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Hendrik

Nepal 2005

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Os protagonistas do trek durante a viagem de busão até Jiri. 10 horas sacolejando e tirando fino de precipícios, sendo que 8 delas viajando no teto. Marcéu é o que tirou a foto e cortou metade da própria cara.

 

Dias 00

 

O trek foi ótimo, ótimo MESMO. Nós andamos por 31 dias, de Jiri até o Campo Base do Evereste e com uma esticada até o vale do Gokyo. Tudo com picos extras e treks secundários que não estavam no programa inicial.

 

Kathmandu é uma cidade única e como tal tem um jeito único de ser. Thamel, bairro comercial de Kathmandu onde há a maior concentração de turistas, é sujo, confuso, poluído, com ruas estreitas lotadas de carros, riquixás, pessoas, bicicletas e motos. E é barulhento, já que todos lá dirigem com a buzina. Adoramos Thamel!

 

Os acordos nas compras de material que faltava para o trek começaram bem. É muito fácil barganhar em Thamel, mas é mais fácil ainda perder horas e horas do precioso tempo de suas preciosas férias conversando com os vendedores que, uma vez demonstrado seu interesse em algo, não mais o querem largar. Nas ruas também é mais certo que a morte você ser abordado por agentes de viagem ou algum dos seus capangas, ou se ver na vexante situação de ignorar os pequenos traficantes que o seguem perguntando "você fuma?" ou "mariuana, haxixe?". "Qual seu preço?" e "seu preço é meu preço" são frases comuns e que vai ouvir nas lojas e ruas. A menos que faça como alguns dos turistas que vimos e simplesmente pague pelo que lhe pedirem, o que considero tremenda burrice, mas enfim, a grana é deles.

 

Isso tudo serviu para que eu, após dois dias em Thamel, ficasse desesperado para iniciar o trek.

 

Então finalmente partimos num ônibus cujos bilhetes que nos tinham sido vendidos por preços exorbitantes estavam caducos e tivemos que comprar outros, por preços pouco menos exorbitantes. Ônibus nepalês é muito pequeno e nossas cabeças quase tocavam no teto. Pralém disso estava lotado e mais gente subia no caminho. O motorista nos disse que iríamos no teto, mas só depois que passássemos algumas barreiras do Exército, o que levou cerca de duas horas, horas essas em que passamos em pé e torcidos sem poder mexer nada nem ter onde nos encostar.

 

Ao se afastar um pouco de Kathmandu, duas horas depois de ter partido, o motorista pára a velha condução, e bota velha nisso, e diz que podemos ir pro teto, o que soou como música aos meus ouvidos e bálsamo às minhas pernas e costas entravadas. Enquanto subíamos ao teto, 80% do ônibus se meteu na mata pra tirar água do joelho. Parecia um bosque de cabeças. Praticamente não havia arbusto sem uma cabeça por cima dele.

 

Embora um pouco ventoso, viajar no teto foi fantástico e de lá tivemos nossa primeira, digo, segunda vista das montanhas (a primeira foi do avião). Era só uma, mas parecia um monstro se elevando do horizonte.

 

Passamos várias barreiras do Exército no caminho, mas essas não se preocupavam com gente no teto.

 

O ônibus segue zique-zaqueando morro acima e abaixo por cerca de 10 horas. Como a estrada é estreita, os finos são inevitáveis, sempre manejados com muita buzina, assobios, gritos e batidas na lataria dos ônibus. Numa das vezes nosso motorista arrancou o retrovisor de outro ônibus que estava "estacionado", porém ele nem parou e seguiu em frente. Acho que ele não queria perder o bom embalo que o ônibus tinha pegado. Aliás, ele não gostava muito de dar lugar aos outros ônibus que vinham em sentido contrário e cada vez que era mesmo necessário que um recuasse pro outro passar, uma pequena batalha de buzinas acontecia até que um dos dois desistisse. Para nosso orgulho o nosso ônibus estava equipado com um belo conjunto de sonoras buzinas e logo éramos campeões de "abre alas que eu quero passar".

