Em datas já longínquas da década de 1990, em algumas incursões à região do Lagamar, conheci os pacatos vilarejos de Marujá e Superagui. Nessas ocasiões pude caminhar bastante pelas praias e trilhas, mas a idéia de uma travessia entre as duas localidades ficou guardada por muitos anos, até ser concretizada neste feriado de carnaval. O convite veio do Getúlio, de Curitiba, até então meu amigo apenas virtual, que organizou a travessia com um grupo de mais oito amigos.
Marujá é uma das seis comunidades da Ilha do Cardoso, que desde 1962 é parque estadual, administrado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (http://www.ambiente.sp.gov.br/ilha-do-cardoso). A vila de Superagui é um dos núcleos da Ilha do Superagui, que, junto com as ilhas das Peças, do Pinheiro, do Pinheirinho e o vale do Rio dos Patos no continente, constituem o Parque Nacional do Superagui, criado em 1989 e administrado pelo ICMBio (http://www.icmbio.gov.br/portal/o-que-fazemos/visitacao/ucs-abertas-a-visitacao/209-parque-nacional-do-superagui). A Ilha do Cardoso é parte do município de Cananéia (SP), já a Ilha do Superagui pertence ao município de Guaraqueçaba (PR).
1º DIA - 09/02/2013 - DE CANANÉIA À BARRA DO ARARAPIRA
Eu e a Débora partimos de São Paulo à 0h45 do sábado de carnaval no Cometa para Curitiba, mas nosso destino mesmo era o Graal Petropen, em Pariquera-Açu, onde o grupo de Curitiba iria nos apanhar com a van. Contrariando a previsão de muito congestionamento, principalmente na Serra do Cafezal, saltamos no km 461 da Régis, em frente ao Petropen, às 4h27. Atravessamos a rodovia sem problema e nos acomodamos numa espécie de sala de estar do Graal, com sofás confortáveis e tevê, pois tínhamos uma longa espera pela frente. O grupo do Getúlio saiu de Curitiba às 6h30, também não enfrentou trânsito e antes das 9h já estacionava no Graal. Feitas as devidas apresentações, afinal não conhecíamos ninguém do grupo, e após um rápido dejejum, partimos para Cananéia, cidade de onde saem os barcos para a Ilha do Cardoso. O tempo estava encoberto e com chuvas passageiras, mas isso não abalou o entusiasmo de ninguém.
Em Cananéia, a próxima escuna (R$30 por pessoa) sairia às 11h e deu tempo apenas de fotografar o valioso centro histórico, com destaque para a Igreja de São João Batista, uma das mais antigas do Brasil, construída em 1577 para servir também como fortaleza contra invasores. Frestas na sua parede lateral e de frente ao estuário (as seteiras) permitiam a passagem de flechas de dentro para fora, para atingir os intrusos sem que eles atingissem quem se encontrava no interior da igreja.
Tatiana, Débora e Getúlio na saída de Cananéia
A navegação pela baía e pelo Canal do Ararapira transcorreu tranquila, com o habitual movimento dos golfinhos e dos mais diversos tipos de aves que habitam a natureza bastante preservada. Aportamos na vila de Marujá às 14h05 com duas opções discutidas ao longo do caminho: fazer a trilha das piscinas da Praia da Laje e dormir em Marujá ou começar a travessia logo após o almoço. Um grupo foi se informar sobre a trilha das piscinas no núcleo do parque estadual (já que é obrigatório o acompanhamento de um monitor) e o outro foi pesquisar o preço de camping. A conclusão é que essa primeira opção foi sumariamente descartada, por dois motivos: o passeio para as piscinas sai somente às 8h da manhã pois os monitores prevêem 3 horas só de ida, e em segundo lugar porque os campings estavam cobrando o absurdo de R$300 por barraca pelo pacote de carnaval. Partimos então para a segunda alternativa: almoçar e botar o pé na areia para dar início à travessia. Até mesmo o almoço estava um pouco caro, com a refeição do tipo comercial a R$20 por pessoa.
De estômago forrado, demos início à pernada às 16h, com exceção da Evelyn e da Cida, que fretaram um barco dali para a vila de Barra do Ararapira, nosso destino nesse dia. Tomamos o caminho mais próximo diretamente para a praia e uma vez nela fomos para a direita, ou sudoeste, direção que manteríamos até quase o final da travessia. O céu continuava encoberto e a vantagem disso seria o desgaste físico menor, uma vez que seriam quase 40km de praias sem nenhuma possibilidade de sombra. Às 18h50 saímos da praia por alguns minutos e entramos por um caminho em meio à vegetação para conhecer o vilarejo da Enseada da Baleia, às margens do Canal de Ararapira. A cerca de 600m dali ocorre um processo importante de erosão que pode levar ao estrangulamento da estreita restinga e à abertura de uma nova barra do canal a aproximadamente 6km da atual. Isso pode ocorrer até 2016, segundo estudos (http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/abequa/article/viewFile/14577/11198), e terá grande impacto nas comunidades próximas. Após algumas fotos, voltamos à caminhada na praia.
