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Serra do Cipó Leste-Oeste... a pé!


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Fotos da bagaça

http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/2

 

CIPÓ TRANSVERSAL: DA LAGOA DOURADA AO CABEÇA DE BOI

Encravado no centro do Espinhaço, o bucólico vilarejo de Cabeça de Boi destaca-se pela abundancia de cachus e beleza ao redor. Seu acesso demanda horas a fio por precárias estradas de terra, garantindo ao lugar um certo isolamento q preserva seu charme ate hj. Contudo, há tb a opção de alcançar o pacato arraial pelo alto da serra atraves de 60km bem andados, q foi o q fizemos neste último feriado. Uma fantástica (e puxada) travessia de 4 dias q parte da encantadora Lagoa Dourada, rasga o Espinhaço transversalmente e, em meio a cenários e obstáculos tão dispares como campos, cânions, cachus e cristas, nos brinda c/ o q a Serra do Cipó tem de melhor entre suas bordas q a limitam leste e oeste.

 

A TRIP

Como o plano original - uma superpernada no sul - foi literalmente "por água abaixo" em virtude do péssimo tempo, lançamos mão deste roteiro no Cipó como "Plano B", já q a previsão p/ Espinhaço era + seca e qq possibilidade de precipitação não comprometeria a rigor a navegacao. Sendo assim, eu, Carlos e Roberta deixamos uma acizentada, chuvosa e lugubre Sampa por volta da meia-noite em direção à BH, p/ la chegarmos apenas no inicio da manha sgte. Após algumas paradas providenciais p/ lanche e abastecer o veiculo, demos continuidade à nossa jornada pelo asfalto p/ dar em Cardeal Mota apenas as 9hrs. A cidade, centro do Cipó, se esparrama ao largo da MG-010 e a previsão do tempo não poderia estar + acertada, pois fomos recebidos por um ceu azul isento de qq vestígio de nuvens e um sol brilhando esplendorosamente!

 

PERNOITANDO NA LAGOA DOURADA

Meia hora depois - após um café na Padaria Cipó e deixar o veiculo na casa da simpaticíssima Maria José - damos inicio à pernada propriamente dito. Em tese, a porta de entrada da Lagoa Dourada é um arraial vizinho chamado de São Jose da Serra. Contudo, por conta da freqüência de depoimentos de montanhistas barrados por fazendeiros e "coronés" - em autênticos cordões de isolamento - decidimos chegar à mesma atraves de Cardeal Mota mesmo, coisa q não é nada dificil. Voltamos entao alguns quarteirões pela MG-010 e entramos numa rua de terra à esquerda, onde uma placa indica "Pousada Pepalantus". No final dela tomamos à direita e vamos ate o final, passando por varias pousadas. Desembocamos quase q no asfalto outra vez, mas do lado de um portão azul à nossa esquerda, onde um evidente rombo na cerca (ao lado deste) nos leva intuitivamente por uma picada em meio ao capinzal, q inicialmente acompanha o asfalto mas logo vai se distanciando, descendo p/ sudeste.

Após um tempo andando tranqüilamente e numa bifurcacao tomar à esquerda, as 10hrs damos na parte alta da Cachoeira Grande, as margens do Rio Cipó, cujo rugido já era audível um tempo atrás. A Cachu é bonita não pela sua altura (modesta até) mas pela sua largura, recortada por vários rochedos e pedras q se elevam ao avanço do largo rio. Pois bem, após algumas fotos nossa missão é cruzar o rio, mas onde? Descemos à base da cachu saltando de pedra em pedra, e acompanhamos o rio por uma discreta picada em meio ao capinzal, avaliando o trecho + estreito (e menos fundo) de cruzar à outra margem. Feito isto, atravessamos cuidadosamente o rio - c/ água ate a coxa - nos firmando em qq rochedo a disposição, pois as pedras estão besuntadas de limo ardiloso e escorregadio.

Do outro lado, tomamos um trilho de vaca arenoso q se afasta do rio e continua p/ sudeste, as vezes varando arbustos, ate darmos na sede da Faz. Cachoeira Grande, onde somos interpelados pelo caseiro q nos informa estarmos em propriedade privada, um balneário q por sua vez esta fechado (em litígio c/ a justiça). Dali ele nos conduz gentilmente à saída, ou seja, na estrada q leva à entrada do parque, q é justamente onde queríamos dar. Afinal, apenas tomamos este atalho p/ conhecer a Cachu Grande.

