até o rio e então seria preciso mais uma incursão, a derradeira, para que começássemos a discussão final sobre a expedição.

          Na segunda tentativa se juntaram ao Vagner, o Rafael, Potenza e o Daniel Trovo e o grupo se esgueirou pela madrugada numa noite de chuvas torrenciais até finalmente alcançarem a Estação de Bombeamento e voltaram de lá com o caminho pronto para o Rio Guaratuba, a primeira parte do projeto estava finalizado, hora de nos preocuparmos com a descida em si e a convocação do grupo, que logicamente teria de ser escolhido a dedo.

          Como sempre tudo começa com horas e horas de pesquisas na internet a fim de descobrir se haveria algum registro de descida, mas lá no fundo todos nós sabíamos que não encontraríamos coisa alguma, mesmo porque, se não havíamos encontrado nada em outros rios com desníveis muito menor, nesse Guaratuba é que não encontraríamos nada mesmo. A segunda parte é partir para os estudos topográficos e mapas de satélite e foi aí que o queixo da gente desabou no chão. O desnível parecia grande, mas no mapa topográfico era um convite ao suicídio. Mais de 800 metros em míseros 4 km, sendo que no início o rio despencava numa parede vertical em uma inacreditável sequência de abismos e penhascos inacessíveis. Pronto, era a deixa para que parte do grupo picasse a mula, desconfiados de que aquilo ali era uma furada dos infernos e cada qual tratou logo de procurar outra coisa para fazer e nos deixou com um grupo escasso, restando apenas uma meia dúzia que ainda insistia na possibilidade de êxito.

          A data escolhida foi o feriado da Consciência Negra, que nos daria três dias de possibilidades, mas que por uma infelicidade nossa, quando essa data se aproximou, arrastou atrás de si uma frente fria tremenda e que anunciava um dilúvio para a região. Pronto, foi a deixa para que mais gente do grupo apanhasse seus panos de bunda e fosse se aventurar em outras paragens, ninguém seria retardado para enfrentar uma descida naquelas e com aquele tempo na sucursal do inferno. Pois é, eu mesmo queria saber se os que sobraram estavam mesmo engajados no projeto e se ainda lhes interessava ariscar suas vidas naquele vale, muito porque não haveria outra oportunidade nesse ano e para minha surpresa ainda restaram além de mim, mais quatro suicidas.

          É numa sexta-feira chuvosa e de transito infernal que me encontro com o Paulo Potenza no metrô de Itaquera, na zona leste da capital Paulista. Mal nos cumprimentamos e ele já veio com aquela conversa de “cerca Lourenço”, dizendo que com aquele tempo éramos candidatos a sair daquele vale como passageiros de um certo helicóptero do Águia. Enquanto o trem sacolejava na estrada de ferro, ele ia me passando um milhão de dados acerca da descida do Guaratuba, onde dizia ele ter descoberto que ali era a morada do próprio satanás e que a gente estava sendo atraído para uma grande armadilha. Eu ia escutando tudo que ele dizia, mas no fundo estava cagando e andando para os dados, muito porque não foram poucas as vezes que em outras expedições eu tive que escutar lamúrias negativas de outros exploradores e sempre me mantive firme.

          É mais uma vez com uma grande alegria e satisfação que na Estação de Suzano volto a rever meus amigos Daniel Trovo e VGN Vagner e passo a conhecer o Tony, que vai ser o novato do grupo e enquanto esperávamos a VAN que nos levaria para a trilha, aproveitamos para colocar o papo em dia e juntos tentarmos resistir as investidas do Potenza que tentava salvar nossas vidas da tragédia que se anunciava, pelo menos na cabeça dele. Não demora muito e o nosso transporte chega e com ele um motorista loroteiro que foi contando histórias sem pé nem cabeça e fazendo a gente dar muita risada. O motorista era alegre e sorridente, mas quando chegamos em Biritiba Mirim e o Vagner indicou que teríamos que pegar a estrada de terra para o destino Casa Grande, o piloto começou a definhar na escuridão daquele fim de mundo. A estrada fazia curva atrás de curva e nunca chegava a lugar nenhum e o motorista só fazia coçar a cabeça e o saco e amaldiçoar a dia em que ele foi aceitar aquela viagem onde cinco sem noção diziam que iriam descer para praia varando mato sabe-se lá por onde.

          Pouco antes do motorista ter um infarto, nosso caminho motorizado chega ao fim assim que passamos pela área principal da SABESP e pegamos logo a direita numa estradinha de terra escura e enlameada. Parados ali naquela escuridão e prestes a nos perdermos rumo ao nosso próximo destino, o Paulo Potenzaanuncia a sua desistência formal. Com os olhos arregalados de quem não sabia o que estava fazendo ali, pede mil desculpas e humildemente diz que não se sentia em condições psicológicas de nos acompanhar e é claro que nós prontamente entendemos a posição dele e achamos muito nobre da sua parte usar de sinceridade para com o grupo, do que simplesmente tentar seguir por um caminho que ele já não estava mais a fim. Bom, a gente entendeu mais ou menos, porque sempre tem uns filhos da puta que não está a fim de deixar barato e nem perder a oportunidade de dar uma zoada, então foi aí que o safado do Tony, do nada resolveu imitar um frango ou uma galinha, para aloprar a cabeça do Potenza, coisas que só as grandes amizades podem proporcionar e aí não teve jeito, fez com que a maioria do grupo rolasse no chão de tanto rir e foi assim, naquela madrugada embaçada, que vimos Potenza, Van e o motorista contador de lorotas se perderem na escuridão da noite.

          A caminhada agora ia começar, seriam quase 12 km até o Rio Guaratuba e logo o Vagner toma à frente, porque ele é o cara que sabia o caminho clandestino para passarmos sem ter que enfrentar a burocracia da companhia de águas. Na escuridão da noite, logo após alguns minutos, deixamos a estradinha que estávamos e nos enfiamos em outra que mais parecia uma trilha e quando chegamos a um capão de mato, adentramos no meio da floresta e fomos arrastando mata no peito e por uns quinze ou vinte minutos navegamos meio que às cegas até que a picada nos desovasse na estrada principal, já longe das vistas da Sabesp. É uma noite mesmo estranha, ao mesmo tempo quente e agradável, mas com prognóstico de muita chuva. Ganhando a estrada, em 2 km tropeçamos na primeira ponte do Rio Claro, o Vagner e o Tony vão à frente e eu e o Trovo seguimos na cola, botando a conversa em dia. Mais outros 4 km de andanças e já estávamos passando novamente por cima do Rio Claro, já que o rio vai serpenteando bem perto da nossa estradinha e à frente, numa bifurcação, pegamos para a direita e andamos mais uns 4 km e logo, após cruzarmos mais uma grande ponte, aparece a iluminação da Estação de Bombeamento Guaratuba. Os corações ficam acelerados e a apreensão toma conta de todo mundo porque não passa pela nossa cabeça sermos pegos àquela hora da noite e dizer adeus ao nosso projeto. Devagar e silenciosamente dobramos a curva e adentramos nas instalações e mesmo sabendo que nossas intenções são das melhores, porque não queremos mexer em nada que não seja da nossa conta, não tem como não sentir aquele frio na barriga que só passaria ao constatarmos que tudo estava vazio e usando do mesmo método da primeira investigação, os meninos conseguem sutilmente abrir as portas e nos botar para dentro e ali faríamos nosso abrigo até que um novo dia rompesse dizendo que havia chegado a hora da aventura começar.

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          Foi uma noite difícil, com sobressaltos constantes, sempre com aquele medo de sermos surpreendidos, mas logo antes que o despertador batesse seis da manhã, pulamos rapidamente de dentro dos nossos sacos de dormir, arrumamos as mochilas e saímos vazados de lá. A Estação de Bombeamento Guaratuba fica bem `as margens do rio de mesmo nome e como não poderia deixar de ser, junto dela uma pequena barragem faz a contenção do rio, que surpreendentemente, apesar das chuvas dos últimos dias, está baixo e muito bonito. Falando em chuvas, foi mesmo uma sorte a nossa de a chuva não cair durante a noite porque se tivéssemos pego o rio bufando de cheio, muito provavelmente a moral do grupo já iria para os níveis mais baixos possíveis. Certo mesmo é que o grupo estava animado e sabedor de que os riscos eram muitos, mas nossas experiências passadas neste tipo de expedição durantes vários anos poderia nos dar uma chance de êxito, mas tudo dependeria do tipo de terreno e principalmente de como se comportaria o tempo, porque se o céu desabasse como estava previsto, aí a caldo poderia entornar de vez.

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          Sete horas da manhã abandonamos de vez a Estação e nos enfiamos num rabo de trilha na curvinha da estrada e alguns minutinhos depois, estávamos no GRANDE POÇO DO GUARATUBA, com suas águas cor de Coca-Cola. Daqui para frente era varar mato e escalar pedras até definitivamente nos vermos à beira do rio e como ainda é muito cedo, ninguém quer molhar as botas e cada qual vai tentando se livrar como pode, até que o único caminho viável é atravessar o rio para sua margem esquerda, junto a primeira queda do rio, uma cachoeirinha bucólica e bonita, um pequeno aperitivo do que estava por vir. Atravessando junto a cachoeira, não demora muito já somos barrados por um grande poço e como vou à frente, o único caminho que percebo ser possível passar sem ter que se jogar na água, é escalando as paredes laterais, feito caranguejo, andando de lado, mas chega uma hora que o inevitável acontece e um passo mal dado me leva para dentro do rio, me fazendo empapar minhas botas e sentir o começo da gelada em que havíamos nos metido. Vendo que eu já havia me lascado logo cedo, os outros meninos já se metem num vara-mato e cortam essa parte e a gente se junta aonde a água começa a despencar do poço.

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          A opção mais fácil é novamente voltar para a margem direita, atravessando sobre umas pedras lisas e escorregadias e logo ganhamos o outro lado, mas infelizmente nem avançamos muito e já nos apareceu o primeiro problema. Uma parede se eleva sobre nossas cabeças e a única solução que encontro é jogar uma corda e tentar descer uns 12 metros para poder chegar novamente ao leito do rio, mas infelizmente a nossa corda não conseguiu chegar até a água, faltando uns 3 ou 4 metros, então metemos de novo nossa corda na mochila e resolvemos escalar o paredão na unha mesmo e essa foi a única vez em toda essa travessia que tentamos usar a corda. Aqui na Serra do Mar a gente vê o que é escalar de verdade, não tem corda, não tem proteção, nem equipamento algum para salvar sua vida se algo der errado, é ter sangue frio, confiar na intuição de encontrar o lugar certo para pôr os pés e a planta certa para segurar as mãos, as vezes uma mera bromélia ou um cipó, talvez uma pequena raiz e aí é prender a respiração e praticamente levitar para conseguir chegar vivo ao outro lado e já ir preparando o espirito para o próximo lance. Descemos a outro patamar e foi nessa hora que o nosso mundo sumiu nos abismos colossais que se apresentou à nossa frente.

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          Agora éramos 4 homens entregues cada qual ao seu medo interior. Ninguém disse muita coisa, mas no fundo a cabeça de cada um girava mais que o pião da casa própria. Será que valeria mesmo a pena a gente se jogar naquele vale monstruoso, com o maior desnível que a gente já tinha presenciado até hoje em toda as expedições na Serra do Mar? A confusão, a desistência de parte do grupo e de membros de última hora não seria um aviso para se levar em conta? O tempo ainda se mantinha embaçado e se a chuva viesse a cair como estava previsto, estaríamos perdidos no meio daqueles vales e pendurados em paredes escorregadias sem ter como voltar, porque uma vez tomada a decisão de adentrar rumo ao desconhecido, era caminho sem volta. No horizonte avistávamos uma grande cadeia de montanhas e florestas a perder de vista. Daniel Trovo e Vagner até vislumbraram um grande roteiro alternativo, caso as entranhas do inferno nos barrasse o caminho, mas eu sinceramente não estava nem um pouco convicto que varar mais de um dia de mato seria a nossa solução. O Tony, coitado, o debutante da turma, nem sabia na enrascada que poderia estar entrando e nem palpite dava. Por hora havíamos chegado à conclusão de que nosso maior obstáculo seriam os dois próximos afluentes, sendo que um grande afluente da direita, uma espécie de encontro de vales era o que poderia nos dizer se fracassaríamos ou não, então em um primeiro momento combinamos que nosso propósito era ir pelo menos até esse afluente e lá tomaríamos a decisão de seguir ou voltar, esse seria nosso porto seguro, mas eu duvidei desde o princípio.

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          Tomada a decisão de seguir, comemos a torta da sogra do Trovo e partimos. Partimos para o alto, porque para baixo é caminho impossível, onde as águas despencavam exprimidas em gargantas estreitas, então o único caminho era voltar a escalar a parede do lado direito, ganhar altura e voltar a descer numa diagonal alucinante até voltarmos ao rio. Já na subida começamos a perceber que o tempo havia mudado e o sol apareceu no céu para renovar nossas esperanças. A subida é dura, pedras deslizam constantemente, urtigas vão raspando na nossa pele, transformando o nosso trabalho num árduo pesadelo, mas não demora muito para o Daniel Trovo soltar um grito estridente que ecoou por todo o vale: Paramos imediatamente para saber do que se tratava e foi aí que ele nos avisou que no meio da floresta, bem diante dos nossos olhos, dava para ver um pedacinho do mar e do condomínio perto da praia. Nos alegramos imediatamente e mais que depressa deixamos nossos corpos deslizarem barranco abaixo e nos rendemos a lei da gravidade até que o Vagner vislumbrou a possibilidade de acessarmos o rio descendo por um afluente seco, talvez apenas um caminho de água de chuva. O barulho do rio era cada vez maior e a “branquitude” de suas águas se refletiam no verde da floresta como a nos hipnotizar e a nos chamar para contemplar o espetáculo que estava por vir.

