Segue um relatinho antigo, de pernada realizada no ano passado (10 e 11/03/2012), mas ainda válido para compartilhar algumas de nossas experiências na região. Assim elimino as “pendências” da minha gaveta...
O INÍCIO - PLANEJAMENTO
Dando sequência às nossas explorações na belíssima região da Serra do Quiriri, localizada na divisa sudeste entre os estados do Paraná e Santa Catarina, passo a relatar a trip realizada no fim de semana dos dias 10 e 11 de março de 2012 por um grupo da AMC – Associação Montanhistas de Cristo...
Tudo começou em nossa investida anterior naquela região, em out/2011 (veja o relato AQUI). Voltamos para casa naquela ocasião com uma pontinha de frustração por não termos cumprido com todos os objetivos traçados, resultado em parte da brusca deterioração das condições climáticas que prejudicaram a visibilidade e nos impediram de explorar em profundidade as imediações da Pedra da Tartaruga e do Vale Encantado, além de nos fazer abortar a pernada até a área da Pedra da Divisa. Assim, decidimos ainda na estrada de retorno da fazenda que retornaríamos no verão para excursionar pela região de modo a explorar e conhecer o tal vale em condições mais favoráveis.
Três meses se passaram e, no início do mês de fevereiro de 2012, após relembrar nossa agenda de programas para o verão comecei a colocar pilha nos companheiros da AMC para retornarmos ao Quiriri e efetivamente realizarmos a investida que tinha ficado no ar.
A ideia do roteiro a seguir era bem próxima do que já havíamos tentado empreender em outubro/2011: em linhas gerais, partir da Fazenda Alto Quiriri rumando para o Norte passando pelo Monte Bradador (antenas) para depois derivar ao Leste em direção à Pedra da Tartaruga no primeiro dia (sem o erro que cometemos da outra vez), montar acampamento em suas proximidades e aproveitar as últimas luzes do dia na exploração de pelo menos um dos dois vales que ladeiam a sua crista para confirmar a localização correta do tal Vale Encantado. No segundo dia, desmontar acampamento e rumar cedo em direção à Pedra da Divisa e se possível ao Marco da Divisa, adiante, cortando os vales e a linha de cristas montanhosas que a antecedem (isso para quem partiria da Pedra da Tartaruga, onde estaríamos acampados).
A TRIP - PRIMEIRO DIA
Preparativos realizados, grupo formado, autorização requerida e concedida junto à Administração da Fazenda Alto Quiriri, a pequena expedição tomou forma para os dias 10 e 11 de março de 2012 e lá fomos nós.
Nossa saída madrugueira, programada originalmente para ocorrer às 6h da matina da casa de um companheiro onde nos encontraríamos para distribuir as caronas e as mochilas nas viaturas acabou atrasando por obra de um celular que ficou programado para despertar apenas de segunda à sexta-feira. Com isso foi necessário realocar emergencialmente as caronas e remarcar, por telefone, nosso ponto de encontro, que passou a ser na BR-376 depois do contorno rodoviário sul, já fora de Curitiba, para otimizar o horário da nossa partida.
Rapidamente atravessamos as cidades de Curitiba e S. J. Dos Pinhais em direção ao ponto de encontro e encontramos a porção atrasada do grupo. Redistribuímos as cargueiras e o pessoal nos veículos e tocamos no rumo de Tijucas do Sul, onde logo depois sairíamos do asfalto para galgar rapidamente as curvas poeirentas da sinuosa estradinha de terra (ou de “chão”, como se diz por aqui) que leva à Fazenda Alto Quiriri, margeada ora pelas incontáveis áreas de reflorestamento de pinus, ora pela vista das montanhas das Serras da Papanduva e Araçatuba, já que com o tempo limpo a visibilidade era quase total.