A partir dali andamos um tempão por estrada empoeirada de terra deserta, sob um sol de fritar miolos, mas quase uns 150m antes de uma casinha solitaria no pasto, deixamos a estrada em favor de uma porteira à direita. A partir daqui é tocar p/ frente num carreiro largo - as vezes cascalhado ou arenoso - rumo leste em meio à vegetação ressequida e retorcida de cerrado. De cara, ignoramos (por falta de tempo hábil) uma picada q deriva pela esquerda, q seguramente leva ao Poço Azul, uma das atrações locais. O ritmo é lento devido ao forte calor, sentido principalmente pela Roberta, mas decidida e confiante ela nos acompanha, mesmo em ritmo compassado. S/ brisa alguma, qq arbusto maior é motivo p/ breve parada, q nos agracia c/ sua bem-vinda sombra. Pra complicar, os poucos riachos q cruzamos estão completamente secos, gerando duvidas qto a pronta obtenção do precioso e refrescante liquido em nossos cantis.

Ao galgar suavemente o alto do primeiro dorso de crista - q interliga a Serra das Areias e a Serra da Caetana - atraves de lajedos e pedras, nossos horizontes se ampliam e permitem avaliar o terreno: à leste vislumbramos os recortes abruptos do Travessão; à sudeste vemos o espigão da Serra do Bandeirinhas se esparramando pro norte, onde um pequeno filete branco do alto de seu extremo sul denuncia a Cachu da Farofa. No entanto, a picada toma rumo sul em definitivo, descendo suavemente por uma encosta de capim, pois agora adentramos no largo e amplo vale descampado encravado entre a Serra da Lagoa Dourada e a Serra da Caetana.

Após um tempão caminhando desimpedidamente em meio à jardins de sempre-vivas e canelas-de-ema, logo passamos a acompanhar um capão de mata q esconde o Ribeirão das Areias, cujos trocentos tributários alem de cruzar em vários trechos saciam nossa sede. Mas não tarda pro vale lentamente se afunilar, nos obrigando a cruzar o riacho e andar pela encosta oposta. Mas qdo finalmente chegamos ao final do mesmo, começa uma árdua subida em ziguezagues ao alto deste selado da Serra da Lagoa Dourada, q demanda fôlego e pernas p/ ser vencida. Q o diga a Roberta, q sempre amparada pelo Carlos venceu + um obstáculo.

Uma vez no alto e dar um ultimo visu no belo vale percorrido, ganhamos um descampado de capim salpicado de afloramentos rochosos, p/ em seguida descer s/ dificuldade p/ outro lado rumo à Lagoa Dourada, onde o caminho é fácil e deliciosamente plano. O visual é realmente lindo e encantador! Uma vasta pradaria reluzindo em tons dourados à luz das 15:30, num enorme e bucolico platô de capim cercado de paredoes de pedra! Na verdade não há lagoa alguma, apenas o leito do Rio Jaboticatubas q em alguns trechos tem uma largura maior. Após um breve lanche à beira de uma dessas "lagoas", andamos pelo capinzal ao longo do vale a procura de um bom local pra pernoitar. Após acompanhar uma cerca, decidimos por permanecer nas confortáveis clareiras q encontramos quase ao lado de onde o Rio Jaboticatubas despeja suas águas numa enorme queda de 50m (Cachu Lagoa Dourada), p/ depois serpentear um abismo e finalmente despencar por um rasgo entre os penhascos do cânion, indo sair la embaixo, no arraial de São José da Serra!

Donos absolutos daquele local paradisiaco, montamos acampamento as 17hrs após uma rápida exploração da cachu e mtos cliques! Mas logo o cansaço acumulado da viagem e dos quase 17km andados naquele dia cobravam seu tributo, razão pela qual preparamos uma suculenta janta assim q a luz se extinguiu. No entanto, as surpresas mal haviam começado, pois bastou começar a pegar no sono q tivemos q mudar emergencialmente de pernoite já q nossas tendas estavam literalmente sendo tomadas por formigas, p/ desespero da Roberta! "O teto da barraca parece boca de formigueiro!", gritou ela. Mas de fato, bastou eu sair da minha q imediatamente a perna se encheu das malditas. Havíamos acampado perto de um gde (senão um gigantesco) formigueiro, numa cena digna de filme trash! Na sequencia, removemos as coisas pesadas e transferimos as barracas ainda montadas pra outra clareira próxima. Ufa! Passado o susto, voltamos ao aconchego dos sacos-de-dormir, sob um luar incrivel q iluminava maravilhosamente aquele vasto platô, enqto as luzes de São José resplandeciam no céu refletidas nas poucas nuvens do firmamento, silhuetando as montanhas a oeste. De madrugada choveu de leve e fez aquele friozinho típico mineiro, embalados no estrondo da cachu ao lado.