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          A cada passo dado, ou a cada escorregão dado, a presença do gigante era sentida. Mais uma vez estávamos prestes a botar nossos olhos no que muito provavelmente ninguém ou quase ninguém jamais havia botado. Vamos nos livrando dos obstáculos, descendo, escorregando, caindo, despencando até finalmente nos vermos aos pés da primeira grande queda do Vale do Guaratuba. Uma impressionante cachoeira despencando numa fenda gigante. O deslumbramento tomou conta de todo mundo, o Daniel Trovo urrava feito doido e a todo momento agradecia a companhia de gente doida que não se deixou abater pelo medo do desconhecido. Se a cachoeira era um espetáculo, o que dizer da vista daquele patamar: Uma visão esplendorosa nos fez cair de costas. Simplesmente toda a visão do litoral aos nossos pés, com suas praias, suas ilhas e o seu mar. Não tivemos dúvidas que até então essa era a visão mais espetacular de todas as travessias selvagens na Serra do Mar até hoje, mas felizmente, estávamos redondamente enganados. Ficamos ali, junto a cachoeira conversando sobre o futuro incerto daquela expedição e enquanto as ideias iam surgindo, a gente ia se deleitando com alguns petiscos e mais uma rodada de torta da sogra do Trovo. A gente estava contente, não só pelo bom andamento da empreitada, mas porque o grande astro resolverá reinar no céu e aquecer as nossas almas famintas de aventura e para marcar essa primeira conquista resolvemos nomear aquela queda como SALTO DO CACAREJO, haja vista que havíamos dado muitas risadas do acontecido com o nosso amigo Potenza e lamentamos muito que ele não estivesse com a gente.

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               Abandonamos o grande salto e caímos novamente no mato porque seguir pelo rio já sabíamos ser impossível. A tenção vai aumentando a cada metro vencido, mas o alívio também é sempre comemorado a cada obstáculo ultrapassado. Mesmo tendo que descer, a única solução é ganhar altitude para poder escapar dos paredões à beira do abismo, que insiste em querer nos jogar nas gargantas. Geralmente as ações seguiam sempre um mesmo ritmo, com eu e o Vagner nos revezando no vara-mato com o Trovo dando as direções que achava necessárias e o Tony fazendo as honras do cú de tropa, que é sempre o lugar mais confortável nessas expedições. O grande problema é sempre saber a hora certa de abandonar mais ou menos a caminhada em nível e partir para a despencada final do barranco, às vezes uma decisão mal tomada faz com que tenhamos que voltar a ganhar altitude novamente e aí dá vontade de sentar e chorar, mas não há tempo para isso, é preciso tomar folego e voltar a escalar as paredes lisas e sempre torcer para que nenhuma pedra role e atinja o explorador que vem logo atrás. Já no alto novamente, desembestamos agora numa descida alucinante e ao encontrar um grande degrau para descer ao rio, eu e o Vagner resolvemos ariscar, enquanto o Trovo e o Tony acharam um caminho melhor e logo toda a equipe se amontou em um grande patamar de rocha, junto a uma cachoeira linda onde se descortinou toda a magnitude do Oceano à nossa frente, hora de estacionar ali e deixar aflorar todo o prazer de ter podido ter a oportunidade de conhecer um lugar daquele.

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          Poucas eram as nuvens no céu e o sol queimava tudo. No horizonte era possível quase que ver as barracas na praia de Boracéia e a gente não conseguia se conter de tanta felicidade por saber que, muito provavelmente éramos os únicos ou ao menos estávamos entre os poucos privilegiados a poder deslumbrar aquela paisagem. A cachoeira despencava numa rampa e depois caia sobre uma gruta formando um poço profundo. Já passava do meio dia e o cansaço também tomava conta da gente, já que havíamos dormido quase nada. Eu aproveitei para aquecer o corpo depois de entrar na água gelada e por um tempo fique lagarteando sob o sol, mas o Tony não tinha como esconder, a cara dele denunciava seu sofrimento aparente. Ele havia descido escorregando e caindo em tudo que é lugar e eu mesmo naquela hora cheguei a duvidar da capacidade dele de chegar inteiro no final da expedição, acho que ele mesmo ainda não havia se conformado de ter entrado naquela furada e acho que pensava constantemente onde foi que ele resolveu amarrar seu bode. Os meninos se divertiram entrando na gruta e se escondendo atrás do véu da cachoeira e eu me esbaldava com a visão do mar e logo o trovo já veio oferecendo mais torta da sogra, cada um comeu um pedaço e quando nos saciamos de torta e de daquele visual, abandonamos a CACHOEIRA  GRUTA DA BELA VISTA e fomos nos aventurar em outras paragens, mas para isso tivemos novamente que estudar o caminho e ver as possibilidades viáveis.

 

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       Já estávamos nos aproximando do momento crucial, onde havíamos definido que seria o lugar que poderíamos ser barrados. Primeiramente sempre depois de voltarmos a subir paredes lisas e varar mais mato nos segurando nos cipós e em vegetação cada vez mais espinhuda, cruzamos por um dos afluentes que localizamos no mapa topográfico, mas que para nossa sorte, não passava de um vale seco, talvez apenas um escoadouro de águas da chuva e logo conseguimos voltar ao rio , aonde uma singela cachoeira que despencava de um amontoado de pedras enormes nos dava as boas vindas e nos instigava a pular no seu poço de aguas escuras, chamamos de CACHOEIRA Da CUNHA  ,mas resolvemos não nos demorar muito ali, estávamos ansiosos para chegarmos logo ao grande afluente superior e ver qualquer que era as dificuldades que ele iria nos impor.

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          Desta vez não tinha jeito, era subir até onde o terreno desse passagem, muito porque, ao encontrarmos mais um rio seco, tentamos descer e fracassamos, então varamos matos e samambaias gigantes, até que lá do alto avistamos o rio se encontrando com o afluente que buscávamos. Contornamos mais acima ainda para escapar dos abismos e sem muita demora desembocamos bem acima do tal afluente, de águas cristalinas e vistas espetaculares das praias e do próprio Rio Guaratuba encontrando o mar.

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          É impressionante como a gente projeta as coisas baseadas nos nossos medos interiores. Achávamos que ali seria as bordas do planeta, donde cairíamos nos abismos do além, mas ao contrário disso, nos deparamos com uma queda d’água deslumbrante e com vistas para o jardim do Éden. Imaginávamos que ao chegarmos nesse trecho estaríamos numa espécie de proa de navio, aonde descer seria impossível e voltar , necessário. De cima daquele patamar, junto aquele afluente lindo era possível ver o grande rio Guaratuba correndo um pouco mais manso logo abaixo e no Horizonte uma floresta verdejante se juntando ao oceano e para marcar esse incrível lugar resolvemos chamar essa queda d’água de CACHOEIRA DA PROA.

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          Depois de um breve descanso, resolvemos descer ao pé da cachoeira e num piscar de olhos, já havíamos escorregado para baixo da sua queda aonde os mais corajosos, não eu, já se meteram embaixo dela e ficaram lá por um bom tempo se refrescando. Quando todos estavam satisfeitos, jogamos as mochilas nas costas e fomos desescalando pedras e descendo degraus até retornarmos ao rio e como as surpresas nessas expedições nunca parecem ter fim, fomos desembocar em mais uma espetacular cachoeira que vinha de um afunilamento e depois se esparramava sobre as pedras e caia em mais um poço de águas escuras, hora de parar para mais uma rodada de ócio, acompanhada de pedaços suculentos da torta da sogra do Trovo e de deliciosos petiscos roubados de uma certa festa de aniversário e para marcar mais essa conquista chamamos aquela queda de CACHOEIRA DA JUNÇÃO.

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          O dia estava rendendo e já estávamos a mais de sete horas num ritmo alucinante e agora uma brecha no rio nos fez passar para o lado esquerdo e nossa caminhada vai seguindo passando por um infinidade de pequenas cachoeirinhas, onde descer de grandes matacões e rampas rochosas sempre era preciso, mas varar mato nunca saia de moda e logo estávamos novamente descendo ao pés de mais uma grande queda, aliás, uma não, três quedas. Talvez uma das mais bonitas sequencias de saltos, com um poço gigante que vai hipnotizando um a um até que eu mesmo, que não sou muito chegado em aguas frias, não me contenho e vou parar no fundo do rio. O Tony, o Trovo e Vagner já se enfiam debaixo na última queda e só saem de lá porque já sabem que o dia não tarda em se findar e é preciso adiantar o passo e ganhar terreno. A CACHOERIA DOS TRÊS POUSOS, serviu para termos uma certeza: Aconteça o que acontecer, nada mais poderia nos deter na nossa caminhada rumo ao litoral, mesmo que algo viesse a dar errado, o único caminho possível era finalizando essa travessia selvagem.

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         Outra cachoeira é cruzada e quando mais uma garganta no fecha o caminho, é hora de voltar para o mato, comer folha, se pendurar em arvores de espinho, varar terreno irregular, subir pendurado em arbustos podres e rezar para que eles não quebrem e nos faça despencar nos abismos. O corpo já do sinal de que está chegando ao seu limite e já começamos a cogitar em encontrar algum lugar para acampar, mesmo porque o tempo já começa a fechar e não tarda em começar a chover, mas acampar nesses lugares não é coisa fácil, o terreno é muito irregular e achar arvores que preste à beira do rio é algo trabalhoso. Já passa das quatro da tarde e ao tropeçarmos em um afluente de águas cristalinas, a gente jogas as mochilas ao chão e damos como encerrado esse dia de aventuras e deslumbramentos.

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          É um lugar imprestável para acampar, mas é o que temos para hoje e foi bom parar aqui porque na mesma hora as torneiras do céu resolveram se abrir. A chuva caiu por uns quinze minutos e quando parou foi a deixa para montarmos nossas redes, coisa que fiz em menos de vinte minutos e por estar tão cansado, ao deitar sobre ela, não consegui mais me levantar e apaguei por umas duas horas e só acordei porque os borrachudos já haviam comido uma das minhas pernas e a chuva havia inundado a minha rede porque os meus vizinhos resolveram cair da rede e levar junto a cordinha do meu toldo. A noite já havia caído e eu estava envolto no meu sofrimento, com a cara toda inchada de tanto borrachudo. Levantei-me naquele aguaceiro todo e na escuridão da floresta tentei encontrar minha lanterna para ver se conseguia fazer uma janta, mas desisti, não consegui localizar um palmo de terreno plano nem para estabilizar meu fogareiro e por estar com a barriga entupida de uma certa torta, nem fome estava sentindo. Enquanto eu tentava concertar meu toldo e instalar meu mosquiteiro corretamente, um dos meus vizinhos, um tal de Tony, se debatia na sua cama de mato e expunha todo o seu sofrimento de novato nessas expedições. Sem saco de dormir, numa rede molhada e sem mosquiteiro, ele exalava sofrimento que beirava o desespero, e essa foi mais uma noite passada no inferno.

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          Para nossa sorte o dia amanheceu sem chuvas e logo que um facho de luz iluminou nosso acampamento, pulamos das redes para um desjejum meia boca. Havíamos acampados surpreendentemente na cota 350 m de altitude, conseguimos descer 500 metros de desnível em um só dia, mas sabíamos também que em matéria de distância, havíamos percorrido muito pouco e ainda teríamos muita quilometragem para descer o rio, varar mato, subir parede. Aliás, por falar em paredão, o nosso destino nesse novo dia era nos livrarmos de uma parede gigante, aonde pelo rio era impossível passar porque uma garganta profunda já se apresentava à nossa frente. Tentamos subir o afluente do nosso lado esquerdo, mas logo vimos ser impossível e aí tivemos que escalar uma das suas margens e dar uma grande volta até nos posicionarmos acima da própria cachoeirinha, passar para o outro lado e escalar uma parede menor. A sequência foi um teste de paciência, sempre tentando achar uma diagonal que nos devolvesse de volta ao rio, aonde vislumbrávamos chegar aos pés de outra grande cachoeira.

          A gente deu a volta em um morrote para cortar caminho e fomos descendo, perdendo altura aos poucos, nos livrando dos obstáculos, mas quando vimos que estava difícil achar uma linha de árvores para voltarmos ao rio, não teve jeito, saímos deslizando barranco a baixo nos guiando pela luminosidade da grande queda d’água até chegarmos em um patamar ao alto imediatamente jogarmos nossas mochilas ao chão para melhor podermos no desfrutar daquele espetáculo aquático. Mais uma cachoeira gigante se descortinou no meio da floresta. Três quedas despencando, sendo a última muito maior e caindo em um poço gigante. Para nossa surpresa havíamos andado muito e quase não saímos do lugar e acabamos voltando ao rio pouco abaixo de onde havíamos bivacado. Infelizmente descer até o pé da cachoeira seria um esforço enorme e como havia voltado a chover um pouco, o rio estava cheio e se aproximar da queda, muito perigoso, então batemos uma foto, viramos as costas e seguimos nosso caminho e para marcar esse ponto geográfico  chamamos de CACHOEIRA NEBLINA DO GUARATUBA.