Gaivotas
Às 19h47, com o dia findando (bendito horário de verão!), abandonamos a praia e encontramos a vila de Pontal do Leste, a última comunidade da última praia do extremo sul do estado de São Paulo. Ali um rapaz logo nos abordou oferecendo o barco e combinamos o preço de R$50 para nos atravessar até a vila de Barra do Ararapira, do outro lado do canal, já na Ilha do Superagui, Paraná (ele inicialmente pediu R$10 por pessoa - éramos 9 pessoas). Pelo adiantado da hora, passamos tão rápido pelo Pontal do Leste que mal deu para ver o lugar. A travessia de barco foi feita em duas etapas pois era uma pequena voadeira, com o segundo grupo desembarcando com o cair da noite. Ele nos deixou em frente ao Camping das Palmeiras, onde imediatamente montamos as barracas e nos besuntamos de repelente pois o ataque dos mosquitos foi feroz. A vila tem energia gerada por placas solares e o camping dispõe de placas solares para chuveiro, o que proporcionou banho quente, coisa rara nessa travessia. O dono cobra R$8 por pessoa.
Nesse dia caminhamos 14,6km, contando o desvio de 500m (ida e volta) até a Enseada da Baleia.
2º DIA - 10/02/2013 - DA BARRA DO ARARAPIRA AO CAMPING DA DONA ROSA (PRAIA DESERTA)
Canal do Ararapira
Deste lado a vila de Barra do Ararapira, Paraná; do outro, a vila de Pontal do Leste, São Paulo
À noite choveu um pouco e o dia amanheceu com céu encoberto novamente.
As informações ali eram de que a caminhada ao longo do canal até a Praia Deserta estava obstruída pela grande quantidade de vegetação arrastada pela maré. A solução era fazer esse trecho de cerca de 2,4km, até a foz do canal, de barco. Foi preciso negociar com vários barqueiros pois a exploração de feriado contaminou o pessoal dali também. Por fim, nosso amigo Papael conseguiu um barco por R$60 e fizemos uma viagem só, com o grupo todo novamente reunido para o segundo dia de caminhada (11 integrantes).
Contribuição do Getúlio: "O manguezal está sendo aos poucos e cada vez mais "engolido" pelo mar neste trecho (da vila de Barra do Ararapira até a foz do Canal do Ararapira). Conversando depois com alguns ciclistas no caminho, soubemos que até se consegue passar a pé neste trecho, mas fica bem complicada a passagem com a maré alta, pois apesar de haver pequena faixa de "praia", a mesma é bem abrupta, ou seja, basta se deslocar 1 metro para dentro da água do mar para estar com água acima dos joelhos, isso na maré baixa. A trilha que havia "costeando" por dentro do manguezal até a Vila da Barra do Ararapira foi totalmente tomada pelo mangue e pelo mar e hoje não existe mais."
Começamos a pernada às 11h15 com uma praia de 24km pela frente, a Praia Deserta, que não é tão deserta assim pois tem alguns moradores, todos antigos, com as casas quase escondidas no meio da vegetação. A primeira delas é a da Dona Jandira, pela qual passamos com apenas meia hora de caminhada, mas não chegamos a visitá-la.
Diversos rios e riachos atravessam essa praia, de profundidades bem variadas, desde aqueles que molham apenas o pé até os que chegam à canela ou à altura da coxa, dependendo sempre da maré. Por isso é interessante andar com um calçado que não acumule água, por exemplo, uma papete. O fundo desses rios é sempre arenoso, sem pedras.
Uma das muitas travessias de rios
Às 16h10 atravessamos o rio mais profundo de toda a travessia, com a água chegando à altura da virilha (pelo menos para mim, que tenho 1,70m). Mais 20 minutos e saímos da praia, tomando o caminho para a isolada casa da Dona Rosa e do seu Carlinhos, filho dela, que mantêm uma área de camping no quintal. Cobram R$15 por pessoa e o banho é frio. Deixam à disposição (e até insistem bastante para usar) a cozinha deles, onde preparamos o nosso jantar coletivo: no cardápio a consagrada polenta campeira do Getúlio!
Nessa noite provei a famosa pinga com cataia, uma folha encontrada na região, mas acho que não estava bem curtida e não achei nada de mais. Os mosquitos ali também não deram trégua e somado a eles vieram também as mutucas (butucas, no Paraná), que picavam até por cima da meia grossa.
