Ir para conteúdo
  • Faça parte da nossa comunidade! 

    Encontre companhia para viajar, compartilhe dicas e relatos, faça perguntas e ajude outros viajantes! 

Posts Recomendados

  • Membros de Honra

             Travessia Cuscuzeiro x Forquilha- De Paratí ao Patrimônio

 5f2b028eed892.jpg

    (Vagner, Thiago, Divanei, Trovo e Tomaz )

      Todos em fila indiana. Cabeças baixas, passos lentos e olhares laterais. Respiração presa e movimentos friamente calculados a fim de não irritar nenhum índio. Na hora me lembrei do Alemão Hans Staden, que quase foi devorado pelos índios Tupinambás quando foi capturado nessa região, 500 anos atrás. Agora não era o caso, mas mesmo assim, estávamos apreensivos com aquela situação. Atrás de nós, uns 30 índios nos seguiam, enquanto um que parecia ser o líder, nos dizia desaforos impronunciáveis a fim de mostrar poder e, se a intenção dele era fazer com que nos cagássemos de medo, no tocante a minha pessoa, ele estava tendo um grande sucesso. A caminhada nos leva onde me pareceu ser a casa de reza da aldeia e ali se encontravam alguns velhos índios, que também nos queimavam com os olhos, enquanto alguns de nós pediam perdão, esperando que aquele pesadelo acabasse logo.......................

          Não foram poucas as vezes em que me vi pesquisando sobre a clássica travessia da Trilha do Corisco, uma caminhada que outrora ligava Ubatuba à Parati, cortando as escarpas da Serra do Mar, na divisa entre São Paulo e Rio, partindo na altura da Praia da Fazenda, num dos cenários mais bonitos do país. Acontece que sempre achei uma caminhada muito curta, coisa de um dia, para me deslocar da minha casa no interior paulista até lá. Mas com a chegada dos mapas de satélite e com maior acesso às informações, comecei a notar que no alto da serra poderíamos acessar o PICO DO CUSCUZEIRO, um gigante visto das cercanias de Picinguaba, em formato de um grande vulcão.

5f1206a5ce5f0.jpg

 (foto Thiago silva)

 

          O tempo foi passando e outras montanhas tomaram meu tempo, mas quase todo fim de ano, lá estava eu em Picinguaba ou na praia da Fazenda, olhando para o gigante, assim que o tempo permitia, já que nem era sempre que as nuvens deixavam. Mas eis que um dia o Thiago Silva me manda uma mensagem me convidando para tal empreitada e achei que era essa a deixa para ir lá riscar esse ícone quase desconhecido do montanhismo paulista, da minha lista de montanhas a serem subidas.

5f2b05222c320.jpg

     (Cuscuzeiro e Forquilha)    

          O Pico do Cuscuzeiro é um gigante, em se tratando de Serra do Mar, mais alto que o Pico do Corcovado, e abre a cadeia de montanhas que separa Ubatuba de Parati, no extremo norte paulista, que ainda vai contar com mais 2 montanhas, o FORQUILHA e o Pico do Papagaio. Nossa intenção, portanto, ia muito mais além do que subir o próprio Cuscuzeiro, pensávamos em cruzar toda a serra da divisa, mas não sabíamos nada sobre a continuação dela depois do Cuscuzeiro, nem se havia trilha, tão pouco se a inclinação do terreno permitia um vara-mato selvagem até o cume do Forquilha, mas resolvemos pagar para ver.

          Oito horas da noite de uma sexta-feira, Thiago Silva nos apanha no terminal rodoviário do Tietê, na Capital Paulista, onde eu, o Daniel Trovo e o Vagner já o esperávamos ansiosamente. Aquele era um grupo de respeito, mas ainda faltava conhecer o quinto elemento, um amigo do Thiago que só conheceríamos em Ubatuba.

          A viagem para o litoral foi tranquila, muita conversa sobre expedições passadas e muitas risadas de presepadas presentes, até desembocarmos na charmosa cidade litorânea, vazia por estarmos no inverno. Foi hora de sermos apresentado ao Tomaz Lamosa, um Ubatubense jovem, praticante de artes marciais, mas que nos deixou uma impressão não muito boa, ao aparecer com uma mochilinha do jardim de infância, donde pendia um saco de dormir para fora, parecendo que iria numa excursão de acampamento de igreja, mas logo demos um jeito de ficar mais apresentável, colocando as coisas no seu devido lugar (rsrsrsrsr)

          A recepção do Tomaz foi de primeira, organizou a logística impecável, com um transporte que nos deixaria na boca da trilha, lá nas cercanias do Bairro do Corisco, em Parati, já que optamos por subir a trilha do Corisco partindo do lado Fluminense, por ser menos íngreme e mais curta até o ombro da serra, no marco que divide os 2 Estados.

          Já era alta madrugada quando apeamos um pouco acima do Bairro do Corisco, um fim de estrada até onde achamos que dava para ir motorizado. Mas a estrada continuava, é por ela que seguimos a passos largos. Thiaguinho imprimiu um ritmo alucinante e eu e o Tomaz fomos no encalço dele, mas o Trovo e Vagner que não queriam saber de correria desnecessária, ficaram para trás até nos juntarmos num providencial ponto de água, ainda na estradinha meio que abandonada.

         5f2b0fa690e44.jpg

          A estradinha histórica vai ganhando altura e ficando cada vez mais intransitável, cruza por um rio mais largo, onde passamos pulando pedras para não molhar as botas e uns 3 km desde quando saltamos do veículo, começa a curvar-se para a direita, mas não é para lá que seguimos, vamos abandoná-la em favor de outra estradinha que saí a esquerda, tendo que pular mais um rio e intercepta-la mais à frente. Nesse pedaço, por estar noite, demos uma bobeira e pensamos que a trilha subia paralela ao rio, mas logo sacamos o erro e retornamos e localizamos a estradinha do outro lado do rio e por mais uma meio hora, talvez menos, demos de cara com uma porteira junto a um córrego onde atravessamos e nos estacionamos 100 m mais à frente, junto a uma grande clareira e ali resolvemos dar por encerrada nossa caminhada noturna, porque já se aproximava das três horas da manhã. O local é ótimo para montar barraca, redes, mas eu resolvi apenas bivacar, montar uma loninha e esticar um isolante térmico com meu saco de dormir até que o sol da manhã de sábado viesse para nos dizer que era chegado a hora de recomeçar.

5f2b0f16ca0aa.jpg

          Quando clareou, foi que ficamos sabendo que havíamos adentrado em propriedade particular e acima de onde acampamos, havia uma casa de grande porte e por sorte pareceu estar vazia. Desmontamos tudo, saímos para fora da propriedade, fechamos a porteira e interceptamos a trilha do lado esquerdo de quem chega. Verdade mesmo que é preciso forçar passagem no mato ao lado da cerca para encontrar o rabo da trilha, que logo se estabelece e um minuto depois, surpreendentemente reencontra a estradinha vindo da casa que acampamos. Sem saber, ao interceptarmos a estrada, pegamos para a esquerda, quando o caminho correto é justamente entrar na porteira a direita da trilha, com quem vai adentrar na direção da casa, mas imediatamente subir a esquerda para dentro da mata, agora definitivamente.

          A trilha vai subindo, ganhando altitude, mas as vezes meio confusa e aí é preciso tomar cuidado e se valer da experiência para não se perder ou estar o tempo todo grudado no gps para se manter na direção correta. E assim vamos, subindo aos poucos, passamos pelo último ponto de água e nos abastecemos com 2 litros por pessoa e mais ou menos hora e meia, depois que deixamos o acampamento, tropeçarmos no marco da divisa de Estado, datado de 1954 (720 m), hora de pararmos, jogarmos as mochilas ao chão para um breve descanso e uma alimentação mais descente.

          O MARCO DA DIVISA significa que estamos no ponto mais alto da Trilha da Corisco e se continuássemos por ela, poderíamos descer à Ubatuba por mais uns 7 km até a Casa da Farinha, mas nosso caminho parte a esquerda do marco e agora vai subir um caminho de matar mula por mais ou menos 4 km. Logo no início já é preciso subir se apoiando em uma corda que foi providencialmente instalada ali para diminuir o sofrimento, mas quem aqui sobe com uma cargueira carregada, não vai encontrar nenhuma moleza.

 

   5f29b6fccc484.jpg

( Marco da divisa RJ/SP )

          A caminhada vai seguindo lentamente, muito lentamente, o tempo fechado faz chover sobre nossa carcaça e só nos faz lamentar a possibilidade de chegar no cume e não conseguir ver nada. Mas montanhista experiente já sabe que esse excesso de neblina molhada, é sinal de que vai fazer um grande dia de sol, mas como se aproxima das 11 da manhã, a gente já começa a desconfiar que vamos chegar ao topo com mal tempo. Hora ou outra, um tímido raio de sol aparece para alegrar nossas almas, mas some com uma rapidez impressionante e nos faz voltarmos a praguejar contra a má sorte. Pouco mais de uma hora depois, atingimos um ombro da montanha e vamos galga-la por mais de uma hora até que um pequeno selado se apresenta a nossa frente onde se poderia acampar, mas ainda é cedo para pensar nisso e apertamos o passo para a subida final em busca da gloria, mas a única coisa que vemos é mato atrás de mato, um cume fechado, sem visão para lugar nenhum, uma decepção coletiva e silenciosa.

 5f2c1a592b650.jpg

          Nossa jornada passa por cima do cume, sem nem perceber , já que não existe algo proeminente que nos diga que ali é realmente o ponto mais alto e segue enfrente até que o mundo desaba sob os nossos pés, fim da linha, fim da montanha e por causa da intensa neblina, não conseguimos enxergar um palmo à frente do nariz. Não há grandes árvores no cume , só pequenos arbustos de pouco mais de metro e meio e foi entre  esses arbustos que buscamos alguma visão do litoral de Ubatuba ou da parte voltada para Paratí, mas sem nenhum sucesso, até que um pequeno trilho é encontrado e demos a missão de investigar para o Vagner , que em menos de um minuto  gritava feito um gata copulando no telhado. 

5f2c1b2c56b7e.jpg

          Todo mundo correu como deu e quando lá chegamos, um vento forte soprava e aos poucos o litoral foi descortinando à nossa frente, como a nos dizer : " Venham meus amigos , aqui está o vosso presente, aqui está a recompensa pela vossa ousadia e determinação , apreciaí-vos essa maravilha,  bem vindos ao CUSCUZEIRO ( 1278 M) , o cume mais alto do extremo norte de Ubatuba. 

5f2c1c0e52953.jpg

          O vento que soprava das montanhas em direção ao litoral, fazia as nuvens dançarem. Por baixo da branquidão algodoada, era como se um novo mundo surgisse do nada, um mundo fascinante e encantador, que ia devastando a nossa mente com uma beleza hipnotizante. Um sonho de litoral, um mundo vazio de gente e entupido de sonhos, resumido em praias selvagens num dos mais belos cartões postais do Brasil. Ninguém arreda pé, olhos vidrados, olhares fixos para não perder cada minuto do espetáculo. Lá está a Praia da FAZENDA com o rio Picinguaba lhe inundando de água doce. Lá está o complexo da Ilhas das Couves, pontilhando o litoral de pequenas outras ilhotas. Do lado direito, a Baia de Ubatumirim complementa o cenário que se estende até onde a vista alcança, num mar de montanhas verdejantes como em nenhum outro lugar. Mais abaixo, aos nossos pés, um vale gigante nos encanta com seus abismos até a planície litorânea, por onde repousa a outra metade da Trilha do Corisco até seu fim junto a Casa da Farinha.

5f2c1cfae7821.jpg

          As caras, até então meio carrancudas pela pouca expectativa, agora sorriam por qualquer coisa, afinal de contas, havíamos sido agraciados com aquele espetáculo indescritível, quando já não esperávamos mais nada. Sem querer ir embora, decidimos ficar por mais uma hora no cume, tempo suficiente para cozinharmos um almoço e nos aquecermos ao sol do meio dia. Mas a gente sabia que não poderíamos viver de ilusão, tínhamos uma meta a cumprir, chegamos num pico, que mesmo com trilha consolidada, ainda pode-se contar nos dedos os que já tiveram a honra de lá chegarem, mas dali para frente saltaríamos rumo ao desconhecido, um mundo de incertezas seria o nosso futuro naquela travessia, hora de respirar fundo e deixar que a aventura nos guie .

5f2c1db49c78e.jpg

         5f2c1fd43027f.jpg

          Eu havia traçado um caminho usando as curvas de nível para tentar descer com segurança de cima do Cuscuzeiro em direção ao Pico da Forquilha, mas esperávamos encontrar uma trilha que nos conduzisse direto para ele. Na nossa inocência, achávamos que outros montanhistas pudessem vislumbrar o mesmo que nós, mas outra vez quebramos a cara. Ali, onde o Cuscuzeiro simplesmente deixa de existir, só abismos profundos foi o que encontramos e sem muito tempo a perder, nos jogamos para o vazio, já descendo para os degraus mais abaixo da montanha, como a dar adeus para o cume de um cuscuz, como a deslizar de cima de um bico de funil e começar a nos perder na descida de um vulcão.

5f2b105a4213d.jpg

          Eu e o Thiaguinho vamos à frente, colados um ao outro e alguns metros abaixo do cume, já foi o suficiente para nos darmos conta da encrenca em que havíamos nos metido: Nos penduramos numa árvore e nos jogamos de cima dela para o fundo do vale, bem a tempo de parar antes que fossemos tragados pelo nada. Atrás de nós, Tomaz, Daniel Trovo e Vagner já começaram a caçar outra rota porque se ligaram que aquela era suicida. Trovo tomou a dianteira e encontrou uma passagem junto a uma grande rocha e abriu caminho lateralmente, mas logo se viu acuado pelo abismo que lhe chamava, mas recusando o convite, deu passagem para que o Vagner tentasse. Vagner, macaco velho, já deitou no chão e gritou para o abismo que o dia dele estava contado. Alguém gritou para que sacassem a corda que o bicho ia pegar, mas o Vagner se atirou numa canaleta rochosa e deslizou nela usando a força da gravidade, até repousar em segurança no fundo do buraco.  Sem perder tempo, usamos a canaleta como tobogã e um a um fomos baixando, um festival de rolagem e eu me enrosquei num cipó e fiquei pendurado feito Siri no pau até que alguém conseguiu me libertar para que eu despencasse e fosse também repousar num patamar mais abaixo.

          As encrencas iam sendo resolvidas conforme iam surgindo e por sorte, não demorou muito para encontrarmos um filete de água, o suficiente para molharmos a goela e nos alegramos com a possibilidade de não passar mais sede naquela travessia. A vegetação se alterna entre palmeiras, cipós espinhudos e bambus entrelaçados, aquela vegetação típica de altitude da Serra do Mar, seca e que vai enervando a gente, mas logo o filete de água vai ganhando corpo e vai nos proporcionando um corredor que vai sendo cavado, agora por um riacho e é por ele que vamos, desescalando pequenas cachoeirinhas e de olho na direção. Mas chega uma hora que a inclinação do riacho nos obriga a cair fora e tentar seguir pela crista rumo ao nosso primeiro objetivo, que era um selado antes da subida final do cume que buscávamos.

          A tarde já era nossa companheira e o avanço pela vegetação era lento e modorrento, corcovavas  vão sendo subidas e descidas, sempre tentando acompanhar a linha previamente traçada até que desembocamos no SELADO, um marco importante, mas que surpreendentemente não encontramos nenhuma trilha de conexão que pudesse nos dar um caminho fácil até o cume do Forquilha. Até encontramos uma marca de facão, mas estava claro que poderia ser alguma passagem entre as 2 montanhas, mas nada que denunciasse que alguém tenha subido ao cume por ali. O selado em questão era uma área muito promissor para se acampar, mas a expectativa de podermos pegar um possível pôr do sol no cume, fez com que tirássemos força sei lá de onde para continuar.

5f2c1ff578ab6.jpg

          E é mesmo uma subida dos diabos, uma parede em pé onde é preciso ir se agarrando onde dá para não voltar a descer novamente, ir desviando de algumas grandes rochas, procurando um caminho mais desimpedido, subindo cada ombro , cada curva topográfica até que uma hora depois, estávamos encima do platô , faltava apenas localizar onde seria o ponto que marcava o cume daquela montanha isolada do mundo, no meio da linha que divide os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a meio caminho de lugar nenhum, numa quiçaça de dar dó. Bambuzinhos vão sendo arrastados no peito, pequenos arbustos são cruzados, as vezes nos rastejando para um melhor deslocamento. Em algum lugar ali haveríamos de localizar o cume exato, um lugar que nos desse uma vista do horizonte, mas a noite foi caindo e a gente não avançava e para piorar, não havia um só lugar para montarmos nossas barracas.

          Por causa da densa neblina, a vegetação encharcou toda nossa roupa e alguns de nós já estava com muito frio e não via a hora de acampar, mas cada vez mais, nos enfiávamos em algum buraco, tentando localizar algo descende para passar a noite. Até achamos uma pedra que poderia nos dar um abrigo, mas uma urubu fêmea chocava um ovo embaixo dela e a todo momento nos dizia que não seria um bom negócio usar ali de casa. O desespero aumentou, já estávamos no nosso último bastão de energia e quando alguém gritou que iria ficar por ali mesmo, foi a deixa para os outros jogarem suas mochilas ao chão e dar por encerrado aquele dia de caminhada.

          Aquela área para acampar era o que tinha de pior, não havia um palmo de terra plana e para piorar, beirava um barranco de uma dezena de metros. Não havia o que fazer, não havia como limpar coisa alguma, era jogar as barracas encima das raízes e assimilar o duro golpe. O Daniel Trovo estava de rede e conseguiu monta-la, usando 2 arremedos de árvore, bem ou mal resolveu seu problema. Tomaz e Thiaguinho iriam dividir uma barraca em conjunto e o Vagner acamparia numa barraca individual e esses 3 últimos se foderam bonito, tendo que aguentar pau no lombo a noite inteira. Eu estava sem rede e sem barraca, havia levado apenas um isolante térmico e um plástico mequetrefe, mas encontrei um lugar incrível embaixo de uma grande rocha e ali montei meu bivac, um grande achado que me proporcionaria uma noite de sono perfeita e assim que a janta ficou pronto, me joguei para debaixo dela e dormi por 12 horas quase seguidas, até que o sol viesse nos dizer que era hora de voltar para a aventura.

 

5f2c1e59d3a89.jpg

          O dia nasceu radiante, mas os meninos das barracas amaldiçoaram a noite mal dormida. Uma choradeira dos infernos! Nosso plano de continuar galgando a crista da serra foi por água abaixo, sabíamos que era impossível realizar tal façanha de descer o Forquilha e emendar com a Crista do Papagaio num dia só, então havia chegado a hora de pormos em pratica o plano B, traçado justamente para ser usado caso isso acontecesse, mas os caras das barracas (Thiago e Tomaz) tramaram um motim durante a noite e quando o dia nasceu, haviam decidido que mandaria também o plano B a merda e traçariam um plano C. O plano B consistia em descer o Forquilha pela sua continuação em direção ao Papagaio e quando chegássemos no selado, viraríamos a esquerda e interceptaríamos uma possível trilha que nos levaria direto para a estrada e para o Bairro do Patrimônio, junto à Rio-Santos. Mas diante da possibilidade de ter que voltar a arrastar bambu no peito por mais um pedaço da crista e depois enfrentar um desnível de abismos gigantes, eles resolveram que tentaríamos começar a descer imediatamente, mas antes, para marcar nossa presença ilustre naquela montanha isolada do mundo, deixamos um livro de cume, uma CAPSULA DO TEMPO, improvisada com uma garrafa, onde um manuscrito exibe a data, o nome dos exploradores e o caminho que fizeram para até ali chegarem.

