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Nepal 2005


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Marcéu na trilha para Tengboche, logo à saída de Namche.

 

Dia 13

 

Acordei por volta das cinco da manhã. Não dormi muito durante a noite, principalmente no seu início, pois os trekkers japoneses que estavam festejando no refeitório ontem a noite, estavam realmente felizes e comemorativos por terem feito o seu trek. Se a festa tivesse se limitado ao refeitório, tudo bem, mas com o passar das horas, ela começo a se alastrar pelo resto do alojamento e por fim subiu as escadas. Tal qual uma tsunami, ela arrasou corredores e quartos do andar de cima, onde eu tentava dormir. Marcéu é um homem santo e dormia o sono dos justos. Eu também não sou fácil de acordar, mas para isso preciso atravessar aquela frágil fronteira entre estar acordado e estar dormindo, ato este que nosso amigos japoneses não me deram tempo de perpetrar.

 

Assim, tive de aturar sei lá quanto tempo de gente andando pelos corredores, gritando alegremente umas para as outras enquanto pisavam vigorosamente no assoalho de madeira com suas incríveis botas de trekking. Em especial, duas japoneses se destacaram na balbúrdia. Uma tinha seu quarto ao lado do meu. A outra, no canto oposto, no fim do corredor. Essa então se dedica à sonora tarefa de ir e vir ao e do quarto da amiga até/do seu próprio quarto, gritando sei lá o que em japonês, mas com muito entusiasmo. A amiga, sentadinha no quarto ao lado do meu, respondia tudo com igual ânimo, enquanto revirava suas coisas, batendo na fina placa de compensado que separava minha orelha da tempestade de barulho.

 

Como qualquer ser humano normal, jurei vingança.

 

Então, como ia dizendo. Acordei às 5 da matina e o fiz de forma a ter absoluta certeza que nenhum japonês daquele alojamento, em especial minha querida vizinha, não ficassem alheios à isso. Como toda parte superior do alojamento é feita de finas placas de madeira, não foi muito difícil, após algumas pancadas e passos fortes pelo corredor, de ouvir gente acordando nos quartos, sinal que estava obtendo sucesso em minha tarefa. Mas pelo sim, pelo não, dava uma pancada na parede só para me certificar que ninguém voltava a cair no sono. Enquanto duraram meus preparativos, uns 30 minutos, fiquei muito feliz de ouvir que os meus queridos japoneses estavam bem acordados. Muito bem.

 

Tendo alcançado o primeiro objetivo do dia, fui tomar café-da-manhã. Era um super-café-da-manhã, que me deixou meio pesado, mas sabia o que estava pela frente e que iria precisar de toda aquela comida nas próximas horas de ladeira. Marcéu chegou pouco depois de eu ter começado e falei-lhe dos malditos japoneses barulhentos da noite anterior. Ele me olhou meio surpreso e disse que não ouviu nada! Vai ter sono pesado assim no... Nepal!

 

Por fim nos despedimos do simpático dono do alojamento e fomos para oq eu esperava ser onde o trek de verdade iria começar, com toneladas de montanhas para ver e tudo isso que li e vi nos livros e na Net. Achei que o pior tinha passado, que essa vida de subir e descer ladeira tinha acabado. Agora que estávamos em direção norte, era só seguir os vales e encostas no seu comprimento, sem ter de subir e desce-los constantemente, certo?

 

Errado.

 

A subida logo na saída de Namche era já esperada. Sabia disso desde que a tinha visto quando estávamos andando ao redor das encostas sobre Namche, dois dias antes. Mesmo assim era muito dura de se subir, muito íngreme. Agora sei porque aquele grupo que tinha visto na altura estava andando tão devagar. E eu que fiz pouco deles... agora era minha vez e não achava aquilo nada engraçado. Fora a subida abrupta, tinha o frio da manhã. Ainda era muito cedo e não havia sol para nos aquecer, então o vento frio que soprava pela encosta depressa me deixou com a cara e as mãos duras de frio. As mãos então, doíam de tanto frio. Tive de parar várias vezes para massageá-las e/ou tirar/pôr camadas de roupas, de acordo com o estar molhado de suor ou tremendo de frio. Algumas vezes, os dois ao mesmo tempo, com partes do corpo congeladas enquanto outras derretem por baixo de várias camadas de roupas. Devia ser duro prá Mercéu também, pois cheguei até a ultrapassá-lo na subida!

 

Após subir tudo e ter chegado ao mesmo lugar que dias antes tinha parado para ver as montanhas, tiver de fazer uma pausa porque não agüentava mais essa situação de cozinhar/congelar. Parei ali mesmo e me sentei, apreciando a vista de tirando fotos, esperando que meu corpo terminasse de distribuir seu calor de forma mais igualitária entre seus membros.

 

Marcéu chegou pouco depois de mim, descansou só uns cinco minutos e meteu pé na estrada. Quando enfim resolvi ir embora, ele já estava longe. O cara é incrível! Uma máquina de andar!

 

Então lá fui eu para o Everest View Hotel. O caminho é plano e reto, com subidas curtas e gentis. Então pensei que seria assim até chegar ao Campo Base do Evereste, apenas com umas eventuais subidas para pegar altitude, nada mais. Moleza.

 

No hotel, a trilha fica um pouco confusa, porque... desaparece. Tive que perguntar para uns caras que estavam lá, construindo alguma coisa, por onde deveria ir. Então tinha de ir em volta do hotel e descer. Fiquei com a impressão que o hotel ?comeu? a trilha, mas tudo bem. Fui em volta, passei uns banheiros e veio a descida para Khumjung, então... peraí... ?descida?? DESCIDA? Não sei porque, mas não gostei muito de como isso me soava. Qualquer descida no Nepal e fatalmente seguida de uma subida. É um tipo de Lei Universal, tipo Gravidade ou Termodinâmica: você simplesmente não tem como escapar delas. É melhor que essa ?descida? seja uma bem curta.

 

Realmente era. Acho que cheguei na vila de Khumjung em menos de 30 minutos. Havia uma trilha que continuava indo para baixo, para minha direita. Mas as trilhas melhores estavam em frente, seguindo para cima numa subida suave. Tremendo de medo, perguntei à um paisano sobre direções.

 

...

 

A Verdade é dura algumas vezes, mas é inescapável. Quase tendo um chilique, escuto que a trilha para Tengboche e a que segue pela direita e para baixo. Oh, grande Zeus... eu já tinha feito uns 30 minutos de descida. Quanto mais descer, mais terei de subir.Por favor, que essa descida não seja muita.

 

Mas os deuses estavam ocupados nesse dia.

 

Então desci.

 

E desci.

 

E desci.

 

Cruzei com alguns nepalêses subindo. Crianças indo para a escola, carregadores e algumas mulheres. Eles parecem estar muito cansados da subida, o que me deixa muito preocupado. Por que esses locais estão cansados? Eles não se cansam com facilidade. Até parece que vê subido desde longe... não me diga que... não, não pode ser... não seria justo. Já atingi minha meta de subidas. Eu mereço algum descanso, uma trilha fácil, umas férias! Uma porcaria de pausa nessa vida de yak!

 

Ouço crianças rindo atrás de mim, logo após ter passado por baixo de uns arbustos. Olhei para trás a fim de ver o que tinha de tão engraçado ao passar por baixo de arbustos. Então vi que uma de minhas cuecas tinha ficado presa nos galhos, arrancada da mochila onde estava pendurada a secar (ou gelar). Estava tremulando como uma bandeira. Minha bandeira. Como se isso não fosse vergonhoso o suficiente, era branca, o que quer dizer que era marrom, após dias de uso e mal lavadas, exibindo aos raios de sol daquele dia abençoado toda a glória das minhas condições digestivas dos últimos dias.

 

Dica do dia: NUNCA leve suas cuecas brancas para seu trek.

 

Retomando o trek, continuei descendo.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Parei. Estarei perdido? Deixa ver o guia LP... hum... não, não estou... mas então deveria estar pelo menos em Sanasa, vila onde o guia diz que as trilhas alta e baixa se encontram antes de virarem trilha única para Tengboche. Essa vila fica aindo no primeiro terço da caminhada e nada dela! Nada de Sanasa e essa descida condenada não mostra o menos sinal de estar no fim. Vou andar um pouco mais e ver e encontro com alguém que possa me dar indicações.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Ufa! Uma bifurcação! Até que enfim! A trilha para Tengboche TEM de ser a que segue para a esquerda, subindo. A da direita não pode ser, pois segue em direção à Namche. Não pode seguir em frente, pois continua descendo até os quintos dos infernos. Ah, uma placa. Já não era tempo de ver uma sinalização. Deixa eu ler o que está lá... hum... trilha da esquerda, subindo, vai para... Gokyo...

 

BWAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!

 

Deve ser o cansaço. Li mal. Vamos tentar outra vez. Trilha-da-esquerda-subindo-vai-para... Gokyo.

 

Gelei ali, olhando para a placa como alguém que tivesse acabado de ler sua sentença de morte, cuja aplicação seria imediata. Olhei em volta, olhei para a paisagem, para os pedregulhos, para a trilha poeirenta, para as árvores... Prestei atenção aos sons dos pássaros, do rio correndo no fundo do vale, do vento soprando... estava em choque. Esfreguei os olhos e olhei para a placa outra vez. Vai ver foi uma ilusão de ótica.

 

Não, não era...

 

Escutei gente chegando pela trilha da direita, que vem de Namche. Alguns carregadores, guias e seu grupo. Cumprimeteei-os e murmurei como se fosse uma súplica se eles sabia a direção para Tengboche. Disseram que iam para Gokyo.

 

Pegaram a trilha da esquerda, para cima.

 

Estou abismado. Tenho de fazer alguma matemática para entender isso tudo. Vamos ver:

 

a) Estou numa bifurcação

 

b) Tenho 4 possibilidades, desconsiderando que não fique maluco, me dispa e saia correndo e gritando pelas encostas dos morros.

 

c) Vim da trilha por trás de mim

 

d) Esse sobe, porém regressa para Khumjung

 

e) Tengboche não pode ser em direção à Khumjung. O guia fala claramente que fica na direção oposta. Também tenho certeza que não é para lá, pois estive lá e tenho certeza que não vi nenhuma Tengboche.

 

f) Fora isso, estaria na direção cardinal errada.

 

g) Restam três trilhas:

 

G1) A da esquerda, é para Gokyo. Algumas pessoas foram para lá, com guias e tudo.

G2) A da direita é para Namche. Essas pessoas vieram de lá.

G3) A da frente, que, por eliminação, é a única que sobra. Essa continua descendo.

 

Desconsiderando a possibilidade de sair voando dali ou de me enterrar na terra, respirei fundo e fui para baixo.

 

Por fim, Sanasa está perto. Posso ver alguns telhados entre as árvores, lá em baixo. Boas notícias, por fim. Sanasa é uma das três vilas que devo cruzar antes de Tengboche, portanto faltam-se ?só? mais duas.

 

Já em Sanasa, uma trilha segue para a esquerda, para cima. Quem sabe não será essa? Fui lá ver, feito um bichinho desesperançado. Não, aquela vai para Gokyo também. Porcaria de Gokyo! Odeio Gokyo! Continuo descendo... mrblmrbrlmb... discriminação... mrebmlremblmr... Todas a strilhas boas vão para Gokyo... mrelgmbrlemmgr... Gokyo, Gokyo... mreoplmfmrepdmb...

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Outra vila, cheia de trekkers. Eles estão felizes. Eu não estou nada feliz e farto dessa descida toda. Nem sequer olho duas vezes para a festa deles. Um cara me ultrapassa, à toda velocidade. Outro trekker independente. Ele parece em forma e determinado.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Brincadeira, né?

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Estou quase no fundo do vale! Devem estar de gozação!

 

Desci.

 

Desci.

 

E parei de descer. Cheguei ao fundão do vale e última terceira vila. Finalmente!

Na entrada de uma alojamento, há uma placa bem-humorada avisando que dali em diante são 3 horas de subida sem pontos de parada e que eles alugam cavalos. A mudança de direção é drasticamente feita. Cruzo uma pequena ponte a poucos metros do rio e dou de cara com uma subida absurda. As lembranças de namche e, cruz-credo, Deurali e Sete, voltam a me atormentar. Pego a subida e subo.

 

E subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia! Agora terei de fazer toda aquela maldita descida em sentido contrário. Vão ser pelo menos 4 horas nessa porcaria de subida. Estou fu**** e sei disso.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Gente vindo de cima e de baixo começa a me passar. Um, dois, três. Quem vem de cima não fala mais aquelas mentiras simpáticas que escutamos na subida de Namche, do tipo ?está quase lá?. A situação deve ser séria.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Três caras atrás de mim. Estão longe, mas se aproximando rapidamente.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Os três me apanham. São dois caras e uma mulher. Alpinistas, pela ferragem que levam nas costas. Estão cansados. Isso vai mal.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Alguns yaks. Os primeiros do dia. Breve muitos mais começam a aparecer pela trilha, descendo-a.

 

Como já disse, aprendi da pior forma que o melhor jeito de evitar essas bestas de carga é ficar do lado oposto por onde elas andam. Eles são mansos e tudo mais, mas parecem desconhecer completamente a noção de ?parar?. Mesmo quendo param, tipo que me assusta, pois ficam ali, olhando-nos com aqueles olhos grandes e melados, até que uma pedra certeira do tangedor os acerte no lombo. Ainda bem que a maioria tem sinos nos pescoços, então dá para ouvi-los muito antes de chegarem perto de nós, e temos tempo de achar um local seguro. Olho para cima e vejo os primeiros a aparecer. São muitos, pelos vistos. Pelas minhas contas, vamos nos encontrar num lugar onde a trilha bifurca, transformando-se numa trilha de mão-dupla. ?Corro? até a minha entrada da bifurcação e fico esperando ver qual das mãos os bichos vão escolher para descer. Claro, eles escolhem a parte mais fácil, deixando-me a parte mais difícil, perto do barranco, feita quase só de areia e mais íngreme. Amaldiçôo esses malditos animais e pego a parte da trilha que me tocou. No meio de tudo, a fila de yaks se quebra porque o yak do meio decidiu descer pela MINHA parte da trilha, trazendo atrás de si o resto dos yaks. Agora dancei, pensei logo. Metade dos yaks estão na trilha ao lado, um pouco acima da minha, e a outra metade vem em minha direção. Não dá para descer porque lá embaixo as trilhas se encontram. Portanto agora sou uma ilha cercada de yaks. Yaks na frente, yaks ao lado, yaks por trás... grito ?shazam!?, me transformo no Capitão Marvel e saio voando dali, para grande surpresa dos sherpas, trekkers e diabólicos yaks.

