"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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VALE DO RIO RIO PURUBA- Serra do Mar Paulista
Na calma e serena foz do Rio Puruba, onde ele se junta ao Quiririm, na praia de mesmo nome, canoas caiçaras vão e vem, fazendo a travessia de banhistas que não querem se dar ao trabalho de atravessar o rio com a água pela cintura. A praia do Puruba figura entre as mais belas praias do litoral de Ubatuba, se mantendo ainda selvagem e quase que isolada e é justamente por abrigar dois grandes rios que ali faz sua foz, que a torna uma das mais charmosas praias do litoral do Brasil. Quem por lá passa e se dá ao deleite de desfrutar desse paraíso, jamais consegue imaginar a fúria que o Puruba exerce sobre os contrafortes da Muralha da Serra do Mar, se jogando em cânions gigantescos num dos maiores desníveis do litoral Paulista. E é nesse cenário, com o mundo se acabando em chuvas, que nove homens tentam escapar do inferno em que se meteram, tentando atravessar o monstro ruidoso, da sua nascente até o litoral, entre pedras que rolam, abismos escorregadios, torrentes de águas avassaladoras. E é com homens à beira do limite físico e emocional, que essa história vai se desenrolar, uma aventura para poucos, no coração da Selva Paulista.
(Abaixo Praia do Puruba)
( Os Exploradores - Divanei,Thiago,Flórido,Régis,Rafael,Vagner,Potenza,Luciano e Júlio)
O GRANDE Rio Puruba nasce aos pés do ALTO GRANDE (1662 m), na divisa Cunha, Paratí e Ubatuba, uma montanha que marca o CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, na sua porção litorânea, inclusive essa mesma montanha foi oficialmente medida por nós na Expedição de 2019 (https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report ) , onde deixamos também um livro de cume, tanto no Alto Grande, quanto na Pedra do Espelho, outro ícone da região. É incrível poder atravessar o Puruba com não mais que um palmo de água, mas depois ele vai crescendo, ganhando outros afluentes e serpenteando floresta à dentro por uns 10 km até se jogar abruptamente do Planalto Paulista em direção à Planície litorânea.
( Foz do rio Puruba- foto tirada em outra caminhada)-https://aventurebox.com/divanei/travessia-picinguaba-x-puruba-10-praias-em-ubatuba-sp/report
A intenção de desbravar o Vale do Rio Puruba, nasceu na minha cabeça muitos anos atrás, mas só voltou à tona depois que conhecemos o Thiago e o Flórido, dois andarilhos do extremo litoral norte e quando fechamos o projeto, coube a eles a incumbência de irem lá nos Campos de Cunha, no alto da serra, investigar o caminho que nos levaria às bordas da Serra do Mar, onde o grande rio se joga em direção ao litoral. Se juntaram aos dois exploradores o menino Júlio e quando voltaram da missão, trouxeram na bagagem um caminho pronto até o grande Lago Superior, um ponto que marcamos no mapa como crucial para iniciarmos a descida.
Foram meses de discussão sobre esse projeto e no final acabamos por formar um grupo bem heterogêneo, tanto que eu cheguei a confessar para alguns em off, que essa descida iria separar homens de meninos, devido à dificuldade da empreitada. O desnível do rio era algo que talvez a gente jamais tivesse enfrentado antes e como era um grupo com alguns ainda sem aquela experiência mais consistente, a chance de haver dificuldades seria realmente enorme, mas pelo menos estávamos todos animados e bem preparados quanto aos equipamentos de segurança.
Formado o grupo, partimos em uma Van da Rodoviário do Tietê, na capital Paulista, em direção à Cunha e ao longo do trajeto, fomos colocando a conversa em dia e revendo os planos traçados e quando lá chegamos, na alta madrugada, ainda tivemos que rodar por mais 30km, boa parte numa estradinha de terra, até que essa estrada já não tivesse mais condições de prosseguir motorizados. Nos pomos a caminhar na escuridão da noite e quando interceptamos uma mansão em reforma no alto de um morro, não tivemos dúvidas, nos jogamos para dentro dela e por lá ficamos, descansando o esqueleto até que o sol se levantasse e nos dissesse que era hora de partir.