 

Numa das subidas, uma de muitas e longas, um pneu furou e lá ficamos quase uma hora até ser trocado, operação que envolveu a gerência, observação e aconselhamento de muitos e o trabalho de poucos.

 

Já de noitinha chegamos em Jiri, após passar por uma última barreira de soldados, que anotaram nossos nomes. Em algumas outras barreiras todos tinham de descer e seguir em fila indiana até o controle e os turistas, nós, ficávamos no ônibus. Dessa vez tivemos de descer também, mas nos mandaram furar a fila e ir pra frente.

 

Após nos inscrevermos, fique de papo com um soldado lá, que recomendou alojamento e deu uns conselhos sobre os maoístas. Prometi que ia ter cuidado e agradeci a ajuda. Não falamos de política. Não acho saudável falar de assuntos polêmicos com alguém segurando uma metralhadora.

 

No ônibus, um dos donos de alojamento subiu conosco e nos pescou pra ficar em seu alojamento, o que, depois de saber sobre comida (repeteco no dhal?) e banho (incluído no preço?), aceitamos. Lá encontramos mais alguns trekkers. Um deles estava voltando e o resto, inclusive nós, estavam indo. O que estava voltando disse que não queria estar em nossa pele, o que não diminuiu nosso entusiasmo, mas foi um primeiro contato com as durezas que nos esperavam. O cara, Paul, tinha cara de exausto mesmo.

 

Banhos tomados e de barrigas cheias, fomos pra cama, ou melhor, pros sacos, ansiosos pela chegada do dia de amanhã, primeiro dia de um longo trek.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Agora que vi que há seção apropriada para os relatos, então pediria ao editor que, por gentileza, movesse o presente tópico para lá.

 

Agradecido

 

Hendrik

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Danda la, 2440m, nosso primeiro passe montanhoso e descanso merecido depois de saírmos de Jiri em direção à Shivalaya. Por muitos dias, iríamos cruzar com pessoas que encontramos nesse passe. Na foto, Marcéu de amarelo e um nepalês. No muro, nossas cargas

 

Dia 01

 

Depois de uma reconfortante noite em Jiri onde a cama não sacolejava, não passava por cima de buracos nem arrancava espelhos retrovisores das outras camas, acordamos bem cedinho para o emocionante início de dois anos planeado trek até o EBC e quem sabe o que mais. O dono do alojamento era um rapaz bem simpático e tinha falado um pouco de uma "esposa" que tinha no Brasil, como tinha estado lá e gostado muito e, claro, da qualidade do nosso futebol, tema que seria recorrente nos 31 dias de nossa caminhada. Ele tinha se levantado especialmente para nos servir o café-da-manhã e vestia apenas camisa e uns calções cujo volume na região entre as pernas eu desejei desesperadamente como não sendo nenhum sinal da felicidade dele em nos ver. Agora eu entendo porque os cadeados nas portas do quarto.

 

Após um belo café-da-manhã, pegamos nossas pesadas mochilas e nos despedimos de um já mais bem vestido e acalmado anfitrião.

 

Jiri, como a maioria das vilas nepalesas e cidadezinhas brasileiras, era composta de casas que margeavam uma única rua principal, então não dava pra errar o caminho, a não ser que o quiséssemos fazer de propósito. Seguimos a direção contrária de onde o ônibus tinha vindo e cedo eu estava preocupado em não perder a entrada para a trilha propriamente dita, que o guia dizia ficar à 15 minutos depois de sair de Jiri, deixando a estrada e entrando pela esquerda. Fiquei com medo que diversas picadas fosse a trilha, mas no fim isso era uma grande trilha e cheia de paus com bandeiras. Como se isso não bastasse, algumas pessoas que estavam no caminho conosco, apontaram pra lá, então não tinha erro e foi com desespero que vi o que tinha pela frente.