Empolgados com o tempo bom, fizemos pequena parada na divisa dos estados, delimitada por um remanso formado pelas águas do Rio Negro. Ali encontramos, logo após a ponte metálica, uma placa bem recente (posterior à nossa última passagem por ali) com indicações sobre os campos do Quiriri. Esticadas as pernas, moitas devidamente regadas e várias fotos, seguimos viagem estrada acima. Dali para frente o trajeto é em sua maior parte subida, com paisagens cada vez mais belas, já que do alto nosso horizonte visual com o céu azul e a baixa nebulosidade era cada vez mais amplo. Com isso atrasamos um pouco mais pois foram inevitáveis as paradas para fotos e contemplação, visto que na trip anterior, com a nebulosidade na ida e o tempo chuvoso na volta, havíamos perdido todo aquele material.
Lá pelas 10h da manhã, já bem atrasados em relação ao nosso plano inicial, adentramos os limites da Fazenda Alto Quiriri e somos recepcionados na porteira pelo Sr. João, um dos caseiros. Depois de nos identificar e ter a passagem liberada e antes de estacionar as viaturas, combinamos com ele de ir até a sede da fazenda para deixar a cargueira do nosso companheiro Wilson, que viria de moto algumas horas mais tarde com a namorada por força de um compromisso e iria seguir depois os nossos rastros, se possível nos encontrando no acampamento à noite.
Estacionadas as viaturas e após breves preparativos e ajustes nas mochilas partimos rapidamente rumo ao alto do Monte Bradador pela estradinha que sobe da fazenda, num trecho chato que mistura saibro, erosões e pedras soltas. Antes da metade do percurso somos interceptados por um grupo de motocross que vinha da fazenda e lá estavam passando o final de semana, já que as instalações da fazenda podem ser alugadas para eventos. Ficamos sabendo antes, pelo caseiro, que se tratava de um grupo de amigos de um funcionário que trabalha no grupo empresarial ao qual pertence a fazenda e que passavam o final de semana ali. Continuamos a nossa subida ao topo do Monte Bradador, referência visual das mais importantes da área com suas grandes antenas repetidoras de rádio, ponto de passagem quase que obrigatório para quem sai da parte baixa da fazenda e sobe a serra em direção aos campos e montanhas do norte, no Alto Quiriri, como fazíamos.
Ainda que o ponto de partida na fazenda já seja uma grande vantagem por estar a uma altitude considerável (cerca de 1269m), a relativamente pequena altimetria do desnível de cerca de 234 m entre o estacionamento e o cume do Bradador cobra seu preço, especialmente sob o sol forte de uma manhã de verão sem nuvens e com pesadas mochilas nas costas. O grupo nessa altura já estava dividido em blocos menores de 3 ou 4 caminhantes cada, cujas afinidades eram o ritmo próprio da caminhada e o teor da prosa durante a subida. Como eu estava no pelotão fecha-trilha, lá por 1h de caminhada já avistava o grupo da vanguarda atingindo o alto do Bradador. Uns 20 min depois e o grupo todo já estava novamente reunido e almoçando sob a pequena mas providencial sombra da casinha de cimento que abriga os painéis solares e as baterias da repetidora de rádio no cume do Monte Bradador, pois já passava das 12h. Neste trecho já havíamos percorrido pouco mais de 2 km.
Revigorados com a hidratação, alimento e descanso na breve parada, tocamos morro abaixo, agora pela sua face norte, descendo a encosta coberta de capim que esconde vários pequenos buracos, vislumbrando todo o esplendor dos famosos Campos do Quiriri. Nosso guia visual a partir dali seria por um tempo o rochoso Monte Pe. Raulino, uma das elevações dominantes nas imediações e por isso visível de muito longe.
Rapidamente cruzamos o sobe e desce das porções de campos que separam a encosta norte do Bradador e a “praça verde” por assim dizer, formada por uma sucessão de pequenos e suaves vales entre os Montes Bradador, Quiriri (o mais alto daquela área, com seus 1538 m), a Oeste, e Pe. Raulino. O último destes pequenos vales antes do Mt. Pe. Raulino, que na primavera anterior estava todo florido e por isso foi por nós apelidado de “vale das flores”, desta vez não estava tão exuberante mas continuava indicando a necessidade de, dali, derivarmos para a direita pela vereda de capim batido que preguiçosamente se estendia rumo Leste acompanhando suavemente as curvas de nível, ora subindo, ora descendo para vencer desníveis nos “campos do Windows”, brincadeira que fizemos em alusão à similitude daquela paisagem àquele papel de parede padrão que acompanha o famoso sistema operacional e que retrata um verdejante campo ondulado emoldurado por um vívido céu azul e nuvens branquinhas... Justamente a paisagem que vislumbrávamos naquele trecho da pernada!
