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Etiópia: mulher viajando sozinha - De Addis a Harar - out-nov/2019


Viagens da Leticia

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Quando resolvi viajar pra Etiópia não parei de ser chamada de maluca e de ser desencorajada pela maioria das pessoas com quem conversava. Infelizmente a maioria dos brasileiros tem em mente aquela imagem de Etiópia enlatada pela mídia, de seca e fome, que foi sim gravíssimo problema no país há alguns anos. Etiópia é um dos países que mais cresce no mundo, de exuberante natureza, cultura riquíssima e significativa importância histórica. Não encontrei muitas informações sobre viagem pra lá em português, e menos ainda sobre mulheres viajando sozinhas pelo país. Apenas fui. Foi uma experiência incrível, bastante difícil em alguns aspectos, mas um imenso aprendizado de viagem. O quanto é gratificante conhecer um lugar diferente assim e este ter sido o meu primeiro contato com a África, é difícil de explicar. Saí do Brasil com quase nada planejado, a viagem foi acontecendo conforme me desloquei mesmo. Foram 22 dias de aventuras. E deu tudo certo.

 

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VISÃO GERAL
Antes de mais nada, acho válido esclarecer que adorei minha experiência na Etiópia, apesar das dificuldades. Se eu recomendo esse destino? Sim, fortemente. Mas não para qualquer viajante. A Etiópia é um destino para pessoas interessadas em cultura, história e natureza, mas que consigam abrir mão de alguns confortos e estejam dispostas a encarar algumas situações de extrema simplicidade.
Muitas das situações que foram difíceis eu julgo que é porque sou mulher, viajei sozinha e a sociedade de lá não está nada acostumada a ver isso.
Pra mim a característica mais forte na Etiópia é a religiosidade. A maioria é cristã ortodoxa, e são extremamente devotos. Insuportavelmente devotos, na minha opinião. As mulheres usam vestidos longos e pouco decotados, um véu jogado sobre os cabelos, geralmente branco, com algum detalhe colorido. Os homens também usam uma espécie de manto jogado sobre os ombros. Para entrar nas igrejas é obrigatório tirar os sapatos (são neuróticos com isso), e em algumas necessário usar véu para cobrir a cabeça. 
Os etíopes em geral são muito simpáticos, curiosos pelos turistas. Mas o comportamento social em relação às mulheres é bem diferente do que conhecemos por aqui. Na capital, apesar da grande diversidade religiosa, as mulheres usam roupas como as nossas também. Algumas até usam saias curtas e é possível ver muitas mulheres trabalhando e frequentando os lugares. Porém nos outros lugares, nas cidades menores, bem diferente. Cafés, restaurantes, bares, nunca havia mulher alguma frequentando. Só se fosse turista. As garçonetes às vezes sim, eram mulheres, mas frequentadoras, não vi quase em nenhum lugar. Muitas vezes eu perguntei onde estavam as mulheres na Etiópia, e os homens, que sempre vinham falar comigo, geralmente não tinham respostas.
Minha maior dificuldade foi lidar com o assédio. Tinha a impressão de que todos os homens na rua vinham falar comigo. Alguns ofereciam serviço de guia, ou simplesmente vinham perturbar. "Hello! How are you? Where are you from? What's your name?" Eu ouvia milhares de vezes, o dia todo, todos os dias da viagem. 
É comum esses candidatos a guia ficarem conversando com você, mesmo enquanto você anda, e não pára pra falar com eles. As vezes eu tinha a impressão de que se andasse 3 Km a pessoa ficaria me importunando por 3 Km. 
Em algumas situações também as pessoas (homens) pareciam me ajudar mas não por serem solícitas, mas por acharem que eu não capaz de resolver sozinha (por ser mulher, do meu ponto de vista).
Além disso, um imenso espanto por eu estar viajando sozinha. Espanto maior ainda por eu não ser casada e não ter filhos. Cheguei até a ouvir que "eu estava atrasada" e se "é normal no meu país uma mulher da minha idade não ser casada e não ter filhos". As mulheres etíopes se casam muito jovens e tem milhares de filhos. Com seis filhos pra cuidar, e sem máquina de lavar roupa, realmente é muito difícil fazer algo além de cuidar de crianças e da casa.
É usual comer com a mão, a comida aliás é muito boa. A cerveja também é muito boa. Em geral as temperaturas são amenas, por causa da altitude. Dificilmente é possível pagar com cartão de crédito. Os transportes em geral são lentos, não há iluminação pública. Mesmo na capital, poucas são as ruas com postes de luz.   
Sempre viajo pra ficar em hostels, por serem opções mais baratas, mas parece que na Etiópia não tem o lance de compartilhar dormitório com gente que não se conhece e muito menos compartilhar dormitório entre homens e mulheres. Os banhos sempre tem um "boiler" que deve ser ligado um pouco antes pra esquentar a água. Demorei um pouco pra entender o esquema, mas todos os lugares tinham o mesmo tipo de equipamento. 
Existe uma ampla rede de telefonia na Etiópia. Mesmo lá no meio das montanhas, tinha sinal de celular e até de internet, mas não espere velocidade de conexão de internet. É possível enviar mensagens de texto numa boa, porém imagens e áudio exigem muita, muita paciência. Mesmo nos lugares que tem wi-fi. Dá pra se virar no Google maps e Whatsapp, mas nada muito além disso. Faz a gente relembrar como era a internet discada aqui no Brasil, no começo dos anos dois mil. Os etíopes estão sempre no telefone (ligações).
Pra comprar um SIM CARD é preciso cadastrar os dados pessoais e apresentar o passaporte.
 