Nesse dia caminhamos 15,3km.
3º DIA - 11/02/2013 - DO CAMPING DA DONA ROSA (PRAIA DESERTA) À VILA DE SUPERAGUI
Para esse terceiro dia de travessia, colocamos em discussão duas opções:
1- sair cedo, passar pela vila de Superagui, atravessar para a Ilha das Peças, caminhar mais 12km até a vila e de lá tomar o barco para Paranaguá no dia seguinte
ou
2- sair mais tarde e ficar na vila de Superagui para conhecer à noite o fandango, que é a música tradicional da região, pegando o barco no dia seguinte para Paranaguá
O fandango venceu. O que ajudou a não decidirmos pela primeira opção foi também o horário do barco da vila das Peças para Paranaguá, que devia ser às 7h da manhã e depois algum horário inconveniente à tarde, se houvesse. Na vila de Superagui acreditávamos haver mais horários disponíveis.
Assim, todos aproveitaram que o sol finalmente apareceu e foram curtir a praia, menos eu, que fiquei curtindo os efeitos indesejados de um resfriado que resolveu me visitar justamente nesse dias de caminhada. O reforço de vitamina C que eu precisava veio dos pés de caju e de pitanga do quintal, ambos forrados de frutas.
Almoço no Camping da Dona Rosa, com a casa dela ao fundo
Preparamos um almoço coletivo e nessa hora infelizmente houve o único incidente da viagem. A "mesa" onde o pessoal estava cozinhando desmontou e uma panela de água fervente virou, atingindo em cheio a perna direita do Getúlio. Mesmo jogando água fria na queimadura por um bom tempo, não foi possível evitar que se formassem grandes bolhas. Toda a perna foi besuntada de pomada e pelo resto do dia o Getúlio teve de usar uma canga para protegê-la do sol.
Desmontado o acampamento, só voltamos a caminhar às 17h10, nos despedindo da boa acolhida da Dona Rosa e do seu Carlinhos. Ao alcançarmos a praia, porém, avistamos uma chuva forte a oeste (à nossa direita). Não deu nem uma hora e esse temporal nos alcançou, trazendo chuvas e raios. Saímos correndo da praia por causa dos raios e nos abrigamos no meio da vegetação baixa da restinga. A maioria se encolheu embaixo de plásticos estendidos pelos arbustos. Felizmente o vento estava forte e levou a tempestade rapidamente para o mar. O que veio depois foi um espetáculo de céu azul, sol e um arco-íris duplo, o que rendeu muitas fotos!
Às 19h20 chegamos ao local em que há uma trilha que serve de atalho para alcançar a vila de Superagui. A Evelyn e a Cida até quiseram pegá-la mas voltaram dizendo que estava alagada. Continuamos todos pela praia apesar de haver um rio à frente que poderia estar um pouco fundo. Como bastante gente ia e voltava de bicicleta, não devia estar difícil atravessá-lo. No horizonte, começamos a avistar o grande conjunto de montanhas da Serra do Mar paranaense, com destaque (da direita (norte) para a esquerda (sul)) para a Serra do Capivari, Serra do Ibitiraquire (onde se via perfeitamente o Pico Paraná), a Serra da Farinha Seca, o Marumbi, a Serra da Prata, e bem à nossa frente a Ilha do Mel. Belíssima visão! Por fim, o tal rio passou quase despercebido, com água batendo pouco abaixo do joelho.
Serra do Ibitiraquire (Pico Paraná) à direita
Às 20h35, já de noite, chegamos ao Camping do seu Pocidônio, o primeiro camping para quem vem da Praia Deserta, como nós. Mesmo com o grande movimento do carnaval, havia lugar de sobra para montar as barracas pois o espaço é bem grande. O seu Pocidônio é um senhor baixinho e muito risonho que mora ali com a esposa. Eles cobram R$10 por pessoa. Para o banho, há várias duchas frias e apenas um chuveiro quente. Também deixam usar a cozinha, onde preparamos nosso jantar. Em seguida fomos ao centrinho da vila para conhecer o famoso fandango do Superagui, que acontece num bar, com os músicos tocando num canto do salão e o espaço todo livre para quem quiser mexer o esqueleto ao som dos violões, pandeiro e rabeca. Tudo regado a uma boa pinga com cataia, que estava mais curtida do que aquela do seu Carlinhos e deu para sentir bem o sabor da folha. Eu fiquei até 2h30 mas o pessoal esticou mais e disseram que a música foi até 3h40 da madrugada.
Nesse dia caminhamos 10,2km.