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          Surpreendentemente aquela expedição estava seguindo seu curso numa normalidade jamais pensado pela gente, perdíamos altitude rapidamente. Nada era fácil, claro, um terreno terrível e desafiador, mas que aos poucos ia sendo conquistado e por volta da onze da manhã já conseguíamos ganhar distância caminhando pela margem do Guaratuba e ao chegarmos numa espécie de ilha foi que conseguimos achar um lugar decente que poderia ser transformado em um lindo acampamento, inclusive com uma gruta que poderia servir de abrigo para um grupo inteiro e para marcar esse lugar foi ali que resolvemos deixar nossa CAPSULA DE REGISTRO DE TRAVESSIAS SELVAGENS , bem na cota 200 de altitude.. Mas desta vez não foi nada elaborado, porque eu havia decidido não carregar nada que pudesse colocar minha segurança em risco com peso excessivo, diante da perspectiva de uma travessia ariscada. A capsula dessa vez foi improvisada com uma garrafa de boca larga e dentro deixamos os manuscritos de nossa passagem pelo vale, marcando assim essa conquista inédita, pelo menos em tempos modernos.

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          A partir desse ponto o grande Rio Guaratuba já começou a dar sinais de calmaria, que ia se alternando com pequenas quedas. O caminho ia seguindo, cruzando por ilhotas e matacões, hora a gente seguia pelo mato, agora já com pouca inclinação, hora descíamos pelo próprio rio, as vezes alternando de margem. Até então não havíamos encontrado qualquer sinal de passagem humana, nada que nos dissesse que um dia aquele vale teria recebido alguma pegada humana, mas quando o terreno caiu abaixo dos 100 metros de altitude começamos a desconfiar de que logo poderíamos encontrar rastros de civilização e ao cruzarmos um bonito afluente do lado esquerdo,  paramos para acabar de vez com a torta da sogra do Trovo e logo a frente um rabo de trilha foi localizado, então estacionamos imediatamente já que o caminho se dirigia para longe do rio.

 

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          Aquela trilha poderia não nos levar a lugar nenhum, poderia servir apenas para acessar o interior da floresta para extração ilegal de palmito, mas também poderia servir para cortar caminho numa grande curva do rio, então resolvemos ariscar e ir acompanhando no mapa sua direção. Num primeiro momento ela se afastou, mas logo voltou a direção que nos serviria. Avançávamos a passos largos, mas como a tarde já estava chegando, decidimos andar até encontrarmos um local privilegiado para acamparmos, talvez algum rancho de pescador ou de caça. A trilha nos desovou novamente no rio, que agora era raso e com vária prainhas de areia. Suas águas eram cor de coca –cola, como as da Chapada diamantina e de Ibitipoca. Poderíamos acampar em qualquer lugar, mas a trilha era tão plana e gostosa de andar, que a gente se empolgou e quando a trilha sumia, avançávamos pelas areias do rio até que na sua margem direita surgiu uma trilha mais larga ainda e através dela a gente foi deslizando por muito tempo até que ela também acabou novamente no rio.

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          A trilha continuava do outro lado do rio, mas começava a subir o rio como se tivesse voltando , então resolvemos abandoná-la e voltar a descer pelo rio, hora pelas praias de areia, hora por dentro da água mesmo, mas por um golpe de sorte, o Vagner resolveu olhar no nosso mapa e descobrimos que aquela trilha era na verdade o acesso para sair do rio e ir em direção ao condomínio por onde pretendíamos encerrar nossa expedição, retornamos imediatamente, mas desta vez convictos de que aquela jornada terminaria naquele dia mesmo.

          A trilha realmente era estranha, estávamos subindo o rio, mas tinha algo que a gente não havia se dado conta, aquele rio na verdade era um afluente do Guaratuba e logo a direção desse caminho começou a apontar para a civilização. Havia uma preocupação de como conseguiríamos entrar em um condomínio de luxo e cruza-lo por uns 5 km sem sermos notados. Cruzamos o afluente bem nas costas das casas do tal condomínio, que para nossa sorte não tinha muros ou cercas e ao subirmos o barranco, saímos atrás de uma casa que parecia não haver ninguém. Passamos por seus domínios na surdina, cruzando uma espécie de garagem e caímos nas ruas do milionário CONDÔMINIO MORADA DA PRAIA.

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          Quatro eram os homens que desfilavam sua felicidade e seus orgulhos naquele que sem dúvida deve ser um dos lugares com o maior número de milionários do Brasil. Casas com estilo americano, sem muros e com jardins incríveis, algumas devem custar uma dezena de milhão, num lugar que invadiu a Mata atlântica e destruiu tudo, em um dos maiores crimes contra a Serra do Mar Paulista. Alguns estavam morrendo de medo de serem pegos lá dentro, ainda mais quando a segurança passou por nós e já fez aquele olhar de reprovação, mas outros cagavam e andavam para aquilo tudo. Éramos como sempre, extraterrestres saídos sabe-se lá de onde, vindos de algum lugar que a alta Sociedade Paulista nem sabia que existia. Desfilávamos nossa pobreza financeira pelas ruas dos endinheirados rumando em direção à praia, como tartaruguinhas que correm em direção ao mar, tentando escapar dos tubarões. Passou pela gente um ônibus, que pensamos que poderia nos levar até Bertioga, mas na verdade não passava de um transporte interno do condomínio, porque não basta ser milionário, tem que ter um ônibus particular para saber como os pobres se locomovem. O motorista, vendo a nossa cara de fome, resolveu nos dar uma carona até a portaria já na beira da praia, fazendo assim com que a gente fosse enxotadados o mais rápido possível das vistas dos condôminos e assim a gente ganhou as ruas da Praia da Boracéia entre Bertioga e São Sebastião e demos por encerrado essa grande expedição, que marcou a entrada de mais um vale perdido no mapa das TRAVESSIAS SELVAGENS DA SERRA DO MAR PAULISTA.

                                                                     Divanei Goes de Paula- novembro/2017

 

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    • Por Tadeu Pereira
      Salve salve mochileiros!
      Segue o relato com algumas dicas para fazer uma bela trilha onde irão encontrar duas maravilhosas cachoeiras, uma bela floresta e uma natureza fantástica bem perto da cidade de São Paulo e de baixíssimo custo. 
       
       Ida - 22/10/18 - 8h00min - São Paulo x Mogi das Cruzes x Biritiba Mirim (Serra do Mar) - Metrô e Trem R$4,00 - Ônibus R$4,10
        Partindo de São Paulo do bairro Perdizes Zona Oeste, peguei o Metrô na estação Vila Madalena (linha verde) até a estação Paraíso (linha Azul) para baldear para a linha vermelha seguindo até a estação Sé (linha Vermelha) sentido Itaquera e descendo na estação Brás (linha Vermelha) onde encontrei mais dois amigos para pegarmos o trem da CPTM sentido Guaianases (Linha Coral) e finalmente após a troca de trens pegar para o sentido final e para nossa primeira parada, a Estação Estudantes (Linha Coral).  

        Na Estação Estudantes existem 3 formas de você chegar nesta trilha: A 1ª é de lotação de carros ou vans. Logo que você cruza as catracas da estação de trem você já irá ser abordado por alguém te perguntando se precisa descer para o litoral pela estrada Mogi x Bertioga. Essas pessoas lotam um carro ou uma van e descem até as cidades de Bertioga e do Guarujá cobrando o valor de R$25,00 a R$30,00 por pessoa. O único problema desta opção é ter que ficar esperando lotar o carro ou van e isso levaria mais tempo para iniciar a trilha. Já a 2ª forma de chegar ao início desta trilha seria de ônibus. Saindo da estação de trem pelo lado esquerdo você encontrará um terminal de ônibus onde realizam também a descida pela rodovia Mogi x Bertioga feita pela empresa de ônibus Breda. O valor é aproximadamente R$29,00 e é só pedir para o motorista parar no KM81 para iniciar a trilha. A ª3 forma de chegar no início da trilha e foi a que nós escolhemos e é também de ônibus, porém de ônibus circulares. Saindo da estação você encontra uma passarela que te leva para o lado direito da estação Estudantes. Chegamos em uma rua e caminhamos para a esquerda por alguns metros e já de frente vimos um terminal de ônibus onde pegamos um ônibus circular de transporte público intermunicipal até o ponto final que fica no KM77. O ônibus é o NºE392 (Manoel Ferreira) que nos levou em 30 minutos até o KM77 seu ponto final, onde tem uma balança, um bar e uma feirinha com várias frutas, uma ótima opção pra levar pra trilha como bananas, mangas, uvas etc. Compramos água e algumas frutas e caminhamos pela rodovia até o KM81 para iniciar a trilha. Neste trecho de aproximadamente 4 quilômetros ocorreu uma tensão pelo fato de não haver acostamento na rodovia e os carros passarem bem próximos de nós, então é bom ter um pouco mais de cuidado nesta parte do trajeto.
       
        
       
        Caminhando por alguns bons 25 minutos pela rodovia chegamos ao KM81, foi quando avistamos uma placa vermelha e amarela dizendo "Atenção - Descida da Serra - Verifique os freis - Desça engrenado". Atravessamos a rodovia para o lado esquerdo e bem no começo do guard rail se encontra o começo da trilha da cachoeira da Pedra Furada e da Light.  
       
        

       
        A trilha começa bem tranquila e tem uma extensão de uns 3 Km e pode ser feita em menos de 1 hora desde a Rodovia até a cachoeira. A caminhada é sempre em meio à mata atlântica com muitas bromélias pelo caminho, algumas áreas de brejo e cruzando alguns pequenos riachos. Ao longo da caminhada surgem algumas bifurcações na trilha principal, uma delas existe um tronco de árvore caído quase que atravessado na trilha. Para o lado direito onde a trilha é mais ingrime leva a parte de baixo da Cachoeira da Pedra Furada e já pelo lado esquerdo onde a trilha é um pouco mais fechada leva para a cachoeira da Light e para a parte de cima da cachoeira da Pedra Furada. 
       
       
       
        A cachoeira vista do lado de cima não mostra a real beleza e peculiaridade que tem as suas águas ao passarem por uma pequena fenda na rocha e sair pelo meio dela do outro lado. Como chegamos pelo lado de cima da cachoeira não tínhamos noção de como seria vê - la de frente e pela parte de baixo.
       

       
        Encontramos 2 formas de ir para a parte de baixo da cachoeira. A primeira é uma trilha que desce bem rente a cachoeira com auxilio de uma corda. Já a segunda forma é também uma trilha pelo lado direito do topo da cachoeira porém um pouco mais para dentro da mata. Subimos por uma trilha onde uma enorme árvore esta caída e descemos até a base da cachoeira.
       
        
        
       
        De frente com a cachu se vê o quanto ela é bonita. Este dia ela estava dividida em duas cachoeiras, pois a água estava passando por cima e também saia pelo meio das suas fendas, onde se deu o nome de Pedra Furada. Ficamos por alguns minutos contemplando aquele paraíso, fizemos nosso lanche, recolhemos nosso lixo, descansamos um pouco e partimos para conhecer a outra cachoeira, a da Light. 
        Voltamos para a trilha principal e seguimos ela a diante. Caminhamos pouco mais de uns 25 minutos e já começamos a ouvir o som de queda d'água novamente. Chegamos em uma barragem onde o rio Sertãozinho passa por cima formando uma mini cachoeira. Neste local encontramos muito lixo, muitas lonas velhas, roupas, barracas improvisadas que acreditamos que sejam de caçadores e pescadores, restos de acampamentos deixados pelas pessoas. Este cenário foi um pouco ruim de se ver, pois há muito descaso das pessoas com a natureza. Leve sempre todo seu lixo com você e descarte em um local adequado, não deixando na natureza ou na rodovia.
       
        

       
       Volta - 22/10/18 - 18h:00min - Biritiba Mirim (Serra do Mar) - São Paulo - Mogi das Cruzes x- Ônibus R$4,10 - Trem e Metrô R$4,00
        Na volta da trilha em um cruzamento, resolvemos entrar em uma trilha que não tínhamos ido ainda. Andamos por mais ou menos uma hora e não achamos nada além de mato. Não encontramos e nem ouvimos mais nenhuma queda de água. Foi quando demos de encontro com o Rio Sertãozinho novamente e foi ai que demos conta que estávamos perdidos pois toda demarcação, pegadas, as fitinhas que estavam amarradas nas árvores desapareceram. Fudeu! Parecia até mesmo um filme ahahahaha. Nós estávamos perdidos! Ficamos por alguns minutos procurando as demarcações que estávamos seguindo e nada. Não achamos nada. Então resolvemos descer o Rio Sertãozinho até a cachoeira que vimos por último, a da Light. Andamos por mais ou menos 1 hora mata a dentro mas sempre seguindo o rio. E depois de alguns arranhões,, depois de um pouco de tensão andando na mata fechada, depois de quase bater o desespero, chegamos na cachoeira da Light novamente. Um alívio pois estava ficando escuro muito rápido e ainda tinha a nossa volta. Só tivemos tempo para descansar por alguns minutos. Iniciamos a trilha de volta e logo tivemos que ligar nossas lanternas pois dentro da mata por volta  das 18:00 já estava muito escuro. Andamos por uma hora e meia até chegarmos na rodovia novamente. Caminhamos pela rodovia novamente até o bar e a balança no KM77 por mais uns 30 minutos para poder pegar o ônibus circular para retornarmos ao Terminal Estudantes e fazer nosso retorno pra São Paulo. Chegamos exaustos na Estação. Comemos alguma coisa e pegamos o trem sentido Guaianases para retornamos para nossas casas e finalizarmos essa fantástica trilha bate e volta bem pertinho da cidade de São Paulo. Gratidão... 
       