 

A subida era de barro nu e bem acentuada. A vegetação da trilha parecia ter desaparecido há muito tempo, talvez pela quantidade de gente que anda por ali. De qualquer jeito, com 25Kg de inutilidades e 1 ano de falta de exercício nas costas, me dei conta que nem de longe estava preparado para aquilo. O trek teria de ser basicamente levado na base do querer que no do poder. Na ladeira mesmo eu me dei conta que a mochila estava mal ajustada e que um bom ajuste dela dependeria de mim ser mais alto e mais gordo, ambos estados longe de terem sido realidade no passado e mais longe ainda de o serem nos próximos 30 dias. Meu destino era carregar 25Kg de coisa alguma numa mochila inadequada. Simplesmente teria de me acostumar com a idéia, para o qual tempo e prática não faltaria.

 

As vistas nessa caminhada inicial eram boas. Pelo menos isso ajudava a esquecer as dores nos ombros e nos quadris, onde as tiras da mochila se esforçavam para transformar pélvis, clavículas, homoplatas, bexiga e músculos numa única e disforme massa. Se as vistas eram magníficas, as dores eram magnificentes. Se eu fosse masoquista, diria estar no paraíso.

 

Tinha o guia da Lonely Planet comigo (mais adiante referido como LP) e tinha lido que era melhor não ir mais que até Shivalaya no primeiro dia porque se fossemos pra Bhandar, seria um dia "long e duro", segundo expressões que são frequentes no LP. Mas eu sou latino e paraibano, portanto eu sou é muito macho e caba-da-peste, então decidi que iríamos até Bhandar. Sim senhor, Bhandar é pra trekkers MACHOS e Shivalaya é pra turistas e demais florzinhas sem bolas. Após cruzar nossa primeira ponte suspensa, que balançou prá caramba, e posterior chegada em Shivalaya ainda ao meio-dia, mais convencido ainda fiquei que iríamos até Bhandar naquele dia mesmo. Não estava muito cansado nem nada. Cheio de estamina e testosterona, deixei Shivalaya em direção à Bhandar.

 

É, muito massa e tals, mas...o que havia logo na saída de Shivalaya? Uma GRANDE, ENORME, LONGA, INFINITA e ÍNGRIME subida de pedras. Tão íngrime que as pedras eram enormes blocos formando uma escada. De início achei que seria como as ladeirinhas que tínhamos encontrado durante a manhã: duras, mas breves. Mas não, aquela mer** simplesmente continuava indo e subindo, indo e subindo, indo e subindo. Como diria Marcéu mais tarde, "a primeira vez a gente nunca esquece" e essa primeira subida à sério seria mais tarde conhecida por nós como "A Subida de Deurali", número 1 em nossa lista de piores pesadelos no Nepal e sinônimo de "suplício", "tortura" e "sofrimento". Pessoalmente essa subida foi nada mais e nada menos que inferno na Terra e me senti o próprio Sífilo, tirando que em vez de pedra, eu estava com uma mochila. O Sol, a poeira, a mochila, as dores, os degraus altos.. tudo me gritava na cabeça: "vamos mata-lo!"

 

Por volta das 4 da tarde, eu estava MUITO desapontado, pensando seriamente que isso de trek não era pra mim e que talvez fosse melhor esquecer essa vida de yak (yaks são os bois dos Himalaias nepaleses) e voltar pro conforto dos hotéis em Kathmandu. Já agora, não vi muitos yaks nas trilhas entre Jiri e Lukla, como se as simpáticas bestas fossem introduzidas às trilhas para divertir os turistas que caminham a trilha a partir de Lukla.

 

Voltando à subida de Deurali, não sei bem porque não desisti e voltei dali mesmo. Aliás, não sei nada mesmo das razões de termos continuado. Sim, porque toda vez que olhava pra Marcéu, ele estava com uma cara de quem estava tão desesperado quanto eu.

 

Então lá pelas 17.30h, quase chorando, cheguei em Deurali. Chegamos DEPOIS de uma velhinha que tinha feito a mesma subida que nós, mas que não conseguimos acompanhar. Eita gente dura pra andar, esses nepaleses!