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  • 1 ano depois...
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Em 10/01/2020 em 17:08, Viagens da Leticia disse:
VISÃO GERAL
Antes de mais nada, acho válido esclarecer que adorei minha experiência na Etiópia, apesar das dificuldades. Se eu recomendo esse destino? Sim, fortemente. Mas não para qualquer viajante. A Etiópia é um destino para pessoas interessadas em cultura, história e natureza, mas que consigam abrir mão de alguns confortos e estejam dispostas a encarar algumas situações de extrema simplicidade.
Pra mim a característica mais forte na Etiópia é a religiosidade. A maioria é cristã ortodoxa, e são extremamente devotos. Insuportavelmente devotos, na minha opinião. As mulheres usam vestidos longos e pouco decotados, um véu jogado sobre os cabelos, geralmente branco, com algum detalhe colorido. Os homens também usam uma espécie de manto jogado sobre os ombros. Para entrar nas igrejas é obrigatório tirar os sapatos (são neuróticos com isso), e em algumas necessário usar véu para cobrir a cabeça. 
Os etíopes em geral são muito simpáticos, curiosos pelos turistas. Mas o comportamento social em relação às mulheres é bem diferente do que conhecemos por aqui. Na capital, apesar da grande diversidade religiosa, as mulheres usam roupas como as nossas também. Algumas até usam saias curtas e é possível ver muitas mulheres trabalhando e frequentando os lugares. Porém nos outros lugares, nas cidades menores, bem diferente. Cafés, restaurantes, bares, nunca havia mulher alguma frequentando. Só se fosse turista. As garçonetes às vezes sim, eram mulheres, mas frequentadoras, não vi quase em nenhum lugar. Muitas vezes eu perguntei onde estavam as mulheres na Etiópia, e os homens, que sempre vinham falar comigo, geralmente não tinham respostas.
Minha maior dificuldade com lidar com o assédio. Tinha a impressão de que todos os homens na rua vinham falar comigo. Alguns ofereciam serviço de guia, ou simplesmente vinham perturbar. "Hello! How are you? Where are you from? What's your name?" Eu ouvia milhares de vezes, o dia todo, todos os dias da viagem. 
É comum esses candidatos à guia ficarem conversando com você, mesmo enquanto você anda, e não pára pra falar com eles. As vezes eu tinha a impressão de que se andasse 3 Km a pessoa ficaria me importunando por 3 Km. 
Em algumas situações também as pessoas (homens) pareciam me ajudar mas não por serem solícitas, mas por acharem que eu não capaz de resolver sozinha (por ser mulher, do meu ponto de vista).
Além disso, um imenso espanto por eu estar viajando sozinha. Espanto maior ainda por eu não ser casada e não ter filhos. Cheguei até a ouvir que "eu estava atrasada" e se "é normal no meu país uma mulher da minha idade não ser casada e não ter filhos". As mulheres etíopes se casam muito jovens e tem milhares de filhos. Com seis filhos pra cuidar, e sem máquina de lavar roupa, realmente é muito difícil fazer algo além de cuidar de crianças e da casa.
É usual comer com a mão, a comida aliás é muito boa. A cerveja também é muito boa. Em geral as temperaturas são amenas, por causa da altitude. Dificilmente é possível pagar com cartão de crédito. Os transportes em geral são lentos, não há iluminação pública. Mesmo na capital, poucas são as ruas com postes de luz.   