Nove homens animadíssimos seguem a passos firmes e decididos, ainda mais por termos sido surpreendidos com um dia ensolarado daqueles, muito porque, a previsão era de chuvas intensas durante quase todo o feriado de Carnaval, mas aquela belezura de tempo não duraria muito. Vamos atravessando sítios e porteiras, campos e pastos, fugindo de vacas invocadas, até que adentramos na mata fechada e começamos a descer em direção a um afluente do Rio Puruba e ao tropeçarmos com uma cachoeirinha, resolvemos seguir por dentro dele até que ele interceptasse o próprio Puruba, justamente no lago que havíamos marcado como referência. Foi uma caminhada rápida e nosso relógio marcava pouco depois das dez da manhã, a primeira parte do nosso objetivo estava cumprido com sucesso.
Como previu a meteorologia, o tempo virou repentinamente, mas nem o sol da manhã foi capaz de diminuir a vazão do rio que se mantinha cheio e bufando. Do lago encontrado, partiu uma discreta trilha descendo na margem direita do rio, talvez usada por caçadores e palmiteiros, mas quinze minutos depois ela abandona o rio e vai morrer mais acima e é nessa hora que o Puruba vai se jogar nos abismos da serra, hora de abandonarmos também a tal trilha e nos jogarmos junto com o rio para um mundo desconhecido e sombrio. Desse ponto em diante, vamos entrar no coração da Serra do Mar, onde provavelmente ninguém tenha pisado e se pisaram, foram tão poucos que não contaram para ninguém.
O vazio se apresentou à nossa frente, um abismo medonho, donde teríamos que nos valer de uma rampa escorregadia para acessarmos a primeira queda do rio. Já logo me espanta a cara de horror feita pelo Rafael, olhos arregalados diante do problema que se apresentou à nossa frente , querendo continuar subindo pela trilha, sem nem saber para onde o caminho iria dar, mas foi preciso lembra-lo qual era o objetivo daquela expedição e sem ter o que fazer, ele se jogou atrás de nós e foi escorregando floresta a baixo, resmungando e amaldiçoando o desgraçado que resolveu tomar aquele caminho e essa reclamação era totalmente procedente porque por pouco, alguns não foram rolar barranco a baixo diante daquela parede íngreme.
Quando chegamos de volta ao rio, junto a uma cachoeira, nos posicionamos no seu patamar, na cabeceira de outro abismo e ali vimos a chuva chegar de vez e nos avisar que aquela expedição seria muito mais difícil do que esperávamos. Mesmo assim, ainda nos mantínhamos confiantes de que se passássemos pelo quilometro inicial, poderíamos ter êxito, mas ainda sabedores que era algo que talvez jamais tivéssemos enfrentado nesses anos de expedições selvagens. Abandonamos a primeira queda e pela direita fomos perdendo altitude, mas o terreno resolveu nos dar as boas-vindas de vez: Pedras e mais pedras rolavam ao menor toque e faziam com que os que iam mais abaixo, tivessem que se esquivar para não serem atingidos.
Aos trancos e barrancos, conseguimos descer ao próximo lance, de onde uma CACHOEIRA enorme despencava. É preciso dizer que foi até aqui que o grupo que fez a primeira incursão exploratória chegou e batizaram-na de VAPOR BARATO, uma alusão a uma água que era aspersada ao bater em um tronco de madeira preso no meio da queda. Era realmente uma queda extraordinária, mas sem um grande poço do qual pudéssemos nadar, além do mais, a temperatura com a chuva começou a baixar e só um ou outro maluco se deu ao trabalho de se enfiar embaixo dela para uma foto mais ousada.
A chuva chegou de vez, não uma chuvica molha bobo, mas um dilúvio que era amparado pela floresta antes de despencar nas nossas cabeças. Abaixo da Cachoeira Vapor Barato, decidimos que teríamos que cruzar o rio para seu lado esquerdo, aliás, essa decisão já havia sido tomada em casa com bases nas curvas de nível da carta topográfica. Com uma corrente humana, tentando proteger para que ninguém do grupo virasse pica-pau sem barril, passamos um a um em meio a água extremamente gelada e na tentativa se salvar as bolas, alguns quase que levitaram, mas por causa da profundidade e da correnteza, não molhar as costas já era lucro.