 

Voltando ao mundo real, apenas reuni todas minhas forças e me pendurei ingloriosamente nuns arbustos que estavam do lado do barranco até que os yaks passassem. Eles passam e um pelotão completo de trekkers e sherpas vem logo de seguida. Um dos guias me vê pendurado ali e oferece ajuda, para me puxar de volta à trilha. Digo que está tudo bem obrigado. Na verdade queria dizer que não precisava de ajuda. Precisava era que aquelas bestas fossem alinhadas contra um paredão e fuziladas uma por uma. Podia fazer isso? Não? Então desapareça.

 

Claro que não disse isso, mas o pensamento de yaks ensangüentados espalhados sob meus pés tipo que amenizou a raiva e orgulhos feridos por conta de ter de me pendurar feito um macaquinho para que suas majestades, os yaks, pudessem passar por AMBAS trilhas.

 

Então subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Sino! Escuto mais sino! Mais yaks! As minas! Tenho de enterrar minas por onde eles vão passar para que explodam ao pisa-las!

 

Quero dizer... tenho de achar um lugar seguro. Mas o sino vem muito rápido. Yaks de corrida? Será?

 

Então vem um sherpa montado num cavalo, descendo a todo galope pela ladeira. Estou boquiaberto. Que mais surpresas essa subida surreal me reservará?yaks voadores? Sherpas de moto? Não, só mais subida.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

...

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Marcéu liga pelo walkie-talkie. Ele chegou lá! É de verdade! Tengboche existe! Um sorriso parece por entre a grossa camada de pó e suor que me cobre o rosto. Talvez mais umas duas horas e estou lá. São quase 11 e estou morrendo de fome. Deixamos Namche lá pelas 6. Quase 5 horas de caminhada direta, garnde parte dedicada à essa subida de poeira e yaks. Dava jeito uma parada agora. Uma bem longa.

 

Para minha surpresa, cheguei logo em Tengboche. Não se passou nem uma hora para chegar lá depois que Marcéu me ligou. Na subida, só umas 5 ou 6 pesoas me passaram, mas o lugar, que é pequeno, está cheio. Para minha infelicidade, cheio de grupos organizados. O dia está bonito, então há esperança deles ficarem do lado de fora.

 

Os preços são altos, muito altos. Não há alojamento com promoção ou qurto mais simples e barato. Tudo o mesmo. Sem problema. Só preciso sentar e tirar minhas botas para que meus pés podres e molhados possam respirar. Estou tão feliz de ter chegado que nem esquentei com os preços. O lugar é bonito. O mosteiro que tem lá, as vistas, a aglomeração de trekkers e escaladores... agora sim, parece mais que estou à caminho do EBC. Pedimos umas toneladas de comida e litros de chá, chá de limão. Me sinto jogando dinheiro fora hoje. Dia de festa!

 

Enquanto isso, ficamos olhando para os caras dos grupos organizados se posicionando ao sol. Eles todos parecem bem profissionais, com equipamento topo de linha. Achei que fossem escalar. Como? Não vão escalar? Vão até o EBC ou campo base do Ama Dablam? Só isso? Esse circo todo armado em volta para apenas isso? Que vergonha...

 

Chega a comida deles. Os sherpas que os servem colocam duas batatinhas nos seus pratos, uma fatia fina de queijo, um pedacinho de carne. Os caras comem vagarosamente. Botam meio garfo na boca e ficam mastigando aquilo para sempre. Então olham para o Ama Dablam por uns segundos, falam qualquer coisa uns pros outros por mais uns segundos e então botam outro meio garfo na boca.... e repetem tudo de novo. Quando sherpa-garçon vem perguntar se querem mais uma meia batatinha, fazem cara de fastio e recusam.

 

Estou... sem palavras... que zorra é essa??? essa gente existe de verdade???

 

Nossa comida chega. Dhal Bath, claro. Trazem garfos. Mandamos voltar os garfos, esses utensílios inúteis, e trazerem colheres de sopa. Nos próximos 5 minutos, Marcéu e eu protagonizamos o mais significativo espetáculo de como se massacrar um dhal. Homens-das-cavernas em ação. O repeteco chega logo em seguida, mas nossos pratos já estão vazios, então o repeteco é de prato cheio, outra vez. O Massacre do Dhal II. Eles acham que podem nos enganar, mas aprendemos depressa. Antes, comíamos o primeiro prato tranquilamente, então quando traziam o repeteco nossos pratos ainda estavam pelo menos pela metade, então não repetíamos muito. Agora que já sabíamos como o sistema funcionava, comíamos o primeiro prato bem depressa e quando o repeteco chegava, já podiam enche-los outra vez. Não é fácil engolir tudo aquilo rapidamente, mas com algum treino chega-se lá. Nossos sistemas digestivos não estavam lá muito felizes com isso, mas, pó, é uma guerra que vai lá fora. Há que ser forte.

 

Acabamos os dois pratos de dhal antes que os caras lá fora terminassem suas meias batatinhas. Hora de dar uma caminhada digestiva em volta de tengboche, ver o que o local tem a oferecer como treks de aclimatização. Como disse, Tengboche é pequena, então cedo a caminhada acabou e tratamos de achar um lugarzinho tranqüilo e afastado para podermos aproveitar o sol e descansar em paz.

 

Por volta das 16h, voltamos ao alojamento. Todas as barracas dos intérpritos aventureiros estão armadas. Não sei para que essa gente dorme em barraca havendo tanto quarto disponível nos alojamentos. Parecem crianças brincando de acampar no quintal de casa, imaginando que estão fazendo alguma grande aventura.

 

Bah... isso não importa. Nosso alojamento não está tão cheio assim e nos preparamos para o jantar. Marcéu vai escrever, eu vou ler. Depois vamos jogar cartas. Quero dizer, eu vou perder nas cartas e ele vai ganhar. A comida chega, com colheres. Mais uma pequena demonstração para os outros do que é comer de verdade e o dia está terminado. Hora do saco-de-dormir.

 

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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14stengbochepangbochemarceugom.jpg

Marcéu tomando banho de Sol após escalar uma encosta de um monte à frente de Tengboche. Caminhada de aclimatização.

 

 

Dia 14

 

Tengboche é muito cara. Caríssima, na verdade. Inicialmente havia planejado ficar por aqui dois dias. Mesmo não tendo sentido mais nenhum sintoma parecido com AMS, eu queria permanecer dois dias na altitude de Tengboche, para estar certo de fazer uma boa aclimatização. Temos bastante tempo pela frente, portanto não há necessidade alguma de nos apressarmos trilha acima.

 

Mas Tengboche está custando um bocado de grana por dia. Quartos de 200 Rúpias e dhals por mais de 200 são apenas demais para um lugar que não me parece oferecer tanto quanto consta no LP. Consultando o mesmo, decidimos ir para Pangboche, um “pouco” mais à frente e na mesma altitude que Tengboche. Podemos fazer nossa noite e caminhada de aclimatização por lá mesmo. O LP diz que há mais pensões em Pangboche, então também tenho esperanças de achar melhores preços por aquelas bandas.

 

Por favor, defensores da política de que não se deve pechinchar nas trilhas do Nepal, não me matem ainda.

 

Antes de partir, nós queremos fazer uma pequena caminhada de aclimatização por aqui mesmo, um dos muitos planejados treks secundários, que até agora traduziram-se numa sucessão quase ineterrupta de não realizações. O LP sugere que uma pequena subida nas encostas da montanha mesmo em frente da vila, é uma boa maneira de aproveitar bem o local. De onde estamos conseguimos divisar uma minúscula construção lá em cima. Talvez não seja tão ruim quanto pareça.

 

Em comparação com os dias pré Lukla, saímos relativamente tarde, em torno das 6.30h, acho. Temos de estar de volta antes das 10h caso queiramos sair sem ter de pagar outra diária em nossa luxuosa pensão. Ao menos simbolicamente luxuosa.

 

Ameças ao meu dinheiro sempre foram eficazes estimulantes que me permitem sobrepor a vontade aos caprichos incertos da minha parca e falha condição física. Por isso, desde que o trek teve início em Jiri e desde a Subida de Deurali, foi esta a segunda vez que alcancei a estupenda proeza de ficar à frente de Marcéu.

 

A subida do morro, ora beirando um alto precipípio, ora por uma cresta e ora pelas encostas, era bastante “Nepal padrão”. Não era TÃO íngreme ou levava TANTO tempo a ser feita ao ponto de fazer uma pessoa chegar às beiras da insanidade, mas apenas aquele tanto o suficiente para me fazer suar feito um cavalo e cansar bastante, mesmo fazendo a subida pela manhã, sem Sol forte sobre nossas cacholas. O Sol ainda não tinha passado por sobre os picos à nossa frente, o que deixava nossa trilha na sombra. Uma sombra bastante gélida, por sinal. Dessa forma outra vez experimento o paradoxo nepalês: cada 10 passos me fazem suar e cada 10 segundos de pausa me fazem gelar na sombra da encosta varrida pelo vento. Ainda não sei como balancear essas constantes e temo nunca vir a saber como faze-lo.

 

Claro, o fato de estar vestindo camisas de naylon como primeira camada não era propriamente o que se pode chamar de grande ajuda. Ainda na Suíça, tive dinheiro apenas para comprar uma daquelas camisas especiais para cada um de nós. Aquelas respiráveis, térmicas e tudo mais. Só que o custo de em torno dos 60 Euros por peça eram tipo que proibitivo de carrega-las em abundância, pois de jeito nenhum poderia comprar mais. E só comprei aquelas por curiosidade, para ver como era usar uma dessas high-tech coisas. Estavam bem guardadas em nossas mochilas como grande tesouros a serem desenterrados e usados para futuras, melhores e mais grandiosas ocasiões, como a subida ao Kala Pattar ou ida ao EBC. Até lá, as camisas de naylon teriam de dar conta do recado, o que não faziam lá muito bem. Diga-se ao seu favor que pelo menos eram mais leves e secavam mais depressa que as de algodão.

 

Apesar disso, não eram respiráveis ou térmicas. Tinha minha pele empapada de suor, que gelavam nas paradas, por conta da sombra e do vento. Nossas roupas de terceira camada, calças e jacketas “gore-tex” compradas em Thamel, também não faziam seu papel muito melhor que as camisas de naylon. Mas ao menos as calças suportavam bem as raspadas em pedras e galhos.

 

O primeiro ponto de referência na trilha são muitas bandeiras de oração penduradas nas pequenas árvores que se encontram à esquerda da trilha, seguidas por uma pequena construção religiosa, um chorten. Outra construção se encontra bem longe de onde estamos e a altitude e distância de sua localização deixam dúvidas sobre se o caminho até lá é “trekável”. A subida parece mais íngreme também. Fora isso...

 

Havia um grande yak no caminho. No caminho havia um grande yak. A besta estava dormindo mesmo ao lado do pequeno chorten. Assim ele bloqueava a trilha de maneira que era um exemplo de eficácia para engenheiro nenhum botar defeito. Desconsiderando a não muito saudável ação de passar por cima do yak, que exibia um magnífico par de grandes e pontiguados chifres, tinhamos à nossa disposição as abundantes alternativas de ou se enfiar pelas árvores à nossa esquerda ou tentar a sorte passando pelo lado direito do chorten, o que localmente é considerado desrespeitoso (passar por alguma contrução religiosa com seu lado esquerdo voltado para ela). Desconsiderei esse caminho menos por respeito à religião e mais por respeito à minha integridade física, visto esse chorten estar mesmo na beirada do precipípio que beirava o lado direito da trilha, tendo poucos centímentros de trilha entre ele e o barranco. Como já fazem muitos anos que nossos ancestrais decidiram que não nescessitavam mais de caudas, o passar pelas árvores foi desconsiderado também. Ancestrais estúpidos. De forma semelhante, não fui agraciado pela Natureza com um par de asas, um dos muitos resentimentos que nutro por ela, então não me atraía a amostra instável de trilha com vista privilegiada para o fundo do vale.

 

Decidi me armar de coragem e passar pelo yak mesmo, pisando manso e tentando não assustá-lo, ou pior ainda, pisa-lo. Desde os tempos que morava num sítio e tínhamos alguns bovinos e mulas, aprendi que esse tipo de animal não é o que se pode chamar de afeiçoado a ter coisas se mexendo pelas suas traseiras e fazem questão de afirmarem a falta desse sentimento de forma bastante clara, seja metendo a pata, chifrando ou mordendo. Restava-nos passar perto da cabeça, quase roçando pelos chifres do animal. Primeiro fiz algum barulho para acordá-lo e ficar ciente que tem gente passando. O bicho mal se mexeu. Parecia uma daquelas efínges da mitologia que quardam algum tesouro e pede que um enigma seja resolvido caso o aventureiro queira apossar-se do mesmo.

 

Mas nosso yak não disse o famoso “decifra-me ou devoro-te”. Nem assobiou e uma manada de yaks saiu do meio do mato para nos atacar. Ou talvez estivesse esperando que chegasse mais perto para poder testar se o chifre ainda estava bem pontiguado ver se empala uma perna ou alguma outra parte mais vital minha, tipo minha carteira ou meu precioso cantil de água.

 

Então...

 

Não fez absolutamente nada. Mal se dignou reconhecer nossa presença, levantando a cabeça um mínimo de graus e ainda tenho dúvidas se sequer abriu os olhos quando passamos.

 

Agora começa a parte séria da subida. A trilha é muito barrenta e tem uma quantidade ridiculosamente enorme de apertados zigues-zagues que em algumas partes corria em linhas praticamente paralelas. Sorte nossa que por conta do frio da sombra e vento o barro estava congelado. A partir de certo ponto, o barro deu lugar às pedras, o que facilitou um pouco a subida, mas me obrigava a subir como se estivesse usando uma escada, o que é bastante cansativo depois de um tempo.