5f19e9baede0c.jpg

         ( capsula do tempo)

          Pois bem, falamos de tudo, mas faltou falar do principal, daquilo que nos leva a empreender tal jornada árdua para subir esse tipo de montanha: As largas vistas que presenteiam nossas almas. Tomando, portanto, o rumo leste, que é a direção na reta de Parati, escalamos a rocha que eu havia bivacado embaixo e ascendemos ao cume, simplesmente para descobrimos que era ali que estava o nosso presente. Diante de nossos olhos a imponência gigantesca da encosta do Cuscuzeiro, que havíamos descido no dia anterior. Não tivemos duvidas, ali marcava o topo daquela montanha, o PICO DA FORQUILHA ( 957 m ) estava ao nossos pés e de cima dele as largas vistas da Baia de Parati, de toda a Reserva da Joatinga , Ilha Grande e por incrível que parece, até o imponente Pico do Frade desfilava na paisagem. A visão lá de cima é realmente grandiosa e a gente estava feliz de ter podido no último minuto, encontrar essa visão lá de cima e aproveitando que ali estávamos, era hora de aproveitar para desenvolver melhor a nossa fuga lá de cima.

5f19eaba89b3d.jpg

 

 

 

5f19ea8ea9486.jpg

         ( Ao fundo Baia de Parati-RJ)

 

          Tomamos em mãos o mapa eletrônico, nos baseando no satélite e na carta topográfica. De cima do Forquilha, localizamos ao longe em meio a floresta, uma habitação solitária, de onde saia fumaça pela sua chaminé. Se há uma casa, com certeza teríamos uma rota de fuga, que nos levaria ao litoral. Azimutamos a direção e calculamos que poderíamos lá chegar em cerca de umas 4 horas de caminhada, um cálculo cretino, só para animar o grupo, porque na real mesmo, não tínhamos a menor ideia de como seria a nossa descida e o que a jornada até lá nos reservaria. Traçado o plano e estratégia, abandonamos o cume do Forquilha e já despencamos da pedra em direção ao vale, tentando achar um caminho que nos fizesse ir perdendo altitude, mas outra vez nos vimos acuados numa encosta de abismos perigosos, desescalando barrancos escorregadios, onde lajes pedregosas, pontilhada por vegetação rasteira e arbustos soltos, iam nos dizendo que a gente havia entrado em outra encrenca. Trovo e Vagner tomam à frente e vão nos metendo em uma roubada atrás da outra e a gente vai vendo que aquele caminho começa a nos levar para uma rota suicida, onde apenas samambaias soltas são o fio que nos segura antes da desgraça final. É hora de parar, analisar e ter a consciência que a rota tem que ser mudada e é justamente isso que os caras da frente fazem, tomam a rota lateral, numa diagonal reta para a esquerda a fim de ganharem uma linha de árvores e retomarmos novamente a direção combinada.

          A estratégia deu resultado e não demora muito cruzamos por uma nascente de onde brota um filete de água, que vai se encaminhando por cima de uma pedra lisa dentro da floresta de árvores gigantes. Uma descida rápida em meio à vegetação mais fechada, nos leva a um degrau e ali um grito dado por um membro da equipe faz com que paremos imediatamente: “ Uma ponte gente, corre aqui, tem uma ponte atravessando para o outro lado”. Eu estava atrás e logo levei um susto. Aquilo era inacreditável, estávamos numa encosta de montanha onde era possível que jamais teria recebido pés humanos e como poderia uma ponte naquela altitude, que aparentemente não ligaria nada a lugar nenhum. Corremos para ver a tal ponte e lá só encontramos um tronco velho, caído encima de uma laje de pedra, nada mais que isso, pura obra da natureza. Tomaz Lamosa, o menino da mochilinha dourada, já começava a ter alucinações naquela descida e a gente achando que Lamosa era sobrenome muito pomposo para compor aquela expedição de gente rude e sem grife, resolvemos batizar nosso novo amigo como Tomaz Pontes e assim será chamado nas expedições em que esse valoroso expedicionário participar em nossa companhia.

5f2b1127173a8.jpg

          Estávamos agora enfiados dentro de um vale profundo, justamente por onde a nascente que encontramos corria e ia cada vez mais se transformando num rio. Pulando pedra por dentro do riacho ou até mesmo tendo que subir o barranco para nos livrarmos dos degraus de mais de uma dezena de metros, vamos prosseguindo a trancos e barrancos, mas nos preocupa a direção que aquele rio vai tomando, abrindo muito para a esquerda, nos tirando da direção traçada. A tarefa é árdua, o rio vai aumentando de volume e pequenas cachoeiras começam a despencar em vales cada vez mais profundo. A hora vai passando e a gente perdendo altitude vagarosamente até que ao avistarmos um grande poço, resolvemos nos deter por um instante para comer alguma coisa, enquanto alguns corajosos resolvem se jogar na água fria daquele final de manhã, gente sem noção, porque para mim, quem faz isso no inverno, é capaz de qualquer coisa. ( rsrsrsrs)

 5f2b07238f656.jpg

          Havíamos decidido que qual fosse o rumo que aquele rio tomasse, seria por ele que seguiríamos, na esperança de quando chegasse ao fundo do vale, poderíamos encontrar alguma trilha junto a talvez, algum rio maior, mas um golpe de sorte, ou talvez nem tanto, viria para mudar o rumo daquela expedição, algo que jamais esperaríamos, algo que transformaria uma travessia de montanha em mais uma experiência para contar para os nossos netos.

          Saímos do rio e fomos margeando, sempre andando a não mais que uns 50 metros da margem, quando se supetão alguém gritou que haviam encontrado um rabo de trilha, um arremedo de caminho, mas estava claro que não era trilha de bicho e quando um corte de facão na diagonal de um galho foi encontrado, tivemos certeza de que poderíamos contar com uma saída mais rápida daquela expedição. Mas nem precisou ir muito longe, 15 minutos de caminhada nos levou ao que nos pareceu ser uma ponte no meio da floresta, agora algo feito pelas mãos humanas, mas logo percebemos que era apenas um tablado grande, onde era usado como apoio para cortar madeira. Logo imaginei que poderia ser um daqueles lugares usados para se construir canoas parcialmente, quando se derruba uma árvore gigante e lapida-se até ficar no formato da embarcação, aliviando o peso da mesma até que se aguente puxa-la para fora do mato.

5f2b07707fdc5.jpg

          A minha tese não foi confirmada, mas isso pouco importava, o certo era que a partir dali, uma trilha consolidada nos serviria de caminho. Num primeiro momento ficamos apreensivos porque poderia haver algum rancho de caçadores por perto e não seria muito bom para nós, irmos chegando de supetão, vindos de lugar nenhum. Caminhando devagar e em silêncio, poucos minutos foram o suficiente para eu avistar um telhado reluzente entre as folhagens e já cantar a bola para que os cuidados fossem redobrados e 5 minutos depois a trilha deixou de existir e deu lugar para um roçado em um descampado, num morro na descendência, donde do outro lado, também encima de outro morrote, sem que estivéssemos preparados, um amontoado de casas foi nos apresentados pelo destino.

5f29b49e2e6b6.jpg

 

          Sem óculos e sem acreditar naquilo que meus olhos pareciam ver, esperei que o meu cérebro processasse a informação: Puta que o pariu, aquilo era uma tribo indígena ou eu estava vendo coisas? À frente seguia o Thiaguinho e o Pontes, ninguém os escolheu para serem os caras que iriam fazer o contato antropológico, mas nessa vida tem que ter uns trouxas para liderarem, mas esses aí entraram mesmo de gaito no navio e coube a eles botarem o peito para levarem a primeira flechada e, ela veio, mas veio sem dó e nem piedade, aquela intimada que ecoou desde o Cuscuzeiro até Forquilha:

         - PAREM IMEDIATAMENTE, SE APRESENTEM ANTES DE CHEGAR.

         Nessa hora nem sei para onde foi parar o Daniel Trovo, eu já fiz menção de sair correndo de volta para a mata, mas logo vi que seria inútil, principalmente porque tudo que era índio daquela tribo, resolveu abandonar sua maloca e ir ver que quiproquó era aquele que estava acontecendo. À minha frente, e atrás dos nossos “antropólogos”, Vagner parecia o documentarista de uma expedição sertanistas, filmando e fotografando os novos povos da floresta, parecia alheio a gravidade do problema, cagando e andando para a situação, mas logo foi atingido por uma flecha certeira:

       - PODE PARAR DE TIRAR FOTO DE ALDEIA, NÃO É PARA TIRAR FOTO DE ÍNDIO NÃO !

          O instrumento do nosso documentarista de araque, que na verdade era seu celular, quase rodopiou no ar e em um segundo já foi parar no fundo da mochila e esse coitado foi outro que teria fugido comigo para o mato se pudesse.

          Enquanto isso, Thiaguinho e Tomaz Pontes gaguejavam mais que carro velho à álcool no inverno, tentando explicar o inexplicável, muito porque os índios não estavam a fim de ouvir explicações cretinas.

         - QUEM É O GUIA DE VOCES? ESTÃO INVADINDO TERRA DE ÍNDIO. VOCES ESTÃO VINDO DE ONDE? ESTÃO PERDIDOS?

         
         Aquelas eram perguntas que não podíamos responder, eram flechadas que não conseguíamos nos desviar. A comunicação era aos berros, mas nós berrávamos mansos, enquanto eles nos derrubavam com as palavras. Aos poucos, vendo que a vaca já havia ido para o brejo, nos juntamos em um só grupo. Ali, naquela maloca de índios, éramos reféns do destino, estávamos a mercê das circunstâncias, não dependíamos mais de nós, já não controlávamos mais a situação e eu já estava extremamente nervoso pelo rumo que aquilo estava tomando.

          De cima do morrote, esse índio que parecia querer mostrar poder, nos dizia palavras duras e impronunciáveis. Uma velha índia pede que esse líder nos pergunte se temos armas, mas ele não nos repassa a pergunta, apenas continua a nos esculhambar.

          - VOCES NÃO PODERIAM INVADIAR TERRA INDÍGENA, VÃO EMBORA SE NÃO VAMOS CHAMAR O REPRESENTANTE.

          Não ficou claro se ele iria chamar o representante máximo da tribo, talvez o verdadeiro CACIC ou se ele estaria se referindo ao pessoal da Funai, ou órgão Federal que lhes dá apoio, mas para a gente pouco importava, queríamos era sair voados dali imediatamente, picar a mula para o mato, cortar volta, desaparecer da frente deles, sumir no tempo e no espaço.

          Atendendo à solicitação do índio, começamos nosso processo de cair fora de lá e fomos nos dirigindo pela esquerda do morrote, como a dar a volta na aldeia para cair na capoeira. Fomos cruzando o pequeno roçado, agora no máximo uns 20 metros de onde a tribo nos observava e finalmente começamos a achar que o pesadelo estava próximo do fim, íamos passar e ir embora definitivamente, mas outra flecha foi nos atirada, uma flechada agora à queima roupa.

         - NÃO, NÃO, NÃO ! PODEM SUBIR, VENHAM PARA O MEIO DA TRIBO, VÃO PASSAR POR AQUI AGORA.

          Viche , agora fudeu ! Estava claro que não iam nos deixar ir embora assim, primeiro era preciso nos impor uma humilhação que talvez até merecêssemos, mas eu particularmente já estava no meu limite de apreensão, sabíamos que nada poderíamos fazer, nem nos defender poderíamos, éramos seres indefesos diante daquela situação. Em fila indiana, um atrás do outro, subimos do roçado para o meio da tribo. Alguns de nós só fazia era pedir desculpas, perdão por ter ido parar ali, mas eu se pudesse, já estaria era implorando clemencia.

          Agora atrás de nós, uma multidão de índios nos empurrava, nos encurralava para o meio da aldeia, um lugar onde me pareceu ser a casa de reza, o barracão das festas tradicionais. Sob uma saraivada de impropérios, seguíamos a passos lentos, respiração presa, sem movimentos bruscos que viesse a irritar qualquer um índio daqueles. Eram velhos, mulheres, homens, crianças, índio magro, índio gordo, sei lá, tinha de tudo atrás de nós.

          A situação era desfavorável, mas segundos de pensamentos tem o poder de nos remeter ao passado, um passado muito distante, mas o cérebro não quer nem saber, quer sabotar nossa capacidade de acreditar que tudo vai dar certo e logo me traz à tona a história, faz nos lembrar de que no passado, aqui mesmo nessa região, os índios Tupinambás teriam nos devorado em rituais antropofágicos, que começava , numa narração simples e simplória, por dar uma paulada na cabeça e depois outro pau era enfiado no rabo para que nada de lá saísse. Por sorte os tempos são outros, a tribo é outra, mas por azar, nós somos nós mesmos.

5f2b15bcb2e40.jpg

          Enfrente a casa de reza, alguns velhos índios conversavam em línguas estranhas, talvez em tupi, certamente não era português e se nada compreendemos, pelo menos esses xingamentos também não absorvemos, mas dos olhares nos queimando não tivemos como escapar. Ali era o ponto crucial, o centro da aldeia, era ali que a questão teria que ser resolvida. 

          A gente continuava implorando para ir embora, mas sem deixar de caminhar, apenas olhando de rabo de olho, mostrando humildade e sem querer afrontar nenhum daqueles índios. A multidão nos seguia, não sei qual o propósito daquele cortejo, mas o alivio só veio quando o índio mais bravo gritou:

         - PEGUEM ESSA ESTRADA E SUMAM DAQUI!

          Mais que depressa quebramos a direita e ganhamos o caminho de terra batida, descendo do morrote em direção à um córrego de aguas cristalinas, uns 100 metros mais abaixo, mas na minha cabeça só havia uma frase que não escapuliu por muito pouco: COOOOOOORRE NEGADA! ( rsrsrsr)

          Mais que depressa e sem perder tempo, nos pusemos a caminhar aceleradamente, na tentativa de sairmos o mais rápido possível das vistas dos índios, mas eles não arredaram pé do alto do morro, muitos com o peito estufado, felizes de terem nos enxotados de lá feito cães sarnentos. Menos de 5 minutos nos leva até o riacho, onde uma placa intimidatória nos avisa que ali é a Reserva Indígena , com entrada proibida, mas no caso nem nos preocupamos, já estávamos saindo mesmo e ali nos vimos mais aliviados, pensando já estarmos a salvo da “panela”, mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar.

 5f29b53dee46e.jpg

          Enquanto os índios ainda nos fitavam com cara de poucos amigos de cima do morro, tratamos logo de subir a ladeira que nos levaria em definitivo para longe das vistas deles, mas 100 metros acima, quando o terreno se nivela, uma paulada nas nossas esperanças foi dada pelo destino: Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo, mais uma vez estávamos encurralados. À nossa frente, estacionado bem na nossa passagem, um carro do Órgão Federal nos "convidava" para arrancar as nossas penas. Mas que inferno! Não tínhamos nem acabado de nos recuperar da experiência traumáticas com os índios e já teríamos que enfrentarmos mais um pesadelo. E agora era muito sério, se aqueles caras que protegem os índios nos pegassem, iriam arrancar o nosso couro, seríamos multados, esculachados, estuprados, espancados e talvez conduzidos para uma delegacia, onde mais uma vez iram arrancar a nossa pele ou o que sobrasse dela. Pelo menos era isso que passava na minha cabeça, enquanto andávamos à passos lentos e modorrentos em direção aos nossos novos algozes.

          Nessa hora, por azar, estou à frente. Nem respiro, arrasto meus pés como quem monta uma defesa para não ir à lugar nenhum. Se pudesse teria parado os batimentos cardíacos para não fazer qualquer barulho, mas é aí que o coração desanda a bater rapidamente, com uma substancia que inunda o estomago e faz as pernas dar uma amolecida. Dou uma olhada de rabo de olho para ver se alcanço a profundidade do problema, ao mesmo tempo que rezo para que meus olhos não consigam mirar outros olhos humanos. A estratégia não dá certo, abaixo a cabeça e passo ao lado do veículo branco e noto estar vazio. Na sede do Órgão Federal, do lado direito, simplesmente não consigo enxergar, não posso nem relatar do que se trata, apenas deixo que o meu cérebro me conduza para longe e só paro quando uma curva mais à frente nos tira das vistas de quem quer que seja. Já passava do meio dia e muito provavelmente a fiscalização deveria estar almoçando e antes mesmo que a gente virasse a sobremesa, desembestamos ladeira abaixo e só paramos quando a estradinha nos desovou em uma estrada maior, já fora da reserva indígena – mais uma vez à salvos, mas passou perto. UFA!

5f2b11d74168a.jpg

          Somos agora um grupo em êxtase! Cinco aventureiros maravilhados com a Aventura vivida, com o desdobramento que aquela expedição acabou nos levando. Parecemos não acreditar no que acabávamos de presenciar. Atrás de nós, todo o esplendor da Serra que divide Rio e São Paulo, desde o Cuscuzeiro, passando pelo Forquilha até a sensacional Serra do Papagaio.

 5f2b129841807.jpg

          A euforia acaba por tomar conta do grupo e virando à esquerda, depois que deixamos a estradinha da aldeia, nos pomos a caminhar numa leveza estonteante, quase a levitar pela alegria da conquista e quando nos deparamos com a ponte que cruza por cima do RIO PARATÍ-MIRIM, justamente o mesmo rio que descemos desde o Forquilha, jogamos as mochilas ao chão e comemoramos o nosso sucesso, não só da empreitada, mas de sabermos que escrevemos mais um capítulo de uma vida bem vivida.

5f2b12ce3dc15.jpg

         5f2b136947be7.jpg

          Aproveitamos o rio, não só para lavar a alma, mas também para nos livrarmos do barro impregnado nas nossas roupas, já que saímos dessa travessia só o farrapo humano. O caminho à frente nos reserva uma caminhada tranquila e como o sol estava bem quente, 40 minutos depois nos detemos em mais um rio para fazermos um lanche e em outros 40 minutos já adentrávamos no Povoado do Patrimônio, onde o pai do Tomaz nos esperava para nos dar uma carona salvadora de volta para Ubatuba.

          Era para ser uma travessia entre montanhas, uma caminhada selvagem até o topo desconhecido( Forquilha) ou quase nunca frequentado de uma montanha perdida no extremo norte de Ubatuba, mas o destino fez com que pudéssemos viver uma grande aventura, um encontro inusitado com esses maravilhosos povos da floresta, um choque cultural inusitado, não programado, até um pouco conturbado, mas encantadoramente surpreendente. Saímos dessa travessia inebriados pelo momento vivido, pela experiência adquirida, pelo novo amigo que ganhamos, o mesmo que nos fez torcer o nariz com uma mochilinha de escola, mas que surpreendeu com bom humor e competência. E essa aventura entra para o nosso vasto currículo de roubadas e perrengues memoráveis, numa busca incansável por fazer a vida valer a pena.

5f2c223c5aa4d.jpg

 

         IMPORTANTE: Esse relato reflete o sentimento de quem o escreveu, sua visão de ver a aventura e talvez não seja a mesma visão dos outros participante. Por vezes , mesmo sendo uma escrita rude e de quem conhece pouco da lingua portuguesa, há de se conisiderar as licenças poéticas e literárias, mas mesmo assim, o texto se mantendo fiel aos acontecimentos.