O rio era simplesmente um funil desabando no abismo profundo e ter que escalar barranco foi se tornando a regra daquela travessia. Tínhamos que subir e ao chegarmos a certa altura, mandávamos uma diagonal de volta para o leito, mas pelo tamanho dos matacões que formavam seu curso, ficava quase impossível desescalar e tocava a gente voltar para as paredes gigantes e escorregadias, sempre tentando encontrar os melhores caminhos até retornarmos para a água. Interceptamos mais uma grande cachoeira de onde o rio se jogava em fúria. Infelizmente não havia poços para os mais ousados nadar e os que ainda tinham coragem e pouco juízo, se metiam de meio corpo dentro da cortina d’água, mas eu mesmo só olhei, já estava sofrendo com as baixas temperatura e não queria correr o risco de ter que gastar mais energia para tentar reaquecer o corpo.
Descemos um pouco mais de rio, perdendo altitude vagarosamente, nos metendo embaixo de grandes pedras e passando com a água quase acima da linha da cintura, mas sempre atentos com a possibilidade de o rio subir mais ainda e nos arrastar. Os obstáculos iam sendo vencidos, metro a metro, centímetro a centímetro, mas chegou uma hora que o rio simplesmente nos empurrou de volta para as paredes rochosas novamente. O grupo estava cansado e não era nem três da tarde, mas os esforços iam minando a energia da gente e a chuva gelada nos jogava para um caminho perigoso, porque parte do grupo parecia já não conseguir mais gerar calor.
O terreno simplesmente não ajudou, não conseguíamos mais voltar para o leito do rio e a cada subida, crescia a ansiedade de alguns e quando o caminho chegou ao fim num abismo, foi preciso parar e pensar numa solução: Raramente carregamos equipamento de rapel, às vezes uma cordinha de duas dezenas de metros para uma descida mais perigosa, mas dessa vez o Júlio resolveu carregar uma corda de rapel de uns 30 metros e alguns equipamentos. Na beira do barranco de uns 20 metros, decidimos que era hora de instalarmos a corda para voltarmos para o rio. Instalada a corda, o Vagner foi o primeiro a se pendurar, mas dispensou quaisquer outros equipamentos e se pendurou daquele fio molhado e despencou com mochila e tudo. O Júlio perguntou se eu precisava que ele montasse o freio e eu vendo que o Vagner desceu sem, apenas respondi que iria descer no “modo sertanista”, na mão mesmo.
Me agarrei à corda molhada e me posicionei com os pés paralelo ao barranco, olhar firme, corpo ereto, passadas decidias de um explorador das antigas. Mas não demorou muito para sentir o peso da mochila e da gravidade a me puxar para o fundo do barranco. A mão começou a queimar, mesmo com luva, o braço já quase não dava mais conta. As pernas tremeram, enrolei a corda na mão direita, cair já era o que estava tendo, mas quando eu já havia dado a parada como perdida, uma raiz veio ao meu socorro e meio minuto depois eu estava em segurança, caído em meio a lama, aos pés daquela parede sombria. Ia mandar o Vagner se fuder por não ter me avisado daquela decida dos infernos, mas logo vi que ele próprio teve que descer com seu satanás pendurado às costas, então me contive e avisei para o Júlio que os próximos deveriam descer de rapel, não deveriam seguir nosso exemplo.
Fui confabular com o Vagner sobre a possibilidade de acharmos rapidamente um lugar para acamparmos, porque do jeito que estávamos, capaz de sofrermos algum acidente grave, diante do frio que todos estavam sentindo, já em estado de semi-hipotermia. Mal acabei de terminar minhas considerações, foi quando ouvimos um grito ecoando da parede: Pendurado feito um siri no pau, menino Luciano gritava desesperado por ajuda, com as pernas balançando no ar, na iminência de despencar da parede. Eu não sabia se ria ou se acudia o companheiro:
- O filho da puta, não te avisaram que era para descer no rapel?
- Vai se fuder Diva, me ajuda a descer daqui, caralho!
Todos os outros vendo que a gente já havia se lascado, desceram presos à corda e quando estávamos todos juntos, resolvemos que não haveria como prosseguir, mesmo diante de um terreno cretino, seria hora de montarmos acampamento. O frio era tanto que alguns não conseguiam nem se mexer mais, era hora de pôr em pratica nossas habilidades de improviso e torcer para que parte daquela parede não desabasse na cabeça de ninguém durante a noite, já que a chuva resolveu mostrar quem manda naquele pedaço isolado do mundo.
