"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Olá.
O que relato abaixo é a minha segunda experiência como mochileiro. Na verdade, completei o roteiro que gostaria de ter feito de uma só vez em 2008, passando por Peru, Bolívia e o Norte do Chile. Por limitações de ordens financeira e profissional, dividi a trip sul-americana em duas. A primeira pode ser lida aqui. O que vem a seguir é a conclusão do plano original.
Foram 11 dias na região do Atacama e no boliviano Salar de Uyuni por R$ 3,5 mil, cerca de R$ 1 mil a mais do que imaginava quando comecei a pôr a trip no papel, no fim de 2008. Em alguns itens gastei mais propositalmente, a exemplo da hospedagem e do passeio a Uyuni. Além disso, só com passagens aéreas torrei R$ 1,7 mil – fazer um trecho terrestre ou comprar as passagens pela Lan Chile, seguindo dicas de colegas do fórum, pode reduzir consideravelmente o orçamento. Acho perfeitamente possível fazer a mesma viagem por R$ 2,5 mil, com um pouco menos de conforto.
As fotos estão no álbum do Picasa. Apareçam lá. Dito isso, adelante.
[t3]26 DE MAIO, TERÇA-FEIRA - AEROPORTOS[/t3]
Saí de Blumenau rumo a Florianópolis aproveitando carona com um amigo de longa data, o Ricardo Pimenta, que por coincidência é irmão da Júnia, aqui do mochileiros. A família Pimenta está sempre colaborando com minhas mochiladas. Cedinho, o Ricardo me deixou no Aeroporto Hercílio Luz. O voo, pela TAM, decolou às 6h20min. Cheguei em Guarulhos às 7h30min e 8h30min saiu a conexão para Santiago, também com a TAM. São quase quatro horas de viagem. O Chile tem uma hora de atraso em relação ao horário de Brasília.
Fiquei no aeroporto Arturo Benitez até 16h15min, quando saiu o voo da LAN para Calama. Cheguei às 18h25min. Havia reservado o transfer Licancabur pela internet. Custa 16 mil pesos, ida e volta. Se adquiridos separados, cada trecho sai por 9 mil. A viagem de micro-ônibus até San Pedro de Atacama dura pouco mais de uma hora. Deixaram-me na porta do hostal.
Escolhi o Hostal El Monte depois de ler os relatos do Michel e da Carla. Era exatamente o que procurava. Um lugar aconchegante, com gente simpática e prestativa. Reservei tudo pelo email elmonte@sanpedroatacama.com. Não foi necessário pagar nada adiantado. O casal de proprietários, Ester e Félix, é fantástico. O desayuno é ótimo e, quando você precisa sair cedo para algum tour, deixam tudo pronto num saquinho daqueles de pão. Te tratam como se fizesse parte da família.
Paguei 18 mil pesos por diária. Eram 20 mil, mas chorei desconto. Acabei ficando no melhor quarto, com cama de casal e tudo. As cobertas são muito boas e o chuveiro, bem quente. Tem um computador com internet e wi-fi nos quartos. O ponto fraco do El Monte é a localização. Fica depois do cemitério, a uns 10 minutos de caminhada da Calle Caracoles, por ruas mal iluminadas. Por isso, acabei achando uma opção cara. Mas recomendo, principalmente para casais.
Cheguei podre de cansado e decidi dormir. Jantei algumas bolachas e barras de cereal e deixei para conhecer San Pedro à luz do dia.
[t3]27 DE MAIO, QUARTA-FEIRA - VALLE DE LA LUNA[/t3]
Depois do café da manhã, fui caminhar no centro. Enquanto zanzava e conhecia os lugares sobre os quais todo mundo fala aqui no fórum, confirmei o passeio a Uyuni com a Cordillera para o dia 1º, por US$ 150. Já havia reservado pelo e-mail ctravelersanpedro@123mail.cl. Almocei em uma lanchonete, acho que na Calle Tocopilla. Por 3 mil pesos, comi arroz, tomates e um filé de frango. Há muitas opções baratas nas quebradas de San Pedro. Depois, sentei numa choperia da Caracolles onde a galera estava se reunindo para assistir a Barcelona e Manchester, final da Liga dos Campeões. Não deu pra ver o jogo, mas tomei meio litro de Cristal. Também por influência do Michel e da Carla, escolhi a Maxim Experience para comprar os demais passeios. O primeiro deles foi o Valle de La Luna (6 mil pesos + 2 mil de entrada), que saía às 15h.