                                                                                           Divanei - junho - 2018

Link para o post
Compartilhar em outros sites

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisar ser um membro para fazer um comentário

Criar uma conta

Crie uma nova conta em nossa comunidade. É fácil!

Crie uma nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Entrar Agora
  • Conteúdo Similar

    • Por divanei
      VALE DO RIO RIO PURUBA- Serra do Mar Paulista
       
                Na calma e serena foz do Rio Puruba, onde ele se junta ao Quiririm, na praia de mesmo nome, canoas caiçaras vão e vem, fazendo a travessia de banhistas que não querem se dar ao trabalho de atravessar o rio com a água pela cintura. A praia do Puruba figura entre as mais belas praias do litoral de Ubatuba, se mantendo ainda selvagem e quase que isolada e é justamente por abrigar dois grandes rios que ali faz sua foz, que a torna uma das mais charmosas praias do litoral do Brasil. Quem por lá passa e se dá ao deleite de desfrutar desse paraíso, jamais consegue imaginar a fúria que o Puruba exerce sobre os contrafortes da Muralha da Serra do Mar, se jogando em cânions gigantescos num dos maiores desníveis do litoral Paulista. E é nesse cenário, com o mundo se acabando em chuvas, que nove homens tentam escapar do inferno em que se meteram, tentando atravessar o monstro ruidoso, da sua nascente até o litoral, entre pedras que rolam, abismos escorregadios, torrentes de águas avassaladoras. E é com homens à beira do limite físico e emocional, que essa história vai se desenrolar, uma aventura para poucos, no coração da Selva Paulista.

       
        (Abaixo Praia do Puruba)

       
       
       

        ( Os Exploradores - Divanei,Thiago,Flórido,Régis,Rafael,Vagner,Potenza,Luciano e Júlio)   
                O GRANDE Rio Puruba nasce aos pés do ALTO GRANDE (1662 m), na divisa Cunha, Paratí e Ubatuba, uma montanha que marca o CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, na sua porção litorânea, inclusive essa mesma montanha foi oficialmente medida por nós na Expedição de 2019 (https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report )   , onde deixamos também um livro de cume, tanto no Alto Grande, quanto na Pedra do Espelho, outro ícone da região. É incrível poder atravessar o Puruba com não mais que um palmo de água, mas depois ele vai crescendo, ganhando outros afluentes e serpenteando floresta à dentro por uns 10 km até se jogar abruptamente do Planalto Paulista em direção à Planície litorânea.

         ( Foz do rio Puruba- foto tirada em outra caminhada)-https://aventurebox.com/divanei/travessia-picinguaba-x-puruba-10-praias-em-ubatuba-sp/report
                A intenção de desbravar o Vale do Rio Puruba, nasceu na minha cabeça muitos anos atrás, mas só voltou à tona depois que conhecemos o Thiago e o Flórido, dois andarilhos do extremo litoral norte e quando fechamos o projeto, coube a eles a incumbência de irem lá nos Campos de Cunha, no alto da serra, investigar o caminho que nos levaria às bordas da Serra do Mar, onde o grande rio se joga em direção ao litoral. Se juntaram aos dois exploradores o menino Júlio e quando voltaram da missão, trouxeram na bagagem um caminho pronto até o grande Lago Superior, um ponto que marcamos no mapa como crucial para iniciarmos a descida.
                Foram meses de discussão sobre esse projeto e no final acabamos por formar um grupo bem heterogêneo, tanto que eu cheguei a confessar para alguns em off, que essa descida iria separar homens de meninos, devido à dificuldade da empreitada. O desnível do rio era algo que talvez a gente jamais tivesse enfrentado antes e como era um grupo com alguns ainda sem aquela experiência mais consistente, a chance de haver dificuldades seria realmente enorme, mas pelo menos estávamos todos animados e bem preparados quanto aos equipamentos de segurança.
                Formado o grupo, partimos em uma Van da Rodoviário do Tietê, na capital Paulista, em direção à Cunha e ao longo do trajeto, fomos colocando a conversa em dia e revendo os planos traçados e quando lá chegamos, na alta madrugada, ainda tivemos que rodar por mais 30km, boa parte numa estradinha de terra, até que essa estrada já não tivesse mais condições de prosseguir motorizados. Nos pomos a caminhar na escuridão da noite e quando interceptamos uma mansão em reforma no alto de um morro, não tivemos dúvidas, nos jogamos para dentro dela e por lá ficamos, descansando o esqueleto até que o sol se levantasse e nos dissesse que era hora de partir.
                Nove homens animadíssimos seguem a passos firmes e decididos, ainda mais por termos sido surpreendidos com um dia ensolarado daqueles, muito porque, a previsão era de chuvas intensas durante quase todo o feriado de Carnaval, mas aquela belezura de tempo não duraria muito. Vamos atravessando sítios e porteiras, campos e pastos, fugindo de vacas invocadas, até que adentramos na mata fechada e começamos a descer em direção a um afluente do Rio Puruba e ao tropeçarmos com uma cachoeirinha, resolvemos seguir por dentro dele até que ele interceptasse o próprio Puruba, justamente no lago que havíamos marcado como referência. Foi uma caminhada rápida e nosso relógio marcava pouco depois das dez da manhã, a primeira parte do nosso objetivo estava cumprido com sucesso.
       
                Como previu a meteorologia, o tempo virou repentinamente, mas nem o sol da manhã foi capaz de diminuir a vazão do rio que se mantinha cheio e bufando. Do lago encontrado, partiu uma discreta trilha descendo na margem direita do rio, talvez usada por caçadores e palmiteiros, mas quinze minutos depois ela abandona o rio e vai morrer mais acima e é nessa hora que o Puruba vai se jogar nos abismos da serra, hora de abandonarmos também a tal trilha e nos jogarmos junto com o rio para um mundo desconhecido e sombrio. Desse ponto em diante, vamos entrar no coração da Serra do Mar, onde provavelmente ninguém tenha pisado e se pisaram, foram tão poucos que não contaram para ninguém.
                O vazio se apresentou à nossa frente, um abismo medonho, donde teríamos que nos valer de uma rampa escorregadia para acessarmos a primeira queda do rio. Já logo me espanta a cara de horror feita pelo Rafael, olhos arregalados diante do problema que se apresentou à nossa frente , querendo continuar subindo pela trilha, sem nem saber para onde o caminho iria dar, mas foi preciso lembra-lo qual era o objetivo daquela expedição e sem ter o que fazer, ele se jogou atrás de nós e foi escorregando floresta a baixo, resmungando e amaldiçoando o desgraçado que resolveu tomar aquele caminho e essa reclamação era totalmente procedente porque por  pouco,  alguns não foram rolar barranco a baixo diante daquela parede íngreme.
                Quando chegamos de volta ao rio, junto a uma cachoeira, nos posicionamos no seu patamar, na cabeceira de outro abismo e ali vimos a chuva chegar de vez e nos avisar que aquela expedição seria muito mais difícil do que esperávamos. Mesmo assim, ainda nos mantínhamos confiantes de que se passássemos pelo quilometro inicial, poderíamos ter êxito, mas ainda sabedores que era algo que talvez jamais tivéssemos enfrentado nesses anos de expedições selvagens. Abandonamos a primeira queda e pela direita fomos perdendo altitude, mas o terreno resolveu nos dar as boas-vindas de vez: Pedras e mais pedras rolavam ao menor toque e faziam com que os que iam mais abaixo, tivessem que se esquivar para não serem atingidos.

       
       
                Aos trancos e barrancos, conseguimos descer ao próximo lance, de onde uma CACHOEIRA enorme despencava. É preciso dizer que foi até aqui que o grupo que fez a primeira incursão exploratória chegou e batizaram-na de VAPOR BARATO, uma alusão a uma água que era aspersada ao bater em um tronco de madeira preso no meio da queda. Era realmente uma queda extraordinária, mas sem um grande poço do qual pudéssemos nadar, além do mais, a temperatura com a chuva começou a baixar e só um ou outro maluco se deu ao trabalho de se enfiar embaixo dela para uma foto mais ousada.

                 A chuva chegou de vez, não uma chuvica molha bobo, mas um dilúvio que era amparado pela floresta antes de despencar nas nossas cabeças. Abaixo da Cachoeira Vapor Barato, decidimos que teríamos que cruzar o rio para seu lado esquerdo, aliás, essa decisão já havia sido tomada em casa com bases nas curvas de nível da carta topográfica. Com uma corrente humana, tentando proteger para que ninguém do grupo virasse pica-pau sem barril, passamos um a um em meio a água extremamente gelada e na tentativa se salvar as bolas, alguns quase que levitaram, mas por causa da profundidade e da correnteza, não molhar as costas já era lucro.
                O rio era simplesmente um funil desabando no abismo profundo e ter que escalar barranco foi se tornando a regra daquela travessia. Tínhamos que subir e ao chegarmos a certa altura, mandávamos uma diagonal de volta para o leito, mas pelo tamanho dos matacões que formavam seu curso, ficava quase impossível desescalar e tocava a gente voltar para as paredes gigantes e escorregadias, sempre tentando encontrar os melhores caminhos até retornarmos para a água. Interceptamos mais uma grande cachoeira de onde o rio se jogava em fúria. Infelizmente não havia poços para os mais ousados nadar e os que ainda tinham coragem e pouco juízo, se metiam de meio corpo dentro da cortina d’água, mas eu mesmo só olhei, já estava sofrendo com as baixas temperatura e não queria correr o risco de ter que gastar mais energia para tentar reaquecer o corpo.

                Descemos um pouco mais de rio, perdendo altitude vagarosamente, nos metendo embaixo de grandes pedras e passando com a água quase acima da linha da cintura, mas sempre atentos com a possibilidade de o rio subir mais ainda e nos arrastar. Os obstáculos iam sendo vencidos, metro a metro, centímetro a centímetro, mas chegou uma hora que o rio simplesmente nos empurrou de volta para as paredes rochosas novamente. O grupo estava cansado e não era nem três da tarde, mas os esforços iam minando a energia da gente e a chuva gelada nos jogava para um caminho perigoso, porque parte do grupo parecia já não conseguir mais gerar calor.
                O terreno simplesmente não ajudou, não conseguíamos mais voltar para o leito do rio e a cada subida, crescia a ansiedade de alguns e quando o caminho chegou ao fim num abismo, foi preciso parar e pensar numa solução: Raramente carregamos equipamento de rapel, às vezes uma cordinha de duas dezenas de metros para uma descida mais perigosa, mas dessa vez o Júlio resolveu carregar uma corda de rapel de uns 30 metros e alguns equipamentos. Na beira do barranco de uns 20 metros, decidimos que era hora de instalarmos a corda para voltarmos para o rio. Instalada a corda, o Vagner foi o primeiro a se pendurar, mas dispensou quaisquer outros equipamentos e se pendurou daquele fio molhado e despencou com mochila e tudo. O Júlio perguntou se eu precisava que ele montasse o freio e eu vendo que o Vagner desceu sem, apenas respondi que iria descer no “modo sertanista”, na mão mesmo.
                Me agarrei à corda molhada e me posicionei com os pés paralelo ao barranco, olhar firme, corpo ereto, passadas decidias de um explorador das antigas. Mas não demorou muito para sentir o peso da mochila e da gravidade a me puxar para o fundo do barranco. A mão começou a queimar, mesmo com luva, o braço já quase não dava mais conta. As pernas tremeram, enrolei a corda na mão direita, cair já era o que estava tendo, mas quando eu já havia dado a parada como perdida, uma raiz veio ao meu socorro e meio minuto depois eu estava em segurança, caído em meio a lama, aos pés daquela parede sombria. Ia mandar o Vagner se fuder por não ter me avisado daquela decida dos infernos, mas logo vi que ele próprio teve que descer com seu satanás pendurado às costas, então me contive e avisei para o Júlio que os próximos deveriam descer de rapel, não deveriam seguir nosso exemplo.
                Fui confabular com o Vagner sobre a possibilidade de acharmos rapidamente um lugar para acamparmos, porque do jeito que estávamos, capaz de sofrermos algum acidente grave, diante do frio que todos estavam sentindo, já em estado de semi-hipotermia. Mal acabei de terminar minhas considerações, foi quando ouvimos um grito ecoando da parede: Pendurado feito um siri no pau, menino Luciano gritava desesperado por ajuda, com as pernas balançando no ar, na iminência de despencar da parede. Eu não sabia se ria ou se acudia o companheiro:
                 - O filho da puta, não te avisaram que era para descer no rapel?
                 - Vai se fuder Diva, me ajuda a descer daqui, caralho!
                Todos os outros vendo que a gente já havia se lascado, desceram presos à corda e quando estávamos todos juntos, resolvemos que não haveria como prosseguir, mesmo diante de um terreno cretino, seria hora de montarmos acampamento. O frio era tanto que alguns não conseguiam nem se mexer mais, era hora de pôr em pratica nossas habilidades de improviso e torcer para que parte daquela parede não desabasse na cabeça de ninguém durante a noite, já que a chuva resolveu mostrar quem manda naquele pedaço isolado do mundo.
                Árvores que prestasse não havia. Apesar de haver árvores gigantes, eram esparsas, em um terreno inclinado à beira de outro patamar que havia mais abaixo de nós. A chuva varria tudo por lá, uma lava nojenta sob nossos pés, mal nos deixava parar em pé. Cada qual tentava se virar como dava, amarrando suas redes e cobrindo com toldo, mas fazendo um serviço dos mais porcos possíveis, parecíamos principiantes na arte de acampar com redes. Sem achar nada que prestasse, eu e o Régis resolvemos montar nossas redes juntas, no estilo beliche. Tentamos jogar a lona primeiro, mas ela era curta e não havia lugar para amarrar as cordinhas e tudo que tentávamos fazer, dava errado. Eu já havia perdido a capacidade de pensar, o frio já havia tomado conta. Regis tentou de tudo quanto é jeito e quando a tenda ficou de pé, foi que vi que aquilo não passava de uma grande merda e que a gente estava mesmo era fudido. Fudido e mal pago.

                Deixei o Régis e fui tentar achar outra solução, ou eu saia da chuva imediatamente ou sucumbiria ao frio daquele final de tarde. Desci ao patamar mais abaixo e lá encontrei dois pés de pau, um arremedo de arvore e lá estiquei meu toldo. Me joguei para debaixo dele e retirei a roupa molhada, vesti uma seca e instalei minha rede, tirei meu saco de dormi e me joguei para dentro dele e lá fiquei, tentando me aquecer.
                A chuva não dava trégua. O toldo não aguentou, foi empapando até que começou a pingar água para todos os lados e meia hora depois, meu saco de dormir já estava completamente úmido. Havia combinado de fazer a janta com o Régis, mas acabei apagando e nem vi a noite cair, nem fiquei sabendo como o grupo mais acima havia se virado, só sei que o Régis havia se dado bem mal e não demorou muito, veio chorar as pitangas na minha tenda.
                      - O Diva, tá tudo molhado cara, tudo ensopado, uma lama só .
                A cara de desespero do Régis era de dar dó, o aventureiro forte e destemido de outrora, agora havia se transformado num menino assustado, aquela cara de quem não sabia o que estava fazendo ali naquele inferno molhado. Era um homem murcho, encolhido, destruído pelas agruras do tempo.
                  - Olha Diva, vou te dizer uma coisa, eu avisei que com essa previsão de tempo iria dar merda, que a chance de dar errado era grande e olha a situação que a gente se meteu, não dá Diva, puta que o pariu.
                Me deu vontade de rir, confesso que ver o Régis naquela situação acabou sendo engraçado, muito porque, eu mesmo estava na mesma situação dele, éramos passageiros da mesma canoa furada e só me contive em perguntar se ele queria que fizesse uma janta.
                - Não, vou comer qualquer coisa fria mesmo.
                Melhor assim, nem me dei ao trabalho de sair mais da rede e mesmo todo molhado, por lá fiquei, no meu sofrimento individual, torcendo para acordar vivo no outro dia.
                E esse outro dia nasceu, sem chuvas, mas ainda embaçado. Foi mais uma noite de cão, daquelas para entrar para história. Voltei ao patamar superior e lá fiquei sabendo que os caras passaram, como eu, uma noite no inferno. O grupo estava destroçado, alguns desbocados amaldiçoavam a noite mal dormida, xingando os palavrões mais cabeludos, menos o Thiaguinho, menino bem-nascido, de uma polidez nórdica, apenas se conteve em dizer uma frase que entraria para os anais das conversas fiadas das travessias selvagens na Serra do Mar: - Noite difícil, hen Potenza?!(rsrsrsrsrsrsrrssr)
                Enquanto alguns tomavam café, descemos até as barrancas do Puruba para verificar se já seria possível continuar por dentro do rio, mas o encontramos tão furioso quanto a tarde anterior. O jeito foi traçar uma diagonal longa, passar ao lardo, um pouco mais acima, quase que margeando a uma distância de pouco mais de 50 metros. O terreno continuava de difícil navegação , mas encontramos um bom corredor plano, quase uma crista longa que nos fez avançar muito e logo achamos um jeito de voltarmos ao rio novamente.
                Mais uma cachoeira afunilada se apresentou à nossa frente e como havia uma grande rocha plana, aproveitamos para comer alguma coisa, enquanto alguns malucos se enfiavam embaixo da cortina d’água. Não nos demoramos muito por lá e logo ganhamos novamente o barranco, porque passar pelo rio ainda estava fora de cogitação. Nesse dia deixamos a cargo do Alan Flórido, a navegação, já que ele é quem tinha um gps e pode ir olhando melhor as curvas de nível do terreno, mas tinha horas que quem estava à frente exagerava em querer subir mais que o necessário e aí tínhamos que intervir e deixar bem claro que o intuito daquela expedição era seguir sempre pelo rio ou ao menos perto dele.

                O dia foi passando numa velocidade impressionante e cada vez que consultávamos o gps, percebíamos que mal havíamos saído do lugar, estávamos avançando muito devagar e a todo momento, uma voz se levantava insistindo de que o rio seria sempre o melhor caminho. Voltamos ao rio, mas para isso foi preciso descer uma parede muito íngreme, aliás, cada vez mais, íamos nos metendo dentro de grandes paredões e nos sentindo presos, como a nos enfiarmos num caminho sem volta.
                No rio, outras cachoeiras iam despencando afuniladas, nos indicando que ainda estávamos envoltos em uma encrenca das grandes. Analisando o terreno, vimos que seria hora de voltarmos para a margem direita, mas cruzar a torrente de água não estava fácil. Montamos uma operação com uma corda, afim de que um trouxa se apresentasse para tentar o salto suicida e como o Júlio foi o primeiro a levantar as mãos, amarramos a corda à sua cintura e esperamos que ele sobrevivesse sem ser arrastado para queda d’água, mas ao pular e tentar nadar com todas suas forças, foi levado perigosamente para as beiradas do vazio e logo a galera se apressou em puxá-lo de volta. O Júlio ficou puto, deu esporro em todo mundo, dizendo que ele iria conseguir e que lhe puxaram a corda quando ele já estava chegando ao outro lado, mas não quisemos nem saber de conversinha, ninguém estava a fim de se ariscar ali, então enrolamos a corda e voltamos a escalar paredões novamente, a fim de ganhar altura, pegar uma nova diagonal e voltar para o rio mais abaixo, para procurar uma passagem onde ninguém corresse o risco de morrer.