Árvores que prestasse não havia. Apesar de haver árvores gigantes, eram esparsas, em um terreno inclinado à beira de outro patamar que havia mais abaixo de nós. A chuva varria tudo por lá, uma lava nojenta sob nossos pés, mal nos deixava parar em pé. Cada qual tentava se virar como dava, amarrando suas redes e cobrindo com toldo, mas fazendo um serviço dos mais porcos possíveis, parecíamos principiantes na arte de acampar com redes. Sem achar nada que prestasse, eu e o Régis resolvemos montar nossas redes juntas, no estilo beliche. Tentamos jogar a lona primeiro, mas ela era curta e não havia lugar para amarrar as cordinhas e tudo que tentávamos fazer, dava errado. Eu já havia perdido a capacidade de pensar, o frio já havia tomado conta. Regis tentou de tudo quanto é jeito e quando a tenda ficou de pé, foi que vi que aquilo não passava de uma grande merda e que a gente estava mesmo era fudido. Fudido e mal pago.
Deixei o Régis e fui tentar achar outra solução, ou eu saia da chuva imediatamente ou sucumbiria ao frio daquele final de tarde. Desci ao patamar mais abaixo e lá encontrei dois pés de pau, um arremedo de arvore e lá estiquei meu toldo. Me joguei para debaixo dele e retirei a roupa molhada, vesti uma seca e instalei minha rede, tirei meu saco de dormi e me joguei para dentro dele e lá fiquei, tentando me aquecer.
A chuva não dava trégua. O toldo não aguentou, foi empapando até que começou a pingar água para todos os lados e meia hora depois, meu saco de dormir já estava completamente úmido. Havia combinado de fazer a janta com o Régis, mas acabei apagando e nem vi a noite cair, nem fiquei sabendo como o grupo mais acima havia se virado, só sei que o Régis havia se dado bem mal e não demorou muito, veio chorar as pitangas na minha tenda.
- O Diva, tá tudo molhado cara, tudo ensopado, uma lama só .
A cara de desespero do Régis era de dar dó, o aventureiro forte e destemido de outrora, agora havia se transformado num menino assustado, aquela cara de quem não sabia o que estava fazendo ali naquele inferno molhado. Era um homem murcho, encolhido, destruído pelas agruras do tempo.
- Olha Diva, vou te dizer uma coisa, eu avisei que com essa previsão de tempo iria dar merda, que a chance de dar errado era grande e olha a situação que a gente se meteu, não dá Diva, puta que o pariu.
Me deu vontade de rir, confesso que ver o Régis naquela situação acabou sendo engraçado, muito porque, eu mesmo estava na mesma situação dele, éramos passageiros da mesma canoa furada e só me contive em perguntar se ele queria que fizesse uma janta.
- Não, vou comer qualquer coisa fria mesmo.
Melhor assim, nem me dei ao trabalho de sair mais da rede e mesmo todo molhado, por lá fiquei, no meu sofrimento individual, torcendo para acordar vivo no outro dia.
E esse outro dia nasceu, sem chuvas, mas ainda embaçado. Foi mais uma noite de cão, daquelas para entrar para história. Voltei ao patamar superior e lá fiquei sabendo que os caras passaram, como eu, uma noite no inferno. O grupo estava destroçado, alguns desbocados amaldiçoavam a noite mal dormida, xingando os palavrões mais cabeludos, menos o Thiaguinho, menino bem-nascido, de uma polidez nórdica, apenas se conteve em dizer uma frase que entraria para os anais das conversas fiadas das travessias selvagens na Serra do Mar: - Noite difícil, hen Potenza?!(rsrsrsrsrsrsrrssr)
Enquanto alguns tomavam café, descemos até as barrancas do Puruba para verificar se já seria possível continuar por dentro do rio, mas o encontramos tão furioso quanto a tarde anterior. O jeito foi traçar uma diagonal longa, passar ao lardo, um pouco mais acima, quase que margeando a uma distância de pouco mais de 50 metros. O terreno continuava de difícil navegação , mas encontramos um bom corredor plano, quase uma crista longa que nos fez avançar muito e logo achamos um jeito de voltarmos ao rio novamente.