 

À entrada da vila, tem uma placa enorme dos maoístas avisando que todo mundo era esperado pagar uma compreenssiva "contribuição" de 5.000 Rúpias por pessoa, não negociáveis. O valor antigo tinha sido pintado com uma camada de tinta branca pra poderem pintar o novo valor por cima.

 

Como já era muito tarde para irmos pra Bhandar, acabamos que entramos numa das pensões dali e resolvemos que nossa noite seria ali mesmo. Amanhã bem cedo iríamos pra Bhandar e ver se conseguíamos passar pelos maoístas sem pagar, enquanto esses estivessem ainda dormindo.

 

Banhado e jantado, eu colapsei na cama e dentro do saco-de-dormir.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Puts....mto style seu relato...to tendo ataq de riso aki...hauhha!!

Um dia ainda vou pro Campo Base do Everest....mas acho q vou pra Lukla de aviao msm....hahuhauha!!!! Nao gostei mto da Subida de Deurali....huahuahuhauhau!!

 

Continua logo q agora fikei curiosa!!!

 

[]'s....

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Visitante

Parabéns pelo relato!!

 

... É muito legal quando alguém faz um relato de lugares tão poucos visitados. Principalmente o Nepal que é de certo modo uma nação pobre, (locais poucos escolhidos).

 

O Nepal tem uma das maiores densidades demográficas do continente. A população nepalesa é composta de 12 etnias, que convivem harmonicamente. Como você viu isso Hendrik?

 

Diz-se também que conter a erosão do solo é um grande desafio... Nos trekking deu para perceber isso?

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Olá, todos!

 

Obrigado pela boa recepção dos relatos de minhas misérias. Estou fazendo-as aos poucos e de memória, já que não tinha saco de, depois de um dia duro de caminhada, escrever fosse o que fosse. Meu irmão sim, esse fazia seu diário toda noite, religiosamente.

 

Como levo muito tempo a escrever, praticamente só poderei adicionar novos episódios aos fins-de-semana.

 

O presente relato é uma detalhação do que estou postando no www.trekinfo.com, tópico "Back", onde o mesmo é mais suscinto, como manda meu péssimo inglês. Em português posso detalhar mais mas continuarei usando aqueles relatos como modelo para os daqui. No de lá, já chegamos em Namche.

 

Agora, às perguntas:

 

Dete:

 

"O Nepal tem uma das maiores densidades demográficas do continente. A população nepalesa é composta de 12 etnias, que convivem harmonicamente. Como você viu isso Hendrik?"

 

Me pareceram mesmo harmoniosas. Estivemos lá por altura de algum festival hindu e quando visitamos a praça principal de Kathmandu, onde a maior parte das cerimônias ocorriam, nosso "auto-contratado" guia nos disse que havia uma noção popular que os deuses dos outros nada mais eram que expressões dos seus própios deuses, então não havia muito espaço para brigarem por diferenças religiosas. Os custumes de comportamento são praticamente o mesmo, então nada de choques aí também. Até mesmo em locais onde os comunistas maoístas são lei, religião é bem tolerada e não vi gompas, pedras ou bandeiras de oração destruídas.

 

Politicamente há descontentamento com o rei, sentimento que me pareceu também comum à todos. Em territórios maoístas, as críticas foram mais veladas, mas percebe-se que as pessoas estão sendo oprimidas por lá também.

 

Uma pena que um país de pessoas tão gentis esteja sendo mal gerido pelos seus governantes, oficiais e não-oficiais.

 

"Diz-se também que conter a erosão do solo é um grande desafio... Nos trekking deu para perceber isso?"

 

Deu sim, Dete. Por muito tempo e ainda hoje em dia, a madeira é a principal fonte de energia em aldeias nas encostas das trilhas. Com o grande afluxo de trekkers, o desmatamento se intensificou MUITO. Li por lá que um único grupo médio de trekkers (grupos organizados por agências, com guias, carregadores, etc) podia consumir tanta madeira durante o trek quanto uma família nepalesa em 1 ano.