                Pelo menos a chuva deu uma cessada, mas o mormaço acabou aquecendo um pouco nossos miolos, ainda mais tendo que a todo momento, ficar tendo que subir paredes onde o esforço físico ia quebrando parte do grupo ao meio. Numa tentativa desesperada de voltarmos novamente ao rio, tivemos que despencar em mais uma parede vertiginosa e quando lá chegamos, conseguimos finalmente avançarmos por dentro da água, cruzando por baixo de matacões imensos e nos enfiando dentro de grutas de granito até que novamente fomos barrados por uma sequência de quedas.
                Não eram quedas altas, longe disso, mas descê-las parecia algo muito ariscado, então nos juntamos para tentar uma solução, já que à nossa frente, duas paredes laterais nos pareceu quase intransponíveis. O Vagner e o Flórido tentaram ver se era possível atravessar o rio, mas concluíram que a correnteza era muito forte para passar e voltaram dizendo que a parede do lado direito tinha quase 90 graus de inclinação e mesmo que conseguíssemos passar, ficaríamos presos do outro lado. Eu e o Júlio ficamos conversando sobre a possibilidade de, com a ajuda de uma corda, descermos por dentro do rio, mas sabíamos que seria uma atitude meio que suicida e só faríamos isso quando não houvesse outra opção. Por outro lado, a parede da esquerda era mais promissora, talvez fosse possível escalar a uns 3 ou 4 metros do chão e conseguir uma passagem para o outro lado e de lá, tentar ganhar um caminho para prosseguir, mas essa nossa ideia foi rechaçada de imediatamente por parte do grupo, então só nos restou mesmo, tentar retroceder e tentar fazer o que a gente fazia, que era subir a montanha , ganhar uns 100 metros de altura e descer na diagonal mais à frente, nos livrando de mais essa garganta do rio.

                Retrocedemos não mais que 20 metros e começamos a subir uma parede gigantesca, junto a um pequeno afluente, na tentativa de cruzá-lo mais acima e ganhar a direita de vez, mas o caldo foi entornando, o terreno cada vez mais instável, ia cedendo a cada passo dado e quando ganhamos uma altitude considerável, percebemos que a transposição para ganharmos o restante da parede era impossível, porque uma parede com mais de 50 metros de altura se erguia abruptamente. O esforço físico para lá chegar havia sido descomunal e alguns já começavam a dar sinais de exaustão e agora seria preciso nos afastarmos para a esquerda e tentarmos ganhar mais altitude ainda e essa atitude deixou alguns ainda mais preocupados.

                O dia passando e a gente preso na parede, subindo sem parar e nada de conseguirmos uma diagonal para direita. Era uma subida quase que inútil e alguns, já começaram a protestar com quem ia à frente porque achavam que era hora de ariscar e abandonar aquela estratégia que não estava nos levando a lugar nenhum. Os mais putos com o destino que aquela expedição estava tomando erámos eu e o Júlio e por mais que a gente vociferasse com quem fazia as vezes de guia, eles pareciam não nos ouvir, até que um dos homens caiu prostrado no chão, com a língua de fora, fazendo mais ânsia que gato com uma bola de pelo na garganta.
                O Rafael quebrou, chegou ao seu limite físico e emocional, estava acabado e para piorar, praticamente já estávamos sem água, pendurados numa parede há centenas de metros do rio. A situação dele parecia bem delicada, não que já não tivéssemos vistos outros exploradores abrir o bico nas inúmeras expedições, mas dessa vez estávamos numa jornada que exigiria o máximo de cada um e naquele momento específico, onde tentávamos desesperados arrumar uma maneira de prosseguir, a coisa ficava ainda pior.
                Numa breve reunião, resolvemos que seria melhor dividirmos parte da bagagem do Rafa com o resto do grupo, porque do jeito que ele se encontrava, naquela subida sem fim, ele não conseguiria seguir em frente. Metade do seu peso foi parar nas nossas mochilas e mesmo assim, o Rafael empacou, estacionou seu corpanzil avantajado e como uma vaca que atolou no brejo, recusou-se a continuar.
                - Olha gente, vou dizer uma coisa, essa é a última expedição que faço com vocês, nunca mais me chamem para essas Expedições desgraçadas.
                Com uma só frase, Rafael anuncia ali, de supetão, para todo mundo ouvir, que acabara de se aposentar e para provar que não estava brincando, começou a distribuir parte do seu equipamento, presenteando alguns amigos com o que lhe era desnecessário naquele momento e prometendo outros equipos quando estivesse a salvo, na civilização.
       
                Mesmo com o Rafa doente, era preciso seguir, porque ainda não me passava pela cabeça, outra coisa que não fosse terminar aquela travessia até o litoral. A subida se deu a passos lentos, e cada metro que ganhávamos, parecia que mais nos complicávamos no roteiro. À frente do grupo, feito uma cabra cega, Flórido e Thiaguindo não nos dava ouvidos, quando pedíamos para tentar desviar o rumo para a direita e parar de subir, porque tínhamos que tentar cruzar para o outro lado e achar de qualquer jeito uma maneira de voltarmos para o rio, mas logo a gente sacou qual era a deles, haviam decidido tentar outra rota e voltar para Cunha, via crista da montanha.
                Tivemos que parar para dar um rumo para aquela EXPEDIÇÃO. O Rafa não progredia de jeito nenhum, mas alguns de nós ainda tentávamos convencê-lo de que se alcançássemos parte da crista, poderíamos pegar uma longa descida de volta para o Puruba, alcançando a cota 450, onde achávamos que poderíamos seguir tranquilamente até a praia, mesmo com o Rafa naquela situação. Mas a conversa não evoluiu e o Flórido bateu o pé, queria porque queria voltar para o topo da serra ou seja: DAR POR ENCERRADA AQUELA EXPEDIÇÃO.
                Eu e o Júlio protestamos veementemente, não queríamos abandonar nada, queríamos seguir. Um ou outro, mesmo que timidamente, tentaram ser solidário com nós dois, mas outros não moveram uma palha para tentar persuadir parte do grupo a prosseguir com a Expedição. Eu compreendia que tínhamos um companheiro quase fora de combate, que vez por outra vomitava diante do grande esforço físico, mas achávamos que ainda não era hora de jogar a toalha, talvez pudéssemos descer novamente ao rio e tentarmos passar por onde fomos barrados ou mesmo ganhar a crista e continuar descendo, o que não aceitávamos era a derrota sem luta.
                Mas não teve jeito, parte do grupo estava irredutível e uma outra parte se omitiu. O Júlio estava transtornado, mandou todo mundo se fuder, chamou parte do grupo de cuzões e propôs que eu e ele seguíssemos na travessia.
                -Olha Júlio, mesmo eu discordando dessa posição de abandonar a expedição, não poderia abandonar o grupo, mesmo sabendo que poderiam seguir muito bem sem a gente e voltariam para casa em segurança, mas se algo acontecesse, teríamos que carregar essa culpa nas costas, então já que o grupo decidiu e estão irredutíveis, o jeito é engolir esse fracasso, enfiar o rabo entre as pernas e tentar voltar com um grupo mais homogêneo de uma próxima vez.
                Claro que o Júlio não aceitou, continuo bem puto pelo resto do dia. Mas se aquela expedição havia chegado ao seu fim e tínhamos um integrante doente, não fazia sentido continuar aquele sofrimento, sem água e subindo até sei lá onde, então combinamos de subir só até encontrarmos um bom lugar para acampar, para recolocarmos as ideias no lugar.
                Mais 40 minutos, foi o tempo que levamos nos arrastando até perto de uma crista, na verdade, uma hora abaixo dela, num selado mais plano onde árvores mais espaçadas nos deu a condição de montarmos nossas redes. Com o fracasso já engolido e conformados com nosso destino, pouco a pouco o grupo foi voltando a se animar e depois de uma janta quentinha, já nem lembrávamos mais das discussões acaloradas do meio de tarde e já que estávamos ali, era hora de celebrar a vida e a amizade, que era mais importante que qualquer descida de rio.
                Um pouco de chuva a noite, nos deu um pouco de água para um café e assim que desmontamos tudo, partimos para o topo da crista. O Objetivo era, ao atingir o seu cume, azimutar uma direção direto para o grande poço do Rio Puruba, o mesmo que havíamos encontrado logo no início da expedição e aí interceptar novamente o afluente que havíamos descido, subi-lo e voltar para a civilização, novamente nos Campos de Cunha.
                A caminhada foi retomada e mesmo sendo logo pela manhã, as dificuldades não mudaram devido a inclinação do terreno. Era uma subida interminável e mesmo já tendo passado a frustação do dia anterior, ainda havia um resquício de desgosto por estarmos abandonando aquela travessia, mas algo mudaria completamente o ânimo daquele grupo: Ao chegarmos no topo da crista, o terreno arrefeceu e ao percorrermos por sua planitude, agora no sentido de Cunha, uma clareira nos chama atenção e quando para lá corremos, fomos surpreendidos com um espetáculo então INIMAGINÁVEL.

                Estávamos bem encima de um Pico, uma montanha com vistas largas e surpreendentes para todo o litoral. Aos nossos pés, um Oceano qualhado de praias e horizontes abertos, pontilhado por ilhas, num cenário de tirar o fôlego. Estávamos encantados, alguns até eufóricos diante daquela beleza toda. Era possível avistar um mar de florestas, de onde o próprio Rio Puruba serpenteava como uma grande cobra, emoldurando toda a planície litorânea e lá estava, surpreendentemente, a famosa cratera de Ubatuba, onde pesquisadores acreditam que um meteoro de grandes proporções se chocou com a Serra do Mar, milhões de anos atrás.

               (Pico Puruba - Cratera de Ubatuba)
                Diante daquele cenário deslumbrante, cada qual pegou seu assento, seu lugar favorito, para poder guardar na memória aquele momento único e muitos já nem lembravam mais das agruras daquela expedição, que não havia chegado nem perto de atingir o objetivo proposto, mas por hora, havia conseguido aplacar um pouco da frustação que lhes consumia, se não à todos, pelo menos a parte mais exigente do grupo. Para marcar aquela conquista, que acabou se dando por puro acaso, resolveram batizar aquele pico com o único nome possível, uma homenagem àquela vale que acabava de nos vencer momentaneamente, PICO DO PURUBA (1200 m) , é assim que deve ser chamando e assim que deverá constar no mapa das montanhas selvagens de Ubatuba e da Serra do Mar Paulista.

       
       
       
       
       
                A visão era hipnotizante, mas ainda tínhamos o objetivo de encontrar o caminho de volta para casa, ou seja, voltarmos para a parte superior do rio, próximo ao grande lago de onde partiria nossa trilha para a civilização.
                Seguimos agora pela crista da montanha, varando mato e outros bambus irritantes, tomando o caminho dado pelo gps e por suas curvas de nível e quando uma direção nos foi favorável, mudamos de rumo até cairmos na própria calha do rio Puruba, pouco abaixo do grande poço, umas corredeiras, donde agora o rio corria cristalino, translucido e como já se aproximava da hora do almoço, resolvemos parar e aproveitar para um bom banho e para prepararmos um rango. Ali nos demoramos um bom tempo, jogando conversa fora e aproveitando o sol , admirando a beleza do rio , tentando digerir tudo que havia acontecido naquela Expedição, fazendo um balanço e as vezes lavando uma roupa suja, conversando sobre o que nos levou ao fracasso e qual lição havíamos tirado daquela jornada.

       
       
                Atravessamos o rio e partimos apressadamente até que, uns 15 minutos depois, interceptamos o grande poço e começamos a voltar pelo afluente e logo que trombamos com a cachoeirinha, abandonamos ela em favor de uma trilha que nos levou rapidamente para os campos abertos e os pastos cercados por montanhas arredondadas, pontilhadas por pinheiros e outras araucárias e um pé à frente do outro, nos devolveu à estradinha rural.
       
                Quase uma hora de caminhada nos levou até o casarão que havíamos acampado na primeira madrugada e lá conhecemos um nativo, proprietário de uma fazenda local às margens do Rio Paraíbuna, na sua porção córrego e ele nos ofereceu um abrigo momentâneo até que conseguíssemos entrar em contato com uns taxis que poderia nos tirar da área rural e nos levar até Cunha ou Taubaté. Mas não foi só um abrigo que ele nos deu, nos presenteou com um café que mais pareceu um banquete, onde quase  morremos de tanto comer, nos deliciando com as maravilhas da roça, com direito a leite tirado direto da vaca. Enquanto os taxis não apareciam, ficamos encantados com as histórias contadas pelo fazendeiro, algumas de cair o queixo, outras difíceis de acreditar, tipo o dia que ele matou 12 catetos com apenas 12 cartuchos ou a cobra tão grande que deixaria qualquer anaconda no chinelo, sem contar os 300 kg de linguiça para um só acampamento, que serviu de acompanhamento para umas 15 pacas assadas. (É mentira Teca ? VERRRRDADE! ) Rsrsrsrsrsrsrrsrsrss


       
                 Já era noite quando conseguimos voltar para Taubaté, de lá alguns afortunados, a elite do grupo, conseguiu achar um carro que os levou de volta para Capital, mas a ralé, a parte à margem da sociedade, resolveu dormir na rodoviária, jogados ao chão, feito mendigos e quando o dia nasceu, pegaram os ônibus para suas comunidades, uns para São Paulo e eu para minha aldeia, perdida no interior do Estado.
                Fica aí o relato e a descrição da nascente de um rio importante do Litoral Norte Paulista, por hora esse é o único registro de um grupo que chegou tão longe e conseguiu avançar naqueles desfiladeiros monstruosos. Alguns desses homens voltam para casa com o certificado de aposentadoria na bagagem, outros carregam ainda dentro de si a esperança de ver todo o mistério desvendado e ainda não se deram por vencidos. O maior aprendizado de tudo isso é que entramos juntos e saímos juntos, um protegendo o outro, demos muitas risadas e mesmo nos momentos mais difíceis, soubemos aguentar firmes e mantermos o grupo unido.
       
       
               
                Mais de 2 meses depois, nesse exato momento que escrevo esse relato, o mundo passa por uma transformação que jamais pensávamos passar. Uma pandemia mundial, com um vírus mortal, devasta parte da humanidade e corpos são empilhados em todos os cantos do mundo. Nosso sonho de descer novamente o Puruba, teve que ser adiado, sabe-se lá para quando, tudo é incerto, nem sabemos se vamos sobreviver para lá voltarmos, mas se vivos estivermos, vamos juntar o grupo novamente e da próxima vez, com a previsão do tempo favorável, a vitória vai ser certa, vamos celebrar mais essa conquista e o prazer de continuarmos vivos, explorando um mundo fantástico, resumido em florestas, rios e montanhas quase virgens, numa das mais fascinantes Serras do mundo.
               
    • Por divanei
      Trevas, escuridão, sede, fome, GPS inutilizado, água podre até o pescoço, lama para todo lado e numa fila de 5, dois otários se revezam, um na ponta e o outro fazendo às vezes de cu de tropa. Eu e o Vagner juramos um dia nunca mais pormos nossos pés novamente nas Restingas de Bertioga e agora nos encontrávamos justamente no lugar que prometemos nunca mais voltar. Havíamos partido quase 4 dias atrás para desvendarmos os mistérios de um rio Selvagem, descobrindo sua nascente, no longínquo Planalto Paulista e percorrendo-o até quase a sua foz, já na Planície litorânea e para escapar da fúria dos índios, resolvemos nos meter em mais essa furada, varando mato, mas nunca imaginávamos que, mais uma vez, o alagadiço litorâneo pudesse nos humilhar daquele jeito. Luciano Carvalho e os biólogos Fiorotto e Plácido, são os outros 3 trouxas que deixaram se levar pela ânsia da aventura e agora pagam o preço pela ousadia e com certeza, irão sair dessa empreitada mais bicho que homem. Há uma angustia grande sobre as costas de cada um daqueles aventureiros, são homens que ainda não desistiram porque não lhes sobrou essa opção, cientes de que é preciso continuar lutando, seguindo, navegando, mesmo que a saída não lhes pareça possível tão cedo.
       
                A ideia de fazer uma Expedição completa do Rio Silveiras, surgiu quando resolvemos subir a lendária Pedra da Boracéia e na verdade, naquela ocasião, o projeto inicial era subir a montanha e já despencar para o litoral utilizando o próprio rio como caminho, mas com um tempo curto e um grupo grande, acabamos por deixar esse plano para depois e desmembrar a travessia em duas partes, então subimos a Boracéia e voltamos pelo planalto mesmo, deixando o Silveira para uma próxima.
                Com a chegada do tempo quente, resolvemos que em novembro seria a vez de investir no Silveiras, mas o chamado de um amigo para outro rio icónico da Serra do Mar, nos fez mudarmos os planos e tentar juntar os grupos, mas o tempo virou e a previsão nos dava chuvas torrenciais para a região desse outro rio e aí um impasse se instalou: Metade queria continuar com o projeto, mas a outra metade achava que seria suicídio com aquele aguaceiro todo, principalmente no primeiro dia, que era o mais complicado. Conversas e debates acalorados começaram a dividir o grupo de vez, uns queriam ir, outros não, foi aí então que ressurgiu a possibilidade de retornamos os planos para o Rio Silveiras, já que o primeiro dia poderia ser feito com chuvas e a partir do segundo dia, a meteorologia já nos daria tempo bom para podermos enfrentar as gargantas. Egos inflamados e picuinhas desnecessárias de quem não quis abrir mão das suas convicções, fizeram o grupo rachar em três. A divisão ficou entre os que queriam descer um rio, entre os que aceitavam fazer o Silveiras e os que já não estavam a fim de fazer porra nenhuma. No fim, de quase 15, alguns picaram a mula e de um lado sobraram 5 para o Silveiras e outros 3 para o rio inicial e assim foi dado o start com dois grupos distintos, que um dos participantes rotulou em: Grupo dos Fudidos e Grupo dos Coxinhas, nós do Silveiras acabamos sendo esse segundo, claro, porque segundo ele, havíamos arregrado para o plano inicial, paciência, aceitamos a brincadeira e deixamos rolar.(rsrsrsr)
                O planejamento do Silveiras estava pronto, a intenção era ganhar o coração da floresta subindo o mesmo Rio do Alegre que nos deu acesso para uma rota inédita até o cume da Pedra da Boracéia e a partir da cabeceira desse rio, varar mato por uns 2 km até onde eu imaginei ter encontrado sua nascente, mas sem aquela certeza, então seria mesmo uma incógnita, um tiro no escuro achar essa nascente e a partir daí, despencar nas gargantas profundas e cânions vertiginosos até a planície litorânea, realizando um caminho inédito, uma verdadeira Expedição selvagem.