       
       
      Espero ter ajudado em algumas dicas e fico a disposição para qualquer dúvida. Vlw
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    • Por divanei
      EXPEDIÇÃO VALE DO ITINGUÇU
       
                Foi numa tarde quente e chuvosa de verão que eles surgiram. Nove homens desembocam de supetão na extraordinária e turística CACHOEIRA DO PARAÍSO, nos domínios da JURÉIA. Toda a ação é assistida por uma multidão que fica perplexa, sem se darem conta do que está acontecendo. Um burburinho toma conta do lugar, homens, mulheres, crianças e velhos tentam entender de onde surgiram aqueles extraterrestres de coletes, perneiras, capacetes e mochilas estanques com equipamentos de escalada a tira colo. Os salva-vidas do parque ficam paralisados, sem ação, só fazem acompanhar com os olhos um a um dos exploradores descerem a escadinha de madeira e depositarem suas mochilas ás margens do grande POÇO VERDE e se atirarem na água, nadando para o outro lado até se posicionarem embaixo da queda da cachoeira. Nada disso havia sido combinado e o grupo foi tomado por um sentimento avassalador de satisfação e conquista e ao se juntarem, se abraçaram e comemoraram juntos, como jamais haviam comemorado antes e o aniversariante do dia não se conteve e escondidamente deixou escapar umas lagrimas em meio àquela enxurrada de emoções e agradeceu por estar vivo para apreciar aquele momento único.
       
      (Uma das Grandes Quedas do Itinguçu, no centro da Mata Atlântica, quase 2 dias da civilização)    
          Já fazia muito tempo que eu deslumbrei a possibilidade de explorar às nascentes do Rio Itinguçu, o rio conhecido por abrigar a fenomenal CACHOEIRA DO PARAÍSO, uma das maiores atrações do entorno da Reserva Ecológica Juréia-Itatins nos domínios de Peruíbe, mas foi procurando um caminho para chegar ao cume da serra que descobri uma possível passagem que poderia nos levar a montar uma expedição que pudesse descer aquele vale selvagem e desconhecido.
       
                Por incrível que pareça, esse projeto foi parar em um canto esquecido do meu computador após tomarmos ciência de um pico selvagem e deslumbrante que servia como guardião das nascentes do rio, então deixamos de lado a aventura aquática e nos embrenhamos no meio da floresta até alcançarmos o cume perdido do Morro das Três Pontas. A expedição ao cume do pico Careca foi um sucesso e a partir daquela conquista, estabelecemos também um caminho viável para um dia tirarmos o Vale do Itinguçu do anonimato.
       
           (Cume Motchaka-Morro das Três Pontas)    
                Eu já estava propenso a me enfiar em outros vales, quando parte do nosso grupo insistiu que a gente deveria pôr fim à novela do Vale do Paraíso, que era como vínhamos chamando aquele vale perdido até então,no feriado do Carnaval. Num primeiro momento dei uma titubeada por achar a logística partindo da cidade de Itariri muito complicada por ser um município perdido no Vale do Ribeira e sem transportes regulares partindo do interior Paulista ou mesmo da capital e quando os caras botaram os planos sobre a mesa , foi aí que me dei conta que a logística era mesmo uma grande merda: Teríamos que dirigir com nossos carros até lá na véspera do grande feriado e depois de tentarmos atravessar o vale, ainda teríamos que retornar para resgatar os veículos que ficariam aonde o Judas cagou nas botas.
       
                Bom, como não sou explorador de arregar pra coisa nenhuma e sabedor de que se não fosse agora perderia a chance de escrever também meu nome na história, dei uma garibada no velho NIVA 4X4 , apanhei o Vinícius e o Alexandre no centro de Sumaré e rumamos para a cidadezinha de Itariri que fica a uns 300 km de casa, mas antes paramos no meio do caminho para dar uma carona para o Gersinho, que era um dos que estavam na expedição ao Morro das Três pontas. A outra metade do grupo, todos da região metropolitana de São Paulo decidiram sair só na manhã do sábado e nos encontrar na cidadezinha antes do meio dia.
       
               Ao chegarmos à primeira entrada de Itariri, viramos para a direita e fomos rumo ao bairro da Igrejinha, sempre seguindo paralelos ao Rio Azeite e, ao atravessarmos a grande ponte, nos mantivemos a esquerda e ao chegarmos a um ponto de ônibus, alguns metros depois, deveríamos também continuar nos mantendo a esquerda, mas nosso navegador bobeou e fez com que pegássemos o caminho errado e fossemos nos perder no meio do nada, numa estrada sem saída em meio a escuridão daquela madrugada quente. Já passava das 4 da manhã, eu estava tombando de tanto sono e não houve nada que fizesse com que a gente voltasse para o nosso rumo, então encontramos um motoqueiro fantasma e ele nos guiou para fora do labirinto e nos deixou novamente depois da grande ponte do Rio Azeite e logo à frente um boteco abandonado, com uma grande cobertura, nos serviu de hotel pelo resto da noite e o tal QUIOSQUE DO BURRO acabou por se tornar uma escolha bem inteligente.
       
                Quando o dia clareou, o Vinícius já fez logo um pampeiro para que a gente levantasse. Me levantei, mas não deixei de protestar porque pensava em dormir até um pouco mais tarde e mesmo ainda com muito sono, dar de cara logo cedo com aquele rio espetacular, já faz com que o nosso humor se eleve rapidamente. A parte paulistana do grupo já nos sinalizou que só chegaria perto das 11 da manhã, então aproveitamos o tempo ocioso e voltamos até o centro de Itariri para um café reforçado e quando o bucho encheu, voltamos para perto do Quiosque do Burro, junto à uma ponte pênsil e lá ficamos até que que o resto do grupo se juntasse a nós.
       
                Antes do meio dia os meninos paulistanos aparecerem e é sempre um grande prazer rever esse bando de malucos vindos de todos os cantos da cidade e de outros municípios vizinhos. Silvester Natan, Daniel Trovo, VGN Vagner, Paulo Potenza e Rafael Soares, todos com uma alegria irradiante e felizes por estarem ali prestes a darem início a mais uma Expedição Selvagem, sem a certeza do rumo que aquela brincadeira tomaria, sem saber se aquela loucura chegaria bem ao seu final, mas todo mundo consciente de que cada um estaria por conta e risco, sabedores dos perigos que tal empreita envolveria.
       
               Com o dia claro, não tivemos problemas para encontrarmos a fazenda de bananas que procurávamos e seria nosso ponto de partida, a mesma propriedade do qual havíamos conquistado o cume do Morro das Três Pontas no ano passado, que por sorte, acabamos virando amigos do administrador que já havia nos dado o aval, deixando a gente estacionar nossos veículos na casa dele.
       
                Essa expedição tinha uma característica diferente das outras, desta vez teríamos que subir uma montanha com um desnível enorme para depois tentarmos navegar varando mato no peito até encontrarmos a nascente do RIO ITINGUÇU. Já conhecíamos o caminho até o topo da montanha, mas ainda discutíamos se era melhor varar mato em linha reta e ganhar precioso terreno ou tentar seguir por uma antiga trilha de caçadores e palmiteiros, que bordejaria o rio da Usina dos Ingleses, uma ruina perdida no meio da selva. Lá pelas 13 horas jogamos às mochilas às costas e partimos, mas me chamou a atenção o excesso de equipamentos que alguns carregavam, claro que eu já sabia qual era a intenção deles, mas me mantive sereno, já que essa foi uma discussão que eu havia perdido.
       
                Abandonando a casa do administrador, seguimos enfrente pela estradinha que ia ganhando altura aos poucos. O grupo se dividiu em dois e a pernada inicial foi servindo para botar os papos em dia, até que vinte minutos depois somos obrigados a abandonar a estrada em uma curva e adentrar para a esquerda, numa antiga estrada que hoje não passa de uma trilha erodida e interditada pelo matagal. Esse caminho servia para dar acesso ao bananal nas cabeceiras da fazenda, mas pela dificuldade de acesso, toda a plantação foi abandonada. Quinze minutos de caminhada, talvez menos, ouvimos um grito do grupo que vinha logo atrás. O Rafael estava passando mal e precisava descansar um pouco. Também pudera, a temperatura beira os 38 graus e até os mais magrelos já ameaçavam sucumbir diante daquele calor dos infernos. Logo o Rafael retomou seu caminho, mas não foi muito longe, caiu novamente prostrado, botando os bofes para fora. O Potenza deu-lhe um remédio e fomos caminhando lentamente, tentando fazer com que ele chegasse vivo até o casebre abandonado onde pensávamos que conseguiríamos um pouco de água. A chegada ao barraco caindo aos pedaços nos remete às boas lembranças de expedições antigas, mas água mesmo somente em uma garrafa grande deixada por algum caçador que logo foi despejada sem dó sobre a moringa do Rafael, que tinha anunciado a sua desistência da Travessia Expedicionária. Ficamos na choupana velha, vendo se seria necessário alguém acompanhar o nosso amigo de volta para a civilização, mas de repente o Rafa sacou lá do fundo da sua alma um último suspiro de vida e desistiu da sua desistência, preferia morrer na subida da serra do que se ver fora daquela expedição e correr o risco de nunca mais ter outra oportunidade e se a frase é mais do que batida, também seria mais do que oportuna: O SOFRIMENTO É PASSAGENRO, MAS DESISTIR É PARA SEMPRE!
       
               
                Com o Rafa aparentemente recuperado, largamos aquela habitação decrépita e partimos para o pé da montanha, atravessamos o bananal no peito, nos guiando pelo faro e pelo nosso GPS, até vermos que havia chegado a hora de deixarmos o conforto das bananas docinhas e nos enfiarmos de vez no meio da floresta espinhuda. O rio era audível do nosso lado direito, mas a vegetação não nos deixava avançar e o Rafael já começava a querer tombar de novo, aliás, todo o grupo cozinhava os miolos naquele calor escaldante. Todo mundo parecia implorar para que o rio chegasse logo, mas ao invés de água, toma barranco na fuça. A paciência acabou, mandamos o traklog para PQP e seguimos nosso instinto de sobrevivência até água e quando lá chegamos, não teve um que não tenha se atirado de cabeça nos poços de águas translucidas e alguns quase morreram de tanto beber e o moribundo do Rafael se atirou no leito do rio e lá ficou até que seu corpo absorvesse metade da água do córrego na tentativa de se restabelecer novamente.
       
                A tarde já ia lá pela sua metade e aquela dúvida inicial se seria melhor seguir pelo mato ou bordejando o rio, acabara de ser desfeita. Com o Rafa ainda meia boca, seria muito mais seguro ir tocando por dentro da água ou pela margem do rio, sempre subindo as pirambeiras que iam surgindo. Portanto, pela água começamos a pular pedras e atravessar pequenos poços e cachoeirinhas bucólicas e isso deixava todo mundo feliz por termos nos livrado do calor intenso. Sabíamos que aquele rio nos levaria direto para a grande cachoeira dos Ingleses e consequentemente para o alto da serra, mas ao chegarmos a uma bifurcação de rio, os caras que estavam seguindo o caminho pelo GPS, comeram bola, e ao invés de pegarmos o rio da direita, pegamos o da esquerda, talvez hipnotizados pela bela cachoeira que se apresentou à frente. Como subir a cachoeira era tarefa árdua e vendo que o caminho não era aquele e que estávamos no rio errado, aferimos nosso azimute e tentamos voltar para o vale correto, mas a gente começou a subir barranco atrás de barranco e cada vez mais parecíamos estarmos fora da rota, até que os navegadores decidiram pegar uma linha reta até o outro rio e ao invés de subirmos, começamos a descer. Perder altitude foi uma péssima ideia, foi um tempo perdido e eu morrendo de sono por ter dirigido a noite toda e não ter dormido, achei aquela navegação um furo n’água.
       
                Quando cansamos de andar para o lado errado, finalmente encontramos terreno aberto, mas longe de ser um caminho mais tranquilo porque aí começou a tocar de vez para o rio e ao chegar no seu leito tocamos para cima até interceptarmos a antiga CACHOIRA DA USINA DOS INGLESES, uma ruina do século passado que foi engolida pela floresta. A chegada à essa cachoeira é uma grande festa e as mochilas foram largadas ao chão e todo mundo se atirou para debaixo da queda no intuito de baixar de vez a temperatura do corpo, mas como não é possível ser feliz para sempre, logo já estávamos de volta a nossa labuta de tentar conquistar aquela montanha ainda hoje.
       
            ( Cachoeira Usina Velha dos Inglêses)
                 A continuação do caminho é escalando ao lado da cachoeira, adentrando embaixo de uma espécie de gruta cavada na rocha e já saindo para esquerda e logo interceptando uma antiga trilha de caçadores.. A subida estava dura, o Rafael parava a cada 15 minutos e pelo andar da carruagem eu já estava vendo que daria o último suspiro e pediria para ser enterrado ali mesmo. A cada parada do Rafa, o grupo também era obrigado a cessar a caminhada e eu já procurava uma árvore para dormir por alguns míseros minutos, mas foi em um momento específico que todo mundo acordou de vez: ao passar por um buraco no chão, o grupo mais à frente despertou a ira de um vespeiro e não deu nem tempo para mais nada quando alguém gritou a palavra mágica: “CORRE, ABELHA “. O Rafael que já era uma múmia a vagar pela floresta, deu meia volta junto com o Vagner e despinguelou barranco à baixo na trilha e eu peguei carona no vácuo deles. O resto do grupo correu para cima e mesmo assim o Vinícius foi alvejado duas vezes. Quando tudo parecia se acalmar, o grupo que correu para baixo tentou se juntar ao grupo do alto e foi nessa que também fui atingido. Uma ferroada certeira bem na mão esquerda, que imediatamente ameaçou cair do meu braço de tanta dor. A dor é tão grande que nem a picada de jararaca que tomei anos atrás se compara. Por sorte o Vagner, já esperto de outros carnavais, me deu logo um antialérgico para acalmar minha ansiedade.
       