Tem continuação?

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COMENTÁRIOS ALEATÓRIOS
 
Minha experiência pela África foi passar por Johanesburgo, África do Sul, alguns lugares na Etiópia, Serengueti e Zanzibar na Tanzânia. E o que mais se repete nos meus relatos são as  palavras: não foi fácil.
Muitas das situações que foram difíceis eu julgo que é porque sou mulher, viajei sozinha e a sociedade de lá não está nada acostumada a ver isso.
Foram perrengues diários e necessidade de brigar quase diariamente também. Porque infelizmente uma mulher viajando sozinha é muito desrespeitada por lá, e a infraestrutura em geral é precária, quando não, é extremamente cara.
 
Eu sou alérgica a percevejos. Descobri isso numa viagem pra San Andres, quando fui parar no hospital. Me arrepio só de lembrar. Mas a Etiópia me fez relembrar disso e muito. Na segunda noite em Addis eu achei 3 pontos coçando na barriga, e depois alguns nos pés. Desde então parei de usar os lençóis dos hoteis e comecei a dormir só dentro do meu saco de dormir. Lembro de ver, em dois lugares, onde os lençóis eram bem branquinhos, os infelizes bichos andando felizes na cama. Mas mesmo passando repelente, dormindo de meias e dentro do saco, os malditinhos me achavam. Não houve cama que eu acordasse sem novas picadas.
 
Banheiros. Esse é um tópico IMPORTANTÍSSIMO em se tratando de Etiópia. Nem preciso dizer tenha sempre na bolsa papel, lenços, álcool gel. Além disso, acredite: na Etiópia, o mato geralmente é a melhor opção. Aquela bacia turca, que é só uma louça no piso, com lugar pra apoiar os pés, é usual, mas não é muito comum. Tem também a opção "latrina" apenas. Um buraco no chão e só. Segura a respiração, força nas pernas, equilibra e vai. 
 
Os passeios na Etiópia não são baratos. Não mesmo, considerando que o preço é sempre em dólar. E além disso, todo e qualquer envolvido vem te pedir uma gorjeta no final. Eu aprendi a dizer não, e se necessário, explicar que a moeda do meu país não vale nada. Meu salário não é em euros!!!
 
É muito comum os táxis serem tuk-tuk. Tem sempre que negociar o preço. Nunca feche com o primeiro valor que te derem. Várias vezes eu tive que expulsar homens que tentaram entrar comigo no tuk-tuk, acredito eu mais uma vez, por eles acreditarem que, por eu ser mulher, seria incapaz de ir aos lugares e resolver as coisas sozinha. Em geral achei tudo bem seguro e os etíopes não colocam um dedo na gente sem a nossa autorização. 

veja fotos no meu instagram: @viagensdaleticia e/ou na minha página 

do facebook: @viagensdaleticia

 

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ADDIS ABEBA (ou Ababa)

3 noites
hospedagem: Mr. Martin's Cozy Place (MM Cozy Place Hostel)
 