                Às nove da noite, na estação Tatuapé do metrô, lá me encontrava , sentado perto das catracas, quando apareceu os 4 cavaleiros do apocalipse com suas mochilas às costas e aí me juntei a eles e seguimos para a Estação Estudante, em Mogi das Cruzes. A chuva já havia dado novamente as caras e foi debaixo de um aguaceiro que tomamos o ônibus que vai para Salesópolis, que rodou um quarto do planeta até nos desovar bem no entroncamento com a ESTRADA DA PETROBRAS, fim de mundo perdido, junto a um boteco fechado, já que a noite já ia pela sua metade.
                Havíamos combinado o transporte com um taxista, velho conhecido de outra expedição, mas a notícia de que ele talvez não poderia nos levar para o nosso destino, começou a nos preocupar, ainda mais quando o Luciano fez menção de pegar o ônibus e retornar para São Paulo. Esses jovens parecem meio impacientes, querem resolver tudo de supetão, mas eu estava mais que decidido esperar o quanto fosse possível para por aquela expedição em prática e para nossa sorte, não levou nem 15 minutos e o taxista apareceu, e nos atiramos dentro do taxi, que saiu com lotação acima do permitido e fomos nos perder lá para as bandas do Bairro dos Pintos, 15 km de estrada de terra até sermos enxotados para fora do veículo, mas não sem antes morrer com uma garoupa, pagamento pelos serviços prestados.
                O Vagner era o cara que havia decorado o caminho de acesso para a trilha que nos levaria até o Poço Bonito, um atrativo do Rio Claro e realmente não demorou nem meia hora e lá estávamos nós, enfiados num caminho aberto e gostoso de trilhar, numa noite fresca, já que a chuva havia dado um tempo. Apertamos o passo e ganhamos terreno rapidamente, mas por pouco esse início de caminho não acabou se tornando numa tragédia: Entramos nessa trilha larga, descontraídos e eu nem perneira coloquei, já que logo acamparíamos e o descuido quase me fez ser picado por uma jararaca monstro, coisa que fazia tempo que eu não via, não daquele tamanho. Chegamos a pisar 2 dedos da boca dela e por muita sorte ela se manteve imóvel no meio da trilha e essa foi a deixa para eu me equipar com todos os equipamentos de segurança possíveis.
                Duas horas depois, desembocamos nas margens do Rio Claro. Poderíamos ter acampado na areia do Poço bonito, mas estávamos sem uma boa corda para montar um bivac mais elaborado, então decidimos usar uma clareira antes de atravessar o rio e ali a fizemos de nossa casa por umas 4 horas, tempo suficiente para dar uma descansada até que um novo dia surgisse, nos avisando que era hora de partir para aventura.

       
       

         (Poço bonito)
                Nosso caminho segue pela esquerda, subido o rio, ainda nos utilizando de uma trilha larga que vai nos levar até a Cachoeira do Poço Bonito, dessa vez um pouco mais cheia, devido às chuvas. Atravessamos o rio para a outra margem e nos enfiamos na mata, afim de ganharmos o alto da cachoeira e seguirmos subindo o rio, mas ao acessarmos a cabeceira, percebemos logo ser impossível ir pela margem do rio, que além de cheio, com vegetação impassável. O nosso objetivo era interceptar uma grande cachoeira que encontramos quando utilizamos esse caminho para a Expedição ao cume da Pedra da Boracéia e a partir dela, ganhar o afluente, subindo o Rio do Alegre para o sul até a sua nascente.

          ( Cachoeira do Poço bonito) Da esquerda para a direita - Plácido, Divanei, Luciano, Fioroto e Vagner.
                Azimutamos nossa direção para leste e fomos varando mato  100 metros paralelo ao Rio Claro, mas como eu havia marcado errado a posição da grande cachoeira, acabamos achando que havíamos cometido algum erro e ficamos desorientados. Eu e o Fiorotto tentamos voltar para o rio, mas não o encontramos mais, então foi aí que notamos o erro cometido e seguimos na direção proposta até desembocarmos de vez no Rio do Alegre, um pouco mais acima do encontro com o Rio Claro. A fim de mostrar a grande cachoeira para o Fiorotto e o Plácido, que não estiveram com a gente na subida da Boracéia, descemos o afluente por cinco minutos, interceptamos o principal e subimos por mais uns 10 minutos até tropeçarmos com a incrível CACHOEIRA PADRE DÓRIA, uma monumental queda d’água, conhecido por quase ninguém, além de nós e um ou outro caçador ou palmiteiro que por ali perambulem.

       
         ( Cachoeira Padre Dória)
                Voltamos para o Rio alegre e debaixo de uma chuvinha gelada, nos pomos a caminhar rio acima, transpondo pequenas cachoeiras, escalando barrancos baixos e as vezes nos metendo nas margens entrelaçadas por cipós e vegetação quase que intransponíveis. O rio vai subindo sem muito aclive, as vezes fundo nas curvas, outras vezes caminhávamos pela areia dentro do rio. Ao longo do dia a temperatura vai despencando e ter que passar com a água acima da cintura vai minando a gente. Uma hora ou outra, um trouxa tenta fugir de ter que passar pela água, se equilibrando em algum galho e faz a alegria da galera, quando despenca e vai bater com a fuça no fundo do rio gelado e como dizia o Plácido: “ Nossa menino, essa foi uma boa tainha que você deu”. Se referindo aos saltos dos peixes oceânicos. (Rsrsrsrsrs)

         (Rio do Alegre)
                O dia vai passando do mesmo jeito que começou, feio, embaçado e chuvoso. A gente vai definhando cada vez mais e não demora, alguns de nós já vão ao chão gritando com câimbras avassaladoras devido as temperaturas baixas. Pior que não podíamos nem reclamar, já havíamos previsto que aquele seria um dia para se fuder mesmo, mas a gente nunca está preparado para esses sofrimentos, então apenas caminhávamos, sem esperar nenhuma melhora, resignados com as desgraças do tempo. Nosso objetivo era chegarmos às cabeceiras do Rio alegre, bem onde ele passa por baixo das linhas de alta tenção e se fosse possível, continuar avançando para o norte e ganhar terreno para no dia seguinte conseguir acesso cedo a nascente do Rio Silveiras, mas diante do sofrimento coletivo, decidimos que acamparíamos embaixo da linha de transmissão, no mesmo acampamento que usamos para ir à Pedra da Boracéia.
                O nosso GPS nos diz que estamos perto, mas cada 100 metros percorridos, parece que estamos é retrocedendo e não avançando, talvez pelas curvas e meandros que o rio faz, se enfiando embaixo de árvores caídas, onde temos que nos rastejar, nos livrarmos de vegetação espinhosa, entrelaçada por cipós grudentos e as vezes dispostos sobre atoleiros. É nítido que estamos sofrendo, cada passo dado parece que arrastamos uma floresta nas costas. Todos não tiram os olhos do céu, tentando encontrar os fios da rede de alta tenção, como a buscar por uma salvação para suas almas, porque o corpo jaz numa penúria de dar dó, mas como não há sofrimento que dure para sempre, identificamos o barranco do lado direito que ao ser subido, nos levou à grande área de camping, com grandes árvores espaçadas, o Jardim do Éden se apresentou para nós, nos chamou para a Terra da felicidade.

                Vamos falar de felicidade: Só quem já passou por isso, por essas situações é que sabe o quanto de prazer se tem ao sair da tempestade dentro de uma floresta e correr para debaixo de um abrigo, tirar as roupas molhadas e vestir uma seca, não haverá nunca nenhum orgasmo que supere isso, podem lhe oferecer qualquer coisa, não vai querer mais nada senão vestir seu agasalho quentinho, parar de tremer feito vara verde. Essas situações sempre nos farão dar valor as coisas simples da vida, agasalho seco, comida quente, cama quentinha, é só isso que precisamos. Falando em comida, logo após instalarmos nossas redes, botamos fogo no fogareiro, mesmo ainda sendo antes das quatro da tarde, e fizemos um arroz, esquentamos um frango e um feijão, juntamos uns bacons, umas azeitonas, polvilhamos com queijo ralado e brindamos com suco de jabuticaba, isso sim é que é FELICIDADE.
                Depois da janta ninguém quis saber de mais nada, pulamos para nossas redes e nos demos como mortos. Como eu estava bem agasalhado, dormi muito bem, mas alguns sofreram com as baixas temperaturas da madrugada, mas no fim, 12 horas de sono teve o poder de renovar todo mundo. A noite foi sem chuvas e o dia amanheceu até que com uns raios de sol tímidos. Ás nove da manhã partimos e ao invés de continuarmos seguindo para o sul, resolvemos virar para oeste por um breve momento e subir até umas das Torres de Alta Tenção para termos uma visão mais ampla do terreno a seguir.


         (Pedra da Boracéia)
                Dez minutos varando mato, nos levou a campo aberto e outros dez minutos nos colocou debaixo da Torre. Eu e o Vagner escalamos, enquanto os outros se maravilhavam com a visão das encostas da Pedra da Boracéia. De cima da torre parecia um caminho fácil, mas ser enganado pelo terreno já era rotina, então nos posicionamos novamente para o sul e fomos seguindo o caminho que eu havia traçado sobre o mapa topográfico. No começo comemos logo uns bambus, mas logo o terreno se alternou em florestas de bromélias em meio a campos abertos e matas fechadas, subindo e descendo vales, cristas e travessias de pequenos rios ou charcos pantanosos até que nos elevamos o quanto deu e quase 2 km desde o acampamento, avistamos um fundo de vale cortado no terreno e lá embaixo imaginamos que poderíamos encontrar a fascinante NASCENTE DO RIO SILVEIRAS.
                É surpreendente como se pode pegar um rio com as mãos, pela nossa posição no mapa, nos confins perdidos dessa parte da Serra do Mar Paulista, é muito provável que homem jamais tenha pisado por aqui, muito porque, pela dificuldade de acesso, não há um só vestígio de caçador e muito menos palmiteiros e três dedos de água dão vida a um dos rios mais espetaculares do Estado de São Paulo. Eu fiquei imensamente feliz de encontrar essa nascente, estava apreensivo de não ter feito o trabalho de mapas como deveria, mas localizar esse rio já me fez estar com o dever cumprido, agora era segui-lo quase até a sua foz, tarefa e responsabilidade de todos.

      ( Nascente do Rio Silveiras)
                
                Estamos emersos dentro de um vale profundo, no centro de uma montanha de onde um rio acabara de nascer e o único caminho possível, era para baixo. No início perdendo altitudes aos poucos, passando por baixo de árvores caídas, donde um rio com água pela canela começava a ganhar corpo ao receber pequenos afluentes, que lentamente vão rasgando a rocha ao meio, furando o terreno que vai se abrindo cada vez mais. O caminho traçado no mapa nos dava conta que mais à frente o rio faria um cotovelo para a direita, voltando para a direção sul, mas antes de lá chegarmos, foi preciso desescalar algumas paredinhas, onde alguns se esgueiravam feito o homem aranha para não cair na água fria e passado esse trecho, foi hora de nos determos por um instante para um lanche rápido e para revermos nosso roteiro.
                De todos os trechos que eu havia estudado no mapa, esse primeiro grande desnível na cota dos 900 metros, era o que mais me preocupava e quando fizemos a curva para o sul e perdemos um pouco de altitude, nos deparamos com esse desnível. Era algo assustador, como chegar ao inferno e saber que não tardaria ser apresentado ao diabo. Um despenhadeiro absurdo, do qual não conseguíamos nem ver o fundo. Talvez os meninos mais novos tenham ficado ainda mais impressionados, mas eu e o Vagner já estávamos calejados de nos deparar com tais situações e logo traçamos um plano pela esquerda, que era o de perder altitude aos poucos, procurando patamares que pudesse ir nos baixando lentamente.

                Pela esquerda era o caminho, desceríamos escorregando e nos agarrando ao Deus árvore, enquanto houvesse um, estávamos protegidos de cair nas entranhas do inferno. Atravessamos o rio e ganhamos, portanto, a esquerda e logo de cara o Fiorotto e o Plácido fizeram com que nos detivéssemos imediatamente para apreciar um exemplar raríssimo de sempre viva da Mata Atlântica. Eu mesmo, com tantos anos de andanças na Serra do Mar, não me lembrava de ter visto uma sempre viva daquelas, mas a visão dos biólogos é diferente de nós, simples exploradores, então se vi, não me lembro, mas apreciamos a espécie e as aulas dos nossos professores.

                Chegamos mais abaixo no cânion, talvez descemos uns 60 metros e fomos nos apoiar em um patamar a beira de outro abismo potencialmente perigoso, tiramos uma foto e partimos novamente pela esquerda até cairmos novamente em uma laje monstruoso, que despencava para mais uns 100 metros de desnível. Pensamos logo que agora o melhor caminho seria pela direita, já que o próprio rio mudaria de rumo e viraria também para a direita, mas ao invés de cairmos novamente mato à dentro, surpreendentemente consegui me enfiar em uma fenda e fui abrindo caminho, desescalando metro à metro, me valendo de fissuras que desafiavam nossas habilidades de escaladores selvagens e quando a curva se aproximou, aí sim caímos para o mato e despencamos mais uns 30 metros até nos vermos novamente à beira do rio, agora mais manso, mas ainda continuando a furar a rocha, se enfiando no submundo do terreno, formando cavernas e grutas, onde éramos obrigados a nos arrastar feito ratões do banhado e ganhar a escuridão até voltarmos a ver a luz do dia.



                A luta foi grande, não chovia, mas também não fazia sol e o avanço era lento e moroso, sempre nos pegávamos em dificuldades, mas estávamos todos animamos e a diversão era certa. Passamos o resto do dia desescalando pequenas cachoeiras e grandes lajes, ainda tendo que nos metermos dentro de cavernas e hora ou outra tendo que escorregar à beira de desníveis consideráveis, alguns mais corajosos se enfiavam em alguns poços, mas eu queria mesmo era chegar no acampamento com o roupa o mais seco possível, mas as vezes um descuido já nos fazia cair de novo dentro do rio e as “tainhas” eram inevitáveis.
                Quando passou das 4 da tarde, foi hora de consultar nosso gps e analisar bem o terreno e chegamos a conclusão de que o único lugar possível para se acampar seria lá pela cota 650. Onde o terreno se abriu com linhas mais espaçadas e realmente quando lá chegamos, não demorou muito, localizamos do lado direito uma área bem favorável, uma espécie de ilha do lado direito, um terreno plano entre dois rios, quase uma “ Mesopotâmia” em plena selva e ali naquele lugar extremamente favorável, montamos nossas redes e nos pomos a cuidar do jantar.

                Agora estávamos acampados num lugar excelente, descansados, felizes por tudo ter dado certo. Éramos um grupo totalmente descontraídos, as piadas eram inevitáveis e os causos iam surgindo aos montes, histórias de aventuras passadas e algumas mentiras cabeludas também. Os novos integrantes se mostraram totalmente ambientados e pareciam velhos companheiros das antigas. Plácido, coitado, de nome de cantor de ópera, ganhou logo o apelido de TAINHA, de tanto ficar zuando o coitado do Vagner que abusou de se fuder em tombos memoráveis na água. Luciano Carvalho resolveu gastar a bateria do GPS colocando uma musiquinha e mesmo que isso não tenha influenciado em nada no final da expedição, iria pagar com a zueira eterna quando a bateria do seu celular simplesmente desfaleceu na hora mais crítica da expedição. O certo é que foi mais um acampamento memorável e para agradecer a ilustre presença do Fiorotto, outro que veio abrilhantar nosso grupo, eu e o Vagner o convidamos para ser nosso convidado no jantar e depois que, quase morremos de tanto comer, ficamos até tarde da noite jogando conversa fora, perdidos em algum lugar selvagem, completamente longe da civilização, onde macacos gritam ao longe e outros animais selvagens desfilam livremente sem ser incomodados por ninguém, onde a vida segue, como sempre seguiu, desde que o mundo é mundo e era muito provável que não houvesse um só homem mais isolado em todo o Estado que esses 5 aventureiros metidos a exploradores e que estavam ali por escolha própria, pela simples paixão que nutrem pela Aventura Autêntica.

                Um novo dia nasceu, cheio de raios de sol enganadores. Foi uma noite tranquila e acordamos bem-dispostos, mas uma coisa me deixava muito preocupado: Estávamos na altimetria 650 e tínhamos apenas um único dia pela frente para sairmos na civilização e jamais, em todos esses anos de expedição, conseguimos descer tantos desníveis em um só dia e eu particularmente desacreditava que até a noite terminaríamos aquela jornada. O Luciano achava que sim, achava que poderíamos avançar muito. Às vezes eu até chegava a concordar com ele, me valendo da possibilidade de encontrarmos trilha fácil lá pela cota 200 ou 250, imaginava que os índios poderiam subir até essa altimetria guiando algum turista até as grandes cachoeiras ali localizadas, mas era pura suposição.

                Tomamos café e partimos. É sempre um grande sacrifício ter que se jogar logo de cara para dentro da água fria àquela hora da manhã. A gente vai tentando fugir dos lugares mais fundos, mais hora ou outra, alguém dá logo uma “tainha” e solta um palavrão, mas quando a coisa aperta mesmo, rio vira caminho para evitar vara-mato desnecessário. Vamos perdendo altitude lentamente até que um mundo de abre a nossa frente, dizendo que a moleza acabou e é hora de voltar a se enfiar nas gargantas novamente, mas a visão do mar que se descortina no horizonte, anima todo mundo, é uma visão tímida, mas lá está a ilha Montão de Trigo para nos dizer para que lado fica a nossa saída.

                Os desníveis são vencidos com muita dificuldade, é uma pulação de pedra sem fim, mas o que está por vir causa ansiedade na equipe e caímos novamente para o mato a fim de escaparmos de um desnível monstruoso, de onde uma cachoeira se afunila em gargantas impassáveis, até que subitamente desembocamos numa cachoeira mais larga, com um poço nos convidando para um mergulho, hora de largar tudo, abandonar mochilas ao chão e correr para o deslumbramento.

                Os meninos se deliciam feito crianças, mergulham naquela água de uma pureza incrível, onde talvez homem nenhum jamais tenha se banhado ou se alguém aqui chegou, não contaram para ninguém, mas isso pouco importa, porque naquele momento erámos donos absolutos daquele lugar único e a satisfação de poder estar ali depois de mais de 2 dias de jornada selvagem, nos deixava numa felicidade inenarrável.
                Nossa descida vai se estender até nos depararmos com os grandes desníveis da cota 500 e essa era mais uma parte do rio do qual temíamos muito e ele não nos decepcionou, o rio se enfiou novamente numa sequência de gargantas, formando cachoeiras cênicas ,mas ao tentarmos fugir de um despenhadeiro assustador, acabamos nos metendo num caminho sem volta, ao descermos uma parede pendurados numa fita de escalada que havíamos levado para uma segurança providencial. É preciso deixar bem claro que a gente não carrega conosco nenhum equipamento para rapeis ou coisa desse tipo, muito porque, a proposta é fazer a descida no modo sertanista, livre, usando nossa capacidade de improvisar e descobrir rotas possíveis que nos faça avançar sem a necessidade de equipamentos mais elaborados.
                Então ter descido aquela parede potencialmente perigosa quase foi o nosso fim. Nos vimos presos, sem ter quase como voltar e sem ter como avançar, como se estivéssemos na proa de um navio, sem poder descer ao chão, aliás nem o chão eu conseguia avistar de onde estávamos. O Vagner seguiu e eu fiquei dando cobertura, até que ele encontrou uma grande árvore na diagonal que poderia nos levar para baixo, mas sem nenhuma certeza. O Vagner entrou no grande galho, abraçando o tronco e foi perdendo altura, seguro apenas em uma fita mequetrefe, segurada por mim apenas para dar uma segurança psicológica. Aquilo não parecia que daria certo e a chance de dar merda estava clara. Se ele caísse levaria eu junto. "Volta filho da puta", pensei baixinho, mas o desgraçado foi. Enquanto segurava a fita, tentava encontrar o chão em meio a vegetação que abraçava aquele galho mequetrefe. A fita chegou ao fim e o Vagner continuou descendo e eu gritando para ele tomar cuidado e não se ariscar tanto, enquanto os outros três continuam mais acima, pendurados à beira do precipício. Vagner parecia uma dançarina de poli dance, pendurado num pau a uma dezena de metros do chão e minha angustia com certeza era muito maior que a dele, porque eu não enxergava coisa alguma, mas quando ele gritou que havia chegado, meu coração desacelerou por um segundo, mas quando me lembrei que o próximo seria eu, voltei a ficar angustiado.
                Me pus a escorregar encima do tronco, me agarrando a um arremedo de fita, até que ela própria me abandonou. A barriga vai raspando na árvore cheia de protuberâncias, mas isso acaba por não ter importância nenhuma, a gente não quer é cair e mesmo que a pele vá se desintegrando pelo caminho, a gente pouco vai sentindo, porque nosso cérebro está condicionado a fazer com que a gente sobreviva. Lá de baixo o Vagner vai orientando e quando o sofrimento chega a sua metade, é hora de mudar de posição e tentar se livrar da vegetação que já te abraçou e quase enrolou no seu pescoço e não tem jeito, é se soltar e escorregar até o chão e ir chorar em um canto, o monte de hematomas que acabamos de ganhar, enquanto assiste mais 3 indivíduos passar pela mesma coisa.
                Voltamos a labuta, agora perdendo altitude até que rapidamente, brincando de escorregar em lajes de pedra, tentamos manter o ritmo constante até o próximo objetivo, que seria o encontro com uma grande afluente que vinha da esquerda. Na carta topografia do exército constava como Rio Una, mas aí também temos uma confusão geográfica onde alguns dizem que o próprio rio teria esse como nome oficial , mas em outras cartas e mapas o Nome SILVEIRAS é o que impera e os próprios índios o chamam assim, então é mais do que justo que respeitemos o nome dado pelos nativos.