               A tarde já quase que agonizava e nada da gente encontrar água e nem um lugar descente para acampar. Nos enfiamos por dentro de uma parede rochosa, denunciando que estávamos muito perto da saída do vale. Eu estava com tanto sono que nem sabia mais que rumo tomar, só deixava minhas pernas me levar aonde meu cérebro achava que estava seguro. O Rafa insistia em continuar em pé e a todo momento alguém tentava persuadi-lo a não desistir de vez, até que sem termos outra opção, apontamos nosso nariz de volta para o grande rio e nos escorregamos na sua parede íngreme até novamente chegar as suas águas, aonde um poço esverdeado, junto a uma cachoeira Afunilada nos deu as boas-vindas. O lugar era lindo, mas imprestável para acampar por ser um vale rochoso e sem árvores aonde pudéssemos montar nossas redes. Eu já estava com vontade de sentar e dormir encostado em qualquer lugar, até que alguém deu a ideia de apanharmos água e voltarmos a subir até um selado onde havíamos passado na descida para o rio e sem perder tempo nos dirigimos para lá e cada qual escolheu sua árvore favorita para montar sua casa de mato. Diz a lenda que alguns ainda voltaram ao rio para tomar um belo banho no poção esverdeado, eu particularmente, caguei e andei para o banho, montei minha rede e me joguei para dentro aonde morri por umas 2 horas e só acordei porque o Alexandre teve dó da minha pessoa e me trouxe um prato de comida, porque se dependesse de mim, não iria nem jantar.
       
               (Cahoeira  AFunilada)
                Doze horas de sono tem o poder de transformar um moribundo em outra pessoa. Acordei renovado, com energia suficiente para arrastar toda uma floresta no peito até o litoral e mesmo o Rafael que no dia anterior agonizou, já estava um touro bravo. Vagarosamente, desmontamos nosso acampamento e partimos. Retornamos ao alto da serra junto a parede rochosa e localizamos novamente o rabo da trilha que nos tiraria de dentro do “VALE V” e nos jogaria num mundo novo, de descobertas e encantamento, um mundo talvez trilhado por ninguém, apertem os cintos, a AVENTURA SELVAGEM vai começar.
       
                 Logo cedo é hora de subir montanha e quando o terreno começou a se estabilizar, passamos por um córrego, esse ainda, afluente do rio da Usina dos Ingleses. Estamos num grande planalto e teremos que atravessá-lo por dois ou três quilômetros até que interceptemos de vez o grande Rio Itinguçu, bem na sua nascente, mas até lá chegarmos vamos comer o pão que o diabo amassou.
                Para aquela expedição, havíamos traçado um caminho usando as curvas de nível no mapa, mesmo porque é um mundo de florestas fechadas onde é impossível saber a real localização da nascente do Itinguçu apenas pelas imagens de satélite. Andaríamos por mais de 2 km até termos certeza absoluta que  estávamos mesmo descendo o leito do rio. É , tudo isso parece obviu , mas na verdade não passa de uma grande ilusão e uma vez ali, parece que o mundo gira de  tal forma que ninguém mais sabe para que lugar seguir, por isso a importância do GPS para nos dar um rumo, uma direção.
       
               (início do Rio Itinguçu)
                O terreno estabilizou de vez e é impressionante o numero de pequenos córregos que vão correndo para todas as direções, portanto seria quase impossível se apegar a um deles na tentativa que eles desaguassem no rio que procurávamos. Nessa condição os nossos navegadores tiveram que não desgrudar mais os olhos do GPS. O avanço é lento, emperrado por uma vegetação fechada e com terreno encharcado. Outros tantos pequenos córregos são cruzados, mas nenhum seguia para o nosso destino e muito provavelmente seriam abastecedores de algum afluente do Itinguçu que possivelmente ira interceptá-lo mais a baixo, Passado mais de hora, a gente se deparou com uma grande nascente, um grande buraco de onde a água brotava e tomava a direção exata do grande Vale do Itinguçu e foi aí que a gente começou a desconfiar que por uma grande sorte, havíamos finalmente achado a verdadeira nascente do rio.
                Aquela nascente foi ganhando outras vertentes de água e foi crescendo e quando ficou com mais ou menos um metro de largura, tivemos a certeza de que nossa navegação havia sido um grande sucesso, então não perdemos mais tempo com o GPS e tratamos logo de nos jogarmos  de corpo e alma naquele corpo d’água. O rio foi crescendo, se alargando e quando pensávamos que nossas vidas seriam facilitadas, os homens que iam à frente foram surpreendidos por um Lamaçal de respeito, inclusive Daniel Troco e Vagner quase foram sugados para a entranha da terra, atolando seus corpos até na linha da cintura e outros que vinham atrás também tiveram o mesmo destino.

       
                As águas do córrego a cada curva ficavam mais cristalinas e o seu leito, antes barrento, começava a ganhar uma camada de pedregulho. Alargou-se de tal maneira que poços profundos já eram cruzados com a água acima da linha da cintura e quando chegamos a uma prainha formada por pedrinhas, paramos para um descanso e para morder alguma coisa. Sentados ali, naquele lugar lindo, em meio a uma das florestas mais espetaculares do mundo, há quase dois dias longe da civilização mais próxima, logo nos chama a atenção uma frutinha muito familiar, na verdade o chão estava qualhado delas: Quando alguém balbuciou dizendo que se tratava de JABUTICABAS, dei uma desdenhada antes de cair a ficha totalmente. Aquilo era realmente incrível porque se existe uma fruta que é símbolo do Estado e até do Brasil, essa seria a jabuticaba, mas eu em quase 25 anos de andanças pela Mata Atlântica jamais havia visto um pé selvagem desta fruta, já me deparei até com onças, mas jabuticaba era a primeira vez. Bom, a fruta estava ali, espalhada por toda a prainha, mas onde estaria o pé? Procurei pelo pequeno arbusto em meio às grandes e frondosas árvores e nada encontrei, até que do outro lado do rio, uma árvore de tronco esbranquiçado e de uns 15 metros de altura se curvava sobre nossas cabeças. Encontrar aquela raridade no Vale do Itinguçu foi mesmo uma grande honra e essa travessia iria nos mostrar que é igual a jabuticaba selvagem, só existe na Mata Atlântica e destinada a poucos.

               (Jabuticabas Selvagens)
                Retomamos a travessia, mas agora já sabedores de que os grandes desníveis não tardariam em se apresentar e logo quando o rio de pedrinhas se transformou em um rio de leito de rochas gigantes, as primeiras quedas já surgiram pelo caminho e para felicidade geral do grupo, uma delas nos chamou a atenção pelo tamanho do poço de águas esverdeadas e essa foi a deixa para todo mundo se jogar de vez e lavar a alma naquele dia ensolarado de verão. O poço fez a alegria da galera, o banho renovou os ânimos, lavou a lama e já nos mostrou um pouco do que nos esperava pela frente. O rio afunilou por um momento e logo apareceu uma cachoeira de tamanho considerado e aí foi hora de pararmos para estudar o terreno.
       
                Antes de expedição começar houve um embate sobre levar ou não cordas para fazer a descida das grandes cachoeiras. Eu e outra parte do grupo achávamos totalmente desnecessário carregar um material pesado para esse tipo de travessia selvagem, ainda sabendo que a possibilidade de pegarmos lugares intransponíveis seria praticamente nenhum, mas uma outra parte do grupo achou que seria viável e muito bem vindo para um treinamento específico, então parte da equipe acabou por carregar esse peso extra. Pois bem, ao nos depararmos com essa cachoeira, parte do grupo se preparou para montar as cordas e a outra parte se enfiou no vara-mato e ficou combinado de todos nos encontrarmos no patamar mais abaixo, no pé da cachoeira. Como imaginávamos, a passagem pela floresta, perdendo altura, foi rápida e tranquila, mesmo a gente tendo que nos pendurarmos numa parede coberta por vegetação solta e depois tendo que descer escorregando por outro barranco até ganharmos o leito do rio.Descemos e ficamos apreciar a galera fazer um bonito rapel ao lado da queda e quando todos estavam unidos novamente, partimos novamente por dentro do rio.
       
                
               (Primeira Grande queda do Itinguçu)
                Por dentro da corredeira o avanço é lento, mas muito prazeroso já que o calor estava de matar. O rio vai perdendo altura até que se joga novamente num abismo em forma de garganta e novamente o Vinícius, o Alexandre, o Gersinho e o Natan abrem mão do equipo para o rapel, enquanto os outros já encontram uma passagem pelo lado direito entre as árvores e em poucos minutos estávamos todos na entrada da garganta de pedras pretas e que logo ganhou o nome de CACHOEIRA DO CÂNION DO ÉBANO. Mais uma vez a gente assistiu de camarote a galera se pendurar nas cordas e ir baixando vagarosamente até caírem no leito do rio. Apesar desse procedimento tomar um tempo , a gente não estava muito preocupado com isso não, já que chegamos a uma conclusão que poderíamos estar com um tempo de sobra e poderíamos nos dar ao luxo de curtir cada parada.
       
               
               (Cachoeira do Cânyons do Ébano)
                Enrolada a corda e guardado os equipamentos, a descida continuou, mas não deu nem tempo da corda escorrer a água e já foi novamente retirada da mochila para fazer a descida de mais uma cachoeira aonde um grande poço na sua base convidava todo mundo para outro mergulho. Mais uma vez parte do grupo se aventurou pela descida sem corda, na verdade, somente eu, o Troco e o Vagner atravessamos a correnteza à beira da queda para tentar descer. O Vagner desceu um barranco pulando de uns três metros, se valendo de um patamar mais abaixo, mas eu não tive confiança de ariscar o salto porque se o tal patamar escondido na vegetação não parasse meu corpo, com certeza eu iria despencar no vazio e achei melhor tomar outro rumo. O Trovo passou pendurado numa rampa igualmente perigosa e foi se junta ao Vagner na base do poço. Retornei para junto do resto da galera e quando estava tentando procurar uma passagem mais segura pela direita, os caras me convenceram a descer pela corda. Nunca tive problemas com rapéis à beira de cachoeiras, pelo contrário, o fato de eu ter passado anos da minha vida me dedicando a descida de dezenas de quedas, fez com que esse tipo de atividade perdesse a graça e se tornasse uma coisa comum, mas confesso que até foi interessante me jogar novamente corda à baixo e deixar meu corpo cair dentro daquele poço incrível e sair nadando até sua margem.

      Quando todo mundo se juntou ao pé da cachoeira, partimos novamente, agora nos enfiando em mais um vale estreito e cada um vai desescalando como pode e logo mais a baixo, alguém chama atenção para uma cachoeira que despenca de afluente do lado direito do rio e para lá nos dirigimos, escalando alguns pequenos matacões até nos depararmos com uma parede negra de onde uma água limpíssima despencava de num véu incrível e a coloração da rocha já fez alguém batiza-la de CACHOEIRA NEGRA.  Aproveitamos a parada para comer alguma coisa e para nos refrescarmos, mas foi uma parada rápida porque ainda sabíamos que teríamos que vencer mais uma grande queda até a hora de acamparmos
       
        (Cachoeira Negra)
                Outras pequenas quedas são cruzadas, alguns poços atravessados, barrancos desescalados até chegarmos às bordas da maior cachoeira da travessia. Não era uma cachoeira gigante, nos moldes das que estávamos acostumados a encontrar nessas expedições, muito porque já sabíamos que esse rio não seria um rio com desníveis abruptos e abismos colossais, mas era uma cachoeira muito cênica e os meninos que carregavam as cordas e vinham aprimorando suas técnicas, não perderam tempo e já instalaram o rapel do seu lado direito, enquanto o grupo sertanista, como o Trovo chamou em tom de brincadeira, se enfiou  mato à dento do lado direito e em poucos minutos já estavam apreciando a movimentação dos canyonistas, sentados confortavelmente sobre uma grande rocha e ali ficaram, comendo “pipoca com manteiga” e assistindo a ação bem sucedida do grupo radical e para marcar esse ponto importante dessa EXPEDIÇÃO SELVAGEM, vou me dar ao direito de batizar essa cachoeira e o nome acho que não poderia ser outro, uma homenagem a esse rio incrível , que nasce no meio do nada e vai crescendo, ganhando corpo até se transformar nessa espetacular CACHOEIRA DO ITINGUÇU.
       
         ( Cachoeira do Itinguçu)
                O dia quase que já havia findado e o sol já se preparava pra se deitar ao oeste e então decidimos que já era chegada a hora da gente achar um lugar para acampar. Conseguir localizar um lugar descente e que possa abrigar nove exploradores não é tarefa das mais fáceis quando se está imerso dentro de uma vale com paredes rochosas dos dois lados e é preciso achar algo antes de escurecer. Todos estão cansados e loucos para descansar o esqueleto porque foi um dia de aventuras intensas, mas a cada passo dado e sem encontrar nada, a preocupação vai aumentando e até a euforia vai diminuindo consideravelmente. Um afluente quase seco faz com que a gente opte por um desvio e foi aí que o batedor que ia à frente vislumbrou um patamar acima, quase plano, com árvores grossas e espaçadas e não tivemos mais dúvidas, jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado mais um dia de explorações.
       