4º DIA - 12/02/2013 - DA VILA DE SUPERAGUI A PARANAGUÁ
Nesse último dia, pensamos em fazer um passeio de barco de manhã até o banco de areia que se forma em frente à vila, mas acabou não acontecendo. Todos resolveram voltar para casa nesse dia, mesmo os que não tinham compromissos na quarta-feira, porém o horário de saída do barco para Paranaguá não era uma informação precisa. Uns disseram que haveria escuna de hora em hora dado o grande número de turistas, outros informaram que com certeza sairia uma às 15h. Assim, desmontamos acampamento calmamente, alguns do grupo foram dar um mergulho no mar e pouco depois das 13h fomos para o trapiche ver a que horas a escuna ia sair de verdade. Já havia uma ancorada, com alguns passageiros acomodados, e o barqueiro disse que sairia às 14h30 (R$25 por pessoa). Foi o tempo de comer alguma coisa e voltar logo pois a escuna saiu quase no horário, com apenas 5 minutos de atraso.
Praia da vila de Superagui
Costeamos a Ilha das Peças, à nossa direita, e depois a Ilha do Mel, à nossa esquerda.
Eu não comi nada com receio de o barco balançar muito no trecho de mar mais aberto, mas isso não aconteceu. A viagem foi tranquila mesmo com o temporal que pegamos depois da Ilha do Mel. Atracamos no porto de Paranaguá às 17h06 com chuva fraca e fomos direto à rodoviária, a 700m dali, para providenciar as passagens para Curitiba. Eu já tinha comprado para mim e a Débora pela internet para o horário das 18h30 e foi só retirar no guichê da viação Graciosa. O pessoal conseguiu para o horário das 21h30. Eles foram comer algo e nós logo embarcamos. Não houve trânsito nenhum na subida da serra e chegamos a Curitiba às 20h08 (para quem mora em São Paulo e sabe o caos que é a volta do litoral no carnaval isso parece impossível). No guichê da Cometa, trocamos as passagens de 23h para o horário extra das 21h. De novo não pegamos congestionamentos e às 3h30 já desembarcávamos em Sampa.
Informações adicionais:
. Os horários do ônibus São Paulo-Cananéia pela empresa Intersul são muito restritos e inconvenientes (9h e 14h30). No nosso caso foi melhor pegar um ônibus para Curitiba, descer na rodovia e esperar o pessoal de lá chegar com a van fretada. A viagem São Paulo-Curitiba pode ser feita pela Cometa (http://www.viacaocometa.com.br), Itapemirim (http://www.itapemirim.com.br) e Eucatur (http://www.eucatur.com.br).
. Para saltar do ônibus da Cometa no meio da estrada é preciso estar com a bagagem à mão. O motorista não abre o bagageiro no acostamento. No nosso caso, pedimos a ele para tirar as mochilas do bagageiro na parada Graal Buenos Aires, em Registro, 12km antes do local onde desceríamos.
. Os telefones da escuna Vitória Gabriella, que fez o trajeto Cananéia-Marujá, são 13-3851-3195 e 13-9791-7668 (Vivo).
. Na vila de Marujá, a caminhada até as piscinas da Praia da Laje são acompanhadas de um monitor do parque, saem às 8h da manhã apenas e é cobrada uma taxa de R$15 por pessoa.
. A travessia completa, desde o trapiche do Marujá até o trapiche da vila de Superagui, sem contar os dois percursos de barco, totaliza 39,2km de caminhada. Nós somamos 40,1km por causa dos pequenos desvios e porque terminamos no Camping do Pocidônio, o primeiro para quem chega da Praia Deserta.
. Por ser uma caminhada longa em areia dura, é melhor usar um calçado macio para evitar excesso de impacto. Porém há vários riachos a cruzar pelo caminho, por isso uma bota de trekking não é muito conveniente já que será preciso tirá-la várias vezes. O melhor é usar um tênis de secagem rápida, ou, melhor ainda, uma papete confortável.
. Não há fonte de água confiável durante toda a caminhada pelas praias. O que fizemos foi pegar água nos campings e tratá-la com Clorin.
. Repelente é item indispensável pois há vários tipos de mosquito no caminho todo.
. Os campings que utilizamos foram:
.. em Barra do Ararapira: Camping das Palmeiras - chão de areia (sem grama), um único banheiro, banho quente, R$8 por pessoa
.. na Praia Deserta: Camping da Dona Rosa - chão de areia, vários banheiros, banho frio, R$15 por pessoa
.. na vila de Superagui: Camping do Pocidônio - gramado bem grande, vários banheiros, algumas duchas e apenas um chuveiro quente, R$10 por pessoa
Arco-íris duplo depois da tempestade do 3º dia
As fotos estão em http://lrafael.multiply.com/photos/album/146/Travessia-do-Lagamar-SPPR-fev13.