Um amigo me deu várias dicas sobre Addis e outros lugares. Então em Addis fiquei na hospedagem que ele tinha recomendado, perto da área mais turística (Bole) mas também com acesso ao restante da cidade. Quando fiz a reserva da hospedagem, fui orientada para  no aeroporto pegar um táxi amarelo. Em Addis há táxis amarelos (que são carros melhores, mais novos e muito mais caros, aparentemente destinados aos turistas) e azuis (alguns pareciam ilegais, mas eram muito mais baratos do que os amarelos). Como cheguei num voo noturno, procurei um táxi amarelo. Mas não é necessário procurar nada. O mundo inteiro vinha me oferecer táxi na saída do aeroporto. Não foi fácil negociar o valor e acabei pagando bem caro. Tinha trocado um pouco de dinheiro no aeroporto, foi algo meio mercado negro, mas depois eu vi que me pagaram um valor muito melhor do que na cidade. Depois acabei trocando no hotelzinho onde estava hospedada mesmo.
Quando cheguei ao hotel, que não foi muito fácil de achar e nem de fazer com que abrissem o portão pra mim, pois não tinha campainha, o que mais me causou estranhamento foi a escuridão. Não tinha luz nas ruas. A moça do hotel me explicou onde tinha lugares pra comer, e o vigia do lugar me acompanhou pra mostrar onde era. Tinha vários restaurantes bem perto e acabei comendo uma pizza e uma cerveja.
No dia seguinte, depois do café da manhã (banana, ovos, pão, geléia e café ou chá), pedi algumas informações pra atendente do hotel, sobre como chegar aos lugares e como se locomover, ela me mostrou algumas coisas no mapa, explicou mais ou menos como pegar um transporte, mas acabei optando por andar a pé.
Eu tinha baixado um mapa da Etiópia e marcado alguns pontos pra visitar. A maioria dos lugares o google maps ainda não é muito atualizado. E só mais tarde comprei um chip pro celular. 
 