Mais uma cachoeira afunilada se apresentou à nossa frente e como havia uma grande rocha plana, aproveitamos para comer alguma coisa, enquanto alguns malucos se enfiavam embaixo da cortina d’água. Não nos demoramos muito por lá e logo ganhamos novamente o barranco, porque passar pelo rio ainda estava fora de cogitação. Nesse dia deixamos a cargo do Alan Flórido, a navegação, já que ele é quem tinha um gps e pode ir olhando melhor as curvas de nível do terreno, mas tinha horas que quem estava à frente exagerava em querer subir mais que o necessário e aí tínhamos que intervir e deixar bem claro que o intuito daquela expedição era seguir sempre pelo rio ou ao menos perto dele.
O dia foi passando numa velocidade impressionante e cada vez que consultávamos o gps, percebíamos que mal havíamos saído do lugar, estávamos avançando muito devagar e a todo momento, uma voz se levantava insistindo de que o rio seria sempre o melhor caminho. Voltamos ao rio, mas para isso foi preciso descer uma parede muito íngreme, aliás, cada vez mais, íamos nos metendo dentro de grandes paredões e nos sentindo presos, como a nos enfiarmos num caminho sem volta.
No rio, outras cachoeiras iam despencando afuniladas, nos indicando que ainda estávamos envoltos em uma encrenca das grandes. Analisando o terreno, vimos que seria hora de voltarmos para a margem direita, mas cruzar a torrente de água não estava fácil. Montamos uma operação com uma corda, afim de que um trouxa se apresentasse para tentar o salto suicida e como o Júlio foi o primeiro a levantar as mãos, amarramos a corda à sua cintura e esperamos que ele sobrevivesse sem ser arrastado para queda d’água, mas ao pular e tentar nadar com todas suas forças, foi levado perigosamente para as beiradas do vazio e logo a galera se apressou em puxá-lo de volta. O Júlio ficou puto, deu esporro em todo mundo, dizendo que ele iria conseguir e que lhe puxaram a corda quando ele já estava chegando ao outro lado, mas não quisemos nem saber de conversinha, ninguém estava a fim de se ariscar ali, então enrolamos a corda e voltamos a escalar paredões novamente, a fim de ganhar altura, pegar uma nova diagonal e voltar para o rio mais abaixo, para procurar uma passagem onde ninguém corresse o risco de morrer.
Pelo menos a chuva deu uma cessada, mas o mormaço acabou aquecendo um pouco nossos miolos, ainda mais tendo que a todo momento, ficar tendo que subir paredes onde o esforço físico ia quebrando parte do grupo ao meio. Numa tentativa desesperada de voltarmos novamente ao rio, tivemos que despencar em mais uma parede vertiginosa e quando lá chegamos, conseguimos finalmente avançarmos por dentro da água, cruzando por baixo de matacões imensos e nos enfiando dentro de grutas de granito até que novamente fomos barrados por uma sequência de quedas.
Não eram quedas altas, longe disso, mas descê-las parecia algo muito ariscado, então nos juntamos para tentar uma solução, já que à nossa frente, duas paredes laterais nos pareceu quase intransponíveis. O Vagner e o Flórido tentaram ver se era possível atravessar o rio, mas concluíram que a correnteza era muito forte para passar e voltaram dizendo que a parede do lado direito tinha quase 90 graus de inclinação e mesmo que conseguíssemos passar, ficaríamos presos do outro lado. Eu e o Júlio ficamos conversando sobre a possibilidade de, com a ajuda de uma corda, descermos por dentro do rio, mas sabíamos que seria uma atitude meio que suicida e só faríamos isso quando não houvesse outra opção. Por outro lado, a parede da esquerda era mais promissora, talvez fosse possível escalar a uns 3 ou 4 metros do chão e conseguir uma passagem para o outro lado e de lá, tentar ganhar um caminho para prosseguir, mas essa nossa ideia foi rechaçada de imediatamente por parte do grupo, então só nos restou mesmo, tentar retroceder e tentar fazer o que a gente fazia, que era subir a montanha , ganhar uns 100 metros de altura e descer na diagonal mais à frente, nos livrando de mais essa garganta do rio.