 

PELO RIO BANDEIRINHAS E CÂNION DA BRAÚNAS

Levantamos na manha sgte as 6hrs, assim q o sol emergiu das serras à leste. O ceu se encontrava parcialmente nublado, mas logo ficou desprovido de nuvens conforme a manha avançou. Tomamos um café-da-manha caprichado, reforçado de um pão-na-chapa esperto preparado pelo Carlos, q por sua vez o complementou c/ uma cobra morta q encontrou proximo do leito do rio.

Zarpamos assim q nossas cargueiras engoliram o equipamento, por volta das 7:40, cruzamos o descampado do vale indo de encontro ao sopé dos paredões à leste, passando por + algumas "lagoas". Na sequencia fomos ganhando altitude - s/ trilha alguma - aos ziguezagues e na base da escalaminhada, a íngreme encosta de serra, num processo q nos deixou levemente ralados mas principalmetne sujos pelas canelas-de-ema queimadas do trajeto. Mas logo caímos num degrau em nível, um pastado q subia suave ate o alto da serra, sempre por norte. La de cima tivemos uma vista deslumbrante de td extensão da Lagoa Dourada, cujo capim dourado esvoaçando ao vento realmente lhe confere um aspecto de imensa "lagoa", por assim dizer. Depois soube q a Lagoa Dourada tem esse nome pela presença do Capim Dourado, que nas épocas de chuva, quando o campo fica alagado, mistura-se com a água e dá a impressão de ser uma imensa Lagoa Dourada.

Pois bem, uma vez lá no alto, interceptamos um carreiro arenoso q contornava o domo rochoso e ia no sentido desejado, isto é, agora p/ sul. Dessa forma, serpenteamos muitos afloramentos rochosos da crista em suaves sobe-desce, p/ logo a seguir descer pro outro lado da serra, s/ mta declividade ou obstáculos maiores.

Caímos entao noutro enorme e amplo platozao, cercado ao sul e leste pelos contrafortes rochosos da Serra dos Confins, já q pro norte os vários córregos q cruzam o pastado terminam despencando nas fendas e abismos do Cânion dos Confins, um cânion paralelo ao do famoso Bandeirinhas. Deixamos a trilha (q segue p/ sul) e nos lançamos no ralo capinzal da vasta pradaria sempre sentido leste, atravessamos 3 córregos até esbarrar num trilho de pedras brancas cristalinas q subia s/ mta declividade ate um razoável selado, q já havia sido visto como melhor acesso ao outro lado da serra.

Após um belo jardim de sempre-vivas, nos vemos no alto da Serra dos Confins, onde apenas nos mantemos na trilha pois, felizmente, ainda vai no sentido desejado (leste). A picada desce suavemente as encostas de capim, de onde já avistamos nosso destino à leste, uma imponente e profunda garganta recortando a muralha da Serra da Bandeirinha q atende pelo nome de Cânion da Braúnas! Apesar de distar apenas 4km de onde estavamos, chegar la nos tomaria um bom tempo pq o trajeto ta repleto de obstáculos consideráveis como, por exemplo, o Ribeirão Bandeirinhas, q singrava o vale logo abaixo ate cair no inicio das fendas do cânion homônimo, ao norte.

Ainda descendo a serra pela picada supracitada, agora indo p/ nordeste, bem q tentamos cortar caminho direto p/ leste, s/ sucesso; após algumas tentativas de ralação na mata terminamos dando em abruptos paredões e fundos vales! Por isso nos mantemos na trilha (relativamente confusa), q logo percebemos contornava as cristas menores da Serra do Confins q ate entao nos separavam do vale logo abaixo, ao qual so chegamos as 13hrs! Assim, cruzamos o Ribeirão Bandeirinhas saltando de pedra em pedra, e em sua aprazível margem direita marcada por uma bela praia fluvial, fizemos um pit-stop pra beliscar algo e ate dar um tchibum em suas águas frias. Destaque pra uma enorme pegada de onça no areal claro da prainha ao lado.