 

Então é sinal comum durante a caminhada a visão de encostas desmatadas ou com árvores pequenas significando que o reflorestamento ali é recente ou mesmo de deslizamentos, antigos e recentes, devido à falta de vegetação. No parque do Evereste há uma camapanha de conscientização para o desmatamento, mas deveria haver maior esforço por parte dos trekkers nos alojamentos para que os donos não usem madeira e sim gás ou cocô de yak.

 

Existem alguns berçarios de reflorestamento, mas achei-os tentativas muito tímidas em comparação com a grandeza da área a ser reflorestada.

 

Mika:

 

"Um dia ainda vou pro Campo Base do Everest....mas acho q vou pra Lukla de aviao msm....hahuhauha!!!! Nao gostei mto da Subida de Deurali....huahuahuhauhau!!"

 

Ha-ha-ha! mas olha só, Mika, foi graças às subidas de Deurali e, verá mais tarde, de Sete, entre tantas outras menores, tanto subida quanto descida, que chegamos muito bem preparados em Namche. Se você conseguir separar um bom tempo para o trek, eu recomendo fortemente começar de Jiri, apesar das ladeiras e dos maoístas. Você aumentará MUITO suas chances de NÃO ter AMS, de estar MUITO mais preparada para o resto do trek e vai dar show de bola em quem começou de Lukla.

 

Indo de Lukla você caí logo aos 2800m, sobe imediatamente para os 3000m e depois para mais alto. Aí é só ficar curtindo exaustão e AMS.

 

Se for o caso, contrate carregador e guia. Não são assim tão caros e COM CERTEZA você irá aproveitar bem mais a trilha. Eu de início era contra carregador e guia, mas entre Jiri e Lukla mudei de idéia. Não que contrataria um e/ou outro se voltasse lá. Não, faria do memso jeito, só que com uma mochila BEM mais leve e talvez com mais tempo e menos ligado ao trajeto sugerido no LP. Mas fiquei com a idéia que com carregador, eu poderia ter me divertido muito mais, pois o ritmo seria menos forçado e não estaria SEMPRE preocupado de estar em lugar X naquele dia.

 

Deurali, e Sete, são dureza mesmo. São mil e tal metros de subida íngrime, mas você pode dormir em Shivalaya ou quebrar as subidas em quantas vezes quiser. Tem muito alijamento no caminho, então ninguém TEM de ir prá Deurali, Bandhar ou Sete em 1 dia.

 

[]'s

 

Hendrik

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Horas e horas disso aí sob um Sol escaldante. Logo após passar Kenja, vem a Subida de Sete. Aquele ali é o Marcéu lutando com a trilha.

 

Dia 02

 

Acordamos bem cedinho em Deurali, vila sobre um passe à 2700m, onde deu pra termos um gostinho da dificuldade que é sair de um saco-de-dormir quando a temperatura do lado de fora dele parece ter razões mais que suficientes para que a ação não seja levada adiante. Mas como existe assuntos mais importantes e urgentes a serem tratados, alguns dos quais de caráter estritamente pessoal, intransferível e inadiável, como largar barro e tirar água do joelho, e outros que tocam diretamente na minha parte mais sensível, a carteira, lá fomos nós pegar trilha com apenas a claridade de um Sol que ainda estava por trás de alguma montanha.

 

Aliás, uma vez na região dos Himalaias, parece que tudo fica ou está atrás de alguma montanha/morro/encosta/curva do vale lá embaixo. Dá uma sensação engraçada olhar pra trás e ver apenas pedaços da trilha que estamos fazendo lá ao longe, depois de duas ou três curvas do morro.

 

Mas voltando à nossa triste e sonolenta realidade...

 

Entre Jiri e Lukla, e bastante entre Lukla e o resto do trek, podemos descrever a trilha como uma seqüência de subida e descida, ziques e zaques. Trechos retos e planos são raros e são rapidamente percorridos antes mesmo que tenhamos tempo de começar a aprecia-los. A lógica de um trek no Nepal é que se você desceu, vai ter de subir e se subiu, vai ter de descer. Se algum dia forem pra lá, percam as esperanças de qualquer coisa em contrário. É sobe-e-desce e ponto final. Se gostou, ótimo, se não gostou e ta sofrendo, como no meu caso, azar.