Em datas já longínquas da década de 1990, em algumas incursões à região do Lagamar, conheci os pacatos vilarejos de Marujá e Superagui. Nessas ocasiões pude caminhar bastante pelas praias e trilhas, mas a idéia de uma travessia entre as duas localidades ficou guardada por muitos anos, até ser concretizada neste feriado de carnaval. O convite veio do Getúlio, de Curitiba, até então meu amigo apenas virtual, que organizou a travessia com um grupo de mais oito amigos.
Marujá é uma das seis comunidades da Ilha do Cardoso, que desde 1962 é parque estadual, administrado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (http://www.ambiente.sp.gov.br/ilha-do-cardoso). A vila de Superagui é um dos núcleos da Ilha do Superagui, que, junto com as ilhas das Peças, do Pinheiro, do Pinheirinho e o vale do Rio dos Patos no continente, constituem o Parque Nacional do Superagui, criado em 1989 e administrado pelo ICMBio (http://www.icmbio.gov.br/portal/o-que-fazemos/visitacao/ucs-abertas-a-visitacao/209-parque-nacional-do-superagui). A Ilha do Cardoso é parte do município de Cananéia (SP), já a Ilha do Superagui pertence ao município de Guaraqueçaba (PR).
1º DIA - 09/02/2013 - DE CANANÉIA À BARRA DO ARARAPIRA
Eu e a Débora partimos de São Paulo à 0h45 do sábado de carnaval no Cometa para Curitiba, mas nosso destino mesmo era o Graal Petropen, em Pariquera-Açu, onde o grupo de Curitiba iria nos apanhar com a van. Contrariando a previsão de muito congestionamento, principalmente na Serra do Cafezal, saltamos no km 461 da Régis, em frente ao Petropen, às 4h27. Atravessamos a rodovia sem problema e nos acomodamos numa espécie de sala de estar do Graal, com sofás confortáveis e tevê, pois tínhamos uma longa espera pela frente. O grupo do Getúlio saiu de Curitiba às 6h30, também não enfrentou trânsito e antes das 9h já estacionava no Graal. Feitas as devidas apresentações, afinal não conhecíamos ninguém do grupo, e após um rápido dejejum, partimos para Cananéia, cidade de onde saem os barcos para a Ilha do Cardoso. O tempo estava encoberto e com chuvas passageiras, mas isso não abalou o entusiasmo de ninguém.
Em Cananéia, a próxima escuna (R$30 por pessoa) sairia às 11h e deu tempo apenas de fotografar o valioso centro histórico, com destaque para a Igreja de São João Batista, uma das mais antigas do Brasil, construída em 1577 para servir também como fortaleza contra invasores. Frestas na sua parede lateral e de frente ao estuário (as seteiras) permitiam a passagem de flechas de dentro para fora, para atingir os intrusos sem que eles atingissem quem se encontrava no interior da igreja.
Tatiana, Débora e Getúlio na saída de Cananéia
A navegação pela baía e pelo Canal do Ararapira transcorreu tranquila, com o habitual movimento dos golfinhos e dos mais diversos tipos de aves que habitam a natureza bastante preservada. Aportamos na vila de Marujá às 14h05 com duas opções discutidas ao longo do caminho: fazer a trilha das piscinas da Praia da Laje e dormir em Marujá ou começar a travessia logo após o almoço. Um grupo foi se informar sobre a trilha das piscinas no núcleo do parque estadual (já que é obrigatório o acompanhamento de um monitor) e o outro foi pesquisar o preço de camping. A conclusão é que essa primeira opção foi sumariamente descartada, por dois motivos: o passeio para as piscinas sai somente às 8h da manhã pois os monitores prevêem 3 horas só de ida, e em segundo lugar porque os campings estavam cobrando o absurdo de R$300 por barraca pelo pacote de carnaval. Partimos então para a segunda alternativa: almoçar e botar o pé na areia para dar início à travessia. Até mesmo o almoço estava um pouco caro, com a refeição do tipo comercial a R$20 por pessoa.
De estômago forrado, demos início à pernada às 16h, com exceção da Evelyn e da Cida, que fretaram um barco dali para a vila de Barra do Ararapira, nosso destino nesse dia. Tomamos o caminho mais próximo diretamente para a praia e uma vez nela fomos para a direita, ou sudoeste, direção que manteríamos até quase o final da travessia. O céu continuava encoberto e a vantagem disso seria o desgaste físico menor, uma vez que seriam quase 40km de praias sem nenhuma possibilidade de sombra. Às 18h50 saímos da praia por alguns minutos e entramos por um caminho em meio à vegetação para conhecer o vilarejo da Enseada da Baleia, às margens do Canal de Ararapira. A cerca de 600m dali ocorre um processo importante de erosão que pode levar ao estrangulamento da estreita restinga e à abertura de uma nova barra do canal a aproximadamente 6km da atual. Isso pode ocorrer até 2016, segundo estudos (http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/abequa/article/viewFile/14577/11198), e terá grande impacto nas comunidades próximas. Após algumas fotos, voltamos à caminhada na praia.