Optei por explorar muitas coisas a pé, e nessas longas caminhadas, fui vendo um pouco da dinâmica da cidade e das pessoas. Uma imensa diversidade religiosa era facilmente identificada, e me chamou atenção que mesmo com diferenças, viviam todos juntos, bem próximos. 
Andei por umas avenidas grandes e logo acabei achando um dos cafés que meu amigo tinha recomendado, parei pra comer algo e usar a internet, depois segui pro Museu Nacional -  National Museum of Ethiopia -, de táxi, pra conhecer a Lucy. O taxista me alertou pra ter cuidado e naõ dar atenção a quem viesse me abordar. Desde a saída do táxi diversos caras vieram me abordar. Mas dentro do museu era tranquilo. O museu é bastante simples. Tem coisas incríveis, mas como tudo na Etiópia, não tem infra estrutura adequada, não existe um espaço expositivo à altura da grandiosidade de tudo que tem lá dentro. Saindo de lá segui pra universidade, onde está o Ethnological Museum. Era perto, uns 15 minutos de caminhada, mas esse trajeto foi bastante dificultoso, pq um cara começou a falar comigo e mesmo eu dizendo que não queria os serviços dele, ele foi andando comigo por muito tempo. E eu fiz de tudo pra me livrar daquela companhia. Dentro do Campus era mais tranquilo e o gostei bastante do museu. Na saída de lá, outro cara me abordou e esse foi bem ruim. Como eu disse que não queria nada e só queria que me deixasse em paz, o cara foi super rude e começou com aquele discurso de "vocês ricos que tem tudo fácil e ganham muito dinheiro nos seus países cheios de facilidades" (como seu fosse turista da Dinamarca e tivesse um alto salário em euros).  Eu fiquei desesperada e acabei me metendo no meio de uma multidão de crianças saindo da escola, sem saber pra que lado seguir. Tentei pedir informação em alguns lugares, e comprar água, mas na rua onde eu estava ninguém falava inglês. Só sei que andei muito depois disso, até que parei numa doceria bem legal, numa área mais central e comi o que comeria em muitas docerias por todos os lugares onde passei: um "black forest cake". Saí em busca do TOMOKA CAFÉ, embora eu não tome café, precisava conhecer o tão famoso.  Passei pela Piazza, não sei como achei o TOMOKA, fiquei lá pelos arredores fazendo hora até chegar o fim de tarde, quando subi no terraço de um  hotel bem alto pra tomar uma cerveja. Aproveitei pra usar o wi-fi, pq lá funcionava super bem.
De lá segui pro HABESHA CULTURAL, depois de uma grande discussão pra pagar um preço razoável no táxi (foi só o primeiro dos barracos que eu tinha que armar todos os dias por motivos dessa natureza). O HABESHA CULTURAL OU 2000 é um restaurante turistão, com comida típica e dança, mas eu gostei de ter ido. Todo mundo ficava me olhando porque eu estava sozinha e fizeram eu deixar minha garrafa de água na entrada (tem revista na bolsa), mas peguei na saída. Lá era bem perto da minha hospedagem, e eu saí doida, caminhando no escuro das ruelas de miolo de quadra, só com a lanterna do celular, pensando "qualquer coisa eu faço um escândalo", mas foi super tranquilo. Menos de 10 minutos eu estava 'em casa'. 
No dia seguinte eu fui desde o hostel pro MERKATO (o maior mercado da África), combinei com o táxi um preço pra ele me esperar lá e ele tb arrumou um guia pra mim (eu sou anti-guia, mas não tem como andar sozinha nesse lugar, precisa de guia mesmo). Acho que fiquei umas 2 horas lá, mas só tirei fotos com o celular. Não tive coragem de sacar a câmera grande da mochila. Era muita gente e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Na sequência fui pra San George Cathedral, um dos pontos mais famosos da cidade. Almocei num lugar bem legal, o TAITU HOTEL AND RESTAURANT e depois segui andando, acabei achando uma loja de celular e comprei um chip (minha vida ficou mais fácil desde então), e visitei outros pontos de interesse na cidade também.
E queria ir num bar de jazz pra ouvir o maravilhoso Ethio Jazz ao vivo, mas os lugares que eu tinha referência diziam estar fechados, segundo o que disse a atendente do hostel. Só teria atrações na quinta, e era terça. Só saí pra comer nos arredores do hostel e foi tranquilo. Decidi que minha próxima parada seria Bahar Dar, mas o ônibus pra lá saía na madrugada e precisava comprar passagem com antecedência, então eu ficaria mais um dia em Addis.
Na manhã seguinte, me informei no hostel onde comprar passagem e foi assim que começou meu dia. Segui pra Meskel Square, uma praça enorme, parei pra comer num café e me informei onde encontrava os guichês de passagem. Depois de ver o preço e as opções de ônibus nuns quatro lugares e me livrar de perturbadores me seguindo em todos eles, comprei a passagem e segui pro ADDIS MUSEUM, que ficava no topo da MESKEL SQUARE. Chegando lá, não tinha energia elétrica (outra coisa que acontece toda hora na Etiópia: acaba a luz, sem previsão de volta). Esperei uma meia hora mas acabei visitando o museu no escuro, só com a lanterna do celular, minha e do guia do museu. Mas mesmo assim, a visita foi bem legal e aprendi um monte de coisas sobre a história de Addis e do país. 
Nesse dia eu voltei andando sob a projeção do VLT, andei muito, e de repente dei de cara com cabras atravessando a rua. Em Addis, por entre milhares de edifícios altos, de repente uma  multidão de cabras fecha o semáforo. 
Tentei comprar algumas guloseimas pra comer na viagem de ônibus no dia seguinte, mas não tive muito sucesso. E na volta do supermercado ainda tive que ouvir um anunciante que tentava alugar apartamentos de chamar de prostituta. É, nós mulheres ocidentais temos que engolir muita coisa viajando pela África, ainda mais se sozinhas, como eu estava. 
Contratei um táxi pra me levar ao ponto de partida do ônibus na madrugada. Umas quatro, cinco da manhã. Não há uma rodoviária. Aquela praça enorme que citei lá em cima, fica lotada de ônibus, e não sei como, porque não tem nada escrito, mas o taxista me deixou exatamente na fileira que saíam os ônibus pra Bahir Dar. Cheguei lá e meu nome estava na lista.
 