 

Então descendo de Deurali, tínhamos uma bela ladeira que terminaria em Kenja, coisa de 1000m de diferença, e passaríamos por Bandhar no início. Ledo engano que merece uma nota:

 

NADA, absolutamente NADA nas trilhas montanhosas do Nepal é "logo ali". A única distância que você pode avaliar com alguma margem de segurança dirá respeito aos poucos metros imediatamente à sua frente. Mais que isso é tolice e mesmo isso estará sujeito á alguma curva traiçoeira escondida por trás de alguma pedra e que acrescentará de 5 minutos à 2 horas sobre sua primeira estimativa, dependendo se a curva estará escondendo uma descida até o quinto dos infernos (ou fundo do vale, que vai dá no mesmo) ou uma simples e curta escadinha de pedra que, com sorte, não lhe custará mais que meio litro de suor.

 

Então nossa vila Bandhar, que segundo o LP devia ser "logo ali", transformou-se numa interminável descida de mais de 1 hora, resultando na chegada à referida vila de dois trekkers esfomeados e incapazes de prosseguir sem antes dar uma trégua aos joelhos que tiveram de aturar nossas mochilas até agora. Engraçado que numa subida, reclamo por ser subida e desejo descida. Numa descida, meus joelhos me matam e desejo uma subida.

 

Sem ver nenhum maoísta e mortos de fome, paramos numa pensão qualquer e pedimos café-da-manhã, que foi panquecas e uma espécie de musli e chá. Enquanto comíamos, os fregueses começavam a se levantar. Entretanto chegou um senhor de uns 50 e cacetadas anos, sentou ao nosso lado e me passou um talão com uns papeizinhos brancos. Pequei aquilo por reflexo e achei que fosse alguma loteria local. Já estava me preparando para dizer que não estava interessado em ganhar nenhuma galinha quando vi que tinha uma foice com martelo no papelucho.

 

PQP! Caí no covil dos ladrões! Fiquei tão puto comigo mesmo... toda carreira prá chegar em Deurali. Todo sofrimento da ladeira enorme. Todo esforço pra levantar cedo. Toda carreira pra passar por Bandhar sem pagar e no fim sou pego com as calças nas mãos tomando chazinho... que raiva!

 

Os guias dos outros clientes começaram a falar com o cara, querendo negociar o preço. Realmente 5.000 Rúpias, mais de 50 doletas, é uma dor no bolso de qualquer um.

 

Mas o cara era intransigente e no fim todos tiveram de pagar a "doação".

 

Depois que paguei a minha e do meu irmão e recebi nossos recibos para caso encontrássemos mais maoísta pela frente e não ter de pagar de novo, o sujeito veio apertar nossas mãos vigorosamente. Vou te contar: foi o aperto de mão mais caro da minha vida...

 

Na saída da pensão, chegou um grupo que tínhamos cruzado no dia anterior. Eram suecos e finlandeses, acho. Eles tinham contratado um guia, mas levavam as próprias mochilas, bem mais leves que as nossas, o que suscitava olhares de inveja de minha parte. Eles chegaram todo sorridentes, dizendo que tinham dormido ali, como estávamos, entre outras generalidades. Sorridente respondi que eles estavam a ponto de serem sangrados aqui e agora, sem piedade nem compaixão. Diante dos olhares perplexos, reação à palavras tão sádicas, apontei com o polegar pro tranquilo homenzinho, que agora estava sentado num banco de pedra mais à frente e disse apenas isso: "maoísta. 5000 Rúpias. Por pessoa". Nunca vi tanta gente ir do sorriso à seriedade em tão pouco tempo...

 

Claro que todos nós sabíamos da taxa, mas parece que todos nós esperávamos ter chance de conseguir descontos. Mais tarde soube de gente que conseguiu, só que NAQUELE dia e com AQUELE cara, não teve boquinha pra ninguém. Umas 15 pessoas no total deixaram, cada uma, 5.000 Rúpias de "contribiução" para a "causa". Pra mim, só pensava que a bolsa de alguém ficaria muito feliz hoje, mas que não seria a minha.