Gaivotas
Às 19h47, com o dia findando (bendito horário de verão!), abandonamos a praia e encontramos a vila de Pontal do Leste, a última comunidade da última praia do extremo sul do estado de São Paulo. Ali um rapaz logo nos abordou oferecendo o barco e combinamos o preço de R$50 para nos atravessar até a vila de Barra do Ararapira, do outro lado do canal, já na Ilha do Superagui, Paraná (ele inicialmente pediu R$10 por pessoa - éramos 9 pessoas). Pelo adiantado da hora, passamos tão rápido pelo Pontal do Leste que mal deu para ver o lugar. A travessia de barco foi feita em duas etapas pois era uma pequena voadeira, com o segundo grupo desembarcando com o cair da noite. Ele nos deixou em frente ao Camping das Palmeiras, onde imediatamente montamos as barracas e nos besuntamos de repelente pois o ataque dos mosquitos foi feroz. A vila tem energia gerada por placas solares e o camping dispõe de placas solares para chuveiro, o que proporcionou banho quente, coisa rara nessa travessia. O dono cobra R$8 por pessoa.
Nesse dia caminhamos 14,6km, contando o desvio de 500m (ida e volta) até a Enseada da Baleia.
2º DIA - 10/02/2013 - DA BARRA DO ARARAPIRA AO CAMPING DA DONA ROSA (PRAIA DESERTA)
Canal do Ararapira
Deste lado a vila de Barra do Ararapira, Paraná; do outro, a vila de Pontal do Leste, São Paulo
À noite choveu um pouco e o dia amanheceu com céu encoberto novamente.
As informações ali eram de que a caminhada ao longo do canal até a Praia Deserta estava obstruída pela grande quantidade de vegetação arrastada pela maré. A solução era fazer esse trecho de cerca de 2,4km, até a foz do canal, de barco. Foi preciso negociar com vários barqueiros pois a exploração de feriado contaminou o pessoal dali também. Por fim, nosso amigo Papael conseguiu um barco por R$60 e fizemos uma viagem só, com o grupo todo novamente reunido para o segundo dia de caminhada (11 integrantes).
Contribuição do Getúlio: "O manguezal está sendo aos poucos e cada vez mais "engolido" pelo mar neste trecho (da vila de Barra do Ararapira até a foz do Canal do Ararapira). Conversando depois com alguns ciclistas no caminho, soubemos que até se consegue passar a pé neste trecho, mas fica bem complicada a passagem com a maré alta, pois apesar de haver pequena faixa de "praia", a mesma é bem abrupta, ou seja, basta se deslocar 1 metro para dentro da água do mar para estar com água acima dos joelhos, isso na maré baixa. A trilha que havia "costeando" por dentro do manguezal até a Vila da Barra do Ararapira foi totalmente tomada pelo mangue e pelo mar e hoje não existe mais."
Começamos a pernada às 11h15 com uma praia de 24km pela frente, a Praia Deserta, que não é tão deserta assim pois tem alguns moradores, todos antigos, com as casas quase escondidas no meio da vegetação. A primeira delas é a da Dona Jandira, pela qual passamos com apenas meia hora de caminhada, mas não chegamos a visitá-la.
Diversos rios e riachos atravessam essa praia, de profundidades bem variadas, desde aqueles que molham apenas o pé até os que chegam à canela ou à altura da coxa, dependendo sempre da maré. Por isso é interessante andar com um calçado que não acumule água, por exemplo, uma papete. O fundo desses rios é sempre arenoso, sem pedras.
Uma das muitas travessias de rios
Às 16h10 atravessamos o rio mais profundo de toda a travessia, com a água chegando à altura da virilha (pelo menos para mim, que tenho 1,70m). Mais 20 minutos e saímos da praia, tomando o caminho para a isolada casa da Dona Rosa e do seu Carlinhos, filho dela, que mantêm uma área de camping no quintal. Cobram R$15 por pessoa e o banho é frio. Deixam à disposição (e até insistem bastante para usar) a cozinha deles, onde preparamos o nosso jantar coletivo: no cardápio a consagrada polenta campeira do Getúlio!
Nessa noite provei a famosa pinga com cataia, uma folha encontrada na região, mas acho que não estava bem curtida e não achei nada de mais. Os mosquitos ali também não deram trégua e somado a eles vieram também as mutucas (butucas, no Paraná), que picavam até por cima da meia grossa.
Nesse dia caminhamos 15,3km.