A partir daqui a opção obvia seria apenas subir o rio, acompanhando sua margem direita, mas não tarda a uma funda grota barrar nosso avanço e nos obrigar outra vez a cruzar à outra margem do rio, varar um pouco de mata, e retornar à margem direita, q agora aparentemente não oferecia + obstáculos. Td este processo nos tomou um tempo consideravel pois desta vez o rio foi cruzado c/ água ate a coxa e demandou mta cautela, dado o limo escorregadio das pedras do fundo. Não bastasse isso, desembocamos num capinzal repleto de carrapatos-estrela, q nos obrigou a zarpar dali o qto antes, subindo a suave encosta de pasto q se seguiu pra cair, finalmente, ao sopé da enorme garganta de pedra do Cânion Braúnas, com paredes de quase 80m de altura por onde corre mansamente o córrego da Garça, q por sua vez despeja suas águas no Bandeirinhas!

A missão de subir o rio por dentro do cânion requer um prévio estudo de q margem tomar, e sendo q de inicio vamos pulando as pedras ou ladeando o córrego pela areia na sua margem esquerda. Mas logo topamos c/ um enorme paredão vertical q nos obstrui a passagem, assim como um enorme piscinao, q nos obrigam a saltar cuidadosamente p/ outra margem e dali prosseguir o avanço em meio as pedras, eventualmente na base de escalaminahda fácil. E assim vamos subindo o rio, bordejando uma sequencia de piscinas naturais q refletem os raios do sol, ora de uma margem ora por outra, conforme a necessidade. As vezes, é preciso criar "pontes" e lançamos pedras ao rio de modo à contornar os obstáculos q se apresentam. Mas chega um momento em q a margem esquerda se limita a um imenso paredão forrado de mata fechada q nos impele a prosseguir em definitivo pela margem direita, sempre no mesmo ritmo. Neste trecho desfiladeiro adentro, a Roberta mostra alguma dificuldade e receio de subir pedras escorregadias, mas supera cada barreira com a ajuda do sempre prestativo Carlos.

As 16:30 passamos por uma improvável e bem-vinda clareira de areia clara na qual não pensamos duas vezes em largar as mochilas, mesmo ornada c/ algumas sujeirinhas de capivaras. O lugar comportava facilmente 4 barracas apertadas. Como não sabíamos se + adiante haveria espaço p/ pernoite decente, decidimos ficar ali mesmo e garantir uma noite de sono c/ algum conforto. Enqto a Roberta permaneceu no nosso acampamento descansando e montando as barracas, eu e o Carlos fomos de ataque conhecer a Cachu Braunas e já perscrutar a trilha pra sair dali no dia sgte. Continuamos entao andando pela margem esquerda do rio, alternando trilha, pedra e areia, e em bem menos de 8min desembocamos as margens do gigantesco poção - maior, em tamanho, ao Poço Soberbo - localizado ao sopé da notoria queda dagua. A Braunas realmetne impressiona! A água despenca de uma altura de quase 65m de altura dentro de um lago escuro de + de 100m de comprimento! Contornando o poção pela sua margem rochosa, encontramos galhos e troncos esfarelados q foram atirados rio abaixo, e nenhum local (aqui) decente de pernoite, cunhando de razao nossa decisão de estacionar na clareira anterior. Na sequencia, continuamos pela margem rochosa do lago ate cair - após saltar um pequeno córrego por uma enorme pedra plana - ao sopé do paredão coberto de mata à direita da cachu, onde encontramos duas picadas q eu e o Carlos exploramos, sendo q apenas a primeira aparentemente mostrava sinais de subir ao alto da cachu.

Missão cumprida, retornei ao acampamento enqto o Carlos dava um tchibum no poção, apenas pra encontrar td já devidamente montado. A eficácia da Robertinha é realmente impressionante! Mas a noite logo caiu dentro do desfiladeiro, bem antes do previsto, nos obrigando a degustar um delicioso e suculento "macarrão 3 queijos", cortesia do nosso "chef" Carlos. O cansaço dos 13km percorridos naquele dia tb se fazia sentir e num piscar de olhos nos vimos aninhados em nossos acolhedores sacos-de-dormir. Se a Roberta e o Carlos comemoraram aquele Dia dos Namorados não sei, mas antes disso, flashes luminosos resplandecendo atrás da serra haviam despertando nossa curiosidade qto sua origem (rave? ovnis?), mas q descobrimos se tratar de chuva iminente, q não tardou em nos alcancar e durar por quase td noite. Mesmo assim, garantimos uma ótima noite de sono ao som do tamborilar dos pingos a barraca e do marulhar do rio ao nosso lado.