Novamente nosso grupo se estendia no horizonte, desdobrando-se em destacamentos menores que se seguiam, cada um no seu ritmo de caminhada. Bradador – vale das flores – campos do Windows e mais alguns morrotes intermediários. Na retaguarda, após cerca de 1,5h de caminhada depois do Bradador e algumas breves paradas para hidratação sob o forte calor do sol que derretia nossas cacholas, retomada do fôlego (com a desculpa dos cliques e da contemplação da exuberância daqueles campos), já avistávamos a formação característica da Pedra da Tartaruga no horizonte e os elementos mais avançados do grupo, ao longe, já se aproximavam dela. Cerca de mais 45min de caminhada e várias paradinhas para molhar a garganta, fotografar e contemplar agora os campos salpicados de pedras e o grupo de retaguarda também alcança uma bela e providencial sombra formada nas costas da Pedra da Tartaruga. Mesmo àquela hora do dia (cerca de 16h) os raios solares ainda nos castigavam com um calor terrível. A sombrinha ainda espantou outro inimigo terrível desta caminhada: as butucas do Quiriri, que mais tarde descobrimos se tratar de versões minúsculas de pequenos vampiros sedentos de sangue, mas que ao contrário de sua versão maior odiavam a escuridão, preferindo carne “de sol” (Rsrsrs) pois só nos atacavam sob a iluminação e calor do astro rei.
Após nos refazermos sob alguns minutos na já referida sombra, confabulamos sobre o local de acampamento e, dadas as condições de alguns integrantes do grupo (2 com pé machucado - bolhas e torção em recuperação de outra trip e 2 outros bastante desgastados pelo calor e noite mal dormida), decidimos em conjunto que seria melhor montar acampamento no mesmo lugar em que o fizemos em nossa última visita, ou seja, no platô a nordeste da pedra, local plano e favorável eis que relativamente protegido do vento, ainda que bem no alto. Tratamos então de contornar a enorme formação rochosa enquanto alguns subiam a pedra para acessar uma caixa de cume que se revelaria vazia.
Acampamento montado, feridos e cansados descansando (eu entre eles) e lá se foi o pelotão principal descendo o vale que desce por S-N, à esquerda da pedra e do acampamento(para quem olha o mapa com o Norte no topo), sob o pretexto de buscar água e desbravar o curso do rio que corre por ele.
Nisso os acampados tiram um cochilo, remendam seus ferimentos e se refazem da extenuante pernada sob o sol escaldante. Cerca de 1h30min depois, já passando das 18h retorna o grupo que descera o vale, maravilhados com o visual do rio (alguns até banharam-se nas águas, gélidas mesmo com o calor e sol forte), apesar do visual das redondezas ter ficado prejudicado por um nevoeiro que começou a se formar no fundo do vale e impediu maior alcance visual.
Com o retorno de nossos companheiros expedicionários somos surpreendidos com o belíssimo visual do mar de nuvens que se forma no final de tarde à nossa frente, encobrindo totalmente a vista do mar e da planície litorânea à frente do acampamento. Sem dúvida que aproveitamos para registrar os momentos e muitos cliques foram dados...
Começa então a faina da janta. Mexe daqui, remexe dali e vão surgindo as panelas e fogareiros, café, salame, e as panças alvoroçadas e roncantes vão sendo abastecidas com alguns quitutes antes do jantar propriamente dito, já que foi anunciado e combinado que teríamos a tal polenta campeira, que o pessoal concordou em preparar mais tarde. Rola o tradicional escambo de alimentos entre os companheiros, assim como a troca de experiências e aquela boa conversa que surge ao pé dos fogareiros, especialmente nas noites mais enluaradas como a que passaríamos a apreciar (seria lua cheia mas ela ainda não havia surgido no céu). Sensação na roda de conversa foi a pequena cafeteira italiana levada pelo Papael, que rapidamente passou de mão em mão, com as devidas orientações de uso fornecidas pelo proprietário, que logo também ficou sem o precioso pó de café, cuja carga não tinha sido tão abundante quanto o interesse pelo artefato...