Retrocedemos não mais que 20 metros e começamos a subir uma parede gigantesca, junto a um pequeno afluente, na tentativa de cruzá-lo mais acima e ganhar a direita de vez, mas o caldo foi entornando, o terreno cada vez mais instável, ia cedendo a cada passo dado e quando ganhamos uma altitude considerável, percebemos que a transposição para ganharmos o restante da parede era impossível, porque uma parede com mais de 50 metros de altura se erguia abruptamente. O esforço físico para lá chegar havia sido descomunal e alguns já começavam a dar sinais de exaustão e agora seria preciso nos afastarmos para a esquerda e tentarmos ganhar mais altitude ainda e essa atitude deixou alguns ainda mais preocupados.
O dia passando e a gente preso na parede, subindo sem parar e nada de conseguirmos uma diagonal para direita. Era uma subida quase que inútil e alguns, já começaram a protestar com quem ia à frente porque achavam que era hora de ariscar e abandonar aquela estratégia que não estava nos levando a lugar nenhum. Os mais putos com o destino que aquela expedição estava tomando erámos eu e o Júlio e por mais que a gente vociferasse com quem fazia as vezes de guia, eles pareciam não nos ouvir, até que um dos homens caiu prostrado no chão, com a língua de fora, fazendo mais ânsia que gato com uma bola de pelo na garganta.
O Rafael quebrou, chegou ao seu limite físico e emocional, estava acabado e para piorar, praticamente já estávamos sem água, pendurados numa parede há centenas de metros do rio. A situação dele parecia bem delicada, não que já não tivéssemos vistos outros exploradores abrir o bico nas inúmeras expedições, mas dessa vez estávamos numa jornada que exigiria o máximo de cada um e naquele momento específico, onde tentávamos desesperados arrumar uma maneira de prosseguir, a coisa ficava ainda pior.
Numa breve reunião, resolvemos que seria melhor dividirmos parte da bagagem do Rafa com o resto do grupo, porque do jeito que ele se encontrava, naquela subida sem fim, ele não conseguiria seguir em frente. Metade do seu peso foi parar nas nossas mochilas e mesmo assim, o Rafael empacou, estacionou seu corpanzil avantajado e como uma vaca que atolou no brejo, recusou-se a continuar.
- Olha gente, vou dizer uma coisa, essa é a última expedição que faço com vocês, nunca mais me chamem para essas Expedições desgraçadas.
Com uma só frase, Rafael anuncia ali, de supetão, para todo mundo ouvir, que acabara de se aposentar e para provar que não estava brincando, começou a distribuir parte do seu equipamento, presenteando alguns amigos com o que lhe era desnecessário naquele momento e prometendo outros equipos quando estivesse a salvo, na civilização.
Mesmo com o Rafa doente, era preciso seguir, porque ainda não me passava pela cabeça, outra coisa que não fosse terminar aquela travessia até o litoral. A subida se deu a passos lentos, e cada metro que ganhávamos, parecia que mais nos complicávamos no roteiro. À frente do grupo, feito uma cabra cega, Flórido e Thiaguindo não nos dava ouvidos, quando pedíamos para tentar desviar o rumo para a direita e parar de subir, porque tínhamos que tentar cruzar para o outro lado e achar de qualquer jeito uma maneira de voltarmos para o rio, mas logo a gente sacou qual era a deles, haviam decidido tentar outra rota e voltar para Cunha, via crista da montanha.
Tivemos que parar para dar um rumo para aquela EXPEDIÇÃO. O Rafa não progredia de jeito nenhum, mas alguns de nós ainda tentávamos convencê-lo de que se alcançássemos parte da crista, poderíamos pegar uma longa descida de volta para o Puruba, alcançando a cota 450, onde achávamos que poderíamos seguir tranquilamente até a praia, mesmo com o Rafa naquela situação. Mas a conversa não evoluiu e o Flórido bateu o pé, queria porque queria voltar para o topo da serra ou seja: DAR POR ENCERRADA AQUELA EXPEDIÇÃO.
Eu e o Júlio protestamos veementemente, não queríamos abandonar nada, queríamos seguir. Um ou outro, mesmo que timidamente, tentaram ser solidário com nós dois, mas outros não moveram uma palha para tentar persuadir parte do grupo a prosseguir com a Expedição. Eu compreendia que tínhamos um companheiro quase fora de combate, que vez por outra vomitava diante do grande esforço físico, mas achávamos que ainda não era hora de jogar a toalha, talvez pudéssemos descer novamente ao rio e tentarmos passar por onde fomos barrados ou mesmo ganhar a crista e continuar descendo, o que não aceitávamos era a derrota sem luta.