 
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BAHAR [BAHIR] DAR 

2 noites

hospedagem: Manuhie Backpackers Lodge @nati_tesfu @tanianethiopia.tours

Minha primeira viagem de ônibus na Etiópia foi uma experiência e tanto. Chegando à MESKEL SQUARE, de onde os ônibus saíam em Addis antes do sol nascer, encontrei meu ônibus, o responsável conferiu os nomes na lista, mas não deixou entrar. Tinha que esperar um tempo. Nesse tempo, um cara começou a falar comigo, mesmo sem eu dar muita atenção. Dentro do ônibus, ele sentou do meu lado, não sei se a poltrona dele era aquela ou se ele fez ser, e o cidadão começou a se achar meu guardião. 

Tinha só umas poucas mulheres no ônibus.

Foram cerca de 9 horas de viagem até Bahir Dar. Em determinado momento o ônibus parou. Parou no meio da estrada, onde só tinha mato, e todo mundo desceu. Eu não entendi. Não saí do ônibus. Eis que vejo todo mundo indo fazer xixi no mato, homens, mulheres, crianças, idosos, ... Aquilo pra mim não fazia nenhum sentido. Porque aquele povo nem falava olhando pra mim porque eu sou mulher, ou fazia que não me ouvia, e ia todo mundo junto fazer xixi no mato. 

Enfim... Não bebi absolutamente nada a viagem toda pra não encher a bexiga. 

Depois de algumas horas, parou num lugar que seria uma 'parada de viagem' e então eu precisava usar o banheiro. Não era um banheiro propriamente dito, era uma bacia daquelas de piso, tudo muito molhado e sem água encanada. Mas era o que tinha. Na saída, tinha algumas pessoas jogando água com baldes pra gente lavar as mãos (afinal, na Etiópia se come com as mãos, e sim, todo mundo lava as mãos antes de comer).

O cara que sentava do meu lado ficou tentando me ajudar, mostrou onde era o banheiro, quis me ajudar a pedir comida, mas eu não quis comer nada, e depois deu uma espantada nas pessoas que vinham me abordar. Acabei só comendo um chocolate que tinha na bolsa e um suco de caixinha.

Na etapa seguinte da viagem, ele conversou bastante comigo e foi esse que disse que eu estava atrasada, por não ser casada e não ter filhos, já que ele acreditava que as pessoas só viviam uns cinquenta e poucos anos mesmo, quando já deveriam ter muitos e muitos netos. Foi também ele que arrumou um cara pra me mostrar o caminho até a minha hospedagem em Bahir Dar, e carregou minha mochila também, já que fomos a pé.

Em Bahir Dar eu conheci o melhor anfitrião do turismo dessa viagem: Nati - @nati_tesfu @tanianethiopia.tours.

Nati era o dono do hostel. Jovem, muito educado, falava bem inglês, super informado, extremamente atencioso e competente, resolvia tudo que se precisasse e estava sempre disponível. Falava até umas palavrinhas em português. Organizava toda a viagem por qualquer  lugar da Etiópia que quisesse.

O hostel era ruim, embora os dormitórios fossem amplos, mas o banheiro era terrível. Além de muitos percevejos na cama. Mas tive tantas experiências mais complicadas depois, que hoje até considero que esse lugar foi bom. 

Depois de um banho meio estranho e de vestir uma roupa mais leve, saí pra comer algo na beirada do Lago TANA. Bahir dar é uma das maiores cidades da Etiópia. A noite saí com Nati e outros hóspedes [europeus] pra uma espécie de 'balada', que eles chamavam de 'lounge': uma casa com um bar todo cheio de luzes coloridas e muitas bebidas, com várias salas, e nossa galera ficou em uma dessas salas. Tinha música, nargile, bebidas, e era um lugar obscuro e meio estranho. Na volta, entramos 7 pessoas num tuk tuk, e pneu furou.

No dia seguinte, fiz o tradicional tour pelo LAKE TANA, visitando as históricas igrejas em ilhotas no lago, e depois pelas cataratas do BLUE NILE. O carinha que me guiou quando cheguei aparecia toda hora, e colou em mim. Tive que ser meio grossa pra me livrar dele.

No dia seguinte eu segui pra Gondar, de transporte local, outra aventura.

