"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Iorana!
Por meses, pesquisei sobre Ilha de Páscoa, suas belezas e seus mistérios...
Conhecida como Rapa Nui (que significa terra grande), termo também utilizado para a língua e nativos, é um triângulo de aproximadamente 166 Km2, cujos vértices foram formados há mais de dois milhões e meio de anos, através da erupção de 3 vulcões: Poike a leste, Rano Kau a sudoeste e Maunga Terevaka a noroeste.
Trata-se da região mais isolada do planeta, já que se encontra a quase 3.800Km do continente mais próximo (a costa oeste do Chile). Isso lhe concede o título de Umbigo do Mundo (Te Pito Ote Nua, na língua rapa nui).
Páscoa possui uma população de aproximadamente 3.791 habitantes (censo de 2003), entre nativos, chilenos continentais e outros estrangeiros que deixaram a terra firme e se radicaram para sempre em Rapa Nui. Lá se vive basicamente do turismo. O clima é subtropical oceânico, dias ensolarados com chuvas repentinas, sendo agosto o mês mais frio (14 a 17 graus), fevereiro o mais quente (24 a 28 graus) e maio o mais chuvoso.
Os moai, termo que designa tanto o singular como o plural, gigantes esculturas em pedra vulcânica, com idade estimada em mais de mil anos, são o maior símbolo de Ilha de Páscoa e sempre estiveram envoltos em mistérios. Ao todo, mais de mil moai individuais ou em forma de ahu, altares de até 15 moai, estão espalhados pela ilha.
Resolvi, então, programar essa viagem e saber um pouco mais dessa curiosa cultura. E Átila me deu a honra e alegria de compartilhar comigo esse sonho.
Do momento em que fechamos o pacote ao embarque, a ansiedade foi imensurável.
Saímos de Belo Horizonte às 18:50hs do dia 26 de dezembro. Praticamente sem atrasos, já que o vôo estava previsto para 18:20hs. Uma hora depois estávamos em São Paulo e lá ficamos andando pelas lojas até o horário do embarque para Santiago, já que o vôo seria às 01:15hs.
Aeroporto cheio, ao optar por comer algo no Mc Donald´s, tivemos que sentar no chão, já que não havia mesas disponíveis.
Confesso que não estava em trajes confortáveis para longas esperas. De salto, meus pés doíam muito e a solução foi a compra de havaianas no Duty Free.
O vôo saiu no horário previsto, fazendo escala no Rio de Janeiro. Pouco mais das sete da manhã do dia 27 estávamos em Santiago (horário local – uma hora a menos que no Brasil). E foi amor à primeira vista. Apaixonei-se pela cidade! Repleta de praças bem cuidadas e arborizadas, lindos prédios e largas avenidas...
Após um breve descanso no Hotel Principado de Astúrias, fomos conhecer a cidade. Primeiramente, um táxi nos levou ao Parque Arauco Shopping Center, o maior shopping do Chile. Valor da corrida: 12 doláres.
Rápida passagem pelas lojas já nos fizeram perceber que muitos produtos são bem mais baratos que no Brasil. Vinhos e outras bebidas podem ser encontrados a preços excelentes em mercados. Aproveitei e comprei um combo de Amarula grande e pequena por menos de US$15, ou seja R$28,00, enquanto que aqui no Brasil apenas a pequena sai a R$35,00. Quanto à alimentação em restaurantes e bares, acredito que está equiparado aos valores de Belo Horizonte.
O câmbio de dólar para pesos chilenos estava de 484 a 494. Para facilitar as contas, definimos que cada 1000 (mil) pesos seriam dois dólares, ou seja, pouco menos de quatro reais.
Muitos locais aceitam dólar, porém é importante ter pesos chilenos. Pelo que pudemos verificar, uma boa opção de câmbio é no aeroporto. Mas na Calle (rua) Moneda há várias casas de câmbio. Uma opção é o saque em caixas eletrônicos, convertidos pelo banco em real, no câmbio do dia. Porém, é importante verificar se seu banco cobra taxas por esse serviço.
Após almoço no KFC (prato de grandes pedaços de pollo (frango) com dois acompanhamentos – arroz, papas (batatas) fritas ou salada: 2500 pesos – 5 doláres, R$9,50), nos dirigimos ao centro turístico de Santiago. Mapa na mão, é fácil explorar todo o centro. Começamos pelo Mercado Central, aliás, o melhor lugar para apreciar as especialidades chilenas, principalmente frutos do mar. Construção de ferro pré-fabricada na Inglaterra e montada em Santiago em 1868, abriga barracas de peixe, como cação e salmão, baldes de ostras, mariscos, mexilhões, frutas e legumes. Recomendo “Donde Augusto”. Pratos simplesmente divinos, com bons preços.
Prosseguindo, fomos à Plaza das Armas, onde conhecemos a Catedral Metropolitana (aberta de 7h às 19h, suas principais atrações são a estátua de madeira de São Francisco Xavier esculpida no período colonial, e o Museu de Arte Sacra), o Correio Central, o Museu Histórico e a Municipalidad de Santiago. Retornamos ao hotel quando o sol se punha, ou seja, por volta das 21:15hs.