        ( Segundo Camping)
                Cada qual foi cuidar de montar seu abrigo e quem for mais esperto vai conseguir ficar com as melhores árvores, uns se dão bem, outros como eu, são obrigados a dormir pendurados a um passo da ribanceira. Montada minha rede, instalado o meu toldo, me livro das roupas molhadas e vou cuidar da janta, porque apesar de ter sido um dia duro e intenso, me sinto muito bem disposto. A janta não vai ser um banquete porque optei em vir o mais leve possível e apenas cozinho um pouco de arroz, frito umas fatias de bacon, pico um pedaço de pimenta dedo de moça, abro uma lata de sardinha, jogo um queijo ralado no arroz, dissolvo um suco de laranja numa garrafa pet e isso é o bastante para deixar a minha alma alegre pelo resto da noite. Antes das oito  já me atiro para dentro da minha cama de mato, fecho o mosquiteiro e apago completamente. Acordo lá pelas cinco da manhã descansado e bem disposto e como ainda está escuro, fico envolto nos meus pensamentos e logo me lembro de que hoje acordei um ano mais velho e me sinto feliz de, aos 48 anos ainda estar ativo, podendo desfrutar de uma vida de aventuras.
       
                Lentamente vamos desmontando nosso acampamento e enquanto a água não ferve para preparar um café, resolvo instalar a capsula de registro das travessias selvagens, mas ao invés de uma capsula bem elaborada, desta vez apenas improvisei com uma garrafinha de suco de uva porque não queria me dar ao trabalho de carregar peso algum que não fosse o essencial para minha sobrevivência naquela expedição. A galera realmente acordou diferente nessa manhã de 12 de fevereiro, estavam parecendo mais leve, todo mundo mais animados, acho que já prevendo que seria um dia tranquilo, um dia dedicado ao divertimento e ao laser, já que a pior parte parecia ter ficado para trás.
       
           ( Capsula do tempo)
              
                 A nossa travessia é retomada voltando de novo ao rio, mas por ainda ser muito sedo, vamos evitando entrar na água, só que o esforço de ficar quebrando mato no peito já faz com que parte do grupo proteste com os batedores que logo são obrigados a tomarem outro rumo e voltarem  para o rio, fazendo com que o grupo seja obrigado a se pendurar num barranco alto, tendo que se jogar encima de um arbusto e fazer uma queda controlada até mais abaixo. O dia já começa quente e o melhor caminho é mesmo por dentro da água, deslizando entre suas correntezas, saltando nas suas piscinas naturais.
       
               O rio vai sendo cruzado de um lado para o outro, grandes pedras são escaladas ou apenas desescaladas. Quando os obstáculos parecerem intransponíveis  é hora de avançar pelo mato e quando era preciso, um pedaço de corda era jogado e nele nos pendurávamos como dava e descíamos de volta para o rio. Algumas ilhas vão surgindo no nosso caminho, fazendo com que o rio se divida em vários, mas logo voltava a virar um só quando os rios se juntavam mais abaixo. Quando apareciam aqueles poços incríveis era hora de parar e desfrutar das suas águas incrivelmente cristalinas, era hora de se jogar, era a hora do divertimento, do lazer. Os mais eufóricos se jogavam de cima de grandes pedras em saltos espetaculares, outros só faziam passar vergonha com seus saltos pífios.

       
                Pelo caminho uma infinidade de pequenas cachoeirinhas é transposta, vales, corredeiras vão ficando para trás e antes do meio dia, como havíamos previsto, chegamos a um grande poço de onde uma CACHOEIRA    se espalhava de um lado a outro do rio, formando um grande tobogã natural, hora de jogar as mochilas ao chão para um descanso mais demorado e comer algo porque o lugar é mesmo especial. Aquele lugar era mesmo incrível, de uma transparência única. Sentei-me sobre uma grande rocha para poder me aquecer um pouco, já que eu mesmo havia me atirado de cabeça naquele grande poço. Fiquei ali parado, inerte, assistindo parte do grupo despencar cachoeira abaixo, escorregando na grande rampa. Estávamos ali, imersos em um lugar onde, muito provavelmente, nunca ninguém esteve antes e aqueles homens, alguns com a metade da minha idade, mais pareciam crianças descendo no escorregador do parquinho, felizes da vida e imersos num mundo só deles, sem se preocuparem com coisa nenhuma, apenas a desfrutar de uma vida simples e de desapego. A galera parecia não querer ir mais embora, mas depois de descerem de trenzinho mais uma vez, tomaram ciência de que aquela expedição teria que terminar ainda hoje e para guardar uma boa lembrança daquele lugar, nos reunimos para uma foto histórica no coração selvagem da Serra do Mar Paulista, como a fazer um brinde pela vida e pela oportunidade de estarmos mais uma vez juntos em mais uma travessia memorável.

       
                Depois da cachoeira do grande escorregador, pegamos uma sequencia onde o rio afunilavam nos obrigando a descermos por dentro das corredeiras e sempre tendo que cuidar para não sermos levados ao desescalarmos por dentro da água e assim foi o ritmo por mais de uma hora até tropeçarmos em outro grande poço com uma pequena cachoeirinha que despencava num refluxo de águas azuis, onde mais uma vez fizemos uma parada para recreação, regados a muitos pulos e mergulhos. Na sequencia ainda passamos por incontáveis outros poços aonde nos jogávamos de cima das pedras e nadávamos para o outro lado, sempre nos divertindo muito até que chegamos a uma grande rampa d’água, uma cachoeira inclinada, que desaguava em outro poço fenomenal e ali paramos para mais uma descanso, para apreciar uns petiscos e esperar que a galera das cordas se divertisse tentando descer mais esse corpo d’água. Verdade mesmo que somente o Vinícius e o Natan acabaram por se envolver nesse rapel, porque o Alexandre e o Gersinho preferiram ficar à beira do poço degustando uma calabresa com limão e depois tiveram que ouvir poucas e boas porque o Vinícius teria quase se lascado na torrente de água e eles não estavam lá pra ajudar, mas não demorou muito e logo as coisas se acertaram.


       
                Lá pelas 14 horas começou a chover e estávamos sempre atentos para não sermos pegos por alguma possível cabeça d’água. A chuva veio, mas o tempo continuava quente e agradável e o rio continuava com a mesma transparência de sempre. A travessia continuava muito animada e tranquila e o terreno só se complicou um pouco quando chegamos a um grande desnível de onde despencava uma pequena cachoeira em um afluente do lado esquerdo do rio. Descemos por um desnível considerável e logo nos jogamos de cima de mais uma cachoeirinha e passado esse trecho enfrentamos uma sequencia de corredeiras mais violentas onde íamos nos jogando por dentro delas e deixando a força da água nos adiantar o caminho.
       
                No nosso localizador por satélite observamos logo que o final da travessia não estava muito longe, mas ao transpor mais um imenso poço de águas cristalinas nos deparamos com um amontoado de rochas e alguns que esperavam moleza no final, fizeram uma cara de desanimo.  Foi aí que demos um pulo certeiro. Ao tentarmos varar mato pela esquerda nos deparamos surpreendentemente com uma trilha larga, aberta e bem consolidada. A trilha corria perpendicular ao rio e logo achei que ela poderia se perder em alguma localidade rural, mas o Rafael insistiu que deveríamos ir por ela, já que ele mesmo era exímio conhecedor ali daquela região. Seguimos então por ela e logo passamos por um afluente, onde o atravessamos e subimos o barranco do outro lado e em mais uns 10 minutos tropeçamos numa bifurcação e o Rafael reconheceu o lugar e nos indicou que deveríamos pegar para a direita que logo chegaríamos à Cachoeira do Paraíso.
       
                Bastou alguns minutos mais de caminhada e já avistamos a placa que indicava que deveríamos virar à direita e ao fazermos isso, já demos de cara com a cachoeira e seu grande poço de águas esverdeadas. Já fazia maios de 20 anos que eu não botava meus pés nessa CACHOEIRA DO PARAÍSO e sinceramente, nem me lembrava de que o poço era tão grandioso. Quando adentramos naquele lugar, que estava lotado de turistas, fomos recebidos com um enorme espanto pela multidão que se aglomerava naquela grande atração . Não sei o que houve naquela tarde de segunda-feira feira de carnaval porque surpreendentemente nosso grupo pareceu estar tão extasiado com o final daquela travessia que ninguém disse nada e como um zumbi, um a um foi caindo no poço e nadando para o patamar aos pés da cachoeira. Pior ainda foi a cara dos guarda-vidas do Parque Estadual, que só nos olhavam sem entender o que estava acontecendo. Quando todo o grupo se juntou, fomos tomados por uma sensação inigualável de sucesso, de dever cumprido. Havíamos proposto realizar uma travessia inédita, desbravar um grande rio a partir da sua nascente e agora estávamos todos ali, havíamos cumprido o planejado. Estávamos eufóricos, extasiados, inebriados pela conquista, nos abraçamos e celebramos o sucesso da empreitada.
       
         ( Cachoeira do Paraíso)
               Depois daquela cena memorável, varias pessoas ficaram nos perguntando o que estava acontecendo e de onde vínhamos com aqueles trajes de astronautas. Desconversamos, muito porque já percebemos que os salva-vidas ganharam a nossa movimentação e avisaram a portaria  pelo rádio que algo estranho estava acontecendo. Juntamos-nos para uma ultima foto do grupo enfrente a cachoeira, apanhamos nossas mochilas e saímos vazados de lá.
       
                Bom, agora havia chegado a hora de enfrentarmos a fiscalização do Parque Estadual do Itinguçu, parque esse que foi meio que desmembrado da reserva Ecológica da Jureia, justamente para poder permitir que o cidadão pudesse frequentá-lo, mas que jamais entenderiam se falássemos que vínhamos da nascente do rio, três dias atrás, mesmo assim teríamos que enfrentar esse problema. Quando o grupo chegou à portaria não demorou muito para um dos controladores de acesso encurralar o Natan na parede. Perguntou que horas havíamos entrado, se estávamos nos aventurando mais acima da cachoeira do Paraíso e o Natan já deu um “migué” dizendo que havíamos chegado bem cedo e já foi picando a mula sem dar maiores satisfações e assim foi seguido pelo resto do grupo, que mal olhou na cara dos guardinhas e  ganhamos rapidamente a rua e sem nem olhar para trás, continuamos caminhado até  sair das vistas de quem quer que seja.
       
                Ficamos sabendo que o único ônibus que poderia nos levar de volta à civilização só partiria depois das oito da noite, então resolvemos caminhar uns 3 ou 4 km até uma bifurcação de onde tentaríamos outro ônibus ou uma carona para nos levar até Peruíbe, mas quando lá chegamos, descobrimos que talvez não houvesse ônibus algum, já que o rio que corta a estrada estava cheio. Mesmo chovendo, não Havia alternativa, senão tentarmos chegar ao vilarejo do Guaraú caminhando por umas três horas ou mais. Sem termos o que fazer, lá fomos nós, um pé à frente do outro até que logo à frente nos deparamos com a cheia do rio que inundou uns 200 metros de estrada e chegamos bem a tempo de presenciarmos um caiçara que incorporou a mãe d’água e foi morar com sua motoca no fundo da inundação. Depois desse trecho passamos por um camping e por sorte, uma conhecida do Potenza estava por lá “excursionando” e não demorou nadinha para o menino passar um óleo de peroba na cara e ir lá descolar uma carona numa Van, mediante a um pagamento simbólico.
       
                O veículo nos deixou numa pracinha do Guaraú, que fica bem ao pé do morro de mesmo nome e o que nos restava agora era termos paciência até que o ônibus que partiria para Peruíbe chegasse. A chuva não dava trégua e mesmo assim a festa de carnaval corria solta no vilarejo, onde um trio elétrico fazia a alegria da multidão de foliões que, possivelmente com a cara cheio de pinga, não estavam nem aí com a “molhasseira” dos infernos. A noite já ia caindo e nada do tal ônibus chegar. Estávamos todos molhados e com frio e ficamos ali, numa marquise de uma lanchonete, assistindo ao show de horrores dos “cú de pinga” dançando carnaval e quando um dos nossos (Alexandre), depois de tomar uma latinha de cerveja, resolveu descer na boquinha da garrafa, decidimos que era hora de fazermos algo pela gente e que nos tirasse daquele antro de perdição.
       
                Quando uma Kombi encostou enfrente a lanchonete do outro lado da avenida, vislumbramos a possibilidade de conseguirmos um transporte para Peruíbe e para isso destacamos para essa missão, nosso enviado especial para assuntos logístico, o xavecador mor, VGN Vagner e esse foi o  maior erro que cometemos nessa expedição. O Vagner voltou dizendo que havia conseguido um carreto para Peruíbe por meros “cinco conto”, mas que o nosso motorista parecia estar um pouco alterado. Quando lá chegamos com nossas cargueiras, nos deparamos com uma Kombi toda zuada, sem bancos e com um “rippie maconheiro” , com o rabo cheio de fumo. Bom, é aquele negócio, já que está no inferno abraça logo o capeta, mas essa frase talvez não fosse muito adequada para o que ia se seguir.
       