 

ESCALAMINHADAS E DESCAMPADOS RUMO A SERRA DO CURRAL

Amanheceu frio e nublado, mas ainda assim levantamos cedo, disciplinadamente, as 6hrs. O alto dos paredões do defiladeiro estavam tomados pelas brumas, q se dissiparam a medida q os raios do sol esquentavam aquela manha de sábado. Tomamos um reforçado desjejum e imediatamente arrumamos nossas coisas p/ iniciar a pernada daquele dia pontualmente as 8hrs. Estávamos mto bem dispostos, principalmente devido a noite mto bem dormida. O confortavel leito de areia ode pernoitáramos havia sido nossa salvação, embora o Carlos jurasse q durante aquela madrugada chuvosa ouvira "pegadas pesadas" na mata e a "respiração forte" de alguma coisa.

Pois bem, nossa pernada prosseguiu cânion adentro refazendo o trajeto do final do dia anterior, indo de encontro à Cachu da Braúnas. Apesar de curto, redobramos o cuidado pelo fato das lajes e pedras no caminho agora se encontrarem úmidas ou molhadas. Uma vez a beira do poção - q encantou a Roberta e renderam cliques à exaustão - bordejamos o mesmo e pulamos um córrego cristalino, indo de encontro à suposta picada q nos tiraria daquele cânion e levaria outra vez aos altos descampados de capim. Tínhamos q sair dali de algum jeito pois o cânion literalmetnte terminava ali, onde o vale se fechava, se afunilando cada vez mais apenas pra permitir passagem, em meio a mata, justamente p/ aquele córrego supracitado.

Respiramos fundo e mergulhamos matagal acima, composto principalmetne de altas voçorocas de capim navalha. A picada subiu a encosta direita do paredão em diagonal, inicialmente s/ dificuldades, contornando o sopé de um enorme rochedo vertical. Mas td q é bom dura pouco pois a picada logo sumiu, perdendo-se num chaparral de samambaias! E agora, Jose? Como ate ali já havíamos ganho uma boa altitude, resolvemos escalaminhar "na raça" o restante do paredão. Agarrando-nos às pedras e à vegetação daquela íngreme encosta, fomos subindo vagarosamente muralha acima, tomando o devido cuidado de evitar rochedos soltos e trechos onde a terra simplesmente se esfarelava aos nossos pés. Foi realmente uma subida adrenada, dificil e arriscada, ainda + c/ pesadas cargueiras, q logo fizeram a Roberta sentir uma certa insegurança e receio de prosseguir, "travando" num degrau seguro da encosta. Enqtao isso, eu e o Carlos ganhávamos cada vez mais altura escalando o paredão, mas tendendo p/ direita descobri q rochedos maiores ofereciam + segurança, já q uma queda dali seria de + de 60m verticais! Mas não tardou a alcançar um trecho da encosta onde o declive se abate, onde respiramos aliviados. Enqto eu retomo fôlego e aprecio o visu privilegiado do paredão, o Carlos larga sua mochila e volta p/ buscar a Roberta, pra logo depois traze-la literalmente "puxada" c/ uma corda amarrada à cintura!

Mas ainda faltava um tanto p/ atingir o alto dos paredões, diferença q vencemos subindo suavemente varando voçorocas de capim navalha e outros arbustos q nos encheram de cortes nos braços e pernas. E após um ultimo trecho de curta e facil escalaminhada por rochedos, o terreno enfim arrefece e ganhamos outra vez os altos descampados do Cipó, vencendo um desnível de quase 100m verticais na raça! Eram 11hrs e nos presenteamos c/ um merecido tempo de descanso diante de tal feitio. Parabéns à Roberta, q fez td trajeto c/ sorrisao na cara, coisa q nem mto marmanjo q conheço faz sequer chorando. Como presente, do alto tinhamos um visu magnífico da cachu e de td extensão do Cânion Braunas, assim como de outras quedas despencando de serras opostas, à sudeste.