Na manhã do dia 28 saímos para um tour em Valparaíso e Vinã del Mar (45 doláres por pessoa). A caminho do litoral central, Valparaíso é o principal porto do Chile. Lá visitamos “La Sebastiana”, casa de Pablo Neruda convertida em Museu. Passagem pelo edifício do Congresso Nacional, Parque Itália, Plaza Vitória e Catedral. Viña del Mar, chamada “La Ciudad Jardin” é o principal balneário do Chile. Possui um relógio de flores, que são trocadas a cada três meses. Um dos locais de destaque é o Casino Viña del Mar, inaugurado em 1929 e durante anos um dos poucos cassinos existentes no Chile. Conhecemos o Museo Arqueológico Francisco Fonck, cuja entrada custa 2.500 pesos, ou seja, 5 doláres. Do lado de fora do museu há um moai original. A história da Ilha de Páscoa é um dos pontos altos deste museu. São mais de 1.400 peças relativas à cultura rapa-nui. Conta também com a Biblioteca William Mulloy, a maior coleção de livros, mapas e documentos sobre a ilha. Aliás, este templo literário era para ter sido construído na própria Ilha de Páscoa, mas, pela dificuldade de conservação dos documentos e, mesmo, de visitação, acabou sendo erguido em Viña del Mar.
Acredito que esse passeio, feito por agência, em ônibus, cumpre o papel de apresentar as cidades, mas deixa a desejar. A maioria dos pontos são vistos apenas pela janela do veículo e o tempo na praia é muito curto. O ideal, creio, é a ida em carro alugado, para aproveitar mais o tempo.
No dia 29, sábado, acordei acreditando que poderíamos visitar a vinícola Consiño Macul, que fica mais próxima e de mais fácil acesso que a Concha y Toro. Tamanha foi minha frustração ao descobrir que o único horário para visitação no sábado era às 11:00hs e eu havia acordado muito tarde. Mas fica a dica. O valor da entrada é 5000 pesos (ou 10 dólares), incluindo visita guiada e degustações, tendo duração de 45 minutos. A reserva deve ser feita por telefone ou e-mail (site: http://www.cousinomacul.com. Horários: Segunda a sexta-feira - 11:00 e 15:00 horas (inglês e espanhol) e sábados às 11:00 horas (espanhol).
Há, entretanto, tours para vinícolas, tais como Casablanca (famosa por seus vinhos brancos) por 105 dólares (inclui almoço e ida ao centro do turismo eqüestre) e Concha Y Toro, por 45 dólares. Cumpre lembrar que se estiver de carro, esta última dista aproximadamente uma hora e meia do centro de Santiago e sua entrada é de 6000 pesos (ou 12 dólares), devendo ser reservado por telefone ou e-mail (site: www.conchaytoro.com). Horários: segunda a domingo – espanhol: 10:30, 11:00, 12:00 e 16:00 – inglês: 10:00, 11:30 e 15:00.
Fomos, então, conhecer os demais locais históricos da cidade, tais como a Igreja de São Francisco, a mais antiga de Santiago, construída entre os anos de 1572 e 1618, que abriga a imagem da Virgem Maria, trazida do Peru para o Chile no início do século XVI.
Seguimos para o Palácio de La Moneda, que, inaugurado em 1805 para funcionar como a casa da moeda do país, tornou-se sede do governo 41 anos depois. Chegou a sofrer bombardeios em 11 de setembro de 1973. Foi no La Moneda que o ex-presidente socialista Salvador Allende, eleito em 1970, suicidou nesse mesmo dia, sendo instaurado o regime militar comandando pelo ex-ditador chileno, o general Augusto Pinochet (1973-1990). Aos fundos do palácio, há um centro cultural, onde sempre ocorrem mostras e exposições.
Em frente, a Plaza de La Constitución, tendo como uma de suas atrações a Troca da Guarda Presidencial, cerimônia realizada de 2ª-feira a sábado. Seguimos em direção ao Cerro (morro) de Santa Lúcia. No lugar de um morro árido, um imenso parque repleto de caminhos tortuosos, terraços e torres barrocas. Sua formação rochosa se eleva a 70m de altura, de onde se tem uma bela vista de toda a capital chilena. Horário de funcionamento: 8 às 21hs. Após, uma passada pela feira de artesanato que há do outro lado da avenida. Possui bons sourvenis, a preços razoáveis.
Vale a pena, ainda, ir ao Parque Metropolitano. Nele está o Cerro San Cristóbal, com 800m de altura, aonde se chega de teleférico, a Casa de La Cultura, o Observatório Astronômico da Universidade Católica, o zoológico municipal, a Enoteca e o Jardim Botânico. No topo, lembrando nosso Redentor, uma imagem de 14 metros da Imaculada Conceição. É um passeio imperdível.
Depois de conhecer boa parte de Santiago, a segurança da cidade impressiona. Lá não se vive o medo de capitais brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e até mesmo Belo Horizonte.
A capital chilena reserva espaço importante para a preservação de sua história, cultura, tradição, lazer e meio-ambiente. Ao longo de suas ruas, avenidas, parques e praças, o visitante tem a chance de mergulhar no próprio orgulho que o povo guarda pelo seu país e pela sua história.
Uma boa opção é a locação de um veículo, saindo um carro básico em torno de 40 a 50 doláres, com Km livre, lembrando que é necessária autorização para dirigir no exterior. Porém, Santiago é um lugar para ser apreciado em seus detalhes e, de preferência, com tranqüilidade.
Parafraseando o poeta chileno Pablo Neruda, o Chile é um "país delgado", podendo-se afirmar o mesmo de sua capital, plana e de proporções miúdas, o que facilita o deslocamento, inclusive a pé.