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GONDAR

2 noites

hospedagem:  L-Shape Hotel

Não existia um terminal rodoviário, e nem um transporte oficial de Bahar Dar para Gondar. Fui andando, seguindo marcação pelo google maps até um lugar, desses bem centro de cidade, cheio de comércio de rua, de onde saíam furgões tipo "lotação" para o destino. rapidamente eu fui pescada por um motorista, o menino que cobrava usava uma camisa da seleção brasileira (quando vc diz Brasil, em seguida respondem Neymar Junior), e me colocaram dentro de um veículo, que foi enchendo, enchendo, enchendo, até ficar bem cheio e apertado, e enfim sair pra Gondar. Umas duas horas de viagem. Em Gondar eu fiquei num hotel recomendado por uma blogueira britânica (https://www.bigworldsmallpockets.com). Ela falava super bem de lá. Mas não era bom. Faltava água, faltava água quente, e a água era amarela. Nenhuma hospedagem na Etiópia era exatamente boa.

Gondar é famosa por ter castelos - cidade-fortaleza de Fasil Ghebbi - e por ser a cidade grande mais próxima das montanhas Semien. As ruínas dos castelos realmente são bem legais.

Passei duas noites na cidade, e na primeira passei bem mal por conta de um sanduíche que comi a tarde. Morri de medo de precisar de atendimento médico. Mas acabou tudo bem. Tem um restaurante ótimo na cidade, o The Four Sisters Restaurant. Comida saborosa, lugar bonito e uma das donas até negociou o preço do táxi pra mim na volta. Também alguns cafés agradáveis e com bons sucos e comidinhas.

Por ser uma cidade menor, as pessoas pareciam mais conservadoras, as mulheres usavam roupas mais tradicionais, vestidos longos, sempre pouco decotados, mangas compridas e o véu branco cobrindo a cabeça.

Nas ruas em volta do meu hotel, tinha alto falantes, que ficavam o dia todo tocando preces. E antes de amanhecer, tocava o sino e uma prece mais vigorosa era recitada.

Foi em Gondar que tive um momento crítico da viagem: juntou a intoxicação alimentar com a imensa dificuldade em lidar com os milhares de caras que mexiam comigo na rua, o hotel com aquela água amarela, achei percevejos na cama branquinha e nem mexi nos lençóis... bateu aquele desespero de "o que é que eu vim fazer aqui?". Tive febre, tomei alguns remédios e acordei bem no dia seguinte.

Tanto nos castelos quanto na Debre Birhan Selassie dá pra ir a pé. E ainda comprei pão bem baratinho no caminho, já que não tinha café da manhã no hotel. Acabei deixando de conhecer Fasilides' Bath por falta de informação.

Pra visitar a cidade fortaleza, tem uma multidão de guias na entrada. O valor que eles cobram pode parecer justo pra grupos, mas pra mim era extremamente fora do orçamento. E eu já tive que fazer um pequeno rebu pra entrar então sem guia, porque não ia pagar nada além da entrada.

Diversas empresas de turismo pela cidade oferecem passeios pra Semien Mountain. Passei uma tarde visitando e pesquisando. Fechei o tour pra Semien Mountain com uma agência, um cara chamado George. Foi tudo dentro do previsto, exceto que ele me enganou feio com o último transporte do pacote.

 

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Em 12/02/2021 em 16:13, Sara J Barros disse:

Tem continuação?

Obrigada por comentar meu post e me fazer voltar a escrever sobre aquela viagem. Tem sido incrível reviver na minha cabeça todos os perrengues e aventuras que vivi, pra poder escrever um relato aqui. O relato tem ficado muito grande, mas espero que seja util pra quem quiser ir pra lá. Espero terminar de escrever tudo em breve.

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SEMIEN MOUNTAIN

 

tour de 3 dias 2 noites (camping)

mais uma noite em Debark (pousada)

 

Conforme orientado pelo George, viriam me buscar cedinho no meu hotel para iniciar o transporte do tour. Com muito tempo de atraso, aparece um cara a pé pra me buscar. Tudo bem, eram 3 quarteirões, mas com mala tudo fica mais longe. Depois esperei ainda um bom tempo num café numa esquina mais central, onde foram chegando mais turistas pra compor o carro e partir. Éramos eu, uma chinesa muito animada, três coreanos de meia idade, um francês e um mochileiro inglês. Além disso, dois guardas com espingardas, dois guias (estes embarcaram só em Debark - entrada do parque nacional) e o motorista. 