Refeitos, retomamos outra vez a pernada e, desimpedidamente, nos lançamos nos descampados q se abriam à leste, p/ em seguida descer suavemente rumo um ultimo vale, dominado por alguns capões de mata e uma ou outra cachu à vista. Atravessamos o manso Córrego Mutuca por sobre as pedras num trecho estreito, q por sua vez serpenteava a serra em varias quedas dagua, p/ depois se juntar ao Córrego da Garça, mais abaixo. Dando as costas ao Mutuca, um leve chuvisco fustiga nossos rostos enqto galgamos a encosta de serra sgte, seja em curtos ziguezagues seja contornando suas curvas de nível, ate ganhar sua crista.

Novamente nos campos altos, as 13:15, agora é so tocar p/ leste, indefinidamente! São campos e pastos de perder a vista, onde o caminhar torna-se deliciosamente fácil e desimpedido. Por sorte esta nublado, porem quente, do contrario nossas peles estariam ardendo ao sol inclemente daquele inicio de tarde. Foi uma caminhada interminável atraves de pradarias, pastos e descampados, e não tardou a reconhecer alguns trechos da trip anterior, como por exemplo um decrépito curral, um coxo e ate um cavalinho solitário, q nem se importou com nossa presenca. Os largos horizontes permitiam visibilidade de nosso objetivo: a larga crista recortada da Serra do Curral, separando rocha do ceu azul e tendo o pico homônimo, numa de suas extremidades, como cume maximo do Cipó! E é pra la q nos dirigimos, agora derivando ligeiramente p/ nordeste, sempre em pernada constante e sossegada, eventualmente contornando capões de mata pela direita.

Mas a pernada constante faz a Roberta demostrar cansaço e reclamar das pernas bambas, motivo de um breve pit-stop num afloramento rochoso, as 14:30. De fato, a pernada estava indo alem de nossas expectativas, pois nossa previsão de conclui-la era de apenas 3 dias, q se mostraram insuficientes diante da sequencia de obstaculos q surgiram no decorrer da mesma. Alem do cansaço acumulado, minha preocupação maior foi o rango pro dia sgte, q na minha mochila já rareava.

Pois bem, continuamos nossa jornada em ritmo inabalável pelos campos pra ter um novo pit-stop à beira de um borbulhante córrego q abasteceu nossos cantis, justamente no momento em q a nebulosidade se dispersou dando lugar a um sol cálido e aconchegante. Bem, a esta altura não era somente a Roberta q tava cansada e sim td mundo, razão pela qual andamos mais um pouco, já de olho nalgum lugar decente pra estacionar. E, por fim, acabamos ficando no largo cume de um dos morrotes ao sopé do maciço da Serra do Curral, as 16:30. Uffaaa! Haviam sido quase 12km percorridos naquele dia, segundo o gps do Carlos, mas q francamente pra mim pareceram 20. Sem falar do susto com o tiozinho-fantasma, mas essa historia fica apenas reservadas pra roda de bar.

Montamos as barracas e la nos enfurnamos p/ dar um tempo de relax, enqto o Carlos ainda teve disposição p/ perscrutar a continuidade da trilha. Do alto do morrote tivemos um belo visu do sol caindo no horizonte, num belo espetáculo de final de tarde! Mas qdo a noite nos abraçou, coalhando de estrelas o manto negro da noite, preparamos uma deliciosa janta c/ as sobras das mochilas pra em seguida desfalecer em nossas respectivas barracas. Pois bem, essa pra mim foi a pior noite, pois alem do frio desgraçado q fez, custou a dormir em virtude de enorme queimação nos tornozelos (pelas picadas das formigas), da ardência nos braços e pernas (dos ralados na mata) e da coceira desgraçada nas medeixas (clamava urgentemente por um shampoo). De madruga, ao sair pra "regar a moita", reparei q o tempo estava td encoberto por uma forte e úmida neblina q não permitia enxergar alem dos 20m. "Bem, amanha cedo ela se dispersa", pensei. E voltei a dormir. Qta ilusao.

 

CHEGANDO NA PACATA CABEÇA DE BOI

Contrariando minha previsão, o domingao amanheceu frio e imerso em densas brumas, sem visu algum ao redor! Bem, não esperamos nadicas o tempo melhorar e mesmo assim levantamos, tomamos um mirrado café - q se resumiu a algumas barrinhas de cereais - devido a não termos mais nada mesmo pra comer, e arrumamos as coisas pra zarpar as 7:30. O frio úmido nos obrigou a trajar anorakes, q logo se encheram das pequenas gotículas q a neblina carregava p/ depositar na gente.