Ainda, devo contar: pasmem, aos vinte e seis anos nunca havia andado de metrô e fui fazer isso em Santiago, onde esse meio de transporte é muito eficiente, cobrindo quase todos os lugares da cidade. Valor: 380 a 420 pesos chilenos.
O valor dos ônibus é 340 pesos chilenos, mas é preciso estar bem orientado acerca de qual pegar. Os táxis costumam ser mais baratos do que no Brasil, principalmente fora dos horários de pico.
Ah, um guia é importante, mas se você estiver sem um, o Serviço Nacional de Turismo, localizado na Av. Providência, 1550, fornece mapas da cidade e dos itinerários de ônibus e linhas de metrô.
E no dia 30 chega o tão esperado dia! A ida para Ilha de Páscoa. Partimos pouco mais que nove hs, como previsto, com desembarque às 12:50hs local (duas a menos que em Santiago, ou seja, três horas a menos que o Brasil). São longas cinco horas de viagem. O conforto da aeronave, com entretenimentos como filmes, músicas e jogos ajudou bastante. Quando, da janela do avião, avistei a ponta da ilha, meu coração bateu mais forte. O pequeno aeroporto, Mataveri, tem a pista ornamentada com estátuas típicas e reserva surpresas logo na sala de desembarque, onde somos recepcionados com hei tiare (colares de seivo, a flor típica).
Levados ao hotel (Vai Moana – mar azul), na verdade, charmosas cabanas, avisaram-nos que naquele mesmo dia iríamos ter um tour, às 15hs. No horário combinado, uma simpática rapa nui chamada Ana nos levou a Ahu Akivi, grande plataforma composta por sete moai, que olham para o mar. Segundo a tradição local, o rei da ilha Hiva, Hotu Matu'a, teria sonhado que todo reino desapareceria sob as águas, matando todo o seu povo, sendo que seus descendentes somente sobreviveriam se fosse encontrada uma ilha de formato triangular que pudesse abrigá-los. Então, enviou sete navegantes para reconhecerem a terra que receberia o rei e seu grupo. Segundo alguns arqueólogos, os navegantes poderiam ter sido homenageados pelos sete moai de Ahu Akivi, os únicos na ilha que olham para o mar, justamente em direção à Polinésia. No final de sua vida, o rei dividiu a ilha entre seus filhos que formaram a base das principais linhagens e territórios da ilha. Mais tarde, Hotu Matu'a tornou-se deus da ilha e seu protetor. Dizem os nativos que se uma linha reta for traçada na direção noroeste, daria exatamente no lugar onde esteve localizada a Ilha de Hiva - que sumiu do mapa...
Seguimos para as cavernas Ana Tepahu, uma das maiores de Ilha de Páscoa. Pode-se entrar com lanternas e chegar até a outra boca a 150metros. Ainda, fomos às crateras Puna Pau, onde se esculpia a parte superior dos Moai, de cor avermelhada, que recebe o nome de Pukao (penteado típico – cabelo amarrado sobre a cabeça), sendo que eram destinados a determinados moai como sinal de nobreza, podendo pesar até onze toneladas.
O amanhecer em Rapa Nui é uma mistura de ares do Pacífico com os da fazenda. O som da passarada é variado e ao fundo ouve-se galinhas e galos e grilos cantando. Em toda parte da ilha há eqüinos e bovinos soltos, aludindo à uma época em que a liberdade era original.
No último dia do ano, logo pela manhã, iniciamos um tour pela rota dos moai, visitando Vaihu, repleta de estátuas que se encontram tombadas de cara ao solo. Ainda, Akahanga, ruínas em estado natural onde foi enterrado o primeiro rei da ilha. Após, seguimos para Ahu Tongariki, um dos maiores centros cerimoniais que existiu na ilha, com 15 moai com peso médio de 50 toneladas cada um, esculpidos no século XII. A plataforma, de quase duzentos metros, é construída em dois níveis. O primeiro, mais baixo, é um canteiro de pedras redondas cuidadosamente dispostas. Acima, a base maior, o altar propriamente dito. Foi destruído em maio de 1960 por um maremoto e recuperado por uma empresa japonesa de construção de gruas que viu nas estátuas gigantescas o melhor meio para fazer publicidade de seus produtos. Apenas uma das figuras está com o pukao. Mas é possível que um dia, todas elas estiveram cobertas. Ao lado do altar, encontramos vários blocos de rocha vermelha e porosa. São os pukaos dos outros moais.
Seguimos para a cratera do vulcão Rano Raraku, conhecido como “fábrica dos moai”, onde os antigos rapa nuis esculpiam, com pedras pontiagudas de basalto, muito farto na ilha, as gigantes estátuas a partir da rocha do vulcão. Nela é possível apreciar os diferentes estados de construção dos moai. O maior deles, Paro, ainda continua sem desprender-se da base, com 22 metros e um peso próximo de 200 toneladas. O moai Tukuturi, que supõe-se ser o mais antigo da ilha, chama a atenção por ser diferente dos demais. Atarracado e com pernas dobradas, é o mais parecido com a figura humana.
Os tamanhos dos moai são diversos e não existem duas estátuas iguais, embora sejam esculpidas no mesmo feitio estilizado: têm a sua base ao nível da cintura, com braços rígidos pendentes e mãos estendidas com longos e finos dedos, sobre um abdômen proeminente. As cabeças são alongadas e retangulares, com grandes e pontudos narizes, pequenas bocas com lábios finos, queixos salientes e os lóbulos das orelhas alongados.
Debaixo de alguns moai foram encontradas tumbas individuais e coletivas.