O pessoal da Maxim vai junto no ônibus da Colque, bem confortável. O passeio é interessante, mas confesso que não fiquei deslumbrado com o pôr-do-sol. Achei o Valle de la Muerte mais bonito e inspirador. Outra: achei a parada nas Três Marias totalmente dispensável. Há formações rochosas semelhantes por todo o Atacama. Pior: as Três Marias são, na verdade, Duas Marias. A terceira caiu.
Na Calle Gustavo Le Paige, há uma banca de frutas. Comprei maçãs e bananas e voltei para o El Monte. Comi frutas no jantar e guardei outras para a trip de bike que faria no dia seguinte.
[t3]28 DE MAIO, QUINTA-FEIRA – BICICLETA[/t3]
O passeio de bicicleta foi uma dica providencial do PauloMotta. Peguei praticamente todas as informações no relato do Leo. A H20 é realmente uma excelente agência. Dão equipamentos para consertar pneu, cadeado mapa e sugerem rotas de acordo com teu tempo e fôlego. Gastei 5 mil pesos por um dia inteiro com a bicicleta. Saí lá pelas 9h30min rumo à Pukara de Quitor (2 mil de entrada). A ruína não é muito conservada, mas é legal. Depois, dei um pulinho na Cueva, que fica ao lado. Não fui muito adiante porque fiquei cabreiro de largar a bicicleta ali.
Segui viagem até a Quebrada del Diablo, a oito quilômetros de San Pedro. Antes de chegar, é preciso atravessar um riozinho de águas gélidas. Meus pés doeram. Esperei eles secarem enquanto fazia um lanche. Depois de quase meia hora percorrendo os paredões da quebrada, chega-se ao pé de uma montanha. Fiquei ali um bom tempo, curtindo o silêncio e o visual marciano. Não existia outra alma nas redondezas. Subi a montanha, até avistar o Licancabur do outro lado. Resolvi voltar porque estava com medo de deixar a bicicleta sozinha, mesmo que cadeada. Já pensou ter de voltar a pé?
Queria ir até Catarpe, que fica quatro quilômetros adiante. Cheguei a percorrer um bom pedaço, até avistei a igrejinha de longe, só que começou a ventar e o tempo fechou. Achei por bem retornar – não sem antes quase congelar meus pés no riozinho.
Estava de volta umas 16h. O vento não parou e estava ficando cada vez mais frio. Sinal das complicações que me aguardavam nos dias subseqüentes.
[t3]29 DE MAIO, SEXTA-FEIRA – SALAR DE TARA[/t3]
O Salar de Tara era um dos tours que mais me gerava expectativa. Vi fotos ótimas antes de sair do Brasil. O chato é que paguei 35 mil pesos e não consegui concluir o passeio. O vento do dia anterior continuou e arrastou nuvens bem feias para perto das montanhas. Mal dava para ver o topo do Licancabur desde San Pedro. O Victor, competentíssimo guia da Maxim e que ficou todo orgulhoso quando eu disse que ele era recomendado no mochileiros.com, olhou para aquilo e disse: “teremos muito vento”.
Duas garotas, uma espanhola e uma chilena, me acompanharam no tour. A primeira parada já foi aos 3,8 mil metros de altitude. Para se ter uma idéia, San Pedro fica a 2,4 mil. Com a pedalada do dia anterior, eu estava bem ambientado. Mas as gurias... Vinte minutos depois, uma delas passava muito mal. Paramos duas vezes para que vomitasse. Seguimos adiante, conhecemos uma laguna, que não anotei o nome, onde até 5 mil flamingos se aglomeram no verão.
O vento jogava areia no pára-brisas do carro com uma força impressionante. Filmei umas vicunhas correndo a toda ao lado do carro. Podem chegar a 60 km/h. De volta à estrada, olhei para o lado e vi uma nuvem assustadora, escurona. Perguntei ao Victor: “Aquelas nuvens trazem chuva?”. A resposta: “Não, trazem neve”.