 

Eu ainda não sabia, mas esse seria o padrão para todas nossas subidas daqui em diante. A parte de barro mudaria, mas a parte de pedra, não. Toda subida teria, à partir de certa altura, só pedras para pisar. Até aí achava isso ser uma odiada pecularidade de Deurali e Sete, mas não, é assim mesmo. Sempre pedras.

 

Para minha surpresa, Marcéu se encontra bastante longe, abaixo de mim. Certamente ele está tomando seu tempo. Eu, de minha parte, com minha querida, curta e contada grana em perigo, tempo é algo que não posso me dar ao luxo de esticar. Tempo é dinheiro, tempo é dinheiro. Para cima, para cima, para cima...

 

É nesse espiritual e superior estado de mente que eu cheguei no chorten de cima, depois de brigar com os últimos 50m da subida, que insistiam em ser cada vez mais impossíveis de serem feitos, com degraus enormes, escorregadios, apertados e passando por grandes pedras. De baixo, com todas as bandeiras cruzando a encosta e enfeitando a contrução, achei tratar-se de uma gompa que os laborosos monges do mosteiro de Tengboche construíram num ápice de devoção e coragem, mas quando cheguei lá em cima, acho que nem podia chamar aquilo de chorten. Tratava-se de uma pilha de pedras amontoadas sobre uma enorme saliência rochosa da encosta, com um pau enfiado nelas e umas bandeiras de oração aqui e ali. Talvez o monumento tenha sido feito num momento de devoção, mas acho que os agrures da subidas eram mais poderosos que a religiosidade dos obreiros. Não os culpo. Eu mesmo iria descobrir, mais tarde, como custa fazer uma mísera pilha de pedrinhas à mais de 5000m, quanto mais fazer uma pilha enorme, espetar paus e enfeitar tudo com bandeiras de oração. Não é para os pulmões de qualquer um, não, isso posso garantir.

 

A saliência de pedra fica numa espécie de pequeno plano na encosta, ao que parece ser o meio do caminho até o pico do morro. Não é nada muito vasto, mas é uma mudança mais que bem-vinda de nível do chão e a pedra em si está ensolarada e protegida dos ventos. Tão quentinho... tão confortável...

 

Tiro logo casacos e camisas empapados de suor gelado e me sento ali. Tão bom... nada de vento... solzinho matutino, nem muito forte, nem muito fraco. Perfeito, mesmo no ponto. Abaixo de mim, Tengboche ainda está sob as gélidas sombras, mas mesmo assim a vista é incrível. Pode-se ver imensos picos e morros, bem como as trilhas que saem e vão para Namche. A entrada do vale de Gokyo também é visível, com suas altas trilhas.

 

Agora sim! Era disso que estava falando quando quis vir para aqui! Só eu e os Himalaias. Qualquer lado que vira a cabeça é só vastidão, grandeza e perenidade. Imbatível, inesquecível e magnífico. Nem nos livros dá para viajar no pensamento tanto quanto estar na beirada de uma encosta perto dos 5000m olhando para uma vasta paisagem montanhosa. Se isso não alargar os horizontes de uma pessoa, então acho que só trocando de cérebro, que o outro deve estar com defeito.

 

Marcéu aparece do nada por trás de mim. Não o vi chegando, e olhe que estava virado para o lado da encosta de onde viemos. De onde ele chegou?

 

Ele disse ter vindo pela trilha, é claro. Perguntei que trilha, pois a trilha que eu usei está mesmo ao meu lado e ele não veio por ela. E apontei aquela mescla de horror de degraus de pedra e gelo. Ele disse que não veio po ali. Nem sequer tinha visto aquela coisa. Certeza que é uma trilha? A trilha que ele veio é mais fácil, embora um pouco mais longa. Ela circunda a porcaria escorregadia, apertada e alta por onde eu vim.

 

Agora... como é que ele faz isso? Ou melhor: como é que eu faço isso? Terei algum talento especial para encontrar, escolher e seguir pelos piores caminhos?

 

De qualquer maneira, enquanto é a vez de Marcéu se despir e pegar o solzinho da pedra sem vento, achei ser tempo de repor as minhas, já secas e quentinhas, e ver o que tem por ali. O morro está mesmo à nossa frente e eu considero a possibilidade de subi-lo. De onde estamos, não parece ser muito alto. Voltei para a pedra onde Marcéu “largateava” e lhe propus a empreitada. Ele levanta a cabeça, olha o morro, olha para mim e pergunta se estou maluco. Fico meio desapontado, mas em vista das evidências mais cedo manifestadas sobre ele ter uma melhor intuição que eu sobre distâncias e melhores caminhos, desisto do projeto. Geralmente estou terrivelmente errado sobre meus chutes quando se trata dessas coisas. Talvez uma próxima vez vá subir aquilo. Se houver uma próxima vez.

 

Comemos alguma coisa e ficamos ainda um tempinho na pedra, mas como disse antes: tempo é dinheiro. São umas 9h e temos de picar a mula do alojamento antes das 10h para não ter de pagar uma outra cara diária.

 

A descida sempre é melhor que a subida, mas agora o barro já descongelou um pouco e a trilha ficou algo escorregadia. No caminho encontramos com um grupo a subir que não está muito certo sobre a empreitada e pergunta sobre o tempo de chegar lá em cima. Não minto para eles e digo que deve ser por volta de hora e meia. Se eu fosse um sherpa, diria “ah... uns 20 minutos.”

 

No alojamento, pagamos tudo, pegamos tudo e fomos para a trilha com tudo. Achei que a trilha para Pangboche era uma que pegamos mais cedo e que era a errada para o morro, mas afinal não era. A correta passa mesmo ao lado da vila, por trás de um alojamento.

 

Nessa trilha temos uma bela vista do Ama Dablam. Agora a montanha parece uma majestosa torre que quase nos esmaga. Ama Dablam é de fato a grande atração deste trek. É impressionate e ficou sem registro fotográfico, pois eu estava já exausto da trilha, que é bem “nepalesa”: sobe e desce com direito à já tradicional e temerosamente esperada “subida final”, uma coisa sem fim que nos leva para Pangoche, mas não sem antes me enganar diversas vezes com falsos sinais de estar perto, por estar pontilhada de pedras e muros de oração, bem como algumas gompas. Uma delas em particular estava mesmo na saída de uma garganta aberta entre as rochas e que tomei como sendo a entrada da vila, mas não era. Nada pior que, suado, empoeirado, dorido e colapsando na trilha, pensar que se está a chegar nalgum lugar ansiosamente esperado só para, lá chegando, ver que não chegamos à lugar nenhum. Não creio que o LP me tenha avisado o suficiente sobre essa subida. Geralmente eles escrevem: “subida íngreme até vila X” e pronto! Parece ser ali na esquina! Aí chegamos lá e vemos que na verdade é: “subida sádica que levará horas de cansaço e dores até vila X”.

 

Apesar de tudo, chegamos relativamente rápido em Pangboche, depois de umas 2 horas subindo. Com tanta subida fica difícil acreditar que não chegamos no topo do Evereste ainda.

 

Subir, bem como descer, toma uns 98% de todo trek, o que é bastante enfadonho. O tédio e mecânica da atividade são tão demandativos e repetitivos que não há nada que eu ache possa ser colocado num relato sobre isso. Algumas vezes encontramos outros trekkers, sherpas, carregadores, yaks. Mas tudo segue um padrão. Carregador carrega, trekker buffa suas últimas forças e os nativos acham que somos como eles e podemos ficar falando abobrinha enquanto subimos, como se estivessem numa escada rolante.

 

Chegamos lá ao mesmo tempo, Marcéu e eu. Só por aí dá para terem idéia de como a subida era braba.

 

Mas não há tempo para perder. Hora de pesquisar preços. A primeira pensão pregou uma placa dizendo “resort” por cima da porta e achou que podia cobrar preço de resort. 200 paus por um quarto. Sem chance. Já temendo ter trocado 6 por meia dúzia e ter feito aquela maldita subida de graça, decidimos procurar mais adiante.

 

Então nos encontramos com dois caras da Suécia, membros daquele grupo que cruzamos ainda em Deurali e que sumiram de vista depois de Sete. Os dois estão sujos, barbudos e... voltando! Partindo de Jiri, foram para Gokyo, cruzaram o Cho la de Gokyo até Duglha em 1 dia e estavam voltando para Lukla. Todo trek em 14 dias! 14! menos até que o normal para ir ao EBC e voltar, partindo de Lukla! Meus heróis!

 

Mas... eles dizem que estão fartos da caminhada, das montanhas e de tudo mais. Depois de cruzar o Cho la, desceram direto para Periche, sem sequer ir ao Kalla Pattar. Não escalaram nada. Não fizeram um trek secundário e nenhum dia de aclimatização. Simplesmente correram todo caminho para cima e para baixo. Agora não querem ver uma trilha ou montanha por um bom tempo.

 

Sei que somos todos diferentes, mas esse tipo de trek, exclusivamente orientado para se atingir objetivos, depositando toda importância em chegar em tal lugar e pronto... bom... isso me parece um tanto superficial, uma caricatura do que um trek é. Trek é caminhar, é ir. Não chegar. Quando se chega, acabou o trek.

 

Eu tenho objetivos também para alcançar e quem me aturou nos meses que antecederam o trek sabe bem o quanto quero alcança-los, mas... vim principalmente fazer um... trek. Uma caminhada. Todo esse tempo extra que separei para ele, 40 dias, quando o normal é de 15 à 20, tem como propósito o justamente evitar transformar o trek numa correria cega de simplesmente chegar em ponto tal ou tal. Quero levar meu tempo, curtir o panorama e lugares que cruzo ou, na grande maioria do tempo, sofrer a trilha. Não conseguiria, nem nos planos, conceber a idéia de sair atropelando os lugares que estavam entre Ponto de Partida e Ponto de Chegada. Acho que deve ser triste para as pessoas que, por razões de força maior, tem 15 ou 20 dias e decidem fazer tudo nesse curto espaço de tempo. Devem ser como esses dois, que querem estar em todos os lugares, correm, ficam doentes, exaustos para além de recuperação e no fim estão saturados.

 

Encontrei alguns trekkers no caminho que decidiram fazer menos, mas melhor. Iam só até Namche, Thami ou Gokyo. Preferiam saborear bem treks relativamente curtos ao invés de perseguir afoitamente os objetivos mais tradicionais (EBC e Kala Pattar) e ficarem de saco cheio deles depois.

 

Acho que tenho sorte de poder dedicar 30 dias para o trek e que nada de sério tenha ocorrido até agora que nos tivesse feito desistir do mesmo. Por conta disso, posso ir sem preocupações para os lugares, levando quase todo tempo do mundo para as ver e apreciar.

 

Contei aos dois suecos sobre nossas caminhadas até o momento e então foi a vez deles ficarem espantados. Então foram eles que disseram que nós éramos seus heróis! Dá para imaginar? Escutar esse tipo de coisa de caras que fizeram Jiri-Gokyo-Cho la-Lukla em 14 dias?!?!

 

Mas voltando para Pangboche. Nos despedimos e rumei para outra pensão. 100 Rúpias o quarto com duas camas. Melhor, muito melhor. Aí Marcéu me chama pelo rádio (ele foi ver outra pensão mais acima) e diz que achou uma cobrando 50! Massa! Quartos mais baratos equivalem à mais comida. Uma pena que no alojamento o refeitório estivesse separado do dormitório, nos obrigando a sair do mesmo e caminhar do lado de fora até o outro. Nem tanto pelo vento, mas mais pelo lance de escada no meio do caminho. Nada melhor que sair do quarto de chinelas e caminhar horizontalmente até o refeitório, mas tudo bem. Não é o fim do mundo, só quase.

 

Pedimos dhal e arroz frito misto. Arroz para mim e o dhal para Marcéu, porque tem repeteco, que também está namorando um pote de mel que se encontra sobre a mesa. O café-da-manhã no dia seguinte será mais saboroso... mingau com mel...

 

Mas então o marido da dona da pensão vê a luxúria em nossos olhares famintos e veio rapidinho salvar seu precioso pote de mel. Acho que trekkers independentes tem má fama por aqui, mesmo que até o momento sejamos os únicos na pensão. Trekkers de grupos organizados são mais educados e na hora da bóia tem sempre aquelas caras de fastio e superioridade civilizada. Parecem deuses saminhando sobre a Terra. Por outro lado, trekkers independentes parece que se atiram ferozmente à comida, não devorando talheres e pratos por meras incompatibilidades acidentais entre o material da loiça e nossas enzimas digestivas.

 

De barriga cheia, resolvemos dar uma volta ao redor da vila. Mais uma pequena caminhada de aclimatização. Descobri que Pangboche é uma vila em dois níveis. Então tem a Pangboche baixa e a Pangboche alta. Por acaso viemos para na Pangboche baixa. Há uma trilha que segue para a parte alta da vila, tipo ½ hora de caminhada da parte baixa. Decidimos sequir por picadas menores, menos movimentadas e, para nós, mais interessantes, já que segue pelas encostas e crestas dos morros em torno da vilas. Quando chegamos na parte alta, não entramos, mas fomos mais para cima, para ver umas gompas antigas que o LP diz haver por alí, bem como uma escola. Não tenho certeza de achar nada, mas fomos assim mesmo.

 

Por acaso achamos, mas estava tudo fechado.

 

No entanto o local é bem agradável, deserto. São dezenas de montinhos e ficamos andando de um pro outro, dando uma grande volta que nos levará, espero, de volta para a parte baixa da vila.

 

Como sempre, por volta das 14h, chegam as núvens e cobrem tudo. Apesar de termos perdido as vistas, em compensação fomos presenteados com uma caminhada sobre uma terra de sonhos. Parece que andamos sobre as próprias núvens. Ficamos um tempo sentados por alí, com névoa cobrindo tudo ao nosso redor. Acho que não tínhamos 20m de visão. Algumas vezes, menos. Parecia estar a voar. Tudo vazio, nada nem ninguém. Silêncio. Só o vento e um ocasional pássaro. Muito bom.

 

Então andamos mais e vimos algumas gompas pequenas e pedras de oração. O lugar fica mais mágico ainda.

 

Achei estar perdido, mas não me importava. No entanto quando começaram a aparecer brechas nas núvens, vi que estávamos mesmo por cima da vila.