Segundo os nativos, nos altares os moai representariam o Mana, espíritos de chefes e sacerdotes ancestrais, e eram erigidos na terra de cada clã tribal, que eles protegeriam, razão pela qual quase todos olham para o interior da ilha. Os sábios estudavam os astros e lhes indicavam o que deveriam fazer: quando deitar as sementes, quando zarpar para apanhar bom peixe ou quando acasalar. Eram também os sábios que decidiam que clã, ou grupo de famílias, dedicar se à agricultura, qual deveria ser pescador ou qual deveria ser construtor de estátuas.
Até hoje funciona na Ilha de Páscoa um conselho de anciãos que participa e opina sobre a política local. Entre outros, os “velhinhos” não permitiram a construção de um resort em Anakena.
Os moai eram esculpidos inicialmente pelo rosto e deitados no leito de lava do lado de fora da cratera. Depois, suas costas eram separadas da rocha, e estavam prontos para ser transportados. Nos seus devidos lugares, as estátuas erguidas num ahu (altar), numa cerimônia chamada “Abertura dos Olhos”, ganhavam olhos, com incrustações de coral e pupilas negras de obsidiana (um tipo de vidro natural, produzido por vulcões quando a lava esfria rapidamente), que ativava o poder.
Na frente das plataformas, um círculo de pedras desenhado no chão indica o local onde ocorria um dos rituais mais importantes da cultura local: a evocação dos espíritos dos sábios mortos.
Com o tempo, começaram a surgir lutas pelo poder. Clãs que não tinham poder começaram a insurgir contra o fato de o poder estar sempre nas mãos dos mesmos clãs, já que era hereditário. Os moai, então, deixaram de representar os mana, mas sim o poder de cada clã. E foi assim que foi crescendo em altura e em peso (os mais antigos, que datam do século VIII, têm altura média de cinco metros e são mais naturais, enquanto que os mais recentes, do século XIII, chegam a ter mais de vinte metros e ao smais estilizados). Cada clã que governava queria deixar um moai maior do que o moai do clã anterior...
Bem, uma coisa é certa. Não é possível relatar com exatidão a sensação de estar defronte de uma dessas estátuas. Têm sempre no rosto a mesma expressão e parecem vigiar os horizontes desde todos tempos, com olhar distante e sereno. Colossais, imponentes, insondáveis... A visão destes monumentos míticos emoldurados pelas águas azuis do Pacífico e por penhascos é quase divina.
O grande mistério de Rapa Nui sempre foi como as estátuas foram levadas até seus respectivos ahus, a Km de distância. Para os rapa nuis, os moai levitavam devido a um fantástico poder mental (mana).
A ausência de árvores chama a atenção e pode comprovar a teoria de que eram utilizadas para a confecção de guindastes ou para deslizar as estátuas sobre seus troncos. Os mais velhos ainda falam de como as estátuas “andavam”, “caminhavam” pela ilha.
A teoria mais aceita atualmente é a seguinte:
Faziam por debaixo do gigante uma quilha e, uma vez terminado, o amarravam a fortes estacas com cordas, onde grupos de homens seguravam as pontas. Soltavam-no por baixo, deixando-o descer pelas encostas da pedreira, em um corredor de pequenas pedras previamente construído, até uma cavidade especial ao final do corredor. Controlavam sua velocidade de queda através das cordas. Ali a estátua aguardaria o posterior transporte, ereta e apoiada na cavidade. Também neste ponto receberia os acabamentos finais, a exceção dos olhos.
"...A Teoria de Transporte de Moais de Pavel-Pavel é baseada na tradição oral rapanui. Ainda hoje podem ser escutadas estas lendas que afirmam que os Moais caminhavam, por força de um efeito mágico, desde o vulcão Rano-Raraku até o Ahu que iria locar. A teoria prevê um intricado sistema de cordas (cabos de fibras trançadas) amarradas na cabeça e na parte inferior do Moai. Várias pontas de cordas ficariam soltas. Dezenas de pessoas formariam dois círculos concêntricos em torno do Moai ereto. Cada grupo de várias pessoas ficaria responsável pela sua respectiva ponta de corda. De forma sincronizada e com grande organização, com a ajuda do sacerdote, seus cânticos e a energia mana, ao som de hinos especialmente feitos para esse trabalho, alguns grupos, puxando as cordas, se preocupariam em inclinar o Moai lateralmente e os demais grupos forçariam o avanço frontal do lado levantado. Em uma nova fase inclinariam para o outro lado e mais um avanço frontal. Com isso o Moai se deslocaria alguns centímetros gerando a impressão de que o gigante estaria andando. Este procedimento, repetido inúmeras vezes, garantiria a viagem do Moai da pedreira do Rano-Raraku até seu respectivo Ahu, onde este estivesse na ilha. Em outras palavras, os Moais eram transportados usando a mesma técnica que uma dona de casa utiliza para deslocar sua geladeira de um canto ao outro da cozinha. Em meados da década de oitenta (deste século), Pavel-Pavel testou sua teoria utilizando vários voluntários selecionados na própria ilha e obteve sucesso. Todo o evento fora supervisionado pelo antropólogo Thor Heyerdahl."