A última parada do passeio foi diante dos monges, formações rochosas que ficam em um deserto anterior ao Salar de Tara. Estávamos no alto de uma colina, acima dos 4,5 mil metros. As duas gurias estavam vegetando dentro do carro. Até eu estava com uma dor de cabeça de matar. Enquanto o Victor nos explicava por onde passaríamos, uma rajada de vento fortíssima levantou areia lá embaixo. Perguntei se conseguiríamos sair do carro para almoçar e ele deixou bem claro que o vento estaria casca para aquelas bandas e que, provavelmente, ficaríamos o resto do passeio dentro do veículo. Tomamos a difícil decisão de retornar. As tais nuvens que trariam neve chegaram. A primeira nevasca da minha vida.
Dormi um pouco no El Monte até passar a dor de cabeça. À tarde, resolvi almoçar num restaurante legal, o Casa de Piedra (6 mil o menu). Além deste, recomendo o Casa Adobe, que tem quase o mesmo preço. Os pratos são incrivelmente bonitos. À noite, é ainda mais legal lá dentro, com direito a fogueira.
[t3]30 DE MAIO, SÁBADO – VALLE DEL ARCOIRIS[/t3]
Para o dia seguinte, havia planejado ir às lagunas altiplânicas. Mas o temporal ainda estava afetando o clima, então a Maxim me sugeriu ir ao Valle del Arcoiris, que fica num cânion, onde o vento não atrapalharia. As duas garotas do dia anterior aceitaram a mesma sugestão da agência. Este passeio custa 20 mil pesos. É um lugar divino, com belíssimas paisagens, animais e petroglifos. Chama-se Valle del Arcoiris porque as montanhas apresentam cores inusitadas. Segundo o Victor, que voltou a nos guiar, erupções vulcânicas antigas trouxeram à superfície diferentes tipos de argila, provocando a coloração. As formações rochosas deste passeio põem no chinelo Las Tres Marias.
Fizemos um lanche de frente para um paredão muito louco e, no retorno, paramos para conhecer algumas inscrições arqueológicas dos antigos atacameños. Este não é um tour longo, chegamos a San Pedro às 14h. Depois de almoçar, fui ao museu Gustavo Le Paige (apenas legal) e perambulei por algumas lojinhas de artesanato. Há uma muito boa quase em frente ao museu, ao lado da agência bancária.
[t3]31 DE MAIO, DOMINGO – EL TATIO E LAGUNAS[/t3]
Quatro da manhã e o El Monte fervilhava. Todos os hóspedes fariam o passeio a El Tatio, incluindo o casal de paulistas Felipe e Débora, com quem compartilharia a trip pelo Salar de Uyuni. A Maxim me cobrou 13 mil pesos por esse tour. Estava bem frio, mas vou dizer uma coisa: há um pouco de exagero nos relatos. Alertado por eles, caprichei na proteção.
Usei calça x-thermo da Solo, calça de moleton bem quente e jeans grosso por cima. Na parte superior, camiseta dry fit, camisa de algodão de manga longa, blusa de moleton, blusa de lã e o Conquista Chamonix que comprei para esta viagem. Ainda tinha um gorro de lã simples e luvas Solo. Estava bem agasalhado. Por isso, mesmo com -8 ºC o frio que senti era perfeitamente suportável. E olha que sou bem friorento! Então, o esquema é o seguinte: dê atenção aos exageros. Preparar-se bem para este passeio é essencial para curti-lo.
Observar o fenômeno é sensacional. Neste dia, não havia grande atividade e os espirros d’água estavam bem baixinhos. Mas quando o sol começou a lamber as montanhas, a luz, o vapor e a abundância de cores da paisagem me deixaram boquiaberto. Dica providencial: proteja tua câmera do frio. Minhas pilhas descarregaram por causa dele e fiquei sem fotos durante o resto do dia.
Na volta, tem uma parada em Machuca, um pueblo no meio do nada. De interessante, a igrejinha e uma pastagem de lhamas. E só.