                A chuva havia aumentado ainda mais e rapidamente nos jogamos com mochila e tudo para dentro da Kombosa e cada um se ajeitou como pode e como deu. O motorista e seu ajudante ainda tiveram tempo de dar um sorriso amarelo, quando viram nove homens e suas cargueiras adentrarem no veículo. Deu a partida no bagulho e logo que se livrou dos foliões que desfilavam atrás de nós, ganhou a estradinha escura que leva ao alto do Morro do Guaraú. O barulho era ensurdecedor, parecia que o carburador iria explodir a qualquer momento, mas mesmo assim estávamos contentes porque finalmente parecia que sairíamos daquela travessia, porque já tinha gente comparando aquela expedição com a Caverna do dragão.
                O rippie acelerou, esgoelou, a Kombi tremeu, balançou e foi subindo aos trancos e barrancos e nós tentávamos ajudar com a força do pensamento, mas quando faltava menos de 1 km para chegar ao alto da serra, o trambolho morreu de vez e ficou atravessada na diagonal, no meio da pista e não houve nada que o rip pudesse fazer para que ela voltasse a pegar, inclusive nem o freio ele conseguia acionar direito, fazendo com que a gente quase caísse na ribanceira. Ficamos todos ali, sem saber o que fazer e só esperando a hora que um carro viria para estraçalhar a Kombi com a gente dentro e a cada freada dos veículos na escuridão, nossos corações pareciam que saltaria pela boca. Ninguém disse uma palavra, eu olhava para os caras e só via  olhos arregalados e o safado do rippie também não dizia coisa com coisa e quando alguém resolveu tomar uma atitude dizendo que iria sair para sinalizar e abriu a porta da perua, uma avalanche de mochilas e caras cagados, se jogaram para fora da Kombi naquela noite escura e chuvosa e essa foi a ultima vez que ouvimos falar do o tal rippie porque não quisemos nem saber o que houve com  ele e com aquele veículo do satanás.
       
                Tendo nos livrado do rippie para salvar nossas vidas, caminhamos até o alto da serrinha e lá nos amontoamos embaixo de um ponto de ônibus mequetrefe e esperamos até que um ônibus nos apanhasse e evitasse que morrêssemos de frio e nos levasse direto para a rodoviária de Peruíbe e chegando lá, embarcamos imediatamente para Itariri. Já passava das dez da noite e ali na minúscula cidade, nos despedimos da galera paulistana, que conseguiram um taxi para poder resgatar o carro na fazenda de bananas, enquanto eu, o Alexandre, o Vinícius e o Gersinho resolvemos dormir num hotelzinho e voltar para casa somente na terça feira, já que não queríamos dirigir a noite por quase 300 km até a região de Campinas.
                
                E essa foi mais uma EXPEDIÇÃO, até então inédita na Serra do Mar Paulista, uma aventura que marca mais um pioneirismo em um dos mais exuberantes lugares do mundo, uma travessia de descobrimento, encantamento, regada a amizade, companheirismo e determinação, uma aventura em busca de conhecimento, de aprendizado, mas antes de tudo, um brinde a vida e ao desapego porque a simplicidade sempre nos bastou. Fomos em busca do novo, do diferente, de um mundo selvagem, nos embrenhamos na selva para escaparmos das mesmices de sempre e voltamos de lá extasiados pela descoberta, porque em matéria de AVENTURA, essa SERRA nunca decepciona .

       
                                                                             Divanei Goes de Paula - Fevereiro/2018
       
               
               
       
    • Por divanei
      Quinze anos atrás um acontecimento me fez começar a escrever sem eu nunca ter escrito nem uma carta se quer, foi o start para colocar no papel algumas aventuras que achava relevante, deixando alguma coisa escrita para ajudar outros caminhantes como eu, num tempo em que nem internet existia, não como agora. 
       
                "-Divanei, é melhor vocês não irem viajar, pois nosso primo de Rio Preto recebeu uma mensagem espiritual e a mensagem dizia que se vocês fizerem esta trilha, PELO MENOS UM VOLTARÁ EM UM CAIXÃO”. 

                Caminhar em trilhas pelas florestas e montanhas sempre foi minha grande paixão, escrever, minha grande decepção. Mas o que aconteceu conosco nesta caminhada, acho que merece ser colocado no papel. Invertendo o velho ditado, seria trágico se não fosse cômico.
       
                A trilha do Rio Branquinho é uma daquelas caminhadas pouco conhecida pelos paulistanos, apesar de partir do extremo sul da cidade, mais precisamente do distrito de Parelheiros, num lugar conhecido como Represa, ela atravessa toda a Serra do Mar findando em Itanhaém, já no litoral. Eu já havia tomado conhecimento a algum tempo da existência desta trilha e aguardava a oportunidade de fazê-la, para isso convidei um primo que mora na capital, pois seria mais fácil para ele descobrir os horários e itinerários dos ônibus, do que para mim, pobre habitante do interior de São Paulo. Marcamos a viagem para o primeiro final de semana de agosto(2003), pois eu não iria trabalhar e a previsão do tempo era favorável. Começava então uma série de acontecimentos e coincidências que parecia anunciar uma tragédia.
       
                Ao sair de casa para trabalhar, três dias antes da viagem, pela primeira vez depois de seis anos trabalhando como motociclista, levei a minha primeira queda ao atropelar um cachorro. Braços ralados, mãos esfoladas, joelhos inchados e outras escoriações pelo corpo. Viagem cancelada, que frustração!!!!

                Na semana seguinte não seria possível ir, tinha que trabalhar no sábado e ponto final. Escolhemos então como nova tentativa o terceiro final de semana do mês, mais precisamente o dia vinte e três de agosto, já que o calendário da empresa onde eu trabalhava não previa trabalho para o final de semana. 
                Na quinta-feira, 21 de agosto, minha mochila já estava pronta, a comida e tudo para a viagem já estava pronto. Quando cheguei à tarde na empresa me deram a péssima notícia: Por alguns problemas técnicos, eu iria ter que trabalhar no sábado. Bateu em mim um sentimento de derrota, mais uma vez iria ter que dar o cano no meu companheiro de caminhada? Passei toda a sexta-feira tentando achar uma solução rápida. Trabalheira na hora do almoço, consegui que um colega fizesse parte do meu trabalho no sábado. A outra parte eu faria na sexta-feira mesmo, depois do expediente. E assim foi. Terminado o expediente às 17 horas, peguei a minha moto e fui terminar o serviço que me restava. Foi quando de repente minha moto foi atingida por trás por um carro. Lá estava eu, mais uma vez beijando o asfalto e amaldiçoando a minha sorte. Seria a maldição da trilha? Seria algum aviso para eu esquecer desta caminhada? Levantei-me do chão, tirei a poeira da roupa, minhas mãos sangravam um pouco, as costas e as pernas estavam doloridas, mas eu não havia quebrado nada. Levantei e fui correndo para casa. Tomei um banho, eu ainda não estava derrotado, nunca escondi de ninguém o meu ceticismo por estas coisas, tudo não passava de mera coincidência do acaso, eu iria viajar, mesmo dolorido, eu iria assim mesmo.
                Coloquei a mochila nas costas e peguei o ônibus para São Paulo às 08 da noite, fui para casa do meu primo na Zona Leste, chegando lá descobri que um amigo dele, na verdade um rapaz casado com uma meia prima minha, iria conosco. O Marcão parece ser gente boa, nunca tinha caminhado em nenhuma trilha, seria a primeira dele. Ele é evangélico, só não me perguntem de que igreja, pois não saberei responder, possivelmente de uma destas dezenas que surgem a cada ano no Brasil. Todas as mochilas prontas, mapas, e outros equipamentos, resolvemos dormir na casa do meu primo e combinamos de sair as 04 horas da manhã, pois era primordial começar a trilha o mais cedo possível. Dormíamos na sala, eu, o Marcão e a esposa dele, quando mais ou menos as 03 e meia da manhã tocou o Telefone. Eram os nossos parentes que haviam chegado de Rio Preto e estavam no portão e como a casa era de fundos e nós não estávamos escutando eles baterem, resolverão ligar para que nós fôssemos abrir o portão.
                Como quem atendeu ao telefone foi o Marcão, coube a ele a missão ingrata de levantar da cama quente e fazer entrar os parentes. Estes parentes são gente boa, primos, tios, todos da mesma igreja do Marcão. Eles passam os finas de semana viajando com uma Vam cheia de evangélicos, pregando e tinham vindo à São Paulo justamente para isto. O que o Marcão conversou la fora com eles, eu não sei dizer, só sei que o Marcão foi até a sala aonde estávamos dormindo e disse que não iria mais viajar, pois teria que participar de uma vigíliacom os nossos parentes evangélicos e que se ele não fosse à vigília e fosse viajar, para ele seria a morte. Como eu estava meio sonolento não liguei muito para o assunto, já havia me acostumado durante vários anos de caminhadas a levar bolos de última hora. Com toda esta confusão acabamos perdendo a hora e acordamos depois das 06 da manhã. Tudo bem, mais um infeliz azar. Agora éramos só nós dois, eu e meu companheiro de viagem, o meu primo Lindolfo . Mochila nas costas ,partimos para o ponto de ônibus, meu primo à frente e eu logo atrás. Mas antes que eu cruzasse o portão, fui surpreendido por uma janela que se abriu subitamente na minha cara. Era outra prima minha que morava na casa da frente. Cumprimentei-a, pois não a vi quando cheguei à noite. O cumprimento foi retribuído. Foi quando ela sem me deixar falar mais nada, me deu o seguinte aviso:-“Divanei, é melhor vocês não irem viajar, pois nosso primo de Rio Preto recebeu uma mensagem espiritual . A mensagem dizia que se vocês fizerem esta trilha, pelo menos um voltará em um caixão".
       
                Há, vai se foder, diante de tanta coincidência não havia ceticismo que não se abalasse. Mesmo assim fingindo estar todo seguro de mim, balancei os ombros e sai. Decidi que não contaria nada para o meu primo, se contasse sei que ele não sairia de casa.
                Confesso que fiquei muito preocupado, já pensou se acontecesse alguma coisa com o meu primo, iriam me culpar para o resto da vida, mas eu tinha que pagar para ver. Pegamos as peruas, metrôs e ônibus,  atravessamos da zona leste até o fim da zona sul em mais de três horas de viajem. Chegamos ao vilarejo da Represa, possivelmente pertence ao distrito de Parelheiros, que aliás, é conhecidíssimo por ser uma região muito violenta . Descemos do ônibus que estava muito lotado e fomos tomar um café antes de começarmos a caminhar.
       
              Tínhamos que andar uns 15 km pela linha de trem que desce para o litoral e enquanto caminhávamos, eu ia pensando em tudo que tinha acontecido até o momento, nos dois acidentes de moto, na convocação para trabalhar no sábado, na chegada dos parentes 30 minutos antes da viagem, na desistência de última hora do Marcão, sem falar naquela previsão mórbida que teimava em não abandonar os meus pensamentos. Comecei então a me sentir responsável pela vida do meu companheiro de trilha. Começamos a cruzar com alguns elementos estranhos e eu imaginava que poderíamos ser assaltados a qualquer momento, pelo menos enquanto não nos afastássemos da civilização. Mais ou menos uma hora depois de começarmos a caminhar, passou por nós uma caminhonete, já que paralelo a este pedaço da linha do trem havia uma rústica estrada. A caminhonete passou uns 100 metros e voltou. Foi quando um dos ocupantes disse : “Aí, vocês tem dinheiro aí mano”. Na hora gelei, mas felizmente, era só uma brincadeira. Eles só queriam uma informação, que foi dada por nós sem nenhum problema.
       
                Abandonamos de vez a civilização e chegamos ao nosso primeiro objetivo , a Estação Evangelista de Souza. Melhor dizendo, antiga estação, pois está abandonada desde que os trens pararam de carregar passageiros e passaram a transportar apenas cargas. Nós só não contávamos com um pequeno problema: Haviam instalado ali um pequeno posto da polícia metropolitana e assim fomos informados que não poderíamos passar sem autorização da prefeitura. Caramba!! Nada estava dando certo, agora mais esta ,parecia haver uma conspiração para nos impedir de realizar a trilha. Depois de muita conversa o guarda nos disse que faria vistas grossas e nos deixaria passar, não antes sem dar um aviso: “Vocês vão com cuidado, pois é muito grande o número de pessoas que morrem atropeladas nesta ferrovia”. Mais morte atravessando o nosso caminho, parecia que morrer seria apenas questão de tempo.

               (Estação Evangelista de Souza-2003)
                Mesmo assim seguimos nosso caminho, olhando as belas e surpreendentes paisagens ao nosso redor. Florestas e montanhas a perder de vista, rios de águas cristalinas, pássaros, muito ar puro e também, é claro, o patrimônio histórico da ferrovia, com suas estações, túneis e pontes. Por falar em túneis e pontes, estes dois me fizeram tomar cuidados especiais. A todo o momento eu pedia para o meu primo não andar na beira das pontes, que estavam muito deterioradas e escondiam debaixo de si, dezenas de metros de altura. E os túneis sempre escuros e em curvas, podiam nos fazer bater de frente com um trem.
       
               (2003)
                Estávamos na metade da caminhada que teríamos que fazer na linha férrea, quando passou por nós um trem com umas vinte pessoas em cima. Eram alguns mochileiros que estavam descendo para o litoral de carona, clandestina é claro. Meu primo sugeriu pegar uma carona até o nosso destino, já que a velocidade ali na serra era muito baixa. Pensei bem: Andar de pingente de trem depois de tudo o que estava acontecendo, não seria uma boa. Meu primo não entendia o que estava acontecendo comigo, onde estava o meu espírito de aventura. O coitado ainda não sabia o que realmente estava acontecendo.
       