"...Em relação a colocação dos Moais em cima dos Ahus, o processo era ainda mais simples: A estátua "caminhava" até seu Ahu, coberta de junco e toda amarrada por cordas, ereta por ação dos Hanau-eepe transportadores. Ao chegar defronte ao Ahu que iria locar, davam meia volta, deixando agora a estátua de costas para o Ahu, contudo bem próxima. O próximo passo era deitar o Moai com a barriga para baixo. Se o Moai possuísse Pukao, este era então amarrado na cabeça da estátua neste momento. Continuando, várias toras de madeira eram usadas como alavancas. A cada centímetro levantado, pedras pequenas seriam colocadas embaixo do Moai. Esta operação era repetida até que o Moai ficasse na altura do Ahu, com uma pequena montanha de pedras debaixo de sua barriga. A partir de então, outras pedras eram colocadas embaixo do Moai fazendo com que o gigante rotacionasse de noventa graus ficando novamente ereto, agora em cima do Ahu. Uma vez desamarrado e com os juncos retirados, a estátua estava pronta para receber os olhos e a Cerimônia para Entronização de seu Mana."
Um importante local é Te Pito Kura (umbigo do mundo), uma pedra altamente mineralizada (ao colocar-se uma bússola sobre a pedra, ela não consegue encontrar o norte, rodando tresloucada) onde os sábios colocavam as mãos para recolher as energias necessárias.
Após o almoço, chegada em Anakena, a única praia própria para banho, com suas areias finas, proporcionam segurança aos banhistas, diferente das outras praias, repletas de enseadas rochosas e fortes ondas.
Foi na praia de Anakena, diz a lenda, que começou a colonização da ilha, pelo rei Hotu Matu’a. Datações radiocarbônicas (método EMA (Espectrometria de Massa com Acelerador)) – obtidas através de amostras de carvão e de ossos de golfinhos – que serviram de alimento para seres humanos – extraídas das mais antigas camadas arqueológicas, oferecem prova de presença humana na praia de Anakena, estimando-se a primeira ocupação em Páscoa em algum tempo antes de 900 d.C.
Lá está um belo grupos de moais, o Ahu Naunau, que dizem representar a família do ariki (rei).
Há, ainda, a praia Ovahe, muito bonita, com areia rosada e boa para mergulho recreativo.
Acreditávamos que à noite seria apenas sair do hotel e procurar um lugar para passar o reveillon. Decidimos ir para o “restaurante da brasileira”, que, dizem, estaria “bombando”. Um casal de conhecidos mineiros, atualmente residentes em Santiago, nos informaram que já haviam ligado para lá, mas não havia mais vagas. O valor era US$100 por pessoa! E assim foi em todos os outros restaurantes. O valor mais em conta era US$60, mas também não tinha vaga. A solução foi procurar qualquer lugar que tivesse uma mesa e algo para beber. Mas isso também não era tão simples. Muitos locais estavam lotados. Fiquei sem saber de onde surgiu tanta gente! Acabamos ficando em um pub da rua principal, muito charmoso e com uma piña colada deliciosa... Uma noite muito agradável...
No primeiro dia do ano de 2008 fomos brindados com uma visita ao centro cultural de Orongo, que possui uma linda vista para 3 ilhotas: Motu Kao Kao, Motu Iti e Motu Nui. Situa-se acima da cratera do vulcão Rano Kao, a 300 metros sobre o nível do mar. Era onde se realizava a cerimônia do homem pássaro ou Tangata Manu, numa segunda fase na vida da ilha, por volta do século XV. O centro político religioso se mudou para essa aldeia. Ali há 53 casas que formavam a aldeia e milhares de pinturas rupestres, com imagens de Tangata Manu, do deus criador Make Make e de Komari (símbolo da fertilidade).
Com as desmedidas exigências de construções dos moai, um excessivo aumento da população, que chegou em quase 15.000 habitantes, uma combinação entre a super exploração do meio ambiente e catástrofes naturais, como prolongadas secas, conduziu a uma ampla crise ambiental, cultural e social.
A falta de árvores, devido ao transporte dos moai, a construção de canoas e derrubamento para abrir espaço para as lavouras, levou à erosão e ao esgotamento das fontes de alimento. Significou que não puderam fazer mais canoas, o que restringiu a pesca em alto mar. Sem canoas, não podiam locomover-se para outras ilhas. Os Rapa Nui se encontraram prisioneiros num meio ambiente que se degradava.
Todos esses fatores resultam em menos fontes de alimento. Além do que, a chuva, infiltra-se rapidamente no solo vulcânico e poroso da ilha. Há, portanto, limitação de água potável. Somente com muito esforço os insulares obtêm água suficiente para beber, cozinhar e cultivar.
Uma guerra iniciou. A terra e as aldeias inimigas foram tomadas e destruídas. Os santuários cerimoniais foram profanados e as estátuas tombadas para que estas, segundo a crença, parassem de emitir força para seus respectivos povos. Era uma luta fratricida, tendo a ilha estrado em colapso, sendo que até canibalismo existiu.
Dizem que se teve a idéia de substituir a guerra por competições. E se passou à fase do Tangata Manu, ou Homem Pássaro. As competições aconteciam em Orongo, ponto de onde os homens saltavam para o desafio de Tangata Manu Rano Kau. Era um ritual anual para o deus Make Make. No Motu Nui, a aproximadamente 1600 metros da costa, uma espécie de gaivota chamada "manutara" construía o seu ninho. Jovens selecionados dos clãs deviam passar por muitos obstáculos como: descer de um penhasco com mais de 300 metros de altura, nadar quilômetros pelo mar infestado de tubarões, apanhar um ovo do ninho de tal ave migratória, nadar de volta à ilha, escalar o mesmo rochedo e, regressando com o ovo intacto, ainda tinha que ser o primeiro a apresentar o ovo aos anciões da tribo.