Depois do almoço, em San Pedro, seguimos para o passeio que mais me surpreendeu e pelo qual paguei 10 mil pesos. Lagunas Cejar e de Piedra, Ojos del Salar e Laguna Tebinquiche. A primeira só se passa ao lado, de carro. A laguna salgada onde o povo costuma tomar banho é a Laguna de Piedra. Era outono, então alguns poucos aventureiros foram para a água. Lembram que disse ser friorento? Pois é.
Os Ojos del Salar são assustadoramente bonitos. Profundos, azuis e que formam um espelho d’água ótimo para fotografias. Mas ainda havia o gran finale, a Tebinquiche. Trata-se de uma laguna relativamente grande que banha um pedacinho do Salar de Atacama. De um lado, vê-se um pouco da Cordilheira de La Sal. O sol se põe atrás das montanhas e lança raios que vão do amarelo ao vermelho. Do outro lado, vulcões amarelados pelo pôr-do-sol estão refletidos na água. Não lembro de outro poente tão perfeito. Sentei sobre um bloco de sal e fiquei estático, embasbacado.
Este passeio toma o mesmo tempo que o Valle de la Luna. Sai às 15h e retorna lá pelas 20h. Se você precisar escolher entre um dos dois, nem pense duas vezes. Vá para as lagunas. É emocionante e muito menos concorrido.
[t3]1º DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA - SALAR DE UYUNI[/t3]
O Salar de Uyuni representava a grande razão da minha viagem. Todo o Atacama, na minha cabeça, era acessório. Por isso, resolvi investir para que tudo ocorresse bem. Escolhi a Cordillera depois de ler muito sobre o assunto. Não me importei em pagar mais caro (US$ 150) porque encontrei na reputação desta agência a segurança que procurava. O passeio foi estupendo e, mesmo em uma situação de adversidade, senti que os responsáveis estavam minimamente preocupados com as pessoas que os contratavam.
Ainda sobre o preço, quando for escolher a agência procure saber se estão incluídas as taxas de entrada na Bolívia e no parque nacional onde está o salar. Não precisei pagar nada disso. Além disso, informe-se sobre a alimentação. A reclamação mais frequente nos relatos é quanto à comida. Na minha trip, ela era de qualidade satisfatória e em quantidade suficiente para matar a fome de todos. Duas dicas: leve água e papel higiênico. Sim, eles cobram 2 bolivianos pelo papel em todos os lugares. Ridículo.
Havia 11 pessoas no ônibus quando saímos de San Pedro. Tenha contigo aquele formulário que se recebe quando da entrada no Chile. A imigração é feita ainda em San Pedro. Passaportes carimbados, subimos pelo mesmo caminho do Salar de Tara, passando ao lado do Licancabur. O lugar onde se oficializa a entrada em território boliviano é uma piada, caindo aos pedaços. Troquei pesos chilenos por bolivianos ali mesmo.
A agência oferece desayuno logo ao lado, onde monta uma espécie de QG. Tinha pão, presunto, queijo e uma geleia. Podia-se escolher entre café, achocolatado e alguns chás, inclusive mate de coca. Todos alimentados, chegou a hora de subir as bagagens nos jipes 4x4. A Cordillera, como todas as agências, tem carros bons e carros muito ruins. O modelo mais comum no salar é o Toyota Land Cruiser, daqueles mais antigos, com capacidade para seis passageiros.
No veículo mais inteiro embarcamos eu, o Felipe, a Débora, um casal de franceses gente boníssima e um terceiro francês. No outro carro, que tinha os bancos arrebentados e perceptivelmente pendia para o lado direito, foram dois ingleses, dois australianos e outra francesa. A divisão foi feita pela própria agência, não sei baseada em quais critérios, mas deu certo. Nosso carro era uma festa, com música alta, dancinhas e um entrosamento bem legal. O dos gringos era, por assim dizer, mais britânico.
No primeiro dia, as paradas são nas lagunas Branca e Verde (linda), no Deserto de Dali (apenas legal) e nas termas. Não consegui entrar na água, o frio era de tiritar.