 

Com fome outra vez e com o frio começando a apertar, está na hora de voltar para nosso hospitaleiro “esconda o mel” alojamento. Como nos dias anteriores, passamos o resto do dia no refeitório, lendo, escrevendo, jogando cartas, bebericando chá e esperando ansiosamente pela hora da janta. Mais alguns hóspedes aparecem, mas poucos e como estão voltando do trek ao EBC, estão muito cansados para serem barulhentos demais. Limitam-se a ficar encostados nas cadeiras, com olhares meio vazios fixos no nada.

 

Continua...

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Topo do Nangkar Tshang, entre 4800 e 5000m, nosso primeiro pico nos Himalaias e onde comemoramos costruindo uma pequena torre com bandeiras verde e amarelo.

 

Dia 15

 

Deixamos Pangboche mais tarde que o que eu planejava. A razão foi que o café-da-manhã não estava pronto às horas que tinhamos pedido aos donos do alojamento no dia anterior. Até agora, mais de 90% desses pedidos são esquecidos ou ignorados, então começo a me perguntar sobre a utilidade de fazer isso. Detalhe: é algo que os próprios donos perguntam que façamos. Então tinha colocado no caderno a hora, o que queríamos, os preços e entregado o livro nas mãos dos donos, lendo para eles o que tínhamos escrito (cada quarto tem seu livro, que fica no refeitório). Para que? No dia seguinte tudo teria de ser repetido, tirando o escrever, e ficamos sempre a espera. Se eles vão colocar o livro nalgum buraco obscuro e esqueço-lo, para que serve?

 

O dia estava ótimo. Nenhuma núvem no céu. Nada. O Sol brilha forte, tanto que achei ser bom tomar o café numa espécie de terraço cavado na encosta, de frente ao alojamento.

 

Bom, até chegar no Nepal, os países por onde passei e vivi, Sol brilhando é igual à calor. Muito ou pouco pode variar, mas sempre fornecendo algum aquecimento ao ambiente, se não estiver muito vento, tipo na Bélgica. E o sol aqui está brilhando mesmo forte. Foi então aprendi com o Nepal que até o sol pode ser reduzido à mera figura decorativa no céu. Tá certo, ainda era cedo para termos muito calor, mas esperava pelo menos alguma coisa tirando o que sentia vir do sol, que, fora a luz, assomava para um montão de nada. Parecia uma lâmpada no céu, dando luz mas não calor que pudesse ser sentido. Depois de dois ou três minutos batendo os dentes lá fora, entramos. Mingau e chá nos aqueceram mais e melhor que o astro-rei. Num ato inesperado de misericórdia, o marido da dona nos considerou dignos de usufruir do seu precioso pote de mel, ato esse que acompanhamos com muitas palavras de gratidão e pequenas colheres de chá do produto enquanto ele permaneceu na sala. Quando ele se ausentou para tratar dos seus assuntos domésticos, suprimimos as palavras de gratidão mas aumentamos em muito tanto o tamanho quanto a quantidade de colheres de sopa de mel. Em breve estavamos comendo mel com mingau.

 

Como podem auferir do nosso descomunal e mal educado apetite, Marcéu e eu aparentamos estar bem. Tirando problemas ao se livrar dos restos materiais de ulteriores refeições, problemas em se livrar de mais ou se livrar de menos, não sentimos nada que lembre AMS. Cansamos nas caminhadas, mas recuperamos bem. Comemos bem. Dormimos bem. Nenhuma dor significante, muito menos de cabeça. A aclimatização parece ir bem, então decidimos subir mais hoje.

 

O LP sugere ir para Pheriche ou Dingboche, como alternativa, como próxima parada de aclimatização. Apenas faz notar que Dingboche está consideravelmente mais alto que Pheriche, o que pode causar problemas de má aclimatização. Só que Dingboche fica na entrada do vale do Chokung, um dos principais treks secundários a muito tempo planejado. Por isso resolvemos arriscar e ir para lá.

 

Depois de Pangboche, a trilha é bastante plana, larga, reta e bonita. Nem parece que estou caminhando para o EBC. Ótima caminhada, sem dúvidas.

 

Apenas lamento a ausência de lugares discretos onde eu poderia tirar água do joelho sem que o ato fosse testemunhado por metade dos habitantes dos Himalaias. Tentei ir até uma grandes pedras mais ou menos afastadas da trilha. Quando cheguei lá me dou conta que não estava sendo original na idéia. Muito papel higiênico jogado em volta dessas pedras. Mas a maior dificuldade era achar um lugar na pedra que me escondesse de quem passasse na trilha. Se fosse para um lado, quem vinha de uma direção não me via, mas quem viesse da outra teria uma ampla e desimpedida visão de mim atendendo o chamado da natureza. Se fosse para o outro lado, o mesmo, só que vice-versa. Tudo se resumia na questão de quem eu escolheria para presenciar-me em tão nobre e básica atividade. De um dos lados vinham crianças indo para a escola. Do outro, yaks e carregadores. Incerto do impacto social e cultural que meu gesto teria nas crianças, escolhi como audiência os yaks e carregadores. Alguma neve se acumulava na base da pedra e para descontrair fiquei fazendo desenhos amarelecidos enquanto derretia a neve.

 

Como sempre, Marcéu desapareceu de vista. Sobre altos e baixos ele é rápido. Numa reta ele é o bip-bip daquele desenho da Hanna-Barbera. Ah... ter 20 anos... em forma e cheio de energia... ai, ai...

 

Bom, o LP diz que tem uma bifurcação mais adiante da trilha. Que a parte mais larga e demarcada vai para Dingboche e a mais estreita e apagada, para Pheriche. Esperava então algo literalmente mais demarcado e outro algo menos demarcado. Quando cheguei lá não vi nada. A trilha se remificou em diversas trilhas menores. Uma seguia pela esquerda de um monte e as outras pela direita do mesmo. Não sei se é ali que as trilhas se separam ou se estou diante da mesma trilha circundando o morro pelos dois lados. Pego a da direita, apesar de essa descer. Tanto Pheriche quanto Dingboche devem estar acima, não abaixo. Fico na dúvida e me sento, esperando alguém passar.

 

Quando alguém passa, me confirma que sim senhor, a da direita para baixo é que a trilha para Dingboche.

 

Isso não é nada bom. Nada mesmo. Para baixo nunca é bom, pois significa fatalmente um para cima mais tarde, então não estava propriamente entusiasmado em seguir por ali. Infelizmente aquela era a trilha mesmo. Todas minhas esperanças de chegar cedo em Dingboche vão por água abaixo. Coloquei mente e corpo em “modo yak” e segui ladeira abaixo. Não é uma grande descida, mas a subida que me foi presenteada a seguir foi grande, apesar de agradável em termos estéticos. Uma trilha estreita subindo pelas encostas íngrimes de um morro, com ótimas vistas à direita. Cruzei com um grupo de japoneses no caminho. Gente bizarra, andando em seu passo miúdo, roupas bem compostas, usando máscaras e câmeras penduradas no pescoço. Imagino que devo ter causado impressão semelhante neles.

 

Após umas duas horas subindo, cheguei à um plano, mais ou menos. Achei ter muito por andar ainda, mas antes que as pernas começassem a falhar, cheguei à Dingboche. A chegada é algo dramática, pois a vila fica escondida por trás de umas grandes pedras. Quando atravessamos essas pedras, temos uma belíssima visão do vale do Chokung.

 

Quando enfim chego à vila propriamente dita, noto que tem muitos alojamentos. Parece Thami, só talvez mais barato. Marcéu já chegou faz tempo e fez tudo que há para fazer, tendo arranjado comida e quarto. Bom trabalho, mano! Pena que nossa pousada e comida estejam no meio da vila, o que me impediu de desmoronar imediatamente, tendo de caminhar um pouco mais. Eu pareço aquelas pessoas que nadam e nadam e depois morrem na praia.

 

A pensão era muito boa. A dona e seu filho cuidam dela. Um rapaz bem dinâmico e moderno. Ele nos fez um bom preço e os quartos eram do lado de fora, estilo “resort”. Enquanto arranjava minhas coisas e meus ossos sobre a cama do quarto, notei que tendas estavam sendo armada do lado de fora. O pai do rapaz está guiando um grupo até o campo base do Ama Dablam.

 

Oh, não... não de novo... não outro grupo organizado com seu eterno ar de superioridade e seu apetite de formiga...

 

Como ainda é cedo, achei não estar cansado o suficiente da caminhada da manhã e decidimos fazer uma pequena caminhada de aclimatização pela tarde, depois de um geneoso almoço. Planeio então algo pequeno, curto e fácil. Talvez andar sobre uma pequena crista que há do lado esquerdo da vila, onde uma bonita gompa se encontra mesmo no meio da mesma.

 

Então almoçamos copiosamente e saímos. Não sou fã de subidas, mas admito que apesar de ter carência energética para subir 15 minutos, gostei bastante da vista lá de cima. Andamos pela cresta em toda sua extensão, vimos as trilhas do lado esquerdo que levam até Duglha, nossa próxima parada, que me parecem ser planas o suficiente para meu corpo preguiçoso, e do lado direito uma incrível visão do vale onde Dingboche fica. Muito bom mesmo.

 

Passamos pela gompa, continuamos andando. Há uma trilha que vem da esquerda e sobre direto para a gompa. Suponho ser a mais usada para ir e vir de Duglha. Alguns trekkers estão nela. As outras estão vazias. As mais vazias parecem ser alcançáveis se contornarmos a cresta ao invés de subi-la, o que me parece muito cansativo. Acho que farei isso depois. Contornar a crista me parece mais fácil.

 

A crista sobe um pouco. Então ao fim de um tempo vemos que há uma trilha bem estreita subindo cada vez mais em frente. Não sei como, mas ainda é cedo e decidimos ir um pouco mais em frente. Parece que a trilha vai até um pequeno pico mesmo em frente, ao alto. A trilha parece típica Nepal: estreita, pedregosa, em zigue-zague e interminável. Olhamos um para o outro e para o monte. Não faz parte dos nossos planos de montes a serem subidos, pois esses são apenas o Chokung ri, o Kala Pattar e o Gokyo ri. Mesmo assim apenas o Kala Pattar é objetivo. Os outros são secundários, destinos que talvez façamos. Parecem mais que suficientes subidas de montes para um trek. A maioria dos relatos fala só do Kala Pattar, uns poucos do Gokyo ri e menos ainda do Chokung ri.

 

O que temos à nossa frente nem sequer está no LP. Tivemos que olhar nos mapas para ver do que se tratava. Era o Nangkar Tshang, mas sem altitude. Algo entre 4800 e 5000 metros, segundo as curvas de nível. No entanto ele estava lá e nós aqui, então... por que não?

 

Como nos dias anteriores, as núvens começam a cobrir os vales e céus. Ainda à meio da subida e já estamos sem visibilidade . Só vemos o caminho, mas não paisagens. Ficamos na dúvida se valia a pena subir um pico se não temos vista, mas decidimos continuar mesmo assim. Subir não era só pela vista, pelo menos para mim. É mais para estar lá, ter alcançado o pico. Meu último e único pico “escalaminhado” foi o Stanyo, nos Pirineus de Andorra. Apenas 2975m. Mas a sensação de estar lá, de ter chegado lá, era indescretível. Então farei este Nangkar Tshang, com ou sem núvens.

 

Tal qual uma lei universal, a trilha se torna cada vez mais íngrime quando se escala alguma coisa no Nepal. E com a acentuação da subida vem o sacríficio da trilha reta. Cedo estamos de volta à rotina do zigue-zague interninável e frustrante. Quando chegamos à zona das pedras, creio ter descoberto porque o monte não vem no LP nem na maioria dos guias e relatos que li antes de vir para cá: é necessário fazer uso das mãos para subir alguns trechos, nos agarrando à pedras e frestas para poder subir. Uma verdadeira escalada livre, embora o grau de inclinanação não fosse tão fechado assim. Devia te-lo medido com a bússula, mas então estava mais preocupado em não cair que em fazer medições. No entanto gostei bastante da subida e a fiz com gosto. Tenho um conhecido que diz não entender o gosto de algumas pessoas tem por montanhas, de ficarem coladas à pedras feito lagartixas, se arranhando, suando e com perigo de queda. Eu mesmo, estando lá, não podia entender racionalmente a graça daquilo tudo, mas que estava me divertindo, isso estava.

 

Depois de umas duas horinhas assim, acho, enfim chegamos ao pico. Por essa altura, não podíamos ver quase nada dali, tirando meia dúzia de metros ao redor da gente e um ou outro pedaço de paisagem que dava os ares de sua graça por entre raros buracos nas núvens que nos rodeavam. Não dava para ver as montanhas, os glaciares, vales ou vilas dali, mas estava adorando esta lá. É meu segundo pico e estou radiante. Também é o primeiro do Marcéu e acho que ele está gostando, embora eu prefira que tivesse sido num dia mais aberto, com bonitas vistas em redor. Mas não se pode ter tudo na vida, então acho que estamos satisfeitos com o que temos.

 

Nangkar Tshang é um pico pequeno, sem muito para onde ir. Não que tivesse muita energia sobrando para explorações acima dos 4500m, onde a falta de ar me fazia ter de parar para recuperar o fôlego diversas vezes. Mas sem ter muito o que ver ou fazer, acabamos descendo ao fim de umas fotos, lanche e descanso.

 

A névoa estava bem mais forte agora, mas não havia perigo de se perder ou dar passos em falso. Apesar de estreita, a trilha é bem clara e a descida é feita rapidamente. Cedo chegamso ao alojamento, onde as tendas do grupo já estão armadas e o grupo em si também se arrumou, mas dentro do alojamento, como qualquer bom e intrépido aventureiro que vem aos Himalaias num grupo organizado e acampa nos quintais dos alojamentos. São fiéis o suficiente à velha tradição de fazer trek acampando para dormir, mas não ao ponto de se excusarem passar a maior parte do tempo enfiados nos refeitórios dos alojamentos, se aquecendo e tomando seu chazinho com bolachas, servidos pela horda de sherpas que carregam consigo e que carregam/fazem tudo para eles.