Então, o novo e sagrado homem-pássaro (o mais respeitado membro da comunidade), reinaria na ilha até o ano seguinte. Pintado de branco e vermelho era coberto de regalias e obtinha privilégios econômicos para todo o seu grupo. Ainda lhe era oferecida uma virgem, também escolhida em competição.
Desta maneira, os Rapa Nui mudaram de religião, adotando um novo deus criador, Make make, e rituais baseados na fertilidade. O poder hereditário foi substituído por status adquirido.
A última cerimônia teria acontecido em 1876, quando missionários católicos proibiram o ritual.
Todo ano, acontece o festival Tapati Rapa Nui – festa que comemora uma das mais fascinantes culturas do mundo. Tapati significa semana em rapanui, mas a festa já dobrou sua duração inicial. Esse ano será realizada no período de 01 a 15 de fevereiro. Foi criada para lembrar e preservar as tradições culturais genuínas da ilha. Trata-se de uma gincana com a participação unânime das famílias que, em grupos de clãs, realizam uma série de provas para somar pontos às suas candidatas. O objetivo final é a eleição de uma jovem rainha, recordando a antiga escolha da virgem oferecida ao Tangata Manu. As equipes passam por várias provas esportivas e culturais, como a exibição de grupos de dança folclórica, concurso de pintura corporal e disputa entre artesãos na escultura de pequenos moais. Uma das provas mais empolgantes acontece nas bordas do vulcão Rano Raraku, onde jovens disputam uma espécie de "triatlon" que une a travessia a nado do lago vulcânico, voltas completas na cratera e uma corrida com pés descalços e dois cachos de bananas nas costas.
Após, seguimos em direção ao vulcão Rano Kao, cuja profunda cratera com exuberante vegetação contém um extenso lago de água coberto de totora.
Olhando para as lagoas da cratera do vulcão Rano Kau ou olhando a imensidão sem fim do Pacífico, uma coisa é certa: estar em Ilha de Páscoa é ficar longe de tudo e de todos e, de alguma forma, mais próximo de nós mesmos.
Dirigimo-nos para Ahu Vinapu, interessante arquitetura que recorda os Incas devido à perfeição dos cortes e localização das pedras. Mais adiante, Ana Kai Tangata, caverna onde os nativos se refugiaram em épocas de guerra e onde se pode apreciar inúmeras pinturas rupestres.
No dia 02 saímos para conhecer Hanga Roa, a única região habitável de Páscoa. Conta com hospital, com serviço de urgência para turistas. Possui hotéis, restaurantes, bares e serviços como correio, banco, internet, cabines telefônicas, revelação digital, Mercado Artesanal e Feira, locadoras de motocicletas (US$ 17) e veículos (US$ 60) e lojinhas. O povo brasileiro é bem visto no exterior. E quando se cita um local no Brasil, Rio de Janeiro é sempre o primeiro da lista. Átila, por ser carioca, embora, com todo seu sotaque cheio de x, afirme ser mineiro, ganhava até descontos nas compras de camisas. É estranho, mas os souvenirs de rapa nui são mais caros lá que em Santiago. Para exemplificar, uma camisa custa 10.000 pesos (20 dólares). Na principal rua, Policarpo Toro, fica o centro de informação turística Sernatur. A única igreja que existe na ilha é católica e a missa, aos domingos, pela manhã, é realizada em idioma rapa nui. Embora a igreja tenha sucumbido aos antigos cultos, é possível conferir em seu interior estátuas esculpidas em madeira daqueles deuses de outrora ao lado das tradicionais imagens católicas. No vilarejo há muitos cachorros, a grande maioria, pastor alemão. Até brincava que o que não era pastor alemão era vira-lata.
Quase nove horas da noite, resolvemos assistir o pôr-do-sol no Ahu Tahai, centro cerimonial que reúne testemunhos da cultura Rapa Nui em seu apogeu. O primeiro grupo corresponde ao Ahu Vai Uri. Em frente a esse conjunto se encontra a praça usada para reuniões cerimoniais e religiosas e restos de uma "casa-bote" (hare paenga). Contíguo a uma rampa de pedra está o Ahu Tahai. Mais adiante está o moai solitário Ko Te Riku, que possui pukao e olhos. Simplesmente o mais bonito pôr-do-sol que já havia presenciado. O cenário de mar azul pacífico e moai faziam com que aquele momento fosse inesquecível. Estendemos uma canga na grana e apreciamos a paisagem tomando Amarula. Vida difícil, viu?
Quem vai a Rapa Nui não pode deixar de contemplar as estrelas, pois ficará assombrado com a nitidez do céu de lá.