No roteiro que a agência me enviou por email, deveríamos almoçar na rua, logo em seguida. Mas fomos direto aos gêisers Sol da Mañana. Na boa, não dá para dizer que são parecidos com El Tatio. Para começar, eles não espirram água, mas argila e enxofre, exatamente como uma cratera vulcânica. O efeito visual é distinto, além de ser bem mais perigoso. Há risco de erupções maiores.
Por último, avista-se a Laguna Colorada. Estava bem vermelha quando chegamos, só que fomos direto ao alojamento para almoçar. Já eram quase 16h. O vento estava bem forte. Apenas os 11 turistas da Cordillera ficaram naquele refúgio, que não tem chuveiros.
A primeira refeição foi de meter medo. Para 11 pessoas, vieram uma panela de purê de batata, 11 salsichas e uma saladinha que mal serviu a todos. “We are in a concentration camp”, brincou um dos britânicos. Saímos da mesa não completamente saciados. Felizmente, foi só a primeira impressão. Uma hora depois, nos chamaram para tomar um chá com bolachas e, lá pelas 19h, veio o jantar, bem servido. Primeiro, sopa e pão. Depois, macarrão e molho de tomate com cebolas. Arriscamos pedir para que nos servissem mais chá em seguida. E não é que atenderam? Esquentaram mais duas térmicas. Ficamos em volta do fogo conversando e bebendo chá.
Fazia cada vez mais frio, ventava muito lá fora. Aluguei um saco de dormir daqueles bem grossos por 2 mil pesos chilenos. Pernoitamos num quarto com seis camas, sendo uma de casal. Dormi protegido pelo saco de dormir, mais as cobertas. Não senti frio e, quer saber? No meio da noite, tirei as meias e as luvas. Só na manhã seguinte ficaria sabendo que a temperatura bateu os -15 ºC.
[t3]2 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA - SALAR DE UYUNI[/t3]
Tomávamos café enquanto os motoristas preparavam os carros. Precisam botar um líquido anticongelante no radiador. Uma garrafa d’água que estava dentro de um dos veículos congelou. Saímos às 8h em direção à Laguna Colorada. Ela fica a cinco quilômetros do alojamento, não dá para ir andando. Pode ser perigoso. Por ser outono, havia somente dois grupos de flamingos na água. Suficiente para quem nunca tinha deparado um visual daqueles. A laguna não estava muito vermelha àquela hora da manhã. A coloração depende do vento, que começa pra valer depois do meio-dia. Em algumas partes, estava bem marrom. Até confundia com a areia das montanhas. Quando estávamos quase indo embora, o Felipe achou um ovo de flamingo abandonado. Naquele frio, o bichinho já era.
Conforme avisou o Javier, motorista dos britânicos, o caminho do segundo dia é o mais longo e esburacado. Depois da laguna, fomos para o Deserto de Silioli, onde está o Arbol de Piedra. O lugar é lindo, o que estraga é a quantidade de gente. Sério, só consegui fazer uma foto decente do negócio quando faltavam cinco minutos para sair. O povo é muito sem noção. Teve um israelense que subiu no Arbol, obrigando todos a incluir ele no enquadramento.
Depois, vêm as lagunas Honda, Chiarkota, Hedionda y Cañapa. Cada uma com um visual diferente. Almoçamos ao lado de uma parede de rocha, para evitar o vento, diante da Chiarkota. Os motoristas montaram uma mesinha de pedras, onde puseram toalha e a louça. Eles trazem a comida preparada do alojamento e apenas organizam o esquema. Comemos macarrão e salada, com refrigerante e suco. Havia bastante para todos, novamente.
Detalhe: os motoristas não são muito higiênicos no manuseio da comida. O Felipe viu o estado das mãos deles quando preparavam a salada. Ainda bem que não vi. Detalhe 2: uma biscatcha curiosa ficou rondando nossa mesa. O Javier pôs umas cascas de pepino numa pedra e ela veio comer bem na nossa frente, a danada.
A última visita do dia é o Salar de Chiguana, que avistamos do alto e depois passamos no meio dele. Comparado a Uyuni, é pequeno. Chegamos ao pueblo de San Juan, onde fica o hotel de sal usado pela Cordillera. Primeiro, paramos numa vendinha para comprar água, cervejas e outros mantimentos essenciais.