 

Me chamou a atenção haver uma criança com eles. Não parece ter mais de 10 anos. Me disseram que está fazendo o trek com eles, apenas não indo nas caminhadas de aclimatização.

 

Lá fora, na dureza do frio e desconforto, um pequeno exército de sherpas, entre cozinheiros, carregadores e ajudantes, estão fazendo o verdadeiro trabalho da "expedição": preparando tudo para que seus ricos clientes tenham tudo pronto para o jantar e suas tendas e pertences preparados para quando forem se deitar.

 

O refeitório está cheio quando chegamos, algo que seria o usual daqui para diante, mas achamos lugares para sentar e jogar cartas enquanto esperamos pela janta. Como tudo já estava ocupado quando chegamos, nos sobrou uma mesa bem longe do aquecimento e cujas cadeiras ficavam por baixo das estantes onde o alojamento guardava uns produtos que vende (todo alojamento tem essas estantes/armário, vendendo desde pilhas até bolachas). Não dá para nos encostarmos sem bater as cabeças contra as estantes.

 

Pedimos o jantar antes de saírmos para a caminhada, dizendo o que e quando. Chegamos antes da hora, mas até chegar o rango, a hora passou bastante para lá do combinado. Creio que há alguma diferença entre pobres trekkers indpendentes e ricos trekkers organizados em grupos. Lembro à dona sobre nossas crescentes nescessidades nutricionais.

 

Enquanto esperamos, mais uma vez me escandalizo com a falta de apetite demostrada pelos trekkers organizados. Pratos voltam à cozinha cheios de arroz ou macarrão. Apenas a vergonha me impede de confisca-los. Se não tivesse visto que essa gente gasta boa parte do seu tempo livre beliscando bolachas, chocolates e outros afins, diria estarem doentes.

 

Terminado o jantar, fomos dormir. Amanhã devemos andar vale acima e ver como é isso do Chokung ri. O LP diz que para se fazer essa caminhada e subida em um só dia, com volta, vai tomar todo o dia e alonga-lo pela noite adentro. Alguns relatos falam de gente voltando da caminhada lá pelas nove da noite. Como não sou propriamente uma cornocópia de energia, muito menos à altas altitudes, talvez tenhamos de dormir na vila de Chokung se não pudermos fazer tudo em um único dia. Não sei. Amanhã é outro dia e veremos o que faremos quando e se chegarmos lá.

 

Por agora, esquentar os sacos-de-dormir é a pior parte da noite. Depois disso, é aguentar o calor dentro dos mesmos. Mas hoje não parece que sentirei tanto calor. Mais frio e mais alto, o saco-de-dormir -20 graus parece estar chegando aos seus limites.

 

Por volta das dez ou onze da noite, Marcéu me acorda. Meio dormindo, pergunto o que é. Ele diz que não está se sentidindo muito bem e não consegue dormir. PQP, pensei logo. Em menos de um instante, estava completamente desperto e consultando o LP sobre o Mal de Altitude. Alguns sintomas correspondem ao que Marcéu me descreve: náuseas, insônia e dor-de-cabeça. Peço que ande numa em linha reta (perda de equilíbrio é sintoma sério e a pessoa deve descer imediantamente). Pergunto mais sobre os sintomas, se são muito fortes ou só incômodos. Ele diz que são fracos. O pior é a dor de cabeça, que não o deixa relaxar e fazer o sono vir. Apesar de não ser o mais apropriado, dou-lhe algum Diamox (são mais para prevenção, não cura) e Paracetanol para a dor-de-cabeça. Digo-lhe para se deitar e ver se tudo passa. Caso contrário, teremos de descer durante a noite ou amanhã cedo.

 

Com a preocupação, demoro a ter sono. Mesmo depois de ouvir Marcéu dormindo, ainda fico acordado muito tempo.

 

Continua...

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Crista que leva aos picos Chokung. Foto tirada por Marcéu do Chokung ri. Chokung peak pode ser visto do outro lado. A escalada dos Chokungfoi outra caminhada de aclimatização

 

 

Dia 16

 

Ainda estava escuro quando nos levantamos para nossa caminhada de aclimatização vale acima e possível subida ao Chokung ri.

 

Primeiro, ver se Marcéu está melhor. Ele diz que está bem, não sentindo mais nada. Diz que depois dos remédios, a dor-de-cabeça diminuiu o bastante para acalma-lo e deixa-lo dormir. Os outros sintomas não sobreviveram durante a noite. Talvez não fosse Mal de Altitude. Talvez só algo que comeu no dia anterior. Só que Marcéu tem um sistema digestivo forte o suficiente para fazer inveja à um bode, então duvido que fosse comida. De qualquer maneira, melhor prevenir que remediar, então acho que foi bom ter dado Diamox e Paracetanol. Com os sintomas ausentes, nossos planos de ir explorar o vale e monte se reafirmam.

 

Mas antes de mais nada, uma pequena digressão por um detalhe do dia-a-dia no trek:

 

Um dos momentos mais difíceis do trek consiste em sair do saco-de-dormir. A diferença térmica é desencorajadora de qualquer ventura fora das fronteiras dos zípers. Penso que a partir de agora passarei a dormir com as roupas dentro do saco, para ver se se mantem quentes o suficiente ao ponto do choque térmico ser menor, pois quando saí do saco e coloquei-as, quase volto ao saco. As mãos são as primeiras à congelarem. Fui ver o termômetro e estavam -6 graus dentro do quarto. A humidade que geralmente se forma nos vidros das janelas durante a noite também congelou. Depois de um tempo tentando convencer meus dedos gelados a apertarem e abotoarem toda a roupa, saí para a higiene matinal, tarefa que se mostrou mais difícil que os esperado. O alojamento tem um pequeno pote com uma torneira em baixo, tipo um filtro. Só que a água dentro dele gelou. As eventuais gotas que tentaram cair durante a noite gelaram na boca da torneira e formam uma pequena estalactite. Lembrei então que no dia anterior os sherpas estavam usando uma mangueira para coletar água, que ficava no lado de trás do alojamento. Fui ver. Por ser água corrente, acho que evitou que congelasse e pude me lavar e escovar os dentes, mas o frio era tanto que não sentia mais as mãos quando terminei. A próxima vítima seria meu irmão.

 

Então tem início um dos espetáculos mais bonitos que jamais presenciei: o nascer do Sol nos Himalaias. Primeiro, uma luz fraca e amarela começa a iluminar os picos mais altos à nossa frente, fazendo-os brilhar como se estivessem em chamas. Por conta das altas montanhas por trás, Ama Dablam incluído, demora muito até a luz ficar branca e cobrir tudo. Muito curioso assistir o Sol descer as montanhas, iluminando tudo de cima para baixo. Com as mãos congeladas embaixo das axilas, fico extasiado diante do espetáculo. Tenho o termômetro conosco, em cima de uma pedra. Quando saímos marcava um quase -10°, mas a medida que os minutos passam, estamos chegando perto da temperatura do quarto, um agradável -6° caminhando para o -5°.

 

Curioso que quando quando comentei sobre a temperatura do Nepal à umas pessoas de volta na Suíça, elas não se impressionaram muito, dizendo “isso não é nada. Aqui está fazendo -15°”. Certamente que -15 é bastante frio, no entanto ninguém passa a noite ou o dia sob -15. Você entra em casa, está +20. Entra no trem, está +20. Entra numa loja ou supermercado, está +20. Abre a torneira e sai uma deliciosa água quente. Os únicos momentos onde estão sob -15 é quando estão indo de um desses lugares para o outro. No Nepal, vivíamos sob -6 ou menos. Do por ao nascer do Sol. Dormíamos sob essa temperatura. Andávamos sob essa temperatura (quando pela manhã bem cedo). Nos lavávamos sob essa temperatura e muitas vezes comíamos sob essa temperatura.

 

De volta ao alojamento, o exército privado de sherpas do grupo organizado já se encontra em plena atividade, preparando panelas, canecas, chás e tudo mais que torne o acordar dos seus clientes menos traumático que o nosso. Pegamos um café-da-manhã reforçado e compramos alguns biscoitos para a futura possível subida do Chokung ri. Quando terminamos, temos de preparar as mochilas para o dia. Pego meu cantil de plástico flexível que se encontra vazio e vou enche-lo na cozinha. A dona tem um bule de água quente na mão e enche meu precioso Platypus com aquilo mesmo. Agradeço, volto e meto o cantil na mochila. Sempre levo dois comigo. Um tratado e o outro em tratamento. 4 litros no total.

 

Terminei meu empacotamento e vou sentar lá fora enquanto Marcéu tenta concluir seu minucioso plano de acondicionamento da mochila. O Sol está completamente para fora agora, porém nossos aventureiros das barracas ainda não criaram coragem para sair dos seus sacos-de-dormir. O movimento de sherpas e canecas aumenta e então tenho a oportunidade única de presenciar o famoso cerimonial do chá que tanto li nos guias e relatos. Com bandejas enormes, os sherpas passam pelas barracas acordando seus clientes e oferencendo chá. Barraca por barraca, cliente por cliente. Sonolentas mãos são estendidas, pegam a caneca e rapidamente voltam ao acochego da barraca, fechando os zípers por trás. Depois, relutantemente, rostos semi-acordados começam a tropeçar para fora das tocas, em direção à umas pequenas bacias com água quente, sabonete e toalhas que são cuidadosamente dispostos em frente de cada barraca, um para cada ocupante. Certamente uma forma bem mais agradável de se começar o dia do que congelando mãos e bochechas numa mangueira de água fria. Mas não sei porque, todo aquele ritual não me parece combinar muito com a paisagem que nos rodeia. Certamente há uma diferença abismal entre o que eu acho ser um trek e o que os grupos organizados acham ser um trek.

 

De qualquer forma, Marcéu finalmente está pronto, então me levanto para dar início ao dia. Como de costume, dou uma olhada para trás para ver se nada caiu ou ficou esquecido. Para minha surpresa, por volta de um litro de água ficou esquecido. Uma grande poça de água se encontra por trás do lugar onde estava sentado. Abri minha mochila e quase tenho um troço: meu amado Platypus está vazando. A água quente soltou o plástico em sua junção com a boca do cantil. Minha mochila está ensopada. Enxugo tudo como posso, pego uma garrafa de água ordinária e encho de água. Em luto, saio para a caminhada de aclimatização. Uma perda terrível.

 

Por conta disso tudo, saímos meio que tarde do alojamento, por volta das 6.30h pelo menos, creio eu. O LP diz, repito, que este é um trek longo, mesmo se nos limitarmos à subir o vale até a vila de Chokung e voltarmos. As chances de escalarmos o Chokung ri tornam-se mais e mais diáfamas. Uma pena, pois era um dos montes que sonhava em escalar desde os meses de preparação ainda na Bélgica. Só para fugir um pouco do que todo mundo faz neste trek, que é aterrizar em Lukla, subir o Kala Pattar e ir para o EBC.

 

Cruzamos a vila em seu comprimento até onde há uma bifurcação com duas placas. Direita, plana, para Chokung e esquerda, subindo para a crista de ontem, para Duglha. Infelizmente a da direita se subdivide em várias picadas e fico na dúvida qual pegar. Como, segundo o LP, temos de subir o vale, suponho que devemos seguir uma trilha que vai pelas encostas. Uns caras da França vão por ali. Mas outros, da Inglaterra, acho, seguem por outra trilha mais baixa, pelo fundo do vale. Marcéu, numa manifestação rara de poder de decisão, vota pela trilha alta, a dos franceses. Eu também simpatizo mais com ela, porque temo que a trilha baixa vá dar numa futura ascenção, condição essa que prefiro fazer agora enquanto tenho carga plena do que mais tarde, já em estágio avançado de indigência energética.

 

Porém dentro de uns 10 minutos seguindo “notre amis”, começo a desconfiar da acurrância de nossa decisão. A trilha fica cada vez mais estreita e não para de subir. Proponho voltar para baixo e seguir com os ingleses. Marcéu não está tão certo, mas vem comigo. Lá embaixo, a trilha é muito mais fácil, plana e reta. Diante de tão inusitada facilidade geológica, cedo alcançamos os ingleses, que estão muito ocupados em tirar fotos, falar das maravilhas do local, tirar água do joelho e como onde estão pode ser satisfatoriamente considerado uma caminhada de aclimatização, não havendo necessidade de seguir mais adiante. A parte da água saindo de joelhos nos contagia e fazemos uma breve parada para tão necessário ato. Depois seguimos em frente e não mais veríamos nossos salvadores. Só vi a trilha de baixo porque eles seguiram por ela. Se não fosse isso, ainda estaríamos dando voltas pela picada que rodeia os montes à nossa esquerda, onde lá longe e lá em cima, “notre amis”, pontos pequenos se movendo com dificuldade, devem estar amaldiçoando a decisão que tomaram.

 

Apesar de fácil e ser dono de vistas magníficas, andar o vale acima é um longo trek. Cruzamos trekkers, guias e carregadores, porém parecem vir de canto algum, situação geográfica à qual parecemos nos dirigir. Apenas a estreita trilha deixa supor que a parte superior do vale é habitada. Isso e o LP. O mesmo acerta sobre a deleitável paisagem, mas seu uso de resumir horas de trek em poucas linhas nos engana mais uma vez. Fala de uma tal de Bibre, vila ou curral de verão que fica à duas horas de Chokung - a vila – porém não enfatiza de forma clara o suficiente que de Dingboche até Bibre levará uma eternidade. Felizmente o Ama Dablam nos faz companhia por todo o caminho. Quando o cansaço e o tédio da caminhada apertam, basta olhar para essa obra de arte natural e assim ser recordado dos motivos de estarmos aqui.

 

Quando por fim chegamos à Bibre, depois de ter erroneamente identificado a vila umas três vezes (qualquer curral era esperançosamente chamado de Bibre), resolvemos descansar um pouco. Uns trekkers e seu guia também estão lá, voltando para Dingboche. Como todo guia nepalês, ele é bastante comunicativo e vem puxar conversa enquanto seus clientes se recuperam da caminhada, coisa que ele não aparenta precisar. Como sempre, ao tomar conhecimento de nossa origem, Brasil, inicia o usual desenrolar de conhecimentos sobre a terra onde tem palmeiras e onde canta o sabiá, porém ao invés de árvores e pássaros, ouve-se sobre futebol e jogadores. Procurando retribuir o elogio de que éramos os campeões do mundo de futebol, digo que os sherpas são os campeões do mundo de montanhas. O guia gostou tanto que abriu um sorriso de orelha à orelha e ficou repetindo o mesmo diversas vezes: “yeah, we're mountain champions” (sim, somos campeões das montanhas).