                Encontrar esse grande afluente do Silveiras nos dá uma alegria na alma, é saber que se nada mais der errado, poderemos sair ainda hoje próximo à civilização. Estamos na altimetria 300 e o rio corre manso e desimpedido, dando um refresco momentâneo para nossas pernas. É uma caminhada gostosa e as conversas voltam a fluir, enquanto observamos aquele cenário único. Grandes poços esverdeados começam a cruzar nosso caminho e isso faz a alegria da galera que se precipita para dentro, numa algazarra barulhenta.

                A metade do dia já se foi faz tempo e a tarde já se avizinha, quando subitamente tropeçamos numa parte aberta do rio. Estávamos na Cota 200 quando uma laje gigantesca se apresentou à nossa frente. Era um escorregador monumental e sem nem pensar, corremos ao seu encontro e deixamos que a força da gravidade nos conduzisse para baixo. É o homem voltando a suas origens, é o ser barbado se desvencilhando das obrigações de macho sério e voltando a se divertir como criança e é para isso que viemos, para sermos nós mesmo, sem carregar peso nenhum imposto pela sociedade, somos homens livres para fazer o que quisermos, somos passageiros da felicidade, vivendo num mundo de sonhos.

                Pensando ter acabado, eis que na sequencia dessa laje inclinada, uma grande cachoeira em forma de tobogã veio nos dar as boas-vindas. O queixo caiu e não demorou para que alguém tocasse o foda-se e se jogasse no meio da queda indo parar dentro do grande lago esverdeado, emoldurando a CACHOEIRA DO TOBOGÂ. Naquela hora, estando naquele lugar mágico, nos esquecemos de todos os perrengues passado em toda expedição e nos jogamos de cabeça ao ócio e ao divertimento. Aquilo sim era um poço de respeito e ninguém queria arredar o pé de lá, mas foi preciso avisar a galera que tínhamos um objetivo de sair ainda hoje daquele vale e era preciso se adiantar, porque não era possível ser feliz para sempre.

       
                O Caminho seguiu sendo pontuado por vários outros poços, lajes inclinadas, corredeiras deslumbrantes até que tivemos que fazer um pequeno desvio para ganhar o alto de mais uma cachoeira, que até então não sabíamos sua dimensão. Era alta e larga, mas da posição superior, a visão ficava prejudicada. Resolvemos que o melhor caminho para descer até sua base seria pela esquerda, mas ao tentarmos passar rente a queda, ficamos presos em um abismo considerável e retornamos a fim de transpormos uma grande rocha e perder altura pelo outro lado. Escalamos o meio dessa rocha monumental e deslizamos como deu, nos segurando numa vegetação rala. Eu e o Vagner íamos à frente, tentando encontrar um caminho para descer, escolhendo a dedo algumas árvores espaçadas e torcendo para que fossem firmes, caso contrário, a chance de despencar no vazio era enorme. Dei apoio com uma fita para que o Vagner e o Tainha dessesse até a próxima árvore, mas quando escorregaram, levaram toda a vegetação e nos deixou órfãos sem ter onde nos apoiar.

                Atrás de mim ainda restavam o Fiorotto e o Luciano, que tentam se apoiar em qualquer coisa para não despencarem. Tentei buscar algo para me segurar, mas sabia que se deslizasse, só poderia me salvar abrindo as pernas e parando uns 4 metros abaixo em uma árvore isolada, mas se erasse a direção era o meu fim. O corpo é invadido por um caminhão de adrenalina, a gente começa a se perguntar porque se mete nessas encrencas. Por sorte consegui achar em meio a vegetação um galho que se estendia até um pouco mais abaixo e quando ele acabou, deslizei bonito, mas meu coração quase parou. Segurado na árvore isolada, só fiz xingar e amaldiçoar toda a geração do desgraçado que resolveu escolher esse caminho dos infernos. Orientei os meninos que vinham logo atrás sobre o galho e desci rapidamente para tirar satisfação com os safados, mas quando lá cheguei, só conseguir dizer: PUTA QUE O PARIU, QUE CACHOEIRA É ESSA MEUS AMIGOS!

                O Espetáculo em forma de água despencando da rocha.  CACHOEIRÃO DO SILVEIRAS é daquelas quedas d’águas que nos deixa sem palavras, um monstro em um vale aberto, com um véu cobrindo quase toda a extensão da parede. Quando todo o grupo se juntou ali na cota 180, era impossível não ver um sorriso no rosto de cada um daqueles exploradores modernos e mesmo a gente sabendo que possivelmente um ou outro índio suba até ali, a sensação era a de conquista, de quem havia partido de terras longínquas, enfrentado terrenos hostis só para se pôr à frente daquela maravilha aquática.
                Tudo ia bem, a gente estava animado, fisicamente ninguém dava sinal de algum problema, se não uma dorzinha aqui, outra ali, tudo normal, mas era hora de apertar o passo, nos preocupávamos de não conseguir sair naquele dia, e sem podermos nos comunicar com o mundo externo, corrermos o risco de alguém querer acionar o resgate, pensando que estávamos em apuros. Jogamos as mochilas às costas e apertamos o passo, pulando pedra e se jogando dentro do rio, descendo lajes e barrancos. Num determinado momento, eu ia à frente, hipnotizado por um grande poço mais à baixo, quando ouvi uma gritaria: Alguém desesperado se batia tentando se livrar de um ataque de vespas. Corri o quanto pude na intenção de me jogar no poço, mas vi logo que o ataque havia cessado. Mais uma vez, “novamente de novo”, outra vez, o mesmo infeliz de sempre, foi agraciado com três picadas no rosto. Esse Vagner parece ter o poder de atrair as desgraças para si, nunca vi, todo raio parece cair na cabeça dele. (Rsrsrsrsrsrsrsr). Paramos para socorre-lo, um comprimido aqui, uma pomada ali e logo ele parou de gritar, pelo menos dessa vez estávamos com a medicação para esse tipo de acidente, outras tragédias nos ensinaram o caminho das pedras.
                O dia vai findando e nada de encontrarmos as tais trilhas que pensávamos existir, aliás, em nenhum momento vimos qualquer vestígio de passagem humana perto das cachoeiras, nada que denunciasse que os índios trouxessem algum turista para conhece-las e não é de se entranhar, porque não há nenhuma facilidade para chegar até a cota 200. Continuamos descendo, elogiando os inúmeros poços translúcidos até que baixamos para cota 50, onde localizamos a primeira pegada humana em 3 dias de caminhada e não demorou muito, interceptamos do lado direito do rio, uma trilha larga e bem consolidada.
                Passava pouco das cinco da tarde e em mais uns 15 minutos, desembocamos numa bifurcação, onde o rio já é manso e sem nenhuma pedra aparente. Sabíamos que para a direita poderíamos encontrar a TRIBO SILVEIRAS, não mais de meia hora nos levaria direto para o encontro deles e de la até a Rio- Santos. Era mais uma caminhadinha fácil e rápida, mas havia um, porém, que deveria ser levado em conta: Estaríamos invadindo terras indígenas, onde relatos antigos davam conta de que alguns brancos haviam sido achacados por alguns índios, obrigados a pagarem o que não tinham, para serem liberados. O pior não era isso, estaríamos reféns das vontades deles, afinal de contas, éramos os invasores e não adiantaria chamar a polícia, chamar a mãe, ou chamar o que fosse, estaríamos sujeitos a apanhar de todo mundo. Então o melhor a fazer era deixar esse povo em paz, procurar outra saída, nem que fosse para se fuder para outras bandas.
                Pegamos um caminho para a esquerda, o oposto da direção da tribo e fomos seguindo paralelamente ao rio Silveiras. Acontece que eu já havia previsto tudo isso no planejamento e havia marcado um caminho para varar mato direto para a Rio-Santos, seguindo sempre para o sul, muito porque não sabíamos se poderíamos ter problemas com aquela trilha que se dirigia para leste, poderia ela cair dentro de alguma fazenda, alguma propriedade particular, então o melhor era cair no mato logo e enfrentar tudo no peito, mas estávamos enganados, pagaríamos um preço alto por isso.
                Paramos para decidir o que fazer e ao olhar aquele mato ralo, com grandes árvores espaçadas, mais parecendo um bosque, não tivemos dúvidas, miramos nossa direção para o sul e adentramos na floresta cantando e fazendo festa, tudo estava se encaminhando para um desfecho glorioso, logo estaríamos no litoral e lá comemoraríamos mais uma conquista inédita.
                No início eu ia à frente, com o Luciano na retaguarda dando a direção correta, consertando a rota com o GPS e com a bussola. Caminho desimpedido, parecia até estarmos numa estradinha antiga e abandonada, mas logo ela começou a atravessar uns charcos, uns alagados enlameados, tínhamos que mudar constantemente de direção para poder passar. O terreno foi piorando, bambus foram tomando conta de tudo, a noite caiu numa velocidade impressionante e os rostos começaram a ficar carrancudos. O revezamento de quem ia na linha de frente se fez necessário porque era um esforço descomunal para passar e aos poucos fomos nos dando conta do tamanho da encrenca que estávamos enfrentando.
                Eu e o Vagner nos olhávamos, mas nada dizíamos, nem precisava, sabíamos que mais uma vez, num mesmo ano, havíamos caído nas temidas RESTINGAS DE BERTIOGA. Aquele terreno não é coisa para ser humano, uma área alagada e pantanosa, onde bromélias espinhudas e cipós navalha vão destruindo a parte psicológica. Não se consegue andar, qualquer passo dado é uma energia brutal que se gasta, o aventureiro vai definhando aos poucos até chegar num estado em que já não sabe nem mais o que é, se é gente ou se é bicho. Eu olhava na cara do Plácido Tainha e ficava era com pena, parecia estar sofrendo muito, mas nem falava nada, eu mesmo já estava sofrendo tanto quanto ele.

                A gente não progredia, o GPS cada vez mais com as baterias se esvaindo. Hora ou outra, rodávamos em círculos porque era preciso mudar rápido de direção e isso nos desorientava momentaneamente até conseguirmos voltar para o rumo. A água acabou, só liquido podre é que abundava.  A fome era tanta que já tinha gente comendo miojo cru. Eram míseros 2 ou 3 km de vara-mato, mas as distancias pareciam maiores que atravessar a Floresta Amazônica. Tentávamos chegar as margens do Rio Verde, um rio que se junta e dá vida a um tal de Una, sei lá , outro Una, uma confusão de nomes que não vem ao caso, mas antes de acharmos esse rio para cruzá-lo, onde achávamos que encontraríamos um terreno mais favorável, o GPS morreu de vez, MISERICÓRDIA, o Fiorroto havia dito para não ouvir musiquinha no acampamento.(rsrsrsr)
                Nem as trevas eram mais escuras que aquela floresta, as lanternas foram acesas, mas agora sem gps, o bicho ficou feio, apelaríamos para uma invenção milenar chinesa, era hora de navegar com a bussola. Ninguém andava, apenas se arrastava na lama, as vezes com a àgua na cintura. Achamos o rio que procurávamos, mas um pouco abaixo de onde me pareceu haver um tronco para poder atravessá-lo, mas por sorte conseguimos passar com a água pela cintura e subir até o ponto marcado.
                Encontramos o tal caminho aberto que pensávamos ser uma estrada, mas que na verdade parecia mesmo um grande aceiro de linha de transmissão de energia, mas sem nenhuma torre. Acontece que nesse local, que poderia nos dar passagem, o mato era gigante, com áreas tão alagadas quanto a anterior e para piorar, a floresta havia tomado conta novamente e a gente descobriu que havíamos saído de um inferno para entrar em outro. No começo até parecia que avançaríamos fácil, mas foi pura ilusão e agora além de arrastar uma floresta no peito, vez ou outra caíamos numa vala de córrego que tentava sugar quem lá despencava.
                Teve uma hora que eu fazia as vezes de cu de tropa, quando pedi passagem para ir à frente, porque a fila não andava e quando lá cheguei, ví todo mundo exausto, quase desmaiados e o Vagner estropiado depois de ter aberto um pouco de mato, teria sido melhor apanhar de índio. Assumi a dianteira, mas o arrependimento não durou nem 5 minutos para vir. Conseguimos achar um pouco de bateria em um dos nossos celulares e o Luciano foi nos guiando com a bussola, mas tudo parecia interminável, a escuridão da noite diante das lanternas já meia boca ia transformando tudo num sofrimento quase inaguentável e não demorou muito para alguns começarem a surtar. Ninguém mais se entendia quanto a direção, a gente não progredia mais, a gente se arrastava no lamaçal e no mato intransponível e foi hora de alguém dar um grito e por ordem naquela bagunça.
                O relógio já se aproximava das 10 badaladas noturnicas. Eu voltei a ser cú de tropa, estava extenuado, nem dava mais palpites, apenas me deixava ir e assistia as investidas que eram dadas nuns lírios do brejo com mais de 3 metros de altura, o máximo que eu fazia era indicar o caminho a seguir porque consegui mais um pouco de bateria no meu celular e acompanhava o caminho no aplicativo de gps. Ao longe, uma luz denunciava que a Rodovia Rio-Santos estava próxima e aí achamos energia sei lá de onde para prosseguir e quando subimos o barranco, caímos bem em um ponto de ônibus. Éramos bicho, éramos réptil, éramos qualquer coisa, mas homens é que não éramos. Cinco seres fedorentos e grudentos se abraçaram, como a agradecer uns aos outros pela oportunidade da aventura vivida, entraram nessa expedição amigos, saíram uma família.
                Já  passava das dez horas da noite e a gente não tinha forças nem para tirar a roupa molhada e fedorenta, ficamos ali, largados e desmontados no chão por um bom tempo, até que surgisse alguma energia para nos recompor e quando apareceu um ônibus na escuridão da noite, subimos nele, mas ele apenas nos deixou na próxima praia, que era a da Boracéia, em frente a um condomínio de luxo, mas nesse trajeto conhecemos dois garotos da comunidade local e eles ficaram maravilhados quando contamos de onde vínhamos . Os meninos se foram e nós ficamos largados em plena madrugada fria numa rodovia deserta. Sem nada mais para comer e sem esperanças de chegar em Bertioga, ficamos ali parados em mais um ponto de ônibus, esperando que o destino nos mostrasse uma solução. Foi aí que do nada, os garotos apareceram em suas bicicletas caiçaras e surpreendentemente nos abasteceram com um monte de lanches e salgados, que eles compraram sabe-se lá onde e do mesmo jeito que aparecerem, sumiram das nossas vistas e para gente não restou outra coisa senão a de voltar novamente  a acreditar na humanidade.
                Pouco depois da uma da manhã, nossa esperança de voltar para casa acabou de vez. Sem ter o que fazer, resolvemos acampar na praia, porque o desespero é que move o homem em suas atitudes e se a lei proíbe camping selvagem na areia, o desespero e o sono justificam a desobediência civil, então fizemos um bivac junto de umas árvores e ali, diante daquele oceano imenso, nos jogamos para debaixo da nossa mansão plástica até que um novo dia rompesse e nos trouxesse a esperança de retornarmos para Bertioga e quando lá chegamos, embarcamos às oito da manhã para São Paulo e cada um foi se perder para um canto da região metropolitana e eu voltei para minha aldeia, no interior Paulista.

                Essa Expedição ao Vale do Rio Silveiras acabou por nos ensinar uma lição muito valiosa; mais uma vez tivemos que resistir e continuar enfrente, mesmo quando tudo parecia sem uma solução aparente. Resistir ao frio inclemente, debaixo de uma chuva fria e dentro de um rio de águas geladas e depois chafurdados a noite, numa lama fétida, sem comida e sem água potável, sendo devorados por mosquitos e mutucas e expostos a mais baixa humilhação que a natureza pode nos jogar às costas. Fomos atrás de aventura e realmente a encontramos de uma tal forma, para nunca mais esquecermos, mas isso é coisa que a gente já sabia, entrar na SERRA DO MAR PAULISTA é ter a oportunidade de se reencontrar como espécie humana, é viver uma vida de intensidades, é mergulhar atrás da AVENTURA AUTENTICA, que há muito tempo foi engolida pela mediocridade da nova civilização moderna.