Mas não teve jeito, parte do grupo estava irredutível e uma outra parte se omitiu. O Júlio estava transtornado, mandou todo mundo se fuder, chamou parte do grupo de cuzões e propôs que eu e ele seguíssemos na travessia.
-Olha Júlio, mesmo eu discordando dessa posição de abandonar a expedição, não poderia abandonar o grupo, mesmo sabendo que poderiam seguir muito bem sem a gente e voltariam para casa em segurança, mas se algo acontecesse, teríamos que carregar essa culpa nas costas, então já que o grupo decidiu e estão irredutíveis, o jeito é engolir esse fracasso, enfiar o rabo entre as pernas e tentar voltar com um grupo mais homogêneo de uma próxima vez.
Claro que o Júlio não aceitou, continuo bem puto pelo resto do dia. Mas se aquela expedição havia chegado ao seu fim e tínhamos um integrante doente, não fazia sentido continuar aquele sofrimento, sem água e subindo até sei lá onde, então combinamos de subir só até encontrarmos um bom lugar para acampar, para recolocarmos as ideias no lugar.
Mais 40 minutos, foi o tempo que levamos nos arrastando até perto de uma crista, na verdade, uma hora abaixo dela, num selado mais plano onde árvores mais espaçadas nos deu a condição de montarmos nossas redes. Com o fracasso já engolido e conformados com nosso destino, pouco a pouco o grupo foi voltando a se animar e depois de uma janta quentinha, já nem lembrávamos mais das discussões acaloradas do meio de tarde e já que estávamos ali, era hora de celebrar a vida e a amizade, que era mais importante que qualquer descida de rio.
Um pouco de chuva a noite, nos deu um pouco de água para um café e assim que desmontamos tudo, partimos para o topo da crista. O Objetivo era, ao atingir o seu cume, azimutar uma direção direto para o grande poço do Rio Puruba, o mesmo que havíamos encontrado logo no início da expedição e aí interceptar novamente o afluente que havíamos descido, subi-lo e voltar para a civilização, novamente nos Campos de Cunha.
A caminhada foi retomada e mesmo sendo logo pela manhã, as dificuldades não mudaram devido a inclinação do terreno. Era uma subida interminável e mesmo já tendo passado a frustação do dia anterior, ainda havia um resquício de desgosto por estarmos abandonando aquela travessia, mas algo mudaria completamente o ânimo daquele grupo: Ao chegarmos no topo da crista, o terreno arrefeceu e ao percorrermos por sua planitude, agora no sentido de Cunha, uma clareira nos chama atenção e quando para lá corremos, fomos surpreendidos com um espetáculo então INIMAGINÁVEL.
Estávamos bem encima de um Pico, uma montanha com vistas largas e surpreendentes para todo o litoral. Aos nossos pés, um Oceano qualhado de praias e horizontes abertos, pontilhado por ilhas, num cenário de tirar o fôlego. Estávamos encantados, alguns até eufóricos diante daquela beleza toda. Era possível avistar um mar de florestas, de onde o próprio Rio Puruba serpenteava como uma grande cobra, emoldurando toda a planície litorânea e lá estava, surpreendentemente, a famosa cratera de Ubatuba, onde pesquisadores acreditam que um meteoro de grandes proporções se chocou com a Serra do Mar, milhões de anos atrás.
(Pico Puruba - Cratera de Ubatuba)
Diante daquele cenário deslumbrante, cada qual pegou seu assento, seu lugar favorito, para poder guardar na memória aquele momento único e muitos já nem lembravam mais das agruras daquela expedição, que não havia chegado nem perto de atingir o objetivo proposto, mas por hora, havia conseguido aplacar um pouco da frustação que lhes consumia, se não à todos, pelo menos a parte mais exigente do grupo. Para marcar aquela conquista, que acabou se dando por puro acaso, resolveram batizar aquele pico com o único nome possível, uma homenagem àquela vale que acabava de nos vencer momentaneamente, PICO DO PURUBA (1200 m) , é assim que deve ser chamando e assim que deverá constar no mapa das montanhas selvagens de Ubatuba e da Serra do Mar Paulista.
A visão era hipnotizante, mas ainda tínhamos o objetivo de encontrar o caminho de volta para casa, ou seja, voltarmos para a parte superior do rio, próximo ao grande lago de onde partiria nossa trilha para a civilização.