 

Depois desta breve transferência cultural, retomamos nosso trek. Quando enfim chegamos à vila de Chokung, que aparece “de repente” após contornar, subir e descer algumas grandes pedras, vemos que levamos hora e meia de Bibre até lá, o que é, no meu caso, um fato inusitado. Suponho que há, de fato, uma significativa diferença entre uma mochila de 25kg e uma de 5kg. Minha adorável Millet de 22l anatomicamente correta pesa quase nada nos meus ombros.

 

Apesar do bom tempo, estamos um tanto atrasados. É quase hora do almoço e os preços nos cardápios locais não são de abrir o apetite. Parecem tentativas numéricas de rivalizar em altura com o próprio Evereste para ver qual é mais alto. Quando fomos tomar um chazinho com biscoitos num alojamento, esse breve intervalo nos custou tanto quando um generoso almoço em Dingboche. Decidimos não passar a noite ali.

 

Todavia, já são quase 11h. Não estamos certos de ter tempo para subir o Chokung ri, mas decidimos pelo menos andar um pouco pelas suas encostas e voltar para o almoço, retornando para Dingboche em seguida.

 

Mal comecei a subir quando notei algo: não conseguia respirar normalmente. Quer dizer, estava respirando muito rápido e muito profundamente, mas não sentia que estava pondo mais ar nos pulmões. Assim como na subida para o Lanjura la, comecei a parar repetidas vezes para recuperar o fôlego, que me fugia ao fim de 10 minutos de caminhada. A boa notícia é que, ao contrário do que ocorreu no Lanjura la, recuperava o fôlego e respirava normalmente ao fim de poucos segundos descansando. Marcéu também está sentindo os efeitos da falta de ar, porém bem menos e seus progressos são em oposição bem mais que os meus. Em breve está bem à frente.

 

Da vila, pensamos que o Chokung ri era um pequeno monte que via-se bem em frente, mas a trilha nos levava ao redor desse morro, contornando-o por completo. A subida inicial, poeirenta e algo acentuada, dá lugar à uma trilha poeirenta, plana e... interminável. De lá podíamos ver o verdadeiro Chokung ri e ele estava longe, bem longe, muito longe, desencorajosamente longe. Ainda não estamos certos de subi-lo, mas acho que temos tempo de andar mais um pouco.

 

Após uma eternidade andando por ali, cruzamos com alguns trekkers que confirma a localização do Chokung ri. É de fato o morro à nossa esquerda. A trilha se torna mais íncreme em breve, num aviso que a subida final está perto. Muitos zigues e zagues e constantes paradas me fazem duvidar do sucesso da empreitada. Por essa altura já desenvolvi um ódio muito pessoal e especial por essa caracteística das subidas no trek. Cada vez tenho de parar mais para recuperar o fôlego, mas ainda bem que rapidamente recupero força e fôlego e posso continuar.

 

Como ainda não estamos ao que suponho ser o verdadeiro início da subida ao cume, temo que Chokung ri seja o monte à direita e não o da esquerda. De onde estou, três picos são visíveis, não contando com a cordilheira dos 8000m por trás deles, claro. O mais baixo e achatado, apontando como Chokung ri, um menor, mais alto e acentuado, que não sei o que é e outro, mais à direita, que parerce ser uma respeitável escalada. Desejo profundamente que nossos colegas de trek estejam certos e que Chokung ri não seja aquela coisa enorme da direita. A caminhada interminável e sem nenhum pico se aproximando levam minhas esperanças de transformar esta caminhada num subida ao Chokung ri. Não resta muito tempo de luz, umas 4 ou 5 horas apenas. Estou quase desistindo desse objetivo.

 

Depois de muito bufar, suar e subir, cheguei à uma seção entre o pico mais baixo e o do meio, uma espécie de passe numa cresta, cheio de torres de pedras. Marcéu e alguns guias estão lá e me recebem dizendo que chegamos ao Chokung ri. Não consigo acreditar, claro, e pergunto sobre o monte da... esquerda... que... ora essa! O bicho está incrivelmente perto!

 

Os sherpas nos informam que o Chokung ri é o pico da esquerda, conforme haviam dito os trekkers que encontramos mais abaixo. O da direita é o Chokung Peak, mais alto, que eu nem sabia existir. O LP só fala do Chokung ri como possível escalada para o dia. O ri está à uns 20 minutos e o peak, escalável em 1 hora, segundo os sherpas.

 

Difícil esconder o quanto fiquei animado com as notícias. Esperava ter ainda muita ladeira para subir e afinal estava praticamente no topo. Foi uma subida suave, mas terrivelmente longa, ao contrário do normal, que é uma razoavelmente longa porém íngrime subida. Descansei um pouco e depois praticamente corri para o topo, figurativamente falando. Em 15 minutos cheguei lá, pela primeira vez andando no tempo estabelecido pelos sherpas. Me senti tão bem chegando lá que esqueci todo o cansaço e canseiras do dia e da subida.

 

O cume do Chokung ri é espaçoso, o que permite alguma exploração, conduzida por partes, uma vez que andar alguns metros lá em cima me deixam com falta de ar como se tivesse corrido 100 metros rasos nalguma final olímpica. O cume está cheio de torres de pedras e bandeiras de oração. Algumas torres bastante elaboradas e grandes, o que deve ter tomado considerável esforço. Agora sim, me sinto no pico de uma montanha.

 

Marcéu chega logo em seguida e junta-se a comemoração. Enquanto apreciamos e fotografamos a paisagem em redor – o céu estava claro e o vale, limpo de núvens – fizemos um breve lanche. Muitos glaciares, cascatas de gelo, morainas, montanhas e vales multiplicavam-se ao redor de nós, para grande deleite de nossos olhos. Por trás, o Lhotse é uma parede maciça absurdamente enorme. O Kala Pattar vai ter de se esforçar bastante para conseguir ser melhor que o Chokung ri.

 

Depois de muito biscoito, fotos, montanhas e descanso, resolvemos construir nossa própria torre de pedra, numa das expremidades do cume, longe das outras. A tarefa cedo se mostra digna de Hércules. Catar e levar meia dúzia de pedregulhos pequenos para a pedra onde iríamos fazer a torre torna-se um tormento para pulmões e músculos. Baixar e levantar cansa tanto quanto fazer 50 marinheiros. Por isso nossa torre acaba sendo bem mais modesta que as outras. Então cato duas bandeirinhas de oração, uma verde e outra amarela, e as prendo entre as pedras da torre. Está feita nossa primeira “torre brasileira”, construída à custa de um relevante montante de energia. Estava tão sem ar que creio não poder levantar mais uma única pedra.

 

Tiramos mais uma fotos nossas com a torre e descansamos um pouco antes de iniciarmos a descida. As horas passaram e não temos muito tempo para voltar à Dingboche. Empacotamos tudo e descemos. Quando chegamos ao passe entre os picos, paramos para descansar. Para passar o tempo, falamos sobre o Chokung Peak, se poderíamos ir até lá. Parecia perto, embora os sherpas tenham falado em 1 hora. Só que 1 hora para escalar um pico é o mesmo que nada no Nepal, onde tal atividade toma de 3 à 4 horas, no mínimo. Concordando um com o outro, evento raro neste trek, Marcéu e eu desfiamos um para o outro as razões do porque tal empreitada não deveria ser levada à cabo: ficando tarde, núvens chegando, muito cansados, subida muito íngrime, muito longe, muito tempo, fora dos planos, trilha estreita e insegura, fome, etc... Como autênticos seres racionais, decidimos continuar a descida.

 

Andamos uns 10 metros quando comentamos um para o outro que provavelmente nunca mais voltaríamos ao Nepal, portanto era uma pena não podermos fazer um pico que estava à apenas 1 hora de distância.

 

Pronto, isso estragou com tudo. Nos sentíamos do mesmo jeito, mas nenhum queria tomar a decisão de animar o outro a subir. Marcéu é tradicionalmente um indeciso e parece desconhecer por completo o significado mesmo do termo “decidir”, o que nos coloca num dilema moral. Eu não quero assumir sozinho a vontade de subir aquilo e preciso de um incentivo, um apoio. Marcéu se contenta em seguir, mas não quer manifestar poder decisivo.

 

Fico uns segundos parado, olho o pico, penso que nunca mais voltarei, então decido subir. Então paro, olho a trilha, olho Marcéu, que parece estar à espera que eu decida algo para ele fazer, e olho o vale abaixo, onde se encontra um prato de comida e refeitórios quentinhos. Decido continuar a descida.

 

Então paro outra vez, olho o pico, penso que nunca mais voltarei, e decido subir. Então paro, olho a hora, olho as núvens, olho a trilha, o vale, Marcéu que não se decide, o vale com refeitório e prato de comida. Desço. Paro, olho o pico, penso que nunca mais... etc, etc, etc.

 

A dança de repete meia dúzia de vezes. Subo, paro, desço, paro, subo, paro, desço, etc. Então achei um meio termo: sem compromissos, andaria apenas uns poucos minutos pela cresta que leva ao pico do Chokung Peak. Tipo o que tinhamos feito quando começamos a subir desde a vila de Chokung. Só para ver como é.

 

Marcéu é cético quanto à isso e diz logo que se começarmos a subir, iríamos até o fim, pois era sem chance de fazermos só uns minutos de escalada. Insultado, digo que isso não é verdade, que de fato só quero ver como é a subida e dar uma olhadinha em volta. Coisa rápida. Depois voltamos num instante. Só subir uns 10 minutos, 15 no máximo. Não mais. De jeito algum. Olha só a hora, o tempo fechando, a fome apertando, o cansaço aumentando. 10 minutos subindo, só isso.

 

Meia hora depois estou usando as mãos para subir por trechos mais difíceis da trilha, onde mal há espaço para pôr os pés, com um precipício enorme abaixo de mim. Nem tenho coragem de olhar para Marcéu. Ainda assim digo à mim mesmo que só estou explorando, que não vou ao cume. Depois de mais 10 minutos, trepado feito uma lagartixa nas pedras, desisto de tentar me enganar e declaro à minha consciência que lamento muito, mas ela foi lubidriada e na verdade estamos indo até o cume.

 

Devo dizer que a escalada até o Chokung Peak é muito mais dura que a do Chokung ri. A cresta é estreita, íngrime e a trilha mais estreita ainda. A formação rochosa da montanha é peculiar, com pedras chatas e compridas dispostas diagonalmente. Muitoas estão soltas. Há um perigo real de queda caso não se tome muito cuidado. Agora sei porque o LP não incluíu este pico no guia. Mas como foi bom e divertido subir aquilo!

 

Mal tinha decidido ser honesto comigo mesmo e admitir que estava indo ao pico, quando olho mais para frente e o que vejo? O pico! Mais uma pedras e estamos lá. Ainda sem conseguir acreditar no que via, me volto para Marcéu e grito: “cume!”.

 

Foi assim que, numa “decisão” de último minuto, escalamos o Chokung Peak, muito mais alto que o Kala Pattar e completamente fora dos planos. O pico tem mais de 5800 metros, enquanto o Kala Pattar tem pouco mais de 5500 metros. Por agora, as núvens já cobrem parte do vale, mas ainda se vê muita coisa. E as núvens mesmo dão um efeito dramático à paisagem.

 

Ficamos lá em cima apenas por alguns minutos. O suficiente para algumas fotos do nosso terceiro pico no Nepal, o mais alto de todos, já agora, e para fazermos mais uma pequena “torre brasielira”. O pico é menor que o anterior, mas achamos uma ponta livre numa pedra que saía do pico e ficava como que pendurada. Sobre o vazio, nossa modesta torre foi feita.

 

Orgulhosos e famintos, descemos para a vila de Chokung. Não sei quanto tempo nos levou a subida, mas a descida foi muito mais rápida. Me sentia ótimo, cheio de ar e energia. Nada cansado.

 

Já na vila, decidimos comer ali mesmo. São quase quatro da tarde e nossos estômagos não conseguem esperar mais. Os preços são um absurdo, mas a fome é mais absurda ainda que os preços. Todos os alojamentos estão cheios, na maioria com pessoas indo para o Island Peak. Quase tudo grupo organizado. Mas barriga vazia não tem muito poder de escolha e entramos num deles e pedimos Dhal, que veio numa porção escandalosamente pequena e sem direito à repeteco. Tudo bem, darão para segurar as pontas até chegarmos em Dingboche e ter um prato de comida de verdade.

 

Eram ums 17h quando saímos para Dingboche. Tinha medo da noite nos pegar na trilha e andava o mais rápido possível. Para ter uma idéia, ia mais rápido que Marcéu!

 

Eram umas 18h, com a última claridade se apagando nos cumes mais altos e escondida pela neblina, que chegamos ao alojamento em Dingboche. Foi mesmo na tangente.

 

Foi um dia duro e longo, mas estamos felizes e festeiros, o que reflete de forma devastadora na carteira quando pagamos 150 Rúpias por um banho. Acho que estavamos fedorentos demais também. (Este será nosso último banho até quando chegarmos em Luka no fim do trek, daqui uns 15 dias.)

 

O grupo organizado ainda não voltou de sei lá qual atividade estão fazendo e, por isso, o refeitório está agradavelmente vazio. Podemos nos sentar longe das prateleiras e desfrutar de bons lugares onde é possível se encostar sem bater com as cabeças em algo. Pegamos as cartas e vamos jogar enquanto a janta não sai. Creio que foi aqui que ganhei no truco ao Marcéu pela primeira vez.

 

Porém o que é bom dura pouco e cedo a pequena armada de sherpas e ajudantes invadem o refeitório para preparar tudo para seus clientes, arrumando mesas, pratos e cadeiras. Um dos guias vem para onde estamos e pede que cedamos nossas cadeiras para seus clientes e nos sentemos na mesa por baixo das prateleiras. Aí eu fiquei danado e disse para ele por os seus clientes lá. Ele diz que assim eles ficariam separados. “Coitados”, respondo eu,e volto para o jogo. Para não dar maus lugares aos ricos clientes, o guia os comprime todos ali mesmo, talvez na esperança que o desconforto nos faça sair. Ficamos e comemos feito sardinhas na lata. Mas não saimos e ficamos um tempão por ali, lendo, jogando e escrevendo.