Fotos daqui e dali, aproveitando os últimos resquícios de luz do sol refletidas na atmosfera e as primeiras luzes das cidades e estrelas que surgiam no horizonte. Serginho e o seu novo tripé fotográfico foi um caso à parte, tendo capturado muitas imagens com ótima qualidade com a ajuda do novo brinquedo. Inclusive a qualidade das fotos da lua e do acampamento à noite se devem a ele, que gentilmente emprestou o acessório a vários fotógrafos diferentes.
Lá pelas 20h00min a fome começou a bater na galera e vamos que vamos preparar a refeição quente da noite, que apesar de ainda ser verão, revelou-se bem amena. Juntamos algumas panelas (que como eram pequenas tiveram que ser usadas em conjunto) para o preparo da famigerada polenta campeira, iguaria que já encontra-se descrita nos mais diletos livros de receitas culinárias 'outdoor'. Enquanto dois refogavam na chapa-forma a calabresa, bacon e lombinho defumado, previamente cortados e misturados com cebola e alho, outros dois preparavam a massa da polenta em duas panelas maiores, juntando tudo assim que cozida a massa, faina que não dura mais do que 10 minutos. Concluído o preparo, eis que rapidamente surge uma fila de pratos, apressados, ávidos por garantir a sua porção do alimento. Natural que nestas horas reine o silêncio e, logo depois o rápido ruído de pratos sendo raspados, sinal de que as porções servidas foram rapidamente devoradas. Nessa hora o rádio Talk About, até então quieto, começa a chamar: “Wilson AMC chamando Zeca, na escuta? Câmbio!” ... “Wilson AMC chamando Zeca, na escuta? Câmbio!”. Era o nosso companheiro Wilson, que há pouco chegara no cume do Bradador, após algumas horas de atraso ao sair de moto de Curitiba e pegar a trilha, iniciada já no final de tarde. Relatava logo em seguida que tudo correra bem, mas dado o avanço da hora não quis percorrer a trilha à noite com a namorada e resolveram montar seu acampamento no alto do Monte Bradador, onde relatava ter encontrado um escorpião preto na área de acampamento.
Encerrado o contato de rádio as conversas voltam ao ar, agora em grupos menores de 2 ou 3 pessoas, primeiro na “cozinha” no centro do acampamento e depois nesta ou naquela barraca. O pessoal começa a se arrumar para dormir. Alguns, mais inquietos, buscam uma posição nas pedras para admirar o horizonte, cujo luar abundante revela ao longe num céu praticamente isento de nuvens em várias direções. Mas e a Lua? Nada da Lua?! Procuramos no céu e, apesar de ser lua cheia, o satélite não aparece... Logo percebemos que a Lua nascera por trás do vulto da Pedra da Tartaruga, em razão principalmente da sombra que se forma sobre nosso acampamento. Lá pelas 21h45min ela vence a elevação do rochedo e se projeta diretamente sobre nós, passando a ficar visível. Grande espetáculo. As fotos que o digam.
Nestes momentos que antecedem o sono dos justos e merecedores trekkers, fazemos algumas brincadeiras com as câmeras, aproveitando o tripé do Serginho. Pintura com luzes, fotos das estrelas, do próprio acampamento iluminado pelas lanternas das barracas e dos vultos das montanhas são alguns dos afazeres noturnos antes de nos recolhermos aos nossos sacos de dormir. Logo reinaria o silêncio quase absoluto, entrecortado apenas pelo ruído, ao longe, de um ou outro caminhão passando na distante BR-376, no vale mais profundo à nossa frente (dessa vez o Luis não foi conosco, rsrsrs).