                                                             
    • Por divanei
      ALTO GRANDE X ESPELHO
                Estávamos à beira do abismo colossal quando ele apareceu, vindo sei lá de onde. Como um dragão cuspidor de fogo, parecendo ter saído das páginas do apocalipse, veio em nossa direção, sobrevoou os vales do Rio Cachoeira, Puruba e Verde, passou próximo da Montanha mais alta de toda a Serra do Mar Paulista e botou força nos seus motores e suas hélices. Ninguém sabia o que estava acontecendo, uns gritavam que era a Polícia Militar, outros insistiam que se tratava da Federal, eu mesmo só pensava em não cagar nas calças diante daquela cena dantesca e inusitada. Aquela era sem dúvida uma das montanhas mais isoladas de Ubatuba, lugar onde pouca gente já teve a honra de botar os pés e o seu nome refletia a angustia presente no olhar de cada um daqueles dez aventureiros que ali estavam, depois de uma jornada duríssima até o seu cume, esquecido pela civilização. Quando pairou sobre nossas cabeças, há 5 metros do chão, eu pensei em fugir, mas atrás de mim uns 500 metros de vazio me dizia que era caminho sem volta e aquela frase clássica escapou da minha boca num sussurro quase inaudível: “ AGORA FUDEU! Agora fudeu de verdade “ 

          A EQUIPE: Régis ferreira, Paulo Potenza, Luciano Carvalho, VGN Vagner, Daniel Trovo, Divanei Goes de Paula, Rafael Araujo, Alan Flórido, Maurício Carbone e Thiago Silva(fora da foto)
                Se fizéssemos uma pergunta sobre qual o CUME da Serra do Mar de São Paulo, muitos daqueles que estão acostumados com os esportes de aventura e detêm um mínimo de conhecimento, vão dizer logo, com razão, que essa montanha é sem dúvida o TIRA CHAPÉU ( 2088 M) , mas outros poderiam contestar e chutariam que a mais alta é a Pedra da Bacia( 2090 m , mas nunca provado) , as duas turística e de fácil acesso, situadas lá pelas bandas de São José do Barreiro, no Parque Nacional na Serra da Bocaina. Pois bem, mas quando nós dizemos Serra do Mar Paulista sempre estamos nos referindo a sua parte litorânea, seu espigão fantástico, coberta de florestas quase intocadas, de onde rios selvagens escorrem do planalto em direção ao mar, num dos mais lindos ecossistemas do mundo. Dos 16 municípios que compõem o nosso litoral, QUAL SERIA A MONTANHA COM MAIOR ALTITUDE E ONDE ESTARIA LOCALIZADA, ou seja, QUAL O CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA, em todo seu litoral?
                Durante muitos anos em que estivemos explorando a Serra do Mar, essa pergunta sempre martelou em nossas cabeças, muito porque nos faltavam mapas confiáveis e cartas com divisas de municípios e unidades de conservação. Quando meus estudos técnicos começaram antes da EXPEDIÇÃO que descobriu o Cume da Serra dos Itatins/Juréia, fui empurrado para o litoral norte tentando descobrir se aqueles picos gigantes, em se tratando de Serra do Mar, estavam ou não localizados na Bocaina e sinceramente na época, não consegui angariar informações convincentes, tanto que os 1425 metros do Pico Desmoronado nos Itatins, que eu pensava ser o cume da Serra, acabamos nem nos apegando a isso, porque faltava uma confirmação.
                Para muita gente, ou pelo menos para uns 99 % delas, o CORCOVADO de Ubatuba seria o cume de Ubatuba e para alguns vai muito mais além, alguns afirmam que seria o ponto mais alto também da Serra do Mar, inclusive até para alguns órgãos oficiais, uma vergonha gigantesca, uma desinformação que chega a ser patética diante do nanismo do Corcovado que não passa de míseros 1.181 metros. Outros mais antenados apostariam suas fichas no Cuscuzeiro (1278 m), ainda que pertencendo a Bocaina, mas situado também em Ubatuba. E por fim, alguma meia dúzia de gato pingado, e gente mais letrada em se tratando de estudos de mapas, irá dizer que existe um pico na divisa com Parati que atende pelo nome de PEDRA DO ESPELHO, mesmo que jamais tenha botado seus pés lá.
                A PEDRA DO ESPELHO eu já tinha ouvido falar e havia chegado a ela nas pesquisas dos mapas, mesmo não tendo essa certeza toda, mas havia algo que me intrigava: Pouco mais de dois quilômetros e meio ao norte/noroeste do Espelho, um cume proeminente me dava quase a certeza de que o Espelho era mais baixo e quando tive acesso a alguns mapas mais detalhados, a minha dúvida começou a ruir. Era certo que aquela montanha estava acima dos 1600 metros, mais de 100 metros acima do Espelho, mas tinha um, porém: Aquele pico até então desconhecido e sem nome, ao menos para mim, pertencia a Cunha-SP ou a Ubatuba-SP, pertencia a Serra do Mar ou a Serra da Bocaina?  Aí alguém poderá me perguntar que diferença faria isso e eu simplesmente diria que se esse pico pertencesse a Cunha ou pior ainda, a Paratí-RJ, não faria o menor sentido se preocupar com ele, porque seria mais um, dentre tantos outros picos altos naquela região. Aliás, mesmo a PEDRA DO ESPELHO, apesar de pertencer a Ubatuba, estaria inserida no Parque Nacional da Serra da Bocaina, que é compartilhada tanto por São Paulo, mas também pelo Rio de Janeiro, mas mesmo assim ainda seria o ponto mais alto do LITORAL DE SÃO PAULO, só que nem isso seria verdade, como descobriríamos mais adiante.
                Sem saber como acessar nem o Espelho e nem muito menos essa montanha que eu supunha ser o Cume da Serra, mas não tinha certeza, fui cuidar de outras expedições à essa Serra onde a aventura te chama para qualquer lugar que você olhe e numa dessas aventuras foi que conhecemos o Alan Flórido e o Thiago Silva, dois conhecedores do litoral norte, inclusive o Flórido foi convidado por nós na expedição que ascendeu ao cume da Pedra da Boracéia( 1270 m) por uma nova rota, mas como estava às  voltas com outra viagem e por infelicidade ficou fora de combate por causa de uma hérnia de disco, acabou abortando sua ida, mas numa discussão informal, acabou deixando vazar que conhecia uma rota para o Espelho e que o Thiago também já havia estado nessa montanha que eu buscava e não tardou em a gente alinhar uma data para irmos juntos desvendar esse mistério, mesmo que ainda pairasse no ar a dúvida sobre se essa montanha pertenceria ou não a Ubatuba.
                Dessa vez então deixamos o roteiro e os convites a cargo do Flórido e do Thiago e eu me mantive firme atrás de outros mapas e em pesquisas mais avançadas, mas infelizmente , mesmo pesquisando até no limbo da internet, nada encontrei sobre essa montanha, que agora sabia o nome que foi dado pelos locais das fazendas vizinhas e seu nome não poderia ser outro, ALTO GRANDE , um nome sugestivo para o gigantismo geográfico que ela representava, mesmo que nenhum desses nativos tivesse ciência disso, aliás nem mesmo os nossos “guias” haviam se dado conta da importância dela, pensando que fosse apenas mais uma grande montanha no caminho da lenda chamada Espelho. Bom, mas isso eu também ainda não sabia, mas tudo mudou quando sem querer cai num mapa que me deu a divisa exata entre UBATUBA E CUNHA e melhor ainda, esse mapa delimitava as divisas do Parque Estadual da Serra do Mar com o Parque Nacional da Serra da Bocaina e BINGO!  O ALTO GRANDE era Paulista, o ALTO GRANDE era terras de UBATUBA, o ALTO GRANDE pertencia ao Parque Estadual da Serra do Mar e nesse dia eu fui dormir feliz, aquilo que eu buscava já estava definido e com o grupo que tínhamos nas mãos, com os caras mais experientes em se tratando de Serra do Mar, era questão de tempo para que botássemos os pés no cume dessas montanhas.

            (VERDE- Pq.Nac. Serra da Bocaina- Rj/SP) (BRANCO - Pq. Est. Serra do Mar- SP)
                O Flórido montou o grupo e no final acabamos ficando com 10 integrantes, um número grande, mas infelizmente outros companheiros ficaram de fora, alguns já vinham mesmo não querendo mais participar dessas travessias incertas, outros compareciam esporadicamente, mas paciência, dessa vez eu mesmo não tinha controle sobre isso e me mantive apenas como convidado, ainda que ajudando na logística da coisa. Outro problema era que não tínhamos mais nenhum feriado prolongado nesse inverno, então tudo teria que ser resolvido em um único final de semana e para ajudar aqueles que trabalhavam aos sábados, escolhemos o fim de semana com o feriado da Independência. Partimos da capital Paulista em dois veículos rumo a Cunha-SP e depois rodamos uns 15 km em direção à Parati, entramos à direita numa estrada de terra, andamos mais uns 06 km até estacionarmos enfrente da fazenda onde partira nossa trilha, mas como ainda era alta madrugada, tratamos de montar nossas barraquinhas enfrente a porteira e deixamos para conseguir as tais autorizações quando o dia amanhecesse.

       
                Como disse a previsão, o dia amanheceu lindamente ensolarado e pouco depois da 6 da manhã já estávamos de pé, bem a tempo de dar explicações para um dos habitantes da fazenda que deve ter se assustado com nossa invasão. Estávamos apreensivos porque uma fonte havia nos dito que os fazendeiros estavam barrando quem se atrevesse a passar por suas terras rumo aos picos, mas fomos atendidos muito bem pelo seu Lourival, com toda simplicidade do homem do interior que nos recebeu com um cafezinho quente e ainda nos ofereceu para guardar nossos carros. Pouco depois das sete já estávamos prontos para partir, jogamos as mochilas às costas e nos pusemos a caminhar pelos Campos de Cunha, sua direção a partir de agora era para o alto, em busca do Cume da Serra do Mar Paulista.
                Nossa jornada começa por adentrarmos um portão de fazenda do lado direito da estrada, ganha logo uma casa e intercepta uma trilha que vai atravessar uma língua de mata em direção ao sul e uns 800 metros depois viramos à direita numa cama de pinhões, um amontoado de sementes da araucária, disposta em um cercado, que não faço a mínima ideia para que serve. Cruzamos mais alguns metros de mato e subimos o barranco e começamos a ganhar altitude de vez, sempre acompanhado alguma trilha de cavalo. Perdemos um pouco de altitude e descemos à um riacho onde aproveitamos para um gole de água e voltamos a subir, atravessamos uma cerca e nos enfiamos num corredor de samambaias mais alto até sairmos de frente para um vale bonito de onde se descortina grandes montanhas a nossa frente, que revelam toda a beleza desses Campos de Cunha.

       
                O sol já se mostra impiedoso mesmo sendo ainda muito sedo e a próxima subida já não é feita no mesmo ritmo das anteriores. Cruzamos uma porteira e quando nosso GPS marca 1480 metro de altitude nos diz que já andamos quase 4 km desde a fazenda, tropeçamos na placa que delimita a divisa entre Cunha e Ubatuba e ao mesmo tempo nos diz que estamos entrando no Parque Estadual da Serra do Mar, geograficamente tudo que havíamos estudo acaba confirmando que estamos no rumo certo e aproveitando que a trilha entra na mata fechada, descemos por mais 300 metros até desembocarmos bem no meio de um vale, juntamente a nascente de uma das pernas do Rio Puruba, que na carta topográfica consta como Rio Cachoeira, hora de parar, sentar, tomar um gole de água e morder alguma coisa.

                Geograficamente estamos num bico do mapa bem nos cafundós mais distantes de Ubatuba, encima do Planalto Paulista. E é mesmo surpreendente estar ali naquele riacho onde o rio Puruba pode ser cruzado com a água pela canela. Mais surpreendente ainda foi a capacidade que tivemos em unir dessa vez tanta gente diferente umas das outras, um dos grupos mais heterogêneos que já formamos, mas uma coisa acaba igualando todo mundo que ali estava: A PAIXÃO INCONTROLÁVEL PELA SERRA DO MAR DE SÃO PAULO, gente capaz de largar tudo por uma aventura nessas montanhas e florestas e esse amor incondicional acaba por ligar essa gente a ponto de se tornarem quase uma família.
                Como eu já havia dito, os caras que puxavam a fila eram o Thiago Silva e o Alan Flórido, sendo o Thiago o único que já estivera no Alto Grande. A nossa jornada continua agora por uma trilha estreita no meio da mata sombreada, mas como havia sido uma semana chuvosa, o caminho era uma lama só e parar em pé era um desafio do tamanho daquelas montanhas que buscávamos. Quando a subida começou de verdade, o grupo se fragmentou e alguns ficaram para trás e como a subida não faz distinção de idade, velhos e novos se alternavam como cú de tropa, experientes e novatos arrastavam suas línguas no chão até que sem prévio aviso ela surgiu à nossa frente e sorrindo nos chamou para uma conquista, mas antes era melhor estacionarmos por um momento sobre uma grande pedra no caminho à 1579 m, juntar todo o grupo antes da subida final. Pelo meu gps aquela pedra que marcava a saída da trilha principal para ascendermos ao cume, marcava também a divisa de Ubatuba com Paratí, portanto, dividia também São Paulo do Rio de Janeiro e ia muito mais além, dividia Parque Estadual da Serra do Mar do Parque Nacional da Serra da Bocaina  e essa informação era o “X” de toda a questão, porque sempre pairava uma dúvida se o cume ficaria ou não em terras Paulistas e agora diante dos nossos olhos , na palma das nossas mãos, a confirmação final e incontestável diante da tecnologia, faltava agora confirmar a altura aproximada do Cume, distante menos de meia hora de onde estávamos.

                Escondemos as mochilas no mato, mas nem precisava, e adentramos na mata rala em direção ao cume. Uns 200 m mais acima, um grande amontoado de pedras nos dá uma visão maior. O horizonte já se ampliou consideravelmente e já é possível avistar a Serra da Mantiqueira e seus famosos cumes, além da baia de Paratí e a cumeada da Bocaina. A subida final é suave, passa por uma toca e só aí começa a inclinar de vez, atravessamos um capão de mata mais fechada e desembocamos de cara com duas grandes rochas, uma do lado esquerdo e outra do lado direito e uma delas marca geograficamente o CUME DO LITOAL PAULISTA.
                Durante anos eu olhei para os mapas e cartas e agora diante dos meus olhos aquilo que era apenas um ponto aleatório, se materializou na minha frente. Para muitos poderia ser apenas uma pedra jogada no cume de um morrote qualquer naquele fim de mundo perdido encima do Planalto Paulista de Ubatuba, mas para mim era a consolidação de uma busca de anos, porque foram muitas noites de sono perdidas estudando mapas, buscando informações onde elas estivessem e agora nós estávamos prestes a fincar os pés naquele cume lendário. Um a um, fomos nos agarrando a qualquer coisa que desse sustentação e como era um cume não muito grande, nos amontoamos em grupos sobre ele e um abraço coletivo marcou a CONQUISTA FINAL, o CUME MAIS ALTO DA SERRA DO MAR PAULISTA era nosso, o ALTO GRANDE agora não era só uma montanha isolada nas bordas da serra, acabará de ganhar outro patamar com a nossa presença, não éramos nem de longe os primeiros, mas coube a nós revelá-la ao mundo da Aventura e talvez mudar a geografia da Serra do Mar que de agora em diante e para todo o sempre e para o conhecimento de todos, tem um cume oficial, não só o mais alto de todo o litoral, mas também o mais alto de UBATUBA.
       
          (Alto Grande)
                Na realidade o Cume é composto por essas duas rochas, mas a da esquerda é levemente maior, então foi nela que juntamos os 3 GPS para uma medição oficial, claro que é uma medição aproximada e num futuro, poderá se usar equipamentos ultramodernos e precisos, mas os números que achamos condiz com o que estão nas cartas, nas análises das curvas de nível. Juntos e no mesmo local os nossos equipamentos marcaram praticamente a mesma coisa, com uma miséria diferença de 1 metros entre os 3 equipamentos, então diante disso, o número estabelecido para a altitude do ALTO GRANDE foi de 1.662 metros acima do nível do mar. Se a rocha da esquerda é o cume da serra, foi a rocha da direita que escolhemos para instalar o nosso LIVRO DE CUME, bem debaixo de uma pedra, protegido da chuva e do vento e de qualquer outras intemperes do tempo, foi uma doação nossa, um presente para Serra do Mar Paulista.

                Tirando a importância geográfica dessa montanha, nós sinceramente não achávamos que teríamos algum visual que prestasse, pensávamos que seria um cume cercado de mato por todos os lados, porque é assim que ele se apresenta nas fotos de satélite, mas nos enganos bonito e se não é possível daqui ver o mar de Ubatuba e o litoral Paulista, vamos ter as vistas soberbas da Baia de Paratí, das montanhas que fecham o vale da Toca do Ouro , de toda a cadeia de montanhas da Bocaina, inclusive com a Pedra da Macela e o Pico do Frade, além da incrível Mantiqueira e seus ícones rochosos. Olhando para o sul/sudoeste, que é a direção do litoral Paulista, vamos ver uma sequência de montanha com cerca de 100 metros mais baixa que o Alto Grande, mas por incrível que pareça, uma delas reina como o segundo ponto mais alto do nosso litoral, com altitude em torno de 1550 metros, mas por não parecer ter nenhum cume rochoso, essa espécie de k2 da Serra do Mar, que resolvi então chamar de UB 2, por pertencer a Ubatuba, decidimos não perder tempo com ela, nosso próximo objetivo então seria o terceiro cume nessa hierarquia , a não menos fantástica e LENDÁRIA , PEDRA DO ESPELHO, de onde o mar de São Paulo te convida para um deslumbramento inesquecível.

                O dia quase se aproximava da sua metade quando abandonamos o Alto Grande. A descida foi rápida e sem entreveros e assim que chegamos na bifurcação, não perdemos tempo e pegamos logo para a direita e não demora muito a trilha já volta a entrar na mata fechada e entre sobe e desce, intercepta algum riachinho mais caudaloso. É uma trilha bem consolidada porque vai percorrer todo o vale até Paratí, 20 km de pernada que teremos que fazer na manhã seguinte, mas hoje o objetivo é abandoná-la em favor de outra trilha que nos levara direto para o sul em direção a Pedra do Espelho. Uma hora de caminhada desde o Alto Grande, nos faz sairmos em campo aberto e já é possível avistar a imponência do Espelho assim que cruzamos uma porteira. Os nosso “guias” sussurram que está perto, mas não passa de conversa fiada, logo se vê que a montanha está lá na puta que o pariu, mas eu mesmo me enganei ao fazer essa análise de distância, nunca vi puta que o pariu ser tão longe.

                  ( Rumo a Pedra do Espelho)
                A trilha começa a descer bruscamente em campo aberto e agora o grupo voltou a se fragmentar, porque alguns fizeram questão de ficar apreciando o visual e angariar umas boas fotos. Vamos perdendo altitude até que ela volta a entrar na mata e quando chega a uma outra bifurcação, nos detemos por um instante até que todo o grupo se juntasse novamente. Nessa bifurcação vamos pegar para direita e abandonar a trilha principal. Então descemos a ribanceira até sairmos novamente em campo aberto junto a um rancho e um bucólico riacho e subimos a colina à frente até pararmos no mirante do vale, hora de nos determos por mais um momento e apreciarmos as paisagens até onde a vista alcança.

                A chegada ao mirante marca definitivamente o fim da trilha, de agora em diante é só mato no peito e as vezes alguma picada ou outra, mas sem gps não se vai a lugar nenhum. Reunido todos ali já se vê que o cansaço já tomou conta de boa parte do grupo. Viajamos quase a noite toda, dormimos quase nada e nos alimentamos muito pouco e a maioria não vê a hora de esticar o esqueleto, mas a pior parte da trilha ainda estava por vir. Deixamos o descampado e caímos logo na capoeira, uma mata fechada e não deu nem 5 minutos para o Daniel Trovo soltar um galho no olho do Vagner e aí tivemos que nos deter por um tempo para prestar os primeiros socorros, mas isso não foi nada porque o Vagner ia “tomar no zóio” mesmo era lá no cume do Espelho. Restabelecido o moribundo, seguimos enfrente, sempre rumando para sudoeste, descendo e subindo pequenos vales, cruzando riachos e atravessando vegetação fechada.
                A quilometragem total não passa de míseros 3 km desde o rancho , mas para quem já está no bagaço, 100 metros subindo é uma tortura. O calor tá de matar e a umidade acaba por ir minando a energia da gente. Alguns já vão ficando para trás, Luciano perna manca e joelho podre, assume a rabeta de vez e pega para si o título de cu de tropa da subida final. Rafael é só mais um zumbi vagando sem rumo tentando acompanhar o grupo, ao seu lado, Paulo Potenza vai tentando lhe dar um conforto psicológico, mas não demora muito para ele anunciar que o Rafa teve um mal súbito e agora jaz ali caído no meio da mata a espera do SAMU. Um km depois nosso caminho se vira para o sul e embica para cima e os “fi duma égua” do Thiago e do Flórido anunciam que logo estaremos passando pela última água antes do cume, mas, ou se enganaram ou estavam de onda com a nossa cara, porque essa água nunca chegava, passávamos por centenas de riachos, mas nunca era o último.
                O tempo vai passando e cada vez mais a língua da maioria vai se arrastando pelo chão, tirando 2 ou 3 novinhos, o resto arrasta seu sofrimento montanha acima e o problema não é por estarem fora de forma, mas é que no primeiro dia sem dormir e como a tarde já bate as portas, aquela leseira vai se acentuando, a fome vai tomando conta e quando é anunciado que o último ponto de água chegou, enchemos todos os reservatórios e sem perder tempo começamos a galgar a rampa final rumo ao cume. Até caras forte como Trovo e Régis já vão dando sinal de fraqueza e o Maurício é outro que resolveu trazer comida para todo mundo e se enrosca carregando uma mochila muito acima do necessário. Mas eu não, apesar de me manter firme no grupo de elite que vai à frente, meus quase 50 anos já viraram 100 faz tempo, minha perna direita resolve que não iria subir mais e fez corpo mole, se acabando em câimbras. Sem querer pagar mico e pedir para o grupo parar na reta final, apenas dou ordem para que minha perna esquerda se vire e araste a direita e quando um grande clarão surge no meio das árvores logo vem o grito do homem à frente: “CUME GALERA”.
       