 

Não ficamos mais porque estava tarde e nós, cansados. Penso que a aclimatização foi bem feita e podemos prosseguir para altitudes mais elevadas. Anotei o café-da-manhã e a hora no caderno do nosso quarto, mesmo sabendo que não vai adiantar nada e terei de repetir tudo no próximo dia, e vou para a cama.

 

O livro que trouxe para a trilha acabou e isso é um grande problema. Assim não terei nada que me distraia nos refeitórios e no saco-de-dormir, enquanto espero o mesmo aquecer. Trouxe-o desde Paris e tinha esperanças que durasse o trek todo, mas não correu como planejado e agora meu medo é ficar sem literatura pelo resto da caminhada.

 

Continua...

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À caminho de Duglha, vindo pela trilha superior que sai de Dingboche. Foto de Marcéu, acho. Pode-se ver o vale Khumbu Khola e a trilha que vem de Periche.

 

Dia 17

 

Quando deixamos Dingboche já é tarde, porque Duglha não se encontra muito distante, segundo o LP. Minha cofiança nesse guia não é de 100% e sempre procuro confirmar suas letras perguntando à locais e outros trekkers, o que nem sempre acaba se traduzindo, na poeira e na estrada, em coincidências exatas.

 

Levamos bastante tempo arrumando as mochilas, cujo conteúdo inexplicavelmente se espalhou pelo quarto. Marcéu faz questão que sua recomposição seja tão exata e ordeira quanto uma atividade rigorosamente científica, enquanto eu me contento em pouco mais que estufar minha mochila, colocando seja o que for onde seja que couber. Ainda estou em luto pelo meu cantil Platypus arruinado.

 

Depois das habituais depedidas e agradecimentos, bem como a aquisição de um razoável suprimento de biscoitos de coco, fomos embora.

 

O nomal seria ir pelo caminho de ontem, vila acima, até chegarmos à bifurcação e apanharmos a trilha para Duglha, que sobe a crista até onde se encontra a gompa bonita e de lá descer para o outro lado, seguindo pela trilha plana até Duglha, mas estou sem a menor disposição de fazer uma subida e resolvo contornar a crista, mantendo-me o máximo possível no mesmo nível, e pegar a trilha pelo outro lado. Depois de umas 10 horas de trilha e dois picos no dia anterior, meu humor estava averso à subir qualquer coisa.

 

De fato isso nos poupou uma longa subida, mas não nos poupou uma longa caminhada procurando por trilhas menores que levasse à principal, porque aquele lado estava cheio de picadas de yak, levando de canto algum pra lado nenhum. Decidi esquecer a trilha e simplesmente andar na direção de Duglha, na esperança de mais tarde vir a pegar a trilha grande. Levou em torno de 1 hora até vermos outros trekkers, camnhando lá longe e lá no alto. Parece que meu atalho nos colocou numa trilha bem baixa. Começamos a andar na diagonal e subindo, para ver se nos aproximamos da trilha principal. É meio inútil, pois em certo ponto todas as trilhas convergem para uma única.

 

É aqui que Macéu reafirma sua superioridade como caminhante. Pouco depois de contornarmos a crista, ele dispara na frente e em breve seria um pequeno borrão no meu campo de visão, desaparcendo diversas vezes nos meandros da trilha. Eu ainda acho difícil respirar, mas não está tão difícil quanto na subida aos Chokungs.

 

A trilha é bem demarcada e visível, ao contrário do que o LP dá a entender, onde a mesma está descrita como caminho secundário. Pode não ser tão usada quanto à que vai e vem de Pheriche, mas cruzo muitos trekkers e carregadores pelo caminho. Numa das paradas para descanso, um carregador se junta à mim e pergunta da minha mochila. Digo ser de uns 25kg, mas ao contrário dos outros trekkers que perguntam a mesma coisa, o carregador não manifesta o menor sinal de espanto. Pudera, ele está com uma carga maior que ele. Assim não tenho chance de competir, embora essa seja uma competição na qual não tenho o menor desejo de entrar e ganhar.

 

Um pouco mais adiante há umas ruínas do que parece ser uma casa com um muro em volta. Talvez um curral abandonado. O muro está caído em diversas partes. De uma de suas seções inteiras, uma garota bota a cabeça para fora, olha para mim e volta a se esconder. Quando chego lá, vejo que está com o namorado, olhando toda envergonhada, sentados perto da casa, sob as sombras. Sendo uma boa pessoa, imediatamente pensei estarem ocupados nalguma atividade sexual, mas mais tarde Marcéu me contou que encontrou a mesma garota no mesmo lugar e que ela estava, na verdade, era tentando fazer xixi. Ele a viu quando se aproximava dela, fazendo-a parar e se recompor, exatamente como comigo. Então ele passou, andou uns metros e, traiçoeiramente, olhou para trás, surpreendendo-a em atos preparatórios para a atividade interrompida. Ela se recompoe outra vez e espera ele se afastar ainda mais até sumir de vista antes de tentar novamente. É aí que eu apareço.

 

Aliás, se aliviar nessa trilha é algo mais difícil que fazer o mesmo na trilha de Pangboche até Dingboche/Pheriche. Mais tarde, eu mesmo compartilharia das dificuldades da garota, quando chegou minha vez de tirar água do joelho. O caminho é tão aberto e largo que quase não há lugares onde possam se encontrar pedras grandes o suficiente e em quantidades o suficiente para esconder-me das pessoas e seus olhos curiosos vindo ou indo. Qualquer um me verá de uma grande distância, pois não acho lugar para me esconder e me aliviar em paz. Sendo esse momento tão íntimo e pessoal, a perspectiva de transforma-lo num espetáculo não me agrada muito. Certamente algo mais fácil para os homens que para as mulheres. Mesmo sendo óbvio que vejam o que estamos fazendo, só me resta ficar me virando para direções onde seja menos visível, escolhendo como platéia gente que esteja mais longe e não mais perto.

 

E rezar para que o momento não seja, por brincadeira, imortalizado por algum engraçadinho e sua câmera de super-zoom, disposto a demostrar o lado humano de um trek nos Himalaias.

 

Durante boa parte da trilha, o Cholatse é uma montanha que domina o cenário. Apesar de sua altitude estar na casa dos 6000m, uma anã comparada com seus vizinhos de 8000m, sua forma peculiar e proximidade a transformam na atração da trilha. Ela tem um pico pontiagudo e, pelo ângulo visto da trilha, parece ser triangular e bastante inclinada em nossa direção. É uma companhia bem dramática e pertubadora, mas sem dúvida uma bem agradável de se ver durante as horas que separam Dingboche de Duglha. Abaixo dela, e de nós, está o vale do Khumbu, onde se encontra Pheriche e um rio. Sei que estamos a poucas centenas de metros acima do vale abaixo, mas para todos os efeitos visuais, poderíamos estar a centenas de quilômetros. Diversas vezes eu, e outros na trilha, paramos para apreciar as vistas. São horas como essas que me fazem pensar que todas as dores nos ombros, nas costas, na pernas, o cansaço, a falta de ar, a pequena fortuna gasta, a comida repetitiva, a higiêne impossível e os banheiros imundos valeram e valem a pena.

 

A trilha começa a se tornar mais e mais estreita e com mais sobe e desce. Ainda dentro do suportável. Talvez Duglha esteja perto. Me acostumei a associar o grau de dificuldade na trilha com a proximidade do próximo objetivo. Alguma vezes isso falha, como no trágico exemplo da subida de Tengboche e os horríveis Deurali e Sete, mas via de regra uma trilha particularmente dura é sinal que estamos chegando, que equivale à subindo, à alguma vila.

 

É assim que apenas muito cansado eu chego em Duglha. Só muito cansado, não absurdamente muito cansado, como de costume. Marcéu já está lá, claro. A vila, ou assentamento – já que tudo se resume à dois alojamentos pequenos – é construída no início da subida para a moraina do glaciar Khumbu e está em dois níveis, ou seja, cada alojamento está num nível diferente do outro. Obviamente Marcéu escolheu como parada o alojamento de cima. Ele estava lá, olhando por cima do muro eu subir esbaforido a ladeira final. Desconfio que a única razão dele se apressar em chegar primeiro aos lugares é poder, depois, assistir de camarote os meus restos mortais se arrastando para chegar lá. No caminho um grupo de yaks pesadamente carregados descansam enquanto seus donos e os clientes dos seus donos tomam um chazinho no alojamento de baixo. Pela minha ulterior experiência em Tengboche, achei que não faria mal passar perto deles, afinal o outro de Tengboche não fez nada e aqui, como lá, a trilha está praticamente tomada pelas bestas. Só que desta vez o bicho da frente se enfezou e fez uma moção de querer testar o quanto seus chifres estão pontiagudos em algo mais fofo que as pedras do caminho. Acho que o que me salvou foi a carga que ele tinha no lombo, que não o permitia se mover como pretendia, isto é, em minha direção, com a rapidez que desejava. Foi uma guerra de cargas. Minha mochila contra as dele. Eu venci, mas apenas com uma ínfima vantagem.

 

Deixando a besta para trás, continuei a subida, que é bem íngrime. Agora sei o porque dos alojamentos neste lugar tão impróprio. Não tem ninguém que suba essa moraina de uma só vez, então os donos fazem bons negócios servindo refeições e lanches aos ofegantes passantes.

 

Quando enfim chego lá em cima, a completa exaustão do meu corpo me impede de estrangular Marcéu, então ele ganha mais uns dias de vida. Me satisfaço com sonhar em estrangula-lo por ter escolhido o alojamento de cima.

 

Duglha é feia. Feia e cara. A comida é em estilo europeu, em porções minúsculas, com o agravante de ser horrível. Enquanto esperamos todos os clientes mais ricos serem devidamente servidos, conversei um pouco com uns trekkers mais jovens que estavam por ali, almoçando um pão enorme com um pote de pasta de amendoim. Eram israelenses, acho, e completamente o oposto do que esperava de alguém vindo de lá. Parcem hippies modernos fazendo a viagem só pela diversão de faze-la. Suas mochilas me impressionam mais ainda: mochilas de escola. Ou eles usam algum aparelho miniaturizador ou eu não sei como eles sobrevivem ao trek. Creio que meu saco de dormir encheria uma daquelas mochilas.

 

Marcéu negociou um quarto mais barato, no lado nepalês. O chão é de terra, não tem janelas e não tem luz. Mas é bem mais barato que os quartos reservados aos turistas, então não tem do que reclamar.

 

Apesar de não ter gostado de Duglha e muito menos de gostar do prospecto de dormir lá, acho que assim é mais seguro. Desde o Lanjura la e de Dingboche, não quero correr riscos desnecessários com o Mal de Montanha. Temos muito tempo pela frente, então não faz mal algum ter dias extras para aclimatizar. Mesmo que seja num buraco como Duglha.

 

Sendo comida um dos temas visuais mais chamativos para mim, cedo me inteirei da peculariedade do Duglha relativa ao assunto: desperdício. Muitos trekkers deixam seus pratos e tigelas inacabados sobre a mesa. O próprio grupo de israelenses de mais cedo deixou grandes nacos de pão para trás. Quase toda mesa tinha algum resto, ou algum grande resto, de comida ou biscoito, queijo, chá, etc. Para gente como Marcéu e eu, em constante fome devido às caminhadas, boa aclimatização e uma civilização de parasitas na barriga, ver tanto desperdício era quase uma blasfêmia. Somente a vergonha me impediu de ir pelas mesas coletanto os restos. Um pacote aberto de biscoitos em particular, que estava numa mesa no caminho para nosso quarto, foi uma prova difícil de superar. Havia 3 biscoitos lá dentro intocados. Praticamente um banquete segundo nosso ponto de vista. Marcéu também os namorou longamente, mas não teve coragem de fazer o ataque final. Inconformado, sentamos lá fora e pedimos o almoço.

 

Ótimo tempo lá fora, com um delicioso Sol brilhando e esquentando todos, o que nos fez esquecer, ou ao menos minimizar, o choque gastronômico da míseria que veio em nossos pratos. Chamar aquilo de almoço é eufemismo. Parecia mais um aperitivo.

 

Tivemos de nos contentar com aquilo memso e descontar no queijo e bolachas que trouxemos de Dingboche. Depois de insatisfeitos com o ... “almoço”... resolvemos fazer uma pequena caminhada de aclimatização, longe daquelas mesas cheias de restos.

 

O lugar é pequeno, então não achamos muito por onde andar. Alguém nas mesas sugeriu ir pela trilha que leva ao Cho la, onde há, numa curva, vistas ótimas do vale e das montanhas. No entanto tal se constitui de uma subida na maior parte do tempo e como pretendemos ir lá depois do EBC, não me atrai fazer o mesmo duas vezes. Além disso, não estou com humor de caminhar muito, muito menos de subir muito. Ficamos andando pelas encostas ao redor do alojamento. Nada de mais para se ver ou fazer. Depois de andar assim por volta de uma mísera hora, Marcéu descobre os prazeres do Sol quentinho e resolve aproveita-lo. Difícil foi descobrir um lugar protegido do vento gélido que soprava do vale abaixo mas que não tampasse o Sol ao mesmo tempo. Deitados sobre a grama tiramos uma bela soneca, longa, pacífica e quentinha.

 

Não sei quanto tempo passou-se até o momento que acordei com a cara na grana com um som esquisito e recorrente. Eram uns “vush-vush-vush” passando sobre minha cabeça. Grogue do cochilo, começei a olhar em volta. Marcéu também estava voltando ao mundo dos vivos. Foi aí que olhamos em volta e centenas pássaros pretos voavam por todo lado. Achei serem águias de algum tipo, depois achei serem urubus e que éramos o jantar. Dois corpos imóveis sob o sol...