Percebemos que seria imperdoável ir à Ilha de Páscoa e não mergulhar. Lá existem duas operadoras de mergulho: Orca e Mike Rapu (mique, e não maike). A mais antiga, Orca, fora fundada por um integrante do grupo de Jacques Cousteau , que se apaixonou por uma nativa e abandonou o Calypso e seu comandante. Hoje, quem dirige a operadora é seu irmão, que se mudou para lá logo depois, na década de 60, enfeitiçado por suas histórias. A outra pertence a um mito local. Mike Rapu, nativo da ilha, foi várias vezes campeão chileno e sul americano de caça-sub. Mike participou de dois campeonatos mundiais, sendo recordista de apnéia com lastro constante, com a marca de 77m. Escolhemos a história e a simpatia dos nativos e, no dia 03, às dez da manhã, dirigimo-nos para um mergulho, através da agência Mike Rapu Diving Center, que possui excelentes equipamentos e são bem atenciosos. Apenas cinco minutos de barco e chegamos ao local. E foi ali, para mim, o momento mais emocionante dessa viagem. Quando, já dentro d´água, olhei para baixo não acreditei no que via. A água era muito, muito azul, e límpida, transparente... Eu via, com nitidez, a areia branca ao fundo. Desci e vi lindo corais, inúmeros peixes coloridos e até uma moréia! A vontade é de não subir à superfície. A sensação é indescritível. Ilha de Páscoa possui uma das águas mais claras do mundo. A visibilidade chega a inacreditáveis oitenta metros. O valor médio é de US$ 70,00, incluindo equipamentos básicos. Caso queria as fotos do mergulho, o CD, com aproximadamente 30 fotos, sai por 20 dólares.
Almoçamos no Restaurante Pea. Vimos tartarugas marinhas (tartaruga verde - Chelonia mydas) se aproximando da praia e chegavam a nadar com os banhistas. As crianças e eu delirávamos.
À noite, fomos ao show do Ballet Cultural Kari Kari, uma apresentação de danças tradicionais. É lindo, contagiante! Os próprios hotéis ligam e fazem a reserva, sendo que uma van busca o turista e o leva de volta ao hotel. Valor: 10.000 pesos ou 20 dólares.
No dia seguinte, resolvemos fazer um novo mergulho, até o moai submerso. Confesso que fiquei um pouco frustrada ao descobrir, pouco antes do mergulho, que o moai não era original. Foi afundado por uma agência de mergulho local (Orca) há três anos. Mas isso não tira a beleza do mergulho. Como era um segundo mergulho, foi feito um desconto e pagamos US$50.
A ida ao Museu Arqueológico Padre Sebastián Englert é imprescindível para compreender a cultura rapa nui. Oferece uma ampla mostra de objetos de sua cultura, incluindo olhos de moai, objeto de pesca, armas e escritas rongo-rongo, sistema de escrita dos povos da Ilha que, apesar de diversas tentativas, ainda não foi decifrado. Funcionamento: Terça a sexta-feira: 09:30 às 12:30 e 14:00 às 17:30hs. Sábados, Domingos e Feriados: 09:30 às 12:30hs. Valor: 1000 pesos ou dois dólares.
À noite, jantamos no Te Ra´ai Restaurant Étnico Rapa Nui, cujos donos são um rapa nui, casado com uma brasileira, Rose, simpaticíssima que nos recebe ao descermos do carro. É preciso reservar, pois não é todo dia que o restaurante abre. O valor é 50 dólares por pessoa, com translado. Inclui pisco (aguardente da uva), água, vinho, jantar, show de danças típicas e apresentação da cultura rapa nui, como o Kai Kai (jogo individual que consiste em formar diversas figuras entrelaçando um barbante com as mãos. A cada figura se recita uma história, um conto). Lá é preparado o Curanto, conhecido como comida típica da Ilha de Páscoa. A preparação dele segue um ritual ligado às tradições da Ilha. Os rapa nui cavam um buraco na terra e nele põem pedras aquecidas sobre as quais depositam, em camadas separadas por folhas de bananeiras, ingredientes como peixes, carne vermelha, frango, abóbora, batata doce e outras especiarias locais. Fecha-se com pedras também. Na seqüência, os nativos fazem uma festa ao redor dessa estranha panela num ritual que inclui dança e cantiga. Depois de quatro a cinco horas de cozimento, lá está nosso alimento. O tempero do peixe, porém, deve ser colocado depois. Sem dúvidas, uma experiência única.
No dia cinco, acordei um pouco triste. Era dia de ir embora. Aproveitei minha última manhã na “praia particular” próximo do hotel. Enquanto eu tomava sol, admirando o mar, uma senhora de branco, eis que é enfermeira, recolhia o lixo deixado pelos turistas. Após, sentou ao meu lado e começamos a conversar. Os nativos conhecem bem sua história e conversar com eles, no mínimo, resulta em um aprendizado ímpar. Achei interessante que quando disse que vinha do Brasil ela relatou que acredita ser um país belíssimo, mas que, sem dúvidas, sua maior riqueza era seu povo, pois o que faz um país são as pessoas, é o que um lugar tem de maior valor.
Uma dica: é necessário se organizar para não gastar muito com alimentação, que, no geral, pode sair caro. Em alguns restaurantes o preço do prato chega a mais de 30 dólares. Mas há até fast food. Para mim, o melhor restaurante da ilha é um restaurante francês no porto, ao lado das agências de mergulho. Caro, mas com ótima comida local e francesa. Indico também O bote do mundo, nome, porém, em francês, que fica próximo à orla. Para bolsas menos desprovidas, o Pea, na varanda sobre o mar, tem excelentes pratos e baratos, inclusive carne de boi, batata e ovos, para lembrar do Brasil. Seguindo a rua do Pea, há outro, à esquerda, muito charmoso e com bons preços também. Outra dica é o horário para jantar. A cozinha dos restaurantes da ilha fecha às 22hs! Após esse horário, dificilmente encontrará algo para comer. Até no fast food, depois desse horário, o máximo que conseguirá será batatas fritas. É um hábito estranho, considerando que o sol se põe depois das nove da noite... No Chile, em geral, diferentemente daqui, não há o costume de se sair para beber, bater um papo... Quando sentamo-nos e pedimos uma cerveja, por exemplo, o garçom, insistentemente, pergunta se não desejar escolher o prato...