3º DIA - 11/02/2013 - DO CAMPING DA DONA ROSA (PRAIA DESERTA) À VILA DE SUPERAGUI
Para esse terceiro dia de travessia, colocamos em discussão duas opções:
1- sair cedo, passar pela vila de Superagui, atravessar para a Ilha das Peças, caminhar mais 12km até a vila e de lá tomar o barco para Paranaguá no dia seguinte
ou
2- sair mais tarde e ficar na vila de Superagui para conhecer à noite o fandango, que é a música tradicional da região, pegando o barco no dia seguinte para Paranaguá
O fandango venceu. O que ajudou a não decidirmos pela primeira opção foi também o horário do barco da vila das Peças para Paranaguá, que devia ser às 7h da manhã e depois algum horário inconveniente à tarde, se houvesse. Na vila de Superagui acreditávamos haver mais horários disponíveis.
Assim, todos aproveitaram que o sol finalmente apareceu e foram curtir a praia, menos eu, que fiquei curtindo os efeitos indesejados de um resfriado que resolveu me visitar justamente nesse dias de caminhada. O reforço de vitamina C que eu precisava veio dos pés de caju e de pitanga do quintal, ambos forrados de frutas.
Almoço no Camping da Dona Rosa, com a casa dela ao fundo
Preparamos um almoço coletivo e nessa hora infelizmente houve o único incidente da viagem. A "mesa" onde o pessoal estava cozinhando desmontou e uma panela de água fervente virou, atingindo em cheio a perna direita do Getúlio. Mesmo jogando água fria na queimadura por um bom tempo, não foi possível evitar que se formassem grandes bolhas. Toda a perna foi besuntada de pomada e pelo resto do dia o Getúlio teve de usar uma canga para protegê-la do sol.
Desmontado o acampamento, só voltamos a caminhar às 17h10, nos despedindo da boa acolhida da Dona Rosa e do seu Carlinhos. Ao alcançarmos a praia, porém, avistamos uma chuva forte a oeste (à nossa direita). Não deu nem uma hora e esse temporal nos alcançou, trazendo chuvas e raios. Saímos correndo da praia por causa dos raios e nos abrigamos no meio da vegetação baixa da restinga. A maioria se encolheu embaixo de plásticos estendidos pelos arbustos. Felizmente o vento estava forte e levou a tempestade rapidamente para o mar. O que veio depois foi um espetáculo de céu azul, sol e um arco-íris duplo, o que rendeu muitas fotos!
Às 19h20 chegamos ao local em que há uma trilha que serve de atalho para alcançar a vila de Superagui. A Evelyn e a Cida até quiseram pegá-la mas voltaram dizendo que estava alagada. Continuamos todos pela praia apesar de haver um rio à frente que poderia estar um pouco fundo. Como bastante gente ia e voltava de bicicleta, não devia estar difícil atravessá-lo. No horizonte, começamos a avistar o grande conjunto de montanhas da Serra do Mar paranaense, com destaque (da direita (norte) para a esquerda (sul)) para a Serra do Capivari, Serra do Ibitiraquire (onde se via perfeitamente o Pico Paraná), a Serra da Farinha Seca, o Marumbi, a Serra da Prata, e bem à nossa frente a Ilha do Mel. Belíssima visão! Por fim, o tal rio passou quase despercebido, com água batendo pouco abaixo do joelho.
Serra do Ibitiraquire (Pico Paraná) à direita
Às 20h35, já de noite, chegamos ao Camping do seu Pocidônio, o primeiro camping para quem vem da Praia Deserta, como nós. Mesmo com o grande movimento do carnaval, havia lugar de sobra para montar as barracas pois o espaço é bem grande. O seu Pocidônio é um senhor baixinho e muito risonho que mora ali com a esposa. Eles cobram R$10 por pessoa. Para o banho, há várias duchas frias e apenas um chuveiro quente. Também deixam usar a cozinha, onde preparamos nosso jantar. Em seguida fomos ao centrinho da vila para conhecer o famoso fandango do Superagui, que acontece num bar, com os músicos tocando num canto do salão e o espaço todo livre para quem quiser mexer o esqueleto ao som dos violões, pandeiro e rabeca. Tudo regado a uma boa pinga com cataia, que estava mais curtida do que aquela do seu Carlinhos e deu para sentir bem o sabor da folha. Eu fiquei até 2h30 mas o pessoal esticou mais e disseram que a música foi até 3h40 da madrugada.
Nesse dia caminhamos 10,2km.