Existem todas as versões de tour por essas montanhas: um dia, dois, três, quatro, ... Eu fiz o que incluía 3 dias e 2 noites, acho que paguei US$ 200, incluindo transporte, guia, "hospedagem" (camping), "alimentação" (incluindo água) e o transporte na volta de Debark para Axum (meu destino seguinte).

A brasileira sem noção aqui, não se ligou em um detalhe muito importante: altitude. Semien Mountains é uma cadeia de montanhas na altitude, mais alta do que Machu Picchu! Ou seja: é frio!!! Eu não tinha roupas adequadas e acabei me vestindo igual aos locais: vestindo todas as minhas roupas ao mesmo tempo e sobrepondo sacos de dormir. Durante o dia tudo certo, durante o trekking dava até pra ficar só de camiseta, mas a noite... Tive a noite mais gelada da vida, e num acampamento. 

A paisagem é estonteante de linda, os "gelada baboons" lindinhos demais, além de outros animais, o trekking não é dos mais fáceis, tem altitude e frio, o que exige mais preparo também. O frio a noite no acampamento é muito intenso, a comida é meio complicada e o banheiro "latrina" foi uma provação. Mas sobrevivi a tudo e não me arrependo.

Dá pra ficar num resort fantástico nas montanhas? Com certeza. Tem isso tb. Mas totalmente fora das minhas possibilidades e dos meus interesses tb.

Obviamente nesse rolê todo não tem banho. Mas com temperatura de -5°C pra dormir, pra mim nem fez falta. Não apenas não tem banho, como tb não tem nenhuma água, nenhuma torneira pra lavar a mão. A água disponível é a que tem pra beber, aí como vai ser usada, fica a critério de cada um. 

O meu guia era gente boa, mas teve alguns deslizes, por conta de situações que surgiram no grupo, que foram complicados e deixaram a gente meio na mão. Agora o guarda, o tiozinho com a espingarda, que acompanhava o grupo fielmente, e ainda passava a noite acordado, no frio, pra nos defender caso algum animal ou qualquer outro problema nos assolasse, sem falar nem 'hello', esse cara era firmeza demais!!! E usava sapatos de plástico, tipo "melissa". Pra ele o grupo todo fez questão de dar uma boa gorjeta (boa naquelas, porque o que é bom em euros é totalmente fora da realidade de qualquer viajante que tem seu salário em reais). Finalizado o passeio de 3 dias no meio daquelas montanhas lindas, no meio do nada, mas onde volta e meia aparecia sinal de celular (eu pirei nisso, pq no Brasil nunca tem sinal em áreas afastadas), era hora de voltar pra civilização. Como nesse final estávamos só o francês, a chinesa e eu, surgiram mais pessoa no carro, um casal de espanhóis, muito simpáticos e dispostos, o marido até falava português. 

Chegamos de volta a Debark, e como essa casal tb ia passar a noite lá, nos desovaram num hotel, onde eles tinham deixado a bagagem maior. Aí começou a saga: procurar um local minimamente decente pra passar a noite. Ficamos juntos visitando todas as pousadas que tivemos informação, eu negociava o preço pra mim e pra eles tb. Mas os lugares eram  muito muito ruins. Até que desistimos e ficamos num lugar que o preço era melhor, porque todos eram bem ruins. Eu só queria um banho quente (depois de 3 dias!) e cama. Na hospedagem dessa noite, os quartos eram bem escuros e os banheiros muito estranhos. Depois de trocar de quarto 2 vezes, consegui um chuveiro minimamente morno (lá era bem frio), mas o ralo não tinha vazão e alagava todo o banheiro. Bem, era o que tinha. 

Jantei, tomei umas cervejas, conversei bastante com um casal de alemães que estava começando o trekking no dia seguinte, vesti uma roupa quente, entrei no meu saco de dormir e dormi feliz. No dia seguinte bem cedo, o meu guia ia me deixar no local pra pegar o transporte para Axum, que o George tinha reservado pra mim.

 

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