Cumpre-se abrir um parênteses e falar do terceiro período é marcado com a chegada de Europeus e o batizar de Rapa Nui em Ilha da Páscoa data do Domingo de Páscoa de 1772, quando o Almirante holandês Jacob Roggenven desembarcou na Ilha.
A partir de 1774 os europeus passaram a visitar a ilha continuamente. O capitão de um barco que ancorou em 1830 descreveu os nativos locais como: “de pele acobreada, atléticos, altos e bem feitos. Não vi nenhum (homem) com menos de 5 pés de estatura e medi um que tinha 6 pés … As mulheres e alguns homens têm a pele mais clara. Seus corpos são mais longos e os quadris mais estreitos do que os das européias; mas seus membros, pés, mãos, olhos e dentes são bem feitos e bonitos. Os homens também têm boa dentadura… Da cintura para baixo, pela frente e por trás, as mulheres são mais atraentes e muito bem tatuadas…”
Porém, o impacto da presença de “homens do outro lado” entre os primeiros habitantes de Páscoa foi o mesmo de tantas outras expedições européias: doenças e escravidão , culminando, em 1872, no mais baixo índice populacional da história do lugar, que ficou com apenas 111 ilhéus. Em 1888 o governo do Chile anexou a Ilha de Páscoa ao país, mas somente em 1966 seus habitantes passaram a ser cidadãos chilenos.
O fato é que depois de sete dias na ilha já me sentia quase que moradora do local. Com dicionário rapa nui (12.500 pesos) na mão, já sabia até algumas palavras dessa língua. Com meus traços, era quase uma nativa... risos...
Por tudo que vi, posso afirmar: este lugar é mágico! A imagem da natureza selvagem e os aspectos ainda misteriosos da cultura Rapa Nui formam um cenário impressionante e inesquecível.
Meus colegas de trabalho tinham razão ao temerem que eu não retornasse. Esta ilha encanta a ponto de desejarmos não sair dela. Mas algumas coisas me fizeram retornar: família, amigos, trabalho e o fato de, como diz um amigo, eu “ter rodinhas”. Ainda existem muitos lugares para conhecer. Daqui uns dias, no carnaval, Patagônia Argentina que me aguarde!
Se me perguntarem a nota, de 0 a 10, para essa viagem, pela geografia rodeada pelo Pacífico, pela cultura e conhecimento, pelas belezas naturais, pela cordialidade do povo e ótima companhia, minha resposta é 11...
Sou simplesmente apaixonada pelas belezas do Brasil. Mas ao procurar um destino, não há como não pensar no Chile. É um país de contrastes. Terra de oceanos e lagos, vales férteis e de altas montanhas; de ilhas misteriosas, desertos e litoral... de poesia e excelentes vinhos. E se pode desfrutar dessas maravilhas e ainda contar com a cordialidade do povo chileno. É um país que, com certeza, não se pode deixar passar a vida sem conhecer. E se esse ponto isolado no meio do oceano Pacífico ainda não estava no topo da lista de prioridades de destino, é bom saber que em Rapa Nui se encontra uma terra enigmática e fascinante, cheia de lendas e tradições, que fica para sempre na memória e no coração de quem se aventura a descobri-la.
Espero que essas informações tenham servido para despertar o interesse em conhecer pessoalmente a ilha, um verdadeiro museu a céu aberto, onde as luzes noturnas ainda são fracas e não ofuscam o brilho de todas as estrelas do céu; onde o McDonald's não chegou e, se depender do Conselho de Anciãos, nem vai chegar; onde a crença na força do passado ainda é mais forte do que a reverência aos estudos científicos; onde os descendentes dos nativos têm a posse legal de toda a terra livre existente, com exceção das áreas de parque, sendo vetada a venda para estrangeiros (é permitido somente o aluguel de casas e arrendamento de terra). Ah... só uma lembrança... O lugar é considerado sagrado, além de precisar ser preservado, sendo que é imprescindível obedecer a algumas regras de comportamento, como nunca subir num Ahu para tentar uma foto mais bonita, sob pena de levar um belo puxão de orelha dos guias locais.
Acho que de tanto eu dizer que não queria ir embora, os céus resolveram me dar mais um tempinho na ilha. Enfrentamos um atraso de oito horas no retorno para Santiago. Chegamos ao hotel mais de quatro da manhã do dia 06. Nesse dia aproveitamos para fazer compras de vinhos. Comprei dez vinhos, um whisky Jack Daniel´s e um pisco! Isso foi um problema no aeroporto ao descobri que a franquia era de apenas 20Kg de bagagem. Estava com 12Kg de excesso! Retirei algumas coisas e coloquei em bagagem de mão e acabamos pagando 6 Kg de excesso. Cada quilo é US$ 6... Mesmo assim, compensou, pelo valor dos vinhos... Após o embarque, percebi que, embora um pouco mais caro que nos mercados, vale a pena comprar vinhos no Duty Free ou lojas do aeroporto.
Chegamos em São Paulo pouco mais de meia-noite e, sem reservar hotel, fomos à procura de um. Depois de várias tentativas, encontramos.
No dia 07 de janeiro, no início da tarde, chegamos a Belo Horizonte e voltamos à realidade. O difícil foi a primeira manhã. Meu vizinho estava reformando o apartamento e acordei ao som de furadeiras. Desejei voltar para a paradisíaca Ilha de Páscoa...
Bem, resumidamente (risos), é isso!
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