 

Felizmente não eram aves de rapina nem de restos. Marcéu e eu escapamos de nossa vocação para carcaças e ficamos ali sentados apreciando o show. O mais incrível deles não era apenas estarem voando ali, mas que na maior parte do tempo não voavam. Ele planavam. Pegavam carona numa corrente de ar, depois saltavam dessa para outra, mudando a forma das asas ou deixando-se cair. Tudo muito, muito rápido. Algumas vezes fechavam asas, esticavam a cabeça, recolhiam as patas, a cauda reta, como mísseis, e passavam perto do chão com o barulho que tínhamos ouvido e nos desepertado.

 

Quando tudo parecia que não ia mudar, eis que lá de longe, do outro lado do vale, contornando as montanhas à grande altitude uma núvem desses pássaros começa a surgir. Sem bater as asas, só nas correntes de ar. Eles passam alto e seguem caminho numa velocidade estonteante.

 

Finalmente o espetáculo termina e voltamos para a realidade do alojamento. Pegamos as cartas, livros, blocos de anotações e sentamos a espera do jantar. Fiquei algo nervoso por ver muitos grupos organizados serem servidos primeiro, quando eles tinham chegado lá depois da gente e pedido a comida depois da gente. Três vezes Marcéu foi lá reclamar.

 

Muita gente no refeitório. Muita mochila e bastões espalhados por todo canto. Cedo me cansei do burburinho e fui para o... bem... “quarto”. Marcéu chega lá logo depois. Sem livro para ler, fico lendo as propagandas e comentários nas capas e contra-capas e vou dormir. Precisamente quando o saco-de-dormir estava ficando confortavelmente quente e eu estava naquele estado meio dormindo e meio acordado, uma tropa de nepaleses invade a ala onde estavamos, ocupa os quartos adjacentes e corredor e resolvem colocar as notícias em dia. Não conversando, mas praticamente gritando-as uns para os outros. Depois de uns 40 minutos disso, concluo que suas gargantas não estão ficando nem um pouco cansadas e que o montante de fofocas e novidades é maior que eu pensava. Resolvo intervir, pedindo educadamente para baixarem um pouco o volume. Eles educadamente atendem. E minutos depois gradualmente tudo volta como antes. Mais uns 40 minutos nisso e não aguento mais. Para cada grito deles eu junto um meu reclamando, só que em português. O idioma estranho gritado faze-os silenciar por uns instantes e depois voltam à conversa. Isso se repete algumas vezes. No final, só resta eu e os sherpas acordados, porque Marcéu já dorme feito um santo. Como o invejo nesses momentos.

 

Por fim, até os sherpas tem de dormir, seguidos fielmente por mim.

 

Continua...

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  • Membros

Cara, é uma delícia ler seu "suplício"... você xinga, resmunga e xinga outra vez (com atenção especial aos yaks), mas não perde o bom humor!

 

Ainda estou na metade do penúltimo post, mas já estou aguardando as continuações!

 

Fiquei com dor nas costas só de ler das subidas e descidas! hehehehe.

 

[]´s

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Samuca, obrigado pelos elogios.

 

Nepal foi meu primeiro trek a sério. A mochila de 25kg prova isso. Nenhum mochileiro levaria isso para uma caminhada nas montanhas onde há pontos de abastecimento e abrigo à cada duas horas.

 

Teve horas bem duras mesmo, que puxaram minha determinação e físico aos seus limites, principalmente no início. Nessas horas o bom humor esteve ausente e tive se seguir na teimosia mesmo. No fim do dia, tinha de recorrer ao bom humor para regarregar as baterias.

 

Por agora, já nos últimos dias de trek, estamos mais acostumados a sofrer e as situações já podem ser levadas mais "profissionalmente", por isso deve ter notado uma queda no recurso ao humor para aliviar as dores.

 

[]´s

 

Hendrik

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  • Membros de Honra

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Brincando nas encostas da moraina do glaciar da montanha Lobuche, mesmo por trás do assentamento Lobuche, podemos ver o vale onde a vila se encontra e a parte finl do glaciar Khumbu, que desce do Evereste. Lugar impressionante e divertido para se ter caminhadas de aclimatização. Descendo o vale vai-se para Duglha-Pheriche ou para Dzongla-Cho la. Foto de Marcéu. No sopé do morro e da moraina onde estamos, o assentamento de Lobuche pode ser visto. Todas as casas são alojamentos. O que ficamos é o comprido do lado direito.

 

Dia 18

 

Frio, outra vez. Muito frio. As manhãs estão cada vez mais e mais frias. Enrolar o saco-de-dormir e enfia-lo dentro do sua sacola torna-se uma atividade cada vez mais dolorosa. Não enrolo nem metade e minhas mãos já estão congeladas. Estou diante de um dilema. Que fazer primeiro:

 

1.Me vestir todo, mantendo meu corpo quente, mas esfriando as mãos e tornando o enrolar do saco-de-dormir um trabalho quase impossível?

 

2.Enrolar o saco-de-dormir primeiro, ao fim do qual meu corpo estará congelado?

 

É mais fácil se vestir com as mãos frias do que usa-las nesse estado para enrolar o saco-de-dormir, mas nunca consegui, durante todo trek, tomar uma decisão definitiva sobre o assunto. A única certeza que tive era de nunca lavar as mãos antes de enrolar o saco, o que era quase impossível de qualquer jeito em Duglha. Sem água corrente, os potes de água estão congelados pela manhã, dependendo da quantidade de água dentro. Se tinha muita, podia pegar o caneco e quebrar uma grossa camada de gelo e fazer a higiene matinal. Se não... bom, é melhor não contar os detalhes...

 

O secredo é fazer isso tudo muito rápido, de modo que no fim – mochila incluso – nossos dedos ainda possuem suficiente mobilidade para segurar o caneco de chá no refeitório.

 

Não pretendo tomar o café-da-manhã em Duglha, porém não sei qual a distância até Lobuche. Por isso me resignei em ter outra cara refeição naquele lugar. Terminei tudo muito antes de Marcéu, que ainda está empacotando a mochila, segundo uma metodologia científica que apenas meia dúzia de gênios podem compreender. Como ele ainda vai demorar meia hora pelo menos, empacotando e comendo, eu digo que vou na frente. De qualquer das maneiras ele irá me alcançar num instante.

 

Ao contrário de um dia normal de trek, este começa com uma super subida, que é o resto da moraina do glaciar Khumbu. O resto pior. Ontem subimos apenas o seu começo e hoje temos uma bela duma ladeira para vençer. Novamente o fôlego me abandona ao fim de poucos passos e tenho de parar muitas vezes para convence-lo a regressar. Nem sempre ele se convencia que seu lugar era comigo. Parecemos um casal inseguro de sua relação, terminando e voltando. Ainda não subi metade da ladeira quando alguns carregadores saem do alojamento, seguidos logo depois por Marcéu.

 

E está seriosamente frio. Minhas mãos estão insensíveis e doem muito devido ao vento. Mal posso move-las e tenho de parar para por as luvas externas, que comprei em Kathmandu, com revestimento de flanela, acho, e sem dedos - as chamadas mittens. São da marca nacional “Northfake”, mas dão conta do recado em salvar meus pobres dedos do vento e do frio. Fico ali uns instantes com as mãos sob as axilas.

 

Me sentindo melhor, resumo a escalada, chegando enfim ao quase topo da moraina, onde muitos monumentos aos mortos no Evereste estão erguidos. É um lugar bem bonito e pacífico, mas o cansaço, a falta de ar, as mãos frias e rosto castigados pelo vento cortante me impedem de apreciar o local, desmanchando qualquer tentativa de romantismo e desejos de explorar. Sentado ofegando numa pedra, lamentei não poder tirar sequer 30 minutos para andar pelo local. Levantei e fui embora. O pior havia passado.

 

A principal razão dessa minha inusual explosão de energia era porque tinha lido no LP que não há muitos alojamentos em Lobuche, sendo sugerido chegar cedo lá para não ter de dormir em barracas. Algures em sites e relatos, tinha visto que guias de grupos enviavam um sherpa à frente para pegar quartos que seus vagarosos clientes perderiam se dependessem das próprias pernas.

 

Tinhamos barraca conosco, no entanto o prospecto de vir a utiliza-la tornava-se cada vez menos atrante de acordo com o aumento da altitude e a diminuição da temperatura durante a noite. Em especial não nutria nenhuma expectativa em acordar numa barraca no frio da manhã. Parece que era mais fácil acampar nesse trek quando ainda estava em casa, planejando tudo, do que diante do fato em si. Agora, acampar era o que havia de menos atraente e não tenho nenhum entusiasmo em faze-lo.

 

Temos dois dias de aclimatização planejados para Lobuche. Como não pretendo passa-los dentro de uma barraca, achei por bem fazer um esforço e tentar chegar cedo lá e pegar quartos. Segundo o LP e outros relatos, Lobuche é feia e lugar ruim para ficar. Num desses livros é chamada de “sovaco dos Himalaias”. Bom, se temos de dormir em um sovaco, que seja em quartos.

 

No entanto a força de vontade cedo se revela não estar à altura das necessidades. Ainda nem na metade da trilha e Marcéu me alcança, praticamente me atropela e vai embora. Sorte minha que ele está do meu lado, senão adeus quartos. Como ele faz isso é a pergunta que não quer calar. Eu mal posso respirar e ele anda normalmente à quase 5000m!

 

Quando, depois de passar a parte dos monumentos, desço a moraina pelo outro lado e chego na planície abaixo, ele já se encontra na outra margem do mesmo. Em breve é a vez dos carregadores se aproximarem, me alcançarem e me atropelarem. São fielmente seguidos pelos guias e seus grupos, que repetem o ritual. Então mais carregadors. Então mais guias e grupos. Então mais trekkers.

 

Hoje deve ser dia de atropelar o Hendrik. Se não fosse por Marcéu, minhas chances de obter um quarto em Lobuche seriam mínimas. Talvez nem lugar para barraca achasse.

 

Uma vez no vale, a trilha se torna bem plana e consigo andar bem mais rápido. Algumas pessoas estão vindo no sentido contrário e dizem que Lobuche está perto. Eu não acredito neles. Já desenvolvi tolerância psicológica à esse tipo de incentivo e gentis mentiras. Já tive muitas desilusões no passado referentes à lugares onde eu desesperadamente queria estar e estavam “bem pertinho” de acordo com meus estimados colegas de trilha e amigões nepaleses.

 

Mas contrário ao padrão observado, dessa vez o “bem pertinho” é verdade e logo – um logo relativo, claro, uma vez que qualquer coisa no Nepal com menos que 3 horas é “logo” - eu chego em Lobuche. A primeira impressão que tenho é que Lobuche não é assim tão ruim, como descrito pelo LP e outros livros e relatos. À primeira vista me parece uma vila típica do Nepal. E tem muitos alojamentos, logo toda essa corrida para pegar um quarto foi para nada. Meus pulmões, ombros, costas e joelhos me amaldiçoam veementemente. A segunda impressão é que o lugar é caro, muito caro. Andando pela vila até onde Marcéu estava, encontrei os israelenses de ontem, que me dizem estar pagando 300 Rúpias por um quarto com duas camas. Marcéu achou um por 150 Rúpias. Um quarto pequeno, ao lado dos barulhentos sherpas, sem janela, luz e desconfortável. Mas barato. A política “quarto peba” ataca outra vez!

 

Primeiras coisas primeiros: comida. Pedimos almoço, que ainda bem veio em porção generosa e dhal com direito a repeteco. Satisfeitos e aliviados das cargas, fomos dar uma vista de olhos em Lobuche. Em especial, procuro por livros. Nosso alojamento tem alguns, mas não me interessam. Tem Paulo Coelho por lá. Agindo patrioticamente, eu o ignoro.

 

Reparo que tem muita opção para explorar ao redor de Lobuche. A maioria das pessoas, grupos organizados, seguem cegamente seus guias ao que parece ser o mais popular, que é subir a moraina do Khumbu e ir olhar uns monumentos que tem lá em cima, como também sugerido no LP. No entanto eu estou particularmente de saco cheio daquela moraina – já a subi e desci hoje pela manhã e foi uma experiência traumática – então fiquei paquerando outra moraina que tem por trás da vila, menor, mais baixa e mais perto. Mesmo sem as mochilas, sinto dificuldades em respirar, em especial toda vez que faço algum esforço extra, tipo subir numa pedra ou nalguma parte mais difícil da moraina. Penso que terei de aprender a conviver com esse problema daqui para frente.

 

Numa seção, ainda no sopé da moraina, achamos uma pedra enorme que queríamos subir. Eu desisti logo, mas Marcéu teimou que a subia e me usou como escada. Ele mal subiu 30cm quando eu peço penico e digo que não consigo mais aguenta-lo e se ele não descer, vou ter de largar. Levantar peso à 5000m! Nem doido! Ficamos pela subida da moraina em si e deixamos as pedras maiores sossegadas.

 

Uma vez lá em cima, nos divertimos bastante andando pela moraina. Pulamos de pedra para pedra, observamos a paisagem, andamos em volta, tiramos fotos... foram umas 3 horas bem passadas e tranquilas. Parecíamos duas crianças. Eu esperava ver a famosa Pirâmide Italiana de lá, mas não consegui. Mas as vistas eram ótimas e o tempo estava aberto. Nada a reclamar.

 

De volta ao alojamento vimos, e sentimos, que o vento pode soprar bem forte em Lobuche, espalhando poeira por todo assentamento, sujando tudo que esteja do lado de fora, desde yaks à sua toalha que esteja pendurada num varal em frente ao seu alojamento. Exatamente como nossas toalhas estão neste momento. Por ser um assentamento num vale, tudo é muito aberto e ensolarado, mas o vento não deixa ninguém aproveitar as benesses do nosso astro-rei, por isso o melhor local de se estar é no refeitório do alojamento, onde ficamos pelo resto da tarde, jogando cartas e cochilando.

 

Ao anoitecer, o lugar torna-se tradicionalmente cheio, com muitos sherpas, trekkers e turistas. Ao me deitar, as conversas dos meus vizinhos, gente tossindo e pesadas botas se arrastando pelo corredor me impedem de adormecer logo. Mais tarde, sherpas e botas silenciam, mas tosse é algo permanente. A sinfonia formada pela tosse e gente no banheiro serão minha música de ninar, tocando sem parar noite adentro, muito para o - não! - deleite dos meus ouvidos. Algumas vezes eu arrisco tímidas contribuições na seção dedicada ao banheiro.

 

Continua...

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