                A chega ao cume da PEDRA DO ESPELHO é feita aos poucos, porque é um grande platô plano, quase do tamanho de um campo de futebol e quanto mais perto da borda, mais a paisagem vai se abrindo para um mundo de sonhos e beleza e antes mesmo de irmos a borda final, jogamos nossas mochilas numa clareira de mato mais ralo e nos cumprimentamos ali mesmo, com a sensação do dever comprido e com a certeza de que todo o nosso planejamento tinha tido êxito. Aquele mar visto lá de cima do Espelho era algo mágico e inexplicável, não só por estarmos em uma das regiões mais isoladas do litoral norte, mas também por fazermos partes dos poucos aventureiros que tiveram a honra de colocar os pés naquele cume lendário. Extasiados e sem saber para que lado olhar, corremos todos para onde o terreno despenca mais abruptamente, porque a Pedra do Espelho está virada para sudoeste, de onde vales gigantes emolduram um cenário incrível e olhando para aquele vale, quase que hipnotizados, vimos surgir ao longe um helicóptero que vinha em nossa direção, voando baixo, mas apenas ficamos ali, apreciando seu magnífico voo, mas quando ele embicou de vez para o cume do Espelho, um frio na barriga foi inevitável.

                   Quando o troço voador começou a vir em nossa direção, dando pinta que pousaria mesmo no Espelho, não quisemos acreditar, mas quando a ficha caiu de vez, começou a gritaria de opiniões desencontradas: “ Caralho mano, é o Águia da Policia Militar”, gritou alguém. “ Que nada, é um helicóptero da POLÍCIA FEDERAL”, retrucou o Trovo do outro lado. Outros, como eu, não gritaram absolutamente nada, apenas não acreditavam no que estava acontecendo: Estava na cara que a casa havia caído para a gente. Sairíamos dali presos, multados e com os equipamentos apreendidos. O pior é que para evitar qualquer confusão com parques ou coisa assim, subimos pelas fazendas do Norte, onde tecnicamente o caminho é permitido e necessita apenas a liberação dos donos das propriedades. O helicóptero pairou no ar como um beija-flor e vagarosamente foi descendo. Eu já não sabia se corria, mas quando pensei na possibilidade, me vi acuado na beira de um abismo de mais de 500 metros de altura e parte dos exploradores, sem ter mais o que fazer diante da situação, correram em direção ao helicóptero que ameaçava pousar encima das nossas mochilas.

       
                O HELICÓPTERO foi baixando até tocar o solo. O mais perto da aeronave era o Thiago e notou logo que quem pilotava era uma mulher, acompanhada de outro homem e ao ver que corríamos (menos eu) na direção deles, permaneceu no chão por algum segundo e alçou voo rapidamente. É provável que ao verem aquele monte de malacabados indo em sua direção, ficaram com medo e picaram a mula do topo. A gente ficou a ver navios, sem saber do que se tratava, mas aliviados de mais uma vez sermos deixados em paz naquele cume sombrio e distante da civilização, 10 homens isolados do mundo, donos absolutos daquelas paragens, soberanos sobre o TERCEIRO CUME mais alto do LITORAL PAULISTA.

       
                Depois desse acontecimento inusitado, foi uma festa só, comemoração e risadas sem fim. Estávamos felizes e aproveitamos as horas de sol para montarmos nossas barracas e fazer uma comida e enquanto o fogareiro trabalhava, fomos apreciar o pôr do sol que pela localização da montanha ficava quase que paralelo ao mar, num dos cenários mais fabulosos do litoral Paulista. Dentre outras paisagens se destacava a Baia de Ubatumirim, Ilha Bela, Ponta da Joatinga, além do distante pico do Corcovado e dezenas de outras ilhas, num mar qualhado de belezas inigualáveis, além do proeminente cume do Alto Grande e o UB2, que fechava os abismos da serra. Vales e gargantas profundas podia se contar em dezenas, numa selva isolada, de onde rios desciam do planalto em direção a planície litorânea, enfim, a Serra do Mar Paulista com tudo que tem direito.

               
                Foi um dia longo e de múltiplas experiências e com a ida do sol era hora de nos voltarmos para o jantar e para o descanso merecido. Eu e o Régis dividimos a barraca e o rango, que dessa vez, como era uma única refeição quente, resolvi levar uma carne seca já dessalgada e cozida na panela de pressão, nela juntei cebola, alho, pimenta e outros temperos diversos, coloquei azeitonas picadas e quando o bacon fritou, misturei com uma caixinha de creme de leite e fizemos um super strogonoff e para complementar cobrimos com queijo  ralado e para beber um suco de jabuticaba, nossa típica fruta da Serra do Mar, tudo isso com um arroz quentinho e uma saladinha de tomate cedido gentilmente pelo Mauricinho, que trouxe 5 kg pra não faltar mesmo, porque miséria não é com ele.

                Quando juntamos aquele grupo com  os novos integrantes (Flórido, Mauricio e Thiago), a galera combinou de fazer uma grande confraternização no cume do Espelho e dessa vez resolveram que levariam um aperitivo para tomar lá encima. Eu mesmo, que não sou dado ao álcool, nem me intrometi, mas a intenção de levar uma garrafa de vinho acabou se multiplicando por vária garrafas de bebidas diversas e enquanto eu e o Regis nos recolhemos cedo depois de quase morrer de tanto comer, a galera ficou lá fora bebendo e comemorando e vez ou outra eu acordava com a algazarra, mas voltava a dormir novamente. Sei que alguns exageraram a ponto de a meia noite surgirem convites para ver disco voador colorido à beira do abismo. Mas nada se comparou ao “VGN Valita Vagner”, que passou a noite inteira espremendo laranjas. Dá barraca de onde estávamos, só ouvíamos suas “gorfadas” que iam parar na cabeça dos turistas lá no litoral. Parecia um espremedor de laranjas em ação, vomitando no mundo e até na cabeça do próprio Trovo, seu companheiro de barraca avistador de nave espacial.
                É mais um lindo dia que nasce e antes que o sol explodisse no horizonte, o grupo já estava de pé para saudá-lo, menos o Vagner que ainda estava às voltas com fabricação de suco de laranja, aliás, ele mal parava em pé e essa ressaca ia perdurar pelo menos até a metade daquele dia. Com a iluminação da manhã, novos cenários vão surgindo  e novos ângulos vão nos dando a dimensão desse lugar. Fica até impossível escolher o melhor ângulo para uma foto diante de tantas possibilidades. E estar no topo da Pedra do Espelho é ter o privilégio de avistar um mundo diferenciado e de cima daquele pico isolado, o litoral Paulista em nada parecia com aquele lugar agitado, ali de cima o silencio reina absoluto e é possível ficar olhando aquela paisagem pela eternidade sem se cansar.


                Já havíamos feito as medições do cume do Alto Grande e instalado um livro de cume nele, mas para completar o serviço, também levamos uma capsula para deixarmos um livro no Espelho e aproveitamos também para atualizarmos a marcação de altitude. Pelas cartas topográficas e satélite, imaginávamos que a altitude pudesse chegar a ultrapassar a linha dos 1500 metros e realmente estávamos totalmente certos quanto a nossa expectativa. Quem chega já vê que existe uma pequena elevação uns 50 metros afastado das bordas, que o Thiago disse se chamar Cabeça do Tigre, mas minha imaginação não conseguiu saber de que tigre se tratava, mas mesmo assim é uma elevação muito pequena e irrelevante, então resolvemos proceder as marcações na borda da montanha, onde o mundo acaba em abismos colossais e foi lá também que escolhemos para instalar o LIVRO DE CUME, onde o amarramos em um pequeno arbusto para que não seja levado pelo vento e foi ali que travamos nossos GPS  e marcamos a altitude que nos deu PEDRA DO ESPELHO – 1504 METROS de altitude acima do nível do mar, o terceiro maior cume de Ubatuba e também de toda a Serra do Mar Paulista.
       
       
                A gente se apegou aquela montanha de tal maneira que ninguém fazia menção de descer, ficamos todos reunidos ali nas suas bordas vislumbrando e conversando sobre expedições futuras na Serra do Mar, mas chega uma hora que é preciso voltar para o mundo dos homens e alguém nos acorda daquele sonho e avisa que é hora de descermos, porque ainda teremos um longo dia de caminhada pela frente. Devagar e meio contrariados, fomos desmontando as barracas, tomamos café, jogamos tudo para dentro das mochilas e partimos rumo a Paratí. Aliás, quando acaba  o cume plano do Espelho e entramos na mata, automaticamente estamos também cruzando a linha imaginária que separa São Paulo do Rio de Janeiro e como agora estamos descansados e bem alimentados, a descida do cume em direção ao interior mais plano da floresta é feita numa velocidade inimaginável e o sofrimento do dia anterior, desta vez vira um bonito passeio sombreado e os 3 km até o rancho é feito com os pés nas costas, em meio a muita conversa e descontração de todo o grupo e até o Vagner já se recuperou e voltou a ser o VGN de sempre.
       
                Chegando à bifurcação acima do rancho, desta vez pegamos para a direita, vamos começar a descer o VALE DA TOCA DO OURO em direção a Parati. A trilha se enfia mata à dentro e vai alternando entre grandes descidas e pequenas subidas, mas sempre perdendo altitude, mesmo que sejam mínimas. É uma caminhada gostosa e sombreado e por não exigir muito esforço e a gente ainda estar com o nível de energias lá no alto, vamos ganhando terreno com uma certa velocidade, até que uma hora depois de termos pego essa trilha principal, galgamos uma subida exposta até sermos obrigados a nos desfazermos das nossas mochilas e pararmos para contemplarmos a PEDRA EMPILHADA. Essa formação rochosa é belíssima, num cenário de sonhos, sendo uma pedra arredondada, sustentada por outra quadrada, no início de um vale aberto, donde montanhas pontudas e picos bicudos, emolduram uma paisagem incrível.

               
                Diante daquele cenário ninguém quer ir embora e cada qual busca o melhor ângulo para uma boa foto e com a ajuda do Thiago, consigo ir ao cume da rocha redonda e depois um a um foram brincar de escalar o monumento rochoso e aproveitando a parada, nos detemos mais um pouco para comer alguma coisa e descansar numa sombra. Quando retomamos a pernada , nossa direção que era sudeste , virou drasticamente para o sul, mas 300 m depois vai dar uma guinada e seguir para o leste, ainda continuando em campo aberto, com montanhas e paredões nos acompanhando pelo lado esquerdo do vale , mas depois de queimar o couro em campo aberto, voltamos para mata e caminhamos por uns 500 metros de sombra até  voltarmos novamente para o sol e mais 500 metros darmos de cara com um rio que veio para salvar nossa pele e nossa garganta já seca.

                Aquele era mais um rio bucólico dessas serras, água cristalina onde alguns resolveram se jogar e se refrescar de vez, enquanto outros resolveram usar o tempo para tirar as botas e apenas refrescar os pés. Do outro lado do rio, um rancho de madeira bem construído faz inveja a quem gostaria de largar tudo e passar uma boa temporada longe da civilização e nossa trilha começa por atravessar o próprio rio, contornar a casinha de madeira e ganhar novamente a descida entre grandes rochas e caminho desimpedido, hora ou outra tendo de correr de alguma vaquinha mais perigosa. A caminhada segue, mas agora estamos bem próximo do fundo do vale com o Rio do Ouro emoldurando a paisagem e menos de uma hora de caminhada já estamos novamente atravessando mais um capão de mata e passando encima de outro afluente, mais uma pausa para m gole de água e um refresco.

                O dia vai passando e a gente enfurnado dentro daquele vale sem ver uma viva alma além de nós mesmo. Uma meia hora depois, desde o último riacho, nos enfiamos mais uma vez dentro da floresta e sem aviso prévio, somos apresentados a tal TOCA DO OURO que nomeia esse vale incrível. Antes da Travessia, ainda nas conversas de organização, eu perguntava para o Alan sobre que raios de toca seria essa que dava nome ao vale e ele sempre desconversava, então a chegada a esse marco natural acabou por se tornar uma surpresa muito agradável para mim, achei um cenário bem marcante e bem interessante, mais um lugar para um bivac em caso de emergência, aliás, atravessar esse vale é muito possível sem ter que carregar uma barraca, apenas usando os abrigos naturais como moradia provisória .
       
                Mais 2 km vagando por campos aberto nos leva até um outro bonito rancho, vazio por sinas, aí o contornamos pela esquerda, passamos a descer bruscamente até passarmos embaixo de uma grande rocha e mais uma vez adentrarmos floresta à dentro, onde outro grande córrego nos convida para um banho mais demorado. A tarde já se anuncia e o calor vai batendo seus recordes nesse inverno e nossa energia já não é mais a mesma, muito porque estamos caminhando desde as nove da manhã e o terreno parece não querer perder altitude. Ao longe vemos Paratí e seu aeroporto e sua linda baia, mas a sensação é que o mar foge da gente. Abandonamos o riacho pelo lado errado, mas logo descobrimos que era hora de cruzar o Rio do Ouro para seu lado esquerdo e quando fizemos isso, tivemos que engolir uma subida que não esperávamos ter que enfrentar.
       

       
                Nesses próximos 500 metros vamos torar ao sol e depois ganhar novamente a sombra por mais 1 km e saindo novamente no aberto, vamos nos deslumbrar com um MIRANTE SENSACIONAL, onde é impossível desgrudar os olhos do mar e mesmo tendo que aguentar as altas temperaturas, nos sentamos ali naquela colina e ali ficamos grudados e hipnotizados com a paisagem. Ao longe a visão da Igrejinha da Penha já nos alegra a alma por sabermos que não está muito longe nosso destino, então adiantamos o passo, cruzamos por um vale bonito onde um desmoronamento nos surpreende pelo tamanho e agora sim, parece que estamos perdendo altitude considerável, ziguezagueando floresta à dentro até o fundo de outro vale de onde uma CACHOEIRA despenca e somos obrigados a parar para mais um banho.

         ( Thiago Silva)
                Engraçado que quando estudei esse roteiro, jurava que quase todo o vale era servido por uma estradinha, ainda mais por avistar diversos ranchos ao longo do caminho, mas vejam só, são quase 20 km de trilhas perdidas no meio de um vale selvagem e é incrível que esse lugar ainda não tenha sido descoberto pelos caminhantes do Brasil, sinal que esse nicho ainda continua a palmilhar pelos mesmos caminhos de sempre e a exclusividade desse roteiro nos deixa ainda mais satisfeitos. Mas chega uma hora que é preciso dar fim a caminhada, então por mais 2 km apertamos o passo, agora despencando freneticamente até que sem percebermos, caímos bem nos encontros do Rio do Ouro com o Rio do Sertão, numa pontinha que cruza um fim de estrada, um rio lindo demais e é à beira desse Rio que nos cumprimentamos, chegamos ao fim de mais uma jornada, mais uma empreitada bem-sucedida pela Serra do Mar Paulista e desta vez o final glorioso acabou no Rio de Janeiro, Paratí está sob nossos pés. Aproveitamos o Rio do Sertão, que logo mais à baixo vai se chamar Perequê-Açu e tomamos um belo de um banho para lavar a lama e a alma, trocamos de roupa e ganhamos a estrada até estacionarmos numa lanchonete mais à frente, para tentarmos retornar aos nossos veículos, estacionados ainda lá no início da fazenda de onde havíamos partido 2 dias atrás.

                Na lanchonete rural, conseguimos o contato de um carro que mediante um pagamento, nos ofereceu para resgatar os veículos. Então decidimos que os motoristas (Alan e Luciano) subiriam, enquanto nós esperaríamos eles voltarem, mas o Mauricio e o Potenza, na ânsia de experimentar o tal leitinho do Jambú lá na fazenda do seu Lourival, fizeram questão de ir fazer peso no carro do resgate. Foram e voltaram só depois de umas 2 horas e sem muita pressa, cada carro tomou seu destino e fomos chegar de volta a capital Paulista beirando as duas da manhã, o que obrigou parte do grupo a dormir como mendigo esticado num canto qualquer da Estação Tatuapé do metrô até que um novo dia nascesse e nos mostrasse a cara cinzenta de uma segunda feira de trabalho.
       
                Levou quase uma década para que puséssemos os pés nessas montanhas lendárias e eu acho que jamais sossegaríamos até nos vermos no tão sonhado CUME DA SERRA DO MAR PAULISTA. Esse era um MARCO GEOGRÁFICO que buscávamos e mesmo que essa montanha seja subida por alguns nativos oriundos das bordas dos Campos de Cunha, coube a nós a honra de desvendar esse mistério ou ao menos revela-lo ao MUNDO DA AVENTURA. Eu tive o prazer de me perder nos mapas e cartas topográficas, buscar referencias e divisas, vasculhar o submundo da internet atrás de informações que comprovasse nossa tese de que aquelas montanhas estariam no topo do nosso litoral, mas toda a glória dessa “expedição” deve cair nas costas do Thiago e do Flórido, que foram os exploradores que botaram a cara e nos lideraram até esses cumes. O resultado final dessa “EXPEDIÇÃO GEOGRÁFICA” foi a confirmação de que o ALTO GRANDE reina absoluto sobre Ubatuba e todos os picos do litoral de São Paulo e mesmo que seus 1662 metros de altitude careça um dia de uma medição mais precisa, com equipamentos de ponta, sua magnitude quanto a geografia será “inderrubável”. Já a PEDRA DO ESPELHO não precisa de glamour altimétrico porque a seu favor conta o deslumbramento, o fascínio e a soberba visão do Litoral Norte Paulista e dos mares Fluminenses e mesmo figurando entre os três maiores cumes do litoral, seus 1504 metros não fica devendo nada a nenhuma outra montanha.

       
                                                                                     Divanei Goes de Paula- setembro/2019
       
    • Por divanei
      PEDRA DA BORACÉIA
                É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização.

         ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . )
                A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista.

               Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo.
                Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “.
                Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar  a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo.
                Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro.  Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado.

                Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo.
                No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto.
                Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro.


         ( Prainha do Poço Bonito)
                A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens.

                O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação.

         (Cachoeira do poço Bonito)
                Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara.

                Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo.
                Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então  estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir.

                Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro.

       
           (Cachoiera Padre Dória)
                Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. 

                Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino.

                O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo.
                Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo.

                Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum.
                Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos.
                O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão.

                Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos  arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume.

                Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor.
                 Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias.
                Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que  uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa.

                Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo.

                Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada.

                Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar  o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento.
                Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir.
                Estávamos todos  embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs.
                Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs).

                O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis.
       

                Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas .
                Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho.

                Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte.

                Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva.


          ( Poço Canastra)
               A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado.

                Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO!
                Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão.
                A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite.
                
                A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia  e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde.
                Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo.
                Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano)

                Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro.

                Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar.
                Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias.
                Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida.
                A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico.
                Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado.
                
                Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a  montanha, mas a inércia da vida.


               
               
               
               
               
               
      Divanei Goes de Paula Publicado em 12/07/2019 16:33
      Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013
      Visualizações
      2
×
×
  • Criar Novo...