Pois bem, se não tivéssemos estudado o percurso antes e mapeado algo no gps, acredito q andaríamos feito baratas tontas naquela manha. E francamente nossa salvação foi o bendito aparelhinho, capitaneado habilmente pelo Carlos, q naquele dia foi utilizado a exaustão e nos apontou c/ precisão q rumo tomar. Sendo assim, fomos sentido leste, descendo um pouco o morro p/ continuar em nível e contornar o morrote sgte, ate cair numa porteira quase ao sopé da Serra do Curral. Dali bastou galgar as encostas da mesma ate encontrar um trilho cristalino q foi no sentido desejado, isto é, q a contornasse a montanha, alcançasse sua crista e tomasse rumo leste/sudeste. Eventualmente o carreiro se perdia, mas logo o reencontravamos mais adiante ou simplesmente se entrecruzava c/ outro q tomava outra direção.

Contornada a montanha, bastou acompanhar o carreiro sempre sentido sudeste por larga crista, ora pelo alto ou bordejando em nível os morrotes sgtes, sem dificuldade alguma, sempre nos mantendo na cota dos 1400m. O único ruim era q andavamos sem visu algum, tendo apenas um branco fosco à nossa volta. Mas eventuais frestas na alva paisagem revelavam a silhueta opaca da Serra do Lobo, ao sul, e os contrafortes abruptos do próprio Pico do Curral, ao norte.

Pois bem, após passar por uma cerca, um curral e as ultimas canelas-de-ema-gigantes é q a picada aumentou de declividade, onde começamos a perder altitude de fato, sinal q já estávamos nas bordas finais do Espinhaço! Ao mesmo tempo, o nevoeiro se dispersava lentamente permitindo observar na baixada sinais tipicamente rurais, c/ florestas de encosta se misturando a roças e áreas de plantio. limitadas à leste por paredões da Serra dos Linhares e Serra do Lobo. Na sequencia, veio uma longa descida ingreme em curtos ziguezagues por carreiro cascalhado, onde deixamos os últimos sinais de brumas, q agora encobriam somente os picos mais latos.

Perdemos altura num piscar de olhos, no mesmo instante em q a vegetação aumentava de tamanho e se adensava cada vez mais sob a forma de voçorocas de samambaias forrando o resto de encosta. Uma bifurcacao nos sugere entrar numa cerca, a esquerda, onde palmilhamos um largo aceiro os últimos ombros de serra. E após novo ziguezague íngreme, caímos numa precaria estrada de terra, as 10hrs, quase ao sopé de um belo vale fechado, onde uma casa solitaria parece abandonada, ao longe. Intuitivamente tomamos à esquerda e não tardou a sairmos de uma propriedade (RPPN - Reserva Particular Patrimônio Natural - Sitio dos Borges) e nos lançarmos em definitivo rumo Cabeça de Boi, ainda distante uns 7 tortuosos kms.

A estrada serpenteia morros e encostas, dobrando lentamente pra nordeste. Pergunta aqui e pergunta ali, bordejamos o sopé da Serra dos Linhares, p/ dali continuar sinuosamente morro abaixo c/ bastante declividade. O caminho seria extremamente enfadonho não fosse pelas cachus despencando nas encostas despertando nossa atenção, como tb por varias roças de cana-de-acucar, q nos providenciaram ocupação pros nossos maxilares durante essa interminavel caminhada. As 11hrs tivemos, finalmente, primeiro contato visual c/ a Serra do Cabeça de Boi, ainda distante ao norte, e de seu vilarejo homônimo ao sopé da mesma, minúsculo. A esta altura descíamos (e eventualmente subíamos) a serra por inércia, e nos encontravamos bem cansados! No alto, um jato riscava o ceu azul deixando um rastro branco q logo se dispersou, apenas pra dar espaço prum sol de rachar côco sob nossas cacholas. Tanto q a Roberta aceitou a sugestão de seu consorte em carregar tb sua mochila o ultimo trecho ate o vilarejo, ja na cota dos 600m.

E assim, após acompanhar um belo riacho encachoeirado a nossa direita - q logo tivemos q atravessar por uma pitoresca ponte pênsil - passar por uma bifurcacao levando ao Balneário do Intancado e vencer uma ultima piramba morro acima, chegamos no Arraial de Cabeça de Boi, as 13hrs! O vilarejo é um ovo de tao pequeno e se resume a uma pequena praça, um campinho de futebol e uma capelinha, orbitados por casas bem simples, rústicas pousadinhas e alguns estabelecimentos. E nada mais. Isso é Cabeça de Boi. O visu das serras ao redor tb impressiona. Localizado quase do alto de um morrote, o vilarejo tem vista privilegiada dos Picos do Itambé e Itacolomi, ambos próximos, na Serra do Lobo. Uma curiosidade é q o nome oficial do arraial é Santana do Rio Preto, mas acabou sendo mais conhecido por Cabeça de Boi por causa da serra e de uma antiga fazenda homônima q ali existia.