               (2003)
                Cruzamos com um índio, que morava numa tribo próxima dali e pedimos informação sobre a tal trilha que iria até o mar. Ele nos disse que nós poderíamos pegar um atalho, e assim não precisaríamos andar muito sobre o trilho, entrando logo na mata. Agradecemos a dica e seguimos. Alguns minutos depois encontramos um rapaz que já tinha feito a trilha e nos confirmou a dica do índio. Mas disse que seria quase impossível terminarmos a trilha, pois não tínhamos cordas para atravessar alguns abismos no final da trilha( eu nuncsa soube que abismos eram esses). Fiquei preocupado, mas decidi seguir caminhando assim mesmo, deveria haver algum desvio que pudéssemos pegar para terminar a trilha. Ele ainda avisou para tomar cuidado no início da trilha com uma grande cachoeira, que deveria ser transposta sem trilha.
       
                Enfim abandonamos a ferrovia e caímos na mata. No início a trilha  um pouco íngreme e escorregadia logo nos levou a uma pequena cachoeira, com um poço de águas verdes e profundas. Imediatamente tirei a minha roupa, me apoiei sobre uma grande rocha e .........voltei a vestir a roupa de novo , pois a água estava muito fria e eu não queria virar picolé. Minha atitude foi seguida pelo meu primo. Comemos alguma coisa e retomamos a viagem. Nosso próximo objetivo era chegar até o Rio Branquinho e percorrê-lo até o seu encontro com o Rio Capivarí. Andamos uns dez minutos pelo rio até que encontramos a tal cachoeira. Na verdade uma gigantesca queda d' água descendo por fendas na rocha. Começamos a descer os abismos pela mata, na esperança de encontrar a tal trilha no pé da cachoeira. Levamos quase uma hora para vencer o desnível de mais de cem metros. A dificuldade do terreno voltou a me preocupar. Cada vez que meu primo por algum motivo escorregava a beira do precipício, aquele pensamento macabro voltava à minha cabeça.
       
                Minha preocupação começou a se transformar em pânico quando percebi que no pé da tal cachoeira não havia sinal algum de trilha. Procurei dos dois lados do rio, mas nada encontrei. E para piorar a situação, surgiu no pé da cachoeira outro abismo igual ou maior que aquele que acabávamos de atravessar. Foi aí que tomei conta da gravidade e da enrascada em que tínhamos nos metido. Não contei nada para o meu primo, não queria deixá-lo em desespero. Era como se naquela hora o passeio tivesse acabado para mim, e agora o meu principal objetivo era me manter vivo, e principalmente manter vivo o meu primo. Claro que se fosse em outra circunstância eu estaria vibrando com a possibilidade de uma aventura a mais na viagem, mas como não pensar na tal profecia depois de tudo que vinha acontecendo de errado, era como se a tragédia anunciada fosse acontecer a qualquer momento. Tinha chegado a hora de eu por em prática toda a minha experiência adquirida em vários anos de caminhadas por todo tipo de terreno. Tinha que redobrar atenção, usar meu faro de trilheiro, mas será que tudo isso resolveria, já que a minha maior luta seria contra supostas forças do alem? Literalmente não dava para voltar atrás, nem na trilha e nem no destino. Aliás, o nosso destino teria que ser sempre em frente, ou melhor, sempre para baixo. Abismos, despenhadeiros, gargantas profundas, cipós que agarravam na mochila, espinhos que castigavam as mãos, as dificuldades iam se seguindo. Quando a tensão diminuía um pouco, podíamos prestar atenção nos maravilhosos poços que se formavam no pé das cachoeiras. Houve um momento em que eu e meu primo estávamos tentando vencer mais uma queda, quando nos vimos presos à um paredão. Pendurados, não conseguíamos ir para lugar algum. Abaixo de nossos pés uns quinze ou vinte metros de altura e, para piorar, um poço profundo, não que para mim isso fosse algum problema pois sei nadar razoavelmente bem, mas meu primo só sabe nadar o famoso estilo machado sem cabo. E para piorar ainda, ele acabará de perder seu colete salva vidas. Seria apenas mais uma coincidência, o certo é que conseguimos nos livrar de mais aquele sufoco.
       
                Já era quase seis horas da tarde, o sol já começava a desaparecer no horizonte, ainda estávamos presos ali naquela garganta, sem nenhum lugar para dormir. Se ficássemos sentados ali no leito do rio esperando a noite passar, corríamos o risco de sermos arrastados por alguma cabeça d' água, que poderia possivelmente inundar todo o rio. Foi quando quase praticamente já sem luz, depois de descer mais um paredão, para minha surpresa dei de cara com um antigo acampamento de palmiteiros ou caçadores. Tratava-se de uma pequena barraca quase todo destruída pelo tempo, parecia ter sido abandonada há anos , mas para mim parecia o mais lindo e confortável hotel. Comemoramos muito aquele achado. Depois de um dia de decepção, poderíamos descansar confortavelmente. Se realmente íamos morrer no dia seguinte, pelo menos morreríamos de barriga cheia e com o sono em dia.

       
               (Encontro Branquinho com o Capivarí-2003)
                Acordamos poucos minutos depois das cinco da manhã, nenhuma cobra, onça ou qualquer outro animal selvagem tinha aparecido, tínhamos um longo dia pela frente. Teríamos que caminhar bravamente para tentar alcançar o litoral até o anoitecer. Fiquei pensando como ficariam preocupados as nossas famílias se não chegássemos em casa na hora marcada. Ainda mais sabendo da previsão macabra. Parecia que nossa sorte tinha começado a mudar. Depois de uma vasculhada pela área, encontrei uma trilha. Só podia ser a tal trilha, era batida, um pouco confusa, mas larga. Corria paralela ao Rio Branquinho, e olhando o mapa que tínhamos em mãos, não tínhamos mais dúvida, era a trilha que procurávamos. Estávamos no plano, o rio era cristalino, gelado e maravilhoso. O prazer voltara a fazer parte da nossa caminhada. Pássaros, árvores enormes, todos os cheiros e cores que só a mata Atlântica pode proporcionar. Depois de três horas de caminhada finalmente encontramos o famoso Rio Capivarí. Paramos, fizemos um lanche, estávamos estasiados com tanta beleza. A preservação do local é incrível. São florestas e montanhas a perder de vista. Pequenos rios que deságuam no Rio Branco, que passa a ganhar esse nome depois do encontro com o Capivarí, são dezenas.  Por enquanto toda tensão havia passado, caminhávamos eufóricos, a trilha era fácil , plana e larga. Batíamos papo e observávamos tudo ao nosso redor. Resolvi então apertar o passo, deixando meu primo um pouquinho para trás. Foi quando de repente ouvi um grande barulho de alguém caindo no chão. Olhei para trás e o que eu vi me deixou paralisado, mal consegui mover as pernas, senti arrepios em todo o corpo. Vi meu primo caído no chão com as mãos na garganta sem poder respirar.

                Ele levantava e caia de novo. Apontava a mão para a cabeça e para a coluna, balançava os braços pedindo socorro. Sim, meu amigo estava morrendo na minha frente e, aparentemente sem que eu pudesse fazer nada. Mesmo conhecendo técnicas básicas de primeiros socorros, na minha cabeça só um pensamento: A maldita profecia havia se cumprido. Eu estava pasmo, perplexo. Havíamos passado por tantos perigos, e a morte nos apanhara em um lugar onde nem uma criança seria capaz de se acidentar.
       
                Meu primo Lindolfo é grandão, um pouco acima do peso. Quem o vê pela primeira vez, com seu chapéu com uma pena de urubu, pensa estar frente a frente com um Rambo das florestas Brasileiras, mas não é bem assim, como ele mesmo diz, ele é meio estabanado, costuma cair com certa freqüência ,mas é impressionante o progresso que teve em pouco tempo em matéria de caminhadas. Hoje ele já consegue terminar trilhas que antes ele nem sonhava em realizar. Falastrão, é uma excelente companhia para caminhar, me agrada e da prazer caminhar a seu lado.
                De  repente vi o meu pesadelo ruir em alguns segundos, meu primo voltara pouco a pouco a respirar. Foi se acalmando, sua cor voltara ao normal. Ele sobrevivera a mais esta. Até hoje não sei o que aconteceu. Possivelmente ao cair no chão depois de tropeçar em um cipó, bateu com o peito e a garganta em um toco, fechando-lhe as vias respiratórias, que aos poucos foi voltando ao normal.
       
                Depois de um breve descanso, seguimos firmes e a passos largos, vário riachos foram cruzados e começaram a surgir de repente alguns pés de bananas, um claro sinal de civilização. Mas como? Civilização no meio da floresta? . Mais meia hora de caminhada e nossa pergunta foram logo respondidas. Uma tribo indígena! Sim indígena, uma tribo Guarani, uma visão de encher a alma. Depois de tanto tempo quase nos arrastando pela mata, fomos dar de cara logo com um povo que sonhara em conhecer. Mesmo estando a menos de 100 km da maior cidade do país, esta tribo conhecida como tribo do Rio Branco, mal fala português, as crianças só tupi-guarani. Nosso primeiro contato foi com as crianças, claro que não entendemos uma palavra do que elas falaram. Logo avistei uma índia semi-nua, que tratou logo de vestir uma camiseta. Pedimos para nos aproximar e fomos autorizados. Cumprimentamos o índio e a índia, que nos responderão com um português de difícil compreensão. Perguntamos o tempo que gastaríamos para chegar ao litoral e ele disse que em quatro ou cinco horas de trilha chegaríamos a um local onde seria possível pegar um ônibus. Ficamos felizes, conseguiríamos com certeza terminar a nossa viagem na data prevista. A pedido do índio distribuímos alguns doces para as crianças, nos despedimos e seguimos em frente .
       
              ( 2003)
                A trilha continuava plana e de fácil navegação. O Rio Branco continuava a nos acompanhar e fazia jus a seu nome, limpo , translúcido e calmo. Encontramos pela frente um índio que vivia isolado da tribo. Parecia ter uns 50 anos de idade( seria o seu Vera Tupâ, que eu só conheceria 12 anos mais tarde ?). Segundo ele, estava morando ali a uns vinte anos. Disse ter vindo de uma tribo guarani do Estado de Santa Catarina. Foi por ele também que descobrimos e ficamos sabendo que aquela tribo, conhecida como Rio Branco, está ali a menos de trinta anos. Provavelmente habitavam o litoral e com a explosão urbana, foram obrigados a se mudar para as montanhas. Atravessamos o Rio Branco e continuamos a caminhada, agora pela sua margem esquerda. Depois de algum tempo de caminhada, agora por uma estradinha de terra, paralela ao rio, chegamos ao que parecia ser a área principal da tribo. La havia uma pequena escola e um posto de saúde e a iluminação elétrica também havia chegado, o que não diminuía em nada a fantástica sensação de estarmos diante de um povo de hábitos tão primitivos, surpresas que só um país como o Brasil pode nos proporcionar, um Brasil pouco conhecido pela maioria dos brasileiros. Tiramos algumas fotos e continuamos pela estradinha.


       
       

       
                Eu estava eufórico, fui acometido der repente por uma felicidade que não sentira há muito tempo. Sentia-me leve, parecia estar flutuando, era como se eu tivesse atingido o nirvana. Começara a perceber que toda aquela profecia não passava de pura cretinice. Ao invés de morrermos, havíamos ganhado mais vida. Tínhamos passado algumas dificuldades,admito, mas estávamos ali de pé, firmes para contar a história. Sobrevivemos a tal maldição, íamos ver o sol nascer mais veze, desta vez fortalecidos e confiantes em nós mesmos. Contei toda a história paro o meu primo enquanto caminhávamos pela estradinha de terra e depois fizemos muitas piadas com o que tinha acontecido, rimos muito. Foi ai que ele começou a entender porque eu havia durante toda a caminhada, o tratado como se ele fosse uma criança.
       
                Conseguimos uma carona com um baiano que morou na Chapada Diamantina e hoje vivia em São Bernardo. Descemos em um bairro do litoral, aonde pegamos um ônibus que nos deixou na rodoviária de Itanhaém. Pedi que meu primo ligasse para casa dele, pois provavelmente sua esposa poderia estar preocupada por causa da tal profecia. Ficamos sabendo que a profecia teria sido recebida, na verdade, por uma tia nossa, e que a profecia dizia que se fôssemos, seríamos picados por uma serpente negra e que a visão se limitava apenas ao Marcão e sua esposa e no caso, serpente negra na crença deles não tinha nada a ver com cobra e significaria somente a morte. Juro que a minha vontade era de mandar enfiar profecia e serpente negra na bunda, mas por respeito deixei pra la. Pegamos uma Vam até o terminal do metrô Jabaquara. Despedimo-nos na Estação da Sé com uma sensação de vitória, de alma lavada, com alegria e satisfação, que só pode ser sentida apenas por quem se dispuser a abandonar a civilização e se lançar rumo ao desconhecido. 

                                                     
          Como se chama esse gato, é seu animal de estimação? -"Chama gato mesmo, nois cria pra comer no Natal" ( Vera Tupâ, lider da tribo)
                                                                           Divanei Goes de Paula / agosto de 2003
       
               NOTA IMPORTANTE:
                Pois é caros amigos, se você teve paciencia para ler esse tosco relato até o fim e não está entendendo nada, preciso lhe dizer que estamos falando de um tempo sem internet, sem celular, sem redes sociais , sem mapas de satélites, sem GPS, sem comunicação quase nenhuma, tanto que nem sabíamos da existencia da tal tribo do Rio Branco. Hoje a tal travessia do Rio Branquinho é uma travessia clássica, quase uma carne de vaca, mas ainda continua linda como sempre foi. Para ilustrar melhor esse relato, eu intercalei fotos originais da época com fotos recentes e essa narrativa por incrível que pareça, acaba por se tornar um documento histórico de um passado não muito distante.
                                                     Divanei Goes de Paula- março/2018
       


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