Um esclarecimento necessário: este NÃO É O HOTEL DE SAL QUE FICA NO MEIO DO SALAR. Aquele está desativado, não recebe hóspedes porque está localizado no meio de uma reserva nacional. O hotel da Cordillera tem base de pedra, mas tijolos, piso e móveis são de sal. Muito bonito por dentro, horrível por fora. O importante é que é bem vedado e tem chuveiro com água quente. Há dois quartos de casal e os demais são duplos e triplos.
Sentamos todos à mesa, bebemos chá com bolachas e jantamos. Não consigo recordar o que comemos naquela noite, mas lembro bem que nos foram oferecidas duas garrafas de vinho chileno. Um mimo da agência.
[t3]3 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA - SALAR DE UYUNI[/t3]
O terceiro dia começou tenso. Logo após o desayuno, Javier e Pablo nos chamaram do lado de fora, onde preparavam os carros, e avisaram: “Temos um problema”. Sindicatos de Uyuni fecharam os acessos à cidade e ao salar em protesto contra a demora na pavimentação de duas rodovias da região. Na Bolívia é assim. Se algo não sai como o previsto, bloqueio neles. Felizmente, Pablo nasceu nas redondezas e conhecia algumas quebradas para se chegar ao salar. Foi uma viagem nervosa. Só relaxamos quando ele deu um soco no volante e comemorou: “Estamos dentro!”.
Aí foi só alegria. Fizemos uma parada onde o motorista-guia nos explicou como se formou aquele mar de sal absurdo e começamos a fazer as tradicionais fotos em perspectiva. Só que aí surgiu um segundo problema. Javier (cuidado, há três Javiers que trabalham na Cordillera. Este é um bem jovem e baixinho) havia passado a noite na farra. E continuava bebendo cerveja durante toda a manhã. Resumindo a história: o cara estava dirigindo bêbado e se perdeu. Avistamos o carro passando ao longe e fomos atrás. Por causa das idas e vindas de Javier, fomos parar em outra ilha que não a Isla del Pescado. Tudo bem, ela era muito bonita também, mas com menos cactos.
Chegou uma hora em que Javier estava sem condições. Pablo - que também não era nenhum santo, havia acompanhado a noitada com o amigo -, teve uma conversa com ele. Prepararam o almoço ali na ilha mesmo e descansaram um pouco. Enquanto isso, fomos explorar o lugar, que tem uma vista linda do cume, onde fincaram uma bandeira boliviana.
Após o almoço, que teve filé de frango, salada e batatas, se não me engano, seguimos salar adentro. Fizemos uma parada bem longa, com muitas fotos, música e dancinhas ridículas. Depois, visitamos o hotel de sal desativado. O lugar é interessantíssimo, mas as pessoas que ali trabalham, vou te contar, que má-vontade!
Pelo celular, os motoristas descobriram que o bloqueio estava bem forte. Havia a possibilidade de se conseguir uma janela de passagem perto das 18h. Ficamos dando um tempo no hotel. O frio começava a apertar. Não sei por que cargas d’água Pablo e Javier decidiram arriscar mais um atalho. A ideia durou menos de 500 metros. Por causa do desvio anterior e das trapalhadas de Javier, ficamos sem gasolina. Uns 20 minutos depois, retornaram do hotel com mais combustível.
Conseguimos despistar o bloqueio em um primeiro pueblo, que fica antes de chegar em Uyuni. Só que quando estávamos bem pertinho da cidade, vimos carretas atravessadas. Aí o Pablo concluiu que deveria inventar um caminho novo pelo meio do deserto. Conseguiu atolar o 4x4. Tentamos tirá-lo de lá duas vezes. Não deu. Nisso chegam uns 20 piqueteiros enfurecidos. Encheram o saco dos motoristas, mas mal dirigiram a palavra a nós, turistas. Teve uma hora em que um grupo de mulheres e crianças invadiu nosso carro. Sorte que havíamos tirado nossas coisas de dentro minutos antes.