PEDRA DA TARTARUGA E VALE ENCANTADO
Relato de um fim de semana na Serra do Quiriri
Segue um relatinho antigo, de pernada realizada no ano passado (10 e 11/03/2012), mas ainda válido para compartilhar algumas de nossas experiências na região. Assim elimino as “pendências” da minha gaveta...
O INÍCIO - PLANEJAMENTO
Dando sequência às nossas explorações na belíssima região da Serra do Quiriri, localizada na divisa sudeste entre os estados do Paraná e Santa Catarina, passo a relatar a trip realizada no fim de semana dos dias 10 e 11 de março de 2012 por um grupo da AMC – Associação Montanhistas de Cristo...
Tudo começou em nossa investida anterior naquela região, em out/2011 (veja o relato AQUI). Voltamos para casa naquela ocasião com uma pontinha de frustração por não termos cumprido com todos os objetivos traçados, resultado em parte da brusca deterioração das condições climáticas que prejudicaram a visibilidade e nos impediram de explorar em profundidade as imediações da Pedra da Tartaruga e do Vale Encantado, além de nos fazer abortar a pernada até a área da Pedra da Divisa. Assim, decidimos ainda na estrada de retorno da fazenda que retornaríamos no verão para excursionar pela região de modo a explorar e conhecer o tal vale em condições mais favoráveis.
Três meses se passaram e, no início do mês de fevereiro de 2012, após relembrar nossa agenda de programas para o verão comecei a colocar pilha nos companheiros da AMC para retornarmos ao Quiriri e efetivamente realizarmos a investida que tinha ficado no ar.
A ideia do roteiro a seguir era bem próxima do que já havíamos tentado empreender em outubro/2011: em linhas gerais, partir da Fazenda Alto Quiriri rumando para o Norte passando pelo Monte Bradador (antenas) para depois derivar ao Leste em direção à Pedra da Tartaruga no primeiro dia (sem o erro que cometemos da outra vez), montar acampamento em suas proximidades e aproveitar as últimas luzes do dia na exploração de pelo menos um dos dois vales que ladeiam a sua crista para confirmar a localização correta do tal Vale Encantado. No segundo dia, desmontar acampamento e rumar cedo em direção à Pedra da Divisa e se possível ao Marco da Divisa, adiante, cortando os vales e a linha de cristas montanhosas que a antecedem (isso para quem partiria da Pedra da Tartaruga, onde estaríamos acampados).
A TRIP - PRIMEIRO DIA
Preparativos realizados, grupo formado, autorização requerida e concedida junto à Administração da Fazenda Alto Quiriri, a pequena expedição tomou forma para os dias 10 e 11 de março de 2012 e lá fomos nós.
Nossa saída madrugueira, programada originalmente para ocorrer às 6h da matina da casa de um companheiro onde nos encontraríamos para distribuir as caronas e as mochilas nas viaturas acabou atrasando por obra de um celular que ficou programado para despertar apenas de segunda à sexta-feira. Com isso foi necessário realocar emergencialmente as caronas e remarcar, por telefone, nosso ponto de encontro, que passou a ser na BR-376 depois do contorno rodoviário sul, já fora de Curitiba, para otimizar o horário da nossa partida.
Rapidamente atravessamos as cidades de Curitiba e S. J. Dos Pinhais em direção ao ponto de encontro e encontramos a porção atrasada do grupo. Redistribuímos as cargueiras e o pessoal nos veículos e tocamos no rumo de Tijucas do Sul, onde logo depois sairíamos do asfalto para galgar rapidamente as curvas poeirentas da sinuosa estradinha de terra (ou de “chão”, como se diz por aqui) que leva à Fazenda Alto Quiriri, margeada ora pelas incontáveis áreas de reflorestamento de pinus, ora pela vista das montanhas das Serras da Papanduva e Araçatuba, já que com o tempo limpo a visibilidade era quase total.