 

Com a carteira mais leve, pegamos nossas mochilas e voamos dali pra fora. Como a descida estava mais gentil após Bandhar, foi fácil esquecer Deurali e a descida até Bandhar. Fomos até presenteados com muitos trechos em linha reta! Nada de subidas! Pensei logo que o pior tinha passado e comecei a sentir o CABA-MACHO acordando e sugerindo ir pra Sete naquele dia, que segundo o LP seria outro dia longo e duro. Mas achei que EGO é que tava certo e chegar em Sete seria tranqüilo, tranqüilo. Como tirar doce de criança. Esqueci livros estúpido e comecei a andar bem depressa.

 

Lá pelo meio-dia-quase-uma, estávamos cansados e famintos,mas tínhamos chegado em Kenja, no fundo do vale. Basicamente de Jiri até Lukla você sobe um morro, atravessa um passe, desce o morro até o fundo do vale, atravessa uma ponte suspensa, chega à uma vilazinha, atravessa a vilazinha e sobe um morro e repete tudo de novo. Se não sobe até um passe, contorna o morro pelas suas encostas até descer dele pelo outro lado até o fundo do vale, ponte, vila, etc, etc, etc...

 

Então almoçamos em Kenja, onde nosso grupo de suecos/finlandeses chegou pouco depois e foi almoçar também. Sentindo-me cheio de energia, peguei na mochilona e sai de Kenja, mas não sem antes de lançar um olhar de pena aos suecos que estavam estendidos sobre bancos de uma pensão, esperando o almoço. Coitados, pensei eu...

 

O ruim foi que mal passei a última casa, o que vejo, o que vejo? Isso mesmo: OUTRA puta subida, muitíssimo mais LONGA que a de Deurali e cuja acentuação em nada deixava a perder à mesma. Aquele mimo era a Subida de Sete, uma subida que o próprio LP dizia veladamente ser quase impossível fazer no mesmo dia.

 

Na verdade, Sete é uma vila que fica à pouco mais de MEIO da subida. A subida em si iria até o passe de Lanjura, à 3400m e só seria atingido ao meio-dia do dia segunte. Kenja, de onde saímos, está à 1600m. Façam as contas do que nos esperava pela frente.

 

Exatamente 10 segundos de subida e já me sentia profundamente, fundamentalmente e extremamente... desesperado.

 

Que raios se passa com o Nepal? Não existem trechos planos nessa maldita caminhada? Estamos condenados a passar nossos dias indo pra cima e pra baixo? Cima-baixo, cima-baixo, ciiiiiiiiiiiiiiiiiima-baaaaaaaaaaaaaaaaixo, ciiiiiiiiiiiiiiiiiiima-baaaaaaaaaaixo. Ainda por cima tudo aos zigue-zagues, de forma que você anda, anda, anda, sobe, sobe, sobe, entõ para, olha pro LADO e o que vê logo ali, à uns míseros metros de você? O lugar onde você estava 30 minutos antes! Meu, isso é tão... frustrante... só dá vontade de chorar, chamar pela mãe, pela cavalaria, super-homem, sei lá...

 

Logo, logo os suecos nos apanharam e ultrapassaram. Foram simbora. O Sol forte e a subida dura me faziam parar a cada 10 minutos pra recuperar o fôlego. Estava exausto mesmo. Nem conseguia mais acompanhar os carregadores, com seus cestos enormes e pesados.

 

Só lá pelas 18.00h chegamos à vila de Sete, 2500m, e eu estava colapsando pela trilha, todo doído, com náuseas, tontura e dor-de-cabeça. A princípio achei ser do Sol, que eu estaria com algum tipo de insolação. Comi pouco pois também não tinha apetite, tomei banho e fui dormir. O alojamento era bem pobre e o dono quase que nos suplicou pra ficarmos lá. Eu estava de olho numas pensões mais acima, mas o cara pediu tanto e eu estava tão cansado que decidimos ficar por ali mesmo.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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