Seguimos agora pela crista da montanha, varando mato e outros bambus irritantes, tomando o caminho dado pelo gps e por suas curvas de nível e quando uma direção nos foi favorável, mudamos de rumo até cairmos na própria calha do rio Puruba, pouco abaixo do grande poço, umas corredeiras, donde agora o rio corria cristalino, translucido e como já se aproximava da hora do almoço, resolvemos parar e aproveitar para um bom banho e para prepararmos um rango. Ali nos demoramos um bom tempo, jogando conversa fora e aproveitando o sol , admirando a beleza do rio , tentando digerir tudo que havia acontecido naquela Expedição, fazendo um balanço e as vezes lavando uma roupa suja, conversando sobre o que nos levou ao fracasso e qual lição havíamos tirado daquela jornada.
Atravessamos o rio e partimos apressadamente até que, uns 15 minutos depois, interceptamos o grande poço e começamos a voltar pelo afluente e logo que trombamos com a cachoeirinha, abandonamos ela em favor de uma trilha que nos levou rapidamente para os campos abertos e os pastos cercados por montanhas arredondadas, pontilhadas por pinheiros e outras araucárias e um pé à frente do outro, nos devolveu à estradinha rural.
Quase uma hora de caminhada nos levou até o casarão que havíamos acampado na primeira madrugada e lá conhecemos um nativo, proprietário de uma fazenda local às margens do Rio Paraíbuna, na sua porção córrego e ele nos ofereceu um abrigo momentâneo até que conseguíssemos entrar em contato com uns taxis que poderia nos tirar da área rural e nos levar até Cunha ou Taubaté. Mas não foi só um abrigo que ele nos deu, nos presenteou com um café que mais pareceu um banquete, onde quase morremos de tanto comer, nos deliciando com as maravilhas da roça, com direito a leite tirado direto da vaca. Enquanto os taxis não apareciam, ficamos encantados com as histórias contadas pelo fazendeiro, algumas de cair o queixo, outras difíceis de acreditar, tipo o dia que ele matou 12 catetos com apenas 12 cartuchos ou a cobra tão grande que deixaria qualquer anaconda no chinelo, sem contar os 300 kg de linguiça para um só acampamento, que serviu de acompanhamento para umas 15 pacas assadas. (É mentira Teca ? VERRRRDADE! ) Rsrsrsrsrsrsrrsrsrss
Já era noite quando conseguimos voltar para Taubaté, de lá alguns afortunados, a elite do grupo, conseguiu achar um carro que os levou de volta para Capital, mas a ralé, a parte à margem da sociedade, resolveu dormir na rodoviária, jogados ao chão, feito mendigos e quando o dia nasceu, pegaram os ônibus para suas comunidades, uns para São Paulo e eu para minha aldeia, perdida no interior do Estado.
Fica aí o relato e a descrição da nascente de um rio importante do Litoral Norte Paulista, por hora esse é o único registro de um grupo que chegou tão longe e conseguiu avançar naqueles desfiladeiros monstruosos. Alguns desses homens voltam para casa com o certificado de aposentadoria na bagagem, outros carregam ainda dentro de si a esperança de ver todo o mistério desvendado e ainda não se deram por vencidos. O maior aprendizado de tudo isso é que entramos juntos e saímos juntos, um protegendo o outro, demos muitas risadas e mesmo nos momentos mais difíceis, soubemos aguentar firmes e mantermos o grupo unido.
Mais de 2 meses depois, nesse exato momento que escrevo esse relato, o mundo passa por uma transformação que jamais pensávamos passar. Uma pandemia mundial, com um vírus mortal, devasta parte da humanidade e corpos são empilhados em todos os cantos do mundo. Nosso sonho de descer novamente o Puruba, teve que ser adiado, sabe-se lá para quando, tudo é incerto, nem sabemos se vamos sobreviver para lá voltarmos, mas se vivos estivermos, vamos juntar o grupo novamente e da próxima vez, com a previsão do tempo favorável, a vitória vai ser certa, vamos celebrar mais essa conquista e o prazer de continuarmos vivos, explorando um mundo fantástico, resumido em florestas, rios e montanhas quase virgens, numa das mais fascinantes Serras do mundo.
Editado por divanei