Empolgados com o tempo bom, fizemos pequena parada na divisa dos estados, delimitada por um remanso formado pelas águas do Rio Negro. Ali encontramos, logo após a ponte metálica, uma placa bem recente (posterior à nossa última passagem por ali) com indicações sobre os campos do Quiriri. Esticadas as pernas, moitas devidamente regadas e várias fotos, seguimos viagem estrada acima. Dali para frente o trajeto é em sua maior parte subida, com paisagens cada vez mais belas, já que do alto nosso horizonte visual com o céu azul e a baixa nebulosidade era cada vez mais amplo. Com isso atrasamos um pouco mais pois foram inevitáveis as paradas para fotos e contemplação, visto que na trip anterior, com a nebulosidade na ida e o tempo chuvoso na volta, havíamos perdido todo aquele material.
Lá pelas 10h da manhã, já bem atrasados em relação ao nosso plano inicial, adentramos os limites da Fazenda Alto Quiriri e somos recepcionados na porteira pelo Sr. João, um dos caseiros. Depois de nos identificar e ter a passagem liberada e antes de estacionar as viaturas, combinamos com ele de ir até a sede da fazenda para deixar a cargueira do nosso companheiro Wilson, que viria de moto algumas horas mais tarde com a namorada por força de um compromisso e iria seguir depois os nossos rastros, se possível nos encontrando no acampamento à noite.
Estacionadas as viaturas e após breves preparativos e ajustes nas mochilas partimos rapidamente rumo ao alto do Monte Bradador pela estradinha que sobe da fazenda, num trecho chato que mistura saibro, erosões e pedras soltas. Antes da metade do percurso somos interceptados por um grupo de motocross que vinha da fazenda e lá estavam passando o final de semana, já que as instalações da fazenda podem ser alugadas para eventos. Ficamos sabendo antes, pelo caseiro, que se tratava de um grupo de amigos de um funcionário que trabalha no grupo empresarial ao qual pertence a fazenda e que passavam o final de semana ali. Continuamos a nossa subida ao topo do Monte Bradador, referência visual das mais importantes da área com suas grandes antenas repetidoras de rádio, ponto de passagem quase que obrigatório para quem sai da parte baixa da fazenda e sobe a serra em direção aos campos e montanhas do norte, no Alto Quiriri, como fazíamos.
Ainda que o ponto de partida na fazenda já seja uma grande vantagem por estar a uma altitude considerável (cerca de 1269m), a relativamente pequena altimetria do desnível de cerca de 234 m entre o estacionamento e o cume do Bradador cobra seu preço, especialmente sob o sol forte de uma manhã de verão sem nuvens e com pesadas mochilas nas costas. O grupo nessa altura já estava dividido em blocos menores de 3 ou 4 caminhantes cada, cujas afinidades eram o ritmo próprio da caminhada e o teor da prosa durante a subida. Como eu estava no pelotão fecha-trilha, lá por 1h de caminhada já avistava o grupo da vanguarda atingindo o alto do Bradador. Uns 20 min depois e o grupo todo já estava novamente reunido e almoçando sob a pequena mas providencial sombra da casinha de cimento que abriga os painéis solares e as baterias da repetidora de rádio no cume do Monte Bradador, pois já passava das 12h. Neste trecho já havíamos percorrido pouco mais de 2 km.
Revigorados com a hidratação, alimento e descanso na breve parada, tocamos morro abaixo, agora pela sua face norte, descendo a encosta coberta de capim que esconde vários pequenos buracos, vislumbrando todo o esplendor dos famosos Campos do Quiriri. Nosso guia visual a partir dali seria por um tempo o rochoso Monte Pe. Raulino, uma das elevações dominantes nas imediações e por isso visível de muito longe.
Rapidamente cruzamos o sobe e desce das porções de campos que separam a encosta norte do Bradador e a “praça verde” por assim dizer, formada por uma sucessão de pequenos e suaves vales entre os Montes Bradador, Quiriri (o mais alto daquela área, com seus 1538 m), a Oeste, e Pe. Raulino. O último destes pequenos vales antes do Mt. Pe. Raulino, que na primavera anterior estava todo florido e por isso foi por nós apelidado de “vale das flores”, desta vez não estava tão exuberante mas continuava indicando a necessidade de, dali, derivarmos para a direita pela vereda de capim batido que preguiçosamente se estendia rumo Leste acompanhando suavemente as curvas de nível, ora subindo, ora descendo para vencer desníveis nos “campos do Windows”, brincadeira que fizemos em alusão à similitude daquela paisagem àquele papel de parede padrão que acompanha o famoso sistema operacional e que retrata um verdejante campo ondulado emoldurado por um vívido céu azul e nuvens branquinhas... Justamente a paisagem que vislumbrávamos naquele trecho da pernada!