Desatolaram o veículo e nos levaram ao bloqueio, onde apreenderam os carros. Fomos liberados para caminhar até a cidade.
Chegando lá, descobrimos alguns fatos importantes. Primeiro: o bloqueio começara havia quatro dias. Alguns turistas estavam presos na cidade durante esse tempo todo. Segundo: o prefeito do departamento de Potosi, do qual Uyuni faz parte, viria negociar com os manifestantes naquela noite. Terceiro: o escritório da Cordillera estava fechado, assim como quase todos os estabelecimentos comerciais de Uyuni. Ordem dos sindicatos. Quem abre, leva multa (?!).
Os turistas que não retornariam para San Pedro foram buscar hospedagem por conta própria. Os hostels estavam bem cheios. Pablo e Javier ficaram comigo, Felipe e Débora até o proprietário da Cordillera chegar. O cara nos hospedou no Hostal Inti. Pagou 30 bolivianos por um quarto triplo. Também nos deu 50 bolivianos para jantarmos, afinal, tudo isso estava incluído no pacote original.
O dinheiro pagou só metade da pizza que comemos. Encontramos um restaurante onde só havia crianças trabalhando. Quando não estavam atendendo, assistiam ao Cartoon Network. Triste. Não sei se é sempre assim ou a família usava os pequenos para não bater de frente com os sindicalistas.
Por falar neles, estavam reunidos em frente ao prédio administrativo municipal. O tal prefeito de Potosi estava ali. Pelo que entendi, tudo o que ele falava na mesa de negociação era transmitido por um sistema de som ao povo lá fora. Voltamos ao hotel. Combinamos que às 21h o dono da Cordillera nos orientaria sobre o que fazer. Pois bem. Do espanhol complicadíssimo que ele falava, entendemos apenas o que queríamos ouvir. O motorista viria nos buscar às 3h e chegaríamos à fronteira chilena às 10h. O bloqueio cessara.
[t3]4 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA - SALAR DE UYUNI[/t3]
No fim, a confusão toda nos beneficiou. Tivemos chuveiro quente e dormimos num lugar não tão frio quanto o alojamento de Villamar, onde nos hospedariam na última noite. Passamos pelo lugar às 6h. As descrições negativas do pessoal do mochileiros são altamente justificáveis. Que medo!
A viagem foi bem tranqüila. Outro Javier nos levou de volta, um cara supertranquilão. Aliás, a maioria dos motoristas é assim, pelo que percebi. O caminho de retorno, bem mais conservado, é quase todo por fora do parque nacional. Só a partir da Laguna Colorada é que a rota se repete. Foi ali que eu e o Felipe começamos a sentir os efeitos da falta de segurança alimentar na Bolívia. O mal-estar estomacal me derrubou o resto da viagem. Por causa dele passei muito frio, mesmo encasacado, durante o desayuno na aduana boliviana. Engoli só um chá de boldo.
[t3]5 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA – AEROPORTOS, DE NOVO[/t3]
Eu cogitava subir o vulcão Lascar com o Felipe e a Débora nesse dia. Mas só consegui sair do hotel à tarde, praticamente sem comer desde quarta-feira à noite. Comprei bolachas e muita água. Resolvi dar um tempo na praça e depois voltei para o El Monte. Estava fraco pacas. Fiquei lendo e descansando até 20h, quando o transfer Licancabur veio me buscar. O embarque em Calama foi às 22h45min. Precisei aguardar o voo de volta em Santiago até 7h. A conexão em Guarulhos para Floripa saiu às 15h15min. No retorno, consegui carona com outro camarada blumenauense de longa data, o Vitor Cristelli. Às 18h30min estava em casa.
[t3]RESUMÃO[/t3]
Terminei a viagem cansado e mal fisicamente. Feliz, no entanto. O Norte do Chile e o Salar de Uyuni são destinos únicos, muito diferentes de tudo o que se pode conhecer na América do Sul. Se quiser embarcar nessa e precisar de alguma informação adicional, fique à vontade para perguntar. Esse relato é apenas uma devolução ínfima da ajuda imensa que encontrei aqui nos últimos meses.
Abraços!
Editado por Visitante