4º DIA - 12/02/2013 - DA VILA DE SUPERAGUI A PARANAGUÁ
Nesse último dia, pensamos em fazer um passeio de barco de manhã até o banco de areia que se forma em frente à vila, mas acabou não acontecendo. Todos resolveram voltar para casa nesse dia, mesmo os que não tinham compromissos na quarta-feira, porém o horário de saída do barco para Paranaguá não era uma informação precisa. Uns disseram que haveria escuna de hora em hora dado o grande número de turistas, outros informaram que com certeza sairia uma às 15h. Assim, desmontamos acampamento calmamente, alguns do grupo foram dar um mergulho no mar e pouco depois das 13h fomos para o trapiche ver a que horas a escuna ia sair de verdade. Já havia uma ancorada, com alguns passageiros acomodados, e o barqueiro disse que sairia às 14h30 (R$25 por pessoa). Foi o tempo de comer alguma coisa e voltar logo pois a escuna saiu quase no horário, com apenas 5 minutos de atraso.
Praia da vila de Superagui
Costeamos a Ilha das Peças, à nossa direita, e depois a Ilha do Mel, à nossa esquerda.
Eu não comi nada com receio de o barco balançar muito no trecho de mar mais aberto, mas isso não aconteceu. A viagem foi tranquila mesmo com o temporal que pegamos depois da Ilha do Mel. Atracamos no porto de Paranaguá às 17h06 com chuva fraca e fomos direto à rodoviária, a 700m dali, para providenciar as passagens para Curitiba. Eu já tinha comprado para mim e a Débora pela internet para o horário das 18h30 e foi só retirar no guichê da viação Graciosa. O pessoal conseguiu para o horário das 21h30. Eles foram comer algo e nós logo embarcamos. Não houve trânsito nenhum na subida da serra e chegamos a Curitiba às 20h08 (para quem mora em São Paulo e sabe o caos que é a volta do litoral no carnaval isso parece impossível). No guichê da Cometa, trocamos as passagens de 23h para o horário extra das 21h. De novo não pegamos congestionamentos e às 3h30 já desembarcávamos em Sampa.
Informações adicionais:
. Os horários do ônibus São Paulo-Cananéia pela empresa Intersul são muito restritos e inconvenientes (9h e 14h30). No nosso caso foi melhor pegar um ônibus para Curitiba, descer na rodovia e esperar o pessoal de lá chegar com a van fretada. A viagem São Paulo-Curitiba pode ser feita pela Cometa (http://www.viacaocometa.com.br), Itapemirim (http://www.itapemirim.com.br) e Eucatur (http://www.eucatur.com.br).
. As empresas que fazem o trecho Paranaguá-Curitiba são a viação Graciosa (http://www.viacaograciosa.com.br), com muitos horários, e a Princesa dos Campos (http://www.princesadoscampos.com.br), normalmente com apenas dois horários: 12h e 17h45.
. Para saltar do ônibus da Cometa no meio da estrada é preciso estar com a bagagem à mão. O motorista não abre o bagageiro no acostamento. No nosso caso, pedimos a ele para tirar as mochilas do bagageiro na parada Graal Buenos Aires, em Registro, 12km antes do local onde desceríamos.
. Os telefones da escuna Vitória Gabriella, que fez o trajeto Cananéia-Marujá, são 13-3851-3195 e 13-9791-7668 (Vivo).
. Na vila de Marujá, a caminhada até as piscinas da Praia da Laje são acompanhadas de um monitor do parque, saem às 8h da manhã apenas e é cobrada uma taxa de R$15 por pessoa.
. A travessia completa, desde o trapiche do Marujá até o trapiche da vila de Superagui, sem contar os dois percursos de barco, totaliza 39,2km de caminhada. Nós somamos 40,1km por causa dos pequenos desvios e porque terminamos no Camping do Pocidônio, o primeiro para quem chega da Praia Deserta.
. Por ser uma caminhada longa em areia dura, é melhor usar um calçado macio para evitar excesso de impacto. Porém há vários riachos a cruzar pelo caminho, por isso uma bota de trekking não é muito conveniente já que será preciso tirá-la várias vezes. O melhor é usar um tênis de secagem rápida, ou, melhor ainda, uma papete confortável.
. Não há fonte de água confiável durante toda a caminhada pelas praias. O que fizemos foi pegar água nos campings e tratá-la com Clorin.
. Repelente é item indispensável pois há vários tipos de mosquito no caminho todo.
. Os campings que utilizamos foram:
.. em Barra do Ararapira: Camping das Palmeiras - chão de areia (sem grama), um único banheiro, banho quente, R$8 por pessoa
.. na Praia Deserta: Camping da Dona Rosa - chão de areia, vários banheiros, banho frio, R$15 por pessoa
.. na vila de Superagui: Camping do Pocidônio - gramado bem grande, vários banheiros, algumas duchas e apenas um chuveiro quente, R$10 por pessoa
Rafael Santiago
fevereiro/2013
Travessia marcada na imagem do Google Earth
Editado por Visitante