Novamente nosso grupo se estendia no horizonte, desdobrando-se em destacamentos menores que se seguiam, cada um no seu ritmo de caminhada. Bradador – vale das flores – campos do Windows e mais alguns morrotes intermediários. Na retaguarda, após cerca de 1,5h de caminhada depois do Bradador e algumas breves paradas para hidratação sob o forte calor do sol que derretia nossas cacholas, retomada do fôlego (com a desculpa dos cliques e da contemplação da exuberância daqueles campos), já avistávamos a formação característica da Pedra da Tartaruga no horizonte e os elementos mais avançados do grupo, ao longe, já se aproximavam dela. Cerca de mais 45min de caminhada e várias paradinhas para molhar a garganta, fotografar e contemplar agora os campos salpicados de pedras e o grupo de retaguarda também alcança uma bela e providencial sombra formada nas costas da Pedra da Tartaruga. Mesmo àquela hora do dia (cerca de 16h) os raios solares ainda nos castigavam com um calor terrível. A sombrinha ainda espantou outro inimigo terrível desta caminhada: as butucas do Quiriri, que mais tarde descobrimos se tratar de versões minúsculas de pequenos vampiros sedentos de sangue, mas que ao contrário de sua versão maior odiavam a escuridão, preferindo carne “de sol” (Rsrsrs) pois só nos atacavam sob a iluminação e calor do astro rei.
Após nos refazermos sob alguns minutos na já referida sombra, confabulamos sobre o local de acampamento e, dadas as condições de alguns integrantes do grupo (2 com pé machucado - bolhas e torção em recuperação de outra trip e 2 outros bastante desgastados pelo calor e noite mal dormida), decidimos em conjunto que seria melhor montar acampamento no mesmo lugar em que o fizemos em nossa última visita, ou seja, no platô a nordeste da pedra, local plano e favorável eis que relativamente protegido do vento, ainda que bem no alto. Tratamos então de contornar a enorme formação rochosa enquanto alguns subiam a pedra para acessar uma caixa de cume que se revelaria vazia.
Acampamento montado, feridos e cansados descansando (eu entre eles) e lá se foi o pelotão principal descendo o vale que desce por S-N, à esquerda da pedra e do acampamento(para quem olha o mapa com o Norte no topo), sob o pretexto de buscar água e desbravar o curso do rio que corre por ele.
Nisso os acampados tiram um cochilo, remendam seus ferimentos e se refazem da extenuante pernada sob o sol escaldante. Cerca de 1h30min depois, já passando das 18h retorna o grupo que descera o vale, maravilhados com o visual do rio (alguns até banharam-se nas águas, gélidas mesmo com o calor e sol forte), apesar do visual das redondezas ter ficado prejudicado por um nevoeiro que começou a se formar no fundo do vale e impediu maior alcance visual.
Com o retorno de nossos companheiros expedicionários somos surpreendidos com o belíssimo visual do mar de nuvens que se forma no final de tarde à nossa frente, encobrindo totalmente a vista do mar e da planície litorânea à frente do acampamento. Sem dúvida que aproveitamos para registrar os momentos e muitos cliques foram dados...
Começa então a faina da janta. Mexe daqui, remexe dali e vão surgindo as panelas e fogareiros, café, salame, e as panças alvoroçadas e roncantes vão sendo abastecidas com alguns quitutes antes do jantar propriamente dito, já que foi anunciado e combinado que teríamos a tal polenta campeira, que o pessoal concordou em preparar mais tarde. Rola o tradicional escambo de alimentos entre os companheiros, assim como a troca de experiências e aquela boa conversa que surge ao pé dos fogareiros, especialmente nas noites mais enluaradas como a que passaríamos a apreciar (seria lua cheia mas ela ainda não havia surgido no céu). Sensação na roda de conversa foi a pequena cafeteira italiana levada pelo Papael, que rapidamente passou de mão em mão, com as devidas orientações de uso fornecidas pelo proprietário, que logo também ficou sem o precioso pó de café, cuja carga não tinha sido tão abundante quanto o interesse pelo artefato...