Desnecessário q mal chegamos desabamos no "Bar do Sô Agostinho", onde o próprio nos recebeu com sua fala mansa e ate anunciou nossa chegada (atraves de um microfone) ao vilarejo, seguido de uma oração (!?) Bebemoramos nossa empreitada e ouvimos alguns causos do dono do boteco, enqto o Carlos acionava nosso resgate pelo único orelhão do arraial, q viria de Itambé do mato Dentro. Como o mesmo iria demorar, fomos comer um delicioso prato tipicamente mineiro no "restaurante-self-service" do Vicente, q nada mais era q um quintal improvisado como tal. Estávamos com tanta fome q no final nossos pratos viraram atração turistca (c/ direito ate fotos!) dos demais fregueses, q ficaram embasbacados com a qtdade de comida e pusemos neles! Tb pudera, não é sempre q se come bem e farto após andar 15km, não? Resultado: comemos ate fazer bico mesmo, sem dó. Inclusive a Robertinha, q mandou ver o dobro do peso dela.

As 15hrs zarpamos do pacato e simpático arraial no táxi de Seu Odair p/ Cardeal Mota, trip demorada justamente pelas precárias e sinuosas estradas q cercam a Serra do Cipó. No entanto, o tempo passou quase voando pois nosso motorista tb era um hábil contador de causos e nos manteve entretidos pelo menos ate o instante em q não dávamos breves cochilos p/ fazer a digestão. Destaque pro "Homem da Caverna", um eremita q mora a beira da estrada numa gruta. Passada Morro do Pilar e contornada td serra pela sua beirada norte, chegamos em Cardeal Mota quase as 18hrs. Lá, ainda tivemos q fazer uma sala e degustar o café de Dna Maria José, pra so partir em direção à Terra da Garoa somente as 19hrs.

 

Enfim, aportamos são e salvos em Sampa as 3hrs da madruga, graças a disposição e determinação do Carlos em chegar ainda no inicio de semana hábil, a tempo de descansar e pegar no batente ainda naquela mesma manha. Ou quase, ate depois do meio-dia. Mas e daí? Os dias anteriores já haviam compensado c/ folga o perrengue da volta, pois nos mostrou q ainda há muito o q conhecer nos descampados do Cipó, em tds as suas direções. Há ainda a pernada pra sudeste, rumo Serra dos Alves; pro sul, sentido Itabira; e ate pra nordeste, dando na Cachu da Capivara, entre tantas outras q a criatividade, disposição, tempo e o vento nos levarem. Desta forma, qq simplório "Plano B" de feriadão termina ganha contornos de trip radical, de epopéia homérica ou até de expedição exploratória q se preze, neste rincão maravilhoso, eclético e florido, q faz parte do Espinhaço e atende pelo nome de Serra do Cipó.

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  • 2 semanas depois...
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Show de relato e informação Jorjão, certamente como já vimos temos muito o que explorar no Cipó, já estou montando umas rotas para 2010 pois esse ano já deu a cota por lá.

Acho que de todas as incursões que fiz por aquelas bandas essa última foi a que traduziu o que eu realmente esperava do verdadeiro Parque Nacional da Serra do Cipó, rasgando transversalmente o coração do parque, num feriado em que não vimos viva alma que não a do fantasma (rs), ao contrário das superlotações de montanhas mais badaladas, o que invoca a falta de visão de muitos excursionistas que insistem em bater sempre na mesma tecla. É isso ai, em resumo, foi uma bela pernada, bastante isolada, com alguns desafios de terreno e navegação o que dá um ar gostoso de exploração, valeu a pena mesmo!!

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  • 1 mês depois...
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Muito legal o relato! fui lendo e acompanhando as fotos e o google earth.

Bom que deu pra identificar o canyon das Braunas.

Jorge, tem como me passar o track log da travessia??

Semana passada eu fiz a travessia lapinha x tabuleiro,

e agora to querendo fazer essa "cipó x cabeça de boi" ou a "travessão x lagoa dourada".

Vou te mandar uma PM com meu e-mail.

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