Fotos daqui e dali, aproveitando os últimos resquícios de luz do sol refletidas na atmosfera e as primeiras luzes das cidades e estrelas que surgiam no horizonte. Serginho e o seu novo tripé fotográfico foi um caso à parte, tendo capturado muitas imagens com ótima qualidade com a ajuda do novo brinquedo. Inclusive a qualidade das fotos da lua e do acampamento à noite se devem a ele, que gentilmente emprestou o acessório a vários fotógrafos diferentes.
Lá pelas 20h00min a fome começou a bater na galera e vamos que vamos preparar a refeição quente da noite, que apesar de ainda ser verão, revelou-se bem amena. Juntamos algumas panelas (que como eram pequenas tiveram que ser usadas em conjunto) para o preparo da famigerada polenta campeira, iguaria que já encontra-se descrita nos mais diletos livros de receitas culinárias 'outdoor'. Enquanto dois refogavam na chapa-forma a calabresa, bacon e lombinho defumado, previamente cortados e misturados com cebola e alho, outros dois preparavam a massa da polenta em duas panelas maiores, juntando tudo assim que cozida a massa, faina que não dura mais do que 10 minutos. Concluído o preparo, eis que rapidamente surge uma fila de pratos, apressados, ávidos por garantir a sua porção do alimento. Natural que nestas horas reine o silêncio e, logo depois o rápido ruído de pratos sendo raspados, sinal de que as porções servidas foram rapidamente devoradas. Nessa hora o rádio Talk About, até então quieto, começa a chamar: “Wilson AMC chamando Zeca, na escuta? Câmbio!” ... “Wilson AMC chamando Zeca, na escuta? Câmbio!”. Era o nosso companheiro Wilson, que há pouco chegara no cume do Bradador, após algumas horas de atraso ao sair de moto de Curitiba e pegar a trilha, iniciada já no final de tarde. Relatava logo em seguida que tudo correra bem, mas dado o avanço da hora não quis percorrer a trilha à noite com a namorada e resolveram montar seu acampamento no alto do Monte Bradador, onde relatava ter encontrado um escorpião preto na área de acampamento.
Encerrado o contato de rádio as conversas voltam ao ar, agora em grupos menores de 2 ou 3 pessoas, primeiro na “cozinha” no centro do acampamento e depois nesta ou naquela barraca. O pessoal começa a se arrumar para dormir. Alguns, mais inquietos, buscam uma posição nas pedras para admirar o horizonte, cujo luar abundante revela ao longe num céu praticamente isento de nuvens em várias direções. Mas e a Lua? Nada da Lua?! Procuramos no céu e, apesar de ser lua cheia, o satélite não aparece... Logo percebemos que a Lua nascera por trás do vulto da Pedra da Tartaruga, em razão principalmente da sombra que se forma sobre nosso acampamento. Lá pelas 21h45min ela vence a elevação do rochedo e se projeta diretamente sobre nós, passando a ficar visível. Grande espetáculo. As fotos que o digam.
Nestes momentos que antecedem o sono dos justos e merecedores trekkers, fazemos algumas brincadeiras com as câmeras, aproveitando o tripé do Serginho. Pintura com luzes, fotos das estrelas, do próprio acampamento iluminado pelas lanternas das barracas e dos vultos das montanhas são alguns dos afazeres noturnos antes de nos recolhermos aos nossos sacos de dormir. Logo reinaria o silêncio quase absoluto, entrecortado apenas pelo ruído, ao longe, de um ou outro caminhão passando na distante BR-376, no vale mais profundo à nossa frente (dessa vez o Luis não foi conosco, rsrsrs).
...
CONTINUA...
Editado por Visitante